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Earth
«Hibernaculum»
CD+DVD/2LP Southern Lord, € 19,95/€ 17,50
Já com uma longa discografia que se estende por
inúmeros anos (desde 1990, ano da sua formação), os Earth, ou melhor, o
guitarrista Dylan Carson, lançam agora "Hibernaculum", uma edição especial em CD
e DVD. O CD inclui novas versões de três velhos clássicos agora refeitos
completamente com uma nova lavagem, bem como o tema “A Plague of Angels”,
anteriormente apenas disponível num raro máxi de 12" em parceria com os Sunn0))).
Como já vem sendo habitual, a sonoridade gira à volta dos 'drones', colando-se por
vezes ao rock ou ao metal mas mantendo sempre a identidade experimental a que já estamos
habituados de clássicos anteriores.
O material do segundo disco (DVD) é um documentário sobre os Earth filmado por Seldon
Hunt.
Esse filme é uma rara peça e a única existente dos Earth desde o ressurgimento
do projecto por Dylan Carson em 2000.
Tal como acontecera no excelente "Hex: Or Printing in the Infernal Method" de
2005, Dylan foi buscar outra vez a mesma formação, mantendo assim o nível de
qualidade desse álbum: Adrienne Davies na percussão, Don Mcgreevy e
Jonas Haskins nos baixos, Steve Moore nos teclados e metais e Greg Anderson (Sunn 0)))/Thorr's Hammer/Goatsnake)
acrescenta sonoridades subsónicas através do seu sintetizador analógico em “Ouroboros is Broken”
e “Coda Maestoso in F (Flat) Minor”. Tal como "Hex...", "Hibernaculum" permanece
estranho mas atraente, mantendo a pesada áurea negra típica dos Earth.
(25-05-2007)
CD:
1. Ouroboros Is Broken

2. Coda Maestoso In F (Flat) Minor 
3. Miami Morning Come Down 
4. A Plague Of Angels 
DVD:
1. Documentário incluindo entrevistas e material ao vivo (filmado por Seldon
Hunt)
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excertos de todos os temas

Earth
«Hex: Or Printing in the Infernal Method»
CD Southern Lord, € 17,50
Não é muito habitual:
com apenas quatro álbuns, o grupo de Dylan Carlson tornou-se em
objecto de culto e de lenda, mais amplificado ainda pelo facto de
um outro grupo, os Sunn0))), ter dedicado a sua existência e a sua
própria música a homenagear os Earth, com um sucesso que roça igualmente
o estatuto de fenómeno. Nove anos depois do último título saído
para os escaparates, eis que surge “Hex: Or Printing in the Infernal
Method”, com uma nova baterista, Adrienne Davies, e uma mudança
de trajectória que os afasta ainda mais das coordenadas do metal
e até, surpresa!, do “drone rock” de que foram os precursores. Decididamente,
o “guitar anti-hero” que Carlson é não se contenta com vindimar
em chão já desbravado, colhendo simplesmente os frutos do trabalho
realizado antes. Ainda que com as mesmas políticas de redução ao
máximo das batidas por minuto e de repetição cíclica dos mesmos
motivos (leia-se: “riffs”), os novos Earth mergulham fundo na tradição
rural do rock and roll e vão buscar inspiração nos blues negros
e na Americana. Até um banjo ouvimos neste disco que transpira Blind
Lemon Jeferson e Charley Patton por todos os poros, com o uso parcimonioso
do “bottleneck” a somar-se às estratégias de distorção e “feedback”,
e em muitos casos até a substituí-las. Depois do doom metal, aqui
temos o doom blues. Como escreveu um crítico a propósito, “Hex...”
não reinventa a roda, mas faz com que esta circule mais devagar.
A atracção pelo imobilismo é compensada pela densidade. Estas paisagens
a preto-e-branco são tão espessas quanto o torpor de um heroinómano
que não consegue manter os olhos abertos enquanto arruma os carros
do dia-a-dia.
(04-11-2005)
1. Mirage
2. Land of Some Other Order
3. The Dire and Ever Circling Wolves
4. Left in the Desert
5. Lens of Unrectified Night
6. An Inquest Concerning Teeth
7. Raiford
(The Felon Wind)

8. The Dry Lake
9. Tethered to the Polestar

Earth
«Legacy of Dissolution - Remixes»
CD No Quarter, € 17,95
O doom / drone metal
tornou-se sinónimo de Earth, e mesmo os mais conhecidos praticantes
desta modalidade por estes dias, os Sunn 0))), têm o cuidado de
anunciar o seu alinhamento estético com a banda de Dylan Carlson.
Um alinhamento que já ultrapassa a própria tribo metálica, como
verificamos nesta colectânea em que Mogwai, Russell Haswell, Jim
O’Rourke, Autechre e Justin Broadrick, ou seja, músicos e grupos
da electrónica e do pós-rock, se juntam aos referidos Sunn 0)))
na remixagem dos sons daquela formação de culto que adoptou o primeiro
nome dos Black Sabbath. E se a música dos Earth já era pesada, lenta
e tendencialmente abstracta, nestas leituras torna-se numa matéria
multiforme mas extremamente densa em que o som ganha primazia sobre
a forma, com os “riffs” remanescentes a boiarem como náufragos num
mar de detritos. O mais curioso ainda é que tais versões não correspondem
ao que habitualmente esperamos de cada um dos nomes envolvidos.
“Coda Maestoso in F Minor” está tão longe das polirritmias digitais
dos Autechre quanto seria possível imaginar, funcionando até como
uma ode dos mesmos ao rock, género que nunca praticaram. Em “Tibetan
Quaaludes (Waveset Sloth Mix)”, Haswell não é, apesar de tudo, e
designadamente da inquietude transpirada por este tema, tão radical
quanto nas realizações “hardcore” a que nos foi habituando e O’Rourke
é quase “lírico” (passe o exagero) no modo como remistura o lendário
trio, parecendo construir uma ponte entre o universo fantasmagórico
e brutalista dos Earth e o relativamente suave ambientalismo “noise”
que tem ganho as suas preferências quando não segura uma guitarra
acústica nas mãos. La Monte Young, Charlemagne Palestine e Tony
Conrad estavam longe de adivinhar que a sua “drone music” da década
de 1960 iria encontrar-se com o heavy metal e resultar em algo como
os Earth têm feito, assim como o próprio Carlson (e, já agora, Stephen
O’Malley e Greg Anderson, dos Sunn 0))) nunca poderia prever que
o que fazem interessaria às facções mais experimentais da música
contemporânea. Tudo está em fluxo, como se vê.
(02-09-2005)
1. Teeth of Lions Rule The Divine (Mogwai)
2. Tibetan Quaaludes (Waveset Sloth Mix) (Russell
Haswell)
3. Thrones and Dominions (Jim
O'Rourke)
4.
Coda Maestosa in F(flat) Minor (Autechre)
5. Harvey (Justin
Broadrick)
6. Rule The Divine (Mysteria Caelestis Mugivi) (by
SUNN O))))

Ed Motta
«Dwitza (Digipak)»
CD Whatmusic, €17,50

A paixão do cantor
brasileiro Ed Motta pelo jazz é antiga e dela nos fomos apercebendo
ao longo da sua discografia, mas só agora venceu tudo o mais. Depois
dos álbuns pop "Manual Prático para Festas e Afins Vol. 1"
e "As Segundas Intenções do Manual", eis que "Dwitza"
nos chega com uma música instrumental (e instrumental na medida
até em que, na maior parte das faixas, a sua voz funciona como um
instrumento mais, a nível do "scat" e do "vocalising")
temperada pela soul (o seu outro amor) e o samba natal, sim, mas
concebida e tocada à imagem do jazz da década de 1960 - o que explica,
inclusive, a omnipresença de um Fender Rhodes, o rei dos pianos
eléctricos. Herbie Hancock é mesmo uma referência constante deste
álbum em que o igualmente guitarrista e teclista salda as contas
com as músicas que ama. Além dos géneros já referidos, outros sons,
como a música de cinema, as canções da Broadway, os blues, o rock,
a "chanson française" e até a clássica. Nesta mistura,
mesmo o samba-jazz que abraça não é "chapa 5": "Parece
mais os Amon Duul tocando samba, uma coisa toda esquisita",
esclarece. Diga-se para vossa melhor compreensão que Motta é um
coleccionador de discos (numa sua recente tournée pelo Japão comprou
nada menos do que 800, de vinil!!) e que conhece tudo, ou quase,
o que se fez e vai fazendo em várias áreas da produção musical planetária,
com claro destaque para as obras mais antigas, de carácter histórico.
Conhece de ouvir e quer ele próprio praticar: "Gosto de me
comparar com Frank Zappa neste ponto, ele num disco fazia música
erudita, em outro free jazz, depois parodiava o rock dos anos 50...
A linha é não seguir linha alguma." E porque assim pensa, uma
próxima aventura a que quer meter ombros é fazer algo que soe como
os Thin Lizzy, rock de guitarras com vocais gritados. E com certeza
que esse disco de hard rock terá um cheirinho de jazz, de Motown
e de Brasil, como este de jazz exala vapores de outras proveniências.
(24-06-2005)
Edith Frost
«Calling Over Time»
«Telescopic»
«Wonder Wonder»
CD's Drag City, €
16,50

Algures entre a
folk psicadélica e o rock “indie”, com salpicos de country pelo
meio, o que Edith Frost nos oferece já tem sido denominado como
“sadcore”, mas não se pense que os seus discos são a reiteração
da mensagem típica dos depressivos contemporâneos, tipo “que-pena-eu-tenho-de-mim”.
A tristeza dela é a própria de uma texana que não se conforma com
o estado a que o seu país e o mundo chegaram, isto a um nível subliminar,
pois mensagem política imediata écoisa que as suas canções não têm.
Ocupam-na mais as questões existenciais experimentadas na primeira
pessoa do singular com a ideia de que todos nós passamos pelo mesmo,
ou seja, aquelas que acabam por ser as mais importantes e estão
na base do discurso político, ainda que as ideologias tendam a alienar-se
desses fundamentos. A Drag City reeditou três dos seus mais importantes
títulos, cada um revelando uma faceta distinta da sua música, “Wonder
Wonder” mais “straightahead” em termos estilísticos, apesar de Steve
Albini se sentar na mesa de mistura, “Telescopic” com a omnipresença
de uma guitarra eléctrica que roca e rola sem complexos, e “Calling
Over Time” lembrando o melhor dos Cowboy Junkies, acústico, elementar
no que à produção diz respeito, se bem que cuidado, e com as participações
de Jim O’Rourke e David Grubbs a fazerem-se sentir no produto final,
além das de outros músicos de Chicago de nome feito, como Sean O’Hagan,
dos High Llamas. Para além da elegante escrita de canções, muito
do que estes álbuns têm de bom passa pela voz de Frost, que mais
do que sensual é sexual, embora de forma absolutamente nada afectada.
Esta é uma voz que respira e tem uma dimensão especialmente humana,
natural, confidente e até frágil, o contrário precisamente da voz
pop típica, que é artificial e tão incapaz de sinceridade quanto
um vendedor de automóveis em segunda mão. Uma voz, em suma, que
reflecte a complexa personalidade de uma jovem mulher que já foi
programadora de Internet e que esteve envolvida com uma comunidade
on-line de “cowgirls”, assim se verificando que entre vacas e campos
de milho e a realidade virtual há hoje mais de comum do que se poderia
imaginar. Nota: o tema "On
Hold" de "Telescopic" está incluído na banda sonora
do filme "Alta Fidelidade", com John Cusack.
(19-08-2005)
Calling
Over Time:
1. Temporary Loan
2. Follow
3. Calling Over Time
4. Denied
5. Pony Song
6. Too Happy
7. Wash of Water
8. Shadows
9. Thine Eyes
10. Give Up Your Love
11. Albany Blues
Telescopic:
1. Walk On The Fire
2. On Hold
3. Light
4. The Very Earth
5. You Belong To No One
6. Telescopic
7. Falling
8. Bluish Bells
9. Through The Trees
10. My Capture
11. Tender Kiss
12. Are You Sure?
Wonder Wonder:
1. True
2. Cars and Parties
3. Who
4. Wonder Wonder
5. Hear My Heart
6. The Fear
7. Dreamers
8. Further
9. Merry Go Round
10. Easy To Love
11. Honey Please
12. You’re Decided

Edith
Frost
«It's a Game»
CD/LP Drag City, € 16,50/€
12,50

A mesma Edith Frost que
no seu blog escreve sobre a sua vida com uma frontalidade que tem
provocado algum desconforto entre amigos e admiradores é a que reencontramos
neste disco cujas letras a propósito dos altos e baixos das relações
amorosas e dos bons e maus sentimentos são escalpelizados com uma
desarmante honestidade. Autora de canções entre a folk e o country,
se bem que com um travo pop e um tratamento composicional que tem
algo de música de câmara, o que desde logo se destaca é a sua voz
de menina, mesmo em "torch songs" como "Lucky Charm".
Quatro anos se passaram desde "Wonder Wonder", o álbum
anterior, e pelo que se ouve não foram quatro anos de secura criativa.
Antes pelo contrário: Edith parece mesmo estar em apuro de forma,
embora confessando que agora faz as coisas mais lentamente do que
noutros períodos mais agitados da sua actividade musical. Não porque
tenha menos certezas do que quer fazer, mas precisamente porque
a maturidade conquistada a leva a compor com mais cuidados. E se
continua a fazer canções tristes, algumas das que integram "It's
a Game" denunciam alguma revolta. Seja como for, a maior parte
delas contrariam quem achar que ela se resignou perante as dificuldades
da existência. Do mesmo modo, não adequam às expectativas de quantos
prefeririam vê-la amarrada a um só estilo: "Não quero que chamem
country, country alternativo, rock ou folk à minha música. Os fãs
desses géneros ficarão com certeza desapontados se comprarem os
meus discos, pois não são discos rock, nem folk, nem country",
disse numa entrevista. Esta rebeldia face aos rótulos valeu-lhe
já a colaboração de gente que lida igualmente mal com alinhamentos
exclusivos, como Jim O'Rourke, David Grubbs, Sean O'Hagan (High
Lamas), Rick Rizzo (Eleventh Dream Day), Neil Hagerty (o ex-Royal
Trux e ex-Pussy Galore), Robert Wyatt, Mark Eitzel (American Music
Club), Chan Marshall (Cat Power) ou Laetitia Sadier (Stereolab).
Grandes amigos para uma grande cantora...
(11-11-2005)
1. Emergency

2. It's a Game
3. What's the Use
4. Mirage
5. Playmate
6. My Lover Won't Call
7. Lucky Charm
8. Larger Than Life
9. Just a Friend
10. If It Weren't for the Words
11. Stars Fading
12. Good to Know
13. Lovin' You Goodbye

Editors
«The Back Room»
CD Kitchenware, € 17,95
1. Lights
2. Munich
3. Blood
4. Fall
5. All
Sparks
6. Camera
7. Fingers
In The Factories
8. Bullets
9. Someone
Says
10. Open
Your Arms
11. Distance
Efterklang
«Tripper»
CD Leaf, €16,00
O quinteto Efterklang
conta com alguns membros dos Sígur Rós e isso nota-se.
O envólucro é dado pela electrónica, mas estamos
perante um pós-pós-rock que inclui instrumentos de
sopro, vozes e até dois elementos do Amina String Quartet,
companheiro de percurso daquele grupo islandês. Ao todo, estão
cerca de 40 músicos envolvidos. Sonoridades digitais e acústicas
abraçam-se constantemente, pelo que, quando parece termos
encontrado uma situação de paisagismo abstracto algo
semelhante às de Oval, tudo muda para um cenário neoclássico
ou de contornos mais pop. Em Tripper, os Efterklang
(que quer dizer resonância) conseguem mesmo a
proeza de tornar belo o que é sombrio e até funéreo,
em tudo se assemelhando a forma e o conteúdo desta obra a
um requiem à maneira de Arvo Part. Collecting Shields
é bem um exemplo destas combinatórias, com um coro
e um trio vocal solista a sublinhar a ambiência celebratória
e até religiosa do conjunto , enquanto as repetições
do piano sugerem o minimalismo de Philip Glass. A escola minimalista
americana é, inclusive, um pilar sobre que assenta a música
deste colectivo: Tehillim, de Steve Reich, sobrevive
no modo como os padrões instrumentais e vocais vão
sendo conjugados ao longo do disco. O papel da percussão
é entendido da mesma forma que com os Múm e o trabalho
das cordas tem similaritudes com os Godspeed You! Black Emperor
que são tudo menos uma coincidência, mas não
se pense que os Efterklang se limitam a realizar pastiches das suas
preferências auditivas; antes procuram delinear em definitivo
um espaço que a pouco e pouco foi surgindo entre famílias
musicais, um espaço que valoriza especialmente a harmonia,
a diversidade tímbrica e das cores, a associação
de elementos pop e experimentais e um estilo que é indubitavelmente
nórdico. O objectivo parece cada vez mais óbvio: tentar
reproduzir as auroras boreais no plano sonoro, ainda que sem o pretenciosismo
do rock progressivo de há 30 anos. Se a escala em que actuam
é grande, por momentos até quase sinfónica,
têm uma óptima noção de medida e sabem
que não é preciso usar tudo de uma só vez.
(06-05-2005)
1. Foetus
2. Swarming
3. Step Aside
4. Prey And Predator
5. Collecting Shields
6. Doppelganger
7. Tortuous Tracks
8. Monopolist
9. Chapter 6

Eglantine
Gouzy
«Boamaster»
CD O/S/A/K/A Recordings, € 15,95

Tendo colaborado no primeiro volume da série "4 Women No Cry",
da etiqueta de Gudrun Gut Monika Enterprise, Eglantine Gouzy volta à carga agora
com um álbum de originais. Residente em Paris, Eglantine faz uso da voz na sua
própria língua mas também em inglês. Com a sua voz frágil e melódica as suas
criações pop electrónicas fazem-nos lembrar umas vezes Bjork, outras Joanna
Newsom ou CocoRosie, mas a vertente instrumental é bem mais arrojada, e não
encontramos qualquer comparação possível. "Boamaster" é mais uma grande surpresa
desta editora irlandesa tão versátil e peculiar.
(05-10-2007)
“....I love her voice” Music for Robots
"Here’s one more for the revolution! Recommended."
Boomkat
“This one is a winner” Popmatters
"A beautifully arranged series of cuts" Smallfish
“A great show of new talent” Velvet Grooves
“It’s gorgeous poppy electro stuff” Sigla
“Adorable” Plan B magazine
1.
Eglantine Longe

2.
Cuckoo

3.
Cowboy

4.
Boa

5.
A Gnome

6.
Sante

7.
Attention

8.
Nurse
9.
Strada

10.
Tout L'an
11.
Zone A
12.
Come Back

13.
12H12
14.
Pygmy

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Eight Frozen Modules
«Crumbling and Responding»
CD G25/Very Friendly, € 17,50

Entre o digital hardcore
e uma versão desconstrucionista do dub, com outras situações
a emergirem quando menos se espera, como o experimentalismo xenakiano
de "Corteme" e o ambientalismo "dark" de "If
You Only Knew", o projecto Eight Frozen Modules é neste
disco o exemplo acabado de esquizofrenia sonora, instabilidade rítmica
e rebeldia face aos formatos musicais estabelecidos, a começar
pelos da dança. Apesar de promoverem a libertação
dos corpos, estes ganharam regras excessivamente definidas, por
vezes como se se tratasse de dogmas religiosos, sendo acusados de
heresia os que se atrevem a desviar-se um milímetro que seja
do evangelho. Se assim é,."Crumbling and Responding"
surge-nos como obra do demónio, pois são muitos os
milímetros (centímetros, decímetros, metros
até) calcorreados no esforço de se distanciar das
novas tradições musicais do planeta techno. A capa
oferece-nos uma visão pós-apocalíptica de uma
cidade dos EUA, mas como a realidade é sempre mais alucinante
do que a ficção, as imagens que vimos recentemente
de New Orleans ultrapassam em horror e devastação
esta tentativa de antecipação futurística.
A mensagem inserida na "cover art", no entanto, é-nos
transmitida: o que ouvimos nestas faixas é, em simultâneo,
a destruição definitiva do sonho americano em ruínas
e a reconstrução de algo bizarro e disforme no seu
lugar. O nihilismo electrónico dos nossos dias já
não se contenta com... ser nihilista, propõe logo
de imediato um mundo alternativo, ainda que este possa ser mais
estranho que a atmosfera de Saturno. Para que tenham uma ideia do
que se trata, digamos que o que aqui está tem algumas semelhanças
com o Aphex Twin das meninas com cara de tarado barbudo e com Kid
606 quando este reage mal a quem lhe chama de "chicano",
o mais não seja porque nasceu na Venezuela. Kenneth James
Gibson, o homem responsável por estas transfigurações
do hip-hop, do electro-disco e do ragga, tem outros alter-egos,
como Dub Loner, Premature Wig ou Reverse Commuter, mas é
com o presente heterónimo que vai mais longe na sua verve
criativo-destrutiva. E a verdade é que mesmo como Eight Frozen
Modules nunca tinha sido tão atrevido a pôr argamassa
nas ruínas. Se o seu esqueleto se desconjuntar ao dançar
isto, tanto pior.
(09-09-2005)
1.Corteme
2.Your Novelist Career
3.Vagina Spiders
4.Randolios
Getaway 
5.Lack of Nursing
6.A Chiming Seqway
7.Trust These Apart
8.Drills For Devil Dub
9.Believe That
10.If
You Only Knew 

Ekkehard
Ehlers
«A Life Without Fear»
CD Staubgold, €
15,95

Quem se lembra de “Plays”, o álbum de
remisturas de Ekkehard Ehlers que incluía numa das faixas uma muito
pessoal perspectiva da música de Robert Johnson? Pois em “A Life Without
Fear” o seu fascínio pelos blues está na base de todo o projecto. E
quando, além do “finger-picking” do Delta do Mississipi, ouvimos também
nas construções abstractizantes deste curioso trabalho o balafone
africano, mais entendemos que o que este músico alemão faz são jogos de
combinação, seja porque encontra paralelismos e aspectos comuns ou porque
o paradoxo funciona especialmente bem no domínio da arte e o que se
procede é a um “mix” de contrários. Não é a primeira vez que os blues são
glosados em contexto experimental e electroacústico – assim de repente
vem-nos à ideia “Midnight Crossroads Tape Recorder Blues”, de Bruce
Russell e Ralf Wehowsky –, mas nunca com o alcance aqui pretendido. Ehlers
é uma personagem do universo da sampladelia, o mesmo em que habitava John
Oswald antes de se dedicar exclusivamente ao saxofone e à improvisação, e
de facto, a apontar algo que.se aproxime do espírito desta música,
escolheríamos “Grayfolded”, a montagem que Oswald realizou a partir de
interpretações ao vivo de “Dark Star” pelos Grateful Dead. Com a diferença
de que os resultados são bem mais extremos e que os elementos “plunder”
são integrados com outros de formulação instrumental – aliás, colaboram no
presente disco o guitarrista Joseph Suchy, o trompetista Franz Hautzinger,
o vocalista e tocador de harmónica Howard Katz Fireheart e o violista
Bjorn Gottstein. Ehlers pode, por exemplo, retirar a voz de um velho disco
de blues e misturá-la com os guitarrismos “extensivos” de Suchy, blues
também, mas de recorte bem diferente, e aí temos uma característica
operação desta obra. E se em alguns casos percebemos o que se passa,
noutros ficamos sem saber o que é real e o que é virtual, mas tudo bem,
porque esse é um dos objectivos de um investimento que parece fazer da
memória um ecrã prospectivo de construção da alteridade.
(04-08-2006)
1.
Ain't No Grave

2.
Frozen Absicht

3.
Strange Things

4.
A Second Fire

5.
Die Sorge Geht Über den Fluss

6.
Nie wieder schnell sagen

7.
Misorodzi

8.
Maria & Martha

9.
Meeresbeschimpfung

10.
O Death

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Eldridge
Skell's The Rude Staircase
«Sookie Jump»
CD
What Delicate Recordings, € 15,95

"Sookie Jump" é um amontoado elegante de canções reminiscentes da arquitectura
inovadora de Frank Lloyd Wrights na obra "Falling Water" e na massiva vila
utópica de betão Arcosanti da autoria de Paolo Soleri. Edifica tensão e capta a
nossa atenção ao inserir escuridão nos espaços vazios entre
os sons, numa acidentada estrada de terra. Sugere a fase de Alice Cooper na
altura de "Pretties for You", mas o som é bem mais cheio, talvez mesmo mais
brincalhão como o preciso hooliganismo da Willem Breuker Kollektiv. No final
desta experiência sentir-nos-emos como se tivessemos escutado toda a discografia
dos Cardiacs de barriga cheia.
(16-11-2007)
1. Variations On a Theme By Michael Jackson
2.
A Gaggle of Swans

3. In The Silo
4.
Houses Are Burning

5. Cranes (Detail)
6. Cranes
7.
Here Come The Red Teeth

8. We Had Our Cut Out For Us, Francis
9. Telephone, Telephone
10. March of The D9 Caterpillar
11. Shut Up!
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Elizabeth Anka Vajagic
«Nostalgia/Pain EP»
CDEP Constellation, € 15,50
As três canções
deste EP foram gravadas nas mesmas sessões de estúdio
que resultaram no celebrado álbum de estreia da croata-canadiana
Elizabeth Anka Vajagic, "Stand with the Stilness of This Day".
Mas atenção, não se trata de restos. Especialmente
patente está a contribuição dos improvisadores
Sam Shalaby, dos Shalaby Effect, na guitarra eléctrica, Michel
Langevin na bateria e, com grande proeminência, Fluffy Erskine
em objectos amplificados e manipulados com arco de violino. Nada
que se esperasse, pois, de um disco assinado por uma cantora folk/pop.
Excepto se se tratar desta cuja voz tem tanto de intimista quanto
de gutural, completamente alheia aos padrões da actual canção.
Aliás, a duração das faixas aqui reunidas não
permitem equívocos: com os mais de 17 minutos de "Nostalgia"
e os mais de 12 de "Pain" está visto que esta música
não foi pensada para as "chart lists" da rádio
tal como esta é hoje (mal) entendida. Num momento em que
o cançonetismo de entretenimento é cada vez mais escapista,
Vajagic chega mesmo a ser gótica, versando sentimentos e
temáticas (passear no cemitério, por exemplo) que
não são as mais "politicamente correctas"
- é sabido como, no outro lado do Atlântico, se enterram
os mortos como se a morte não existisse. O ideal para uma
editora de inspiração anarquista como a Constellation,
dizemos nós. O disco começa com um aviso, "I
want you to know I don't hate you", para desde logo se perceber
que o que vem de seguida não é propriamente pacífico.
Os agudos lamentativos da jovem cantora fazem o resto.
(29-07-2005)
1. Nostalgia
2. Pain
3. Beneath Quiet Mornings

Elke
Baur
«Jazzin’ the Black Forest»
DVD Monitorpop Entertainment, € 23,50

Equivalente germânica da Blue Note, a MPS (de
Muzik Produktion Schwarzwald, mas também de Most Perfect Sound) teve um papel
fulcral no desenvolvimento do jazz alemão, em particular, e do europeu, em geral
desde a década de 1960, quando ainda se chamava SABA. E não só: a série Jazz
Meets the World desta etiqueta é considerada como estando na origem daquilo a
que hoje se chama “world music”. Projecto de Hans Georg Brunner-Schwer com a
adesão de Joachim-Ernst Berendt, que com ele produziu centenas de discos – o
catálogo conta com mais de 700 –, Albert Mangelsdorf, Wolfgang Dauner, Joachim
Kuhn, Eberhard Weber e Volker Kriegel, entre muitos outros músicos alemães, têm
os seus nomes associados à editora localizada na Floresta Negra, mas esta foi
buscar os seus artistas também a países terceiros, e sobretudo aos EUA, de Duke
Ellington, Oscar Peterson, Bud Powell e Dizzy Gillespie a Jean-Luc Ponty, George
Duke, Charlie Mariano, Monty Alexander, Zbigniew Seifert e Lee Konitz, também
entre muitos, muitos mais, e designadamente figuras do nascente free jazz. O
filme “Jazzin´ the Black Forest”, realizado por Elke Baur, conta-nos essa
história de várias formas, com entrevistas a músicos e DJs que estão a divulgar
este património vinílico junto das novas gerações, imagens de concertos e
actuações ao vivo (por exemplo, Peterson a tocar em casa de Brunner-Schwer, ou
um extracto da sessão do trio constituído por Mangelsdorf com Jaco Pastorius e
Alphonse Mouzon que resultou no álbum “Trilogue – Live!”), fotos e reproduções
das capas dos discos lançados. O patrão da MPS morreu em 2004 e os LPs que
gravou e colocou no mercado necessitam de reedição urgente – talvez este DVD
contribua para que alguém de direito ache por bem fazê-lo. Ao que parece, o ramo
alemão da Universal está na calha. Fingers crossed.
(23-03-2007)

Elliott
Sharp/Merzbow
«Tranz»
CD Caminante Records, € 18,95
Provando que o “noise” não é propriamente
a estética do “tudo ao monte e fé em Deus”, como dissemos do mau
futebol que se praticou em Portugal na época passada, em “Tranz”
é perfeitamente possível distinguir o que fez Merzbow (Masami Akita,
o grande teórico e praticante do S&M sonoro) do que veio das
sinapses de Elliott Sharp (o guitarrista/multi-instrumentista que
se inspira nas séries matemáticas de Fibonacci). Com abordagens
muito pessoais do mundo acústico, estes músicos partilham um ponto
em comum: uma mesma paixão pelo free jazz e pelo rock psicadélico,
perceptível aqui ou ali em meio às degladiações de “feedback” e
aos mutantes edifícios construídos com harmónicos. Akita trabalhou
duas peças com materiais que lhe foram enviados por Sharp dos Estados
Unidos, e este fez o mesmo com gravações “raw” chegadas do Japão.
Assim, “MARES1” é Merzbow a reconverter Elliott Sharp, com efeitos
“trance” e uma pulsação meio escondida (pois, isto da chamada “música
psico-acústica” funciona melhor a um nível subliminar), e “ESRMA1”
é Sharp a mastigar Merzbow, surprendentemente com um enfoque sereno
e desabitual nos percursos tanto de um como do outro, mesmo em se
tratando de estática. Em “MARES2” já Masami Akita e E# (acrónimo
muitas vezes usado pelo americano) vão aos extremos da erupção de
ruído e do absoluto silêncio, a máxima abstracção dos sons articulando-se
com as notas arrancadas a uma guitarra e a tempestade incluindo
desconcertantes momentos de calmaria. “ESRMA2” tem outro panorama,
a ficção científica (uma paixão de Sharp), sem nunca resvalar para
uma versão brutalista da “cosmic music”. Aliás, a única semelhança
que estes 15 minutos têm com alguma coisa intepretada pelos Tangerine
Dream é terem ocorrido no mesmo planeta. Uma coisa é certa: este
CD nada tem que ver com a restante e imensa produção discográfica
dos dois “noise makers”. Para Masami “Merzbow” Akita é o primeiro
de uma sequência de colaborações que muito promete, se a qualidade
deste tomo se mantiver; para Elliott Sharp é mais um encontro bem
sucedido entre outros, como os que encetou com a violoncelista contemporânea
Frances-Marie Uiti ou com Reinhold Friedl, especializado na manipulação
do interior do piano.
(22-07-2005)
1. MARES1
2. MARES2
3. ESRMA1
4. ESRMA2
Emiliana Torrini
«Fisherman's Woman»
CD Sinnamon Records/Rough Trade, €17,50
Desconcertante, é
o que se pode dizer de Emiliana Torrini, metade islandesa e metade
italiana, metade Norte e metade Sul, metade frio e metade quente.
E ainda metade folk e metade algo que não podemos designar,
com um não sei quê de Bjork e Margo Tiggins, dos Cowboy
Junkies, no registo e na apresentação, mas lembrando
um génio esquecido, Nick Drake, na forma. O anterior disco
desta autêntica surpresa da nova canção, "Love
in the Time of Science", era conotável com o trip-hop,
mas se "Fisherman's Woman" continua a prezar com especial
esmero a criação de ambiências e estados de
espírito, tudo foi despojado até ao mínimo
dos mínimos, e o mínimo aqui é uma voz acompanhada
apenas por uma guitarra acústica ou eléctrica, um
piano e um acordeão. E que voz, ora frágil, de menina,
ora sedutora, de mulher emancipada e segura de si. Se julgam nunca
ter ouvido falar de Emiliana, pensem outra vez: é ela a autora
de um "hit" de Kylie Minogue, "Slow", e ouvimo-la
na banda sonora de "O Senhor dos Anéis", em "Gollum
Song". Na canção que dá título
ao álbum são os estalidos da madeira de um barco o
que escutamos por trás da história que nos conta -
é como se de um filme se tratasse; somos transportados para
dentro dela e descobrimo-nos em alto mar. Um extremo bom gosto e
uma eficácia a toda a prova...
(24-03-2005)

Ennio
Morricone
«Crime and Dissonance»
2CD Ipecac Recordings, € 18,95
Poucos apreciadores das
bandas sonoras de Ennio Morricone para o cinema e muito especialmente
para os “westerns” spaghetti conhecem o lado experimental da produção
do grande compositor e maestro italiano, e designadamente as suas
contribuições para o colectivo Nuova Consonanza e a estranha música
que escreveu e dirigiu para uma mão-cheia de filmes transalpinos
entre o final dos anos 1960 e o início da década seguinte. “Crime
and Dissonance” é uma selecção desse material realizada por Alan
Bishop, dos Sun City Girls, a convite de Mike Patton (Fantômas,
ex-Faith No More e ex-Mr. Bungle), o patrão da Ipecac Recordings,
com “liner notes” de John Zorn. No entender deste, a presente edição
é necessária porque revelar esta outra faceta do preferido de Sergio
Leone, Martin Scorsese, Roman Polanski e Quentin Tarantino é assinalar
que “o espírito da liberdade está, sempre esteve e sempre estará
vivo e bem”, não obstante os tempos negros que actualmente vivemos.
Ao longo deste duplo álbum, o que ouvimos é um híbrido sem igual
(mesmo para as orelhas de hoje) de muitas coisas, desde o funk-jazz
à “exotica”, passando pela “clássica” contemporânea, a então nascente
livre-improvisação, o experimentalismo rock e a electrónica depois
de Robert Moog a ter portabilizado e popularizado, tudo isto já
com a teatralidade, o carácter sinestésico e a aura de coisa nova
da “soundtrack” de “A Fistful of Dollars”, aquela que levou o seu
nome para a ribalta dos compositores cinematográficos.
(04-11-2005)
Disco 1:
1.
Giorno Di Notte (do filme "Una Lucertola
Con La Pelle Di Donna") 1971

2.
Astratto 3 (do filme "Veruschka [Poesia
Di Una Donna]") 1971

3. Corsa
Sui Tetti (do filme "L’Uccello Con Le
Piume Di Cristallo") 1969

4. Ric
Happening (do filme "Metti Una, Sera
A Cena") 1969

5. Memento
(do filme "L’Istruttoria E’ Chiusa:
Dimentichi") 1971

6. Ricreazione
Divertita (do filme "Cuore Di Mamma")
1969 
7. Studio
Di Colore (do filme "L’Assoluto Naturale")
1970 
8. Forza
G (Quella Donna) (do filme "Forza G")
1972 
9. Placcaggio
(do filme "Il Gatto A Nove Code")
1971 
10. Seguita
(do filme "Gli Occhi Freddi Della Paura")
1971 
11. Postludio
Alla Terza Moglie (do filme "Barbablu")
1972 
12. L’Uccello
Con Le Piume Di Cristallo (Titoli) (do filme "L’Uccello
Con Le Piume Di Cristallo") 1969

13. Il
Buio (do filme "L’Anticristo")
1974 
14. Rapimento
In Campo Aperto (do filme "La Moglie
Piu’ Bella") 1970

15. Le
Fotografie (do filme "Veruschka [Poesia
Di Una Donna]") 1971

16. Spiriti
(do filme "Una Lucertola, Con La Pelle
Di Donna") 1971

17. Ninna
Nanna Per Adulteri (do filme "Cuore
Di Mamma") 1969

18. Astrazione
Con Ritmo (do filme "Il Serpente")
1973 
Disco 2:
1. Trafelato
(do filme "Giornata Nera Per L’Ariete")
1971 
2. Sensi
(do filme "Un Bellissimo Novembre")
1969 
3. Gli
Intoccabili (Titoli) (do filme "Gli
Intoccabili") 1968

4. Fondate
Paure (do filme "Una Lucertola Con La
Pelle Di Donna") 1971

5. L’Attentato
(alternate version 1) (do filme "L’Attentato")
1972 
6. Fumeria
D’Oppio (do filme "La Storia Vera Della
Signora Dalle Camelie") 1981

7. 1970
(do filme "Il Gatto A Nove Code")
1971 
8. Esplicitamente
Sospeso (do filme "Il Serpente")
1973 
9. Sequenza
10 (do filme "Sesso In Confessionale")
1974 
10. Paura
E Aggressione (do filme "Giornata Nera
Per L’Ariete") 1971

11. Folle
Folle (do filme "Gli Occhi Freddi Della
Paura") 1971

12. Un
Uomo Da Rispettare (Titoli) (do filme "Un
Uomo Da Rispettare") 1973


Eraldo
Bernocchi / Harold Budd
«Music For 'Fragments From The Inside'»
CD Sub Rosa, € 14,95

"Avalon" pode
ter sido o último disco de estúdio de Harold Budd,
mas com certeza que ainda veremos o seu nome nas capas de alguns
CDs gravados ao vivo. Este que agora nos chega dá-nos conta
da parte áudio de um espectáculo intermedia (com vídeo
de Petulia Mattioli, também conhecida como PM Koma, e poesia
de Mara Bressi) ocorrido no renascentista Palazzo Delle Papesse
em Siena, Itália, vai para dois anos, tendo a seu lado o
manipulador de electrónica e guitarrista Eraldo Bernocchi.
Curioso encontro este, entre um compositor-pianista neoclássico
e minimalista que sempre advogou a "insustentável leveza"
da arte e um músico ambiental-electrónico que tem
por hábito carregar as suas "soundscapes" com o
peso do negrume da alma humana, desde o projecto pós-industrial
Sigillum S às suas colaborações com Mick Harris
(sim, o ex-baterista dos Napalm Death), Bill Laswell, Toshinori
Kondo (o trompetista de free jazz conquistado pelo "drive"
do funk e do dub) e Michael Brooks. E curioso na medida em que Budd
e Bernocchi trocam de papéis: o autor de "Pavillion
of Dreams" poucas vezes terá sido tão denso e
romântico (leia-se "melancólico") quanto
nesta sua intervenção, e Bernocchi surge aqui com
as vestes do DJ, disparando "beats" de dança, por
vezes de registo étnico (atenção aos interessantes
samples de tablas, os tambores indianos que são tocados com
a ponta dos dedos, tal como o piano), e construindo a prazenteira
atmosfera das noites de sábado, aqueles intervalos de tempo
que dispensam a realidade e apelam à festa dos sentidos.
É, pois, difícil não gostar deste CD que nos
troca as voltas e ignora por inteiro as fronteiras entre estilos
e escolas. Se Harold Budd já tinha conseguido aliar o piano
culto ao "lounge" e à pop (não esqueçamos
as suas colaborações com Robin Guthrie, dos Cocteau
Twins), nesta sua parceria com o músico italiano entra directamente
no universo da "club music".
(12-08-2005)
1. Fragment
One 
2. Fragment
Two 
3. Fragment
Three 
4. Fragment
Four 
5. Fragment
Five 
6. Fragment
Six 
7.
Fragment Seven 

Eric
Zann
«Ouroborindra»
CD Ghost Box, €
16,50


Belbury
Poly
«The Willows»
CD Ghost Box, €
16,50


The
Advisory Circle
«Mind How You Go»
3" CD Ghost Box, €
11,50

Mais pérolas da Ghost Box, a editora que
nos lembra que o uso da electricidade e da tecnologia na música tem um
lado “poltergeist”. De facto, desde a invenção dos cilindros, dos
gramofones, dos gravadores de bobinas, da rádio e da televisão que se fala
em mensagens vindas do Além, e é isso o que os artistas desta editora
inglesa procuram fazer passar, o mais não seja metaforicamente. Ora, um
dos utensílios de Eric Zann (nome que H.P. Lovecraft deu à personagem de
uma das suas histórias, um violista com dotes tão do outro mundo que acaba
por entrar nele) é precisamente a rádio, a que junta osciladores,
gravações de várias proveniências e muito trabalho de processamento.
Curiosamente, “Ouroborindra” é o menos sampladélico dos lançamentos deste
catálogo, aproximando-se mais da música concreta “erudita” do que do “easy
listening” das restantes edições. Muitos dos materiais podem ser os mesmos
do Focus Group, como por exemplo a sonoridade dos sintetizadores “vintage”
das décadas de 1960 e 70, mas se nas montagens daquele as bruscas mudanças
de conteúdo e o “looping” estruturante são características habituais, em
Eric Zann (ou melhor, Jim Jupp, de seu verdadeiro nome) procura-se que as
situações sedimentem e deixem lastro; oiça-se, aliás, o que ele faz com as
amostras sonoras de um sitar. O próprio tempo é gerido de outra forma, com
desenvolvimentos mais lentos, sendo este CD até o mais longo de todos os
saídos. Jupp adopta uma postura totalmente distinta sob o pseudónimo
Belbury Poly – “The Willows” é “synth music” de pastilha elástica feita
com “library sounds” de comerciais e genéricos radiofónicos e televisivos,
uma muzak falsamente instrumental (porque não há propriamente
instrumentos, mas manipulação de registos magnéticos) e falsamente
Seventies, pois tem um estilo e uma “patine” totalmente forjados, mais
muzak e mais Seventies do que o género e aquele período musical
pretenderam alguma vez sê-lo, assim como um transexual é mais mulher do
que qualquer mulher nascida com uma fenda em vez de um penduricalho.
Continua a parecer a banda sonora de um filme de ficção científica, mas
esta poderia ter o nome de Raymond Scott como autor, enquanto
“Ouroborindra” nos remete para a cena dos macacos em “2001 Odisseia no
Espaço”. “Mind How You Go”, o mini do projecto The Advisory Circle, no
qual é de supor que Jim Jupp também esteja envolvido (não há informação
concreta sobre tal), tem mais do mesmo, ainda que com outro grau de
subtileza, referenciando-se directamente nas “forças invisíveis” da
electricidade que nos rodeiam e atravessam.
(05-05-2006)
«Ouroborindra»: 1.
It Is
Narrow
Here 2.
Threshold
3.
Ouroborindra 4.
Dôls
 5.
Obsidian Pyramid
6.
Voolas 7. The Human Chord
«The Willows»:
1. Wildspot
2.
The Willows

3. Caermaen
4. A Thin Place
5. Farmer's Angle
6. Insect Prospectus
7. A Warning
8. Monstroon
9.
Thorn

10. The Absolute Elsewhere
11. Far Off Things
«Mind How You Go»:
1. Logo
2.
Mind How You Go

3. Everyday Science (for Ron Geesin)
4. And The Cuckoo Comes
5. Osprey
6. Nuclear Substation
7. Get In The Swim
8.
Nuclear Substation (Public Information Film)

Erik
Satie
«Musique de La Rose-Croix+Pages
Mystiques/Uspud»
2CD LTM, € 18,50

O compositor francês Erik Satie (1866-1925)
sempre foi um homem de entusiasmos e rupturas, e assim como esteve próximo
dos movimentos Dada e surrealista para depressa deles se afastar, andou
algum tempo a buscar alimento espiritual junto dos rosacrucianos.
Renegaria depois a seita, mas enquanto frequentou as suas cerimónias
compôs alguma da mais estranha música para piano que nos deixou, e
precisamente “Sonnerie de la Rose-Croix”, partitura de que encontramos
algumas secções neste duplo álbum com interpretações de Bojan Gorisek e
Richard Cameron-Wolfe. Escrita para uma peça de teatro do místico “Sar”
Joséphin Péladan, fundador da Ordre de la Rose-Croix Catholique du Temple
et du Graal, consta também nesta selecção a bela “Le Fils des Étoiles”,
bem como um pequeno extracto (quase 23 minutos) da mais polémica e
fascinante das obras de Satie – “Vexations”, um reduzido conjunto de notas
destinado a ser repetido 840 vezes, numa actuação em concerto que pode
variar entre 14 e 28 horas. Não fosse o que aqui se ouve e Morton Feldman
não teria feito o que fez, libertando os sons de intuitos narrativos.
(01-09-2006)

Espers
«II»
CD Drag City, €
18,95

Como ouvimos comentar a um fã
indefectível do psicadelismo ao descobrir “Espers II”, “deve andar muita
droga por aqui”. Independentemente de ser verdade ou não, o certo é que
este grupo de Philadelphia tornou-se – e só vai no segundo álbum, mais um
tema na já lendária compilação de Devendra Banhart, “The Golden Apples of
the Sun” – num dos baluartes da nova vaga de acid folk, e precisamente
porque leva muito a sério o factor “acid”. As referências são bem
evidentes, e vão da Incredible String Band, dos Fairport Convention e dos
Pentangle aos Led Zeppelin (muito presentes em “Dead Queen”) e até aos
King Crimson, vertente “Lady of the Dancing Water”, para já não falar dos
Pink Floyd dos primeiros anos, quando ainda lá andava Syd Barrett. As
cordas “fingerpicked” têm um papel fundamental nesta música, e dão-lhe
mesmo um carácter primitivista (pensem nas montanhas dos States, em dobros
e em “rednecks”), a que se acrescentam sintetizadores e outros teclados
(como o que parece ser um cravo eléctrico), flauta, violoncelo, muita
percussão (incluindo bongos, que é o que há de mais hippie), tudo isto em
camadas que por vezes confluem em “drones”. Há vocais também, por sinal
fazendo-nos lembrar nem mais nem menos do que Sandy Denny, e “feedbacks”
de guitarra (oiçam “Widow Weed”), resultando em algo que já foi designado
como um cruzamento de Slowdive com Mojave 3. A coloração geral é negra e a
dimensão épica, como se se tratasse de uma “bad trip” até aos portões do
inferno. Imperdível.
(15-09-2006)
1.
Dead Queen

2.
Widow's Weed

3.
Cruel Storm

4.
Children of Stone

5.
Mansfield and Cyclops

6.
Dead King

7.
Moon Occults the Sun

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escutar excertos de todos os temas

Esplendor
Geométrico
«Anthology 1981-2003» 2CD Geometrik Records,
€ 18,50
Grupo de culto durante os anos 1980, mas
algo esquecido nos 90 (altura em que, se era lembrado como uma referência,
poucos o ouviam realmente, devido talvez às pequenas tiragens das suas
edições e ao facto de provir de um país periférico ao circuito
discográfico anglo-saxónico), os espanhóis Esplendor Geométrico têm neste
duplo álbum a sua primeiríssima antologia, já há muito merecida, reunindo
material irrecuperável, algum dele publicado em cassete, a outro mantido
inédito até à data. Um dos grandes exemplos da electrónica dita
“industrial”, a somar aos melhores, Throbbing Gristle, SPK e Cabaret
Voltaire à cabeça, caracteriza-o uma rítmica implacável, repetitiva e
quase dançante, como se os Kraftwerk tivessem adoptado uma atitude punk. E
tão seminal nas suas propostas que, se não tivesse existido, Autechre,
Aphex Twin ou Squarepusher não fariam o que fazem – oiçam uns e outros e
comprovem de onde vem a sua paternidade. Arturo Lanz, Gabriel Riaza e Juan
Carlos Sastre, os seus três membros (dois mais tarde, quando Sastre optou
definitivamente pelo design gráfico, e depois de novo três, com a entrada
do videasta italiano Saverio Evangelista) pertenciam ao colectivo pop
futurístico El Aviador Dro y Sus Obreros Especializados, com o qual
depressa entraram em dissensão, pois consideravam-no demasiado “light”. Em
oposição, surgiram com uma música pintada a cores negras, sincopada e
visceral mas depressiva, e com letras altamente provocatórias e incómodas
(oiça-se, por exemplo, “Destrozaron sus Ovarios”, de 1981, sobre o estupro
de uma menina de 3 anos). Interessados numa utilização primitivista dos
instrumentos electrónicos (ainda hoje em versão analógica!!), os EG sempre
privilegiaram o palco, sendo os seus concertos autênticos rituais, com
algo até de xamânico. Ainda assim, nunca se identificaram com os
“ensinamentos” de Crowley, ao contrário dos seus pares na cena dita
industrial, e desmentiram ao longo dos anos a identificação feita pelos
media musicais com esta tendência musical. Verdade ou não, o certo é que
vêm procurando não seguir modas nem conjunturas, ainda que seja audível o
seu interesse pelo techno mais brutal, e designadamente a “trance music”.
Obrigatório...
(19-05-2006)
Disco 1:
1.
Muerte A Escala Industrial (Eg1
Cassette.1981)

2.
Héroe Del Trabajo (El Acero Del Partido LP. 1982)

3.
Destrozaron Sus Ovarios (Eg1 Cassette. 1981)

4. Edad Del Hierro (Eg1+, CD. 1981)
5.
Necrosis En La Poya (Single. 1981)

6. El Acero Del Partido (El Acero Del Partido LP.1982)
7.
Ven A Jugar (Mekano Turbo LP.1988)

8. Sheik (Mekano Turbo LP.1988)
9.
Rotor (Mekano Turbo LP.1988)

10. La La La La (Kosmos Kino LP.1987)
11. Llamada Del Afro Poder (Tarikat 2CD.1989)
12. Rabúa Aromía (Arispejal Astisaro. 1990)
13. Sinaya -Dynamo 2 Version- (Nador. 1990)
14. Malos Tratos (Arispejal Astisaro. 1990)
15. Chile Al Dia (Unreleased New Version, 2003)
Disco
2:
1. Trans Umma (80’s Tracks CD. 1989)
2. Es Inaudito (Arispejal Astisaro CD. 1992)
3. Tiempo Libre (Tokyo Sin Fin CD. 1995)
4. Baraka (Sheik Aljama CD, 1990)
5. Nuevo Procedimiento (Veritatis Splendor CD. 1994)
6. Yurta (Unreleased. 2003)
7. Mecanica Del Mundo (Unreleased. 2003)
8. Confort (30 Km De Radio. 1995)
9. Campesinas (Unreleased 2003)
10. Syncrotron -Version- (Syncrotron Mlp.1996)

11. Isolektra (Tokyo Sin Fin CD. 1995)
12. Hemen Nago (Polyglophone CD,1997)

13. Introspección (Sheik Aljama CD,1990)


Excepter
«KA»
CD Fusetron, €16,5
Como se torna visível
pelas citações feitas acima, é difícil
verbalizar a música dos Excepter sem recorrer a palavras
que concretizem o inefável e o metafísico em forma
de revelações. «Ka», o seu primeiro álbum,
saído mesmo na recta final de 2003 em vinil e finalmente
reeditado em CD acoplado com o 12 «Vacation/Forget
Me», é o mais invulgar dos álbuns. É
uma música que não pertence a qualquer tipo de estruturação
linear, que parece provir totalmente de imagens e sensibilidades
abstractas do subconsciente, executadas directamente desse plano
íntimo colectivo e comunal para som. Quinteto de Brooklyn
liderado por John Fell Ryan, antigo membro da No-Neck Blues Band
os Excepter criam a sua arte a partir de um invulgar «setup»,
composta por uma miríade de estranhos e antigos sintetizadores
de ditigalia primitiva, samplers, percussão, tudo processado
uma variedade de efeitos. Na frente estão Fell Ryan, igualmente
«party boy» cocainado e místico urbano, e Caitlin
Cook, com vocalizações de sereia psicadélica
do subaquático urbano artificial. Os seus concertos, disponibilizados
em formato de «live streams» no seu website oficial
(www.excepter.com), em que a banda é normalmente acompanhada
por um DJ, são verdadeiros acontecimentos de químico
psicadelismo moderno, missas de ritmos fractalizados tornados groove
autista, onde por turnos podemos encontrar Cook com ramos a brotarem-lhe
de um excessivamente largo casaco de fato de treino ou Fell Ryan
a dançar como um senhor da pista de disco dos esgotos. A
música dos Excepter é a concretização
da tripe alucinada da Nova Iorque do betão, do ruído
da dor de cabeça, de excessos de toda a ordem, em explosão
com um desejo de libertação física e psíquica
(títulos de faixas como «Free From Muscles» ou
«Be Beyond Me» são disso exemplo). A matéria
física do som de «Ka» capta o sintético,
o asséptico e uma profunda noção de deslocamento
espiritual, que, por sua vez, é utilizado como motor de evasão
de sensibilidades cansadas e desacreditadas. Se esta busca é
a mais antiga das forças motrizes para a criação
de arte, não é menos verdade que o som contido em
«Ka» é das suas mais fascinantes e raras pragmatizações,
pela contemporaneidade de formas e sensações, bem
como de meios empregues. Uma obra-prima da América confusa
e perdida, da Brooklyn dos Black Dice, Animal Collective, Double
Leopards e Gang Gang Dance.

Excepter
«Throne»
CD Load, € 18,50
O que têm de comum Giacinto
Scelsi, compositor de música contemporânea só reconhecido (e muito
parcialmente) depois da sua morte, e os Excepter, grupo de noise-rock
aparentado com os Black Dice, os Gang Gang Dance e os Animal Collective?
A preocupação primeira com o som. A música pode vir (ou não) depois,
ou seja, elementos como o ritmo, a harmonia e a melodia podem ser
chamados a intervir ou deixados completamente de lado. Pois este
grupo de Nova Iorque é por vezes melódico (em ocasiões até podemos
ouvi-los cantar tonalmente), mas tal surge apenas em complemento
de outros empreendimentos prioritários nos domínios da física acústica,
como um bónus. Esse extra, no entanto, “acontece” quando menos se
espera e constituindo uma agradável surpresa, não só porque nos
devolvem os velhos conceitos de beleza na arte, quando os julgávamos
definitivamente mortos, mas também pelo facto de virem do que há
de mais profundo na cultura popular do seu país de origem – aliás,
são habitualmente conotados com a estranha folk, mas folk de qualquer
modo, emanada do caldo de criatividade enraízada a que se chamou
de New Weird America. É como se uma nave alienígena parasse sobre
a cidade para descarregar animais terrestres que já se encontravam
extintos, mas que recordamos como entes mitológicos, ou seja, monstros
– o dodo, por exemplo, tão absurdo para o nosso entendimento quanto
um dragão. Imagens do género surgem frequentemente nas recensões
dos discos do colectivo, como esta que mantemos no Inglês original:
“Excepter is the sound of cave paintings being made with laser beams,
or the photographic negative of a beach, a dream at some slick midnight.”
De facto, é muito difícil descrever de outro modo o que fazem estes
“sonic boomers” sem incorrermos na frieza desconstrucionista da
“análise”. Até porque eles nos trocam as voltas, jogando como jogam
com o reconhecimento e a familiaridade. Às vezes, como neste breve
“Throne” (33:33 minutos exactos), o que parece não é e o que não
parece afinal é mesmo. Com os Excepter de John Fell Ryan, um antigo
membro da No Neck Blues Band, o psicadelismo recuperado de há 30
anos ganha uma lógica totalmente distinta. A diferença está no facto
de não ser uma música em estado alterado de consciência, como era
o mote nos Sixties, mas sim de ser um produto da inconsciência,
algo que é fabricado pelo sistema nervoso central e não pelo neo-córtex
(a improvisação tem nela um papel fundamental, como não podia deixar
de ser). A memória torna-se numa questão celular, de ADN, não mental.
Tão abstracta quanto uma equação matemática, mas pulsando como uma
veia num corpo adormecido.
(02-12-2005)
1. Jrone
(Three)
2. Jrone (Two)
3. The Heart Beat
4. (The Ass)
Clique
aqui
para escutar excertos do álbum.

Exile
«Pro Agonist»
CD Planet Mu, € 16,95
O drum & bass tem
andado algo desaparecido dos discos de música de dança,
mas se volta à ribalta neste título de Tim Shaw, aka Exile
(não confundir com o execrável grupo de rock
FM que usa o mesmo nome), ouvimo-lo rodeado de situações
claramente "ambient" ou de chill out. E isto numa etiqueta
que se especializou no mais exclusivo jungle,
a Planet Mu, o que é obra. As famílias da
tribo a que chamamos techno parecem finalmente estar a
relacionar-se, e mesmo a visão que Shaw tem do drum &
bass, se nunca resvala para o breakbeat,
tem um dimensão "ants-on-the-pants" que a isola no cenário
do género. São boas notícias, de facto. A abordagem é inovadora
sem romper com os princípios estabelecidos
e distingue-se do DJing, na medida em que se trata
de um trabalho composicional operado com sintetizadores e computador,
não com discos scratchados. Em vez de "cut and paste",
com a sua própria lógica intrínseca, temos
modelação e estruturação de sons. A distinção é
importante, tanto mais sabendo-se que para Exile não faz
sentido disparar simplesmente o que está
gravado no "laptop" numa situação ao vivo, sendo
indispensável improvisar e interagir com o público.
(16-09-2005)
1.
Silicon Chop
2. Open Mike
3. The Forever Endeavour
4. Sure You Did
5. Mushroom Santa
6. Spring Cum Air
7. Broken Language (Exile Mix)
8. Rage Is the Beautiful Light That Struck Her
9. Big Bad Purple Bad Boy
10. Sliiime
11. Devil's Chimney
12. Merlin

Exploding
Star Orchestra
«We Are All From Somewhere Else»
CD Thrill Jockey, € 17,50
Bem que podia ter sido a NASA a
encomendar esta obra para “big band” de Rob Mazurek, dado o tema que a conduz
(as transformações cósmicas), mas o convite veio do Chicago Cultural Center e do
Jazz Institut e tinha um propósito: que se retratasse a actualidade da frente
“vanguardista” da cena de Chicago do jazz. “We Are All From Somewhere Else” tem,
portanto, que ver com o espaço, com a Cidade do Vento e, curiosamente, também
com Portugal. O texto que conta a história aqui musicalmente urdida foi escrito
pelo lisboeta João Simões, videasta e artista conceptual com um interessante
percurso além-Atlântico. Ainda que trate sobre estrelas e seres míticos (uma
fénix, por exemplo), fazendo-nos inevitavelmente pensar em Sun Ra, são pessoas
que habitam esta música, e essas são a nata da metrópole onde o projecto nasceu,
entre as quais Nicole Mitchell, Jeb Bishop, Jeff Parker, Jim Baker e John
McEntire, nomes sobejamente reconhecíveis dos universos AACM e Tortoise /
Chicago Underground. E também um tanque de enguias eléctricas, que o cornetista
e compositor gravou em Manaus, no Brasil, onde vive há alguns anos, e ouvimos na
parte 3 de “Sting Ray and the Beginning of Time”, subintitulada como
“Psycho-Tropic Electric Eel Dream”: não, não se trata de uma secção de violinos.
Duas baterias, um contrabaixo e um baixo eléctrico, um vibrafone e uma marimba,
uma corneta e um fliscórnio são os pares fixos do projecto Exploding Star
Orchestra, mas outras parelhas se sucedem neste ensemble de 14 elementos. Até as
enguias são de duas espécies, cada uma com o seu tom diferente. Mazurek conta a
história do universo à sua maneira, cruzando ciência e fábula, domínios que não
têm necessariamente de se excluir. O resultado é algo da ordem do realismo
mágico e conta-se entre o melhor que o músico nos tem oferecido.
(02-03-2007)
1.
Sting Ray and The Beginning of Time (Part 1)

2.
Sting Ray and The Beginning of Time (Part 2)

3.
Sting Ray and The Beginning of Time (Part 3) (Psycho-tropic Electric Eel Dream)

4.
Sting Ray and The Beginning of Time (Part 4)
5.
Black Sun
6.
Cosmic Tones For Sleep Walking Lovers (Part 1)

7.
Cosmic Tones For Sleep Walking Lovers (Part 2)
8.
Cosmic Tones For Sleep Walking Lovers (Part 3)
9.
Cosmic Tones For Sleep Walking Lovers (Part 4) (Fifteen Ways Towards a Finite
Universe)

10.
Cosmic Tones For Sleep Walking Lovers (Part 5)

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Fairmont
«Coloured In Memory»
CD border Community, € 16,50

Sem quaisquer dúvidas podemos aqui dizer que este é, na nossa
humilde opinião, um dos melhores álbuns da IDM (Intelligent Dance Music) deste
ano de 2007.
"Coloured In Memory" é o álbum de estreia do projecto de Jake
Fairley, Fairmont, lançado na Border Community, casa mãe de outros dois grandes
discos - "Drowning In A Sea Of Love" de Nathan Fake e "The Idiots Are Winning"
de (James) Holden (patrão da editora).
Já com uma extensa discografia tanto na Border Community como na Traum,
Echochord, Kompakt e Dumb Unit (o seu máxi "Gazebo" vendeu mais de 20,000
unidades), "Coloured In Memory" consegue ambientes electrónicos arrojados e ao
mesmo tempo cria temas próximos da pop, tal como Vitalic o fez em "Ok Cowboy". É
exactamente esta fusão que torna tão único este grande álbum, e que - voltamos a
dizê-lo sem problemas - poderá vir a ser considerado por muitos dos críticos
como um dos melhores álbuns de dança deste ano que corre.
(26-10-2007)
1.
Fade To Saturate

2.
Darling Waltz

3.
Mobula

4.
Pomegranate

5.
Sedative For The Sentimental

6.
I Need Medicine

7.
Bikini Atoll

8.
1995

9.
Calm Before The Storm

10.
Flight Of The Albatross

11.
All Good Things

12.
Time's Fool

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The Fall
«Fall Heads Roll»
CD Narnack,
€ 16,95
1.
Ride Away
2. Pacifying Joint
3. What About Us
4. Midnight Aspen
5. Assume
6. Aspen Reprise
7. Blindness
8. I Can Hear The Grass Grow
9. Bo Dimmeck
10. Ya Wanner
11. Clasp Hands
12. Early Days of Channel Fuehrer
13. Breaking The Rules
14. Trust In Me

The
Fall
«The Infotainment Scan»
2CD Castle Music, €
18,50
Talvez o menos compreendido,
se bem que o mais acessível, disco dos The Fall, saído originalmente em
1993, “The Infotainment Scan” foi o resultado da (única) tentativa de
aproximação por parte de Mark E. Smith (sob influência do teclista David
Bush e do baterista Simon Wolstencroft, diz-se) do fenómeno das “rave
parties” , então no seu pico. Foi assim que à sonoridade pós-punk do grupo
que inspirou os Pavement se subordinaram elementos do acid house, da
“techno shit”, como lhe chamava Smith, e até do disco, com uma dimensão
electrónica a adicionar-se à distorção guitarrística que era a imagem de
marca deste empreendimento iniciado em 1979, quando já o movimento “no
future” iniciava a sua queda. É neste contexto que surge a curiosa “cover”
aqui ouvida de “Lost in Music” (Sister Sledge), tema que também os
Einsturzende Neubauten interpretaram, acentuando a componente pop da
canção porque a mais “funky” e “garage” já tinha sido feita por esta
troupe. Igualmente representativa do desvio tentado na altura pelos The
Fall é a versão incluída como bónus nesta reedição em duplo álbum de “Why
Are People Grudgeful”, de Lee “Scratch” Perry, o mestre do dub. O segundo
CD integra uma John Peel Session, outra conduzida por Mark Goodier, quatro
canções de um single e uma mão-cheia de “outtakes” do mesmo período.
Ficamos mais esclarecidos quanto às motivações desta grande banda da
história do rock que quis experimentar uma ideia diferente e, apesar das
reacções negativas de uma parte dos seus fãs, até foi bem sucedida.
(18-08-2006)
Disco 1:
1.
Ladybird (Green Grass)

2.
Lost In Music
3.
Glam-Racket

4.
I'm Going To Spain

5.
It's A Curse

6.
Paranoia Man In Cheap Sh*t Room

7.
Service
8.
The League Of Bald-Headed Men

9.
A Past Gone Mad
10.
Light / Fireworks
11.
Why Are People Grudgeful?

12.
League Moon Monkey Mix
Disco 2:
1.
Ladybird (Green Grass)
2.
Strychnine
3.
Service
4.
Paranoia Man In Cheap Sh*t Room

5.
Glam Racket
6.
War
7.
15 Ways
8.
A Past Gone Mad

9.
Why Are People Grudgeful?

10.
Glam Racket
11.
The Re-Mixer
12.
Lost In Music
13.
A Past Gone Mad (Alternate Version)

14.
Instrumental Outtake
15.
Service (Instrumental Demo)

16.
Glam Racket (Instrumental Demo)

17.
Lost In Music (Mix 3)
18.
Lost In Music (Mix 7)
19.
Lost In Music (Mix 14)

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Fantômas
«Suspended Animation (Ed.Limitada »
CD Ipecac, €20,25
'They've done it again',
diria o detective de "Quem Tramou Roger Rabbit?". Depois
de "Fantômas", com o seu universo de ficção
científica, depois de "Director's Cut", um disco
sobre a paixão cinéfila, e depois de "Delirium
Cordia", a melhor banda sonora que um pesadelo poderia ter,
eis que os Fantômas de Mike Patton, o ex-Faith No More que
John Zorn arrastou para outros atrevimentos, voltam à carga
com "Suspended Animation", um álbum de homenagem
à música para desenhos animados e ao seu maior génio,
Carl Stalling (mas também a Milt Franklyn, Raymond Scott
e o especialista em efeitos sonoros Treg Brown, da Warner), em que
o metal é rei novamente, embora intervenham também
elementos do funk e do jazz. Outra coisa, aliás, não
seria de esperar de uma superbanda que inclui Buzz Osborne, dos
Melvins, Trevor Dunn, transferido de outro projecto de Patton, os
Mr. Bungle, e Dave Lombardo, a máquina propulsora dos Slayer.
São 30 as curtas faixas, cada uma correspondendo a um dia
do mês de Abril, tal como, de resto, os excelentes desenhos
do cartoonista japonês Yoshitomo Nara em forma de calendário
que acompanham o CD. Os seus 43 minutos apenas sucedem-se em frenética
cavalgada e tudo termina com uma desarmante ironia: a voz de Bugs
Bunny (tirada de "What's Opera, Doc") atira ao ouvinte
com um "well, what did you expect... a happy ending?".
E não é que é mesmo um fim feliz para um disco
marcado pela loucura dos "looney tunes"?
(22-04-2005)

Faris
Nourallah
«Gone»
CD Kitchen Music, € 11,95

De volta às edições, e um ano após o seu último
álbum "Il Suo Cuore Di Transistor", Faris Nourallah regressa às melodias pop e
orelhudas com este "Gone". Mais uma vez Faris decidiu escolher uma pequena
editora, desta vez francesa, para distribuir o seu trabalho, prescindindo de
todos os lucros e encaminhando-os na sua totalidade para a ONG japonesa KnK (Kokkyo
naki Kodomotachi), ou Crianças Sem Fronteiras. A KnK é uma associação
humanitária e educativa destinada a ajudar as crianças e jovens desfavorecidos
na Ásia, e a dar a conhecer a sua situação a outras crianças e jovens de todo o
mundo. Contendo 12 temas da sua autoria, somos mais uma vez assolados por
melodias simples e encantadoras. Inspirando-se outra vez nos Beatles ou Ray
Davies, Faris não deixa de nos surpreender com a sua magia de contador de
histórias, e ainda que as suas origens tenham origem no Médio Oriente, não vamos
de certeza encontrar aqui qualquer vestígio, talvez só mesmo na sua capacidade
inventiva.
(08-06-2007)
"Gone, um ano depois, mostra canções mais
apelativas, e sobretudo sublinha as cada vez mais evidentes paixões e sonhos pop
que a música de Faris Nourallah não quer esconder. É um disco profundamente
pessoal na sua escrita. E confirma sobretudo um gosto peculiar pelo design de
arranjos que fazem, de troncos de palavras e melodias potencialmente
transformáveis em diálogo para voz e guitarra, pequenos monumentos de viço pop
sob evidente contraste com a desolação e vastidão monótona da paisagem texana."
Nuno Galopim in
Sound+Vision
1.
Ay Carlo 
2.
Galla 
3.
Northbound Train 
4.
Elephantine 
5.
Gone 
6.
Anticipation Anxiety 
7.
The Rope 
8.
Call It Off 
9.
Things We Really See 
10.
Who Started The Fire 
11.
Everything Is Relative 
12.
Forgiveness 
13.
Las Cruces 
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Faris Nourallah
«Il Suo Cuore Di
Transistor»
CD Awful Bliss, €
16,50

Sírio de origem, mas americano do Texas,
Faris é um dos extintos Nourallah Brothers e com este álbum a solo
demonstra uma vez mais que o seu irmão Salim não é o único bom escritor de
canções da família. Aliás, a sua inspiração nos Beatles e em “singers /
songwriters” como Ray Davies, Elvis Costello e Elliott Smith, dá conta das
coordenadas que o regem. “Il Suo Cuore di Transistor” confirma o seu valor
na presente cena folk psicadélica, ainda que o oiçamos mais conivente com
a ligeireza da pop do que com as aéreas “trips” de LSD que deram motivação
ao psicadelismo no tempo em que se quis substituir as metralhadoras por
guitarras eléctricas. Neste particular, aliás, não deixa de ser irónico
que os pais de Faris Nourallah tenham nascido num país que Bush coloca no
Eixo do Mal e muito gostaria de invadir. Talvez venha da cultura árabe o
gosto de contar estórias que revela em cada canção, mas não se espere
deste disco outros indícios de carácter étnico: “Lifeboat” lembra os Pink
Floyd da era Barrett, “Face in the Wind” tem Neil Young na sua matriz,
“The Dream Killers” é uma espécie de Leonard Cohen meets Radiohead e o
fantasma de John Lennon esvoaça pela generalidade dos temas, ou seja, as
referências são bem ocidentais. Assim como o som, alicerçado em volta de
um piano eléctrico Fender Rhodes, um ícone musical do Novo Mundo. Imigrant
music this ain’t.
(08-06-2006)
1.
Black Car

2.
I'll Be The Change

3.
Chaos

4.
Rewrite History

5.
Lifeboat

6.
Raining

7.
Dreamkillers

8.
Face In The Wind

9.
Move On

10.
Break Your Vows

11.
Dreamgirl

12.
But Not Tomorrow

13.
Don't Kiss

14.
Tell Me Secrets

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Faris
Nourallah
«Near The Sun - The Best Songs of...»
CD Green Ufos, € 16,50

1. A
Famous Life 
2. Start
A Revolution 
3. A
Day To Remember 
4. Sick
On The Scalator 
5. Will
We Ever Know Why? 
6. Problematico
7. Fantastic!

8. Brogadiccio

9. Let's
Get Married 
10. Once
In A Lifetime 
11. Down

12. She'd
Walk A Mile 
13. I'm
Fallin’ 
14. Far
From The Sun 
15. Where
I Always Get What I Want? 
16. Impossible
To Know 
17. Christian
Flyer 
18. Adieu

19. Someone
Who Doesn´t Love You
20. The
Road 
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Faust/Nurse
With Wound
«Disconnected»
«Disconnected (Edição especial com temas extra)»
ESGOTADO
CD
Art-Terrorist, € 15,95

Edição limitada (500 cópias) e não-limitada de um encontro
histórico entre os «progressáurios» Faust e os «cinzentossáurios» Nurse With
Wound, numa gravação em estúdio realizada em 2007.
Por parte dos Faust o protagonismo vai para Zappi Diermaier, Jean Hervé Peron e
Amaury Cambuzat. Colin Potter e Steve Stapleton asseguram, por sua vez, as
misturas, garantindo também algum mediatismo por terras de sua majestade.
Peça de colecção fundamental.
(14-09-2007)
1.
Lass Mich

2. Disconnected
3. Tu m'entends?
4. It Will Take Time
Edição especial:
1.
Lass Mich

2. Disconnected
3. Tu m'entends?
4. It Will Take Time
5. Silence
6. Hard Rain

Fazzini
«Sulphur, Glue The Star»
CD Locust Music, €
16,50
Tom Fazzini andou pelos A
Small Good Thing, mas se esperam de “Sulphur, Glue The Star” algo que se
assemelhe àquele grupo, desistam já. A solo, as preocupações deste
guitarrista e compositor são outras. Uma canção, para ele, não é apenas um
arranjo instrumental, com umas quantas harmonizações e uma base rítmica,
mais uma voz a debitar umas quantas líricas segundo uma linha melódica
determinada e um refrão. Há muito mais a habitá-la, a começar por algo que
a outros não interessa: os sons propriamente ditos, ou melhor, os sons
escondidos pela “música” mas que dão forma a esta e os sons declaradamente
não musicais – exemplos são água a borbulhar ou o fritar típico de um
sistema de amplificação sem ligação à terra. Não sendo este, de todo, um
álbum “noise”, o peso que nele tem o ruído é fundamental – trata-se, no
entanto, de um ruído subterrâneo e intersticial, não de um magma em
movimento ou de um muro compacto. Além de que Fazzini algumas vezes
prefere não cantar nem tocar, e então o que temos é simples “spoken word”
(através de um dictafone, para, por exemplo, se contar uma história de
fantasmas). Este é, pois, um disco desconcertante, algo que não é pop, nem
folk, nem ambiental, nem experimental, mas contém aspectos de todos essas
“famílias”, se bem que utilizadas sem compromisso por alguém que parece
desligado de preocupações como pertencer a uma frente ou estar “in”. Neste
tempo de uniformizações, que bom é ouvir um não-alinhado...
(28-07-2006)
1.
Wooky

2.
Zone

3.
03

4.
Duplex

5.
Dell

6.
06

7.
Urge

8.
08

9.
Glare

10. Urge (Reprise)

Faun
Fables
«The Transit Rider»
CD Drag City, €
16,50

Já se disse sobre este disco
que se trata de um álbum conceptual, mas na verdade é a banda sonora de um
espectáculo de teatro. “The Transit Rider” foi pensado por Dawn McCarthy
para o palco, e tudo, de facto, é muito teatral nele. Tanto assim que, se
não tivéssemos isso presente, acharíamos algo “encenado” este híbrido de
rock progressivo e folk cantado com ênfase quase operática. Por ela,
reconhecível pela sua voz fria como gelo, e pelo barítono Nyls Frykdahl,
dos Sleepytime Gorilla Museum, que também toca vários dos instrumentos. O
tema é sugerido pela rede de metropolitano de Nova Iorque, “in all its
repetitious and transient glory”, cuja – sabe-o quem já circulou por ela –
é um mundo totalmente à parte, uma realidade paralela (a história: alguém
adormece durante a viagem e acorda com a impressão de que falhou a sua
paragem; ao perguntar aos outros passageiros se a mesma já tinha passado,
dizem-lhe não conhecer nenhuma estação com esse nome – a partir daí é um
mergulho no desconhecido). Os Faun Fables não apresentam o projecto como
um musical e muito menos como uma ópera, mas sim como um “ciclo de
canções”, o que relativiza as proporções, e a ambição, desta obra. Uma
característica é a utilização de sons captados no próprio metro, prova
provada de que a modalidade “field recordings” encontra cada vez mais
adeptos, e outra a sensação de que esta música está a ser difundida
precisamente num subterrâneo. A guitarra (pelo próprio Frykdahl) tende
muito especialmente para os “drones”, mas com a carga do psicadelismo e
até do “glam rock” e não da “ambient music”. Dawn mudou-se para a Big
Apple em 1994 e teve uma espécie de epifania às avessas: “Viver numa
grande cidade pela primeira vez fez com que me sentisse desligada da
natureza e isolada no meio de toda a gente que vive nesta metrópole.” É o
reflexo dessa experiência que agora surge em disco, depois de ter sido
apresentado ao vivo...
(01-06-2006)
1.
Birth

2.
Transit Theme

3.
House Carpenter

4.
In Speed

5.
Taki Pejazz

6.
Roadkill

7.
Earth's Kiss

8.
Fire and Castration

9.
Questioning

10.
I No Longer Wish

11.
Corwith Brothers

12.
Dream on a Train

13.
I'd Like To Be

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Fennesz/Sakamoto
«Cendre»
CD Touch, € 15,95

Após uma primeira experiência na gravação ao vivo
"Sala Santa Cecilia", Fennesz e Sakamoto regressam ao activo com o álbum de
estúdio "Cendre". Ao passo que no primeiro trabalho foi explorada essencialmente
a vertente mais electrónica, este álbum não poderia ser mais diferente. Aqui
existe uma divisão bem traçada - Fennesz na electrónica e Sakamoto no piano (em
tudo semelhante a Alva Noto e Sakamoto) -, onde um elemento interpreta peças
delicadas e frágeis ao piano e o outro preenche os amplos espaços com
tratamentos electrónicos. As semelhanças com os trabalho de Noto e Sakamoto
terminam aqui, pois Fennesz consegue atribuir uma vertente bem mais
orgânica às composições, emanando delas um calor aconchegante e uma atmosfera
relaxante, mesmo hipnótica. A música é emocional, contemplativa e serena, e é
curioso como dois compositores com origens tão distintas conseguem uma
cumplicidade tão imediata e produtiva.
(15-06-2007)
“This first, full-length recording by
Christian Fennesz and Ryuichi Sakamoto is a hauntingly beautiful piece of work.
It’s essentially a marriage of delicate acoustic piano played by Sakamoto and
ambient textures courtesy of Fennesz. As such, cendre (all text is studiously
rendered in lower-case) is a very different work from the duo’s first release,
the 19 minute Sala Santa Cecilia (2005), on which it was nearly impossible to
tell which performer contributed which sounds.” Colin Buttimer
in BBCi
1.
oto

2.
aware

3.
haru

4.
trace

5.
kuni
6.
mono

7.
kokoro

8.
cendre

9.
amorph

10.
glow

11.
abyss

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Fennezs
«Endless
Summer (New Edition)»
CD Editions Mego, €15,95

1.
Made in Hong Kong

2.
Endless Summer

3.
A Year In a Minute

4.
Caecilia

5.
Got To Move On

6.
Shisheido

7.
Before I Leave

8.
Happy Audio

9.
Badminton Girl

10.
Endless

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Fennesz
«Hotel Paral.lel»
CD Mego, € 15,95

1. 8 Z
2. Nebenraum
3. Zeug
4. Blok M
5. Santora
6. Dheli Plaza
7. Fa
8. Traxdata
9. Gr-500
10. Szabo
11. Uds
12. Herbert Missing
13. Super Feedbacker
14. Aus

Fennesz
«03_02_00 -Live At Revolver, Melbourne»
CD Touch, € 11,50


Fennezs/Sakamoto
«Sala Santa Cecilia»
CDEP Touch, €12,95

Sabendo de investimentos
recentes de Christian Fennesz (“Endless Summer”, “Venice”) e Ryuichi
Sakamoto (as colaborações com Alva Noto em “Insen” e “Vrioon”),
seria de supor que este encontro entre duas grandes personalidades
da música dos nossos dias fosse pautado por uma perspectiva “light”
e até quase pop da electrónica ou mesmo que o piano satieano do
japonês estivesse presente, mas este registo ao vivo no Romaeuropa
Festival de 2004, em Itália (19 minutos apenas, mas essenciais),
oferece-nos uma música densa, abstracta e totalmente digital. Trata-se
da abertura apenas de um duo de “laptops” que teve outros desenvolvimentos
aqui não documentados, mas facilmente compreendemos por que motivo
apenas esta peça passou para CD: está tão carregada de subtilezas
e pormenores e as suas nuvens de ruído têm tal impacto que acrescentar
fosse o que fosse mais desse concerto diluiria a sua força e a sua
beleza. Como já referiu a crítica, parece um “chuveiro de fogo”,
intenso, massivo, mas com pequenos elementos a descobrir por trás
e por dentro das camadas de “drones”. Com uma tónica experimental
como há já algum tempo não ouvíamos sair do teclado de Fennesz e
não nos lembramos de detectar em Sakamoto (as melodias estão lá,
mas envolvidas em algo que mais parece proveniente do caldeirão
INA-GRM), “Sala Santa Cecilia” tem dimensão “sinfónica”, mas é de
suspeitar que tudo o que ouvimos não foi preparado antecipadamente
e sim improvisado pelos dois músicos, e até que esta parceria foi
acidental. Verificado o sucesso da junção destas mentes musicais
será de supor, no entanto, que novos episódios se seguirão, até
porque, entretanto, o ex-Yellow Magic Orchestra convidou o austríaco
a integrar o grupo que levou para digressão. E que grupo, integrando,
por exemplo, um guitarrista pop/rock, Cornelius, e um baixista de
free jazz, Skuli Sverrisson. Este EP pode ser entendido como um
“teaser”, mas é muito mais do que isso e ganhou já proporções históricas.
(11-07-2005)
1.
Overture


Fennezs
«Venice»
CD Touch, €15,95

1.
Rivers Of Sand

2.
Chateau Rouge
3.
City Of Light
4.
Onsra
5.
Circassian
6.
Onsay
7.
The Other Face

8.
Transit (feat. David Sylvian)

9.
The Point Of It All
10.
Laguna
11.
Asusu
12.
The Stone Of Impermanence

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excertos de todos os temas

The
Fiery Furnaces
«Widow City»
CD Thrill Jockey, € 12,50
É o regresso de uma das mais interessantes bandas do momento.
Agora na Thrill Jockey, os Fiery Furnaces voltam a surpreender com "Widow City",
prosseguindo nas lindas e bem dispostas, a que sempre nos habituara. Algumas
experiências mais arrojadas poderiam afastá-los do estatuto pop, mas a espinha
dorsal é a mesma, não fossem eles quase veteranos destas andanças. São 16 belas
canções de onde se destacam as mais orelhudas "My Egyptian Grammar", "The Old
Hag Is Sleeping" ou "Restorative Beer". A voz de
Eleanor Friedberger continua com um "je ne sais quoi",
sempre cativante. Tal como este disco.
(02-11-2007)
1.
Philadelphia Grand Jury

2.
Duplexes of the Dead

3.
Automatic Husband

4.
Ex-Guru

5.
Clear Signal from Cairo

6.
My Egyptian Grammar

7.
Old Hag Is Sleeping

8.
Japanese Slippers

9.
Navy Nurse

10.
Uncle Charlie

11.
Right by Conquest

12.
Restorative Beer

13.
Wicker Whatnots

14.
Cabaret of the Seven Devils

15.
Pricked in the Heart

16.
Widow City

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The Fiery Furnaces
«Bitter Tea»
CD Rough Trade, €16,95
1.
In My Little Thatched Hut

2.
I'm In No Mood

3.
Darling Black Hearted Boy

4.
Bitter Tea

5.
Teach Me Sweetheart

6.
Waiting To Know You

7.
Vietnamese Telephone Ministry

8.
Oh Sweet Woods

9.
Borneo

10.
Police Sweater Blood Vow

11.
Nevers

12.
Benton Harbour Blues

13.
Whistle Rhapsody

14.
Hidden Track

15.
Hidden Track

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50 Foot Wave
«Golden Ocean»
CD 4AD, €17,50
Desconcertante
e reveladora, é o mínimo que se pode dizer desta incursão de Kristin
Hersh, a cantora dos Throwing Muses, pelos universos do punk e do
grunge. Para ela, os 50 Foot Wave são como que uns "ultra-Muses"
com os quais pode finalmente libertar-se. Nem a doçura que emprestava
à voz naquele lendário grupo dos anos 1980 se mantém - a essa imagem
de marca contrapõe agora uma rugosidade e um vigor inéditos, como
se fosse uma Courtney Love com a voz mais treinada. A própria Hersh
o diz: "O que pode ser mais divertido do que subir o volume
para 10 e gritar durante uma hora todas as noites?" E o interessante
é que, se o baterista (Rob Ahlers) foi escolhido porque a "diva"
do rock harmónico no tempo em que a ética se queria uma estética
procurava alguém que soasse como se tivesse atirado a bateria pelas
escadas abaixo, também o baixista, Bernard Georges, veio dos Throwing
Muses. Eram estes uma banda marcada pelo elemento feminino? Talvez,
mas porque não há-de ser feminina também a canção "Sally is
a Girl", com os seus vocalismos guturais e a dimensão de catarse
que ostenta? Kristin Hersh refuta os papéis convencionais dados
ao papel da mulher na música, e se é verdade que os Muses criaram
um estereótipo (ou nós, seus ouvintes, criámos por eles), a também
guitarrista trata de o desfazer neste "Golden Ocean".
Por exemplo, com letras como "you know what? / shut the fuck
up" ou "your voice has a sing-song quality / and bones
were made to be broken". Não é uma máscara que coloca, e desde
muito cedo fica claro que este investimento é sério e implicou uma
entrega total. Musicalmente, há algo de Husker Du, Mission of Burma,
Gang of Four, Nirvana ou Pere Ubu nestes temas transbordantes de
adrenalina, referências que nunca imaginaríamos que pudessem ser
associadas com esta figura da pop. Decididamente, Hersh não vive
das glórias do passado e ainda tem muito para nos dar...
(03-06-2005)

Final Fantasy
«He Poos Clouds»
CD Tomlab, € 15,95
1.
The Arctic Circle 
2.
He Poos Clouds 
3.
This Lamb Sells Condos 
4.
If I Were A Carp 
5.
»->
6.
I'm Afraid Of Japan 
7.
Song Song Song 
8.
Many Lives »-> 49mp 
9.
Do You Love?
10.
The Pooka Sings 
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excertos de todos os temas

Flotation Toy
Warning
«Bluffers Guide To The Flight Deck»
CD Talitres, € 15,95

A “escola” Mercury Rev / Flaming Lips
deixou descendentes, os Flotation Toy Warning. Mas não podemos tomá-los
apenas como continuadores de um estilo – a forma como o grupo de Paul
Carter lida com o factor orquestração, cruzando samples de conteúdos
intrigantes com instrumentos pouco habituais na pop (sopros, cordas de
arco), mostra-nos que tem as suas próprias coordenadas e que quer deixar a
sua bandeira na expansão territorial que está a providenciar. O modo como
se apresenta, aludindo a explorações árticas, disputas entre inventores,
máquinas voadoras, borboletas raras e uma pretensa nova área da acústica
chamada “astrofonia” leva-nos a tomar os FTW como personagens de Jules
Verne. Poderia ser só uma questão de marketing, mas o certo é que a nossa
audição é induzida pelo facto e ouvir “Bluffer’s Guide to the Flight Deck”
(o seu primeiro álbum, depois de dois EPs) é como fazer uma viagem ao
interior da Terra ou à Lua, astro tão próximo mas tão longe do comum dos
mortais. Uma viagem em que a estranheza e a descoberta proporcionadas pelo
seu lado experimental (com recursos tipo “found-sound” integrados na
composição) são conduzidos pelos factores de reconhecimento garantidos
pela muito funcional simplicidade das melodias e a segura estabilidade das
estruturas tipicamente pop, de maneira a não deixarmos de sentir o chão
debaixo dos pés e o tecto em cima das cabeças, dado que o “alto” e o
“baixo” não existem “out there”. Uma forma de nos maravilhar fazendo sem
que corramos perigo. Um pouco mais de risco (além do inerente à utilização
de uma serra cantante) não faria mal algum, mas se a literatura fantástica
de Verne tem sido tão bem recebida pelos jovens de várias gerações é
porque também esta faz sonhar sem maiores assombros – tanto quanto se sabe
nenhum miúdo saltou da janela depois de ler “Dois Anos de Férias”, mas já
o fizeram para imitar o Homem-Aranha. Nisto os FTW são até menos
mercurianos que os Mercury Rev, trocando o cunho épico destes por uma
abordagem mais comedida, senão mesmo próxima do ambientalismo. Muito
cuidado, pois, com os brinquedos flutuantes.
(16-03-2006)
1.
Happy 13 
2.
Popstar Researching Oblivion 
3.
Losing Carolina - For Drusky
4.
Made From Tiny Boxes
5.
Donald Pleasance
6.
Fire Engine On Fire Part I 
7.
Fire Engine On Fire Part II
8.
Even Fantastica
9.
Happiness Is On The Outside 
10.
How The Plains Left Me Flat 
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The Focus
Group
«Sketches and Spells» «Hey Let Loose Your
Love» CD's Ghost Box, €
16,50 cada

Já chamaram de “music-hall
concrète” ao catálogo da Ghost Box, editora fundada por Julian House, o
designer das capas dos Primal Scream e dos Stereolab, e muito
especialmente ao trabalho apresentado pelo Focus Group. E isso porque
transforma o concretismo, no que este tem de mais distintivo, a
descontextualização dos sons, numa prática de índole popular. É assim que,
sendo indubitavelmente experimental, a música contida em “Sketches and
Spells” e “Hey Let Loose Your Love” tem a dimensão do “easy listening”.
Numa primeira audição, poderíamos pensar neste projecto como um parente do
plagiarismo dos Tape-Beatles ou de John Oswald, e mais ainda do de People
Like Us, o heterónimo com que Vicki Bennett revisita a década do “baby
boom” americano, pois tal como estes procede-se à colagem de músicas já
existentes, mas não só os propósitos são outros (o acento não está no acto
da pilhagem e na reconversão de “ready mades” musicais em outros
objectos), como os procedimentos práticos se centram nos próprios sons,
para só depois incidirem na forma não-linear e até fragmentária como os
sons são organizados. O que resulta é ao mesmo tempo familiar e estranho.
Há aqui algo da sonoridade típica da electrónica universitária de há 30
anos, o que tem mais a ver com a forma do que com o conteúdo, ou seja,
trata-se de um “clin d’oreille”, e do mesmo modo vão-se somando rítmicas e
ambiências do jazz, mas mais como elementos esporádicos de figuração do
que outra coisa, entre muitos puxões de orelhas e piscadelas de olho. Já
se disse que o Focus Group (além de House, uns senhores que usam os nomes
Belbury Poly e Eric Zann, este roubado a uma personagem de Lovecraft)
trabalha com sentimentos de nostalgia, dado utilizar como materiais restos
descartados do passado, mas será mais verdadeiro o que diz DJ Spooky sobre
a sua própria actividade, entendendo o DJing como uma forma de mnemónica
ou de historiação, quando não mesmo de arqueologia. Ainda que não se trate
de DJing, nem sequer de “sampling music” enquanto estilo à parte, estes
dois CD's seguem essa lógica. Se a base de dados de
Bennett são os anos 1950 e os media yankees, a do Focus Group são os 70 e
seus equivalentes britânicos, com um gosto muito especial pelos seriados
televisivos da BBC e suas bandas sonoras, a música acidental passada nos
dramas radiofónicos, os “library records” e ainda os discos de
aprendizagem para crianças. Talvez haja por aqui uma atitude retro, mas
mesmo que o computador seja a ferramenta utilizada, House não gosta do
carácter “clean” dos samples digitais, preferindo o “bad looping” de
outros tempos.
(27-04-2006)
«Sketches and Spells»:
1. Stringed Winds
2. Verberations
3. Open the Gate
4.
Activity and Scales

5. Corn Holes
6. Verberations Exp.
7. Bells hazes
8.
Alsh

9. Hocusing Fee
10. Colouring Toys
11. Danse & Atoms
12. Free Psych & Mirrors
13. Verberation Int.
14. Jout Sections
15. Geometree Hou
16. Sun Groof
17. Diagonalam
18. Underwater Pries
19. Jass Tarp
20. Hocusing Loe
21. What Are You Seeing?
22.
Bromiding Place

23. Kasratu
24. Swirling Paths
25. Starry Wisdom
«Hey Let Loose Your Love»:
1. Icicle Wheel
2.
You Do Not See Me

3. Clockbell
4. Echo Release
5. Xylophone Signal
6. Modern Harp
7. Inside The Rubber Box
8. Lifting Away
9. Today’s Rhythm People
10. Hey Let Loose Your Love
11. String Sine Romance
12. The Moon Ladder
13. Planning For Urban Green
14. Swinging Phantom
15. The Thre
16. Jam-Jar Carnival
17. Baroque Face
18.
The Leaving

19. Reflected Message

Fog
«10th Avenue Freakout»
CD Lex, €16,50

O Andrew Broder que aqui se apresenta
como Fog é o mesmo que, em "Hymie's Basement",
contracenou com Why?, figura da Anticon e dos saudosos CloudDEAD,
e se esse era um disco de hip-hop experimental, ainda que com uma
forte componente pop, "10th Avenue Freakout", com as suas
alusões ao psicadelismo dos anos 1970, anda pelos caminhos
da folk-pop experimental. O adjectivo "experimental" pode
ser o mesmo, mas a matéria-prima distingue-se, diga-se em
abono da verdade que mais em termos de nuance do que de outra coisa
qualquer quando se trata, como é o caso, de híbridos
musicais feitos de muitas peças e influências. E porque
tais relacionamentos estilísticos não são os
mais óbvios, estas canções sucedem-se entre
o reconhecível e o estranho. "The Poor Fella",
uma das melhores faixas do álbum, é um exemplo vivo
dessa condição "nem-nem" que envolve música
de câmara, balada e electroacústica de formas inéditas
e que até tem conduzido a alguma incompreensão por
parte da crítica "mainstream" - a pop-rock lamenta
as incursões de Fog pelo abstraccionismo, enquanto a alternativa
não aceita a submissão das vertentes mais "noise",
ambientais ou jazzísticas ao modelo canção,
quando o certo é que este é um óptimo disco
da nova música popular urbana, inventivo, variado em termos
de conteúdo sem nunca perder personalidade, esteticamente
aberto (ou dito de outro modo: sem se fixar em dogmas), desafiador
e oportuno, no sentido em que tem tudo a ver com o que está
musicalmente em causa nos dias que correm. Para todos os efeitos,
Andrew Broder é igualmente um DJ, o que quer dizer que lida
com memórias musicais e está ciente do seu relativismo.
(09-06-2005)

Food
«Last Supper»
CD Rune Grammofon, €16,50

O novo álbum do grupo
do saxofonista inglês Iain Ballamy com três noruegueses, um deles
o trompetista dos Supersilent, Arve Henriksen, tem um carácter de
urgência que o seu título, "Last Supper", mais reforça,
ainda que não faça menção à última ceia de Cristo ou à derradeira
refeição dos condenados à morte, mas refira apenas este disco como
o prato mais recente desta unidade "gastronómica" - e
isto apesar de nos chegarem notícias de que, entretanto, Henriksen
saiu e foi substituído pelo guitarrista Nils-Olav Johansen, o que
ainda carrega mais as implicações do nome escolhido. Até a utilização
da electrónica é aqui diferente, talvez porque a produção já não
esteja entregue a Deathprod (Helge Sten), outro elemento dos Supersilent
que esteve envolvido no anterior "Veggie", um menu vegetariano
que desesperou quantos esperavam que aquele trabalho fosse mais
"jazzy", ou seja, mais carnívoro. Pois este é-o decididamente,
ainda que o bucolismo estilístico dos dois sopradores continue em
evidência. A secção rítmica saltou, no entanto, para a frente, ou
não fosse agora o baterista Thomas Strønen o produtor, e a aproximação
ao legado do Miles Davis da década de 1970 não deixa dúvidas quanto
aos propósitos. Trata-se de jazz saltitante mas lírico, com a componente
"ambient" que o mítico "Bitches Brew" quase
chegou a ter, mas não teve... O que quer dizer que este disco recua
um bocadinho no tempo para ir mais adiante do que os Food alguma
vez tinham ido.
(04-03-2005)

Four Tet
«Everything Ecstatic»
CD Domino, €17,50
Kieran Hebden, mais conhecido por Four
Tet, chama à música que faz de "laptop jazz",
e de facto este género afro-americano transparece frequentes
vezes na electrónica dançante que pratica (não
por acaso colaborou com Steve Reid, baterista que já encontrámos
a usar as baquetas com James Brown, Fela Kuti e Sun Ra), uma techno
feita a pensar na cabeça para além dos pés
que tem a elegância e a sofisticação de uma
Third Eye Foundation e a inteligência das misturas e das produções
que distinguem Aphex Twin, "groovy", acessível,
mas também consciente das inovações conseguidas
pela música numérica experimental. Não só,
mas também, pois Hebden é o primeiro nome que nos
surge à ideia quando se fala em "folktronica",
esse misto de folk e música por computador que se tornou
toda uma tendência, mas cuja intervenção, de
qualquer modo, é bastante discreta neste "Everything
Ecstatic". No lugar das ambiências pastorais que marcaram
outras edições suas, temos agora a percussão,
massiva, polirrítmica e, surpresa, só episodicamente
cingida aos padrões do hip-hop, baseada em "samples"
do (só podia) já referido Steve Reid. "Sun Drums
and Soil" é bem um exemplo desta aposta, e até
não falta, no final da peça, um saxofone de free jazz
para mostrar o que anda o autor deste excelente disco a ouvir. E
porque depois de cada inspiração deve vir uma expiração,
Four Tet intercala tais incursões pelo "beat" com
situações bem distintas, como é o caso do curto
"Clouding", em tudo devedor da música concreta,
ou de "And Then Patterns", uma recordação
do que fez no álbum "Rounds", com a sua ambiência
de banda sonora do cinema. Mais adiante, "Turtle Turtle Up"
é um achado, com a sua inspiração no característico
trâfego de Hong Kong, e "Sleep, Eat Food, Have Visions"
(grande título) é o acompanhamento ideal para a leitura
da escritora de literatura fantástica Ursula K. LeGuin. O
disco termina com "You Were There With Me", o mais próximo
que pode haver dos sons da chuva a cair sobre gongos e sinos.
(09-06-2005)
1.
A Joy
2. Smile Around The Face
3. Fuji Check
4. Sun Drums And Soil
5. Clouding
6. And Then Patterns
7. High Fives
8. Turtle Turtle Up
9. Sleep, Eat Food, Have Visions
10. You Were There With Me
  
Fovea
Hex
«Neither Speak Nor Remain Silent Part 1: Bloom»
«Neither Speak Nor Remain Silent Part 2: Huge»
«Neither Speak Nor Remain Silent Part 3: Allure»
MCD's die Stadt/Janet Records, € 13,95 cada

Por altura da edição do terceiro volume desta
épica colecção de EP's - o primeiro episódio surgiu há já quase dois anos -, é
altura de finalmente destacarmos este(s) título na nossa newsletter.
Fovea Hex é um projecto que gira essencialmente à
volta de Clodagh Simmons e Andrew McKenzie (The Hafler Trio), mas tem vindo a
incluir nestas três edições as colaborações de nomes tão ilustres como Brian Eno,
Roger Eno, Robert Fripp, Roger Doyle, Colin Potter, Carter Burwell, John
Contreras, e muitos outros. "Bloom", de Novembro de 2005, foi o primeiro
episódio, a primeira experiência que causou imediatamente impacto. Seguiram-se
em Maio de 2006 e Junho de 2007 "Huge" e "Allure", respectivamente. Ao
contrário do que poderíamos esperar pelo envolvimento de Andrew McKebnzie, Fovea
Hex está longe da sonoridade dos H3O. Algumas semelhanças a peças de Eno são
imediatas, mas a inclusão da frágil e cristalina voz de Simmons dá um toque
épico único e uma enorme força a toda a composição. Toda a parte instrumental
assemelha-se a uma construção de proporções estonteantes, tal a intensidade e a
perfeição; como uma catedral de vidro, onde o som do cristal se mistura com os
coros religiosos e com os sons do vento e da própria ressonância do edifício. As
vozes femininas parecem quebrar a qualquer momento esta construção sonora tão
frágil, mas bem pelo contrário, solidificam-na ainda mais. Os três episódios
mantêm uma linha contínua, e não se podem separar entre si. São episódios de uma
trilogia que não podem sobreviver por si só. Mas são também peças
imprescindíveis de uma beleza extrema. E tal como Brian Eno disse "some of the
most extraordinary songs I've heard in years".
(15-06-2007)
"(...) Playing it from beginning to end
was when I had my revelation; this record is as gorgeous as any of Burwell’s
stunning soundtrack work, as sentimental and romantic as Eno’s very best and
polished off expertly by the experimental flourishes of avant garde
mad-scientist McKenzie."
Boomkat
«Neither Speak Nor Remain Silent
Part 1: Bloom»:
1.
Don't These Windows Open 
2.
We Sleep You Bloom 
3. That River
«Neither Speak Nor Remain Silent
Part 2: Huge»:
1.
Huge (The Joy of Trouble) 
2. A Song for Magda
3.
While You're Away 
«Neither Speak Nor Remain Silent
Part 3: Allure»:
1.
Allure 
2.
Long Distance (Oblivion) 
3.
Neither Speak Nor Remain Silent 

Fra
Lippo Lippi
«The Early Years»
«The Best Of»
CD's Rune Grammofon, €
17,50

A designação do projecto
que Rune Kristoffersen, hoje o patrão da Rune Grammofon, manteve
na década de 1980 com Per Oystein Sorensen tem uma referência artística
que não é comum encontrar na pop, ou que pelo menos assim não tem
sido desde que esta prática musical deixou de partilhar com a “pop
art” as mesmas preocupações estéticas (já lá vão os tempos em que
Andy Warhol foi patrono dos Velvet Underground e dos Curiosity Killed
The Cat). Fra Lippo Lippi é o nome dado pelo poeta Robert Browning
a uma sua personagem inspirada no monge e pintor renascentista Fra
Filippo Lippi, que ficou conhecido na história por acreditar na
arte como o produto da experiência directa e por ser um sensualista,
ou melhor dizendo, um artista que acreditava mais na realidade imediata
do que no divino absoluto, o que, obviamente, lhe criou graves dificuldades
com a hierarquia da Igreja. Não só porque colocava em causa os dogmas
católicos, mas por, sendo um sacerdote, se interessar demasiado
por mulheres. Segundo Vasari, no seu “Vidas de Artistas”, quando
não podia possuir uma, Lippi pintava-a e assim se penitenciava.
Aliás, sabendo da sua fraqueza, Cosimo de Medici fechava-o a sete
chaves quando o frade estava a trabalhar nalguma das suas encomendas.
Como o artista florentino, os noruegueses Fra Lippo Lippi da música
foram recuperados do esquecimento (nas Filipinas, pelo contrário,
continuaram sempre a ser um êxito retumbante) com a reedição de
canções dos seus primeiros anos de existência e com uma recolha
dos seus maiores êxitos. “The Early Years” apresenta-nos um grupo
(o baterista Morten Sjoberg ainda estava em funções) devedor do
estilo Joy Division, ainda que com uma acentuação no trabalho dos
teclados, por sinal com uma economia de materiais que os distingue
da saturação sonora do breve empreendimento de Ian Curtis, e em
“Best Of” (que, como não podia deixar de ser, inclui o “hit” internacional
“Shouldn’t Have To Be Like That”) encontramo-los já conquistados
pela sonoridade electro instituída pelos New Order. Estas filiações
nunca foram mais do que isso. A alusão a Filippo Lippi tem mesmo
uma segunda leitura: na sua tentativa de comporem e interpretarem
a canção pop perfeita (equivalente ao desejo do frade de tornar
o sexo na arte suprema), segundo, está claro, o entendimento da
altura, padronizado por aquelas duas formações seminais, o que fizeram
foi outra coisa. “Pintaram” o que viria a ser a música com instrumentário
electrónico do futuro, mesmo que distanciada da pop. Repare-se no
que Kristoffersen fez de seguida, seja no domínio do techno experimental
como no do ambientalismo...
(15-12-2005)
«The Early Years» :
1. Some Things Never Change
2. A Small Mercy
3. Barrier
4. Sense Of Doubt
5. The Treasure
6. Slow Sway
7. Now And Forever
8. French Painter Dead
9. Out Of The Ruins
10. A Moment Like This
11. In Silence
12. Recession
13. The Inside Veil
14. I Know
15. Quiet
16. Lost
17. In A Little Room
18. An Idea
«The Best Of» :
1. Shouldn´t Have To Be Like That
2. Angel
3. Love Is A Lonely Harbour
4. Light And Shade
5. Naive
6. Beauty And Madness
7. Everybody Everywhere
8. Crazy Wisdom
9. Everytime I See You (live)
10. Even Tall Trees Bend
11. Coming Home
12. Thief In Paradise
13. Leaving
14. Mothers Little Soldier
15. Dreams

Fra
Lippo Lippi
«Songs (Ed.Especial)»
CD Rune Arkiv, €
17,95

No início (1981), os
noruegueses Fra Lippo Lippi eram mais uma cópia do rock negro e depressivo
dos Joy Division e dos Cure. O mergulho na pop veio depois (em 1983),
ainda que algumas nuvens escuras continuassem a acompanhá-los, e foi só ao
terceiro álbum (de 1985), precisamente este “Songs” agora reeditado, que
assumiram a identidade que haveria de ser a sua, enquanto autores de
baladas electrónicas – ainda que sempre com o piano de Rune Kristoffersen
no segundo plano, logo por trás da voz de Per Oystein Sorensen – em que se
contam histórias e já não apenas mal-estares. É deste disco e desta altura
o grande “hit” do grupo, “Shouldn’t Have to Be Like That”, canção que lhes
daria uma desmesurada e estranha fama no mais improvável dos países,
Filipinas. Mais tarde, mesmo quando acrescentaram algum jazz ao seu
estilo, tendo como convidado, por exemplo, o trompetista Mark Isham, a pop
seria a sua causa, e neste capítulo pode dizer-se que muito contribuíram
para o seu aprimoramento formal enquanto estilo emancipado do rock e da
canção ligeira. As composições de “Songs” podem entrar facilmente no
ouvido e aparentar uma grande simplicidade, mas esta não é uma música de
mastigar e deitar fora, ao contrário de muitos produtos que se deram a
ouvir nos anos 1980. A verdade é que os Fra Lippo Lippi continuam a ser um
dos grandes exemplos de sofisticação da pop. Aqueles que vêm acompanhando
o que hoje faz Kristoffersen sob o nome Monolight, no domínio da música
experimental, e estão atentos às edições da Rune Grammofon, a editora
especializada em “noise music” e improvisação electroacústica que fundou e
dirige, terão uma boa surpresa quando se debruçarem sobre o trabalho por
ele desenvolvido na década em que se disse que a estética iria substituir
a ética, encontrando nestes temas boas explicações para o que é hoje. As
sementes estão aqui, é só ouvi-las florir.
(16-03-2006)
1.
Come Summer 
2.
Shouldn''t Have To Be Like That 
3.
Even Tall Trees
4.
Just Like Me
5.
Crash Of Light
6.
The Distance Between Us 
7.
Regrets
8.
Leaving
9.
Coming Home 
10.
Crash Of Light (Live) 
11.
The Distance Between Us (Live) 
12.
Everytime I See You (Live) 
13.
Fade Away (Live) 
14.
Shouldn''t Have To Be Like That (Live) 
15.
Even Tall Trees Bend (Live) 
16.
Say Something (Live) 
17.
Regrets (Live) 

Francesco
Tristano
«Not For Piano»
CD Discograph, € 16,50

Uma das grandes surpresas deste primeiro semestre
de 2007, e vindo da escola clássica, Francesco Tristano (nos meios clássicos
mais conhecido por Francesco Tristano Schlimé) oferece-nos "Not For Piano", uma
obra em piano solo onde digere e reinterpreta composições de outros artistas
(desde Autechre a Derrick May, com produção de Murcof) do clássico ao jazz, do
experimental ao electro. Com um equilíbrio entre a intensidade e a melancolia,
fez-nos imediatamente lembrar em alguns dos trechos as brilhantes composições de Robert Haigh, nos já idos anos 80 (quem não se lembra dos EP's "Music From The
ante Chamber" ou "Juliet of The Spirits", ou dos álbuns "Valentine Out of Season"
ou "A Waltz in Plain C"?). Noutros aproxima-se mais de uma postura jazzística ou
mesmo experimental, nunca nos deixando de impressionar - ouça-se o enérgico "Strings
of Life", por exemplo, ou "Andover" (orifginal dos Autechre). Autor de uma
discografia impressionante, e já galardoado com vários prémios, com apenas 26
anos de idade Tristano mostra em "Not for Piano" que não se limita ao eixo
hermético e por vezes claustrofóbico da música clássica, fazendo uma muito
arrojada ponte entre a velha e a nova música. Essencial e imprescindível.
(11-05-2007)
1.
Hello

2.
Barceloneta Trist

3.
Strings Of Life
4.
Andover
5.
AP*
6.
The Melody
7.
Jeita
8.
The Bells

9.
Hymn
10.
Two Minds One Sound

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Frank
Bretschneider
«Rhythm»
CD Raster Noton, € 15,95

Nem pop nem vanguardista, "Rhythm" lida simplesmente com os princípios básicos
de qualquer música moderna: o ritmo.
Frank Bretschneider leva a sua relação com o ritmo - nunca simples mas sempre
provida de um sentimento profundo - a outro nível, e desta vez faz menos uso de
sons abstractos. A precisão de outros álbuns anteriores persiste, bem como a
preferência por sons entre o noise e o experimental, mas agora Frank usou
combinações de programação, composição e construção que estão bem longe dos
loops a que nos habituou anteriormente, tendo mais a ver com a sua
idiossincrática estética de som digital: controlada e objectiva. O todo segue
regras simples: ligado/desligado, para a frente/para trás, para cima/para baixo,
lento/rápido, aborrecido/brilhante, e é também caracterizado por uma total
ausência de romantismo. No entanto este regresso ao elementar não reduz a música
à função de música de dança, em vez disso Bretschneider mantém-se enfaticamente
musical e consegue gerar estruturas rítmicas sofisticadas e complexas.
Resumindo, "Rhythm" é, provavelmente, o seu disco mais imediato e directo.
Aproveitem e assistam ao seu concerto hoje no cinema S.Jorge, inserido no
festival Número-Projecta.
(09-11-2007)
1.
A Soft Throbbing Of Time

2.
The Big Black And White Game

3.
We Can Remember It For You Wholesale

4.
The Eight Day People

5.
Other Days, Other Eyes

6.
Construction Shack

7.
The Moon Is A Hole In The Sky

8.
All Summer In A Day

9.
The October Game

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Franz
Ferdinand
«You Could Have It So Much Better»
CD Domino, € 17,95
1. The
Fallen
2. Do
You Want To
3. This
Boy
4. I'm
Your Villain
5. Evil
And A Heathen
6. You're
The Reason I'm Leaving
7. Well
That Was Easy
8. Eleanor
Put Your Boots On
9. What
You Meant
10. Walk
Away
11. You
Could Have It So Much Better
12. Fade
Together
13. Outsiders

Fred Armisen
«Presents Jens Hannemann Complicated Drumming Technique»
DVD
Drag City, € 16,50

Esta é talvez a primeira vez que a Drag City investe os seus conhecimentos na
edição de um DVD que ensina todos aqueles admiradores e potenciais músicos da
nova geração.
"Complicated Drumming Technique" é mais do que um simples modo de ensinar os
pequenos e grandes truques na arte da percussão. Vai ao encontro do interesse
não só dos iniciados mas também dos veteranos.
O respeitado comediante e personalidade da TV Fred Armisen é aqui acompanhado
pelo percussionista Jens Hannemann, abrindo os nossos olhos para as pequenas
vitórias que qualquer percussionista consegue atrás dos seus instrumentos. Nesta
peça de colecção encontramos:
-Quase 30 minutos de lições:
-Uma série de dicas do veterano Victor Benedetto;
-Impressões de três composições originais de Hannemann;
-Um olhar sobre as jam sessions profissionais;
e muito, muito mais...
(23-11-2007)

Fred Lonberg-Holm Trio
«Other Valentines»
CD Atavistic, € 15,95
Continuação do muito
celebrado “A Valentine for Fred Katz”, neste “Other Valentines”
o violoncelista de Chicago Fred Lonberg-Holm volta a abraçar um
jazz mais “mainstream” e “straightahead”, para surpresa de quantos
o conhecem de situações mais atrevidas, como o recente “Grammar”
do Punctual Trio, com Carlos Zíngaro e Lou Malozzi, ou a sua participação
na Territory Band de Ken Vandermark. Ainda assim, o novo álbum de
“covers” deste discípulo de Pablo Casals na Atavistic inclui composições
de nomes tão imprevisíveis para um disco de jazz como Syd Barrett,
o fundador dos Pink Floyd, Wilco (com quem, aliás, o camaleão Lonberg-Holm
já gravou) ou Cat Power, grupo rock feminino que muito tem dado
que falar. Interpretados por um invulgar trio de violoncelo, contrabaixo
(o mesmo Jason Roebke da anterior edição) e bateria (com Frank Rosaly
a substituir Glenn Kotche), estes temas ficam quase irreconhecíveis:
se as melodias originais estão lá, íntegras, o swing é todo ele
jazzístico. E como não podia deixar de ser, é novamente tocada a
música do compositor e arranjador (e violoncelista, não o esqueçamos)
Fred Katz, colaborador essencial de Chico Hamilton nos seus grupos
dos anos 1950. Recordado também é Sun Ra, outra importante figura
do universo musical frequentado pelo novo membro dos Vandermark
5, com o seu “cello” a substituir o trombone de Jeb Bishop, e logo
a abrir o CD.
(14-10-2005)
1. East of Uz
2. Fool
3. Arnold Layne
4. Almost Mid-Day
5. Vals Pa Vinegar
6. Flo
7. Winter in America
8. Jesus Etc.
9. I Got Nothing
10. To My Buddy, Buddy

Free
Base
«The Ins and Outs»
CD Emanem, €
15,95

Foram necessários dez
anos de existência para que o trio Free Base (Alan Wilkinson, Marcio
Mattos e Steve Noble) gravasse um disco. O que só pode ser explicado
pelo facto de a música improvisada ter o palco como prioridade,
ainda que tal signifique muitos excelentes momentos e formações
instrumentais não ficarem documentados para a posteridade. Wilkinson
tem como principal instrumento o saxofone barítono e destaca-se
pela sua abordagem brutalista do dito, patente neste álbum, aliás,
em “Kissing the Shuttle”, mas na maior parte dos casos, e muito
especialmente em “Sea Frett”, escolhe uma intervenção mais introspectiva
e comedida. Mas não propriamente “soft”: a inquetação está sempre
presente e por vezes há grandes ascensões de volume. Há longas décadas
radicado em Londres, o contrabaixista (e noutros contextos violoncelista)
brasileiro Marcio Mattos tem um papel fundamental na construção
das densidades que caracterizam a música proposta. Utilizando muito
frequentemente o arco, pode dizer-se que ele pensa tudo o que faz
tendo em conta a utilidade das suas contribuições para o efeito
global. Noble, por sua vez, adopta regra geral a função do baterista
de jazz, seja definindo as métricas, por mais irregulares que elas
nos surjam, como jogando com colorações (grande trabalho de pratos!).
Embora “The Ins and Outs” seja totalmente improvisado, ou assim
parece, o alinhamento com as coordenadas do free jazz é mais do
que óbvio, o que até explica a designação do grupo. A esse nível,
nada acrescenta de novo a esta estética já bem definida, mas mostra-nos
que o modelo ainda não está esgotado.
(13-01-2006)
1. Trepid
2. Sea Frett
3. Absolute Xero
4. Skzypce
5. Kissing The Shuttle
6. Soup Song
7. I Wak On (For John Lester)
8. Sortie

Free Fall
«Amsterdam Funk»
CD Smalltown Superjazz, € 16,50

O "Free" do
título e o "Funk" do nome deste trio constituído pelo
contrabaixista Ingebrigt Haker Flaten com Havard Wiik no piano e
o grande Ken Vandermark nos clarinetes são algo enganadores quanto
ao seu conteúdo, pois não encontramos neste CD os assomos recuperadores
da "new thing" dos Sixties e dos Seventies que os músicos
envolvidos têm dado à estampa nem recriações da rítmica gingada
de uns Funkadelic, a que designadamente Vandermark já dedicou a
sua atenção. O que se propõe em "Free Fall" é uma
continuação do espírito camerístico do jazz aberto e "savant"
tocado por Jimmy Giuffre com Paul Bley e Steve Swallow. Com a diferença,
relativamente a "Furnace", o anterior e único disco do
grupo, de que agora as improvisações são totalmente livres, prescidindo
da escrita de temas prévios - algo que Giuffre nunca teria feito.
Se Haker-Flaten e o menino prodígio dos instrumentos de palheta
são iguais a si próprios, mantendo bem alta a fasquia que eles próprios
colocaram lá em cima, já o pouco ou nada conhecido Wiik é uma revelação
que merece ser assinalada. Com um estilo pianístico que intercala
a intensidade com uma delicadeza que chega a ser de filigrana, por
ele passam muitas das pontes em direcção à música contemporânea
que descobrimos nesta música. A utilização dos espaços e da melodia
vem claramente dessa outra margem. Muito bom. Sentem-se à frente
dos altifalantes e dêem-se tempo, que isto é música para ouvir com
vagar e predisposição. Uma das melhores faixas chama-se "November"
e bem que pode ser a banda sonora deste Outono...
(11-11-2005)
1.
Accidents with Ladder (for Nate McBride)

2. Framework 4
3.
November (for Jeb Bishop) 
4. Framework 6
5. Turn[s] (for Terrie Ex)
6. Framework 9
7. 291 (for Jimmy Giuffre)
8.
Framework 5 
9. Lonnie
10. Framework 3
11.
Still life (for Willem de Kooning) 
12. Framework 10
13. Mythologies

Fridge
«The Sun»
CD Domino, € 18,50
Os britânicos Fridge foram sempre uns ilustres desconhecidos
desde que em 1997 começaram a dar os primeiros passos no território indefinido
do pós-rock, com guitarra, baixo e bateria, e sempre com a electrónica a (des)marcar
compasso e o jazz como inspiração. O segundo e provavelmente mais eclético álbum
“Semaphore” (1998) deu alguma projecção à banda de Kieran Hebden, Adem Ilhan e
Sam Jeffers, mas essa projecção que acabou por dar mais frutos aos projectos dos
três músicos para além dos Fridge. Nomeadamente os Fourtet de Kieran Hebden,
cada vez mais famoso e bem vincado na vertente electrónica, mas também estou a
falar Adem, o projecto pessoal de Adem Ilhan, que aborda o pop-folk com
simplicidade e muita elegância. Sam Jeffers foi o único que ficou musicalmente
fiel aos Fridge em exclusivo, sendo a sua actividade paralela o webdesign, que
aliás pode ser apreciado nos websites dos Fourtet e Adem.
Foi o facto dos Fridge terem ficado em segundo plano em relação a Fourtet e Adem,
que provavelmente fez com que desde 2001 o projecto tenha ficado em pousio,
sendo agora ressuscitado com um grande disco que recorda os tempos mais
inspirados e abrangentes dos Fridge. Um disco complexo, ambicioso e até
disruptivo, que contrasta com a linearidade do seu título, “The Sun”, mas que
nem por isso é menos agradável e refrescante. Um disco que demonstra que apesar
de tudo, estes três músicos continuam a ter um enorme prazer em tocar juntos e
que continuam a saber explorar, agora com ainda mais capacidade, todas as
influências que os continuam a marcar, como por exemplo no portentoso “Eyelids”,
ou no etéreo “Insects”.
“The Sun” é assim como que um regresso à garagem que os
viu nascer e também marca o regresso a um género sempre indefinido, o dito
pós-rock, que teve algum furor na segunda metade da década de 90 do século
passado, mas que ainda demonstra capacidade para surpreender. E para ser
refrescante...
Covas Dauro in
Escape From Noise
(07-09-2007)
1.
Sun

2.
Clocks

3.
Our Place in This

4.
Drums of Life

5.
Eyelids

6.
Oram

7.
Comets

8.
Insects

9.
Lost Time

10.
Years and Years and Years...

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Fujiya + Miyagi
«Transparent Things»
CD Tirk!, € 16,50
Isto dos fenómenos culturais tem muito que
se lhe diga. No Japão de hoje foi-se pegando em formas artísticas deste
lado do globo e dando-lhe vincos nipónicos, mas agora vemos acontecer
exactamente o mesmo processo na inversa. Os Fujiya & Miyagi, apesar do
nome, não são do país do Sol Nascente nem um duo, mas ingleses e um trio,
designadamente David Best, Steve Lewis e Matt Hainsby. Esforçam-se por
parecerem japoneses a fazerem música urbana do Ocidente, mas na verdade
trata-se de uma ironia e até de uma provocação – aliás, Miyagi não é outro
senão a personagem do filme “Karate Kid”, e Fujiya não passa de uma marca
de gira-discos. Independentemente do humor britânico, a combinatória entre
Can, Neu!, Talking Heads e Happy Mondays que encontramos em “Transparent
Things” (título roubado a um romance de Vladimir Nabokov) é, de facto,
algo que poderia surgir com rótulo Made in Japan – foram eles que se
notabilizaram a produzir este tipo de híbridos, afinal. A música é meio
rock Seventies e meio electrónica de agora e ouve-se muito bem, convidando
a novas visitas.
(07-07-2006)
1.
Ankle Injuries

2.
Collarbone
3.
Photocopier
4.
Conductor 71

5.
Transparent Things

6.
Sucker Punch
7.
In One Ear & Out The Other

8.
Cassettesingle

9.
Cylinders
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Gary
Bredow
«High Tech Soul – The Creation of Techno Music»
DVD Plexifilm, € 23,95

Detroit. A cidade americana
onde se concentra a indústria automóvel foi também a que marcou a fundação
de um novo género de música vocacionado para a noite, a soul electrónica
baseada na manipulação de gira-discos que depois ficou simplesmente
conhecida como techno. Num documentário de Gary Bredow, estrelas locais do
género como Juan Atkins, Derrick May, Kevin Saunderson, Richie Hawtin,
Jeff Mills, Carl Craig e Eddie Fowlkes contam o que aconteceu desde finais
da década de 1980 e avançam com as suas próprias interpretações do que
significou e significa o fenómeno que roubou protagonismo ao jazz e à
Motown como a mais mobilizadora das músicas negras. Entre explicações e
conjecturas, ouvimos e / ou vemos Aux 88, Cybotron, Inner City, Mayday,
Model 500, Plastikman e Rhythim Is Rhythim, entre muitos outros exemplos.
Sabe-se o rastilho que esta identificação de uma música com uma cidade
representou, tanto para o resto dos EUA, com a gradual explosão de outras
cenas metropolitanas, como para o Canadá, a Europa, o Japão. Muito
depressa o novo techno se tornou no padrão das músicas de dança e desbunda
nos quatro cantos do planeta, do Brasil e da África do Sul à Tailândia e à
Islândia, tanto assim que uma expressão musical de natureza afro-americana
ganhou universalidade, e não necessariamente devido às influências do
“imperialismo” cultural yankee. Ainda assim, o “estilo de Detroit”
permaneceu intocável, prova de que “agir localmente” impõe mesmo formatos
ao “pensamento global”. Afinal, a robotização e a informatização das
linhas de montagem automóvel só poderiam ter consequência no imaginário
dos filhos dos operários. Se nos empregos dos pais as máquinas colocavam
em risco os seus postos de trabalho, ou dispensava-os mesmo, porque não
utilizar a tecnologia inteiramente ao seu serviço na música, e não o
contrário? O techno começou por ser um acto simbólico de possessão, é o
que ficamos a perceber com este filme que já tardava.
(22-09-2006)

Gary Higgins
«Red Hash»
CD Drag City, € 16,50

Ora cá está a reedição
que fazia falta e que nos demonstra que a presente febre do free
folk não é tão inovadora quanto se julgava. Sobre este “Red Hash”,
gravado em 1973 e editado pela micro-label Nufusmoon Records, muito
se falava mas poucos tinham ouvido. David Tibet era um acólito,
como aliás a folk psicadélica/industrial dos Current 93 testemunhava,
e Ben Chasny (Six Organs of Admittance) fez uma cover de “Thicker
than a Smokey” que deixou as antenas de muita gente em alerta, mas
pouco mais indicava que esta obra alguma vez tinha visto a luz do
dia, a não ser, claro, e já é muito, a influência que deixou nos
Devendra Banharts que foram despontando dos dois lados do Atlântico.
Exemplares da edição original em vinil ainda são publicitados na
Internet a elevadíssimos preços de coleccionador, mas temos finalmente
este marco histórico em suporte digital, e – boas notícias – com
a mesma capa que nos mostra um Gary Higgins barbudo e ruivo, de
longos cabelos e a aparência hippie própria da época.E com duas
faixas extra totalmente inéditas, “The Last Sperm Whale”, registada
em 1975, e, já datando de 1980 e mais convencional, a canção “Don’t
Ya Know” A designação Red Hash, também o nome do grupo que o acompanhava
e que integrava violoncelo, flauta, bandolim, piano, baixo, bateria
e guitarras (acústica, claro, e eléctrica, tocadas por um futuro
membro dos Silver Apples, Jake Bell), diz tudo sobre o mundo fumarento
em que este cantautor vivia então. Rezam as crónicas, aliás, que
logo após a gravação deste disco Higgins teve de se apresentar às
autoridades para cumprir uma pena de dois anos por posse de haxixe.
Eram para ser mais, mas um bom advogado conseguiu diminuir-lhe o
tempo de cadeia. O tema dedicado à baleia é uma celebração da liberdade
reconquistada, mas a verdade é que no fim da história a que dá voz
a dita morre e este pioneiro saiu de cena, para só agora ser redescoberto.
E de que maneira, com uma agenda de concertos que está a ser a consequência
do sucesso deste álbum essencial da história da música popular americana.
Depois de o ouvir, percebemos melhor o que estão a fazer os Animal
Collective ou os Sunburned Hand of Man. Para que tal acontecesse
e este CD da Drag City visse a luz do dia, houve um homem que se
desdobrou em iniciativas para encontrar Gary Higgins nas listas
telefónicas do Connecticut, enviando cartas a todos quantos tinham
o mesmo nome: Zach Cowie. A sua investigação foi coroada de êxito,
para nossa felicidade e a deste grande músico que os imperativos
da vida (uma família e a sobrevivência) obrigaram a arranjar um
emprego “normal”. Nunca é tarde para voltar...
(26-08-2005)
1. Thicker Than A Smokey
2. It Didn't Take Too Long
3. Windy Child
4. Telegraph Towers
5. I Can't Sleep At Night
6. Cuckoo
7. I Pick Notes From The Sky
8. Stable The Spuds
9. Down On The Farm
10. Unable To Fly
11. Looking For June
12. Don't Ya Know - (bonus track)
13. Last Great Sperm Whale - (bonus track)

Gavouna
«Falling EP»
3"CD LOAF, € 14,50

Com anteriores edições de prestígio, Gavouna (de
nome real Athanasios Argianas) calmamente alcançou reputação na criação de
paisagens sonoras delicadas, e em experiências ambientais introspectivas. Não há
comparação possível para a sua música... Talvez Arthur Russell na sua fase mais
frágil, ou Penguin Café Orchestra... No fundo algo tão frágil para se conseguir
absorver, no entanto imbuído de uma persistente ressonância emocional, raramente
encontrada neste mundo electrónico tão agressivo.
(29-06-2007)
"Widescreen soundscapes" DJ Magazine
"unfathomably warm, heart wrenching orchestral
instrumentation that fuses Aphex Twin's vulnerable side with the measured
emotion of Steve Reich. An absolute wonder." Dummy
"Meticulously hand crafted, delicate precision"
I-DJ
"Heartfelt organic warmth" Jockey Slut
"Incredibly delicate…often dreamlike, gentle
experimental joy" XLR8R
1.
Airs vs 1 
2.
Fools (Detuned Guitar Version) 
3.
Leo & Lydia vs 2
4.
Airs vs 2 
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General Patton/The X-Ecutioners
«General Patton Vs. The X-Ecutioners»
CD Ipecac, €18,90
Aqui está a resposta a
quantos se interrogavam quanto à possibilidade de as improvisações
ao vivo de Mike Patton (o ex-Faith No More e ex-Mr.Bungle que agora
encontramos como “frontman” dos Fantômas e dos Tomahawk) com o trio
de DJs conhecido como X-Ecutioners vir a dar origem a um disco.
Deu mesmo e é um acontecimento, à semelhança do que sucedeu com
o muito aplaudido “California”. O universo em que se insere já não
é o pop-rock, como nesse título que se tornou numa referência de
base, mas o hip-hop, com os scratches de gira-discos que definiram
o género e a actividade daquela “task force” – é assim que gosta
de se apresentar – constituída por Rob Swift, Roc Raida e DJ Total
Eclipse. E não se pense que Patton ocupa a posição convencional
do MC: adiciona teclados, guitarra, baixo, percussão e programações
electrónicas, para além da sua voz, às manipulações de discos de
vinil, e enquadra estas nas molduras distintivas da sua própria
música. Aliás, pressente-se em “General Patton vs. the X-Ecutioners”
a influência de John Zorn, com quem tem colaborado com frequência,
para não falar também na de Frank Zappa: as estratégias de colagem
de situações totalmente diversas e as mudanças abruptas de direcção
assemelham-se bastante às de ambos esses nomes, com a diferença
de que atingem um nível de esquizofrenia sonora e estrutural inédito.
O método de trabalho escolhido
é elucidativo de que este é, sobretudo, um disco de Mike Patton,
e talvez seja por isso que se anuncie, sem quaisquer pruridos, como
“general”. Foi ele quem forneceu a matéria-prima utilizada pelos
X-Ecutioners a partir da sua pessoal colecção de títulos de vinil
e os registos do que estes fizeram foram por ele posteriormente
“tratados” a sós, de uma forma que nos remete para os procedimentos
“cut and paste” de alguma electrónica digital que tem a plunderfonia
e o plagiarismo como marca. É assim que, tratando-se de hip-hop
em termos de filiação, o que esta estranha parceria nos proporciona
ultrapassa as fronteiras do género, indo para zonas de experimentalismo
onde já estavam uns CloudDead ou a recente proposta de Dalek com
os históricos Faust. Altamente recomendado.
(18-02-2005)

Gerard
Malanga
«Up From the Archives» CD
Sub Rosa €
15,50

Conhecida pelos seus preciosos
documentos áudio, a belga Sub Rosa reedita o CD que dedicou em 1999 ao
poeta, fotógrafo, cineasta e performer que esteve ligado aos Velvet
Underground e foi assistente de Andy Warhol, entretanto esgotado. Uma
decisão que se justifica por si mesma, pois trata-se do melhor exemplo do
poliartista dos Sixties, em parte ligado à “beat generation” da década
anterior (ouvimo-lo em “Up From the Archives” a conversar com William
Burroughs) e em parte envolvido com o universo então emergente da Pop Art.
E porque continua activo e actuante e a sua relação com a música se mantém
viva, as leituras que faz de poemas e os seus diálogos com personagens
históricas da (contra)cultura americana (Kerouac, Ginsberg, Corso,
Orlovsky, Mead, Ford, Hartman, Warhol) são completadas com apontamentos
musicais não só de Iggy Pop, um produto dessa época áurea, como também de
Thurston Moore (Sonic Youth), que tem procurado muito especialmente
alinhar a tradição artística do rock com o presente e o futuro, e DJ
Olive, um dos poucos “scratchers” do hip-hop a desenvolver trabalho
experimental com a mesma acuidade daquele proposto nesses tempos de
grandes mudanças em que “helping to advance consciousness” (algo que
Malanga disse a propósito de um dos seus autores favoritos, Ted Roethke)
era o mote. Outro foi assumir a “coragem da descoberta”, ensinamento que
recebeu do artista visual Marcel Duchamp, que aponta como uma influência
decisiva. Aconselhou-o este, em 1963, a escrever poesia sem propriamente a
escrever, utilizando apropriações, um processo que viria também a surgir
na música por meio do “sampling” e dos pratos de DJing. “It came all from
Duchamp”, recorda Malanga, não se verifique o caso de o esquecermos, e o
certo é que muito boa gente não sabe como e quem começou o que fazem. Foi,
de resto, Gerard Malanga dos primeiros a incluir movimento e coreografia
em espectáculos de música e projecção de filmes, com os Velvet e Andy
Warhol, coisa que hoje vai sendo comum mas na altura era uma novidade
absoluta. Recentemente, fez uma leitura dos seus poemas em contexto
electrónico, ao lado de Christian Fennesz, mais uma indicação de como
continua na ordem do dia.
(03-02-2006)
1.
To The Young Model, Name Unknown 
2.
Untitled - (with Iggy Pop)
3.
The Recording Of Couch Dialogue - (with Jack Kerouac/Allen Ginsberg/Andy
Warhol/Gregory Corso)
4.
Cloud Asylum
5.
The Recording Of Couch Dialogue Part 2 
6.
Comissioned By Gerard Malanga For His Film, In Search Of The Miraculous -
(with Peter Hartman)
7.
Library Of Congress- Division Of Music, Washington, D.C., May 28, 1945 -
(with Willard Maas)
8.
The 3rd Avenue El - (with DJ Olive) 
9.
The Life And Death Of A Photograph 
10.
Leaving New York
11.
3 Haiku - (with Charles Henri Ford) 
12.
The Silk Process - (with Paradise Now)
13.
The Young Mod - (with Erwan Szabo)
14.
Discussion Of "Dream", New York, July 21, 1974 - (with William S.
Burroughs) 
15.
Untitled - (with Thurston Moore) 
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Ghost
«Overture: Live in Nippon Yusen Soko 2006»
CD+DVD Drag City, € 16,50

Peça de 56 minutos e só com uma faixa (o que nos obriga a ouvir o CD do
princípio ao fim), "Overture..." tal como o nome indica, é a gravação de um
espectáculo ao vivo dos Ghost na sua terra natal. Pela qualidade da obra, e pela
falta de sons do público, somos levados a pensar que se trata de uma gravação em
estúdio, mas como é habitual nos concertos no Japão, o público só se manifesta
(comedidamente) quando os artistas dão por terminada a sua performance.
Este disco é bem mais experimental que outros álbuns do colectivo, mas muito
interessante também, mostrando que os Ghost se movimentam extremamente bem em
várias áreas musicais. De fora estão os sons rock épicos que mostraram em "Stormy
Nights", esta peça é, em contrapartida, uma 'quiet night' hipnótica, perturbante
mas também electrizante.
Vale bem a pena ver o DVD com o espectáculo.
Uma valente lufada de ar fresco.
(23-11-2007)
1. Overture

Ghost
«In Stormy Nights»
CD/2LP Drag city, € 16,50/€17,50

Entre o acid folk e o noise rock, os japoneses
Ghost lançaram mais um grande disco alinhado com a cartilha psicadélica. Está cá
tudo: baladas (cantadas em Inglês), flautas e percussão “freak”, distorção
guitarrística, electrónica na fronteira com a música concreta, contrabaixo de
jazz. Tudo misturado, e muitas vezes na mesma faixa, as improvisações free
irrompendo próprio formato canção. A condição esquizóide desta música é tão
peremptória que os investimentos musicais exclusivistas é que nos parecem
artificiais. E no entanto, nada a banda de Masaki Batoh faz para esconder o
conflito inerente às associações operadas: não há fusão nem colagem, mas simples
coexistência de direccionalidades. Neste difícil contexto, surpreende que seja
possível dar uma personalidade própria ao conjunto das realizações documentadas
em “In Stormy Nights”, e o certo é que os Ghost nada têm quer ver com outros
exemplos do psicadelismo nipónico, Acid Mothers Temple, Boredoms e Boris à
cabeça. O conflito referido está petente, por exemplo, nas tentativas de
estabelecer uma ordem estruturante à amálgama sonora de algumas passagens do
álbum e na verificação de que nem sempre tal é conseguido, consistindo a sua
mais-valia precisamente nas impossibilidades de conciliação. Exemplar. (23-02-2007)
No CD: 1.
Motherly Bluster

2.
Hemicyclic Anthelion

3.
Gareki No Toshi

4.
Water Door Yellow Gate

5.
Caledonia

6.
Grisaille

No 2xLP: 1. Hemicyclic Anthelion
2. Water Door Yellow Gate
3. Gareki No Toshi
4. Motherly Bluster
5. Caledonia
6. Grisaille
7. Caledonia (Sing Together Mix)
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Ghost
«Metamorphosis: Ghost Chronicles 1984-2004»
CD+DVD Drag City, €18,50

O grupo de rock neopsicadélico japonês que já
foi capa da "Wire" fez no ano passado 20 anos de vida
e esta edição em CD e DVD documenta-os com a necessária
amplitude. A parte áudio recorda-nos o que foram no final
da década de 1980, entre gravações de estúdio
até agora deixadas inéditas, dois "outtakes"
do seu homónimo álbum de estreia, saído em
1990, e improvisações ao vivo, uma delas no metropolitano
de Tóquio. A influência dos germânicos Amon Duul
e até dos brasileiros Mutantes é óbvia na sua
"trance music" que deve tanto ao psicadelismo rock e folk
como à espiritualidade "free" de um John Coltrane.
Os vídeos vão de 1984, com o registo de uma demonstração
a favor da libertação do Tibete em frente à
embaixada da República Popular da China na capital nipónica,
a 2004, com um concerto no americano Star Pine Cafe. E se pelo meio
assistimos a imagens e sons de actuações dos Ghost
em templos vários, não é sem surpresa, dado
o carácter ritualístico da música que desde
sempre vêm praticando, entre o neo-hippismo "freakout"
de que os Acid Mothers Temple também são um estandarte
e a experimentação com base em estruturas estáticas,
numa linha não muito distante do que propõem os AMM
ou os Musica Electronica Viva. Ao longo do tempo muitos músicos
têm entrado e saído do colectivo, como se verifica
consultando as fichas técnicas, mas este é o projecto
pessoal e reiterado de Masaki Batoh, guitarrista/vocalista que toca
também os mais diversos instrumentos de cordas, do banjo
à medieval sanfona, em situações musicais que
cruzam a tradição religiosa japonesa com a vanguarda
e a pop ocidentais. Muita percussão, vozes guturais, estridências
de saxofone, violino, guitarra acústica em versão
"campfire", flautas barrocas e sintetizador analógico
contribuem para as muitas cores desta música que funciona
como um caleidoscópio e uma "trip" sonora pelos
férteis mundos da psique. Magnífico e essencial.
(09-06-2005)

Giant Sand
«Is All Over The Map»
CD Thrill Jockey, €16,99
Estes Giant Sand, de momento, já não são os Giant Sand de Joey Burns
e John Convertino. Da mesma forma que não o eram no início, em 1980
– com Rainer Ptacek e Dave Seeger então ao lado de Howe Gelb. Tudo
porque os Giant Sand nunca foram pensados como uma banda tradicional.
Pelo contrário, e em especial nos últimos anos – em que Burns e
Convertino se ocupam cada vez mais dos Calexico e Howe se tem desdobrado
em colaborações e álbuns a solo -, os Sand são tidos como um pretexto
para juntar velhos e novos amigos em torno de um núcleo capaz de
andar na estrada. E com esse fim, Howe recrutou os mesmo músicos
que o tinham ajudado em «The Listener» enquanto vivia na Dinamarca:
Anders Pedersen, Thoger T. Lund e Peter Dombernowsky. E para equilibrar
um pouco as coisas quis também ter John Parish por perto. Em entrevistas
de promoção a este «Is All Over the Map» tem frisado as características
intrínsecas à sua génese, sustentação e até à forma em como o seu
título serve para reforçar a noção de que os Giant Sand já não têm
propriamente residência física. Pelo contrário, um álbum de Giant
Sand deverá ser suficiente para os fãs perceberem por onde é que
Howe andou nos últimos tempos, com quem esteve e com quem é que
gostou mais de estar. Assim, não deixa de ser curiosa a falta de
cerimónia no anúncio que dá conta das participações neste novo álbum.
Ao terceiro tema temos um dueto com Scout Niblett; em vários, novamente
como em «The Listener», Marie Frank e Henriette Sennenvalt fazem
coros; Vic Chesnutt canta no 13º tema; a voz do pequeno tributo
aos Sex Pistols – 14º tema – é a da sua filha Indiosa Patsy Jean
Gelb; e, por fim, em «Les Forçats Innocents» canta em francês com
a sua própria mulher, Sofie Albertsen Gelb. No geral, passa-se obliquamente
pelo country e blues, mas manobra-se em território imaginado, alimentado
por algumas valsas, polcas, rumbas e muitos km. No fim da viagem
está sempre Tucson e, provavelmente, Nick Luca por detrás de uma
mesa de misturas. Porque é assim o mundo de Howe Gelb: um pouco
como o deserto que envolve a sua casa, permanece selvagem, inesperado
e permeável ao acaso, ainda que, visto de longe, nada de muito importante
lhe pareça estar a acontecer. Há apenas que entendê-lo no seu próprio
espaço e tempo.

The Girls
«Rush» CDEP LOAF, € 7,50

1.
Rush

2.
The Girl From Yesterday

3.
The Girl From Yesterday (Vincent Oliver's Fripp Mix)

4.
Rush (Kid Twist's Beat Down The Upset Mix)
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Githead
«Art Pop»
CD Swim, € 16,50

Constituído por 4 estrelas à medida do cenário
arty que sucedeu à explosão provocada pelo
punk, os
Githead ameaçaram ser apenas uma pequena brincadeira montada em honra a
um evento específico (o 10º aniversário da editora Swim) para, ao 2º álbum, se
tornarem num caso muito sério de talento, equilíbrio, inovação, experiência e
criatividade. «Art
Pop» evidencia tudo isto num condensado musical atractivo e
inteligente!
Vamos às partes: Colin Newman
(inglês) é um músico por demais conhecido entre os cultores atentos da produção
musical punk e
pós punk, tendo passado boa parte da sua
carreira a criar géneros para, de seguida, os questionar com a mesma diligência
e sabedoria. O seu percurso com os insuspeitos
Wire, primeiro, e a solo, depois,
transformaram o músico britânico num elemento respeitável, cuja irreverência
artística sempre parece levá-lo a encontrar novas formas de expressão;
Malka Spigel (israelita), sua mulher,
destacou-se nos
Minimal Compact com o minimalismo do seu baixo e a sua voz
sulfúrica, ajudando a desenhar um conceito de música intelectual que fez escola
na Bélgica e Holanda no decorrer dos anos 80, lado a lado com os inesquecíveis
Tuxedomoon e um conjunto de músicos que ali
encontrou exílio artístico e mesmo político;
Max Franken (holandês) foi o elemento europeu adicionado aos
Minimal Compact
quando se tornou evidente que aquele trio israelita necessitaria de um baterista
que assegurasse o dinamismo dos espectáculos ao vivo; já
Robin Rimbaud (inglês) tem-se ocupado
com o seu projecto a solo, Scanner,
com o qual desenvolve uma apertada relação entre som, ambiente, imagem e forma,
criando música e instalações artísticas que equacionam a tecnologia e as suas interpenetrações com a esfera social envolvente.
Se
«Art Pop» se limitasse a somar os
talentos de cada um dos elementos do quarteto
Githead seria já um disco notável, de eficácia garantida. Mas a sua
busca de movimentos de impulsão criativa que se manifestem em formato musical
consegue burilar os seus talentos individuais, que encontram na conjugação de
esforços a combinação exclusiva que faz deste disco uma peça de joalharia
desenhada com cuidado e rigor, mas também com o brilho próprio dos tesouros
exclusivos.
As vozes de Newman e
Spigel alternam-se ou recombinam-se em
lugares novos e estranhos. As guitarras processadas são o elemento de choque e
ruído, milimétricamente disposto sobre os desenhos electrónicos de
Rimbaud, que sustentam com pormenores
os vapores inundantes que torneiam cada canção, envolvendo-as num veludo suave,
mas desconhecido. Depois há o ritmo. Franken
bate nas peles com a mesma precisão demencial que provavelmente observa nos seus
pacientes, quando no dia a dia troca a bateria pela bata de enfermeiro de
psiquiatria.
Tudo isto combinado eleva
«Art Pop» ao estatuto de
manifesto artístico de alta relevância, em que a encruzilhada de diferentes
expressões e géneros resultam num disco incatalogável, em que os estilhaços de punk, funk, dub, rock, industrial se lambuzam deleitadamente com linguagens
cinemáticas e literárias, originando uma obra decididamente pop, mas
arrojadamente arty.
Pedro Portela in
O Domínio dos Deuses
"Newman seems to have relocated the
combination of sardonic intellectual wit and winning pop song craft that made
Wire such an engaging (and influential) post punk prospect." Andy Gill
in The Independent
"Slyly subversive gems that recall Wire when
they were edging into poppier territory." John Lewis in Uncut
"Gloriously demented" Dave Simpson
in The Guardian
"Simultaneously brooding, lush, aggressive and
lyrical, this is a reclamation of pop and rock music at their most atmospheric
and beguiling." Michael Bracewell in The WIRE Magazine
1.
On Your Own 
2.
Drop
3.
Drive By
4.
Lifeloops
5.
These Days
6.
Jet Ear Game
7.
Space Life
8.
All Set Up
9.
Darkest Star
10.
Rotterdam
11.
Live In Your Head 
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Githead
«Profile»
CD Swim, €16,50

O que esperar de um grupo
que inclui dois antigos membros dos Minimal Compact, Malka Spiegel
e Max Franken, o mentor do grupo pós-punk Wire, Colin Newman, e
Robin Rimbaud, mais conhecido nos meios da electrónica como Scanner,
não com o seu habitual computador mas com uma guitarra eléctrica?
É difícil de imaginar, mas aqui estão eles, oferecendo-nos uma pop
sofisticada que funciona como uma espécie de "PIL meets Neu!".
De facto, o baixo industrial/funky de Spiegel parece vir directamente
de "Metal Box", da banda de Johnny Lydon, e os saltitantes
ritmos e atmosferas deste desconcertante álbum lembram "Hallogallo"
ou até "Neu!2". Do anterior EP "Headgit" vem
o surrealismo das letras, "cadáveres esquisitos" com pouco
sentido imediato retirados de revistas e "spam" disseminado
por e-mail, apontadas pelos Githead como "detritos da vida
dos nossos dias", mas se a estreia discográfica do projecto
incluía dois temas instrumentais (influência de Rimbaud?), o que
agora encontramos são canções "tout court". A atitude
tem tudo a ver com o punk e o tratamento dos sons deve muito às
coordenadas por que se rege o ambientalismo e a electrónica "dub",
mas é inútil procurar influências de qualquer das outras actividades,
presentes ou passadas, dos músicos envolvidos, a não ser talvez
os primeiros discos a solo de Newman nos anos 1980. Os créditos
vocais vão principalmente para este, mas mais uma vez o músico britânico
faz questão de não ser possível comparar estes seus desempenhos
com os que vem desenvolvendo no seio dos Wire. Se nada há em "Profile"
de verdadeiramente inovador, o mais não seja porque ainda há muito
a fazer com as coordenadas em circulação, este disco é uma autêntica
lufada de ar fresco no panorama "indie". Pelo simples
motivo de que baralhou as cartas e tornou a dar.
(13-05-2005)
1.
Alpha 
2.
My Lca (Little Box Of Magic) 
3.
Cosmology For Beginners 
4.
Antiphon 
5.
They Are 
6.
Option Paralysis 
7.
Wallpaper 
8.
Raining Down 
9.
Pylons 
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Gnac
«The Arrival of The Fog»
CD
LTM, € 15,95

Este é o quinto álbum de estúdio do projecto Gnac, da autoria de Mark Tranmer, a
outra metade dos Montgolfier Brothers. O álbum centra-se em dez novas peças
instrumentais gravadas em Tóquio, Osaka, Wollongong e Hebden Bridge entre
Outubro de 2006 e Maio de 2007. Ao invés de discos anteriores, "The Arrival of
The Fog" possui uma estrutura bem mais rica a nível instrumental, não só com o
piano a marcar presença mas também instrumentos de cordas, e alguma tímida
electrónica. Esta riqueza instrumental dá origem a melodias fílmicas, com uma
forte característica melancólica, por vezes influenciadas por ilustres como os
compositores de bandas sonoras John Barry e François de Roubaix, por outras por
Vini Reilly ou Georges Delerue.
(21-12-2007)
1.
Arrival Of The Fog

2.
Nautical Episodes

3.
Japanese Fiction

4.
Vetchinsky Backdrop

5.
Vertical Features

6.
Horizontal Happiness

7.
Winter Circus

8.
What To Make Of Jagged Graphs

9.
Examples Of Bad Driving

10.
Cliques And Clusters

11.
Bright Days In Winter

12.
Winter Blanket
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Ouros títulos
disponíveis:

Great Lake Swimmers
«Bodies and Minds»
CD Fargo Records, €16,50

Gravado numa igreja (a
St. Theresa's Church de Ontario, no Canadá), mas sem pretensões
religiosas (mesmo quando se trata a busca de transcendência espiritual),
"Bodies and Minds" centra a acção na voz de Tony Dekker
e nas cordas dedilhadas (guitarra clássica, guitarra eléctrica,
banjo, lap steel, tocados pelo próprio Dekker e por Erik Arneson
e Sandro Perri), associando-lhes um piano, uma discreta bateria
e por vezes o instrumento mais simbólico da folk, a harmónica. Numa
das faixas ("Falling Into the Sky"), participam os London
Ontario Community Singers, mas tudo decorre de forma leve e despida
de ornamentações excusadas. O canto é sensual e ligeiro, mesmo quando
o tema é a depressão maníaca, e se o ouvinte reconhecer inflexões
dos Love, de Nick Drake e de Neil Young via Will Oldham não se engana,
pois é esse o mundo habitado por esta música inserível na presente
vaga dos "cantautores". A nostalgia do campo é mesmo um
dos temas escolhidos, e não se admirem se uma canção falar de anjos
("Song for the Angels"): os Great Lake Swimmers acreditam
mesmo em poderes superiores ao humano. As letras não são letras,
mas poesia na verdadeira dimensão do termo (um exemplo: "Breathing
this poison, alive but near death / Under the water and holding
my breath / But we were made to drink in the earth / Its rivers
and gutters and mountain of worth"). Tony Dekker já o esclareceu:
"Tento ser o mais directo que posso, com os termos mais simples
que encontro." Está tudo dito.
(22-04-2005)

Gregor
Samsa
«55:12»
CD Own Records, €
15,95

Gregor Samsa: é assim que se chama a
personagem de “A Metamorfose” (Kafka) que numa terrível manhã acorda para
se descobrir transformado numa enorme barata. É também o nome de um grupo
de Richmond, EUA, que despertou para o rock “de câmara” com um som
canadiano que nos remete imediatamente para Godspeed You! Black Emperor, A
Silver Mount Zion, Tra-La-La Band e demais feitores do estilo
Constellation, somando-lhe ainda alguma coisa da Islândia (Sigur Ros,
Múm). “Vacuous mindscapes” é uma das muitas tentativas de definição já
utilizadas para caracterizar este tipo de abordagem que concilia a
distorção das guitarras eléctricas e os vocais ganzados com o
neo-classicismo das cordas de arco, mas se o primeiro dos grupos referidos
tem ambições épicas e as suas peças consistem usualmente em ascensões
sonoras seguidas de implosões quando chegam lá acima, os Gregor Samsa
desenvolvem as suas tramas cá por baixo, enchendo o ar com cores sem nunca
necessitarem da espectacularidade do fogo-de-artifício. Aliás, as suas
vozes sussurrantes e até “de cama” (parecendo, de resto, referir-se menos
a Kafka e mais a Philip Roth, autor de um conto kafkiano em que um homem
se transforma numa mama) são mais langorosas do que outra coisa,
convidando à horizontalidade e não propriamente a transportar bandeiras.
(27-04-2006)
1.
Makeshift
Shelters
 2.
Even Numbers
3.
What I Can Manage  4.
Loud and Clear
 5.
These Points
Balance
 6.
Young and Old
 7.
We'll Lean That Way Forever  8.
Lessening
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Grizzly Bear
«Yellow House»
CD Warp, €16,95
1.
Easier

2.
Lullabye
3.
Knife
4.
Central And Remote

5.
Little Brother
6.
Plans
7.
Marla
8.
On A Neck On A Spit

9.
Reprise
10.
Colorado

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Gudrun
Gut
«I Put a Record On»
CD Monika Enterprise, € 15,95

Gudrun Gut: -realizadora do programa de rádio "Oceanclub
Radio" da Radio Eins de Berlin; -label manager da etiqueta Monika
Enterprise; -popular DJ, frequentemente em tournée por todo o mundo; -e
ainda artista que consegue gravar álbuns; é obra! Um dos membros fundadores das
lendárias Malaria!, Maria D. e Matador, Gudrun Gut não dorme em serviço, e não é
por ser hiper-activa, está sim na sua natureza. Com toda esta actividade, é
incrível como "I Put a Record On" é o seu álbum de estreia a solo. Ao longo do
álbum é criada uma atmosfera delicada, e ainda que os temas sejam extremamente diferentes
entre si, esta atmosfera nunca é quebrada. Dentro dos parâmetros da música
electrónica, Gudrun aproxima-se por vezes do techno-pop, outras de ambiências
experimentais, outras ainda por melodias mais negras e obscuras, mas sempre com
uma componente quase hipnótica, puxando-nos para um estado de torpor definitivo.
De temas como a genial versão do original dos Smog "Rock Bottom Riser" (aqui com
a colaboração de Matt Elliott), a "Move Me", um cruzamento de Polka e Tango, e
que causou boa impressão não só à revista Wire como a Martin Gore, "I Put a
Record On" é uma pedrada no charco, uma obra-prima (a primeira de muitas,
esperamos) de uma artista que ainda não mostrou tudo aquilo que vale.
(25-05-2007)
1. Move Me 
2. Rock Bottom Riser 
3. The Land 
4. Cry Easy 
5. Girlboogie 6 
6. Blätterwald 
7. Last Night 
8. Sweet 
9. Pleasuretrain 
10. The Wheel 
11. Tip Tip 
Vídeo "Celle"
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Guided
by Voices
«The Electrifying Conclusion»
DVD Plexifilm, €
23,95

Para os saudosistas, os
coleccionadores e todos aqueles que cultivam o sentido histórico, “The
Electrifying Conclusion” é o documento audiovisual do último concerto dado
pelos Guided by Voices. Aconteceu na Metro de Chicago, quando corriam as
primeiras horas de 1 de Janeiro de 2004 – para ser mais exacto, quatro,
tantas quantas as que tocaram nesta despedida, o equivalente a 65 canções.
A introdução é difícil de acompanhar, com fotos de várias épocas deste
grupo de longa existência (mais de 20 anos!) intercaladas com imagens de
flores e borboletas e um sintetizador a confirmar que se trata de um
requiem, mas depois dos longos minutos de excusado sentimentalismo é o
mais próximo que há da música ao vivo o que temos, e sem particulares
cuidados de edição e montagem, transmitindo-nos toda a verdade de um
concerto rock (deliciosa, a forma como a câmara acompanha o vocalista
Robert Pollard quando este larga o microfone para ir beber shots de
tequila ao bar montado num canto do palco, temperando a cerveja que volta
e meia o vemos a emborcar). E levaram vários antigos membros do grupo e
alguns convidados e amigos, como Matt Sweeney (Zwans) e Jon Wurster
(Superchunk), entre outros. As actuações ao vivo dos GBV eram famosas por
arrancarem com muita energia e objectividade, ganhando gradualmente ao
nível da performance o que perdiam de coerência musical conforme as
garrafas iam ficando vazias. Neste, as coisas não se passaram exactamente
do mesmo modo, dadas a longa experiência etílica e a mestria instrumental
acumuladas, mas há quem quase coloca a toalha aos ombros e desista: Nate
Farley, um dos guitarristas, tão embriagado que já quase não consegue
tocar. A idade, decididamente, não perdoa. E o certo é que Pollard, mentor
dos GBV e o único que restou da formação original, já não era nesta altura
o que foi noutros tempos, com o seu cabelo grisalho e uma barriga de
cevada fermentada a acusar que se tornou num quarentão. O cansaço é
visível no seu rosto e em algumas posturas, mas o certo é que nunca
esmorece. Quem esteve presente nesta passagem de ano ficou na memória com
um dos melhores momentos dos homens que ouviam vozes e quem adquirir este
DVD guardará em casa o registo de uma das mais emocionantes celebrações
que o rock and roll já teve.
(24-03-2006)

Guitar
«Tokyo»
CD Onitor, € 18,95
Justificando o título que tem, o novo álbum de
Michael Luckner sob o nome Guitar é para a música tradicional japonesa o que o
seu anterior “Honeysky” foi para o country e para o bluegrass da América
“hillbilly”, com o koto e a pipa no lugar do banjo e da guitarra de cordas de
aço, apresentando os mesmos envolvimentos electrónicos e um agitado “beat” de
dança a suportar cada construção. Guitar porque no centro do trabalho de Luckner
estavam as guitarras, eis que o músico alemão abre o âmbito do projecto a outros
instrumentos de cordas dedilhadas, mas sempre passando-os pelo crivo do
“sampling”. Já a voz de Ayako Akashiba surge, regra geral, em reprodução directa
e ligando os dois mundos desta música que dá uma perspectiva cibernética à
ancestralidade nipónica, algo que, aliás, a modernidade daquele país convida a
fazer. A ideia é simples e até óbvia, os resultados são assaz curiosos. E que
distância percorreu já este músico relativamente à sua influência maior quando
arrancou, o grupo My Bloody Valentine...
(29-09-2006)
1.
Sunday Afternoon At Tamagawa River

2.
Naoki

3.
Red & White

4.
Tokyo Memory

5.
Ayako

6.
Wash Me Away

7.
Akiko

8.
Sakura Coming

9.
Maki

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os temas

The Gun Club
«Miami»
«Dance Party»
«The Las Vegas Story»
todos CD Sympathy For The Record Industry, €14,50
Do final dos anos 70 até
à sua morte em meados da década de 90, Jeffrey Lee
Pierce foi figura de proa de uma das mais lendárias bandas
de rocknroll dos últimos 20 anos, os Gun Club.
Pierce viveu no fio da navalha conforme os mandamentos do rock,
ajudando a construir uma aura única em torno dos Gun Club
que, por onde passavam, iam arrasando palcos e multidões,
valendo-lhes em pouco tempo a admiração de muitos
e o estatuto de one of the best live acts ever. Por
cá podemos testemunhar uma das últimas das várias
incarnações da banda, numa fugaz passagem pela antiga
sala do cinema Império, já em inícios de 90.
A banda foi ainda responsável por um punhado de discos que
estiveram sempre mais ou menos disponíveis, à excepção
do tríptico essencial composto por «Miami», «Death
Party» e «Las Vegas Story», os três agora
oficialmente reeditados através da Sympathy For The Record
Industry. Há mais de dez anos sem uma edição
oficial em CD, «Miami» de 1982, é o difícil
sucessor do celebrado «Fire Of Love». Chris Stein dos
Blondie, assegura uma produção cristalina e Debbie
Harry (sob o pseudónimo de D.H. Lawrence) insinua-se por
detrás da voz de Pierce em grande parte do álbum.
Poucos meses depois, então novo formato, os recém
reformulado Gun Club assinavam «Dearth Party», mini-álbum
que contava com as participações de Dee Pop dos Bush
Tetras e Jim Duckwood dos Panther Burns. Na presente reedição
são ainda adicionados 7 faixas gravadas ao vivo em Março
de 1983 para uma estação de rádio suíça.
Poucos meses e uma nova formação depois, agora com
um Kid Congo Powers e Patricia Morrison, a banda lançam «Las
Vegas Story». Aqui para além de um série originais
incandescentes dignos do melhor Gun Club e as versões de
«The Master Plan» de Pharoah Sanders e «My Mans
Gone Now» de George Gershwin. Três aguardadas reedições
que vêm reacender a (não extinta mas há muito
baixa) chama em torno desta banda de culto.

Gush
«Norrköping»
CD Atavistic, € 15,95
Fala-se no diabo e eis
que ele aparece. Os Gush são o grupo exclusivamente sueco do saxofonista
Mats Gustafsson (em “Norrköping” também flautista,
apesar de tocar as flautas em dó e alto com uma embocadura e uma
palheta de saxofone, surgindo igualmente com o flageolet, um híbrido
com pelo menos três séculos de existência entre o clarinete e a
flauta barroca). Conhecido pelo seu free jazz musculado e tocado
com uma atitude punk e por, volta e meia, fazer incursões menos
previsíveis, como as suas parcerias “noise” com os Sonic Youth ou
as colaborações em duo com David Grubbs, estas em terreno do mais
puro minimalismo à La Monte Young e Tony Conrad, o colectivo que
vem mantendo com o pianista Sten Sandell, que tem um percuso paralelo
de reinvenção das coordenadas do art rock, e com o percussionista
Raymond Strid acaba por incluir outros aspectos que não apenas os
da tradição free – o pianismo de Sandell, aliás, evidencia grandes
recursos da linguagem “clássica” contemporânea. Neste disco gravado
ao vivo na cidade que lhe dá nome, a música, apesar de enérgica,
tem mesmo uma elegância “composicional” (trata-se de improvisações
livres, bem entendido) que não é de regra encontrar entre os actuais
continuadores da estética “new thing”. Uma coisa é certa: aqui não
encontramos os elementos bop que os praticantes do free jazz ligam
por estes dias aos postulados de Ornette Coleman e dos Art Ensemble
of Chicago. Tudo é muito mais abstracto e “in your face”, e se falta
a melodia, convenção musical a que ainda aderem os “free boppers”,
a criação de atmosferas (influência indirecta da escola ambientalista?)
é uma constante. Acham estranho? Mas porque não haveriam o jazz
e a improvisação de se tornar ambientais, depois de tal já ter acontecido
com o rock e com a chamada “new music” experimental?
(14-10-2005)
1.
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«What Is Here For?»
LP A Silent Place, € 15,95 |
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