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Aaron
Martin & Machinefabriek
«Cello Recycling | Cello Drowning»
CD Type, € 15,95

1.
Cello Recycling

2.
Cello Drowning

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Acid House Kings
«Sing Along With»
CD Green Ufos,
€ 15,95

"Canções
doces (bem açucaradas), mas instrumental ou vocalmente cortadas aqui
e ali por eventual travo amargo, são encanto a descobrir neste 35
minutos de puro prazer pop." Nuno Galopim in Diário de Notícias
1.
That's Because You Drive Me 
2.
Do What You Wanna Do 
3.
This Heart Is A Stone 
4.
London School Of Economics 
5.
7 Days 
6.
I Write Summer Songs For No Reason 
7.
Tonight Is Forever 
8.
Saturday Train 
9.
Sleeping 
10.
Will You Love Me In The Morning 
11.
Long Term Plan 
12.
Wipe Away Those Tears 

Acoustic Ladyland
«Last Chance Disco»
CD
The Babel Label, € 15,95

O nome do grupo é uma
referência directa ao álbum “Electric Ladyland” de Jimi Hendrix, e como
este os Acoustic Ladyland desafiam rótulos e definições. Entre discutir se
o que tocam é jazz ou não, chegou-se mesmo a classificá-los como
“pós-jazz”, para irritação de uma crítica que, pelo menos, “se não está
morta cheira mal”, como já se escreveu na imprensa musical especializada.
Com faixas em “Last Chance Disco” a intitularem-se “Iggy”, “Nico” e
“Ludwig Van Ramone”, está visto qual é o universo de referências do
quarteto – para quem não percebeu, Iggy Pop dos Stooges, talvez o melhor
vocalista rock de sempre, a cantora alemã que colaborou com os Velvet
Underground e o grupo punk americano Ramones. Seja como for, a principal
influência detectável dos Acoustic Ladyland será o punk-funk-jazz de James
White menos os vocais (a excepção é “Perfect Bitch”, “cantado” com
pronúncia “cockney”), com os saxofones (por vezes electrificados, à la
Roxy Music – aliás, a capa poderia muito bem ser a de um disco do antigo
grupo de Brian Ferry) de Peter Wareham a fundamentar-se mais no rhythm and
blues do que propriamente no free jazz, ainda que, para todos os efeitos,
a postura em causa seja free. Certo, certo é que a música que fazem é
baseada na adrenalina sem que a testosterona seja também chamada a
intervir, o que quer dizer que não há demonstrações de virtuosismo nem
descargas de agressividade, apenas ritmo à desfilada. Simplesmente,
estavam interessados em verificar como soava “tocar punk rock em
instrumentos de jazz”, com elementos do disco (prometido no título do
álbum), do drum ‘n’ bass ou o que lhes apeteça em cada ocasião. E note-se:
realizam este desejo sem concessões à facilidade e sem ambicionar a adesão
das multidões, sempre ao jeito de uma “garage band” e com a filosofia DIY
a definir-lhes o espaço de actuação. Coisa que os Acoustic Ladyland não
são é uns Bad Plus com alfinetes-de-ama no canto da boca...
(20-01-2006)
1.
Iggy 
2. Om Konz
3. Deckchair
4.
Remember 
5. Perfect Bitch
6.
Ludwig Van Ramone 
7.
High Heel Blues 
8. Trial And Error
9. Thing
10. Of You
11. Nico

Adult.
«Gimmie Trouble»
CD Thrill Jockey, € 18,50
Electro-punk? Ouvimos “Gimmie Trouble”, o disco
de revelação dos Adult. em trio (com ponto no nome, please), e reconhecemos
todos os elementos que aqui se encontram, mas não com esta combinatória
e apresentados desta maneira. Nicola Kuperus parece conhecer o punk
de finais dos anos 1970, início dos 80 de trás para a frente, e
muito em especial as Slits, possuindo uma voz que parece ter sido
moldada na afectação esganiçada de Johnny Rotten, mas o envolvimento
instrumental tem outras origens, com uma drum machine e alguma electrónica
analógica que mais parecem vindas do universo povoado pelos B-52,
os Death From Vegas ou até os Suicide e os Cabaret Voltaire. Kuperus
e os seus parceiros, o baixista e programador Adam Lee Miller e
o guitarrista Sam Consiglio, recentemente entrado no duo original,
são de Detroit, e isto já quer dizer muito quanto à herança techno
prefigurada neste projecto. É como se três frequentadores das pistas
de dança tivessem ido ao beco das traseiras da discoteca para vomitar
a cerveja ingerida e decidissem ficar por lá. O curioso é que o
lado punk desta música é mais inglês do que americano, mais Discharge
do que Black Flag, o que se torna algo desconcertante. Quase nos
pomos a imaginá-los com um saco cheio de cola enfiado no nariz,
tal como faziam os filhos do lumpen-proletariado britânico no tempo
de Margaret Tatcher. Estranho também é que, se a electrónica os
transporta para a new wave (diferenciada do punk pela abordagem,
digamos, mais “musical”, implicada pelas maiores exigências de utilização
por parte, por exemplo, de um sintetizador), dentro desta os Adult.
funcionam como uma “garage band”, aplicando o princípio dos três
acordes ao manejo das máquinas. Desconcertante.
(07-10-2005)
1. Gimmie Trouble
2.
Bad Ideas 
3. Scare Up the Birds
4. Thought I Choked
5. Strange Mistakes
6. Disappoint the Youth
7. In My Nerves
8. Turn Into Fever
9. Helen Bach
10. Still Waiting
11. Lovely Love
12. Seal Me In

Afrirampo
«A.»
CD Very Friendly, € 15,95

Uma dá pelo nome de Oni (que quer
dizer Demónio) e a outra de Pika ou Pikacyu, um dos monstrinhos da série de
desenhos animados “Pokemon”. São japonesas, jovens, agressivas, lindas de morrer
e totalmente desvairadas – precisamente aquele género de raparigas que os homens
tanto temem, dando razão ao mito castrador da “vagina dentata”. Uma é
guitarrista e a outra baterista. Ambas cantam, guincham e gemem. Já colaboraram
com os Acid Mothers Temple e tiveram uma perninha do guitarrista e mestre de
cerimónias destes, Makoto Kawabata, num dos seus discos levou-as mesmo a
escolherem o nome Acid Mothers Afrirampo. Quando apenas elas estão sob os focos
de luz, tocando uma música situável entre o punk, o noise, o psicadelismo, a
improvisação e a pop, intitulam-se apenas Afrirampo. É o caso deste CD, homónimo
por sinal, reedição do primeiro trabalho que deram à estampa. Trata-se, no
entanto, de um quase inédito: a publicação original foi de autor e muito
limitada em termos de tiragem, além de que sofreu agora uma remistura radical e
um diferente alinhamento, a cargo do já referido Kawabata, que só não podemos
tomar como o padrinho do projecto porque as duas meninas dispensam influências
masculinas. Tanto assim que desdenham comparações com outros grupos (de homens)
da cena Kansai, aquela em que são habitualmente colocadas por ter como epicentro
a cidade de Osaka, como Hijokaidan, Masonna ou Boredoms. Diferentemente destes,
cultivam o gosto pelas melodias “girly” e adoptam mesmo uma postura colegial.
São já encaradas como a outra face do rock extremo do país do Sol Nascente e até
os Sonic Youth as convidam para as primeiras partes dos seus concertos.
Recomendado. (12-01-2007)
1. うちらをKOさせてみろ 2. あふりらんぽ 3. オニピカ★ハート 4. ドドドド 5. 可愛いワタシ 6. あかんこのまま返さない 7. 夏が来た 8. 雪景色

Aki
Tsuyuko
«Hokane»
CD+Livro Thrill Jockey, €
19,50
Conhecida sobretudo como
colaboradora de Nobukazu Takemura (em “Child’s View”, por exemplo), mas
também por circunstanciais parcerias com Tortoise, Sonic Youth e Yo La
Tengo, Tsuyuko propõe em “Hokane” uma música para crianças destinada a
adultos, algo que deve a “Switch on Bach” de Wendy Carlos (canons, fugas:
está lá tudo), mas também às bandas sonoras dos desenhos animados
japoneses e dos jogos electrónicos da Nintendo. Uma música barroca, mas
erigindo o kitsch (“cópia inferior de um estilo existente”, lê-se na
Wikipedia) como estética e linguagem. Tudo é tocado em órgão, mesmo quando
julgamos ouvir um violino ou uma marimba e as peças atingem uma dimensão
sinfónica. Aliás, o único verdadeiro “instrumento” ouvido é a voz que
canta os versos reproduzidos no livro em que este CD vem transportado,
contendo igualmente ilustrações e partituras. O estranho é que, se cada
elemento desta edição tem um jeito infantil e inocente, as formas parecem
“deadly serious”. São épicas, grandiosas e detecta-se, inclusive, alguma
austeridade. Às tantas não percebemos se a artista está a fingir e a
ironizar a seriedade ou a levar a sério a brincadeira, mas estas são
subtilezas comuns na alma nipónica. E mais uma vez damos conta da paixão
que no país do Sol Nascente se nutre por Erik Satie, ainda que o Satie
desta obra já não seja o das “Gymnopedies”, mas um produto “made in
Japan”. Estranho, muito estranho...
(26-05-2006)
1.
Como Suite

2.
Owlet Hymn

3.
Bud of a Song

4.
Dune and Clarinet

5.
Zou and Chou

6.
Aquilo

7.
Noel's Organ

8.
Rainbow Train

9.
Dance at Happy Night

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Akira Rabelais
«Spellewauerynsherde»
CD Samadhisound, €16,50

Escolhido por vários críticos,
entre eles Dan Warburton da Wire e da Paris Transatlantic, como
o melhor disco de electrónica de 2004, "Spellewauerynsherde"
é o primeiro título da Samadhisound de David Sylvian
que não tem o nome deste na capa. Nada, porém, este
trabalho tem que ver com a pop sofisticada e o ambientalismo que
o nome do ex-Japan imediatamente evoca. Nesta obra cuja originalidade
não deixa de constituir uma excepção num tempo
em que é difícil ser-se original, Akira Rabelais pegou
em gravações dos anos 1960 de canções
folclóricas islandesas de dor e lamento e passou-as pelo
seu computador com resultados nada menos do que surpreendente. Com
formação clássica (uma sua obra anterior, "Eisoptrophobia",
consistia em remixes digitais de composições de Erik
Satie e Bela Bartok) e um gosto muito particular pela época
romântica e o principal distintivo da arte e da música
no século XIX, a melancolia, fica explicado que o seu tratamento
daquela matéria-prima sugira o canto sacro e a Idade Média.
Escrevemos "sugira" e é apenas disso que se trata,
ou não fosse Rabelais um excelente "designer" de
atmosferas, o que, aliás, levou a que muitas vezes o tomassem
como um compositor ambiental.
É assim que, se a terceira sinfonia de Gorecki era tida como
a obra mais triste da história da música, "Spellewauerynsherde"
toma-lhe agora o lugar. O que não significa, repare-se, que
seja uma música necrófila, sentimentalóide
ou entediante, assim como Gorecki está longe de o ser. O
também poeta e programador informático americano dá
ao choro um envolvimento de tal beleza que, quando chegamos ao final
do CD, logo somos compelidos a colocá-lo no início
outra vez. Afastarmo-nos desta música é como quebrarmos
um feitiço, pois conduz-nos até ao que há de
mais profundo e subjectivo em nós, e isso não tem
necessariamente de ser mau.
(25-02-2005)
1.
1382 Wyclif Gen. ii. 7And spiride in to the face of hyman entre of breth of lijf. 
2.
1390 Gower Conf. II. 20
I can noght thanne unethes spelle
that I wende altherbest have rad. 
3.
1440 Promp. Parv. 518/2
Wawyn, or waueryn, yn a myry
totyr, oscillo. 
4.
1483 Caxton Golden Leg. 208 b/2
He put not away the wodenes of his flessh
with a sherde or shelle. 
5.
1559 W. Cuningham Cosmogr.
Glasse 125 Within which draw an other
Circle, a finger bredth distant. 
6.
(Gorgeous curves lovely fragments
labyrinthed on occasions entwined charms,
a few stories at any longer sworn to gathered
from a guileless angel and the hilt edges
of old hearts, if they do in the guilt
of deep despondency.) 
7.
1671 Milton Samson 1122
Add thy Spear, a Weavers beam,
and seven-times-folded shield. 

Akron/Family
«Meek Warrior»
CD Young God, € 16,50
Co-produzido e editado por Michael
Gira (Swans) e contando com as participações do baterista
e percussionista de free jazz Hamid Drake (parceiro de Ken Vandermark, William
Parker e Peter Brötzmann, entre outros) e de membros dos
colectivos ditos de pós-rock Do Make Say Think e Broken Social
Scene, “Meek Warrior” é um disco de baladas folk inserível no ramo
“freak” e entrecortado por explosões de guitarras rock em distorção e de
saxofonismos da livre-improvisação. Contando com apenas 35 minutos de duração
(não parece, tal é a sua intensidade), a editora apresenta-o como um álbum
“especial”. Não tanto por ser um bom disco, que é, mas por de alguma forma
conter todos, ou quase, os aspectos identificatórios das novas tendências da
Americana que não desdenha as sonoridades urbanas e a experimentação “avant
garde”, seja o que for que tal termo queira dizer por estes dias. E um desses
aspectos é o atravessamento num só tema (oiça-se o emblemático “Blessing Force”)
de várias situações musicais, no caso a canção “stoner” com reminiscências do
progressivo, o coro gospel, o “phasing” minimalista de Steve Reich e o fake jazz
dos Lounge Lizards em dia de pagamento da renda. O que quer dizer que o traço de
união entre os Animal Collective e Devendra Banhardt está nesta Akron/Family e
no presente CD.
(20-10-2006)
1.
Blessing Force

2.
Gone Beyond

3.
Meek Warrior

4.
No Space in This Realm

5.
Lightning Bolt of Compassion

6.
Rider (Dolphin Song)

7.
Love and Space

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Akron/Family
«Akron/Family»
CD Young God Records, €16,50
Protegidos de Michael Gira, o antigo
mentor dos Swans, e tanto assim que este os editou na Young God
Records e os leva em digressão com os seus Angels of Light,
os Akron/Family são quatro barbudos da América rural
transplantados para Broklin, onde forjaram uma receita de country-rock
de vanguarda que salta da canção pop para
o noise electrónico com a mesma rapidez com que
perguntamos o que é isto?. O próprio Gira
já disse que eles por vezes parecem uma versão distorcida
da The Band, senão mesmo dos Beach Boys, sobretudo quando
cantam em coro. A verdade, porém, é que a condição
post-everything abraçada pelo grupo os leva a
parecer-se com ninguém em particular e com tudo o que pudermos
imaginar, começando pelos Song Cycles de Van
Dyke Parks. Neste último caso, diga-se que sempre de uma
forma perversa e algo irónica: o seu lado experimental é
isso mesmo, pois as experiências realizadas por Seth Olinsky,
Miles Seaton, Dana Janssen e Ryan Vanderhoof (o principal vocalista)
são apresentadas no seu estado mais cru e inacabado, e quanto
à vertente improvisacional diversas vezes demonstrada, o
que se verifica é a sua inclusão dentro de parâmetros
compostos ou de alguma forma intencionados, não na qualidade
de variações dos temas centrais, mas como episódios
acidentais inseridos no fluxo dos acontecimentos. Sem qualquer propósito
de menorização hierárquica aliás,
é de assinalar a colaboração numa das faixas,
Interlude: Ak Ak Was the Boat They Sailed In On, de
nem menos do que os Nmperign (Bhob Rainey e Greg Kelley), um dos
mais radicais duos da novíssima geração de
improvisadores. A linguagem folk adoptada, essa, se parece de raiz
tem um envolvimento surrealizante, como se fosse uma planta do deserto
a brotar de um algeroz da zona mais etnicamente misturada de Nova
Iorque. Os Akron/Family gostam decididamente destas misturas: em
Suchness, por exemplo, as letras falam tanto dos filósofos
alemães Kant e Hegel como de Pete Seeger, personagem cimeira
da mais pura americana. O culto e o popular cruzam estratégias
na música deste quarteto, o que é um (bom, para variar)
sinal dos tempos que correm.
(06-05-2005)

Alamo Race Track
«Birds at Home»
CD Fargo Records, €16,50

É curioso o modo como os holandeses
conseguem por vezes ser tão americanos. Pois acontece que
os Alamo Race Track têm uma sonoridade "yankee",
apesar de os seus membros terem nascido nos Países Baixos,
e até os nomes de alguns dos seus membros nos levam ao engano,
caso do "frontman" Ralph Mulder ou de David Corel. E não
só o rock destes sucessores dos Redivider, banda que chegou
ao estatuto de culto na Holanda nos anos 1990, se assemelha ao dos
Estados Unidos, como até tem tudo daquele que se pratica
na América profunda, o rock rural que Neil Young destilou
em "Harvest". Mulder tem o tipo de voz certo para esta
abordagem, não lhe faltando sequer a pronúncia (canta
em Inglês americanizado, está claro), mas a máscara
de "rocker" que coloca não nos faz esquecer que
também é um acérrimo observador de pássaros
- a biografia, meus caros, não perdoa, e está lá
indicado. E é assim que, apesar de tudo, "Birds at Home"
é rock and roll sem o mito do rock. Os Alamo têm sido
comparados aos americaníssimos Jesus Lizard, mas a verdade
é que estes levavam muito a sério a teatralidade própria
do género. Podia ser uma desvantagem para os músicos
de Amesterdão, mas é o contrário o que se verifica:
essa distanciação, precisamente, permite-lhes pegar
na linguagem e nos processos do rock e utilizá-los com uma
frescura que já não julgaríamos possível.
Piu, piu, cantam os pintarroxos como se fosse a primeira vez.
(22-04-2005)

Alasdair
Roberts
«The Amber Gatherers»
CD/LP Drag City, € 16,50/€ 12,50

Como têm consciência todos os
apreciadores da folk, este género musical relaciona-se de modo muito especial
com o factor tempo. A folk é tanto mais sólida quanto mais passado tem por
detrás, e esse é um problema que se pressente na praticada nos EUA, um país
praticamente sem história. Daí que a folk americana evidencie ascendências
irlandesas, escocesas ou inglesas e daí também que por lá se prezem tanto os cantautores desta margem do Atlântico. Um deles é o escocês Alasdair Roberts,
por quem Will Oldham nutre especial admiração, tanto assim que já o chamou a
colaborar consigo. Figura cimeira das novas tendências do género nas ilhas
britânicas, mas também um dos que são mais fiéis à tradição, o Roberts de “The
Amber Gatherers” oferece-nos agora uma série de baladas de celebração da vida,
com um registo bem diferente do gótico “No Earthly Man”. Depois da noite nasce o
Sol. (23-02-2007)
1.
Riddle Me This

2.
Where Twines the Path

3.
Waxwing

4.
I Had a Kiss of the King's Hand

5.
Cruel War

6.
Let Me Lie and Bleed Awhile

7.
Firewater

8.
River Rhine

9.
I Have a Charm

10.
Old Men of the Shells

11.
Calfless Cow

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Alasdair Roberts
«No Earthly Man»
CD/LP Drag City, €16,50/ € 12,50

Não é preciso ser-se
gótico ou mórbido para cantar a morte e a sua mais
brutal manifestação: o homicídio. O escocês
Alasdair Roberts fá-lo com uma voz que chega por vezes a
ser sedutora e não necessariamente de forma desencantada.
Não recorre, de resto, a qualquer tipo de teatralidade -
o registo vai até para uma certa distanciação,
como se não quisesse deixar-se afectar. "The Cruel Mother"
é um bom exemplo do tipo de tratamento dado ao tema e que
mais não serve do que para vincar a condição
de cronista assumida por Roberts. Versos como "I'll leave her
the rope and the high gallows tree / and let her hang there for
the poisoning of me" são interpretados como se se tratasse
apenas da descrição de uma paisagem. "No Earthly
Man" é um álbum de folk na mais estrita acepção
do rótulo, ou seja, conta-nos histórias, e o certo
é que as "murder ballads" tradicionais compiladas,
algumas delas velhas de séculos, nunca nos são atiradas
à cara, pelo que estão a muitas milhas de distância
das de um Nick Cave, com a sua já bem conhecida inquietude
cristã. Mas atenção, esta é uma folk
cantada e tocada por alguém da pop "indie", o que
quer dizer que os arranjos são tudo menos previsíveis,
que o nível de sofisticação é maior,
apesar da sua só aparente simplicidade, e, finalmente, que
a sensibilidade geral segue outras preocupações de
estilo - a produção, aliás, ficou a cargo de
Will Oldham, o mago da "fake folk" que define o actual
regresso aos fundamentos da canção. Isobel Campbell,
dos Belle and Sebastian, toca violoncelo e Oldham canta nalgumas
das faixas, constituindo duas óbvias mais-valias.(15-04-2005)

Alessandro
Monti
«Unfolk»
CD Diplodisc / Stella Nera, € 15,95

Se levarmos à letra o título deste
disco, o propósito de Alessandro Monti era pegar nos materiais que definem a
folk e fazer outra coisa com eles. Um tratamento distinto terão, sem dúvida, mas
a “unfolk” deste mandolinista e guitarrista de Veneza continua a ser uma folk.
Isso apesar da electrónica de Gigi Masin, com quem, aliás, anteriormente Monti
gravou outros títulos no domínio da electroacústica, e das contribuições do
frippiano Adriano Clera e de um guitarrista com o relevo que Alex Masi tem no
rock italiano. O álbum baseia-se em partituras restauradas de um músico e
teórico da Veneza antiga chamado Heracleum, as poucas que sobreviveram a um
meteorito que ali caiu no século XIII, mas o tratamento que lhes é dado, por
aquilo que já ficou escrito acima, nada tem que ver com o que deles faria um
Jordi Savall. E quanto a referências estamos bem servidos: o tema “Fricke Out” é
dedicado a Florian, do grupo de krautrock Popol Vuh, e o que se lhe segue e
conclui o trabalho inspira-se directamente na interpretação que o colectivo
pós-pós-moderno de câmara Zeitkratzer fez de “Metal Machine Music”, a obra noise
ainda hoje mal compreendida de Lou Reed. Mais: confessa-se na ficha técnica de
“Unfolk” que estas gravações foram influenciadas por aquilo que John Paul Jones
fez com o bandolim nos Led Zeppelin. Poderíamos temer no seguimento destas
indicações alguma presunção e poucos frutos, mas o certo é que esta música se
ouve muito bem. E não, não se trata de mais uma versão disso a que se tem
chamado de “folktronics”...
(20-10-2006)
1. Altrove
2.
Il Sogno Di Devi

3.
Regioni Di Pietra

4.
Viaggiatori Perduti

5.
Aerofolk

6. Almanacco Del Giorno Prima
7. Raga Del Fiume Elettrico
8. Da Una Stagione Lontana
9.
Stereostudio N.1

10.
Fricke Out

11.
Fine Dell'infanzia / Oscura Profezia

Alexander Hacke
«Sanctuary»
CD Koolarrow, €16,50

Quem conhece Alexander Hacke dos Einstuerzende
Neubauten ou dos Crime and the City Solution e não das suas
bandas sonoras para o cinema e para o teatro, dificilmente o reconhecerá
neste disco em que tem a colaboração de uma mão-cheia
de músicos de vários países, entre os quais
J. G. Thirlwell (Foetus), David Yow (Jesus Lizard), Caspar Brotzmann
(Massaker), Andrew Chudy (Einztuerzende Neubauten) e Algis Kizys
(Swans). A música é cinematográfica, ambiental
mesmo em muitas das suas passagens, mas desembocando invariavelmente
em grandes explosões rock, como nos melhores Mr. Bungle,
e introduzindo elementos étnicos na mistura, tudo isto com
um empacotamento pop (ainda que na perspectiva germânica,
muito mais "arty" do que a americana ou a britânica).
Estas composições foram montadas a partir de registos
feitos por Hacke na Europa e nos Estados Unidos (um curioso paralelismo
com o último trabalho dos Einztuerzende, "Perpetuum
Mobile", que tem precisamente como tema a viagem) e essa condição
frankensteiniana, de colagem, é bem evidente - inclusive
na forma como provoca tensão e inquietude no ouvinte. Não
há qualquer tipo de continuidade nem de lógica aparente
nestas constantes mudanças de tempo, estilo e propósito
que lembram até o rock progressivo de há 30 anos,
mas a verdade é que funciona, mantendo a atenção
sempre em alerta. As atmosferas criadas são, no entanto,
permanentemente escuras e mantêm um acento industrial, embora
surjam autênticas surpresas pelo meio, como "Per Sempre
Butterfly", cantada por Gianna Nannini com o coração
na boca, assim desmentindo quantos acusam o baixista / guitarrista
de ser "frio". Só um músico alheio às
fronteiras entre géneros musicais e consciente de que a experimentação
pode ser uma parte da cultura popular poderia, de resto, saltar
do modelo da canção tal como é aplicado em
Itália para o "noise" da faixa que dá título
ao álbum, "Sanctuary". "Sister" é
outro inesperado momento deste camaleónico disco, com uma
voz feminina a dar alguns conselhos a potenciais vítimas
de violação: "After your eye-scratch, step back
to give yourself room for a swinging kick to his groin. Are you
ready? Let's go! Block, throat, break, kick
and again!"
Uma pincelada de humor negro que quase acalma este assalto aos ouvidos.
Quase.
(20-05-2005)
1. Minnie and Me
2. Sister
3. Love Me Love My Dog
4. Sonntag
5. Sanctuary
6. Yours Truly
7. Seven
8. Per Sempre Butterfly
9. All American Happy Hour
10. Sugarpie
11. Brush/Throat
Clique aqui para ouvir o álbum


Alog
«Amateur»
CD
Rune Grammofon, € 16,50

Algumas das técnicas que o projecto Alog inventou para o seu excelente álbum de
2005 "Miniatures" foram agora refinadas e desenvolvidas na sua totalidade para
este novo álbum "Amateur", o 4º para a Rune Grammofon. Gravado em inúmeros
locais no ocidente e norte da Noruega, "Amateur" nada de amador tem, bem pelo
contrário, aqui apenas os instrumentos foram criados de uma forma amadora, a
partir de ferramentas e objectos encontrados e fabricados nas várias localidades
das gravações. Estas sessões foram posteriormente trabalhadas em estúdio de modo
a atribuir-lhe o verdadeiro estatuto e espírito "amador". Este espírito é
caracterizado por uma maneira curiosa e original de interpretação que
infelizmente a maior parte das vezes é perdida no profissionalismo inerente à
criação musical. O resultado deste "Amateur" é assim único no panorama da música
experimental, e mais uma vez o projecto Alog conseguiu aqui criar um álbum
extraordinário, altamente recomendável.
(31-08-2007)
1.
Son Of King

2.
A Throne For The Common Man

3.
Write Your Thoughts In Water

4.
Sleeping Instruments

5.
The Beginner

6.
The Learning Curve
7.
Turn Back. Undo

8.
A Book Of Lightning

9.
The Future Of Norwegian Wood

10.
Exit Virtuoso

11.
Bedlam Emblem

12.
The Northeast Passage
Também disponíveis:
Alog
«Red Shift Swing»
CD
Rune Grammofon, € 17,50

Alog
«Duck-Rabbit»
CD
Rune Grammofon, € 18,50


Alog
«Miniatures»
CD Rune Grammofon, €16,50

Nada podia ser mais claro: os Alog
têm um lado Phonophani, regra geral muito "soft"
e elegante (é ele, de resto, um dos intervenientes, sob o
seu próprio nome: Espen Sommer Eide), a que se acrescentam
as visões pós-rock, pós-minimalistas (Tortoise
e Steve Reich são mesmo nomes que vêm inevitavelmente
à baila) e pós-tudo de Dag-Are Haugan, e aqui temos
mais dois noruegueses a agitar as águas da música
neste início de século. Os cliques e bips da electrónica
digital combinam-se com o uso de instrumentos mais convencionais,
como a simples guitarra acústica e o vibrafone de "St.
Paul Sessions II", ou o órgão de "Steady
Jogging of the Heart", contribuindo também para os resultados
uma imensa livraria de "field recordings" ou, em bom Português,
"gravações de campo". O título deste
CD,"Miniatures", parece contradizer a propensão
do duo para construir a sua música de forma gradual e lenta,
mas é esse precisamente o jogo a que aqui se procede, equacionando
a medida dos planos sonoros com a duração das peças
- a referência são as pinturas em miniatura turcas,
nas quais o padrão e a cor são mais importantes do
que a perspectiva ou o pormenor. Talvez por isso, cada uma das composições
reunidas alicerça o seu próprio mundo e nada parece
ter a ver com as restantes, o que faz com que este álbum
funcione não pelo conjunto, mas pela individualidade das
situações propostas e pela capacidade de o projecto
Alog se metamorfosear sem perder identidade.
(01-04-2005)

Alva
Noto
«Xerrox Vol.1 »
CD/2LP Raster Noton,
€ 16,50/€ 18,50

"Xerrox" é o novo projecto de Alva Noto, que, tal
como a sua série "Transall" ("Transrapid", "Transvision" e "Transspray")
pretende ser lançada em cinco partes durante os próximos anos.
Em "Xerrox", Alva Noto trabalha com excertos de 'muzak', música de anúncios
comerciais, bandas sonoras e programas de entretenimento. Estes sons que
escutamos diariamente, e por isso que estão sempre presentes, são melodias que
nem sequer temos consciência delas, mas que muitas vezes ficam gravadas no nosso
subconsciente. Neste álbum Noto manipula essas estruturas melódicas tão
familiares e comuns, transformando-as de modo a que se tornem irreconhecíveis,
mantendo o produto final uma ligação muito ténue com a sua origem.
Estas foram algumas das fontes para o trabalho de Noto: o aeroporto de Narita,
em Tóquio, o programa de um vôo da Air France, um loop telefónico da Lufthansa,
outro do Hotel Apollo em Paris, e muito muito mais.
Ao transformar completamente estes sons, Noto conseguiu criar melodias
experimentais que julgamos fabricadas pelos seus instrumentos electrónicos, e
ainda que tal seja a realidade, é curioso que por vezes identificamos, ainda que
muito dificilmente, a sua fonte.
(29-06-2007)
1.
10-22-38 Astoria 
2.
Haliod Xerrox Copy 4 
3.
03-10-06 Astoria 
4.
Haliod Xerrox Copy 3 (Paris) 
5.
03-10-06 Astoria 2 
6.
Haliod Xerrox Copy 2 (AirFrance) 
7.
Haliod Xerrox Copy 6 
8.
05-10-06 Astoria 
9.
Haliod Xerrox Copy 11 
10.
Haliod Xerrox Copy 1 
11.
02-10-06 Astoria 1 
12.
Haliod Xerrox Copy 111 
13.
09-10-19 Astoria 
14.
Haliod Xerrox Copy 9 
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Alva Noto
«Transrapid»
«Transvision»
«Transspray»
CDEP's Raster-Noton, €13,50 cada

"Transform" deu o mote em
2001 à série de EPs de 21 minutos cada agora completada
e que conta com o título genérico de "Transall".
Com ela, Alva Noto pega em três temáticas que lhe são
caras (colocadas em letra de imprensa nos booklets por, respectivamente,
Ulf Poschardt, Kodwo Eshun e Marco Peljhan): as problemáticas
da velocidade, as visões contemporâneas da utopia e
a fragmentação das ideias. Em todos os três
volumes o procedimento é semelhante: Carsten Nicolai, alemão
residente em Berlim, "transladou" para o domínio
sonoro uma série de textos, imagens e gráficos de
vectores tomados como "base de dados", e isto para demonstrar
que a velocidade dos fluxos de dados na presente era cibernética
define por si só a velocidade com que vivemos nas sociedades
contemporâneas: com uma estonteante rapidez. Estes sons que
antes foram outra coisa são trabalhados, sobretudo, de forma
rítmica e segundo os mesmos padrões "funky"
que definem muita da techno ouvida nas pistas de dança, mas
nem por sombras se trata de techno ou de funk e sim da sua estilização
num conceito que é mais de "design" sonoro do que
propriamente de música, se considerarmos esta de forma convencional.
Pelo meio, Nicolai "brinca" com as mais baixas frequências
e acrescenta ruído cor-de-rosa e ruído branco, com
um rigor clínico por vezes assombroso de tão impessoal.
(01-04-2005)
«Transrapid»:
1.
Funkbugfx 
2.
Pulse (Xs version) 
3.
Future 
4.
Highmatrix 
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«Transvision»:
1.
Remodel 
2.
J 
3.
Postfabric 
4.
10 
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«Transspray»:
1.
Fuel For Black Quartz 
2.
R/Re/Repeat (& I Sound) 
3.
Bit 
4.
Birr 
5.
Obi One (edit Xs version) 
6.
F117.tiff 
7.
Audioshape 
8.
Spray 
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Alva
Noto + Ryuichi Sakamoto
«Insen Live»
DVD Raster Noton, € 24,95

Na arte colaboracional a que
chamamos música, é por vezes dos encontros mais improváveis que nascem as
melhores criações. É o que tem acontecido com a colaboração entre Carsten
Nicolai, aka Alva Noto, uma das figuras cimeiras da electrónica experimental
fundamentada sobre a rítmica do hip-hop e do funk, e Ryuichi Sakamoto, pianista
e compositor que no seu já longo percurso se tem distinguido pela forma como
invoca as mais diversas linguagens e gramáticas, num composto que vai do
impressionismo “clássico” pianístico à pop, passando pelas músicas do mundo. O
DVD “Insen Live” mostra-os a ambos em duas situações ao vivo ocorridas no
passado mês de Junho, uma em Portugal (Porto, Casa da Música), a outra em
Barcelona (Sonar Festival). São interpretados temas surgidos em 2005 no álbum
“Insen” e mais um par de inéditos, um deles com título português, “Barco”, e
seguindo o mesmo princípio geral: o processamento em tempo real por computador
dos sinais emitidos pelo piano, não tanto para prolongar o alcance deste mas
para, simultaneamente, lhe tecer envolvências e o interpelar. Documentados para
a posteridade, estes dois momentos de uma digressão muito falada ao longo de
2006 são também a oportunidade de verificarmos como os vídeos de Nicolai
interagem com os sons de Sakamoto, traduzindo estes de forma gráfica. A ideia
remonta às aspirações sinestésicas surgidas na passagem do século XIX para o XX,
mas encontra na tecnologia digital novos meios de resolução, com o apelativo de
que se vê o que se ouve e de que se ouve o que se vê. O único senão é o facto de
nunca os ouvidos enganarem os olhos e a visão jamais armadilhar a função
auditiva, o que seria igualmente interessante. O certo é que os propósitos
conjugados não passam por aí, mas sim por uma estratégia que consiste em
maximizar os efeitos perceptivos de um trabalho feito ao nível da nuance e do
pormenor, minimalista e especialmente delicado, implicando o activo envolvimento
de quem ouve e vê, sob o risco de se perder alguma coisa de fundamental. (29-12-2006)
1. Intro
2. Berlin
3. Noon
4. Uoon
5. Morning + Iano
6. Barco
7. Nor
8. Trioon
9. Xerox
10. Siisx + Mur - Encore
11. Ax. Mr. L. - Encore
12. Trioon - Second Angle
13. Morning + Iano - Second Angle
14. Uoon - Second Angle
Extra: Conversation

Alva Noto + Ryuichi Sakamoto
«Revep»
CDEP Raster-Noton, €12,95

1.
Siisx 
2.
Mur 
3.
Ax Mr. L. 
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Alva Noto + Ryuichi Sakamoto
«Insen»
CD Raster-Noton, €16,50

"Insen" é o segundo
tomo da colaboração de Alva Noto (Carsten Nicolai)
com o pianista e compositor Ryuichi Sakamoto iniciada com "Vrioon".
Não se trata, porém, de mais do mesmo: o novo álbum
tem um carácter meditativo e desta vez Nicolai trabalha directamente
os sons do piano, em vez de simplesmente lhes contrapor as suas
sinusoidais. O trabalho que realiza é, aliás, o de
um cirurgião: vai ao núcleo dos acordes de Sakamoto,
manipula-os, cria "loops" de efeito rítmico, muito
semelhantes aos que têm distinguido a frente "glitch"
da música digital em que o encontramos juntamente com Autechre
e Ryoji Ikeda, ou elabora contrapontos melódicos e envólucros
harmónicos, isto preservando sempre o trabalho pianístico
do japonês. E se com o anterior disco, esta parceria com o
ex-Yellow Magic Orchestra que já ouvimos com David Sylvian
e em contexto de bossa nova causou alguma estranheza, agora tudo
acontece com uma remarcável naturalidade. Não se pense,
no entanto, que tal naturalidade os aproxima das obras contemporâneas
"clássicas" de piano e electroacústica de
um Stockhausen ou da incursão neste tipo de conjugação
por parte de Richard D James, aka Aphex Twin, em "Druqs",
um disco claramente inspirado em Erik Satie: o que aqui temos é
experimentalismo "lounge" e ambientalismo ultra-minimal.
(01-04-2005)
1.
Aurora 
2.
Morning 
3.
Logic Moon 
4.
Moon 
5.
Berlin 
6.
Iano 
7.
Avaol 
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Alva Noto + Ryuichi Sakamoto
«Vrioon»
CD Raster-Noton, €16,50

1.
Uoon I 
2.
Uoon II 
3.
Duoon 
4.
Noon 
5.
Trioon I 
6.
Trioon II 
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Alvars Orkester
«Interference»
CD Touch, € 15,95

Toda a excepção ao imperialismo digital que vigora é à partida
bem recebida, e mais ainda quando atinge o nível de qualidade deste “Interference”.
O curioso, no entanto, é verificar-se que, havendo uma identificação da música
por computador com a produção de “drones”, é também por aí que segue o grupo de
Jan Svensson (aqui distante das suas dedicações na acid house) e Joachim
Nordwall (ex-Kid Commando). A diferença é que estes “drones” são bem mais sujos
do que os numéricos, inclusive sabendo do fascínio de alguma informática musical
pelo bruitismo. A verdade é que até o noise do Merzbow destes últimos anos não
deixa de ser laboratorial e asséptico. As peças concebidas e montadas pela
Alvars Orkester têm cotão, não surpreendendo que as suas maiores referências
sejam Test Department, Throbbing Gristle, SPK e Z’ev, nomes cimeiros do
industrialismo e do que lhe andou à volta, ou que prefiram o psicadelismo rock
ao ambientalismo de Eno, ou ainda que entendam a edificação de paisagens sonoras
com a perspectiva do noise “hardcore” – pode ser algures um pôr-do-Sol em África
o que tocam, mas não se trata de um postal de turismo e sim de um esquisso feito
à mão por um doente mental. De resto, desde a fundação deste colectivo na Suécia
em 1987 que o mesmo tem procurado traduzir em som o fascínio dos seus elementos
pelas psicopatologias, as deficiências mentais e os estados alterados de
consciência, sejam estes naturais (privação do sono, por exemplo) ou induzidos
quimicamente. No caso de Svensson trata-se até mais do que um interesse
intelectual – foi-lhe diagnosticada uma esquizofrenia paranóide.
(27-10-2006)
1.
Johannishus

2.
Cobra Mist

3.
Reality Distortion Field

4.
Field Grey

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AMM/Musica Elettronica Viva
«Apogee»
2CD Matchless, €27,50

Qualquer recapitulação
das práticas mais radicais da improvisação
desde a década de 1960 não pode esquecer os "casos"
AMM e Musica Elettronica Viva. A associação de ambos
os projectos não é de agora: já em 1968 foi
editado um LP em que os dois revolucionários colectivos figuram
em cada um dos lados. Entretanto, os AMM sofreram várias
alterações a nível da sua formação,
a mais notável das quais devida à morte de Cornelius
Cardew, dos seus fundadores só restando hoje Eddie Prévost
(Keith Rowe bateu com a porta), e os MEV só muito episodicamente
se reagrupam, tendo os seus elementos principais, Alvin Curran,
Frederic Rzewski e Richard Teitelbaum, desenvolvido carreiras a
solo. Os seus caminhos só recentemente voltaram a encontrar-se,
graças à participação destes grupos
na edição de 2004 do festival Freedom of the City,
de Londres. "Apogee" inclui gravações desses
concertos no segundo CD, estando o primeiro ocupado por uma estreia
absoluta: AMM e MEV a tocarem em sexteto, num registo de estúdio
cuja importância histórica é desnecessário
explicar. E se AMM (aqui ainda em trio com Prévost, Rowe
e o pianista feldmaniano John Tilbury) e Musica Electtronica Viva
são bastas vezes mencionados na mesma frase, fica nesta edição
claro que as suas visões da música são bem
distintas, ainda que capazes de diálogo (a maior vantagem
da prática improvisacional, aliás). Os AMM são
abstractos, pontilhísticos, fragmentários e minimalistas,
enquanto os MEV não resistem a introduzir elementos figurativos
nas suas construções e têm uma dimensão
mais "orquestral" e cromática, por exemplo com
o judaico sho far, uma espécie de trompete, tocado por Alvin
Curran. Juntos, conseguem conciliar a microscopia sonora própria
dos AMM, e muito especialmente da guitarra horizontal e torturada
por múltiplos objectos de Keith Rowe, com os súbitos
apontamentos de "sampling" etnográfico que Teitelbaum
gosta de atirar para o ar quando menos se espera.
(20-05-2005)

Ana Da Silva
«The Lighthouse»
CD Chicks On Speed, €16,5

O pós-punk foi dos últimos
e provavelmente o mais intenso «brainstorm» musical
das ilhas britânicos de décadas recentes. No espaço
que compreende, aproximadamente, 1978 até 1982, a comunidade
«art school» que se tinha deixado levar pela energia
e rebelião do punk mas não obrigatoriamente pela sua
forma, questionou-a, reformulou-a e tornou-a mais complexa e densa.
Para além dos seus pontos mais mediáticos (Joy Division,
PiL, Gang of Four, The Fall, Throbbing Gristle ou Slits), há
uma enorme riqueza no que a história tornou na «segunda
linha» deste período. Bandas incríveis como
Swell Maps, This Heat, Cabaret Voltaire ou as Raincoats de Gina
Birch, Ana da Silva, Vicky Aspinell e Palmolive (das Slits). Inspiradas
pelo trabalho das Slits e das X-Ray Spex, bem como pela carga anímica
e revolucionária dos Pistols e dos Clash, traziam o turbilhão
caótico da energia punk à canção sob
formas femininas, irónicas, expostas e mordazes. «The
Raincoats» é um amontoado gloriosamente disforme de
gritos, instrumentos tocados de forma medíocre mas tão
mais vibrante por isso, em que o concretizar de ideias valida qualquer
tipo de inocência técnica. Lançado em 1981,
«Odyshape», o seu segundo álbum já sem
Palmolive (que as fez passar por Portugal com Charles Hayward dos
This Heat na bateria) era um registo mais complexo, mais subtil,
executado e pensado. Viria a seguir-se «Moving» dois
anos depois e a dissolução da banda em 84. No
último ano da sua vida, Kurt Cobain iria à procura
de Ana da Silva na sua loja em Notting Hill, onde apareceu com Courtney
Love. Ana só soube quem eram aqueles miúdos que tinham
passado pelo seu estabelecimento quando os amigos da loja da Rough
Trade lhe explicaram o sucedido. Em pouco tempo Cobain fez com que
a Geffen reeditasse os três álbuns das Raincoats e
convenceu Birch e da Silva a reformarem a banda. «Looking
In The Shadows» e uma digressão com os Nirvana que
nunca acabou por acontecer devido à morte de Cobain foram
o resultado. Como com os Young Marble Giants (Stuart Moxham colabora
em «The Lighthouse») ou os Vaselines, aquilo que fica
connosco da música das Raincoats é um mistério
complicado de sublinhar. São canções puras,
simultaneamente expostas e distantes, de uma inocência tão
desarmante quanto subvertida. «The Lighthouse», o primeiro
álbum a solo de Ana da Silva, açoriana residente em
Londres desde a segunda metade dos anos 70, retém tudo o
que, em abstracto, foi sempre tão especial nas Raincoats.
Uma intimidade profundamente feminina, solitária; a estranheza
e a pacatez das harmonias e melodias das vozes e dos instrumentos;
uma noção oblíqua e fragmentada da realidade;
uma jogo discreto de luzes, sombras, espelhos e ângulos inesperados
sobre as coisas e o eu. Munida de uma «maquineta» (nas
palavras da própria) digital, que possui centenas de sons
e um sequenciador com uma multitude de «presets», Ana
da Silva arquitecta as suas peças com suportes digitais e
electrónicos, regidas sempre com uma estética orgânica.
A percussão é aquática; o elemento lúdico
permanece em algumas melodias, a dolência noutras. Sintetizadores
pesarosos marcam a estreia de Ana da Silva a cantar na sua língua
natal, em «Modinha». São canções,
como sempre o foram, e são canções contemporâneas,
actuais, de identidade criativa e estética demarcadas. Da
Silva mantém-se atenta ao que se vai passando na música
moderna, e o cariz exploratório e idiossincrático
desta «The Lighthouse» é disso a sua maior prova.
Um ícone da música independente nacional e anglo-saxónica
num dos mais inesperados álbuns do ano.

Andrew Bird
«Armchair Apocrypha»
CD Fargo Records, € 16,50

O que é isto? Um avião, um sopro, um assobio, um
riff, um pássaro? Na capa do novo disco de Andrew Bird, o desenho de um
periquito de costas voltadas sobre fundo negro. Na realidade, o pássaro é Andrew
Bird, mas nunca sobre fundo negro. A sua música é uma alegria subversiva, um
feel good temperado que disfarça a ligeireza de espírito. Andrew Bird é o rei da
sofisticação debaixo de uma pele de cordeiro. Ele já tocou em programas para
crianças, mas em "Armchair Apocrypha" chega a fazer lembrar Jeff Buckley. E
alguém imagina Jeff Buckley nos Marretas?
O mundo está entregue à criançada e Andrew Bird é o padrinho deles todos. Talvez
o movimento tenha começado com David Byrne dos Talking Heads, grande influência
na matreirice pop dos Clap Your Hands Say Yeah. Mas este som infantil, que era
terrivelmente impopular na década de 80, tornou-se, hoje, mais popular que o
pastel de nata. E subitamente, a banda sonora do mundo está entregue a grupos
traquinas como Architecture in Helsinki, Final Fantasy, Fiery Furnaces, Of
Montreal ou Arcade Fire. Algures no meio estará decerto Andrew Bird – “bird” de
pássaro, pássaro de assobio.
O assobio de Bird, aquele eco fantástico de "Fake Palindromes" (do disco de
2005, "The Mysterious Production of Eggs"), que traz um novo amanhecer ao dia,
cria alguma distintividade na música, e não deforma nunca a forma da sua arte.
Sim, Andrew Bird é o tipo que assobia, e com quem gostaríamos de assobiar em
conjunto, ou por associação. Mas ele é só isso? O homem toca violino desde
criança, não deveríamos desdenhar o mérito e reduzir o seu alcance.
Andrew Bird conquistou o planeta há apenas dois anos, com "The Mysterious
Production of Eggs", já o sexto álbum de originais de uma carreira prolífica e
sentimental. "Armchair Apocrypha" não vai desiludir os fãs – o segundo tema, "Imitosis",
parece recuperar o pizzicato de "Fake Palindromes", e dá uma voltinha sobre si
próprio. O novo grande disco de Andrew Bird traz um desafio extra: talvez seja
este o momento em que Bird vai agarrar ou conquistar outros públicos, sejam eles
os públicos ligeiros de Coldplay ou Keane, ou os mais sofisticados de Sakamoto a
David Sylvian.
Andrew Bird como ave de rapina? E porque não. É ouvir atentamente "Heretics", o
quarto tema, e associar a voz de Bird a Tim Booth, dos James. Em "Dark Matter",
é Jeff Buckley revisitado. "Yawny at the Apocalypse", o instrumental que encerra
o disco, é uma seara de cordas ao vento, um tema crepuscular centralizado num
violino chinês. O final perfeito de uma perfeita empreitada.
A noite é uma criança e se calhar Andrew Bird acordou para o dia.
(16-03-2007)
1.
Fiery
Crash 
2.
Imitosis

3.
Plasticities

4.
Heretics

5.
Armchairs

6.
Darkmatter

7.
Simple X

8.
The Supine

9.
Cataracts

10.
Scythian Empires

11.
Spare-ohs

12.
Yawny at the Apocalypse

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Andrew Bird
«The Mysterious Production of Eggs»
CD Fargo Records, €16,50

Andrew Bird está longe de ser
apenas um "autor de canções", categoria
revalorizada neste tempo de redescoberta da folk e da pop de produção
simplificada, com base, quase apenas, numa voz e numa guitarra de
caixa. A verdade é que este multi-instrumentista (o violino
é o seu primeiro instrumento) ainda acredita na relevância
dos arranjos, da orquestração e do trabalho de estúdio,
e estes estão bem presentes em "Andrew Bird & The
Mysterious Production of Eggs". Com um rigor, aliás,
que cobre todos os aspectos desta edição, desde o
trabalho do produtor David Boucher (o mesmo de Paul Westerberg,
Lisa Loeb e Randy Newman), discreto mas funcional, até ao
"design" e às ilustrações tipo "cartoon"
de Jay Ryan visíveis na capa e no "booklet", que
nos fazem lembrar outros tempos em que a "cover art" tinha
mais importância do que na presente era do CD. Os temas cantados
por Bird também não são muito vulgares, como
a ciência moderna, a criatividade e a infância perdida.
Especialmente interessado nas virtualidades da melodia, não
surpreende que este americano de Chicago tenha como uma das suas
características mais pessoais o facto de as... assobiar.
De facto, não há como assobiar uma melodia para compreender,
e fazer compreender, a sua eficácia, e Andrew Bird utiliza
o assobio de forma desarmante e especialmente agradável,
tão essencial para os resultados quanto, por exemplo, os
"loops" de fita e o "sampling". A crítica
já apelidou a sua música de "pop de câmara",
e com toda a pertinência, pois a sua visão da pop tem
a elegância e o apuro clássico da música de
câmara, integrando elementos da folk, do country, do rock,
dos blues e do que mais servir os seus propósitos (música
brasileira, por exemplo). O infelizmente desaparecido Jeff Buckley
e Devandra Barnhart têm nele um concorrente à altura...
(11-03-2005)
1. 
2. Sovay
3. A
Nervous Tic Motion of the Head to the Left

4. Fake
Palindromes
5. Measuring
Cups
6. Banking
on a Myth
7. Masterfade
8. Opposite
Day
9. Skin
Is, My
10. The
Naming of Things
11. MX
Missiles
12. 
13. Tables
and Chairs
14. The
Happy Birthday Song
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Andrew
Douglas
«Searching for the Wrong-Eyed Jesus»
DVD Plexifilm, €
23,95

O Deep South americano tem o
condão de fascinar a gente de fora. No que diz respeito à sua música, são
gritantes os exemplos do australiano Nick Cave, cujas “murder ballads” são
o produto da sua visão daquela parte dos EUA, inspirada sobretudo nos
romances de William Faulkner, Tennessee Williams e Erskine Caldwell. E já
que se fala de literatura, nem é preciso ir muito longe – um escritor
contemporâneo que representa a alma sulista branca deste país, Harry
Crews, e que de resto vemos e ouvimos falar no documentário “Searching for
the Wrong-Eyed Jesus”, emprestou o seu nome a um grupo formado por Kim
Gordon, dos Sonic Youth, e Lydia Lunch, habitantes de uma cidade, Nova
Iorque, que é o que há de mais distante da realidade do Texas, do
Louisianna ou do New Mexico. Não estranha, pois, que este filme sobre o
cantor de country alternativo Jim White e o mundo em que vive tenha sido
realizado por um inglês, Andrew Douglas, o mesmo que assinou a
longa-metragem de terror “The Amityville Horror”, outro exemplo do seu
gosto pela mitologia do Novo Mundo. Com a diferença de que o resultado é
bem melhor do que o conseguido neste título. A receita é clássica –
trata-se de um “road movie”, com as câmaras a acompanharem uma viagem de
White em território “redneck” num velho Chevy Impala –, mas pelos vistos
continua a funcionar muito bem. Ao longo do percurso ficamos a saber da
vida e das ideias de muitos anónimos que por estes lugares inventam e
reinventam a folk ou cantam em coros gospel, mas também encontramos alguns
“profissionais”, como Handsome Family, Cat Power, Johnny Dowd, Melissa
Swingle, o “old timer” Lee Sexton e David Eugene Edwards, dos 16
Horsepower. As questões levantadas acabam por versar o mesmo tema: a
dicotomia própria do Sul entre a fé e o pecado. Aliás, como Graham Greene
sustentava, só pecando se pode testar a devoção por Jesus. As manhãs de
domingo na missa são o outro lado da realidade das noites de sábado a
beber, a andar à pancada e a fornicar. Aleluia.
(22-09-2006)
Andrew Pekler
«Nocturnes, False Dawns & Breakdowns»
CD Scape, €15,5

Ainda hoje «Station To Station»
é uma obra vibrante, porque Andrew Pekler soube, muito inteligentemente,
estabelecer as suas próprias regras - evitou deste modo o
envelhecimento provocado e acelerado dos géneros e correntes.
Primeiro: a pesquisa do 'groove' é ainda o mote para uma
longa derivação estética sobre um ideia de
jazz falso - uma ideia que o Jan Jelinek fez sozinho, mas que ganhou
outro fôlego com Triosk. Segundo: o 'beat' não é
central nem manipulador, ao contrário dos seus pares Ammoncontact
ou Daedelus, por exemplo - afinal Berlim está bem distante
das cidades do 'Pacific rim'. «Nocturnes, False Dawns &
Breakdowns» está para o jazz tal como Prefuse 73 está
para o hip hop: uma perpétua e insondável contaminação
pela electrónica, pelos cortes, pelos erros no sítio
certo e pelo acto de costura digital. Ambientalmente, não
é um disco amargo, nem negro no sentido policial do termo;
mas há algo sinistro e sombrio que trespassa os 14 temas
deste álbum, uma suspensão e tensão eléctrica
que nunca nos distrai por um momento, como se, sentado do seu banco
de bar, Andrew Pekler observasse os anónimos como potenciais
criminosos. Ou, delirando menos, apenas inventa histórias
sobre o que está a sua volta. Há quem já tenha
falado em álcool, de «Wee Small Hours» de Sinatra
e de Weather Report, mas nós preferimos achar que este disco
sente-se filho do jazz cinematográfico, gerando imagens fortes
e robustos contrastes branco/preto - nesse sentido concordamos com
as ligações emotivas ao clássico Louis Malle/Miles
Davis «Ascenseur Pour L'Échafaud». Se juntarmos
a isto tudo um delírio fora deste mundo por Sun Ra, uma paixão
pela exótica de Martin Denny ou uma atracção
fatal pelos classicismos de Moondog, temos um disco que só
pode ser muito bom ou muito mau. Como devem perceber, a primeira
hipótese é a demonstrada com uma qualquer audição:
ouça-se o minuto e meio da introdução «Here
Comes The Night...» para perceber tudo o que se disse aqui,
bem como para adensarmos a suspeita de como Pekler bem pode ser
um esteta tão importante quanto Jan Jelinek, Scott Herren
ou Daedelus.

Andrew
Pekler
«Strings + Feedback»
CD Staubgold, € 15,95

Se os álbuns anteriores de Andrew Pelker
valeram da crítica a impressão de que a sua música era algo do género
“Tortoise meets Pole”, este “Strings + Feedback” é substancialmente
diferente. Primeiro porque soa à electrónica dos anos 1950, depois
porque é a música para piano, cordas e harpa de Morton Feldman que
ao longo da sua duração é desconstruída de forma radical. E o curioso
é que, se as mutações operadas vão fundo no seu propósito de recriação,
a geral ambiência continua a ser feldmaniana. O que quer dizer que
tem o mesmo carácter de quietude e até de estatismo encontrado,
por exemplo, em “For Bunita Marcus”, não obstante a maior profusão
de acontecimentos sonoros. Ainda que, ao que parece, haja um computador
a triturar acordes e notas soltas, há algo aqui que se enquadra
nos parâmetros da “musique concrète” e que se cola à sonoridade
típica dos velhos sintetizadores analógicos, pelo que se torna evidente
ser esta uma obra informada pela história da electrónica e da electroacústica.
Até o gráfico de circuitos internos que se vê na capa é indicativo
da posição assumida por Pekler a este respeito. Nada que fosse de
esperar de um americano recolocado na Alemanha que começou por tocar
noise-rock e depois enveredou pela electro-pop sob a designação
Sad Rockets.
(28-10-2005)
1. P'luckd
2. Localite
3.
Ogonjok 
4. Pale Fyr
5. Mirrorise
6. Vor
7. Refusenik
8. Doublemoon
9. Cygnus
10.
Oragainst 

Animal Collective
«Feels»
CD Fat Cat, € 16,50
1.
Did You See The Words
2.
Grass
3.
Flesh Canoe
4.
Purple Bottle
5.
Bees
6.
Banshee Beat
7.
Daffy Duck
8.
Loch Raven
9.
Turn Into Something

Anja
Garbarek
«Briefly Shaking» CD EMI Music Norway, €
17,95
Pode ser que o facto de Anja
ser filha do saxofonista Jan Garbarek tenha contribuído para lhe abrir
algumas portas, mas a verdade é que a música desta cantora que vem do frio
(Noruega) nenhuma relação tem com o jazz do seu progenitor. Ainda assim, o
interesse que desde jovem ela nutriu pela canção e pela electrónica é
culpa dele, pois os discos de Kate Bush, Laurie Anderson e Brian Eno que
ela ouvia pertenciam à colecção de Garbarek. E claro, tudo isso se
reflecte neste “Briefly Shaking”, álbum de pop alternativa (com algo de
trip-hop) especialmente cuidado ao nível da produção que colecciona alguns
dos seus melhores temas de sempre e nos dá a ouvir a sua voz sensual com
uma proximidade e uma clareza como nunca antes aconteceu. O último de Anja
Garbarek é sem dúvida um trabalho de maturidade e confirmação, e o
culminar de um trajecto que foi gerido com particulares cuidados. Se o seu
segundo título, “Balloon Mood”, levou quatro anos a ser preparado, já no
terceiro, “Smiling and Waving”, ela teve a colaboração de grandes nomes
como Robert Wyatt, Mark Hollis (Talk Talk), Steve Jansen (Japan) e um
colaborador dos Cocteau Twins, Mitsuo Tate, conseguida precisamente porque
todas essas figuras perceberam estar diante de um novo e invulgar valor. O
quarto opus é este, e se reconhecemos alguns elementos do universo Massive
Attack, PJ Harvey é uma referência diversas vezes patente, apesar de, em
vez de guitarras, ouvirmos sintetizadores, e de, no lugar da distorção,
encontrarmos uma boa dose de “glitch”. Uma mais-valia é o facto de Anja
não procurar seguir pelo mesmo caminho de Bjork desde “Vespertine”,
caminho esse que se tornou mesmo num modelo da associação da pop com a
electrónica. Uma coisa, no entanto, têm de comum: se o presente som de
Bjork resulta da colaboração com ela mantida pelo duo digital Matmos, a
bela Garbarek conta com os “inputs” de um tal de Gisli, que intervém com
programações, teclados, theremin, efeitos, ruídos e mais e que também é o
principal produtor. Não ficamos por aqui: amante do cinema de terror e
policial de série B, os temas das letras que canta não são propriamente os
mais comuns, como por exemplo a história de uma mulher raptada e feita
prisioneira numa cave (“Sleep”) ou uma alusão ao assassino serial Dennis
Nielsen (“Can I Keep Him”). E sabem que mais? O pai Jan Garbarek também
toca, trocando os seus habituais saxofones tenor e soprano pelo barítono.
(13-04-2006)
1.
Born That Way 
2.
Dizzy With Wonder 
3.
The Last Trick 
4.
Sleep 
5.
Shock Activities 
6.
Yes 
7.
My Fellow Riders 
8.
Can I Keep Him? 
9.
This Momentous May 
10.
Still Guarding Space 
11.
Word Is Out 
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António
Ferreira
«Músicas Fictícias»
CD Ananana, € 13,99

Dezanove anos após a primeira edição de «Música de Baixa
Fidelidade» na independente AmaRomanta, e seis após o lançamento de «Músicas
Fictícias», a AnAnAnA reLança no mercado, uma vez mais esta obra, de forma a
colmatar qualquer distracção que tenha ocorrido no momento, e tenha deixado de
mãos - e ouvidos - a abanar todos os possíveis melómanos do país.
Nas palavras do músico “… cada auditor conhecerá as qualidades das suas
experiências e o conceito, carregado de tradição da palavra música,
encontrar-se-á, espero, um pouco mais alargado.”
Nas palavras de Rui Eduardo Paes in «Phonomaton – As novas músicas do século XXI»
2» "uma peça em particular suscitou surpresa, «Qualia», de TóZé Ferreira. E
isto porque, não se sabendo deste compositor português desde que lançou o seu
primeiro e, até então, único álbum «Música de Baixa Fidelidade» em 1988, se
redescobriu não só um talento infelizmente desaparecido, como se conheceu a sua
faceta de altíssima fidelidade."
(26-10-2007)

Antony & The Johnsons
«I'm a Bird Now»
CD Secretly Canadian, € 15,95
1.
Hope There’s Someone
2.
My Lady Story
3.
For Today I Am A Boy
4.
Man Is The Baby
5.
You Are My Sister
6.
What Can I Do?
7.
Fistful Of Love
8.
Spiralling
9.
Free At Last
10.
Bird Gerhl

Apsci
«Thanks For Asking»
CD Quannum Projects, € 16,50

Apsci, de "Applied Science",
é o nome dado à história de amor vivida por
um MC americano do Bronx, Raphael LaMotta, e uma cantora com formação
clássica descendente de filipinos mas nascida na Austrália,
Dana Diaz Tutaan, uma daquelas improbabilidades que só os
afectos humanos explicam. E "Thanks for Asking" é
um disco de hip-hop "orgânica", ramo em que se coloca
o "rapping" feito com instrumentos musicais em vez de
gira-discos. E essa não é a única característica
que afasta este projecto do hip-hop mainstream" - as letras
(de Dana), por exemplo, não pertencem propriamente ao universo
"gangsta", e se a maneira como utiliza a voz pode lembrar
Badu, logo no instante seguinte é Bjork o que mais parece,
se é que se parece com algo de definido já. Ter como
convidados membros dos Perceptionists e dos Antibalas, entre outros,
é demais indicação de que o casal Apsci não
segue pelos caminhos mais comuns. Mesmo em se tratando de canções,
a abordagem tem muito de experimental. Ainda bem...
(23-09-2005)
1. It's Apsci (Intro)
2. Tirade Highway
3. Never Give Up
4. Bike Messenger Diaries
5. Runaway
6. Voice Print Identification
7. Anais & Godzilla
8. Stompin'
9. See That?
10. KL 6am
11. Cherubic
12. Rob The Bank
13. Robosex
14. Puttin' On The Fitz
15. The Reception (Outro)
16. Pep Rally
17. Flystyls
|
Arcade
Fire
«Neon Bible»
CD
Merge, € 17,50
|
Arcade
Fire
«Neon Bible (Deluxe Ltd.Ed.)»
CD
Merge, €
22,50
ESGOTADO
|

Arcade Fire
«Funeral»
CD Rough Trade, € 16,95
1.
Neighborhood 1 (Tunnels) 
2.
Neighborhood 2 (Laika) 
3.
Une Année Sans
Lumière 
4.
Neighborhood 3 (Power Cut )
5.
Neighborhood 4 (Kettles) 
6.
Crown Of Love 
7.
Wake Up 
8.
Haiti 
9.
Rebellion (Lies) 
10.
In The Backseat 
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Arctic Monkeys
«Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not»
CD Domino, €18,50
1.
The View From The Afternoon 
2.
I Bet You Look Good On The Dancefloor 
3.
Fake Tales Of San Francisco 
4.
Dancing Shoes 
5.
You Probably Couldn’t See For The Lights But You Were Looking Straight
At Me 
6.
Still Take You Home 
7.
Riot Van 
8.
Red Light Indicates Doors Are Secured 
9.
Mardy Bum 
10.
Perhaps Vampires Is A Bit Strong But... 
11.
When The Sun Goes Down 
12.
From The Ritz To The Rubble 
13.
A Certain Romance 
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Arden
«Conceal»
CD Stilll, €
16,50

Immune
«Sound Inside»
CD Stilll, €
16,50

Holiday For Strings
«CD»
CD Stilll, €
16,50

Off
The Sky
«It Is Impossible To Say Just
What I Mean»
CD Stilll, €
16,50

Vários
Artistas
«Stilllysm – An Experimental Pop
Compilation By The Stilll Label»
CD Stilll, €
16,50

Quando surge um catálogo com uma identidade
muito vincada como este da editora belga Stilll, a tentação para quem não
pode levar para casa todos os títulos saídos é procurar o “melhor” ou o
mais representativo, mas o certo é que essa escolha é muito difícil no
presente caso, tais são a qualidade das propostas e os acrescentos feitos
às “medidas” padronizadas por cada formação e cada álbum. Ainda assim, uma
boa introdução a este universo pode ser dada por “Conceal”, dos
transnacionais Arden: neles encontramos a mesma “avant pop” melancólica
que caracteriza todos os outros grupos da casa, mas também algo como o
fantástico tema “Smashed Computers and Bad Luck”, que é o que poderia
fazer uma banda de metal se tentasse soar como os God Speed! You Black
Emperor ou os Sigur Ros. Está neste disco tudo o que poderíamos desejar no
rescaldo do pós-rock, atmosferas e explosões sónicas, canções e
experimentalismo improvisado, electricidade e o bafo da terra molhada, com
mudanças como do dia para a noite por vezes na mesma faixa. O facto de um
dos membros dos Arden, Jérôme Deuson (aka aMute) ser também o patrão da
Stilll pode até significar que temos aqui o manifesto da “label”. Já se
falou de Sigur Ros e eis que é no casamento da sua influência com a, muito
diferente, de Matt Elliott que agem os Immune em “Sound Inside”. Projecto
de “música íntima”, como eles próprios se propõem, a electrónica é, no
entanto, a ferramenta principal deste quarteto francês. A curiosa voz de
Gary Soubrier é o seu cartão de visita, assemelhando-se a um Stuart
Staples que tivesse optado por sussurrar em contexto “campfire” com uma
boa dose de “glitch” digital. Electro-pop this ain’t, mas o certo é que
utiliza as suas armas. Quem gostou de “Laughing Stock” dos Talk Talk
também ficará satisfeito com este álbum. Os Holiday For Strings, por sua
vez, são suecos e em “CD” fazem uma pop de guitarras que, apesar de muito
“clean”, tem a ocasional bizarrice de uns Animal Collective e um evidente
gosto pelo “groove”. Mesmo quando não resistem à tentação do
abstraccionismo (adoram explorar “feedbacks”), a rítmica “funky” é quase
sempre um contrapeso. Os Off The Sky do norte-americano Jason Corder
mergulham decididamente nos “drones” guitarrísticos e a sua cartilha tem
tanto de ambientalismo quanto de rock e até de referências artísticas e
literárias. No caso de “It Is Impossible To Say Just What I Mean”, a
inspiração foi buscada a T.S. Eliot e ao seu poema “The Love Song of J.
Alfred Prufrock”, detectada por exemplo nos títulos dos temas. Mas também
na própria música, que metaforiza por meio da efemeridade das suas formas
a mensagem daquele texto que refere a impossibilidade de verdadeiramente
chegarmos aos outros. De facto, trata-se de uma colagem de sons que parece
estar à procura de uma estrutura sem nunca chegar a encontrá-la, o que não
impede que fragmentos de nostálgicas melodias se formem para logo
desaparecerem no ar. Uma perspectiva mais abrangente do estilo Stilll é
dada pela colectânea “Stilllysm”, na qual estes artistas e outros
(destaques absolutos para o duo de cyber-jazz Tangtype e para os
desconstrucionistas pós-pós-rock Mikale De Graff) são colocados a par de
Peter Principle, dos saudosos Tuxedomoon, e de Benjamin Lew, assim
estabelecendo-se uma relação com um passado (década de 1980) representado
pela Made to Measure, quando a Bélgica estava bem no centro da edição de
música “alternativa”. A mensagem pode ser subreptícia, mas está à vista: a
Stilll apresenta-se como a herdeira desse dinamismo e pretende ganhar a
mesma importância. Não temos dúvidas de que conseguirá.
(12-05-2006)
«Conceal»:
1. Jardin Opening
2. Smashed Computers and Bad Luck
3. Sleeping in a Strange Bed
4.
Grafted Guitars of Unopened Train Doors

5. Ne se Soucier de Rien
6. Kidney’s Crash
7. Des Routes Ensoleillées
8.
Cello for Sudden Goodbyes

«Sound Inside»:
1. You Landscape
2. Acoustic Memories
3. Through Tides
4. The Same Old Throb
5. Streams Go Blind
6.
Headfirst

7. Wandering Clouds
8. Thousand Leaves
9. Fathers Falling
+ Exclusive video track “Blue Spring” from the Tokyo Reels DVD
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excertos do álbum
«CD»:
1.
Three Laps
2. Touch The Tiger
3. Brest
4. I Got Two Hands
5. Pain Au Chocolat
6. Hotel
7. Jump On Foot
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«It Is Impossible To Say Just What I Mean»:
1.
Farther From Where We Came

2. Cold As Your Eyes Can Be
3. A Matter of Feeling
4. Folly Adieu
5. Lonely Faces, Passers By
6. Elliott Goodbye, Denouement
7. Faint, Wishful Thinking
8. One Moment
9.
Gently Down The Stream

«Stilllysm – An Experimental Pop
Compilation By The Stilll Label»:
1. Mikale Degraff - Dream Feet
2. Ghislain Poirier - They Believe
3. Holiday For Strings - I Got Two Hands, Three Thumbs On Your Fingers
4. Aoki Takamasa - Walking With Polco
5. Tangtype - Unwinking Transmission
6.
Nox - Nonna

7.
Mitchell Akiyama - Early Wake

8. Musiques Automobiles - Le Bocal de Tom
9. Off The Sky - Holiday Crash Plan
10. Peter Principle / Ecco Bravo - Do You Feel Five
11. Viktor Sjoberg - No Beginning
12. Christophe Bailleau and Won - Blue String
13. Arden - Locked in the Attic
14. Immune - Headfirst
15. Wixel - Karen Ikea
16. Benjamin Lew + Alinovsky + aMute - Still Here

Ariel
Pink’s Haunted Graffiti 5
«House Arrest»
CD Paw Tracks, € 18,50
Reedição do CD da editora dos Animal Collective que tornou Ariel "Pink"
Rosenberg na nova coqueluche da pop DIY (um contrasenso que ele neutralizou de
uma vez por todas, demonstrando que o género pode ser congeminado entre as
quatro paredes de um quarto, com apenas um gravador de cassetes de oito pistas),
"House Arrest" tem a ambígua condição de algo que nos parece chegado dos anos
1970 (quem não estiver avisado pensará que se trata de uma gravação perdida de
Syd Barrett, e houve mesmo quem dissesse que as suas canções poderiam ter sido
compostas por Charles Manson, se tivessem deixado este encher a sua cela de
instrumentos), mas que ao mesmo tempo se julga votado a reinventar o formato em
causa, senão a própria estética subjacente. Há vários indícios que nos levam a
tirar esta conclusão, como a ausência de produção, que é o fundamento da pop
"mainstream", muitas vezes mascarando a real incapacidade de cantores e
instrumentistas, ou o facto de substituir a característica leveza dos temas
("Hardcore Pops Are Fun" será aqui a excepção) por uma melancolia que nos
incomoda e nos faz até ter pena do rapaz. Nada, como se verifica, que uma
"major" colocasse no seu catálogo, dado o propósito de entreter as massas
e de as manter alegres e saltitantes - como se sabe, a pop tende nos nossos
dias a ser um Prozac sonoro. Tal procedimento leva Ariel Pink a expor-se mais
do que seria razoável para alguém que não se estivesse nas tintas, pois torna-se
claro que não domina as guitarras e os teclados de que faz uso, e que a sua
vida pessoal não é propriamente um passeio no parque. Seja como for, este disco
é uma declaração de amor à dita pop, ainda que vinda de alguém que ou não teve
a possibilidade de se unir carnalmente à sua amada ou que deseja manter
platónica a sua devoção. Daí que esta "falsa pop" seja algo disforme e
excessiva, não coisa assumida mas um pastiche ou um clone imperfeito, suja,
"noisy" e por vezes até caótica. Ora, é isso mesmo que faz o encanto das
propostas de Rosenberg. "Pop music is free/ For you and me/ Pop music's your
wife/ Have it for life/ Pop music is wine, it tastes so divine", canta ele, sem
receio do ridículo de manifestar a sua gula por uma droga altamente viciante. A
autêntica pop nunca se referiria a si mesma deste modo - só alguém que vem de
fora o poderia fazer tão impunemente.
(10-03-2006)
1.
Hardcore Pops Are Fun 
2.
Interesting Results 
3.
West Coast Calamities 
4.
Flying Circles 
5.
Getting High In The Morning 
6.
Helen 
7.
Every Night I Die At Miyagis 
8.
House Arrest 
9.
Alisa 
10.
The People I'm Not 
11.
Almost Waiting 
12.
Oceans Of Weep 
13.
Netherlands 
14.
Higher & Higher 
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Ariel
Pink
«Pedestrian Pop Hits» CDEP
Latitudes, € 12,50
Não vale a pena tentarem
decifrar o título deste EP procurando esclarecimento na única faixa de 17
minutos. Não há “hits” pop reconhecíveis em “Pedestrian Pop Hits”, e
quanto a uma possível condição “pedestre” só se colocarem o CD num walkman
e derem uma volta pelo bairro chegarão lá perto. Mas sem dúvida que há
alguma pop, embora triturada no psicadelismo geral desta intrigante
música, só não chegando ao mais convicto “freak out” (na visão colorida de
uns Animal Collective, grupo com o qual teremos de continuar a associar
Ariel Pink) porque não se trata de uma improvisação em grupo mas da
montagem de várias gravações sobrepostas com o dito a tocar todos os
instrumentos, tal como no álbum de estreia, “The Doldrums”. E sim, ao que
parece novamente com a boca a fazer as vezes da percussão – isto apenas
porque ele não sabe tocar bateria, pois diz faltar-lhe a coordenação
necessária, e porque nunca conseguiu aprender a usar uma drum machine, o
que nós até agradecemos. Haja sempre quem faça as coisas de maneira
diferente. Afirma Ariel Pink que tem um défice de atenção e que é
demasiado zeloso no que se refere a perder o controlo, pelo que está
explicada a razão porque nunca chega a fazer uma canção que possamos
simplesmente caracterizar como pop. A máxima Do It Yourself por ele
assumida não o permite...
(24-02-2006)
1. Pedestrian Pop Hits

Ariel Pink’s Haunted Graffiti
«Worn Copy»
CD Paw Tracks, € 17,50
O único artista da Paw Tracks
que não pertence aos Animal Collective vem à estampa
com um disco pop que é tão inusitado e desconcertante
quanto o género o permite, não só pela associação
de estilos por que passa (Paul McCartney, Brian Eno e Syd Barrett
são apenas três nomes de que nos podemos lembrar durante
a audição, bem como os grupos Duran Duran ou The Cars),
como também pela forma com que faz as coisas. Por exemplo,
os sons de bateria são todos produzidos com a sua própria
boca. Mas não só: até as letras de Ariel Pink
não correspondem ao figurino estabelecido, por exemplo quando
canta “the human race is a pile of dogshit”, acusando a humanidade
de ser toda ela nazi. Imaginam a Kylie Minogue a fazer o mesmo?
Não, pois não? O que “Worn Copy” nos traz vem na linha
de reciclagem dos desperdícios da “trash music” da segunda
metade do século XX operada pelos Mr. Bungle em “California”,
descontando, é claro, as erupções metálicas
e colocando no seu lugar harmonias vocais à maneira dos Carpenters.
Ariel trata a canção pop como se fosse “easy listening”
de restaurante chinês ou paisagem sonora tipo “ambient music”,
ou seja, como um ruído de fundo que tivesse como exclusivo
propósito prefigurar o silêncio – pela evidenciação
deste até, que não pelo seu mascaramento. De resto,
tudo nos surge como que banhado numa névoa impenetrável,
como se estivéssemos a ouvir ecos de um rádio ligado
no apartamento ao lado. É nesse tipo de abordagem que está
a sua atitude experimental, não propriamente na utilização
de formas abertas, sons não musicais ou técnicas extensivas
de manipulação dos instrumentos, o que seria o mais
comum. E é do reconhecimento mesmo das suas citações
estilísticas descontextualizadas e articuladas com outros
elementos que surge a impressão de estranheza sentida ao
ouvirmos este disco. Se Frank Zappa e depois dele John Zorn cunharam
o modelo da colagem, o que este projecto oferece é outra
coisa, prensagem de materiais, como se se tratasse de plasticina
de várias cores. O mais radical dos mixes, em suma. Estamos
em pleno reino do pastiche como metodologia criativa e do kitsch
como estética, ainda que, por uma vez que seja, com gosto.
Coisa, aliás, que não julgaríamos possível...
(30-09-2005)
1. Trepanated
Earth 
-----trepan earth overture
-----heavens hotter than hell
-----trepan reprise
2. Immune to Emotion
3. Jules Lost His Jewels
4. Artifact
5. Bloody! (Bagonia's)
6. Credit
7. Life
In L.A. 
8. The Drummer
9. Cable Access Follies
10. Creepshow
11. One On One
12. Oblivious
Peninsula 
13. Somewhere
in Europe/ Hotpink! 
14. Thespian City
15. Crybaby
16. Foilly Foibles/ GOLD
17. Jagged Carnival Tours

Arizona
Amp and Alternator
«Arizona Amp and Alternator»
CD Thrill Jockey, € 18,50
Quem se apresenta sob tão enigmática designação
é nem menos do que Howe Gelb, o motor e a alma dos Giant Sand. E
que grande disco este é, com resonâncias de Neil Young, Lou Reed,
Tom Waits e Nick Cave espalhados em boa medida por entre toda a
Americana. “Arizona Amp and Alternator” é a música do deserto (imaginem
um velho chevrolet parado no meio de nenhures com Gelb sentado ao
volante a observar lagartos e cascaveis enquanto o rádio está sintonizado
numa estação de bom rock and roll yankee), produzido segundo um
conceito caro ao músico: “If it ain’t broke don’t fix it”. No “booklet”
lê-se que este é um grupo sem membros, o que só quer dizer que foi
constituído unicamente para gravar este álbum, e eles fazem-se ouvir,
entre membros dos Grandaddy e dos Arcade Fire, John Parish, M. Ward
e mais uns quantos de que deste lado do oceano nada sabemos, incluindo
uma cantora dinamarquesa,.Henriette Sennenvaldt, que nos confirma
o quão larga é a asa do falcão. E um inglês, Scout Nibblet, considerado
mais americano e mais sulista do que um baptista do Mississipi.
Como o mesmo Gelb é peremptório em esclarecer, este é o “old sound”
dos EUA em todo o seu esplendor, e se “the country man think’s you’re
rock and the rocker says you’re not right”, bom... fuck them. O
certo é que o country rock revive nestas canções como poucas vezes
tem havido oportunidade nos últimos tempos. Johnny Cash deve estar
a sorrir, lá nos confins do inferno.
(28-10-2005)
1. Velvet and Pearl
2. Where the Wind Turns the Skin to Leather
3. AAAA (1)
4. Low Spark of High Heeled Boys
5. Man on a String
6. Bottom of the Barrel
7.
AAAA (2)

8. Can Do Girl
9. Blue Blue Marble Girl
10.
Baby It's Cold Outside 
11. Re-Entry
12.
Loretta and the Insect World 
13. AAAA (3)
14. Talula and the Last Straw
15. Vows
16. AAAA (4)
17. Recital
18 .The Leaving You
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Arp
«In Light»
CD Smalltown Supersound, € 15,95

"In Light" é um álbum luminoso de música pulsante e quente. É música que poderá
sugerir um futuro que nunca chegará. Ou, como as imagens que ilustram a capa e o
livro, poderá ilustrar memórias que vão e vêm da nossa mente. Como sonhos ou
momentos ricos e saturados que nos fazem perder a noção do tempo, a música de "In
Light" é como velhas fotografias, velhos filmes das nossas próprias experiências
e momentos importantes da vida. Chamem-lhe pop minimalista, pop cósmico, ou
minimalismo cósmico. O que quiserem...
Arp é o mais recente projecto de Alexis Georgopoulos, artista de São Francisco
que cresceu em França, na Grécia e nos Estados Unidos, e que foi um dos membros
fundadores dos Tussle e dos The Alps.
Na Primavera de 2006, após desempenhar o papel de principal compositor em "Telescope
Mind" dos Tussle, Alexis deixou o projecto. Logo a seguir o crítico da Artforum
e organizador artístico da White Columns Matthew Higgs convidou-o para fazer
parte de uma exposição na New Langton Center for the Arts. Tentando fazer algo
original, Alexis abandonou o baixo e a percussão e aventurou-se na improvisação
com sintetizadores analógicos, piano, flauta, pedais e um velho gravador de 4
pistas. Com essas gravações enviou uma demo à Smalltown que se mostrou
imediatamente interessada em editar um álbum completo.
Sinónimo do seu compromisso com a música electrónica natural (fazendo a ponte
entre o mundo natural e electrónico), a quase totalidade de "In Light" foi
gravado ao vivo, sem interrupções e montagens. Este gesto foi realizado com o
intuito de recuperar muito do natural que se perdeu na música electrónica de
hoje. O resultado, muito dele utilizado na exposição em colaboração com o
arquitecto Kyu Che, é um mundo vívido encantado de psicadelismo altivo que toca
em vários pontos do seu interesse, desde as explorações étnicas de Alice
Coltrane ao lado cósmico da Alemanha dos anos 70. Da música de bandas sonoras ao
minimalismo do séc. XX.
Podemos detectar vestígios - no elegante “St Tropez” por exemplo - dos velhos
Cluster ou Ralf & Florian. Nos propulsivos arpeggios de “Premonition of The
Sculptor Steiner” encontramos a influência do tão esquecido futurista italiano
Franco Battiato ou Takehisa Kosugi dos Taj Mahal Travellers. "Potentialities”
recorda o pulsar dos Harmonia bem como o transe hipnótico de Terry Riley.
“Fireflies On The Water” remete para o mundo instrumental dos álbuns rock de
Brian Eno. Tocando em todas estas influências, "In Light" é uma luz original e
extremamente interessante, mostrando sensibilidade e visão.
Este álbum será seguido por um single de 12" com remisturas de Panda Bear e dos
mestres do kraut Cluster. Os Arp fizeram também, muito recentemente, uma mistura
para Lindstrøm (a surgir num 12" na sua etiqueta Feedelity) e Charlotte
Gainsbourg (a sair na Vice Records).
1.
St. Tropez

2.
Potentialities

3.
Rising Sun

4.
Fireflies On The Water

5.
Premonition Of The Sculptor Steiner

6.
Odyssey

7.
Potentialities 2

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Art of
Noise
«And What Have You Done With My Body, God?»
4CD ZTT, € 49,50
A editora Zang Tuum Tumb (ZTT) é talvez um dos
casos mais emblemáticos da década de 80.
Responsável por um dos maiores fenómenos dessa
época - os Frankie Goes To Hollywood -,
foi uma fórmula de sucesso sem
paralelo, engendrada pelos seus criadores Trevor Horn e Paul Morley.
Para muitos, os anos de ouro
ocorreram entre 1983 e 1985, marcados
pelas edições dos FGTH, Propaganda e os mais enigmáticos Art of Noise.
Este último, um projecto criado por Horn
e Morley, e Anne Dudley, Gary Langan e JJ Jeczalik,
foi sem dúvida o mais carismático da ZTT,
com as suas criações electrónicas mais arrojadas e menos comerciais,
essencialmente virado para o trabalho de estúdio. Ainda
que Horn e Morley fosses os cérebros, Anne Dudley era o centro criativo, com um
invejável currículo de produção de material que ia desde
os FGTH aos ABC. O primeiro produto
resultante desta fórmula foi o mini álbum "Into Battle With the Art of
Noise" em 1983, com temas como "Moments in Love" ou "Beat Box" a
atingirem o pico de criatividade. Somente em 1984
seria lançado o primeiro álbum,
"(Who's Afraid Of?) The Art of Noise!", cujo single "Close (To the Edit)"
foi um sucesso estrondoso no Reino Unido. Foi também o ano que
marcou o final de uma fase, com a cisão entre Horn e Morley e o trio restante.
Ao contrário de todas as expectativas "(Who's
Afraid Of?) The Art of Noise!" acabaria por se tornar o único
álbum na ZTT.
A estadia dos AON na ZTT
foi extremamente curta, mas o material gravado e editado foi sem dúvida o
melhor de toda a sua carreira. É uma parte dessa fase que surge agora nesta
especial caixa com quatro CD's: versões e sessões que nunca haviam visto a luz
do dia. Estas ocorreram num dos períodos mais intensos e férteis de toda a
carreira do grupo - entre 1983 e 1985 -, e ainda que o produto final se tenha
tornado quase ubíquo - sendo frequentemente 'samplado' por artistas tão
diferentes como Janet Jackson e os Prodigy -, as demos, as versões alternativas,
as experiências de estúdio, no fundo a verdadeira génese dos Art of Noise, nunca
mais foram ouvidas. Trevor Horn, diz-se, tem a reputação de destruir tudo o que
não serve... "if you change course, erase the tapes and move on. Don't look
back". Ou talvez não... Ao que parece, a ZTT conseguiu o impensável. Na sua
procura pelos inúmeros estúdios onde os AON haviam
gravado - Sarm West, Sarm East, Angel, Utopia e Mayfair -, encontrou estas
preciosidades, julgadas desaparecidas para sempre. E aqui
estão elas, guardadas para a posteridade. E para o nosso proveito.
(20-10-2006)
Disco 1: The Very Start of Noise
1.
Beat Box (One Made Earlierࠩ

2.
Once Upon A Lime

3.
War (Demo 2)

4.
Close To The Edge

5.
Confession

6.
Moments In Love

7.
Sign Of Relief

8.
Who's Afraid Of Scale

9.
So What Happens Now (Take 2)

10.
The Subject has Moved Left

11.
It's Not Fair

12.
Close To The Edge (Ruff Mix)

13.
A Time For Fear (Who's Afraid)

14.
Moments In Bed

Disco 2: Found Sounds and Field Trips
1.
Moments In Love (12" B Side Idea)

2.
Tears Out Of A Stone

3.
Samba #2

4.
The Chain Of Chance

5.
Fairlight-in-the-Being

6.
Diversions 3

7.
Close (To Being Compiled)

8.
Diversions 5

9.
Damn It All!

10.
Structure

11.
The Angel Reel: Hymn 1 (Take 2)

12.
The Angel reel: Hymn 3

13.
The Angel Reel: Fairground

14.
And What Have You Done Wity My Body, God?

15.
Klimax

16.
Who Knew?

Disco 3: Who's Afraid of...
Goodbye
1.
War (Demo 4)

2.
The Focus Of Satisfaction

3.
Moments In Love (7" Master Rejected)

4.
It Stopped

5.
The Uncertainty Of Syrup

6.
The Long Hello

7.
The Vacuum Divine

8.
The Ambassador's Reel: Beat Box

9.
The Ambassador's Reel: Medley

10.
The Ambassador's Reel: Oobly

11.
Goodbye Art Of Noise

Disco 4: Extended Play
1.
Battle

2.
Beat Box

3.
The Army Now

4.
Donna

5.
Moments In Love

6.
Bright Noise

7.
Flesh In Armour

8.
Comes And Goes

9.
Moment In Love

10.
That Was Close

11.
Moments In Love + Love Beaten

12.
Love Beat

13.
In Case We Sneezed

14.
A Time To Hear (Who's Listening)

15.
(Do) Donna (Do)

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Arve
Henriksen
«Strjon»
CD Rune Grammofon, € 16,50

“Strjon” só não é um disco dos Supersilent porque
o protagonismo de Arve Henriksen é óbvio, mas os companheiros deste no
supergrupo norueguês constam na ficha técnica e Helge Sten, mais conhecido por
Deathprod, tem mesmo responsabilidades de produção. É o terceiro a solo do
trompetista que aqui também utiliza teclados, com a mais-valia de não repetir o
que já apresentou nos álbuns anteriores. Assim sendo, este novo CD não tem a
dimensão Zen de “Sakuteiki” nem a melancolia de “Chiaroscuro”, sendo aquele que
conta com maior presença da electrónica. Para este trabalho inspirou-se na sua
cidade natal, Stryn (Strjon era o seu nome na Idade Média), situada na Costa
Oeste da Noruega, e nos contrastes da paisagem circundante, ora com grandes
avalanches nas montanhas durante o Inverno (atenção à guitarra eléctrica de Sten
em “Black Mountain”), ora emanando uma grande tranquilidade no Verão (detectável
em “Wind and Bow”). A sonoridade única do seu trompete continua o que lhe
conhecemos, inspirada no shakuhachi japonês, com bastante lastro em “Green Water”,
na qual ouvimos também o piano preparado de Stale Storlokken, algures entre John
Cage e Conlon Nancarrow. A criatividade mantém-se igualmente alta e este registo
não desmerece dos anteriores, antes pelo contrário – recomendado. (09-03-2007)
1.
Evocation

2.
Black Mountain

3.
Ascent

4.
Leaf and Rock

5.
Ancient and Accepted Rite

6.
Twin Lake

7.
Green Water

8.
Alpine Pyramid

9.
Wind and Bow

10.
Strjon

11.
Glacier Descent

12.
In the Light

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Também disponíveis:

Asmus Tietchens
«Eine Ganze Menge»
CD3" 1000Füssler, €9,40
As três pequenas peças, ou "figuras sonoras autogeradas",
como Asmus Tietches as designou, que integram este mini-CD podem
ser sobras da série "Mengen", mas vivem neste disco como
objectos à parte, com existência própria e um notável sentido de
depuração sonora e essencialidade. Sinusóides e ruído branco foram
projectados pelo compositor alemão em grandes espaços vazios, com
o propósito de retratar a desumanização de construções arquitectónicas
que, supostamente, deveriam ter uso humano, e o resultado gravado
tal como aqui podemos ouvir. Tietchens tem uma longa carreira que
vem desde a década de 1960 e que passou pelas mais variadas tecnologias
e tendências estéticas, desde a "cosmic music" germânica
até às suas actuais colaborações com Thomas Koner sob a designação
Kontakt der Junglinge, em homenagem a Stockhausen, passando pelo
easy listening, o ambientalismo, a música concreta e o industrialismo,
de que chegou, aliás, a ser um dos mais destacados representantes
no domínio da electrónica.
(18-03-2005)

At
Swim Two Birds
«Returning to The Scene of the Crime…»
CD Green Ufos, € 15,95

Metade dos Montgolfier Brothers de Manchester e
agora abrigado sob a designação At Swim Two Birds, título de um estranho livro
do escritor irlandês Flann O’Brien, Roger Quigley já foi um apaixonado fã dos
The Fall e a música que fazia chegou a ser um inesperado misto de Durutti Column
e Tindersticks, mas com “Returning to the Scene of the Crime” encontramo-lo num
registo mais “folky”. E no entanto, uma parte do que aqui está já ele o tinha
feito antes, e de resto apresentado em “1969 Till God Knows When...”. Quando lhe
foi proposta a reedição desse álbum, em vez de ficar apenas pela remasterização
ou até pela remistura preferiu gravar tudo de novo, incluindo canções que aí não
constavam. O resultado é um “striptease” musical, em que tudo funciona ao
serviço da sua voz, das palavras que canta e da guitarra acústica que as
sustenta. A fórmula está mais próxima da natureza da poesia de Quigley, que fala
dos desesperos quotidianos de gente comum e em especial da classe operária da
sua cidade natal, apresentando-se finalmente como uma música de pub. A verdade
compensa sempre na arte, mesmo quando é entendida como um “regresso à cena do
crime”... (26-01-2007)
1. In Bed With
Your Best Friend
2. Giggling Fits
3. The Smell Of Suntan Oil On Your Skin
4. Falling From Trees
5. Returning To The Scene Of The Crime
6. Down By The Stream
7. Laziness And The Lack Of The Right Medication
8. My Luck Is Turning
9. Wine Destroys The Memory
10. A Kind Of Loving
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álbum

Audion
(aka Matthew Dear)
«Suckfish»
CD Spectral Sound, €
15,95

AComo aconteceu em
anteriores edições de Matthew Dear sob a designação Audion, a música de
dança de “Suckfish” alude a práticas libidinosas (ou implica-as) mais
agitadas do que simplesmente dançar. E face ao que aqui se ouve é melhor
não pensar em longos e suaves enlaces tântricos e sim em sexo urgente e
brutal, aquele que todos os vizinhos do prédio ouvem através das paredes.
Os títulos das peças que se vão sucedendo não deixam as interpretações ao
acaso, como “Titty Fuck”, “Taut”, “Rubber” ou “Just Fucking”, bem como as
suas estruturações ascensionais, em direcção a um climax que nunca
encontra alívio, nova cavalgada tendo início logo a seguir – talvez porque
as personagens desta história sejam máquinas e não pessoas. Mas não se
pense que falta sensualidade e subtileza a este disco – se o “beat” é
implacável, na linha do techno puro e duro, o resto tem uma dimensão
“acid” e psicadélica que indica bem o carácter elaborado deste trabalho.
Para todos os efeitos, este é o mesmo Matthew Dear que gravou sob o seu
próprio nome o álbum de electro-pop elegante “Leave Luck To Heaven”. E
atenção a um pormenor: “Suckfish” vem de Detroit, o que evidencia que na
cidade-berço deste tipo de sons algo de novo está a acontecer. A capital
do techno continua viva, não se contentando com ser apenas uma referência.
Essa mesma localização geográfica faz com que a presente proposta
futurista (há mesmo algo aqui do universo da ficção científica cyber-punk,
com alusões a coitos entre humanos e robots) reproduza as raízes do estilo
em que alinha, não surpreendendo que oiçamos sintetizadores analógicos ou
detectemos elementos característicos do velho funk. Resumindo e
concluindo: muito dificilmente encontrarão melhor do que isto no planeta
techno.
(06-01-2006)
1. Vegetables
2. Your Place or Mine
3. T*TTY F*ck
4. T.B.
5. Kisses
6. Wield
7. Taut
8. Rubber
9. Uvular
10. The Pong
11. Just F*cking 

August Born
«August Born»
CD Drag City, € 16,50

Este é um dos tais discos que
não existiriam se não houvesse aviões e uma
instituição chamada correios, isto porque August Born
(não, não é uma pessoa - o nome deve-se apenas
ao facto de este CD ter "nascido" em Agosto) é
o identificativo conjunto de dois músicos que vivem em locais
opostos do globo, o americano Ben Chasny, que conhecemos já
dos Six Organs of Admittance e dos Comets on Fire, e o japonês
Hiroyuki Usui, o ex-Fushitsusha e ex-Ghost também conhecido
por L. Um deles gravava umas coisas (Chasni com a voz e a guitarra,
Usui com uma segunda guitarra e uma segunda voz, mais tudo o resto:
banjo, baixo, violoncelo, vibrafone, bateria, harmonium, tambura,
didgeridoo, "field recordings", etc.) e enviava ao outro
para acrescentar, alterar, misturar. O ponto de partida foi (é:
"August Born" começa assim) desconcertante: os
sons causados pela abertura de uma cova para enterrar um pássaro
morto. A primeira impressão que temos é a de que se
trata de uma colagem de sketches, mas à medida que se avança
tudo vai ganhando forma e encadeamento, a folk e os blues mesclando-se
com uma boa dose de experimentalismo e espiritualidade. Aliás,
esta parece uma música devocional, ritualista mais do que
performativa, com a pontuação, por exemplo, de sinos
budistas. Um capítulo mais, e deveras interessante, da saga
"freakout" que vem conquistando tantos adeptos nos Estados
Unidos e no Japão. Decididamente, o psicadelismo dos Sixties
está de volta, ganhando feições que nessa altura
lhe desconhecíamos. Conta a história que o responsável
por esta troca de sons e ideias foi o jornalista e crítico
Alan Cummings (Wire), que os apresentou e incentivou a corresponderem-se,
primeiro por e-mail, depois através de CD-Rs colaborativos.
E porque Hiroyuki Usui não domina o Inglês, nem Benjamin
Chasny compreende o Japonês, houve alguns problemas de comunicação,
mas tanto melhor, pois a música resultante ultrapassa os
limites da racionalidade e impõe-se enquanto linguagem universal.
"Birds and Sun and Clay" é um dos grandes momentos
da colecção, com os versos "what makes your day
/ birds and sun and clay" a darem corpo a um mantra de efeito
introspectivo. A morte é o tema sempre retomado, e a esse
nível esta é uma arte de aceitação face
à evidência da perenidade humana, sem depressões
nem tratamentos góticos ou qualquer tipo de dramatização.
A tranquilidade destas quase-canções chega mesmo a
ser desconcertante. Um exemplo de como a beleza não tem de
ser "bonita" para a reconhecermos como tal...
(09-09-2005)
1. Blues To Begin
2. Dead Bird Blues
3. A
Thousand Butterflies 
4. More Dead Bird Blues
5. Last Breath Of The Bird
6. Birds & Sun & Clay
7. Song Of The Dead
8. Providence
9. A Lot Like You
10. You Will Be Warm

Awesome
Color
«Awesome Color»
CD
Ecstatic Peace!, € 15,95

Os Awesome Color são um power trio com apenas 9 meses de idade,
mas que rocka como quem o faz e sabe fazer há muitos anos. Derek Stanton assume
o leme da banda, com uma voz intensa, mas sobretudo com uma guitarra tão potente
que desafia a corrente eléctrica a cada riff e que explode em inúmeros solos
poderosos. O baixo de Michael Troutman faz a cama à guitarra e deixa-a voar. A
bateria de Allison Busch marca o compasso com uma batida seca e sincopada, cheia
de pratos. O todo produz aquele rock que vai beber à mesma fonte dos anos 70
onde bebem os Comets On Fire, se bem que menos ácidos, mas igualmente
energéticos. Uma energia que presta reverência a Black Sabbath e a Jimi Hendrix
que só podia ganhar expressão na Ecstatic Peace!, a editora de Thurston Moore,
que apadrinha este primeiro disco como o produtor e primeiro entusiasta da
banda. São 35 minutos que deixam água na boca, o que só pode ser um bom sinal,
onde apetece destacar a harmónica no estridente “Unknown” e o duelo saxofone-guitarra no épico inebriante a fechar o álbum que é “Animal”. Se bem
que nenhum dos outros 6 temas fique atrás, nomeadamente os candidatos a hit
(dentro do género, claro está) “Free Man” e “Hat Energy”. Segundo diz quem já
teve o privilégio, o nome Awesome Color ainda faz mais sentido como metáfora de
“jam session” quando se assiste ao fenómeno em um concerto, onde os 35 minutos
referidos são largamente ultrapassados e podem ir até onde estes três músicos
quiserem. Covas Dauro in
Escape From Noise
(07-09-2007)
1.
Grown

2.
Ridin’

3.
Free Man

4. Unknown
5.
It’s Your Time

6.
Hat Energy

7.
See Your Hear You

8.
Animal

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Balanescu Quartet
«Maria T»
CD Mute Records, €17,95
O Ocidente não a pôde
ouvir então (morreu em 1963) devido às circunstâncias
políticas vividas pelo seu país, a Roménia,
mas o violinista e compositor Alexander Balanescu tenta contrariar
tal facto com este "Maria T", homenagem à cantora
popular e actriz romena Maria Tanase, a Edith Piaf da mais esquecida
das nações europeias. Chegamos até a ouvir
a sua voz sobre o trabalho do Balanescu Quartet, quarteto de cordas
"clássico" que tem granjeado o seu prestígio
em muitas áreas da música de hoje - devêmo-lo
às capacidades recuperadoras da tecnologia que está
ao serviço da arte dos sons. E que voz, e que figura, reproduzida
fantasmaticamente na capa deste belo disco que nos transmite toda
a profunda melancolia do povo (termo caido em desuso, nós
sabemos, nas sociedades ditas pós-capitalistas em que só
existem "populações") que Ceausescu vergou
durante décadas. Esta é só a parte áudio
do projecto "Maria T", um espectáculo "intermedia"
que conta igualmente com o vídeo de Klaus Obermaier, mas
funciona muito bem por si própria. Saber que Balanescu trabalhou
com Michael Nyman em vários filmes de Peter Greenaway e que
o seu percurso passou por colaborações com John Lurie,
Ornette Coleman , Pet Shop Boys, Goldfrapp, Kraftwerk ou To Rococo
Rot diz pouco sobre o que encontramos neste disco que deve tanto
ao folclore cigano da Roménia como à composição
contemporânea. E ainda à bateria jazz de Steve Arguelles
ocasionalmente acrescentada...
(08-04-2005)

Barbed
«Doubleclick Countryside EP»
3"CD LOAF, € 14,50

Este disco é uma longa viagem através da pop
animada, do jazz meditativo, dos sons orientais, da música lounge dos anos 50,
da philly soul, do folk contemporâneo e da música clássica. E é também um
pequeno disco. Cada canção vive e respira no seu pequeno mundo.
Barbed são Alex e Alex (respectivamente Burrow e McKechnie), responsáveis pelo
clássico ‘plunderphonic’ "Barbed", lançado em 1994 na These/Recommended Records.
Veteranos de estupidamente longos concertos com os semelhantes Negativland,
People Like Us e The Tape Beatles, acabaram por se juntar a uns embriónicos Add
N to X, e também fornecer a banda sonora para o clássico "The Man Who Couldn’t
Feel" de Joram ten Brink. Colaboraram ainda em inúmeras compilações, álbuns ao
vivo e remisturas.
No entanto também tiveram tempo para criar uma música diferente, uma que é ao
mesmo tempo familiar e no entanto estranha. Pop suave com espinhos escondidos,
música farpada (barbed), como o arame, e eles próprios.
(29-06-2007)
“Barbed, the reclusive black-sheep of the UK
experimental family” Motion
1.
Doubleclick Countryside

2.
Slow Jazz
3.
$50 Story
4.
Philadelphia
5.
A Tiger High
6.
Swing
7.
How About Some Dragonflies?

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Basil Kirchin
«Abstractions of the Industrial North»
CD Trunk Records, € 19,95
Kirchin ausentou-se do convívio dos
vivos no passado mês de Junho, mas a sua música teria caído no esquecimento
há muito se não fossem os esforços de recuperação da sua obra por
parte de Jonny Trunk, um ex-designer de publicidade convertido à
edição discográfica e ao coleccionismo de bandas sonoras de filmes
e de fotos eróticas e pornográficas da primeira metade do século
XX. Entre o jazz, o “easy listening” e a experimentação, este mítico
nome da música britânica das franjas na altura em que o Norte da
Inglaterra era mesmo industrial tem em “Abstractions of the Industrial
North” a sua mais conseguida “soundtrack” de uma longa-metragem
que nunca existiu, com uma associação de instrumentos surpreendente
para a época (foi gravado em 1966) que inclui cravo, saxofone soprano,
marimba e guitarra, esta tocada por Jimmy Page quando ainda os Led
Zeppelin não existiam. Não surgem aqui as ousadas manipulações de
fita que encontramos em “Quantum”, a sua obra-prima (com outro nome
que se tornou famoso entre os seus intérpretes, o saxofonista Evan
Parker), e verdade se diga que os procedimentos utilizados são os
convencionais da música para cinema, mas o trabalho composicional
revelado nestas faixas nada tinha a ver com o que então se fazia,
mesmo quando adquire feições “lounge”. Basil Kirchin estava declaradamente
à frente do seu tempo e ainda hoje podemos considerar as suas ideias
musicais como vanguardistas, se é que este termo ainda quer dizer
alguma coisa, dado o desgaste que foi sofrendo. Aliás, coisa que
a vanguarda nunca tolerou foi ter uma natureza popular, e o certo
é que este filho de um condutor de big band era um músico popular,
marginalizado de facto, pouco reconhecido, mas popular por condição.
Brian Eno, o pai da “ambient music” e da pop mais sofisticada que
hoje se faz, diz-se seu discípulo, assim como os experimentalistas
Nurse With Wound, saídos do universo do rock dito “pós-industrial”.
Incluídas no CD estão peças bónus de Kirchin, Jack Nathan e John
Coleman com a mesma formatação cinematográfica e também elas pouco
ouvidas antes, o que é uma mais-valia extra desta edição. Resta
saber o que ainda está guardado no baú deste grande inovador, mas
com certeza que Trunk anda por lá a vasculhar.
(26-08-2005)
1. Prelude And Dawn
2. Heart Of The North
3. The Observer
4. Conclusion
5. Neautral Background
6. Reflection
7. Packing, Printing And Light Assembley
8. Research Laboratory
9. Communication
10. Lunch Hour Pops
11. Heavy Machinery Misc Basil Library Cues
12. Mind On The Run
13. Where To Go
14. Paranoia
15. Two And Two Are One (Part One)
16. Viva Tamla Motown
17. The Lonely Ones
18. Pageing Sullivan
19. Interatcion
20. Four Against Seven

Batfinks
«Towards The Pipet»
3"CD LOAF, € 14,50

Batfinks nasceu em 2008 menos 26 anos em
Manchester. Vivendo com a sua família, o seu pai costumava "agredi-lo" (e ao seu
irmão David) com sons de banjo. Depois, após o chá, por volta das 8, eram
"forçados" a ir com o seu pai a várias salas de Manchester ouvir velhos temas
populares da década de 20. Batfinks fugia depois para casa e tentava limpara sua
mente com o que quer que encontrasse na rádio...
Nos primeiros anos de escola foi apresentado a um certo Jim Noir. Imediatamente
começaram juntos a criar algo, e nos 18 anos seguintes fizeram só isso, criaram
sons ridículos, impensáveis, quebraram instrumentos, etc. Batkinks mais tarde
viria a conhecer Arie Bolt, cuja voz peculiar parecia encaixar perfeitamente nas
suas criações com Jim Noir. Tudo parecia encaminhar-se e assim lançou alguns EP's através da Hippocamp de Jonathon Fisher e fez uma remistura para o 12" "Gioco"
de Sirconical, atraindo a atenção do público em geral. Algumas criações suas
chegaram às mãos da Lo Recordings, que optaria por lançar um trabalho através da
sua sucursal LOAF - este "Towards The Pipet".
E que bela e maravilhosa obra é esta. Pop tão distorcido (não a nível sonoro mas
a nível de ideias) e fora do vulgar que automaticamente nos apaixonamos por ele.
(29-06-2007)
1.
Peppercorn 
2.
Futt
3.
And So...
4.
Im Ylearning 
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Battles
«EP C/B EP»
2CD EP Warp, €
17,50
Precisamente na altura em que os
militantes do pós-rock se meteram a fazer outras coisas e esse termo caiu
em desuso, substituído pela mais neutra e cuidadosa designação “rock
instrumental”, eis que um grupo chamado Battles se atreve a voltar aos
fundamentos desta tendência, os propostos há uma década. Aliás, não é por
acaso que encontramos algo em “EP C/B EP” (resultado da junção na
Inglaterra de dois EPs lançados nos EUA em 2004) que nos lembra o
excelente “Millions Now Living Will Never Die”, dos Tortoise dos
primórdios. E isso apesar de, em vez de dois baixos, os Battles incluírem
três guitarristas. A electrónica influi nos conceitos aplicados, mesmo
quando não é utilizada, o abstraccionismo sonoro ocupa por vezes o lugar
dos “riffs” e das rítmicas “groovy” e o trabalho composicional é
claramente mais elaborado do que no rock corrente, seja o de antes como o
de depois do dito pós-rock. Nada disto é inocente, obviamente. Entre os
quatro Battles, John Stanier desenvolve actividade paralela nos Tomahawk,
Tyondai Braxton é filho de peixe e sabe nadar (vindo directamente dos
meios da “avant garde”, teve como progenitor um senhor chamado Anthony
Braxton, o saxofonista de jazz que deu brado ao tocar com a banda noise
Wolf Eyes num palco canadiano), Ian Williams guitarra nos Don Caballero e
na mais esquizóide das formações, Storm & Stress, e David Konopka
passou pelos Lynx. Ou seja, nos percursos destes músicos inovação e
experimentalismo são características definidoras, e deles é de esperar
tudo menos conformidade. O que quer dizer que esta revisitação das
coordenadas de uma tendência que provavelmente até nunca existiu (o termo
“pós-rock” foi inventado por um jornalista da revista Wire) não tem
propósitos refundadores ou saudosistas – o que eles se propuseram foi
verificar como a música era antes de deixar de ser, a fim de percorrerem
outro caminho. A ver onde nos leva. Certo, certo é que Prefuse 73, nome de
referência da electrónica, é fã dos Battles e levou-os em digressão para
mostrar aos putos que, se o computador e os gira-discos são os
instrumentos mais populares de hoje, as guitarras ainda não fizeram tudo o
que podem.
(06-04-2006)
Disco 1: 1. SZ2
 2. Tras 3
 3. IPT2
 4. BTTLS
 5. Dance
 6. Tras

Disco 2: 1. B+T
 2. UW
 3. Hi/Lo
 4. IPT-2
 5. Tras 2
 6. Fantasy
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Belbury
Poly
«The Owl’s Map»
CD Ghost Box, € 15,95

À reciclagem sonomusical operada pela “sampling
music” e pelo DJing só faltava mergulhar nos arquivos de som da rádio e da
televisão, vulgo “library sounds”, e a tal tarefa se propôs a Ghost Box com o
rico espólio da BBC. “The Owl’s Map” é o segundo disco na etiqueta de Belbury
Poly, o nome sob o qual se esconde Jim Jupp, e se as coordenadas são as mesmas
do anterior “The Willows”, ou seja, as de uma muzak com um “twist” que nos leva
de imediato a concluir que não se trata simplesmente de música para elevador,
apresenta uma variedade de abordagens mais os ouvidos de um melómano. É
novamente muito Eighties, com directas alusões à pop electrónica daquele
período, mas com materiais que remontam às décadas de 1960 e 70, senão até mais
atrás. Casos da típica sonoridade dos sintetizadores “vintage”, do que com estes
fazia o krautrock cósmico de uns Kraftwerk, Tangerine Dream ou Popol Vuh e do
que ouvimos nas bandas sonoras da série televisiva “Dr. Who” e do filme
“Forbbiden Planet”. Uma mais-valia do disco é o facto de nos surpreender com uma
vertente mais “dark” precisamente na altura em que já concluíamos tratar-se de
uma graçola tematizada em torno do conceito de “kitsch”. Em algumas partes deste
novo álbum Jupp está, inclusive, mais próximo do seu parceiro de editora Eric
Zann, ou seja, com algo de “experimental” nos seus parâmetros composicionais. De
uma forma ou de outra, o certo é que este trabalho conjura um passado que nunca
o foi (passado, entenda-se), tal como alguma crítica escreveu, pela
circunstância, afinal de contas, de que esse passado continua a ser o nosso
presente. A prova está aqui. (26-01-2007)
1. Owls and Flowers
2.
Rattler's Hey

3. The Moonlawn
4. Music, Movement & Meaning
5. Wetland
6.
Tangled Beams

7. The People
8. The New Mobility
9.
Pan's Garden

10. Lord Belbury's Folly
11. Scarlet Ceremony
12. Your Way Today

Bert
Jansch
«The Black Swan»
CD Sanctuary, € 16,95
Diz-se que o escocês Bert Jansch influenciou
luminárias da música popular anglo-saxónica como Nick Drake e Neil Young (este
afirmou mesmo nos Sixties que ele era o “Jimi Hendrix da guitarra acústica”), e
se é certo que actuou com o Sr. Crazy Horse num concerto de beneficência em
Outubro passado que mais pareceu uma homenagem às suas contribuições para a
inovação das técnicas guitarrísticas, este consagrado da folk está longe de se
ter tornado numa personalidade histórica, o tal que batia Bob Dylan nos “charts”
britânicos. O muito fresco e surpreendente “The Black Swan” aí está para o
comprovar, contando, aliás, com a colaboração de um nome da novíssima geração do
outro lado do Atlântico, Devendra Banhart. Não é o único: também aqui estão Otto
Hauser dos Espers e dos Vetiver e Helena Espvall daquele primeiro grupo. Até o
produtor, Noah Georgeson, é um dos grandes da “weird folk”, tendo trabalhado já
com Banhart e com Joanna Newsom. E que maravilha de guitarrista “finger picking”
continua Jansch a ser, sempre seduzido pela lógica dos blues e com uma voz de
barítono a condizer. Até Jimmy Page tece loas a este antigo membro dos Pentangle:
“Quando o ouvi pela primeira vez nem podia acreditar. Ele estava muito à frente
de tudo o que se fazia.” Estava então e pelo que aqui se ouve está ainda,
fazendo lembrar até outro grande revolucionário do instrumento, John Fahey.
Oiçam “Katie Cruel” e espantem-se.
(24-11-2006)
1.
Black Swan

2.
High Days

3.
When The Sun Comes Up (Bert Jansch & Beth Orton)

4.
Katie Cruel (Bert Jansch & Beth Orton/Devendra Banhart)

5.
My Pocket's Empty

6.
Watch The Stars (Bert Jansch & Beth Orton)

7.
A Woman Like You

8.
Old Triangle

9.
Bring Your Religion

10.
Texas Cowboy Blues

11.
Magdalina's Dance

12.
Hey Pretty Girl

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Betty
Davis
«Betty Davis»
CD Light In The Attic, € 17,50

Betty
Davis
«They Say I'm Different»
CD Light In The Attic, € 17,50

Não se pode pensar na música de
artistas como Outkast, Prince, Erykah Badu, Rick James, The Roots, ou mesmo os Red Hot Chili Peppers no início da sua carreira, sem pensar na influência
que Betty Davis teve nesses projectos. O seu particular estilo funk desafia a
noção de que as mulheres não podem ser visionárias no mundo do rock e da pop. Em
anos mais recentes, rappers de Ice Cube a Talib Kweli ou Ludacris referiram-se à
sua música sensual e intensa.
Existe uma frase sobre Betty
Davis que não deixa dúvidas: ela era uma mulher à frente do seu tempo. Nos dias
de hoje isto pode não ser tão evidente como o era há mais de trinta anos -
vivemos num mundo profundamente modificado pela extravagante ostentação da
sexualidade feminina: de Parlet a Madonna, Lil Kim ou Kelis. No entanto, em
1973, quando Betty Davis apareceu pela primeira vez com as suas botas
prateadas, estilo afro e sorriso deslumbrante, as coisas eram bem diferentes, e
não existia qualquer comparação. Marva Whitney tinha a voz mas não a
independência. Labelle só seria sexy com "Lady Marmalade" um ano depois, e Millie Jackson só em 1977 é que viria a "Feelin' Bitchy"... Até Tina Turner, a
mais óbvia seguidora do estilo de Betty, só o adoptaria no final dessa década.
Para além disso, Betty escreveu "Uptown" para os Chambers Brothers antes
de casar com Miles Davis no final dos anos sessenta, influenciando-o com o rock
psicadélico, e apresentando-o a Jimi Hendrix - que viria a inspirar a fantástica
obra "Bitches Brew."
Com todas estas qualidades, por que é que a sua história é quase desconhecida?
Betty Davis estava mesmo à
frente no tempo. Não só escreveu todos os temas que gravou, como inclusivamente
produziu todos os seus álbuns (à excepção do primeiro). Foi Betty que escreveu
alguns dos temas que levariam à contratação dos Commodores pela Motown. Essa
mesma editora mais tarde tentaria contratá-la também, mas Betty declinou devido
a algumas cláusulas contratuais. Ao mudar-se para o Reino Unido, Betty Davis
seria aconselhada por Marc Bolan dos T. Rex a escrever para si própria. Uma
coisa é certa, nunca deixou o seu estilo 'do-it-yourself', e afastava todos
aqueles que não pensassem do mesmo modo. Chegou até a rejeitar Eric Clapton para
a produção de um álbum, considerando-o como demasiado banal...
Em 1973 finalmente daria prioridade à sua carreira com uma extraordinário álbum
homónimo de funk progressivo e soul delirante. O disco foi gravado com a secção
rítmica dos Sly & The Family Stone,
genialmente produzido pelo seu baterista Greg Errico, e incluía a colaboração
vocal de Sylvester e as Pointer Sisters.
O seu segundo trabalho "They Say I'm Different" mostra, na capa e não só, uma Betty Davis desafiadora no seu estilo ficção científica à David Bowie, com
melodias funk quentes e extravagantes. O primeiro tema "Shoo-B-Doop and Cop Him" (mais
tarde 'samplado' por Ice Cube) é o ponto de partida para uma viagem inesquecível
e intensa.
Infelizmente nos dias de hoje Betty
Davis está completamente falida, vivendo no ghetto de Pittsburgh. Pela primeira
vez, e muito merecidamente, os seus dois primeiros álbuns foram remasterizados a
partir das fitas originais, de modo a soarem tão intensos e revolucionários como
o foram aquando da sua edição no início dos anos 70. Estas reedições são também
marcadas pelo facto de pela primeira vez na vida, Betty Davis vir a receber
direitos da sua música em CD.
Betty Davis deu a sua primeira entrevista em 30 anos no passado dia 21 de Julho.
Ouça
aqui.
(10-08-2007)
"If Betty were singing today she would be something
like Madonna, something like Prince only as a woman." Miles Davis
"She introduced Miles to Hendrix's music and got him interested in the
hardcore rock stuff. (Herbie Hancock)
Betty was a G for real." Ice Cube
"When I first saw her album cover, I fell in love." Rick James
"Warning: She is pure uncut funk way ahead of her time." Prince Paul (De
La Soul, Handsome Boy Modeling School)
"She was the first Madonna, but Madonna is more like Marie Osmond compared to
Betty Davis. Betty Davis was a real ferocious Black Panther woman. You couldn't
tame Betty Davis." Santana
«Betty Davis»:
1.
If I'm In Luck I Might Get Picked Up

2.
Walkin Up The Road

3.
Anti Love Song
4.
Your Man My Man

5.
Ooh Yeah

6.
Steppin In Her I. Miller Shoes 
7.
Game Is My Middle Name

8.
In The Meantime

9.
Come Take Me (Previously Unreleased (1974))

10.
You Won't See Me In The Morning (Previously Unreleased (1974))

11.
I Will Take That Ride (Previously Unreleased (1974))

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«They Say I'm Different»
1.
Shoo-B-Doop and Cop Him 
2.
He Was A Big Freak
3.
Your Mama Wants Ya Back 
4.
Don't Call Her No Tramp 
5.
Git In There 
6.
They Say I'm Different 
7.
70's Blues 
8.
Special People 
9. He Was A Big Freak (Previously Unreleased (1973) Record Plant Rough Mixes)
10. Don't Call Her No Tramp (Previously Unreleased (1973) Record Plant Rough
Mixes)
11. Git In There (Previously Unreleased (1973) Record Plant Rough Mixes)
12. 70's Blues (Previously Unreleased (1973) Record Plant Rough Mixes)
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Betty Page
«Jungle Girl»
CD QDK, €15,50
1.
Rumbanita 
2.
Fly By Night 
3.
Jungle Jazz 
4.
Dance of the Insects 
5.
X Cert 
6.
Let´s Go 
7.
Bianca Blanca 
8.
Bongos, Bass ´N´Beat 
9.
Industrial Samba 
10.
Lucky Mambo 
11.
Mambonanza 
12.
Man From Malibu-Latin 
13.
Man From Malibu-Ending 
14. Moon Over Rio
15. Roger Mambo
16. Breakins Point
17. Crimes
18. Detective Theme
19. James Bond Theme
20. Softly Sally
21. Swinsins City
22. Attente
23. Sweet Danses
24. Sun Girl

Bibio
«Hand Cranked»
CD Mush Records, €
16,50
Uma guitarra acústica de cordas de aço,
piano, acordeão, violoncelo, gaita de foles, processadores electrónicos
para transformar o que faz com eles, gravadores de cassetes portáteis, um
dictafone e um sampler em “panne” para recolha de “found sounds” da
natureza – são estes os instrumentos utilizados na música de Stephen
Wilkinson, o homem por detrás do dístico Bibio que gosta de basear as suas
composições em “loops” de acordes, tal como os Boards of Canada. Foi este
grupo, aliás, que o apresentou à Mush Records, sendo “Hand Cranked” o seu
segundo álbum na etiqueta, continuação das propostas feitas no anterior
“fi”. As estruturas são estáticas e repetitivas, só algumas vezes passando
pelo uso de “drones”, mas os fundamentos vêm das baladas folk da
Inglaterra profunda. Isto na vertente especificamente electrónica do
disco, porque “Abberiw” já é uma autêntica canção. O resultado é assaz
curioso, como se o “plucking” típico da Incredible String Band tivesse
sido adoptado pela Warp Records, com umas pitadas de My Bloody Valentine e
de Tortoise pelo meio. É uma outra “ambient music” o que Wilkinson propõe,
concebida em meio rural e impregnada de pastoralismo. Refrescante, sem
dúvida, e uma excepção num tempo marcado pela alta-fidelidade e pelo
artifício digital.
(21-07-2006)
1.
Cranking House

2.
Cherry Go Round

3.
Quantock

4.
Black Country Blue

5.
Marram

6.
Aberriw

7.
Zoopraxiphone

8.
DYFI

9.
Ffwrnais

10.
Woodington

11.
Above the Rooftops

12.
Snowbow

13.
Maroon Lagoon

14.
Overgrown

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Bill
Callahan
«Woke On a Whaleheart»
CD/LP Drag City, € 16,50/€ 12,50

Poder-se-á dizer que este é o álbum de estreia de Bill Callahan, já que ainda que tenha assinado mais de uma dúzia de álbuns sob o
nome de Smog, deixou agora em repouso esse projecto, e "Woke On a Whaleheart" é
a estreia. Com o mesmo espírito aventureiro, Bill Callahan fez um álbum nascido
na escola de música que é a sua alma e coração, onde as várias influências que
adquiriu ao longo da sua vasta carreira são resumidas em nove temas de pura
reflexão. Incluindo majestosos e brilhantes arranjos de Neil Michael Hagerty
(ex-Royal Trux e actualmente com Howling Hex), este álbum consegue passar ao
lado das tão imediatas tendências actuais, evitando também armadilhas retro tão
em voga nos dias que correm. Com um misto de vozes gospel da autoria de Deani
Pugh-Flemmings da Igreja Baptista Olivet, da guitarra incendiária de Pete Denton,
e dos melodiosos violinos de Elizabeth Warren, a música de "Woke On a
Whaleheart" álbum toca áreas tão distintas como o gospel, a pop agreste e a
ópera 'light' americana. É sem dúvida uma grande estreia de um artista que nada
tem de estreante...
(11-05-2007)
1.
From The Rivers To The Oceans

2.
Footprints

3.
Diamond Dancer

4.
Sycamore

5.
The Wheel

6.
Honeymoon Child

7.
Day

8.
Night

9.
A Man Needs A Woman Or A Man, To Be A Man

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Bill
Fay Group
«Tomorrow, Tomorrow and Tomorrow»
LP Drag City, €
12,95

Afinal, a “weird folk” começou
no final da década de 1970, com um senhor chamado Bill Fay que lançou dois
discos (“Bill Fay Group” e “Time of the Last Persecution”) para logo
desaparecer de cena (“Não fui eu quem deixou a música, foi a indústria
musical que me deixou a mim”, esclareceu ele mais de 20 anos depois).
Gravou um terceiro que ficou na gaveta, e é este que agora tem edição, com
a versão em vinil pela Drag City e a em CD pela Durtro de David Tibet (por
cá, só nos chegou a primeira), com algumas diferenças entre ambas. E de
facto, fica por demais evidente que Fay entrou no mundo da música antes de
tempo – não era todos os dias que na altura se ouviam canções folk com um
guitarrista de free jazz (Ray Russell), um grupo de instrumentistas com
actividade na livre-improvisação (Gary Smith, Rauf Galip e Bill Stratton
ficaram conhecidos nesta área como membros do Acme Quartet) e
orquestrações de dimensão cinematográfica. Aliás, foi preciso percorrer
muito caminho para que um Scott Walker se atrevesse a algo como “Tilt”,
mas Bill Fay começou logo por aí e foi mal compreendido. Tudo estava
contra a sua aceitação: as suas composições tinham um cunho acentuadamente
dramático, mas a voz parecia ser a do transeunte que viu ao longe (tão
longe que nem se apercebeu da súbita fissura no fluxo do tempo a que
chamamos entropia) dois automóveis a chocarem de frente a 250 Km/h, e as
letras nunca eram totalmente sombrias, nem propriamente esperançosas, mas
um paradoxo que se alimentava de si mesmo. Em “Tomorrow Tomorrow and
Tomorrow” Russel já não está presente, mas o disco consegue ser mais
experimental ainda que os anteriores, indo da balada falsamente
tradicional ao rock sintetizado com temas políticos e de uma
espiritualidade de fundamentação cristã, a voz de Fay surgindo várias
vezes sobregravada em harmonizações assaz curiosas. A interrogação que
agora fica é saber se este pioneiro vai finalmente reatar a sua produção
musical, de maneira a que, depois de ter feito história, possa construir o
futuro, voltando a enganar os usos e costumes e a abrir novas estradas.
(25-08-2006)
1. Change is Near
2. Strange Stairway
3. Spiritual Mansions
4. Planet Earth, Daytime
5. Tomorrow, Tomorrow & Tomorrow
6. Cosmic Boxer
7. Pear Tree
8. Life
9. Hypocrite
10. My Friend
11. Man
12. Sam
13. Isles of Sleep

Billy
MacKenzie
«Auchtermatic»
«Transmission Impossible»
Billy
MacKenzie/Paul
Haig
«Memory Palace»
CD's One Little Indian,
cada € 17,50
«Auchtermatic»:
1. Sour Jewel
2. Hornophobic
3. The Soul That Sings
4. Here Comes The Rain Again
5. Achieved In The Valley Of Dolls
6. Falling Out With The Future
7. Anacostia Bay (At The Edge Of The World)
8. Velvet
9. Norma Jean
10. Pain In Any Language
«Transmission
Impossible»: 1. Wild Is The Wind
2. Nocturne Seven
3. Satellite Life
4. Never Turn Your Back On Mother Earth
5. Fourteen Mirrors
6. And This She Knows
7. Liberty Lounge
8. Blue It Is
9. When The World Was Young
10. Beyond The Sun
11. Sing That Song Again
12. At The Edge Of The World
13. Winter Academy
«Memory
Palace»: 1. Thunderstorm
2. Stone The Memory Place
3. Beyond Love
4. Trans obsession
5. Trash 3
6. Listen To Me
7. Listen Again
8. Take A Chance
9. Give Me Time
10. Give Me Time (Dennis Wheatly Mix)
11. Beyond Love (Remix)
12. Stone The Memory Place (Remix)
13. Thunderstorm (Remix)

Biosphere
«Dropsonde»
CD Touch, € 15,95

Poucos como Geir Jenssen, aka
Biosphere, foram tão bem sucedidos em continuar os preceitos do
ambientalismo na electrónica, colocando em circulação obras que chegaram
mesmo a ultrapassar em conseguimento e pertinência as que fundaram o
género, da autoria do nem sempre feliz Brian Eno. Ainda que continuando a
sua dedicação ao paisagismo sonoro, é outra, no entanto, a agenda do
norueguês no novo “Dropsonde”. Depois do austero e brilhante “Autour de la
Lune”, a sua homenagem ao romance de Jules Verne com o mesmo título, ei-lo
que volta ao domínio do “beat” que marcou os seus inícios (“Cirque” é o
disco com que inevitavelmente é comparado), com a inclusão de ritmos de
bateria provenientes do jazz mais “groovy”. Ao que parece, trata-se de
“samples” e todas as suspeitas levam a acreditar que as fontes foram os
velhos LPs da Blue Note, mas nenhuma indicação é dada a esse respeito na
ficha técnica. O simples facto é suficiente para alterar de modo
substancial os parâmetros em que o projecto Biosphere se tem movimentado.
Se de disco para disco o ouvimos em busca da máxima depuração, a
introdução de elementos percussivos leva-o agora a optar por uma maior
riqueza tanto ao nível das texturas como da própria composição. Daí até
uma comparação com os modalismos eléctricos de Miles Davis ou Jon Hassell
vai uma grande distância, mas a alusão tem sido feita por alguma crítica.
De facto, nem Hassell nem muito menos Davis cuidaram de forma tão
propositada o “mood” das suas respectivas músicas – nesse aspecto, uma boa
parte das preocupações da fórmula Biosphere ainda vai para a sustentação
de atmosferas e estados de espírito.
(13-01-2006)
1. Dissolving Clouds
2.
Birds Fly By Flapping their Wings 
3. Warmed By the Drift
4. In Triple Time
5. From a Solid To a Liquid
6. Arafura
7.
Fall In, Fall Out 
8. Daphnis 26
9. Altostratus
10.
Sherbrooke 
11. People Are Friends

BJ
Nilsen
«The Short Night»
CD
Touch, € 15,95

Fazendo uso das gravações de locais, tempo, sons de pássaros e
rádio, BJNilsen continua a fazer o mapa e a explorar terreno inexplorado.
Seguidor de "Fade To White" de 2005, BJNilsen desenvolve a sua obra ainda mais,
baseando-se em gravações no terreno e da electrónica experimental. Desta vez
junta às harmonias ásperas - mas mais claras e perceptíveis - elementos musicais
tradicionais criando um estudo maravilhosamente complexo e detalhado. Gravado em
2006 e 2007 na sua maioria com equipamento analógico e fazendo uso de gravadores
de fita com mais de 50 anos, filtros e geradores, Nilsen obteve como resultado
uma obra que acaba por ser quente e envolvente, contrastando com os locais frios
e agrestes onde foi gravada: Malaren e Estocolmo na Suécia, Combe Gibbet,
Berkshire em Inglaterra e Landakot, Vatnsleysuströnd, na Islândia.
(12-10-2007)
1. Front
2. Finisterre
3. Pole of Inaccessibility
4. Viking, Cromarty...
5.
Black Light

6. Icing Station
7. Viking North

Bjørn Torske
«Feil Knapp»
CD Smalltown Supersound, € 15,95

Com alguns meses de atraso em relação à edição internacional, "Feil Knapp", um
dos grandes álbuns deste ano, chega finalmente à nossa loja.
Quando perguntaram a Prins Thomas "quem é o artista com quem gostarias de
trabalhar, se tivesses oportunidade?" imediatamente respondeu "se o pudesse
fazer sair da toca por um momento, gostaria de convidar Bjørn Torske...". Parece
que a espera acabou, já que após 6 anos de silênciao (o seu último disco foi em
“Trøbbel”, lançado na Telle. Em muitos aspectos "Feil Knapp" representa o som
que se situa entre “Trøbbel”, o seminal de 1999 “Nedi Myra” editado na Ferox e o
seu tema de culto underground “Søppelmann”, na Svek em 2001.
Com influências tão vastas como Count Ossie e os
Residents, ou 23 Skidoo e Idjut Boys, Torske criou o seu som característico, uma
mistura quente de house melancólico com avant-disco, electrónica ambiental e
mesmo o dub psicadélico.
"Feil Knapp" é o regresso em grande de Torske, e
uma obra-prima da nu-house, avant-disco ou o que quer que lhe queiram chamar.
"Just when you
thought Bjorn Torske had fallen off the radar (his last output was the fantastic
Trobbel LP on Telle a few years back) he resurfaces with three tracks that
typify his lopsided take on the dancefloor”
(DJ Magazine sobre 12" editado em 2006)
“A leftfield
genius”
(Piccadilly Records)
1.
Hemmelig Orkester

2.
Hatten Passer
3.
Spelunker
4.
Tur I Maskinparken

5.
Loe Bar
6.
Kapteinens Skjegg

7.
Møljekalas
8.
God Kveld
9.
Ørkenrotta
10.
Fembussen Hjem

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Black
Devil Disco Club
«28 After»
CD/LP Lo Recordings, € 16,50

Quase trinta anos após o primeiro álbum,
essa obra prima do disco tem um sucessor, uma viagem épica pelo electro-disco
profundo, vozes fantasmagóricas, letras distorcidas, electrónica estranha mas
melódica, e beats intensos. Em 2004 a editora Rephlex, dos Aphex Twin, lançou um álbum dos Black Devil chamado
"Disco club". Tratava-ve de uma reedição de um clássico perdido supostamente de
‘italo disco’, de 1978. Devido ao seu som extremamente actual, muitos duvidaram
da sua autenticidade, sugerindo-se mesmo que se tratava de um produto da
colaboração entre o próprio Richard James e Luke Vibert. A verdadeira história é ainda mais
estranha. Ainda que creditado a Joachim Sherylee e Junior Claristidge, com a
produção a cargo de Jacky Giordano, o álbum é, na realidade, obra do
obscuro produtor francês Bernard Fèvre, conhecido apenas pela extremamente rara
obra-prima electrónica "The Strange World of Bernard Fèvre", e o ainda mais raro
"Earthmessage", 'samplado' pelos Chemical Brothers em "Got Glint?", do seu disco
"Surrender". Agora surge um novo trabalho, tão
semelhante em som e estrutura ao original que é difícil perceber se foi criado
por altura do original de há 28 anos, ou nos anos recentes. Uma coisa é certa,
não escutarão este ano mais nenhum disco tão fora do vulgar e intrigante. E
afinal, quem sabe do segredo Black Devil Disco Club?
(13-04-2007)
1.
The Devil In Us

2.
On Just Foot
3.
Coach Me
4.
I Regret The Flower Power

5.
Constantly No Respect
6.
An Other Skin

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Black
Devil Disco Club
«In Dub»
CD/LP Lo Recordings, € 16,50

Ainda não completamente refeitos do incrível
“28 After”, eis que os Black Devil regressam com o seu disco-sound sinistro, que
nos remete tanto para os Joy Division como para Giorgio Moroder.
Contendo 6 versões dub dos temas do álbum feitas pelo próprio Devil, e ainda
outras 6 de alguns dos seus maiores fãs, que por acaso são também alguns dos
expoentes do “cosmic nu disco sound”, este trabalho vai mais além a nível
sonoro, explorando os recantos mais obscuros desse novo estilo musical. Senão
vejamos:
-os Elitechnique, que recentemente fizeram uma mistura para Alden Tyrell e um 12’’ na
fantástica etiqueta Clone, produzem um verdadeiro monstro techno, e agora com a
vocalização em francês, ainda mais bizarro fse torna; -Prins Thomas expande o original
para um distorcido ente espacial de enormes proporções;
-a fina-flor de Brooklyn,
o ilustre In Flagranti, dá-nos uma mistura profunda e intensa que nos põe a
sorrir;
-os Quiet Village, que têm feito algumas das melhores versões
para famosos como os Gorillaz e outros não tanto como Allez Allez e
Cosmo Vitelli, esgotando sempre as suas tiragens na Whatever We Want, criam aqui
um ‘thriller’ psicológico digno de John Carpenter. Este tema temos de ouvir com o
volume no máximo, para ser apreciado eficazmente;
-os Black Mustang levam-nos a
uma volta de montanha russa, aos mais escuros recantos do “acid disco”;
-e para
finalizar, Unit 4 (também conhecido por Jupiter Black/Isolators) produzem
provavelmente o seu maior sucesso. Uma linda amostra da electrónica do século XXI.
Não um disco de temas originais, já que os escutámos exaustivamente no álbum "28 After", "In Dub" é, de qualquer modo, uma pérola, não só pelas excelentes
versões, como pelos intervenientes presentes, nomes que têm marcado esta nova
vertente da música de dança. Obrigatório.
(29-06-2007)
CD
Part 1:
1.
The Devil In Us (Dub) 
2.
On Just Foot (Dub)
3.
Coach Me (Dub)
4.
I Regret The Flower Power (Dub) 
5.
Constantly No Respect (Dub)
6.
An Other Skin (Dub)
Part 2:
7.
The Devil In Us (En Francais) c/ Elitechnique 
8.
On Just Foot (Slide Inside) c/ Prins Thomas
9.
Coach Me (Again and Again) c/ In Flagranti
10.
I Regret The Flower Power (Fragments Of Fear) c/ Quiet Village 
11.
Constantly No Respect ( The Phenomena of) c/ Black Mustang
12.
An Other Skin (Days Of Blackula) c/ Unit 4
LP:
1. The Devil In Us (Dub)
2. On Just Foot (Dub)
3. Coach Me (Dub)
4. I Regret The Flower Power (Dub)
5. Constantly No Respect (Dub)
6. An Other Skin (Dub)
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Black
Dice
«Load Blown»
CD Paw Tracks, € 16,50
Longe do som agreste e quase inaudível a que nos habituaram ao
longo da sua já extensa carreira, "Load blown", uma recolha dos máxis editados
ao longo deste ano na Paw Tracks, envereda pela electrónica mais suave e
surpreende aquele mais renitente ao noise de discos anteriores. Ao invés de
paredes de som em colapso sobre nós, temos lençóis de peças electrónicas a
acariciarem-nos delicadamente. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, poderão
alguns dizer, mas "Load Blown" tem também aquela magia dos álbuns anteriores,
algo que nos atrai inexplicavelmente e faz com que ouçamos o disco em repeat até
à exaustão. Surpreendente!
(26-10-2007)
1.
Kokomo

2.
Roll Up
3.
Gore
4.
Bottom Feeder

5.
Scavenger

6.
Drool

7.
Toka Toka

8.
Cowboy Soundcheck

9.
Bananas

10.
Manoman

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The
Boats
«We Made It For You»
CD
Moteer, € 17,50
O piano é a base de
sustentação das montagens electrónicas de “We Made It For You”, como se
Erik Satie, Michael Nyman e Ryuichi Sakamoto fossem envolvidos pelo “manto
diáfano” do chill out, mesmo assim mantendo a “nudez crua da verdade”,
sendo esta a sonoridade daquele instrumento, cuja distinção tímbrica é
sempre mantida. Jen Jelinek é também uma referência próxima, se quisermos
explicar por antecipação o que nos é oferecido neste belo disco. E no
entanto, esta é uma música que segue o seu próprio caminho, minimal sem
ser esquelética e ambiental apesar de não servir como fundo para outras
actividades. A house não está muito longe dos fundamentos e dos horizontes
desta dupla formada por Craig Tattersall e Andrew Johnson, mas a sua
contraparte é fornecida por reminiscências do impressionismo e até do
romantismo pianísticos. Nesta equação, desapareceu o factor pop que
caracterizou o primeiro álbum dos Boats, saído menos de um ano antes,
“Songs By the Sea”. Desta vez, trata-se de música instrumental, feita com
minúcia e microscopia, tantos e tão particulares são os detalhes. Em
consequência, as estruturas são de uma extrema fragilidade – um som a
mais, um processamento inadequado e tudo desmoronaria. Os nomes das faixas
são as suas dedicatórias a um grupo de amigos, fazendo-nos sentir que
estas melodias e estas harmonias fragmentadas ou em dissipação têm gente
dentro. E daí o calor que emanam – esta é uma electrónica de dimensão
humana, uma raridade num tempo em que tudo se centra nas capacidades (e
nas incapacidades, o que vai dar no mesmo) das máquinas. Afinal, não é
desta que o piano será substituído pelo computador...
(26-01-2006)
1.
Jumble 
2.
Sarah Alice 
3. Mum & Dad
4. Miles, Sean & Bodie
5.
Andrew & Linsey 
6. Donna, Paul & Grace
7. Nicola H
8. Annabel
9. Darren
10. Chris, Elaine & Lucy
11. Bob, Ben & Kipper
12. Bobbin
13.
Jonathan & Rob 
14. Nicola

Bonnie
'Prince' Billy
«The Letting Go»
CD Domino,
€ 17,95
1.
Love Comes To Me 
2.
Strange Form Of Life 
3.
Wai 
4.
Cursed Sleep  
5.
No Bad News 
6.
Cold & Wet 
7.
Big Friday 
8.
Lay And Love 
9.
The Seedling 
10.
Then The Letting Go 
11.
God's Small Song 
12.
I Called You Back 
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para ver os 'spots' de "The Letting Go", com a participação de Neil
Hamburger

Bonnie
"Prince" Billy
«Summer in the Southeast»
CD/2LP Sea Note/Drag City,
€ 16,50

Pode Will Oldham surgir em disco ou
nos palcos sob vários nomes, entre os quais o de Bonnie "Prince"
Billy, que o seu estilo melancólico é sempre o mesmo, roçando até
a claustrofobia e a depressão. Ou quase, pois a excepção acaba de
nos chegar e chama-se "Summer in the Southeast", resultado
de uma digressão desta estrela da nova folk pelos estados do Sudeste
dos EUA. É isso, leram bem: trata-se do primeiro álbum ao vivo do
aclamado "songwriter". Oiçam "Death to Everyone"
(que título ameaçador, heim?) e espantem-se com a forma como associa
o canto a capella com o que parece ser heavy metal. Este tema pode
ser gótico, mas triste não é de certeza. E não é só neste disco
que o ouvimos a distanciar-se do figurino em que o temos vindo a
colocar - em Janeiro sairá o seu CD com os Tortoise, naquela que
é a mais inesperada das colaborações, e para cúmulo a interpretar
clássicos de Elton John, Milton Nascimento, Devo, Minutemen e Bruce
Springsteen, entre outros. Chocados? Não vale a pena, pois estes
cruzamentos são mesmo um sinal dos tempos. E é assim que, misturadas
com novas canções, ouvimos neste Sea Note as já conhecidas "Master
and Everyone", "Ease Down the Road" e "I See
a Darkness" com um formato bem diferente. Oldham não nos dá
mais do mesmo, melhora e procura outros ângulos. Um deles, e talvez
o mais frequente, vem ao jeito de country-rock de garagem, o que
soa a interessante só de dizer. "A Sucker's Evening" introduz
outros ingredientes, assemelhando-se a algo que os Velvet Underground
poderiam ter gravado, com a diferença de que a letra é bem melhor
do que as escritas por Lou Reed e de que o tom é ainda mais ébrio,
com o bourbon a tomar o lugar dos ácidos como substância inspiradora.
Já se tem dito que Will "Bonnie" "Palace" Oldham
compõe "drunken songs", mas nunca elas pareceram tão bêbadas
como aqui.
(11-11-2005)
1. Master and Everyone
2. Pushkin
3. Blokbuster
4. Wolf Among Wolves
5. May It Always Be
6. Break of Day
7. Sucker's Evening
8. Nomadic Revery
9. I See a Darkness
10. O Let It Be
11. Beast for Thee
12. Death to Everyone
13. Even If Love
14. I Send My Love to You
15. Take However Long You Want
16. Madeleine Mary
17. Ease Down the Road

The Books
«Lost and Safe»
CD Tomlab,
€ 17,50
1. Little Longing Goes
Away
2. Be Good To Them Always
3. Vogt Dig For Kloppervok
4. Smells Like Content
5. It Never Changes To Stop
6. Animated Description Of Mr Maps
7. Venice
8. None But Shining Hours
9. If Not Now Whenever
10. Owl With Knees
11. Twelve Fold Chain
Boredoms
«Super Roots»
«Super Roots 3»
«Super Roots 5»
«Super Roots 6»
«Super Roots 7»
«Super Roots 8»
CD's
Very Friendly, € 15,95 cada

Seis reedições das super-root-series dos Boredoms (ou V∞redoms),
banda japonesa de Osaka de rock-noise criativo que já conta com 20 anos de
actividade (a 1ª gravação data de 1986).
O primeiro volume das "Super Roots" de 1993 é um EP com 14 faixas em 20 minutos;
"Super Roots 3" data de 1994 e consiste numa única faixa de 33 minutos, com
influências do metal e do psicadelismo; "Super Roots 5", de 1995, consiste numa
única faixa de 64 minutos, uma evolução do volume anterior para ambientes mais
pacíficos; "Super Roots 6", também de 1995, é constituído por 17 faixas
diversificadas em 66 minutos; "Super Roots 7", de 1997, contém 3 faixas em 33
minutos, e nota-se aqui uma aproximação à electrónica. Finalmente "Super Roots
8", de 1999, contém 3 faixas em 15 minutos, uma evolução em relação ao volume
anterior, numa proposta em direcção à electrónica tribal. Actualmente os
Boredoms continuam a explorar caminhos nunca antes “navegados”; exactamente às
7:07 do dia 7 de Julho do ano 2007 juntaram-se a 77(!) bateristas num parque de
Brooklin para um concerto de cariz místico...é caso para dizer “wish you were
here”.
(24-08-2007)
Boris
«Akuma No Uta»
CD Southern Lord, € 17,50
Não se deixem enganar pelo "drone
metal" que abre "Akuma No Uta" à maneira de
uns Acid Mothers Temple. O resto do disco, e logo começando
pela segunda faixa, "Ibitsu", tem o "drive"
do punk e o fantasismo do rock psicadélico, parecendo, como
já a crítica afirmou, uma espécie de "Hendrix
meets the Stooges" com a particular marca do país do
Sol Nascente. Nuns casos ganha o punk, noutros o psicadelismo, mas
o último tema, aquele que dá título ao álbum,
volta aos domínios do metal, arrancando com uma abordagem
à Earth e mudando de súbito para uma situação
do mais típico "headbanging". Já "Ano
Onna No Onryou" é outra coisa: "stoner rock",
ou seja, rock tocado sob o efeito de estupefacientes (de facto ou
teatralmente aludido), com uma dimensão "freakout"
que faz lembrar as improvisações estruturalmente estáticas
dos anos 1960/70. A ambiguidade estilística, que não
a colagem ou a fusão, é o que caracteriza os Boris,
não se percebendo muito bem onde termina a condição
"garage" e tem início a atitude experimental. Seja
como for, estes mesmos Boris já tocaram com Merzbow e Keiji
Haino, os papas do noise idiomático, aquele que ainda tem
raízes no rock 'n' roll. E são os mesmos que lançaram
"Absolutego", 65 minutos de "feedback" controlado.
Se a capa deste novo opus faz referência à de "Bryter
Layter", de Nick Drake, apenas substituindo a guitarra acústica
por um baixo/guitarra eléctrico de duplo braço, trata-se
apenas de mais uma piscadela de olho para quem, como Takeshi, Wata
e Atsuo, conhece bem a história da música popular
urbana. Aliás, o que alguns poderão tomar como "retro"
não passa de consciência histórica, tão
válida, afinal, como ter consciência política
ou "consciência de classe", para retomar uma terminologia
que caiu em desuso com o definhamento do marxismo. O nome Boris,
de resto, vem de uma canção do álbum "Bullhead",
dos Melvins. Imaginam a discoteca dos rapazes?
(05-08-2005)
1. Introduction
2. Ibitsu
3. Furi
4. Naki Kyoku
5. Ano Onna No Onryuou
6.
Akuma No Uta 

Boris
«Pink»
CD Southern Lord, €
17,50
A comunidade metaleira não
gosta deste disco cor-de-rosa, mas o facto é que os japoneses Boris
fizeram o seu mais metálico álbum de sempre. É certo que um metal
interferido pelo psicadelismo que tem sido a causa do grupo, como se a luz
rosada das alucinações de Philip K. Dick também os encadeasse, mas com
todos os ingredientes que definem o género. Prova de que o tratado das
cores de Wittgenstein diz também respeito à música, “Pink” será a menos
experimental das edições discográficas deste trio, mas convenhamos que o
misto de Motorhead e Sigur Rós que aqui encontramos não é propriamente
coisa óbvia, mesmo sabendo que Lemmy, o líder dos primeiros, esteve antes
nos Hawkwind, um antepassado em termos estilísticos dos islandeses. Muito
longe das colaborações que mantiveram com Merzbow, Keiji Haino e Masonna,
Wata, Takeshi e Atsuo mergulham nas raízes do rock and roll e voltam à
superfície para proporem uma nova perspectiva do mesmo. Cheia de
“feedback” guitarrístico, mas deste vez plenamente controlado.
(07-07-2006)
1.
Farewell

2.
Pink
3.
Woman on the Screen

4.
Nothing Special

5.
Blackout
6.
Electric
7.
Pseudo-Bread

8.
Afterburner

9.
Six, Three Times 
10.
My Machine
11.
Just Abandoned My-Self

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Boris
with Michio Kurihara
«Rainbow»
CD Drag City, € 16,50

Como os fãs já sabem, somos sempre surpreendidos
pelos trabalhos do trio japonês Boris, seja nos seus álbuns a solo ou nas suas
colaborações (como por exemplo o genial «Altar» com os SunnO)))). E desta vez
eles não fugiram à regra, já que convidaram Michio Kurihara dos Ghost para as
suas experiências, transformando «Rainbow» numa obra seminal da nova música
nipónica. Por vezes aproximam-se perigosamente do som dos Ghost mas mantém
sempre o seu toque único e distinto, sabendo aplicar as suas fórmulas sonoras a
que já nos habituaram.
(03-08-2007)
"I was almost at the end of my own Boris rope, but
Rainbow gave me a jolt, sounding a lot like something that would've set up camp
on my turntable a dozen years ago when I memorized those Forced Exposure
catalogues. It's vintage and totally invigorating. The immediate Pink punk-slap
isn't here, but where the former nails one hue and keeps running with it, I can
imagine this new, deeper set keeping me cozy for years to come. It's already
eerily familiar." Brandon Stosuy in
Pitchfork
1.
Rafflesia 
2.
Rainbow
3.
Starship Narrator 
4.
My Rain
5.
Shine
6.
You Laughed Like a Water Mark 
7.
Fuzzy Reactor
8.
Sweet No.1
9.
No Sleep 'Til I Become Hollow 
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Brian
Eno
«Another Day on Earth»
CD Opal/Hannibal, €17,50
Brian Enos há muitos, como
toda a gente sabe, desde o progenitor da "ambient music"
ao produtor de David Bowie, U2 e James. Este que aqui (re)encontramos
é o que há 20 anos já esta personagem da cultura
popular urbana tinha abandonado, o Brian Eno autor e intérprete
de canções, na linha de "Before and After Science"
ou "Another Green World". Em "Another Day on Earth"
voltamos a ouvir o cantor de voz anasalada da pop futurista que
descolou dos Roxy Music, seja "au naturel" ou munido de
um vocoder que ainda torna mais irreal e onírica a música
que nos oferta. "And Then So Clear" acrescenta-se a "Babies
on Fire", "St. Elmo's Fire" e "The River"
na sua galeria de grandes temas, "Bottomliners" revela-nos
o seu insuspeito gosto pelo gospel e "Bonebomb" lembra-nos
a costela mais experimental deste "não-músico"
(é assim que ele continua a apresentar-se) que está
na origem de muitos dos desenvolvimentos a que vimos assistindo
nas músicas de ponta. Mas não é só aos
seus discos cantados que este novo título nos remete - muitos
dos procedimentos de produção com que aqui nos deparamos
foram estreados por Eno em 1990 num trabalho de John Cale, "Wrong
Way Up", ou são a súmula do que vem aplicando
nas edições de uma mão-cheia de nomes grandes
da pop. Aliás, se há coisa que este CD tem de muito
evidente é a produção, tanto assim que as próprias
composições estão inseridas numa lógica
produtiva que vai até ao mais ínfimo pormenor. Para
equilibrar esta dimensão de complexidade, as melodias das
canções são muito simples, quase sempre sob
a forma de balada ou de "soundscapes" encimados por voz
(caso, por exemplo, de "Going Unconscious", um "spoken
work" dito por Inge Zalaliene). Convém, de resto, assinalar
que o Eno ambientalista está também presente ao longo
destas faixas e seja o que nos recorda "Music For Airports"
como o de "Nerve Net", a sua incursão pelo mundo
da dança. Talvez haja um Brian Eno transversal em cada um
dos Brian Enos que ele é, mas se o criador de atmosferas
e estados de espírito influi nesta colecção
de canções, o cantor não está em "Apollo".
Um motivo extra para considerar o valor desta edição.
(15-07-2005)
1. This
2. And Then So Clear
3. A Long Way Down
4. Going Unconscious
5. Caught Between
6. Passing Over
7. How Many Worlds
8. Bottomliners
9. Just Another Day
10. Under
11. Bone Bomb

Bridge
61
«Journal»
CD Atavistic, €
16,50
Ken Vandermark não pára de formar grupos, e
o seu novo Bridge 61 estabelece a ligação que faltava entre os Spaceways
Inc, aos quais, aliás, vai buscar um elemento, o contrabaixista / baixista
eléctrico Nate McBride, e os Vandermark 5, repetindo deste a presença de
um segundo instrumento de palheta, no caso o clarinete baixo de Jason
Stein. Participa ainda um músico que já não ouvíamos tocar com ele há
algum tempo, o baterista de mão pesada Tim Daisy, essencial para o “punch”
pretendido. A fórmula aplicada em “Journal” está, como se esperaria, “in
between”, com por um lado o funk do projecto que liga a mística espacial e
pan-africana de Sun Ra à mais jingona e identificada com o movimento Black
Power que caracterizou os Funkadelic (Spaceways Inc), e por outro o free
bop carregado de energia rock do seu supergrupo (Vandermark 5). Pelo meio
acrescenta um ingrediente extra: o rhythm & blues saxofonístico, dando uma
incrível mobilidade discursiva a um instrumento que a tem pouca, o
barítono. O que quer dizer que a música que ouvimos neste CD é
especialmente intensa, logo anunciando os seus propósitos na peça de
abertura, “Various Fires”, dedicada aos This Heat, a banda britãnica que
em “Deceit” nos convidava a dormir com o encantatório refrão “sleep,
sleep, sleep”, mas na prática não deixava que tal acontecesse. A guitarra
baixo em distorção e carregada de fuzz é um factor chave do “groove”
instalado (voltamos a ouvi-la em “Nothing’s Only”, um tema que poderia ter
sido assinado pelos roqueiros Fugazi se estes não fossem uma combinatória
de Stooges com reggae mas sim com jazz, e em “Shatter”, o bang final), mas
mesmo quando McBride toca acústico o seu ataque não é propriamente o mais
convencional para um contrabaixo.
(18-08-2006)
1. Various Fires (For This Heat)
2. Superleggera
3. Atlas
4. Nothing's Open
5. 29 Miles Of Black Snow (For Jackson Pollock)
6. A=A / b=b
7. Dark Blue, Bright Red
8. Shatter (For Sonny Sharrock)

Brion
Gysin
«Live in London 1982»
CD Sub Rosa, € 15,95

Outono de 1982, Brixton, Londres,
Brion Gysin, o eterno cúmplice de William Burroughs, renova os seus métodos de
actuação ao recitar textos organizados por:
Tessa, membro das Slits,
Steve, dos Rip, Rig and Panic,
Gile, dos Penguin Café Orchestra,
e com a colaboração de Ramuntcho Matta na guitarra.
Ramuntcho, muito no estilo de Brion, chamou a esta sessão WHITE FUNK.
A maioria dos textos foram escritos aquando dos seus encontros com Burroughs,
por altura da invenção da técnica do cut-up. A influência que Brion Gysin teve
na música contemporânea poderá nunca ser devidamente avaliada, em particular
quando apresentou a Brian Jones, dos Rolling Stones, a música dos pastores de Joujouka. Esses tempos eram ainda audaciosos: a música era criada durante os sound-checks! Musicalmente, a escolha de instrumentos tradicionais reflecte o
desejo de não incluir m´+aquinas no processo (porque, como Burroughs dizia, "nós
próprios somos máquinas").
Esta gravação evidecia a extraordinária criatividade e espontaneidade da cena
musical da época. Não envelheceu nem um pouco. Para além da nostalgia inspirada
naquela cena cultural já inexistente nos dias de hoje, a criatividade desta obra
é difícil de encontrar nos dias de hoje.
(22-06-2007)
1. Welcome
2. Minutes to Go, Pt. 1
3. Cut-Ups (1959)
4. Teaching
5. Illusion
6. Minutes to Go, Pt. 2
7. Ad Lib
8. Impro:1
9. Cut-Ups: 1960 (Bardo Hotel)
10. Ahead, Ahead: 93 Million Miles Away

Brion
Gysin
«One Night @ the 1001» 2CD Sub Rosa,
€ 20,50

Foi ele quem cunhou os procedimentos de
“cut-up” que viriam a ser celebrizados por William S. Burroughs e foi ele
também quem inventou a “dream machine”, um dispositivo alucinogénico que
pretendia substituir a ingestão de ácidos. Não menos importante, foi Brion
Gysin o ocidental que primeiro descobriu a música de transe da aldeia de
Jajouka, Marrocos, e a deu a ouvir a Brian Jones, o fundador dos Rolling
Stones que uma década mais tarde a recolheu e apresentou em disco, e a
Ornette Coleman, tendo este último, aliás, convidado o clã Attar a tocar
consigo em estúdio e nalguns palcos americanos e europeus. Poeta,
romancista, pintor, escultor e músico (oiçam-se as suas pesquisas sonoras
no interior de uma piscina vazia em “The Pool K III”, documento
recentemente recuperado pela Algha Margen) conotado com a “beat
generation”, amigo de Paul Bowles, Allen Ginsberg e Burroughs e como estes
atraído pelo Norte de África, onde viveu longos anos, Gysin abriu em 1954
um bar-restaurante em Tanger, o 1001 Nights, exclusivamente com o
propósito de aí ouvir, todas as noites (enquanto durou, o que aconteceu
uns meses apenas), a música tradicional marroquina, contratando
instrumentistas e cantores locais para o efeito. O primeiro CD de “One
Night @ the 1001” é precisamente uma selecção das gravações que fez então.
No segundo, subintitulado “Dilaloo”, ouvimo-lo a dizer os seus próprios
textos (os registos datam de 1956), com um acompanhamento electrónico
póstumo de Ramuntcho Matta, que criou um programa algorítmico de
computador baseado no acaso e na permutação, factores que eram caros ao já
desaparecido artista. Que, aliás, entendia o dito “cut-up”, fosse na sua
versão de papel de jornal e de livro ou na de fita magnética, sempre com a
tesoura e a cola ao lado, como uma forma de organizar a espontaneidade e o
acidente. A simplicidade dos meios era para ele não um constrangimento,
mas uma vantagem. Disse Gysin numa entrevista: “A pobreza torna-nos mais
inventivos, é mais divertida e preserva-nos a ingenuidade.” Afinal, a
“dream machine” não é outra coisa senão um estroboscópio. A propósito,
ainda, de “Dilaloo”, saliente-se que este poema resulta das suas
impressões pessoais de uma cerimónia de iniciação a que foi sujeito em
Jajouka, o que demonstra bem o apreço que a elite dos músicos autóctones
tinha por ele. Desconhece-se é o que eles acharam das reiteradas alusões à
masturbação aqui ouvidas (se é que delas chegaram a saber) ou da passagem
em que afirma “I am Allah / I made you”. Se fosse hoje, talvez tivesse de
enfrentar uma fatwa.
(05-05-2006)
Disco 1: 41 temas sem
título. Clique
aqui para escutar excertos dos 12 primeiros.
Disco 2: 12 temas sem
título. Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas.

The
Buoys
«Grillo Parlante»
CD Bathysphere, € 15,95

«Grillo Parlante» é o primeiro disco dos The
Buoys, um trio britânico, de Leicester, que produz uma música arrítmica e
cinemática, com um elevado grau de sedução e mistério.
A verdade é que todos os seus membros têm relações próximas com a sétima arte, o
que acaba por ter reflexos evidentes nas movimentações cénicas sugeridas pelos
temas que se ouvem neste disco. Chris Cousin, para além de se encarregar a
título individual do projecto Sofalofa e, em grupo, fazer parte ainda dos Chin
Chin, Big Toe e Normal Position, tem trabalhado na confecção cuidada de bandas
sonoras para cinema, televisão e instalações multimédia. Esta actividade é
também a zona de actuação primordial de Steve Gibbs, que acumula com a
expressividade dub dos seus Vibronics e com a produção e engenharia sonora de
diversos projectos ligados ao reggae. Stu Smith é operador de câmara, editor
cinematográfico e designer gráfico, e ainda emprega o seu tempo livre na
construção de aparelhos de electrónica analógica, que acabam por ser usados na
música dos the Buoys. Musicalmente, a sua plurifacetada actividade já se revelou
útil nos Heliotrope, um grupo de dub psicadélico do qual faz parte, e na
produção de discos dos Human League.
Deste capital acumulado de múltiplos cruzamentos entre as artes cénicas,
cinematográficas e multimédia, com a elaboração cuidada de superfícies sonoras
ambientais, surge o trabalho apresentado em «Grillo Parlante». O cenário assim
construído é a tela perfeita sobre a qual se encontram personagens solitários, contruídos com enorme rigor e pormenor, que se deslocam em movimentos lentos na
penumbra nocturna, apenas quebrada pela incidência intromissiva dos néons desta
cidade imaginária e pelo burbulhar ocasional da urbe adormecida. Estes vultos
irreais são descritos com precisão através de sintetizadores embalados e
guitarras etéreas, enquanto interferências electrónicas fazem esquecer a quase
inexistência de ritmo e tornam abrasivos os contornos espreguiçados destas
aventuras fora de horas, que assim se tornam sobressaltadas e incertas, mesmo se
captadas em câmara-lenta e embaladas por intermináveis mantras que resultam da
monotonia das madrugadas sem fim. Um excelente guião, adaptado a música com
enorme mestria! Pedro Portela in
O Domínio dos Deuses
"a new band with a deep sound... excellent
stuff" Mixmaster Morris
"a truly compelling collection of fine
atmospheric electronic music" Milkman
"The soundscapes are engaging, a cinematic
glimpse into isolation and hope" Flux
"silence and deepness will never be old-fashioned" DeBug
"a record that cries out to accompany a piece of art cinema or museum
installation...moments of brilliance...where a sparse guitar ebbs and flows
beneath a fibrous static creating a dense sonic warmth" FACTMagazine
"The cinematic aspect of the work here is undeniable, and contributes to
making this debut album a truly compelling collection of fine atmospheric
electronic music." Milkfactory
1.
Absolutely Nothing

2.
Aches
3.
Balance
4.
Spider
5.
Delhi Handkerchief

6.
Wilderness
7.
Solar
8.
New
9.
Forman
10.
Wrist
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Burial
«Burial»
CD Hyperdub, €
16,50
Para um primeiro disco é obra, pois temos
aqui um sério candidato a um dos melhores do ano no capítulo da
electrónica. De Burial nada se sabe, porque o “produtor” por detrás do
nome faz questão em manter-se anónimo. A Hyperdub Records pertence a
Kode9, mas Burial jura a pés juntos que não se trata da mesma pessoa.
Estamos em território do dub, ou mais concretamente do dubstep, mas com um
carácter experimental vincado – o que não quer dizer que tenha perdido
“swing”. Antes pelo contrário: tem até mais do que muito do dubstep
“straightahead” mais recente. Se para vocês isto (o experimentalismo de
“Buried”) quer dizer que há alguma familiaridade com Pole, tirem daí a
ideia. É muito mais “dark”, mais estranho e ainda melhor. Uma
particularidade destes temas é o uso da estática própria das estações de
rádio piratas, ainda que algumas das crepitações ouvidas provenham,
segundo o próprio autor, da madeira a arder e da chuva sobre determinadas
superfícies. Outro factor que distancia este disco dos demais governados
pelo “beat” é a circunstância de não se utilizarem sequenciadores e de o
“software” em acção ser o mais básico que se possa imaginar – o Sound
Forge. Um músico sofrível com boa tecnologia consegue safar-se
airosamente, mas quem se predispõe a fazer uso de ferramentas tão pobres
para gravar um álbum como este só pode ser entusiasticamente aplaudido. Os
ritmos entram e saem de tempo com o maior dos desprezos pela matemática
musical, os baixos vêm directamente do centro da Terra e trazem consigo
alguns demónios, os sons distorcem sugerindo a indefinição própria dos
sonhos ou são tão claros que cortam como lâminas, e ouvem-se ecos de vozes
e lugares. Como alguém disse, esta podia ser a banda sonora de “Blade
Runner”...
(28-07-2006)
1.
Untitled

2.
Distant Lights

3.
Spaceape feat. Spaceape

4.
Wounder

5.
Night Bus

6.
Southern Comfort

7.
U Hurt Me

8.
Gutted

9.
Forgive

10.
Broken Home

11.
Prayer

12.
Pirates

13.
Untitled
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Burnt
Friedman
«First Night Forever»
CD Nonplace, € 15,95
De regresso a solo, e numa vertente mais soul e dub, longe do
som do seu projecto com Sylvian e Jansen Nine Horses, Friedman volta a
presentear-nos com um disco bastante curioso, e onde as ambiências electrónicas
foram parcialmente colocadas de lado, e algumas colaborações se evidenciaram -
Steve Spacek, estrela do novo soul, e a atraente voz de Theo Altenberg, entre
outras colaborações. "First Night Forever" é uma nova fase de Friedman, uma onde
vai buscar novas influências a todo o tipo de áreas distintas, reinventando a
cada momento a sua própria música. O que se seguirá?
(26-10-2007)
1.
Where Should I Go (featuring Steve Spacek)

2.
Machine In The Ghost (featuring Barbara Panther)

3.
Walk With Me (featuring Steve Spacek)

4.
Need Is All You Love (featuring Theo Altenberg)

5.
First Night Forever (featuring Daniel Dodd-Ellis)

6.
Healer (featuring Theo Altenberg)

7.
Western Smoke (featuring Enik)
8.
Thumb Second (featuring Enik)
9.
Chaos Breeds 1
10.
Chaos Breeds 2 (featuring Dodd-Ellis,Panther,Altenberg)

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Burnt
Friedmann & Jaki Liebezeit
«Secret Rhythms 2»
CD/2LP Nonplace, €
15,50/€
16,50
Aqui está a continuação de “Secret
Rhythms”, com Jaki Liebezeit, o lendário baterista dos Can, a integrar de
novo os seus “beats” motóricos no funk soluçante e “loungecore” (como já
foi descrito pela imprensa) de Burnt Friedmann, um dos nomes cimeiros da
actual electrónica. Atrás deles, estão a fiel guitarra de Josef Suchy, o
vibrafone de Morten Gronvad (dos Señor Coconut) e alguém que se vai
tornando fundamental para a concretização do “som” distintivo deste
projecto, o clarinetista Hayden Chisholm. Uma das faixas, e talvez mesmo o
cartão de visita deste disco (“The Librarian”), tem David Sylvian como
convidado especial, um gesto de retribuição pelo facto de o ex-Japan ter
convidado Friedmann para o seu “Nine Horses” e para a digressão que
realizou nos últimos meses. Há aqui algo do chill out de um alter-ego do
teclista alemão, Drome, e do cyber-jazz de álbuns como “Con Ritmo”, se
descontarmos os elementos latinos, além de algum psicadelismo e de “dub”,
procedimento em que o mesmo Burnt Friedmann se especializou no projecto
Nu-Dub Players. As referências mais óbvias são as do Herbie Hancock
eléctrico e dos Weather Report, mas mais em termos de atmosfera do que
outra coisa. Nesta colaboração a dois, é óbvio o protagonismo de Burnt
Friedmann, com Liebezeit a posicionar-se mais recuadamente, mas se os
ritmos deste são bastante complexos (sem nunca usar pedais, o que quer
dizer que o bombo e o “hi hat” foram suprimidos, uma inovação no seu
“setup”), o trabalho melódico do primeiro é de uma simplicidade extrema, e
tão “loose” quanto a sua gestão dos pormenores sónicos é obsessiva. Uma
característica distintiva, aliás, deste “easy listening” de dimensão
experimental que, se não acrescenta muito ao já proposto no primeiro
volume, solidifica as premissas por ele introduzidas.
(10-03-2006)
1.
Sikkerhed 
2.
Sticks 
3.
Librarian 
4.
Mikrokasper 
5.
Niedrige Decken 
6.
Broken Wind Repair 
7.
Fearer 
8.
Caracoles 
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excertos de todos os temas

Camera Obscura
«Let's Get Out of This Country »
CD Elefant Records, €16,95
1.
Lloyd, I m Ready To Be Heartbroken 
2.
Tears For Affairs
3.
Come Back Margaret 
4.
Dory Previn
5.
The False Contender 
6.
Let s Get Out Of This Country 
7.
Country Mile
8.
If Looks Could Kill 
9.
I Need All The Friends I Can Get 
10.
Razzle Dazzle Rose 
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excertos de todos os temas

The
Cannery
«There Is Life In This Old Land»
CD Awful Bliss, € 15,50

Um pouco do campo da Califórnia, algum sol do sul e uma pitada de influências
sonoras do Kentucky. Estas são as canções que queremos levar connosco numa 'road
trip', canções que nos transportam para aqueles lugares da nossa memória onde
desde que tenhamos um copo de 'bourbon' na mão e uma cadeira confortável para
nos sentarmos, tudo está bem.
Inicialmente juntando-se apenas para se divertirem a fazer música, Roger
Riedlbauer (ex-membro dos Transmission, Boxcar Saints, e da banda de Jolie
Holland) e Charles Sommer (Halifax Pier) chegaram à conclusão que algo valioso
surgia das suas sessões a altas horas, e assim decidiram fazer um álbum. Podemos
quase escutar os sons da floresta que serviu pano de fundo para estas sessões
nocturnas. Uma destilação dos interesses destes dois amigos, estas canções vão
buscar inspiração ao absurdo, ao conflito e ao orgânico. O resultado final é um
som pungente ao qual não ficaremos alheios. Com um vasto leque de colaboradores
que já tocaram com nomes tão distintos como Tom Waits, Jolie Holland, Sean Hayes,
Court and Spark ou John Vanderslice, The Cannery trazem-nos aqui um álbum de
estreia de canções acústicas melódicas acompanhadas por Ara Anderson (trompete),
Tom Heyman (guitarra), Jason Schwartz (baixo vertical), Josh Tillinghast
(percussões), Alison Johnson (vozes), e Kristina Forester (violoncelo), do qual
não nos esqueceremos facilmente.
(09-11-2007)
1.
Feelin' Country

2.
Starshuttle

3.
Just September

4.
Through Rivers

5.
'til Halloween

6.
Hold the Ghost

7.
It Ain't

8.
New Machine

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Carl Michael von Hausswolff
«Leech (plays
Olafur Eliasson, Carsten Höller, Tommi Grönlund/Petteri Nisunen and
Richard James)»
CD Raster-Noton, € 16,50

O título diz tudo: no seu novo álbum, Carl
Michael von Hausswolff age como uma sanguessuga, extraindo os conteúdos de
peças electrónicas de Olafur Eliasson, Carston Holler, Tommi Gronlund /
Petteri Nisunen e Richard James, aka Aphex Twin, para deles apresentar
aspectos que antes estavam subterrâneos ou não eram particularmente
evidentes. Por vezes detém-se mesmo na parte do processo em que, para
continuar a usar linguagem figurada, é preciso furar a pele e a carne a
fim de obter o sangue indispensável para nutrir tal objectivo – de resto,
fá-lo com um prazer algo sádico, aquilo a que se chama vulgarmente
“escarafunchar na ferida”. Se, como se diz, o microfone funciona como um
microscópio, com as capacidades de “sampling” do computador este monarca
dos reinos virtuais de Elgaland / Vargaland trabalha com um telescópio de
longas distâncias. Aliás, em tudo o que este poliartista sueco faz, seja
ao nível do som ou da imagem, o factor captação é fundamental, e o seu
trabalho passa mesmo por registar, ou pelo menos por tentar fazê-lo,
quaisquer indícios de actividade paranormal. Continuador das pesquisas de
Friedrich Jurgenson no domínio dos EVP (Electronic Voice Phenomena), von
Hausswolff dedica-se a detectar as falas dos mortos na estática
radiofónica, e o certo é que já gravou, e tornou públicos, documentos bem
estranhos. Curiosamente, tamanho esforço em ampliar o não-ouvido (ou o
não-visto, noutros casos que não o aqui em análise) resulta em obras de
carácter minimal, feitas de impulsos eléctricos, murmúrios e crepitações
de desconhecida identificação, simples sinusoidais e ritmos esqueléticos.
É o que aqui ouvimos, com a clara percepção de que aquilo que nos parece
pequeno, noutra dimensão da realidade, aquela sobre a qual von Hausswolff
se debruça, é uma enormidade.
(14-07-2006)
1.
Blitzableiter Induktionsspule

2.
Atomium Phi

3.
Swingers

4.
DJ Set

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Caroline
«Murmurs»
CD Temporary Residence, €
15,95
Situando-se numa tradição da pop que vem da década de 1980 (quem não se lembra dos Cocteau Twins?), Caroline, de apelido Lufkin, canta sobre temas adultos com voz de menina – mesmo quando lembra amores da infância a perspectiva é nostálgica, um sentimento “maior de idade”, adquirindo até tonalidades escuras, assemelhando-se frequentemente a Joanna Newsom. Nascida em Okinawa, no Japão, mas agora residente em Los Angeles, depois de uma passagem por Boston (onde estudou no prestigiado Berklee College of Music), a autora deste álbum de estreia cruza o ambientalismo com a canção mantendo a perspectiva minimal do primeiro. O “glitch” electrónico combina-se engenhosamente com harmonias de piano e arranjos para instrumentos de sopro nestes “murmúrios” que lembram encantos perdidos e falam de (des)esperanças futuras. Se não estamos muito longe da música de dança, é do chill out e do “after party” que mais se aproxima. As atmosferas criadas são habitualmente “soft”, mas os estados de espírito não têm necessariamente de ser passivos e conformados. O mais curioso destas canções é precisamente o facto de Caroline contradizer a dado momento a própria sintonia a que nos convida, com um súbito assomo de raiva ou uma breve alegria. O que quer dizer que “Murmurs” necessita de várias audições para apanharmos todas estas nuances de sentido. Pode ser que esse tipo de escuta não seja muito pop, mas esta também não é propriamente a pop de Anastacia. E no entanto, tem a irrealidade que conhecemos no género, como se tudo não passasse de um sonho à beira de se converter em pesadelo. A inocência transmitida tem tanto de falso quanto de desarmante, como se nota em letras como esta: “I can’t remember your face / But I remember your bycicle / How it took my breath away.” A sexualidade feminina infantil como princípio do fetichismo, eis o que aqui temos...
(06-04-2006)
1. Bicycle
 2. Pink & Black  3. Sunrise
 4. Where's My Love  5. Everylittlething  6. All I Need
 7. Drove Me to the
Wall  8. I'll Leave My Heart
Behind  9. Winter

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Castanets
«First Light’s Freeze»
CD Asthmatic Kitty, € 15,50
Tetuzi Akyama, um dos pais da cena
“onkyo” do Japão (guitarra, toca baixinho...), anda a tocar boogie-woogie
numa seis cordas? Pois. E os Castanets fazem uma mistura de country
com free jazz, com o som Nashville a moldar os seus temas enformados
no “indie rock”. Os híbridos são uma constante da música dos nossos
dias. Já nem sequer é notícia e só resta aos puristas enfiarem-se
num buraco e ruminarem no escuro as suas paranóias. A crítica até
já disse, não sem algum espanto, que “First Light’s Freeze” parece
REM. Apesar dos ingredientes, apesar de estas canções parecerem
ter sido feitas com pilhas Duracell, não cabendo nos formatos radiofónicos.
Apesar das quantidades de “fuzz” e dos “drones”. Pop e experimentalismo
fizeram as pazes – acabou-se a contracultura, agora só há “outras”
culturas musicais, coexistentes e iguais na sua diferença. Tudo
surge como uma alternativa ao que já é alternativo, à excepção,
claro, da MTV, que apenas programa mais do mesmo, cega e surda aos
sinais dos tempos em que vamos vivendo. Daniel Carter, o veterano
saxofonista de jazz, é um dos convidados principais do disco (não,
não é gralha – aliás, sabiam que Chris Corsano, outra enorme figura
da improvisação, é membro fixo do grupo de “weird folk” Sunburned
Hand of the Man?), mas não é para admirar. Ray Raposa, mentor dos
Castanets, quer tocar a seguir com Fennesz, Prince e os nipónicos
Ghost. Com Bach já não é possível, pois morreu...
(07-10-2005)
1. (The Waves
Are Rolling Beneath Your Skin)
2. Into the Night
3. Song Is Not the Song of the World
4. Good Friend, Yr Hunger
5. (We Drew Uncertain Breath)
6. Bells Aloud
7. First Light's Freeze
8. Evidence (A Mask of Horizon, Distortion
of Form)
9. No Voice Was Raised
10. (Migration Concentric)
11.
All That I Know to Have Changed in You
12. Dancing with Someone (Privilege of Everything)
13. Reflecting in the Angles

Cat
Power
«The Greatest (Ed.Especial)»
CD Matador, €
17,95
Chan Marshall volta a
adoptar a designação Cat Power num disco que transpira soul por todos os
poros. Tanto assim que na formação que a acompanha constam o guitarrista e
parceiro de Al Green na escrita de canções, Mabon “Teenie” Hodges, e o
baterista que substituiu o falecido Al Jackson nos Booker T. and the MGs,
Steve Potts. Os restantes músicos são todos da cena de Memphis e dão uma
cor muito própria a “The Greatest” – sopros e cordas têm arranjos muito
conotados com o funk dos anos 1970, e volta e meia espreita mesmo o gospel,
como em “Living Proof”. Enquanto “songwriter”, no entanto, as referências
de Chan são múltiplas, indo da folk (especialmente evidente no muito
aplaudido “The Covers Album”) ao rock de guitarras (aliás, ela chegou a
fazer uma “cover” de “I Found A Reason”, dos Velvet Underground). As suas
letras parecem ter algo de autobiográfico, ideia que é reforçada pelo seu
tom intimista e a pressupor confissão, mas há algum distanciamento da
parte de Chan, não deixando designadamente que a voz seja arrastada pelo
peso do que canta. Se o são na realidade ou não, ela tem o cuidado de
manter o mistério, embora seja claro que o denominativo Cat Power é uma
persona que veste quando sobe ao palco para tirar quando depois do
concerto segue para a sua vida. Aliás, representar está no âmbito das suas
actividades – participou como actriz, por exemplo, no filme “Rockets”, com
Buddy Bolden, desempenhando o papel de uma treinadora de galos. Uma
especialista num divertimento reputadamente “masculino”. Parece até
estranho que alguém aparentemente tão seguro de si possa assinar temas tão
melancólicos e desesperançados (“I hate myself and I want to die”, murmura
em “Hate”), mas o que é a música senão uma forma teatral, e o teatro um
modo de exprimir sentimentos, mesmo que por fingimento? O certo é que este
regresso às raízes do Sul americano profundo surge como uma procura da
verdade, por mais crua que esta pareça para o ser mesmo. Para todos os
efeitos, a verdade pode não estar onde a julgamos, mas “elsewhere” e não
necessariamente disposta a ser colhida...
(03-02-2006)
1. The Greatest
2. Could We
3. Lived In Bars
4. Islands
5. After It All
6. The Moon
7. Living Proof
8. Empty Shell
9. Willie
10. Where Is My Love
11. Hate
12. Love & Communication
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The
Chap
«Ham»
CD Lo Recordings, €
19,50
Johannes von Weiszacker
começou por utilizar o nome The Chap como um projecto solo paralelo à sua
actividade nos Karamasov, mas depressa o que era um investimento solitário
se transformou num grupo, com a inclusão de Panos Ghikas (com quem, de
resto, se movimentava na cena improvisada radical de Londres), Keith
Duncan e Claire Hope. Multi-instrumentistas (Weiszacker multiplicando-se
na guitarra, no violoncelo, nos teclados, no computador e na voz; Ghikas
intervindo em baixo, guitarra, violino, teclados, computador e voz), tal
como era de tradição no rock progressivo (afinal, a última faixa deste
álbum intitula-se “Emerson, Lake and Palmer”), são bem outras as
coordenadas com que lidam, num híbrido em que krautrock, funk, free jazz,
disco, electrónica e pop disputam influências, sempre com o
experimentalismo como linha condutora. Aplica-se-lhes bem a designação
“post-everything” com que são apontados os inclassificáveis e aqueles que,
embora adoptando formas e vocabulários de correntes musicais definidas, já
não têm nenhum vínculo estético ou estilístico com as mesmas. Os Chap
cultivam até o “non-sense”, não só misturando idiomas e materiais de
improvável relacionação (apesar de terem um substracto comum: funk, disco,
jazz e rock são subprodutos da cultura musical afro-americana), como
escolhendo títulos que não têm necessariamente de significar algo. Chamar
“Presunto” a um disco decorre de um exercício de escrita automática e é ao
mesmo tempo a sua parodização, que é o que acontece igualmente na faixa
“The Premier At Last”, cuja letra utiliza o jargão corporativo e do mundo
dos negócios. Entrevistá-los não é tarefa fácil. Duncan pode tentar
definir os Chaps como um cruzamento de Kraftwerk com Sonic Youth, para
logo depois comentar que de Kraftwerk não têm muito. E menos ainda de
Sonic Youth, apesar de também eles gostarem de distorção guitarrística
(oiça-se “Now Woel” e “Arts Centre”, por exemplo). Tocar pop, para o
colectivo, é fazer algo que “soa realmente estúpido”, mas de que se gosta
por isso mesmo, e “Ham”, nesse aspecto, aproxima-se mais do modelo do que
o anterior “The Horse”, por mais estranha que esta pop nos pareça. Nem
sempre esse “encosto” acontece, porém: “Clissold Park” é o resultado de
uma “jam” e talvez a melhor peça do conjunto.
(03-02-2006)
1.
Baby I'm Hurt'n 
2.
Woop Woop 
3.
Now Woel 
4.
Long Distance Lovin' 
5.
Woop 
6.
Auto Where To 
7.
The Premier At Last 
8.
Arizona 
9.
Arts Centre 
10.
I Am Oozing Emotion 
11.
Younger People 
12.
Clissold Park 
13.
Emerson Lake and Palmer

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Charalambides
«A Vintage Burden»
CD Kranky, €
17,50
Christina e Tom Carter já
não estão casados, mas cumprindo a máxima “amigos, amigos, negócios à
parte” (deve haver um equivalente em Inglês), mantêm o projecto comum a
que deram o nome de Charalambides. Depois de nos terem habituado a um free
folk guitarrístico feito de espaços entre as notas, de repetições, de
melodias deturpadas e de estranhas harmonizações, o novo “A Vintage Burden”
é o seu álbum mais acessível, constituído por verdadeiras baladas em que
descobrimos um ocasional travo a blues, desta vez sem as colaborações de
Heather Leigh Murray ou de Jason Bill. Tanto assim que, nos vocais,
Christina já não nos oferece os mantras livremente improvisados (ou assim
pareciam) dos títulos anteriores, como o audacioso “Joy Shapes”, mas
versos estruturados e com refrões. O psicadelismo continua a ser a tónica
destas canções, mas o envolvimento é bem diferente. Não se pense, porém,
que no presente disco não há lugar para as abordagens exploratórias que
deram fama a esta dupla – em “Black Bed Blues”, o único tema instrumental
incluído (com sobregravações), Tom divide a sua atenção entre o “finger
picking” de uma guitarra acústica, uma “pedal steel” com funções
estruturantes e comentativas e uma eléctrica cheia de “fuzz”, evoluindo de
forma minimal (ou seja, por repetições a que se vão acrescentando pequenos
apontamentos à parte) em direcção a um objectivo antecipadamente fixado –
como já alguém escreveu, parece uma lenta viagem no dorso de uma mula
através do deserto do Texas, com o Sol a provocar-nos alucinações. O
curioso é que nunca como neste trabalho o fantasma de Jerry Garcia, dos
Grateful Dead, esteve tão presente – na excelente canção que é “Two Birds”,
Tom e Christina parecem mesmo apostados em fazer uma nova versão de “Dark
Star”, mas segundo a combinatória de timbres e malhas que John Oswald
propôs em “Grayfolded”, o remix que este mestre do plagiarismo realizou
com base nos solos ao vivo do desaparecido guitarrista. Muito bom.
(22-06-2006)
1. There Is No End
2.
Spring

3.
Dormant Love
4. Black Bed Blues
5.
Two Birds
6. Hope Against Hope

Charlemagne
Palestine & Tony Conrad
«An Aural Symbiotic Mystery»
CD Sub Rosa € 15,95

Os seus caminhos foram muitas vezes paralelos (são ambos
compositores / músicos e videastas e tanto um como outro seguem ainda hoje as
premissas do minimalismo) e chegaram a cruzar-se algures entre as décadas de
1960 e 70, mas nunca fizeram nada em conjunto nem se contactaram durante os 30
anos seguintes. Até que, em 2005, decidiram uma colaboração para concertos em
França, Bélgica e Itália – um deles, realizado no Petit Théâtre Mercelis em
Bruxelas no Luc Ferrari Day, é o que está documentado neste disco. O “mistério
simbiótico” de que fala o título denota bem a surpresa destas duas grandes
figuras do século XX, e agora do XXI, relativamente à empatia comseguida nessas
actuações ao vivo, parecendo mesmo que desde sempre tocaram juntos. “Como é que
eu e o Tony pudemos funcionar tão bem sem termos discutido ou planeado fosse o
que fosse? Não faço ideia!”, confessa Charlemagne Palestine nas notas de capa. A
verdade é que estamos perante o testemunho de um encontro histórico de interesse
musical único, com Tony Conrad no violino eléctrico, escolhendo um tipo de
abordagem não muito distante do que lhe ouvimos com os alemães Faust, e com
Palestine a sobrepor “clusters” pianísticos sobre bases electrónicas, volta e
meia acrescentando a sua voz de contratenor. Eis, assim, mais um produto excelso
da “dream music” que vêm praticando, mas desta feita com a mais-valia da
combinação de dois entendimentos que, embora vizinhos, são muito personalizados.
Pelo que vemos nas fotos, não havia ursinhos de peluche sobre o piano, mas lá
estão Charlemagne Palestine e Tony Conrad com os seus inseparáveis chapéus.
(03-11-2006)

Charley Patton
«Screamin' and Hollerin' The Blues: The Worlds of Charley
Patton»
CAIXA 7CD's+Livro Revenant, €132,50

Não há notícia
de outro guitarrista e cantor de blues ter merecido edição
tão sumptuosa: uma caixa com sete CDs, muita documentação
escrita e visual (128 páginas dela!) e um livro de 112 páginas
(escrito por John Fahey, o grande inovador da guitarra folk/country
que enraízou o mais que pôde a sua arte na tradição
e na história) explicam porque Charley Patton é uma
das figuras mais seminais da música praticada no delta do
Mississipi - e seminais, curiosamente, em domínios muitos
distantes desta geografia musical e designadamente entre experimentalistas
e improvisadores como Noel Akchoté e o português Manuel
Mota. Algumas das gravações aqui recuperadas remontam
aos anos 20 do século que passou e envolvem outros nomes
a quem Patton esteve de alguma maneira ligado, como Walter Hawkins,
Edith North Johnson, Henry Sims, Willie Brown, Son House, Louise
Johnson, os Delta Big Four e Bertha Lee, além de músicos
que pegaram no seu repertório da estirpe de Ma Rainey, Furry
Lewis, Tommy Johnson, Howlin' Wolf, Joe Williams e Staple Singers.
Muita da música ouvida, seja sob a forma original dos blues
do Delta, com uma voz e uma guitarra simplesmente, ou com vestimentas
de "vaudeville jazz" e de gospel, traz consigo a marca
do tempo, com camadas maiores ou menores de estática e o
crepitar da agulha nos velhos discos de 78 rpm de onde foi retirada.
A "patine" não é um escolho para a fruição
destas preciosidades da canção negra americana, antes
lhes empresta uma dimensão existencial, de coisa vivida.
Com uma voz enrouquecida pelo tabaco e pelo uísque, que consumia
em grandes quantidades, a forma como cantava (como se tivesse berlindes
na boca, diz-se) e tocava (entre o "finger-picking" e
o "slide" com uma navalha) teve descendentes directos
em Howlin' Wolf, Robert Johnson e, mais recentemente, John Lee Hooker.
Charley Patton também utilizava a madeira da guitarra em
situações rítmicas, um processo mais tarde
adoptado por quantos desenvolveram técnicas extensivas para
este instrumento - ouvi-lo a fazer isto há sete décadas
faz-nos crer que a vanguarda, afinal, não acrescentou muito
ao que indivíduos com o génio deste já faziam.
(15-04-2005)
Charlie Alex March
«When The Clouds Clear»
2x3"CD LOAF, €
9,95

Disco 1:
1.
Goodbye Penny
2.
Francisca's Theme
3.
London
4.
Animals
5.
Piano Song (Metronomy Mix)

Disco2:
Vídeo de "Goodbye Penny", numa animação de Mat Redvers
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!!! (Chk Chk Chk)
«Myth Takes»
CD Warp, € 15,95
"«Myth Takes» rampages through the
annals of kinetic music without letting genre tropes override or diffuse the
songs' impact. The cerebral always takes a backseat to the visceral, and the
album, while varied, is united by relentless propulsion." Brian Howe
in Pitchfork
"Their third, and most ambitious album
so far, Myth Takes sees !!! heightening their aesthetic of electronically-tinged,
dancefloor-friendly rock to ecstatic proportions. The band have certainly
increased the scale of their productions, with a more spacious, complex approach
to production that’s made everything sound a whole lot bigger. (...) Check out
the cheekily-titled repetitious krautrock excursion, ‘Bend Over Beethoven’,
which goes off like an LCD Soundsystem remix of something from Can’s Tago Mago."
in Boomkat
(16-03-2007)
1.
Myth Takes

2.
All My Heroes Are Weirdos

3.
Must Be The Moon
4.
A New Name
5.
Heart of Hearts
6.
Sweet Life
7.
Yadnus
8.
Bend Over Beethoven

9.
Break In Case Of Anything

10.
Infinifold

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Chris
Watson/BJ Nilsen
«Storm»
CD Touch, € 15,95

Geir
Jenssen
«Cho Oyu 8201m – Field Recordings From Tibet»
CD Ash International, € 15,95

Conta já com vários anos a colaboração entre o
ex-Cabaret Voltaire e ex-Hafler Trio Chris Watson e BJ Nilsen, mais conhecido
nos meios da “ambient music” (chamemos-lhe assim por conveniência, apesar de
muito pouco haver de semelhante ao que Brian Eno designava com estas palavras)
por Hazard, representando“Storm” exemplarmente o gosto que os praticantes da
electrónica vão tendo cada vez mais pela utilização de “found sounds” ou mesmo
pela recolha intensiva e sistemática dos sons do mundo, a começar pelos da
natureza, vulgo “field recordings”, para posterior tratamento e estruturação. No
caso, temos uma montagem de sons de tempestades nos mais inóspitos locais das
ilhas britânicas e no Mar do Norte (ilhas suecas), com uma peça assinada pelos
dois artistas sonoros (“SIGWX”), uma de Watson (“No Man’s Land”) e outra de
Nilsen (“Austrvegr”). Não se trata apenas, nem podia, de simples amostragem
documental dos fenómenos da atmosfera – os sons são isolados, amplificados,
analisados a fundo (o que implica a passagem pelo crivo da tecnologia de
captação e gravação utilizada e da subjectividade do operador / artista,
expressa pelas escolhas realizadas e pelos processos decididos) e parametrados
de modo a que a nossa percepção deles seja uma experiência única. Tal é verdade
igualmente no que diz respeito à “música das montanhas” oferecida por Geir
Jenssen (o homem por detrás do nome Biosphere) em “Cho Oyu 8201m”. Colecção de
registos feitos nos Himalaias, Tibete, o que aqui ouvimos é bem distinto das
“soundscapes” digitais que coloca em disco. Não se trata propriamente de um
filme para os ouvidos, com as respirações, os sinos dos iaques, o vento a soprar
e as emissões de um rádio de ondas curtas confundindo-se entre si como num
curtocircuito de sensações; a experiência surge-nos, sim, como algo de estranho
e personalizável (sobretudo se ouvirmos com auscultadores), com as figuras
sonoras episodicamente reconhecíveis evidenciando ainda mais que esta é uma
realidade outra, desconexa e à beira do abismo. É como se nós mesmos também
sentíssemos a vertigem e a desorientação dos alpinistas.
(17-11-2006)
«Storm»: 1.
No Man's Land

2.
SIGWX

3.
Austrvegr

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«Cho Oyu 8201m – Field Recordings From Tibet»:
1.
Zhangmu (Crossing A Landslide Area)

2.
Tingri (The Last Truck)

3.
Jobo Rabzang (A 6666 Metre Peak In The Cho Oyu Himal)

4.
Chinese Basecamp (Near A Stone Shelter)

5.
Palung (A Yak Caravan Is Coming)

6.
Cho Oyu Basecamp (Morning)

7.
Nangpa La (Birds Feeding On Biscuits)

8.
Camp 1 (Himalayan Nightfight)

9.
Camp 1.5 (Mountain Upon Mountain)

10.
Camp 2 (World Music On The Radio)

11.
Camp 3 (Neighbours On Oxygen)

12.
Summit (Only Slight Breeze On The Summit At 8201m)

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Christian
Wolff
«Percussionist Songs»
CD Matchless Recor |