[home: crítica]

HyperCounter

  Pág.1(A-D)--Pág.2(E-I) Pág.3(J-N)--Pág.4(O-S)--Pág.5(T-Z)   UPD 20071228   info@ananana.pt
 

Earth
«Hibernaculum»
CD+DVD/2LP Southern Lord, € 19,95/€ 17,50

Já com uma longa discografia que se estende por inúmeros anos (desde 1990, ano da sua formação), os Earth, ou melhor, o guitarrista Dylan Carson, lançam agora "Hibernaculum", uma edição especial em CD e DVD. O CD inclui novas versões de três velhos clássicos agora refeitos completamente com uma nova lavagem, bem como o tema “A Plague of Angels”, anteriormente apenas disponível num raro máxi de 12" em parceria com os Sunn0))).
Como já vem sendo habitual, a sonoridade gira à volta dos 'drones', colando-se por vezes ao rock ou ao metal mas mantendo sempre a identidade experimental a que já estamos habituados de clássicos anteriores.
O material do segundo disco (DVD) é um documentário sobre os Earth filmado por Seldon Hunt.
Esse filme é uma rara peça e a única existente dos Earth desde o ressurgimento do projecto por Dylan Carson em 2000.
Tal como acontecera no excelente "Hex: Or Printing in the Infernal Method" de 2005, Dylan foi buscar outra vez a mesma formação, mantendo assim o nível de qualidade desse álbum: Adrienne Davies na percussão,  Don Mcgreevy e Jonas Haskins nos baixos, Steve Moore nos teclados e metais e Greg Anderson (Sunn 0)))/Thorr's Hammer/Goatsnake) acrescenta sonoridades subsónicas através do seu sintetizador analógico em “Ouroboros is Broken” e “Coda Maestoso in F (Flat) Minor”. Tal como "Hex...", "Hibernaculum" permanece estranho mas atraente, mantendo a pesada áurea negra típica dos Earth.

(
25
-05-2007)

CD:
1. Ouroboros Is Broken
2. Coda Maestoso In F (Flat) Minor
3. Miami Morning Come Down
4. A Plague Of Angels

DVD:
1. Documentário incluindo entrevistas e material ao vivo (filmado por Seldon Hunt)

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Earth
«Hex: Or Printing in the Infernal Method»
CD Southern Lord, € 17,
50

Não é muito habitual: com apenas quatro álbuns, o grupo de Dylan Carlson tornou-se em objecto de culto e de lenda, mais amplificado ainda pelo facto de um outro grupo, os Sunn0))), ter dedicado a sua existência e a sua própria música a homenagear os Earth, com um sucesso que roça igualmente o estatuto de fenómeno. Nove anos depois do último título saído para os escaparates, eis que surge “Hex: Or Printing in the Infernal Method”, com uma nova baterista, Adrienne Davies, e uma mudança de trajectória que os afasta ainda mais das coordenadas do metal e até, surpresa!, do “drone rock” de que foram os precursores. Decididamente, o “guitar anti-hero” que Carlson é não se contenta com vindimar em chão já desbravado, colhendo simplesmente os frutos do trabalho realizado antes. Ainda que com as mesmas políticas de redução ao máximo das batidas por minuto e de repetição cíclica dos mesmos motivos (leia-se: “riffs”), os novos Earth mergulham fundo na tradição rural do rock and roll e vão buscar inspiração nos blues negros e na Americana. Até um banjo ouvimos neste disco que transpira Blind Lemon Jeferson e Charley Patton por todos os poros, com o uso parcimonioso do “bottleneck” a somar-se às estratégias de distorção e “feedback”, e em muitos casos até a substituí-las. Depois do doom metal, aqui temos o doom blues. Como escreveu um crítico a propósito, “Hex...” não reinventa a roda, mas faz com que esta circule mais devagar. A atracção pelo imobilismo é compensada pela densidade. Estas paisagens a preto-e-branco são tão espessas quanto o torpor de um heroinómano que não consegue manter os olhos abertos enquanto arruma os carros do dia-a-dia.
(04-11-2005)

1. Mirage
2. Land of Some Other Order
3. The Dire and Ever Circling Wolves
4. Left in the Desert
5. Lens of Unrectified Night
6. An Inquest Concerning Teeth
7. Raiford (The Felon Wind)

8. The Dry Lake
9. Tethered to the Polestar

 

Earth
«Legacy of Dissolution - Remixes»
CD No Quarter, € 17,95

O doom / drone metal tornou-se sinónimo de Earth, e mesmo os mais conhecidos praticantes desta modalidade por estes dias, os Sunn 0))), têm o cuidado de anunciar o seu alinhamento estético com a banda de Dylan Carlson. Um alinhamento que já ultrapassa a própria tribo metálica, como verificamos nesta colectânea em que Mogwai, Russell Haswell, Jim O’Rourke, Autechre e Justin Broadrick, ou seja, músicos e grupos da electrónica e do pós-rock, se juntam aos referidos Sunn 0))) na remixagem dos sons daquela formação de culto que adoptou o primeiro nome dos Black Sabbath. E se a música dos Earth já era pesada, lenta e tendencialmente abstracta, nestas leituras torna-se numa matéria multiforme mas extremamente densa em que o som ganha primazia sobre a forma, com os “riffs” remanescentes a boiarem como náufragos num mar de detritos. O mais curioso ainda é que tais versões não correspondem ao que habitualmente esperamos de cada um dos nomes envolvidos. “Coda Maestoso in F Minor” está tão longe das polirritmias digitais dos Autechre quanto seria possível imaginar, funcionando até como uma ode dos mesmos ao rock, género que nunca praticaram. Em “Tibetan Quaaludes (Waveset Sloth Mix)”, Haswell não é, apesar de tudo, e designadamente da inquietude transpirada por este tema, tão radical quanto nas realizações “hardcore” a que nos foi habituando e O’Rourke é quase “lírico” (passe o exagero) no modo como remistura o lendário trio, parecendo construir uma ponte entre o universo fantasmagórico e brutalista dos Earth e o relativamente suave ambientalismo “noise” que tem ganho as suas preferências quando não segura uma guitarra acústica nas mãos. La Monte Young, Charlemagne Palestine e Tony Conrad estavam longe de adivinhar que a sua “drone music” da década de 1960 iria encontrar-se com o heavy metal e resultar em algo como os Earth têm feito, assim como o próprio Carlson (e, já agora, Stephen O’Malley e Greg Anderson, dos Sunn 0))) nunca poderia prever que o que fazem interessaria às facções mais experimentais da música contemporânea. Tudo está em fluxo, como se vê.
(02-09-2005)

1. Teeth of Lions Rule The Divine (Mogwai)
2. Tibetan Quaaludes (Waveset Sloth Mix) (Russell Haswell)
3. Thrones and Dominions (Jim O'Rourke)
4. Coda Maestosa in F(flat) Minor (Autechre)
5. Harvey (Justin Broadrick)
6. Rule The Divine (Mysteria Caelestis Mugivi) (by SUNN O))))

 

Ed Motta
«Dwitza (Digipak)»
CD Whatmusic, €17,50


A paixão do cantor brasileiro Ed Motta pelo jazz é antiga e dela nos fomos apercebendo ao longo da sua discografia, mas só agora venceu tudo o mais. Depois dos álbuns pop "Manual Prático para Festas e Afins Vol. 1" e "As Segundas Intenções do Manual", eis que "Dwitza" nos chega com uma música instrumental (e instrumental na medida até em que, na maior parte das faixas, a sua voz funciona como um instrumento mais, a nível do "scat" e do "vocalising") temperada pela soul (o seu outro amor) e o samba natal, sim, mas concebida e tocada à imagem do jazz da década de 1960 - o que explica, inclusive, a omnipresença de um Fender Rhodes, o rei dos pianos eléctricos. Herbie Hancock é mesmo uma referência constante deste álbum em que o igualmente guitarrista e teclista salda as contas com as músicas que ama. Além dos géneros já referidos, outros sons, como a música de cinema, as canções da Broadway, os blues, o rock, a "chanson française" e até a clássica. Nesta mistura, mesmo o samba-jazz que abraça não é "chapa 5": "Parece mais os Amon Duul tocando samba, uma coisa toda esquisita", esclarece. Diga-se para vossa melhor compreensão que Motta é um coleccionador de discos (numa sua recente tournée pelo Japão comprou nada menos do que 800, de vinil!!) e que conhece tudo, ou quase, o que se fez e vai fazendo em várias áreas da produção musical planetária, com claro destaque para as obras mais antigas, de carácter histórico. Conhece de ouvir e quer ele próprio praticar: "Gosto de me comparar com Frank Zappa neste ponto, ele num disco fazia música erudita, em outro free jazz, depois parodiava o rock dos anos 50... A linha é não seguir linha alguma." E porque assim pensa, uma próxima aventura a que quer meter ombros é fazer algo que soe como os Thin Lizzy, rock de guitarras com vocais gritados. E com certeza que esse disco de hard rock terá um cheirinho de jazz, de Motown e de Brasil, como este de jazz exala vapores de outras proveniências.
(24-06-2005)

 

Edith Frost
«Calling Over Time»
«Telescopic»
«Wonder Wonder»
CD's Drag City, € 16,
50


Algures entre a folk psicadélica e o rock “indie”, com salpicos de country pelo meio, o que Edith Frost nos oferece já tem sido denominado como “sadcore”, mas não se pense que os seus discos são a reiteração da mensagem típica dos depressivos contemporâneos, tipo “que-pena-eu-tenho-de-mim”. A tristeza dela é a própria de uma texana que não se conforma com o estado a que o seu país e o mundo chegaram, isto a um nível subliminar, pois mensagem política imediata écoisa que as suas canções não têm. Ocupam-na mais as questões existenciais experimentadas na primeira pessoa do singular com a ideia de que todos nós passamos pelo mesmo, ou seja, aquelas que acabam por ser as mais importantes e estão na base do discurso político, ainda que as ideologias tendam a alienar-se desses fundamentos. A Drag City reeditou três dos seus mais importantes títulos, cada um revelando uma faceta distinta da sua música, “Wonder Wonder” mais “straightahead” em termos estilísticos, apesar de Steve Albini se sentar na mesa de mistura, “Telescopic” com a omnipresença de uma guitarra eléctrica que roca e rola sem complexos, e “Calling Over Time” lembrando o melhor dos Cowboy Junkies, acústico, elementar no que à produção diz respeito, se bem que cuidado, e com as participações de Jim O’Rourke e David Grubbs a fazerem-se sentir no produto final, além das de outros músicos de Chicago de nome feito, como Sean O’Hagan, dos High Llamas. Para além da elegante escrita de canções, muito do que estes álbuns têm de bom passa pela voz de Frost, que mais do que sensual é sexual, embora de forma absolutamente nada afectada. Esta é uma voz que respira e tem uma dimensão especialmente humana, natural, confidente e até frágil, o contrário precisamente da voz pop típica, que é artificial e tão incapaz de sinceridade quanto um vendedor de automóveis em segunda mão. Uma voz, em suma, que reflecte a complexa personalidade de uma jovem mulher que já foi programadora de Internet e que esteve envolvida com uma comunidade on-line de “cowgirls”, assim se verificando que entre vacas e campos de milho e a realidade virtual há hoje mais de comum do que se poderia imaginar. Nota: o tema "On Hold" de "Telescopic" está incluído na banda sonora do filme "Alta Fidelidade", com John Cusack.
(19-08-2005)

Calling Over Time:

1. Temporary Loan
2. Follow
3. Calling Over Time
4. Denied
5. Pony Song
6. Too Happy
7. Wash of Water
8. Shadows
9. Thine Eyes
10. Give Up Your Love
11. Albany Blues

Telescopic:
1. Walk On The Fire
2. On Hold
3. Light
4. The Very Earth
5. You Belong To No One
6. Telescopic
7. Falling
8. Bluish Bells
9. Through The Trees
10. My Capture
11. Tender Kiss
12. Are You Sure?

Wonder Wonder:
1. True
2. Cars and Parties
3. Who
4. Wonder Wonder
5. Hear My Heart
6. The Fear
7. Dreamers
8. Further
9. Merry Go Round
10. Easy To Love
11. Honey Please
12. You’re Decided
 

Edith Frost
«It's a Game»
CD/LP Drag City, € 16,50/12,
50


A mesma Edith Frost que no seu blog escreve sobre a sua vida com uma frontalidade que tem provocado algum desconforto entre amigos e admiradores é a que reencontramos neste disco cujas letras a propósito dos altos e baixos das relações amorosas e dos bons e maus sentimentos são escalpelizados com uma desarmante honestidade. Autora de canções entre a folk e o country, se bem que com um travo pop e um tratamento composicional que tem algo de música de câmara, o que desde logo se destaca é a sua voz de menina, mesmo em "torch songs" como "Lucky Charm". Quatro anos se passaram desde "Wonder Wonder", o álbum anterior, e pelo que se ouve não foram quatro anos de secura criativa. Antes pelo contrário: Edith parece mesmo estar em apuro de forma, embora confessando que agora faz as coisas mais lentamente do que noutros períodos mais agitados da sua actividade musical. Não porque tenha menos certezas do que quer fazer, mas precisamente porque a maturidade conquistada a leva a compor com mais cuidados. E se continua a fazer canções tristes, algumas das que integram "It's a Game" denunciam alguma revolta. Seja como for, a maior parte delas contrariam quem achar que ela se resignou perante as dificuldades da existência. Do mesmo modo, não adequam às expectativas de quantos prefeririam vê-la amarrada a um só estilo: "Não quero que chamem country, country alternativo, rock ou folk à minha música. Os fãs desses géneros ficarão com certeza desapontados se comprarem os meus discos, pois não são discos rock, nem folk, nem country", disse numa entrevista. Esta rebeldia face aos rótulos valeu-lhe já a colaboração de gente que lida igualmente mal com alinhamentos exclusivos, como Jim O'Rourke, David Grubbs, Sean O'Hagan (High Lamas), Rick Rizzo (Eleventh Dream Day), Neil Hagerty (o ex-Royal Trux e ex-Pussy Galore), Robert Wyatt, Mark Eitzel (American Music Club), Chan Marshall (Cat Power) ou Laetitia Sadier (Stereolab). Grandes amigos para uma grande cantora...
(11-11-2005)

1. Emergency
2. It's a Game
3. What's the Use
4. Mirage
5. Playmate
6. My Lover Won't Call
7. Lucky Charm
8. Larger Than Life
9. Just a Friend
10. If It Weren't for the Words
11. Stars Fading
12. Good to Know
13. Lovin' You Goodbye

 

Editors
«The Back Room»
CD Kitchenware, € 17,95

1. Lights
2. Munich
3. Blood
4. Fall
5. All Sparks
6. Camera
7. Fingers In The Factories
8. Bullets
9. Someone Says
10. Open Your Arms
11. Distance

 

Efterklang
«Tripper»
CD Leaf, €16,00

O quinteto Efterklang conta com alguns membros dos Sígur Rós e isso nota-se. O envólucro é dado pela electrónica, mas estamos perante um pós-pós-rock que inclui instrumentos de sopro, vozes e até dois elementos do Amina String Quartet, companheiro de percurso daquele grupo islandês. Ao todo, estão cerca de 40 músicos envolvidos. Sonoridades digitais e acústicas abraçam-se constantemente, pelo que, quando parece termos encontrado uma situação de paisagismo abstracto algo semelhante às de Oval, tudo muda para um cenário neoclássico ou de contornos mais pop. Em “Tripper”, os Efterklang (que quer dizer “resonância”) conseguem mesmo a proeza de tornar belo o que é sombrio e até funéreo, em tudo se assemelhando a forma e o conteúdo desta obra a um requiem à maneira de Arvo Part. “Collecting Shields” é bem um exemplo destas combinatórias, com um coro e um trio vocal solista a sublinhar a ambiência celebratória e até religiosa do conjunto , enquanto as repetições do piano sugerem o minimalismo de Philip Glass. A escola minimalista americana é, inclusive, um pilar sobre que assenta a música deste colectivo: “Tehillim”, de Steve Reich, sobrevive no modo como os padrões instrumentais e vocais vão sendo conjugados ao longo do disco. O papel da percussão é entendido da mesma forma que com os Múm e o trabalho das cordas tem similaritudes com os Godspeed You! Black Emperor que são tudo menos uma coincidência, mas não se pense que os Efterklang se limitam a realizar pastiches das suas preferências auditivas; antes procuram delinear em definitivo um espaço que a pouco e pouco foi surgindo entre famílias musicais, um espaço que valoriza especialmente a harmonia, a diversidade tímbrica e das cores, a associação de elementos pop e experimentais e um estilo que é indubitavelmente nórdico. O objectivo parece cada vez mais óbvio: tentar reproduzir as auroras boreais no plano sonoro, ainda que sem o pretenciosismo do rock progressivo de há 30 anos. Se a escala em que actuam é grande, por momentos até quase sinfónica, têm uma óptima noção de medida e sabem que não é preciso usar tudo de uma só vez.
(06-05-2005)

1. Foetus
2. Swarming
3. Step Aside
4. Prey And Predator
5. Collecting Shields
6. Doppelganger
7. Tortuous Tracks
8. Monopolist
9. Chapter 6

 

Eglantine Gouzy
«Boamaster»
CD O/S/A/K/A Recordings, € 15,9
5

Tendo colaborado no primeiro volume da série "4 Women No Cry", da etiqueta de Gudrun Gut Monika Enterprise, Eglantine Gouzy volta à carga agora com um álbum de originais. Residente em Paris, Eglantine faz uso da voz na sua própria língua mas também em inglês. Com a sua voz frágil e melódica as suas criações pop electrónicas fazem-nos lembrar umas vezes Bjork, outras Joanna Newsom ou CocoRosie, mas a vertente instrumental é bem mais arrojada, e não encontramos qualquer comparação possível. "Boamaster" é mais uma grande surpresa desta editora irlandesa tão versátil e peculiar.
(05-10-2007)

“....I love her voice” Music for Robots

"Here’s one more for the revolution! Recommended." Boomkat

“This one is a winner” Popmatters

"A beautifully arranged series of cuts" Smallfish

“A great show of new talent” Velvet Grooves

“It’s gorgeous poppy electro stuff” Sigla

“Adorable” Plan B magazine

1. Eglantine Longe
2. Cuckoo
3. Cowboy
4. Boa
5. A Gnome
6. Sante
7. Attention
8. Nurse
9. Strada
10. Tout L'an
11. Zone A
12. Come Back
13. 12H12
14. Pygmy

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Eight Frozen Modules
«Crumbling and Responding»
CD G25/Very Friendly, € 17,50


Entre o digital hardcore e uma versão desconstrucionista do dub, com outras situações a emergirem quando menos se espera, como o experimentalismo xenakiano de "Corteme" e o ambientalismo "dark" de "If You Only Knew", o projecto Eight Frozen Modules é neste disco o exemplo acabado de esquizofrenia sonora, instabilidade rítmica e rebeldia face aos formatos musicais estabelecidos, a começar pelos da dança. Apesar de promoverem a libertação dos corpos, estes ganharam regras excessivamente definidas, por vezes como se se tratasse de dogmas religiosos, sendo acusados de heresia os que se atrevem a desviar-se um milímetro que seja do evangelho. Se assim é,."Crumbling and Responding" surge-nos como obra do demónio, pois são muitos os milímetros (centímetros, decímetros, metros até) calcorreados no esforço de se distanciar das novas tradições musicais do planeta techno. A capa oferece-nos uma visão pós-apocalíptica de uma cidade dos EUA, mas como a realidade é sempre mais alucinante do que a ficção, as imagens que vimos recentemente de New Orleans ultrapassam em horror e devastação esta tentativa de antecipação futurística. A mensagem inserida na "cover art", no entanto, é-nos transmitida: o que ouvimos nestas faixas é, em simultâneo, a destruição definitiva do sonho americano em ruínas e a reconstrução de algo bizarro e disforme no seu lugar. O nihilismo electrónico dos nossos dias já não se contenta com... ser nihilista, propõe logo de imediato um mundo alternativo, ainda que este possa ser mais estranho que a atmosfera de Saturno. Para que tenham uma ideia do que se trata, digamos que o que aqui está tem algumas semelhanças com o Aphex Twin das meninas com cara de tarado barbudo e com Kid 606 quando este reage mal a quem lhe chama de "chicano", o mais não seja porque nasceu na Venezuela. Kenneth James Gibson, o homem responsável por estas transfigurações do hip-hop, do electro-disco e do ragga, tem outros alter-egos, como Dub Loner, Premature Wig ou Reverse Commuter, mas é com o presente heterónimo que vai mais longe na sua verve criativo-destrutiva. E a verdade é que mesmo como Eight Frozen Modules nunca tinha sido tão atrevido a pôr argamassa nas ruínas. Se o seu esqueleto se desconjuntar ao dançar isto, tanto pior.
(09-09-2005)

1.Corteme
2.Your Novelist Career
3.Vagina Spiders
4.Randolios Getaway
5.Lack of Nursing
6.A Chiming Seqway
7.Trust These Apart
8.Drills For Devil Dub
9.Believe That
10.
If You Only Knew

 

Ekkehard Ehlers
«A Life Without Fear»
CD Staubgold, € 15,95


Quem se lembra de “Plays”, o álbum de remisturas de Ekkehard Ehlers que incluía numa das faixas uma muito pessoal perspectiva da música de Robert Johnson? Pois em “A Life Without Fear” o seu fascínio pelos blues está na base de todo o projecto. E quando, além do “finger-picking” do Delta do Mississipi, ouvimos também nas construções abstractizantes deste curioso trabalho o balafone africano, mais entendemos que o que este músico alemão faz são jogos de combinação, seja porque encontra paralelismos e aspectos comuns ou porque o paradoxo funciona especialmente bem no domínio da arte e o que se procede é a um “mix” de contrários. Não é a primeira vez que os blues são glosados em contexto experimental e electroacústico – assim de repente vem-nos à ideia “Midnight Crossroads Tape Recorder Blues”, de Bruce Russell e Ralf Wehowsky –, mas nunca com o alcance aqui pretendido. Ehlers é uma personagem do universo da sampladelia, o mesmo em que habitava John Oswald antes de se dedicar exclusivamente ao saxofone e à improvisação, e de facto, a apontar algo que.se aproxime do espírito desta música, escolheríamos “Grayfolded”, a montagem que Oswald realizou a partir de interpretações ao vivo de “Dark Star” pelos Grateful Dead. Com a diferença de que os resultados são bem mais extremos e que os elementos “plunder” são integrados com outros de formulação instrumental – aliás, colaboram no presente disco o guitarrista Joseph Suchy, o trompetista Franz Hautzinger, o vocalista e tocador de harmónica Howard Katz Fireheart e o violista Bjorn Gottstein. Ehlers pode, por exemplo, retirar a voz de um velho disco de blues e misturá-la com os guitarrismos “extensivos” de Suchy, blues também, mas de recorte bem diferente, e aí temos uma característica operação desta obra. E se em alguns casos percebemos o que se passa, noutros ficamos sem saber o que é real e o que é virtual, mas tudo bem, porque esse é um dos objectivos de um investimento que parece fazer da memória um ecrã prospectivo de construção da alteridade.
(04-08-2006)

1. Ain't No Grave
2. Frozen Absicht
3. Strange Things
4. A Second Fire
5. Die Sorge Geht Über den Fluss
6. Nie wieder schnell sagen
7. Misorodzi
8. Maria & Martha
9. Meeresbeschimpfung
10. O Death

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Eldridge Skell's The Rude Staircase
«Sookie Jump»
CD What Delicate Recordings, € 15,95


"Sookie Jump" é um amontoado elegante de canções reminiscentes da arquitectura inovadora de Frank Lloyd Wrights na obra "Falling Water" e na massiva vila utópica de betão Arcosanti da autoria de Paolo Soleri. Edifica tensão e capta a nossa atenção ao inserir escuridão nos espaços vazios entre
os sons, numa acidentada estrada de terra. Sugere a fase de Alice Cooper na altura de "Pretties for You", mas o som é bem mais cheio, talvez mesmo mais brincalhão como o preciso hooliganismo da Willem Breuker Kollektiv. No final desta experiência sentir-nos-emos como se tivessemos escutado toda a discografia dos Cardiacs de barriga cheia.
(16-11-2007)

1. Variations On a Theme By Michael Jackson
2. A Gaggle of Swans
3. In The Silo
4. Houses Are Burning
5. Cranes (Detail)
6. Cranes
7. Here Come The Red Teeth
8. We Had Our Cut Out For Us, Francis
9. Telephone, Telephone
10. March of The D9 Caterpillar
11. Shut Up!

Clique aqui para escutar excertos do álbum

 

Elizabeth Anka Vajagic
«Nostalgia/Pain EP»
CDEP Constellation, € 15,50

As três canções deste EP foram gravadas nas mesmas sessões de estúdio que resultaram no celebrado álbum de estreia da croata-canadiana Elizabeth Anka Vajagic, "Stand with the Stilness of This Day". Mas atenção, não se trata de restos. Especialmente patente está a contribuição dos improvisadores Sam Shalaby, dos Shalaby Effect, na guitarra eléctrica, Michel Langevin na bateria e, com grande proeminência, Fluffy Erskine em objectos amplificados e manipulados com arco de violino. Nada que se esperasse, pois, de um disco assinado por uma cantora folk/pop. Excepto se se tratar desta cuja voz tem tanto de intimista quanto de gutural, completamente alheia aos padrões da actual canção. Aliás, a duração das faixas aqui reunidas não permitem equívocos: com os mais de 17 minutos de "Nostalgia" e os mais de 12 de "Pain" está visto que esta música não foi pensada para as "chart lists" da rádio tal como esta é hoje (mal) entendida. Num momento em que o cançonetismo de entretenimento é cada vez mais escapista, Vajagic chega mesmo a ser gótica, versando sentimentos e temáticas (passear no cemitério, por exemplo) que não são as mais "politicamente correctas" - é sabido como, no outro lado do Atlântico, se enterram os mortos como se a morte não existisse. O ideal para uma editora de inspiração anarquista como a Constellation, dizemos nós. O disco começa com um aviso, "I want you to know I don't hate you", para desde logo se perceber que o que vem de seguida não é propriamente pacífico. Os agudos lamentativos da jovem cantora fazem o resto.
(29-07-2005)

1. Nostalgia
2. Pain
3. Beneath Quiet Mornings

 

Elke Baur
«Jazzin’ the Black Forest»
DVD Monitorpop Entertainment, € 23,50


Equivalente germânica da Blue Note, a MPS (de Muzik Produktion Schwarzwald, mas também de Most Perfect Sound) teve um papel fulcral no desenvolvimento do jazz alemão, em particular, e do europeu, em geral desde a década de 1960, quando ainda se chamava SABA. E não só: a série Jazz Meets the World desta etiqueta é considerada como estando na origem daquilo a que hoje se chama “world music”. Projecto de Hans Georg Brunner-Schwer com a adesão de Joachim-Ernst Berendt, que com ele produziu centenas de discos – o catálogo conta com mais de 700 –, Albert Mangelsdorf, Wolfgang Dauner, Joachim Kuhn, Eberhard Weber e Volker Kriegel, entre muitos outros músicos alemães, têm os seus nomes associados à editora localizada na Floresta Negra, mas esta foi buscar os seus artistas também a países terceiros, e sobretudo aos EUA, de Duke Ellington, Oscar Peterson, Bud Powell e Dizzy Gillespie a Jean-Luc Ponty, George Duke, Charlie Mariano, Monty Alexander, Zbigniew Seifert e Lee Konitz, também entre muitos, muitos mais, e designadamente figuras do nascente free jazz. O filme “Jazzin´ the Black Forest”, realizado por Elke Baur, conta-nos essa história de várias formas, com entrevistas a músicos e DJs que estão a divulgar este património vinílico junto das novas gerações, imagens de concertos e actuações ao vivo (por exemplo, Peterson a tocar em casa de Brunner-Schwer, ou um extracto da sessão do trio constituído por Mangelsdorf com Jaco Pastorius e Alphonse Mouzon que resultou no álbum “Trilogue – Live!”), fotos e reproduções das capas dos discos lançados. O patrão da MPS morreu em 2004 e os LPs que gravou e colocou no mercado necessitam de reedição urgente – talvez este DVD contribua para que alguém de direito ache por bem fazê-lo. Ao que parece, o ramo alemão da Universal está na calha. Fingers crossed.
(23-03-2007)

 

Elliott Sharp/Merzbow
«Tranz»
CD Caminante Records, € 18,95

Provando que o “noise” não é propriamente a estética do “tudo ao monte e fé em Deus”, como dissemos do mau futebol que se praticou em Portugal na época passada, em “Tranz” é perfeitamente possível distinguir o que fez Merzbow (Masami Akita, o grande teórico e praticante do S&M sonoro) do que veio das sinapses de Elliott Sharp (o guitarrista/multi-instrumentista que se inspira nas séries matemáticas de Fibonacci). Com abordagens muito pessoais do mundo acústico, estes músicos partilham um ponto em comum: uma mesma paixão pelo free jazz e pelo rock psicadélico, perceptível aqui ou ali em meio às degladiações de “feedback” e aos mutantes edifícios construídos com harmónicos. Akita trabalhou duas peças com materiais que lhe foram enviados por Sharp dos Estados Unidos, e este fez o mesmo com gravações “raw” chegadas do Japão. Assim, “MARES1” é Merzbow a reconverter Elliott Sharp, com efeitos “trance” e uma pulsação meio escondida (pois, isto da chamada “música psico-acústica” funciona melhor a um nível subliminar), e “ESRMA1” é Sharp a mastigar Merzbow, surprendentemente com um enfoque sereno e desabitual nos percursos tanto de um como do outro, mesmo em se tratando de estática. Em “MARES2” já Masami Akita e E# (acrónimo muitas vezes usado pelo americano) vão aos extremos da erupção de ruído e do absoluto silêncio, a máxima abstracção dos sons articulando-se com as notas arrancadas a uma guitarra e a tempestade incluindo desconcertantes momentos de calmaria. “ESRMA2” tem outro panorama, a ficção científica (uma paixão de Sharp), sem nunca resvalar para uma versão brutalista da “cosmic music”. Aliás, a única semelhança que estes 15 minutos têm com alguma coisa intepretada pelos Tangerine Dream é terem ocorrido no mesmo planeta. Uma coisa é certa: este CD nada tem que ver com a restante e imensa produção discográfica dos dois “noise makers”. Para Masami “Merzbow” Akita é o primeiro de uma sequência de colaborações que muito promete, se a qualidade deste tomo se mantiver; para Elliott Sharp é mais um encontro bem sucedido entre outros, como os que encetou com a violoncelista contemporânea Frances-Marie Uiti ou com Reinhold Friedl, especializado na manipulação do interior do piano.
(22-07-2005)

1. MARES1
2. MARES2
3. ESRMA1
4. ESRMA2

 

Emiliana Torrini
«Fisherman's Woman»
CD Sinnamon Records/Rough Trade, €17,50

Desconcertante, é o que se pode dizer de Emiliana Torrini, metade islandesa e metade italiana, metade Norte e metade Sul, metade frio e metade quente. E ainda metade folk e metade algo que não podemos designar, com um não sei quê de Bjork e Margo Tiggins, dos Cowboy Junkies, no registo e na apresentação, mas lembrando um génio esquecido, Nick Drake, na forma. O anterior disco desta autêntica surpresa da nova canção, "Love in the Time of Science", era conotável com o trip-hop, mas se "Fisherman's Woman" continua a prezar com especial esmero a criação de ambiências e estados de espírito, tudo foi despojado até ao mínimo dos mínimos, e o mínimo aqui é uma voz acompanhada apenas por uma guitarra acústica ou eléctrica, um piano e um acordeão. E que voz, ora frágil, de menina, ora sedutora, de mulher emancipada e segura de si. Se julgam nunca ter ouvido falar de Emiliana, pensem outra vez: é ela a autora de um "hit" de Kylie Minogue, "Slow", e ouvimo-la na banda sonora de "O Senhor dos Anéis", em "Gollum Song". Na canção que dá título ao álbum são os estalidos da madeira de um barco o que escutamos por trás da história que nos conta - é como se de um filme se tratasse; somos transportados para dentro dela e descobrimo-nos em alto mar. Um extremo bom gosto e uma eficácia a toda a prova...
(24-03-2005)

 

Ennio Morricone
«Crime and Dissonance»
2CD Ipecac Recordings, € 18,95

Poucos apreciadores das bandas sonoras de Ennio Morricone para o cinema e muito especialmente para os “westerns” spaghetti conhecem o lado experimental da produção do grande compositor e maestro italiano, e designadamente as suas contribuições para o colectivo Nuova Consonanza e a estranha música que escreveu e dirigiu para uma mão-cheia de filmes transalpinos entre o final dos anos 1960 e o início da década seguinte. “Crime and Dissonance” é uma selecção desse material realizada por Alan Bishop, dos Sun City Girls, a convite de Mike Patton (Fantômas, ex-Faith No More e ex-Mr. Bungle), o patrão da Ipecac Recordings, com “liner notes” de John Zorn. No entender deste, a presente edição é necessária porque revelar esta outra faceta do preferido de Sergio Leone, Martin Scorsese, Roman Polanski e Quentin Tarantino é assinalar que “o espírito da liberdade está, sempre esteve e sempre estará vivo e bem”, não obstante os tempos negros que actualmente vivemos. Ao longo deste duplo álbum, o que ouvimos é um híbrido sem igual (mesmo para as orelhas de hoje) de muitas coisas, desde o funk-jazz à “exotica”, passando pela “clássica” contemporânea, a então nascente livre-improvisação, o experimentalismo rock e a electrónica depois de Robert Moog a ter portabilizado e popularizado, tudo isto já com a teatralidade, o carácter sinestésico e a aura de coisa nova da “soundtrack” de “A Fistful of Dollars”, aquela que levou o seu nome para a ribalta dos compositores cinematográficos.
(04-11-2005)

Disco 1:
1. Giorno Di Notte (do filme "Una Lucertola Con La Pelle Di Donna") 1971
2. Astratto 3 (do filme "Veruschka [Poesia Di Una Donna]") 1971
3. Corsa Sui Tetti (do filme "L’Uccello Con Le Piume Di Cristallo") 1969
4. Ric Happening (do filme "Metti Una, Sera A Cena") 1969
5. Memento (do filme "L’Istruttoria E’ Chiusa: Dimentichi") 1971
6. Ricreazione Divertita (do filme "Cuore Di Mamma") 1969
7. Studio Di Colore (do filme "L’Assoluto Naturale") 1970
8. Forza G (Quella Donna) (do filme "Forza G") 1972
9. Placcaggio (do filme "Il Gatto A Nove Code") 1971
10. Seguita (do filme "Gli Occhi Freddi Della Paura") 1971
11. Postludio Alla Terza Moglie (do filme "Barbablu") 1972
12. L’Uccello Con Le Piume Di Cristallo (Titoli) (do filme "L’Uccello Con Le Piume Di Cristallo") 1969
13. Il Buio (do filme "L’Anticristo") 1974
14. Rapimento In Campo Aperto (do filme "La Moglie Piu’ Bella") 1970
15. Le Fotografie (do filme "Veruschka [Poesia Di Una Donna]") 1971
16. Spiriti (do filme "Una Lucertola, Con La Pelle Di Donna") 1971
17. Ninna Nanna Per Adulteri (do filme "Cuore Di Mamma") 1969
18. Astrazione Con Ritmo (do filme "Il Serpente") 1973

Disco 2:
1. Trafelato (do filme "Giornata Nera Per L’Ariete") 1971
2. Sensi (do filme "Un Bellissimo Novembre") 1969
3. Gli Intoccabili (Titoli) (do filme "Gli Intoccabili") 1968
4. Fondate Paure (do filme "Una Lucertola Con La Pelle Di Donna") 1971
5. L’Attentato (alternate version 1) (do filme "L’Attentato") 1972
6. Fumeria D’Oppio (do filme "La Storia Vera Della Signora Dalle Camelie") 1981
7. 1970 (do filme "Il Gatto A Nove Code") 1971
8. Esplicitamente Sospeso (do filme "Il Serpente") 1973
9. Sequenza 10 (do filme "Sesso In Confessionale") 1974
10. Paura E Aggressione (do filme "Giornata Nera Per L’Ariete") 1971
11. Folle Folle (do filme "Gli Occhi Freddi Della Paura") 1971
12. Un Uomo Da Rispettare (Titoli) (do filme "Un Uomo Da Rispettare") 1973

 

Eraldo Bernocchi / Harold Budd
«Music For 'Fragments From The Inside'»
CD Sub Rosa, € 14,95


"Avalon" pode ter sido o último disco de estúdio de Harold Budd, mas com certeza que ainda veremos o seu nome nas capas de alguns CDs gravados ao vivo. Este que agora nos chega dá-nos conta da parte áudio de um espectáculo intermedia (com vídeo de Petulia Mattioli, também conhecida como PM Koma, e poesia de Mara Bressi) ocorrido no renascentista Palazzo Delle Papesse em Siena, Itália, vai para dois anos, tendo a seu lado o manipulador de electrónica e guitarrista Eraldo Bernocchi. Curioso encontro este, entre um compositor-pianista neoclássico e minimalista que sempre advogou a "insustentável leveza" da arte e um músico ambiental-electrónico que tem por hábito carregar as suas "soundscapes" com o peso do negrume da alma humana, desde o projecto pós-industrial Sigillum S às suas colaborações com Mick Harris (sim, o ex-baterista dos Napalm Death), Bill Laswell, Toshinori Kondo (o trompetista de free jazz conquistado pelo "drive" do funk e do dub) e Michael Brooks. E curioso na medida em que Budd e Bernocchi trocam de papéis: o autor de "Pavillion of Dreams" poucas vezes terá sido tão denso e romântico (leia-se "melancólico") quanto nesta sua intervenção, e Bernocchi surge aqui com as vestes do DJ, disparando "beats" de dança, por vezes de registo étnico (atenção aos interessantes samples de tablas, os tambores indianos que são tocados com a ponta dos dedos, tal como o piano), e construindo a prazenteira atmosfera das noites de sábado, aqueles intervalos de tempo que dispensam a realidade e apelam à festa dos sentidos. É, pois, difícil não gostar deste CD que nos troca as voltas e ignora por inteiro as fronteiras entre estilos e escolas. Se Harold Budd já tinha conseguido aliar o piano culto ao "lounge" e à pop (não esqueçamos as suas colaborações com Robin Guthrie, dos Cocteau Twins), nesta sua parceria com o músico italiano entra directamente no universo da "club music".
(12-08-2005)

1. Fragment One
2. Fragment Two
3. Fragment Three
4. Fragment Four
5. Fragment Five
6. Fragment Six
7.
Fragment Seven

 

Eric Zann
«Ouroborindra»
CD Ghost Box, 16,50


Belbury Poly
«The Willows»
CD Ghost Box, 16,50


The Advisory Circle
«Mind How You Go»
3" CD Ghost Box, 11,50


Mais pérolas da Ghost Box, a editora que nos lembra que o uso da electricidade e da tecnologia na música tem um lado “poltergeist”. De facto, desde a invenção dos cilindros, dos gramofones, dos gravadores de bobinas, da rádio e da televisão que se fala em mensagens vindas do Além, e é isso o que os artistas desta editora inglesa procuram fazer passar, o mais não seja metaforicamente. Ora, um dos utensílios de Eric Zann (nome que H.P. Lovecraft deu à personagem de uma das suas histórias, um violista com dotes tão do outro mundo que acaba por entrar nele) é precisamente a rádio, a que junta osciladores, gravações de várias proveniências e muito trabalho de processamento. Curiosamente, “Ouroborindra” é o menos sampladélico dos lançamentos deste catálogo, aproximando-se mais da música concreta “erudita” do que do “easy listening” das restantes edições. Muitos dos materiais podem ser os mesmos do Focus Group, como por exemplo a sonoridade dos sintetizadores “vintage” das décadas de 1960 e 70, mas se nas montagens daquele as bruscas mudanças de conteúdo e o “looping” estruturante são características habituais, em Eric Zann (ou melhor, Jim Jupp, de seu verdadeiro nome) procura-se que as situações sedimentem e deixem lastro; oiça-se, aliás, o que ele faz com as amostras sonoras de um sitar. O próprio tempo é gerido de outra forma, com desenvolvimentos mais lentos, sendo este CD até o mais longo de todos os saídos. Jupp adopta uma postura totalmente distinta sob o pseudónimo Belbury Poly – “The Willows” é “synth music” de pastilha elástica feita com “library sounds” de comerciais e genéricos radiofónicos e televisivos, uma muzak falsamente instrumental (porque não há propriamente instrumentos, mas manipulação de registos magnéticos) e falsamente Seventies, pois tem um estilo e uma “patine” totalmente forjados, mais muzak e mais Seventies do que o género e aquele período musical pretenderam alguma vez sê-lo, assim como um transexual é mais mulher do que qualquer mulher nascida com uma fenda em vez de um penduricalho. Continua a parecer a banda sonora de um filme de ficção científica, mas esta poderia ter o nome de Raymond Scott como autor, enquanto “Ouroborindra” nos remete para a cena dos macacos em “2001 Odisseia no Espaço”. “Mind How You Go”, o mini do projecto The Advisory Circle, no qual é de supor que Jim Jupp também esteja envolvido (não há informação concreta sobre tal), tem mais do mesmo, ainda que com outro grau de subtileza, referenciando-se directamente nas “forças invisíveis” da electricidade que nos rodeiam e atravessam.
(
05-05-2006)

«Ouroborindra»:
1. It
Is Narrow Here
2. Threshold

3.
Ouroborindra
4. Dôls

5.
Obsidian Pyramid
6. Voolas
7. The Human Chord

«The Willows»:
1. Wildspot
2. The Willows

3. Caermaen
4. A Thin Place
5. Farmer's Angle
6. Insect Prospectus
7. A Warning
8. Monstroon
9. Thorn

10. The Absolute Elsewhere
11. Far Off Things
 

«Mind How You Go»:
1. Logo
2. Mind How You Go

3. Everyday Science (for Ron Geesin)
4. And The Cuckoo Comes
5. Osprey
6. Nuclear Substation
7. Get In The Swim
8. Nuclear Substation (Public Information Film)
 

 

Erik Satie
«Musique de La Rose-Croix+Pages Mystiques/Uspud»
2CD LTM, € 18,50


O compositor francês Erik Satie (1866-1925) sempre foi um homem de entusiasmos e rupturas, e assim como esteve próximo dos movimentos Dada e surrealista para depressa deles se afastar, andou algum tempo a buscar alimento espiritual junto dos rosacrucianos. Renegaria depois a seita, mas enquanto frequentou as suas cerimónias compôs alguma da mais estranha música para piano que nos deixou, e precisamente “Sonnerie de la Rose-Croix”, partitura de que encontramos algumas secções neste duplo álbum com interpretações de Bojan Gorisek e Richard Cameron-Wolfe. Escrita para uma peça de teatro do místico “Sar” Joséphin Péladan, fundador da Ordre de la Rose-Croix Catholique du Temple et du Graal, consta também nesta selecção a bela “Le Fils des Étoiles”, bem como um pequeno extracto (quase 23 minutos) da mais polémica e fascinante das obras de Satie – “Vexations”, um reduzido conjunto de notas destinado a ser repetido 840 vezes, numa actuação em concerto que pode variar entre 14 e 28 horas. Não fosse o que aqui se ouve e Morton Feldman não teria feito o que fez, libertando os sons de intuitos narrativos.
(01-09-2006)

 

Espers
«II»
CD Drag City, € 18,95


Como ouvimos comentar a um fã indefectível do psicadelismo ao descobrir “Espers II”, “deve andar muita droga por aqui”. Independentemente de ser verdade ou não, o certo é que este grupo de Philadelphia tornou-se – e só vai no segundo álbum, mais um tema na já lendária compilação de Devendra Banhart, “The Golden Apples of the Sun” – num dos baluartes da nova vaga de acid folk, e precisamente porque leva muito a sério o factor “acid”. As referências são bem evidentes, e vão da Incredible String Band, dos Fairport Convention e dos Pentangle aos Led Zeppelin (muito presentes em “Dead Queen”) e até aos King Crimson, vertente “Lady of the Dancing Water”, para já não falar dos Pink Floyd dos primeiros anos, quando ainda lá andava Syd Barrett. As cordas “fingerpicked” têm um papel fundamental nesta música, e dão-lhe mesmo um carácter primitivista (pensem nas montanhas dos States, em dobros e em “rednecks”), a que se acrescentam sintetizadores e outros teclados (como o que parece ser um cravo eléctrico), flauta, violoncelo, muita percussão (incluindo bongos, que é o que há de mais hippie), tudo isto em camadas que por vezes confluem em “drones”. Há vocais também, por sinal fazendo-nos lembrar nem mais nem menos do que Sandy Denny, e “feedbacks” de guitarra (oiçam “Widow Weed”), resultando em algo que já foi designado como um cruzamento de Slowdive com Mojave 3. A coloração geral é negra e a dimensão épica, como se se tratasse de uma “bad trip” até aos portões do inferno. Imperdível.
(15-09-2006)

1. Dead Queen
2. Widow's Weed
3. Cruel Storm
4. Children of Stone
5. Mansfield and Cyclops
6. Dead King
7. Moon Occults the Sun

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Esplendor Geométrico
«Anthology 1981-2003»
2CD Geometrik Records, € 18,50

Grupo de culto durante os anos 1980, mas algo esquecido nos 90 (altura em que, se era lembrado como uma referência, poucos o ouviam realmente, devido talvez às pequenas tiragens das suas edições e ao facto de provir de um país periférico ao circuito discográfico anglo-saxónico), os espanhóis Esplendor Geométrico têm neste duplo álbum a sua primeiríssima antologia, já há muito merecida, reunindo material irrecuperável, algum dele publicado em cassete, a outro mantido inédito até à data. Um dos grandes exemplos da electrónica dita “industrial”, a somar aos melhores, Throbbing Gristle, SPK e Cabaret Voltaire à cabeça, caracteriza-o uma rítmica implacável, repetitiva e quase dançante, como se os Kraftwerk tivessem adoptado uma atitude punk. E tão seminal nas suas propostas que, se não tivesse existido, Autechre, Aphex Twin ou Squarepusher não fariam o que fazem – oiçam uns e outros e comprovem de onde vem a sua paternidade. Arturo Lanz, Gabriel Riaza e Juan Carlos Sastre, os seus três membros (dois mais tarde, quando Sastre optou definitivamente pelo design gráfico, e depois de novo três, com a entrada do videasta italiano Saverio Evangelista) pertenciam ao colectivo pop futurístico El Aviador Dro y Sus Obreros Especializados, com o qual depressa entraram em dissensão, pois consideravam-no demasiado “light”. Em oposição, surgiram com uma música pintada a cores negras, sincopada e visceral mas depressiva, e com letras altamente provocatórias e incómodas (oiça-se, por exemplo, “Destrozaron sus Ovarios”, de 1981, sobre o estupro de uma menina de 3 anos). Interessados numa utilização primitivista dos instrumentos electrónicos (ainda hoje em versão analógica!!), os EG sempre privilegiaram o palco, sendo os seus concertos autênticos rituais, com algo até de xamânico. Ainda assim, nunca se identificaram com os “ensinamentos” de Crowley, ao contrário dos seus pares na cena dita industrial, e desmentiram ao longo dos anos a identificação feita pelos media musicais com esta tendência musical. Verdade ou não, o certo é que vêm procurando não seguir modas nem conjunturas, ainda que seja audível o seu interesse pelo techno mais brutal, e designadamente a “trance music”. Obrigatório...
(
19-05-2006)

Disco 1:
1. Muerte A Escala Industrial (Eg1 Cassette.1981)
2. Héroe Del Trabajo (El Acero Del Partido LP. 1982)

3. Destrozaron Sus Ovarios (Eg1 Cassette. 1981)

4. Edad Del Hierro (Eg1+, CD. 1981)
5. Necrosis En La Poya (Single. 1981)

6. El Acero Del Partido (El Acero Del Partido LP.1982)
7. Ven A Jugar (Mekano Turbo LP.1988)

8. Sheik (Mekano Turbo LP.1988)
9. Rotor (Mekano Turbo LP.1988)

10. La La La La (Kosmos Kino LP.1987)
11. Llamada Del Afro Poder (Tarikat 2CD.1989)
12. Rabúa Aromía (Arispejal Astisaro. 1990)
13. Sinaya -Dynamo 2 Version- (Nador. 1990)
14. Malos Tratos (Arispejal Astisaro. 1990)
15. Chile Al Dia (Unreleased New Version, 2003)

Disco 2:
1. Trans Umma (80’s Tracks CD. 1989)
2. Es Inaudito (Arispejal Astisaro CD. 1992)
3. Tiempo Libre (Tokyo Sin Fin CD. 1995)
4. Baraka (Sheik Aljama CD, 1990)
5. Nuevo Procedimiento (Veritatis Splendor CD. 1994)
6. Yurta (Unreleased. 2003)
7. Mecanica Del Mundo (Unreleased. 2003)
8. Confort (30 Km De Radio. 1995)
9. Campesinas (Unreleased 2003)
10. Syncrotron -Version- (Syncrotron Mlp.1996)

11. Isolektra (Tokyo Sin Fin CD. 1995)
12. Hemen Nago (Polyglophone CD,1997)

13. Introspección (Sheik Aljama CD,1990)

 



Excepter
«KA»
CD Fusetron, €16,5

Como se torna visível pelas citações feitas acima, é difícil verbalizar a música dos Excepter sem recorrer a palavras que concretizem o inefável e o metafísico em forma de revelações. «Ka», o seu primeiro álbum, saído mesmo na recta final de 2003 em vinil e finalmente reeditado em CD acoplado com o 12” «Vacation/”Forget Me”», é o mais invulgar dos álbuns. É uma música que não pertence a qualquer tipo de estruturação linear, que parece provir totalmente de imagens e sensibilidades abstractas do subconsciente, executadas directamente desse plano íntimo colectivo e comunal para som. Quinteto de Brooklyn liderado por John Fell Ryan, antigo membro da No-Neck Blues Band os Excepter criam a sua arte a partir de um invulgar «setup», composta por uma miríade de estranhos e antigos sintetizadores de ditigalia primitiva, samplers, percussão, tudo processado uma variedade de efeitos. Na frente estão Fell Ryan, igualmente «party boy» cocainado e místico urbano, e Caitlin Cook, com vocalizações de sereia psicadélica do subaquático urbano artificial. Os seus concertos, disponibilizados em formato de «live streams» no seu website oficial (www.excepter.com), em que a banda é normalmente acompanhada por um DJ, são verdadeiros acontecimentos de químico psicadelismo moderno, missas de ritmos fractalizados tornados groove autista, onde por turnos podemos encontrar Cook com ramos a brotarem-lhe de um excessivamente largo casaco de fato de treino ou Fell Ryan a dançar como um senhor da pista de disco dos esgotos. A música dos Excepter é a concretização da tripe alucinada da Nova Iorque do betão, do ruído da dor de cabeça, de excessos de toda a ordem, em explosão com um desejo de libertação física e psíquica (títulos de faixas como «Free From Muscles» ou «Be Beyond Me» são disso exemplo). A matéria física do som de «Ka» capta o sintético, o asséptico e uma profunda noção de deslocamento espiritual, que, por sua vez, é utilizado como motor de evasão de sensibilidades cansadas e desacreditadas. Se esta busca é a mais antiga das forças motrizes para a criação de arte, não é menos verdade que o som contido em «Ka» é das suas mais fascinantes e raras pragmatizações, pela contemporaneidade de formas e sensações, bem como de meios empregues. Uma obra-prima da América confusa e perdida, da Brooklyn dos Black Dice, Animal Collective, Double Leopards e Gang Gang Dance.

 

Excepter
«Throne»
CD Load, € 18,
50

O que têm de comum Giacinto Scelsi, compositor de música contemporânea só reconhecido (e muito parcialmente) depois da sua morte, e os Excepter, grupo de noise-rock aparentado com os Black Dice, os Gang Gang Dance e os Animal Collective? A preocupação primeira com o som. A música pode vir (ou não) depois, ou seja, elementos como o ritmo, a harmonia e a melodia podem ser chamados a intervir ou deixados completamente de lado. Pois este grupo de Nova Iorque é por vezes melódico (em ocasiões até podemos ouvi-los cantar tonalmente), mas tal surge apenas em complemento de outros empreendimentos prioritários nos domínios da física acústica, como um bónus. Esse extra, no entanto, “acontece” quando menos se espera e constituindo uma agradável surpresa, não só porque nos devolvem os velhos conceitos de beleza na arte, quando os julgávamos definitivamente mortos, mas também pelo facto de virem do que há de mais profundo na cultura popular do seu país de origem – aliás, são habitualmente conotados com a estranha folk, mas folk de qualquer modo, emanada do caldo de criatividade enraízada a que se chamou de New Weird America. É como se uma nave alienígena parasse sobre a cidade para descarregar animais terrestres que já se encontravam extintos, mas que recordamos como entes mitológicos, ou seja, monstros – o dodo, por exemplo, tão absurdo para o nosso entendimento quanto um dragão. Imagens do género surgem frequentemente nas recensões dos discos do colectivo, como esta que mantemos no Inglês original: “Excepter is the sound of cave paintings being made with laser beams, or the photographic negative of a beach, a dream at some slick midnight.” De facto, é muito difícil descrever de outro modo o que fazem estes “sonic boomers” sem incorrermos na frieza desconstrucionista da “análise”. Até porque eles nos trocam as voltas, jogando como jogam com o reconhecimento e a familiaridade. Às vezes, como neste breve “Throne” (33:33 minutos exactos), o que parece não é e o que não parece afinal é mesmo. Com os Excepter de John Fell Ryan, um antigo membro da No Neck Blues Band, o psicadelismo recuperado de há 30 anos ganha uma lógica totalmente distinta. A diferença está no facto de não ser uma música em estado alterado de consciência, como era o mote nos Sixties, mas sim de ser um produto da inconsciência, algo que é fabricado pelo sistema nervoso central e não pelo neo-córtex (a improvisação tem nela um papel fundamental, como não podia deixar de ser). A memória torna-se numa questão celular, de ADN, não mental. Tão abstracta quanto uma equação matemática, mas pulsando como uma veia num corpo adormecido.
(02-12-2005)

1. Jrone (Three)
2. Jrone (Two)
3. The Heart Beat
4. (The Ass)

Clique aqui para escutar excertos do álbum. 

 

Exile
«Pro Agonist»
CD Planet Mu, € 16,95

O drum & bass tem andado algo desaparecido dos discos de música de dança, mas se volta à ribalta neste título de Tim Shaw, aka Exile (não confundir com o execrável grupo de rock FM que usa o mesmo nome), ouvimo-lo rodeado de situações claramente "ambient" ou de chill out. E isto numa etiqueta que se especializou no mais exclusivo jungle, a Planet Mu, o que é obra. As famílias da tribo a que chamamos techno parecem finalmente estar a relacionar-se, e mesmo a visão que Shaw tem do drum & bass, se nunca resvala para o breakbeat, tem um dimensão "ants-on-the-pants" que a isola no cenário do género. São boas notícias, de facto. A abordagem é inovadora sem romper com os princípios estabelecidos e distingue-se do DJing, na medida em que se trata de um trabalho composicional operado com sintetizadores e computador, não com discos scratchados. Em vez de "cut and paste", com a sua própria lógica intrínseca, temos modelação e estruturação de sons. A distinção é importante, tanto mais sabendo-se que para Exile não faz sentido disparar simplesmente o que está gravado no "laptop" numa situação ao vivo, sendo indispensável improvisar e interagir com o público.
(16-09-2005)

1. Silicon Chop
2. Open Mike
3. The Forever Endeavour
4. Sure You Did
5. Mushroom Santa
6. Spring Cum Air
7. Broken Language (Exile Mix)
8. Rage Is the Beautiful Light That Struck Her
9. Big Bad Purple Bad Boy
10. Sliiime
11. Devil's Chimney
12. Merlin

 

Exploding Star Orchestra
«We Are All From Somewhere Else»
CD Thrill Jockey, € 17,50

Bem que podia ter sido a NASA a encomendar esta obra para “big band” de Rob Mazurek, dado o tema que a conduz (as transformações cósmicas), mas o convite veio do Chicago Cultural Center e do Jazz Institut e tinha um propósito: que se retratasse a actualidade da frente “vanguardista” da cena de Chicago do jazz. “We Are All From Somewhere Else” tem, portanto, que ver com o espaço, com a Cidade do Vento e, curiosamente, também com Portugal. O texto que conta a história aqui musicalmente urdida foi escrito pelo lisboeta João Simões, videasta e artista conceptual com um interessante percurso além-Atlântico. Ainda que trate sobre estrelas e seres míticos (uma fénix, por exemplo), fazendo-nos inevitavelmente pensar em Sun Ra, são pessoas que habitam esta música, e essas são a nata da metrópole onde o projecto nasceu, entre as quais Nicole Mitchell, Jeb Bishop, Jeff Parker, Jim Baker e John McEntire, nomes sobejamente reconhecíveis dos universos AACM e Tortoise / Chicago Underground. E também um tanque de enguias eléctricas, que o cornetista e compositor gravou em Manaus, no Brasil, onde vive há alguns anos, e ouvimos na parte 3 de “Sting Ray and the Beginning of Time”, subintitulada como “Psycho-Tropic Electric Eel Dream”: não, não se trata de uma secção de violinos. Duas baterias, um contrabaixo e um baixo eléctrico, um vibrafone e uma marimba, uma corneta e um fliscórnio são os pares fixos do projecto Exploding Star Orchestra, mas outras parelhas se sucedem neste ensemble de 14 elementos. Até as enguias são de duas espécies, cada uma com o seu tom diferente. Mazurek conta a história do universo à sua maneira, cruzando ciência e fábula, domínios que não têm necessariamente de se excluir. O resultado é algo da ordem do realismo mágico e conta-se entre o melhor que o músico nos tem oferecido.
(02-03-2007)

1. Sting Ray and The Beginning of Time (Part 1)
2. Sting Ray and The Beginning of Time (Part 2)

3. Sting Ray and The Beginning of Time (Part 3) (Psycho-tropic Electric Eel Dream)

4. Sting Ray and The Beginning of Time (Part 4)

5. Black Sun

6. Cosmic Tones For Sleep Walking Lovers (Part 1)

7. Cosmic Tones For Sleep Walking Lovers (Part 2)

8. Cosmic Tones For Sleep Walking Lovers (Part 3)

9. Cosmic Tones For Sleep Walking Lovers (Part 4) (Fifteen Ways Towards a Finite Universe)

10. Cosmic Tones For Sleep Walking Lovers (Part 5)

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Fairmont
«Coloured In Memory»
CD border Community, € 16,50

Sem quaisquer dúvidas podemos aqui dizer que este é, na nossa humilde opinião, um dos melhores álbuns da IDM (Intelligent Dance Music) deste ano de 2007.

"Coloured In Memory" é o álbum de estreia do projecto de Jake Fairley, Fairmont, lançado na Border Community, casa mãe de outros dois grandes discos - "Drowning In A Sea Of Love" de Nathan Fake e "The Idiots Are Winning" de (James) Holden (patrão da editora).

Já com uma extensa discografia tanto na Border Community como na Traum, Echochord, Kompakt e Dumb Unit (o seu máxi "Gazebo" vendeu mais de 20,000 unidades), "Coloured In Memory" consegue ambientes electrónicos arrojados e ao mesmo tempo cria temas próximos da pop, tal como Vitalic o fez em "Ok Cowboy". É exactamente esta fusão que torna tão único este grande álbum, e que - voltamos a dizê-lo sem problemas - poderá vir a ser considerado por muitos dos críticos como um dos melhores álbuns de dança deste ano que corre.
(26-10-2007)

1. Fade To Saturate
2. Darling Waltz
3. Mobula
4. Pomegranate
5. Sedative For The Sentimental
6. I Need Medicine
7. Bikini Atoll
8. 1995
9. Calm Before The Storm
10. Flight Of The Albatross
11. All Good Things
12. Time's Fool

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

The Fall
«Fall Heads Roll»
CD Narnack,
€ 16,95

1. Ride Away
2. Pacifying Joint
3. What About Us
4. Midnight Aspen
5. Assume
6. Aspen Reprise
7. Blindness
8. I Can Hear The Grass Grow
9. Bo Dimmeck
10. Ya Wanner
11. Clasp Hands
12. Early Days of Channel Fuehrer
13. Breaking The Rules
14. Trust In Me

 

The Fall
«The Infotainment Scan»
2CD Castle Music, € 18,50

Talvez o menos compreendido, se bem que o mais acessível, disco dos The Fall, saído originalmente em 1993, “The Infotainment Scan” foi o resultado da (única) tentativa de aproximação por parte de Mark E. Smith (sob influência do teclista David Bush e do baterista Simon Wolstencroft, diz-se) do fenómeno das “rave parties” , então no seu pico. Foi assim que à sonoridade pós-punk do grupo que inspirou os Pavement se subordinaram elementos do acid house, da “techno shit”, como lhe chamava Smith, e até do disco, com uma dimensão electrónica a adicionar-se à distorção guitarrística que era a imagem de marca deste empreendimento iniciado em 1979, quando já o movimento “no future” iniciava a sua queda. É neste contexto que surge a curiosa “cover” aqui ouvida de “Lost in Music” (Sister Sledge), tema que também os Einsturzende Neubauten interpretaram, acentuando a componente pop da canção porque a mais “funky” e “garage” já tinha sido feita por esta troupe. Igualmente representativa do desvio tentado na altura pelos The Fall é a versão incluída como bónus nesta reedição em duplo álbum de “Why Are People Grudgeful”, de Lee “Scratch” Perry, o mestre do dub. O segundo CD integra uma John Peel Session, outra conduzida por Mark Goodier, quatro canções de um single e uma mão-cheia de “outtakes” do mesmo período. Ficamos mais esclarecidos quanto às motivações desta grande banda da história do rock que quis experimentar uma ideia diferente e, apesar das reacções negativas de uma parte dos seus fãs, até foi bem sucedida.
(18-08-2006)

Disco 1:
1. Ladybird (Green Grass)
2. Lost In Music
3. Glam-Racket
4. I'm Going To Spain
5. It's A Curse
6. Paranoia Man In Cheap Sh*t Room
7. Service
8. The League Of Bald-Headed Men
9. A Past Gone Mad
10. Light / Fireworks
11. Why Are People Grudgeful?
12. League Moon Monkey Mix

Disco 2:
1. Ladybird (Green Grass)
2. Strychnine
3. Service
4. Paranoia Man In Cheap Sh*t Room
5. Glam Racket
6. War
7. 15 Ways
8. A Past Gone Mad
9. Why Are People Grudgeful?
10. Glam Racket
11. The Re-Mixer
12. Lost In Music
13. A Past Gone Mad (Alternate Version)
14. Instrumental Outtake
15. Service (Instrumental Demo)
16. Glam Racket (Instrumental Demo)
17. Lost In Music (Mix 3)
18. Lost In Music (Mix 7)
19. Lost In Music (Mix 14)

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Fantômas
«Suspended Animation (Ed.Limitada »
CD Ipecac, €20,25

'They've done it again', diria o detective de "Quem Tramou Roger Rabbit?". Depois de "Fantômas", com o seu universo de ficção científica, depois de "Director's Cut", um disco sobre a paixão cinéfila, e depois de "Delirium Cordia", a melhor banda sonora que um pesadelo poderia ter, eis que os Fantômas de Mike Patton, o ex-Faith No More que John Zorn arrastou para outros atrevimentos, voltam à carga com "Suspended Animation", um álbum de homenagem à música para desenhos animados e ao seu maior génio, Carl Stalling (mas também a Milt Franklyn, Raymond Scott e o especialista em efeitos sonoros Treg Brown, da Warner), em que o metal é rei novamente, embora intervenham também elementos do funk e do jazz. Outra coisa, aliás, não seria de esperar de uma superbanda que inclui Buzz Osborne, dos Melvins, Trevor Dunn, transferido de outro projecto de Patton, os Mr. Bungle, e Dave Lombardo, a máquina propulsora dos Slayer. São 30 as curtas faixas, cada uma correspondendo a um dia do mês de Abril, tal como, de resto, os excelentes desenhos do cartoonista japonês Yoshitomo Nara em forma de calendário que acompanham o CD. Os seus 43 minutos apenas sucedem-se em frenética cavalgada e tudo termina com uma desarmante ironia: a voz de Bugs Bunny (tirada de "What's Opera, Doc") atira ao ouvinte com um "well, what did you expect... a happy ending?". E não é que é mesmo um fim feliz para um disco marcado pela loucura dos "looney tunes"?
(22-04-2005)

 

Faris Nourallah
«Gone»
CD Kitchen Music, € 11,95


De volta às edições, e um ano após o seu último álbum "Il Suo Cuore Di Transistor", Faris Nourallah regressa às melodias pop e orelhudas com este "Gone". Mais uma vez Faris decidiu escolher uma pequena editora, desta vez francesa, para distribuir o seu trabalho, prescindindo de todos os lucros e encaminhando-os na sua totalidade para a ONG japonesa KnK (Kokkyo naki Kodomotachi), ou Crianças Sem Fronteiras. A KnK é uma associação humanitária e educativa destinada a ajudar as crianças e jovens desfavorecidos na Ásia, e a dar a conhecer a sua situação a outras crianças e jovens de todo o mundo.
Contendo 12 temas da sua autoria, somos mais uma vez assolados por melodias simples e encantadoras. Inspirando-se outra vez nos Beatles ou Ray Davies, Faris não deixa de nos surpreender com a sua magia de contador de histórias, e ainda que as suas origens tenham origem no Médio Oriente, não vamos de certeza encontrar aqui qualquer vestígio, talvez só mesmo na sua capacidade inventiva.

(
08
-06-2007)

"Gone, um ano depois, mostra canções mais apelativas, e sobretudo sublinha as cada vez mais evidentes paixões e sonhos pop que a música de Faris Nourallah não quer esconder. É um disco profundamente pessoal na sua escrita. E confirma sobretudo um gosto peculiar pelo design de arranjos que fazem, de troncos de palavras e melodias potencialmente transformáveis em diálogo para voz e guitarra, pequenos monumentos de viço pop sob evidente contraste com a desolação e vastidão monótona da paisagem texana." Nuno Galopim in Sound+Vision

1. Ay Carlo
2. Galla
3. Northbound Train
4. Elephantine
5. Gone
6. Anticipation Anxiety
7. The Rope
8. Call It Off
9. Things We Really See
10. Who Started The Fire
11. Everything Is Relative
12. Forgiveness
13. Las Cruces

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Faris Nourallah
«Il Suo Cuore Di Transistor»
CD Awful Bliss, € 16,50


Sírio de origem, mas americano do Texas, Faris é um dos extintos Nourallah Brothers e com este álbum a solo demonstra uma vez mais que o seu irmão Salim não é o único bom escritor de canções da família. Aliás, a sua inspiração nos Beatles e em “singers / songwriters” como Ray Davies, Elvis Costello e Elliott Smith, dá conta das coordenadas que o regem. “Il Suo Cuore di Transistor” confirma o seu valor na presente cena folk psicadélica, ainda que o oiçamos mais conivente com a ligeireza da pop do que com as aéreas “trips” de LSD que deram motivação ao psicadelismo no tempo em que se quis substituir as metralhadoras por guitarras eléctricas. Neste particular, aliás, não deixa de ser irónico que os pais de Faris Nourallah tenham nascido num país que Bush coloca no Eixo do Mal e muito gostaria de invadir. Talvez venha da cultura árabe o gosto de contar estórias que revela em cada canção, mas não se espere deste disco outros indícios de carácter étnico: “Lifeboat” lembra os Pink Floyd da era Barrett, “Face in the Wind” tem Neil Young na sua matriz, “The Dream Killers” é uma espécie de Leonard Cohen meets Radiohead e o fantasma de John Lennon esvoaça pela generalidade dos temas, ou seja, as referências são bem ocidentais. Assim como o som, alicerçado em volta de um piano eléctrico Fender Rhodes, um ícone musical do Novo Mundo. Imigrant music this ain’t.
(
08-06-2006)

1. Black Car
2. I'll Be The Change

3. Chaos

4. Rewrite History

5. Lifeboat

6. Raining

7. Dreamkillers

8. Face In The Wind

9. Move On

10. Break Your Vows

11. Dreamgirl

12. But Not Tomorrow

13. Don't Kiss

14. Tell Me Secrets

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Faris Nourallah
«Near The Sun - The Best Songs of...»
CD Green Ufos,16,50


1. A Famous Life
2. Start A Revolution
3. A Day To Remember
4. Sick On The Scalator
5. Will We Ever Know Why?
6. Problematico
7. Fantastic!
8. Brogadiccio
9. Let's Get Married
10. Once In A Lifetime
11. Down
12. She'd Walk A Mile
13. I'm Fallin’
14. Far From The Sun
15. Where I Always Get What I Want?
16. Impossible To Know
17. Christian Flyer
18. Adieu
19. Someone Who Doesn´t Love You
20. The Road

Clique aqui para escutar o álbum completo

 

Faust/Nurse With Wound
«Disconnected»
«Disconnected (Edição especial com temas extra)» ESGOTADO
CD Art-Terrorist, € 15,95

Edição limitada (500 cópias) e não-limitada de um encontro histórico entre os «progressáurios» Faust e os «cinzentossáurios» Nurse With Wound, numa gravação em estúdio realizada em 2007.
Por parte dos Faust o protagonismo vai para Zappi Diermaier, Jean Hervé Peron e Amaury Cambuzat. Colin Potter e Steve Stapleton asseguram, por sua vez, as misturas, garantindo também algum mediatismo por terras de sua majestade.
Peça de colecção fundamental.

(
14-09-2007)

1. Lass Mich
2. Disconnected
3. Tu m'entends?
4. It Will Take Time

Edição especial:
1. Lass Mich
2. Disconnected
3. Tu m'entends?
4. It Will Take Time
5. Silence
6. Hard Rain

 

Fazzini
«Sulphur, Glue The Star»
CD Locust Music, € 16,50

Tom Fazzini andou pelos A Small Good Thing, mas se esperam de “Sulphur, Glue The Star” algo que se assemelhe àquele grupo, desistam já. A solo, as preocupações deste guitarrista e compositor são outras. Uma canção, para ele, não é apenas um arranjo instrumental, com umas quantas harmonizações e uma base rítmica, mais uma voz a debitar umas quantas líricas segundo uma linha melódica determinada e um refrão. Há muito mais a habitá-la, a começar por algo que a outros não interessa: os sons propriamente ditos, ou melhor, os sons escondidos pela “música” mas que dão forma a esta e os sons declaradamente não musicais – exemplos são água a borbulhar ou o fritar típico de um sistema de amplificação sem ligação à terra. Não sendo este, de todo, um álbum “noise”, o peso que nele tem o ruído é fundamental – trata-se, no entanto, de um ruído subterrâneo e intersticial, não de um magma em movimento ou de um muro compacto. Além de que Fazzini algumas vezes prefere não cantar nem tocar, e então o que temos é simples “spoken word” (através de um dictafone, para, por exemplo, se contar uma história de fantasmas). Este é, pois, um disco desconcertante, algo que não é pop, nem folk, nem ambiental, nem experimental, mas contém aspectos de todos essas “famílias”, se bem que utilizadas sem compromisso por alguém que parece desligado de preocupações como pertencer a uma frente ou estar “in”. Neste tempo de uniformizações, que bom é ouvir um não-alinhado...
(
28-07-2006)

1. Wooky
2. Zone
3. 03
4. Duplex
5. Dell
6. 06
7. Urge
8. 08
9. Glare
10. Urge (Reprise)

 

Faun Fables
«The Transit Rider»
CD Drag City, 16,50


Já se disse sobre este disco que se trata de um álbum conceptual, mas na verdade é a banda sonora de um espectáculo de teatro. “The Transit Rider” foi pensado por Dawn McCarthy para o palco, e tudo, de facto, é muito teatral nele. Tanto assim que, se não tivéssemos isso presente, acharíamos algo “encenado” este híbrido de rock progressivo e folk cantado com ênfase quase operática. Por ela, reconhecível pela sua voz fria como gelo, e pelo barítono Nyls Frykdahl, dos Sleepytime Gorilla Museum, que também toca vários dos instrumentos. O tema é sugerido pela rede de metropolitano de Nova Iorque, “in all its repetitious and transient glory”, cuja – sabe-o quem já circulou por ela – é um mundo totalmente à parte, uma realidade paralela (a história: alguém adormece durante a viagem e acorda com a impressão de que falhou a sua paragem; ao perguntar aos outros passageiros se a mesma já tinha passado, dizem-lhe não conhecer nenhuma estação com esse nome – a partir daí é um mergulho no desconhecido). Os Faun Fables não apresentam o projecto como um musical e muito menos como uma ópera, mas sim como um “ciclo de canções”, o que relativiza as proporções, e a ambição, desta obra. Uma característica é a utilização de sons captados no próprio metro, prova provada de que a modalidade “field recordings” encontra cada vez mais adeptos, e outra a sensação de que esta música está a ser difundida precisamente num subterrâneo. A guitarra (pelo próprio Frykdahl) tende muito especialmente para os “drones”, mas com a carga do psicadelismo e até do “glam rock” e não da “ambient music”. Dawn mudou-se para a Big Apple em 1994 e teve uma espécie de epifania às avessas: “Viver numa grande cidade pela primeira vez fez com que me sentisse desligada da natureza e isolada no meio de toda a gente que vive nesta metrópole.” É o reflexo dessa experiência que agora surge em disco, depois de ter sido apresentado ao vivo...
(
01-06-2006)

1. Birth
2. Transit Theme

3. House Carpenter

4. In Speed

5. Taki Pejazz

6. Roadkill

7. Earth's Kiss

8. Fire and Castration

9. Questioning

10. I No Longer Wish

11. Corwith Brothers

12. Dream on a Train

13. I'd Like To Be

Clique aqui para escutar excertos do todos os temas

 

Fennesz/Sakamoto
«Cendre»
CD Touch, € 15,95


Após uma primeira experiência na gravação ao vivo "Sala Santa Cecilia", Fennesz e Sakamoto regressam ao activo com o álbum de estúdio "Cendre". Ao passo que no primeiro trabalho foi explorada essencialmente a vertente mais electrónica, este álbum não poderia ser mais diferente. Aqui existe uma divisão bem traçada - Fennesz na electrónica e Sakamoto no piano (em tudo semelhante a Alva Noto e Sakamoto) -, onde um elemento interpreta peças delicadas e frágeis ao piano e o outro preenche os amplos espaços com tratamentos electrónicos. As semelhanças com os trabalho de Noto e Sakamoto terminam aqui, pois  Fennesz consegue atribuir uma vertente bem mais orgânica às composições, emanando delas um calor aconchegante e uma atmosfera relaxante, mesmo hipnótica. A música é emocional, contemplativa e serena, e é curioso como dois compositores com origens tão distintas conseguem uma cumplicidade tão imediata e produtiva.
(
15
-06-2007)

“This first, full-length recording by Christian Fennesz and Ryuichi Sakamoto is a hauntingly beautiful piece of work. It’s essentially a marriage of delicate acoustic piano played by Sakamoto and ambient textures courtesy of Fennesz. As such, cendre (all text is studiously rendered in lower-case) is a very different work from the duo’s first release, the 19 minute Sala Santa Cecilia (2005), on which it was nearly impossible to tell which performer contributed which sounds.”  Colin Buttimer in BBCi

1. oto
2. aware

3. haru

4. trace

5. kuni

6. mono

7. kokoro

8. cendre

9. amorph

10. glow

11. abyss

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Fennezs
«
Endless Summer (New Edition)»
CD Editions Mego, €15,95


1. Made in Hong Kong
2. Endless Summer

3. A Year In a Minute

4. Caecilia

5. Got To Move On

6. Shisheido

7. Before I Leave

8. Happy Audio

9. Badminton Girl

10. Endless

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Fennesz
«Hotel Paral.lel»
CD Mego, € 15,95


1. 8 Z
2. Nebenraum
3. Zeug
4. Blok M
5. Santora
6. Dheli Plaza
7. Fa
8. Traxdata
9. Gr-500
10. Szabo
11. Uds
12. Herbert Missing
13. Super Feedbacker
14. Aus

Fennesz
«03_02_00 -Live At Revolver, Melbourne»
CD Touch, € 11,50


 

Fennezs/Sakamoto
«Sala Santa Cecilia»
CDEP Touch, €12,95


Sabendo de investimentos recentes de Christian Fennesz (“Endless Summer”, “Venice”) e Ryuichi Sakamoto (as colaborações com Alva Noto em “Insen” e “Vrioon”), seria de supor que este encontro entre duas grandes personalidades da música dos nossos dias fosse pautado por uma perspectiva “light” e até quase pop da electrónica ou mesmo que o piano satieano do japonês estivesse presente, mas este registo ao vivo no Romaeuropa Festival de 2004, em Itália (19 minutos apenas, mas essenciais), oferece-nos uma música densa, abstracta e totalmente digital. Trata-se da abertura apenas de um duo de “laptops” que teve outros desenvolvimentos aqui não documentados, mas facilmente compreendemos por que motivo apenas esta peça passou para CD: está tão carregada de subtilezas e pormenores e as suas nuvens de ruído têm tal impacto que acrescentar fosse o que fosse mais desse concerto diluiria a sua força e a sua beleza. Como já referiu a crítica, parece um “chuveiro de fogo”, intenso, massivo, mas com pequenos elementos a descobrir por trás e por dentro das camadas de “drones”. Com uma tónica experimental como há já algum tempo não ouvíamos sair do teclado de Fennesz e não nos lembramos de detectar em Sakamoto (as melodias estão lá, mas envolvidas em algo que mais parece proveniente do caldeirão INA-GRM), “Sala Santa Cecilia” tem dimensão “sinfónica”, mas é de suspeitar que tudo o que ouvimos não foi preparado antecipadamente e sim improvisado pelos dois músicos, e até que esta parceria foi acidental. Verificado o sucesso da junção destas mentes musicais será de supor, no entanto, que novos episódios se seguirão, até porque, entretanto, o ex-Yellow Magic Orchestra convidou o austríaco a integrar o grupo que levou para digressão. E que grupo, integrando, por exemplo, um guitarrista pop/rock, Cornelius, e um baixista de free jazz, Skuli Sverrisson. Este EP pode ser entendido como um “teaser”, mas é muito mais do que isso e ganhou já proporções históricas.
(11-07-2005)

1. Overture

 

Fennezs
«Venice»
CD Touch, €15,95


1. Rivers Of Sand
2. Chateau Rouge

3. City Of Light

4. Onsra

5. Circassian

6. Onsay

7. The Other Face

8. Transit (feat. David Sylvian)

9. The Point Of It All

10. Laguna

11. Asusu

12. The Stone Of Impermanence

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

The Fiery Furnaces
«Widow City»
CD Thrill Jockey, € 12,
50

É o regresso de uma das mais interessantes bandas do momento. Agora na Thrill Jockey, os Fiery Furnaces voltam a surpreender com "Widow City", prosseguindo nas lindas e bem dispostas, a que sempre nos habituara. Algumas experiências mais arrojadas poderiam afastá-los do estatuto pop, mas a espinha dorsal é a mesma, não fossem eles quase veteranos destas andanças. São 16 belas canções de onde se destacam as mais orelhudas "My Egyptian Grammar", "The Old Hag Is Sleeping" ou "Restorative Beer". A voz de Eleanor Friedberger continua com um "je ne sais quoi", sempre cativante. Tal como este disco.
(02-11-2007)

1. Philadelphia Grand Jury
2. Duplexes of the Dead
3. Automatic Husband
4. Ex-Guru
5. Clear Signal from Cairo
6. My Egyptian Grammar
7. Old Hag Is Sleeping
8. Japanese Slippers
9. Navy Nurse
10. Uncle Charlie
11. Right by Conquest
12. Restorative Beer
13. Wicker Whatnots
14. Cabaret of the Seven Devils
15. Pricked in the Heart
16. Widow City

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

The Fiery Furnaces
«Bitter Tea»
CD Rough Trade,
 €16,95

1. In My Little Thatched Hut
2. I'm In No Mood

3. Darling Black Hearted Boy

4. Bitter Tea

5. Teach Me Sweetheart

6. Waiting To Know You

7. Vietnamese Telephone Ministry

8. Oh Sweet Woods

9. Borneo

10. Police Sweater Blood Vow

11. Nevers

12. Benton Harbour Blues

13. Whistle Rhapsody

14. Hidden Track

15. Hidden Track

Clique aqui para escutar excertos do todos os temas

 

50 Foot Wave
«Golden Ocean»
CD 4AD, €17,50

Desconcertante e reveladora, é o mínimo que se pode dizer desta incursão de Kristin Hersh, a cantora dos Throwing Muses, pelos universos do punk e do grunge. Para ela, os 50 Foot Wave são como que uns "ultra-Muses" com os quais pode finalmente libertar-se. Nem a doçura que emprestava à voz naquele lendário grupo dos anos 1980 se mantém - a essa imagem de marca contrapõe agora uma rugosidade e um vigor inéditos, como se fosse uma Courtney Love com a voz mais treinada. A própria Hersh o diz: "O que pode ser mais divertido do que subir o volume para 10 e gritar durante uma hora todas as noites?" E o interessante é que, se o baterista (Rob Ahlers) foi escolhido porque a "diva" do rock harmónico no tempo em que a ética se queria uma estética procurava alguém que soasse como se tivesse atirado a bateria pelas escadas abaixo, também o baixista, Bernard Georges, veio dos Throwing Muses. Eram estes uma banda marcada pelo elemento feminino? Talvez, mas porque não há-de ser feminina também a canção "Sally is a Girl", com os seus vocalismos guturais e a dimensão de catarse que ostenta? Kristin Hersh refuta os papéis convencionais dados ao papel da mulher na música, e se é verdade que os Muses criaram um estereótipo (ou nós, seus ouvintes, criámos por eles), a também guitarrista trata de o desfazer neste "Golden Ocean". Por exemplo, com letras como "you know what? / shut the fuck up" ou "your voice has a sing-song quality / and bones were made to be broken". Não é uma máscara que coloca, e desde muito cedo fica claro que este investimento é sério e implicou uma entrega total. Musicalmente, há algo de Husker Du, Mission of Burma, Gang of Four, Nirvana ou Pere Ubu nestes temas transbordantes de adrenalina, referências que nunca imaginaríamos que pudessem ser associadas com esta figura da pop. Decididamente, Hersh não vive das glórias do passado e ainda tem muito para nos dar...
(03-06-2005)

 

Final Fantasy
«He Poos Clouds»
CD Tomlab,15,95

1. The Arctic Circle
2. He Poos Clouds
3. This Lamb Sells Condos
4. If I Were A Carp
5. »->
6. I'm Afraid Of Japan
7. Song Song Song
8. Many Lives »-> 49mp
9. Do You Love?
10. The Pooka Sings

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Flotation Toy Warning
«Bluffers Guide To The Flight Deck»
CD Talitres,15,95


A “escola” Mercury Rev / Flaming Lips deixou descendentes, os Flotation Toy Warning. Mas não podemos tomá-los apenas como continuadores de um estilo – a forma como o grupo de Paul Carter lida com o factor orquestração, cruzando samples de conteúdos intrigantes com instrumentos pouco habituais na pop (sopros, cordas de arco), mostra-nos que tem as suas próprias coordenadas e que quer deixar a sua bandeira na expansão territorial que está a providenciar. O modo como se apresenta, aludindo a explorações árticas, disputas entre inventores, máquinas voadoras, borboletas raras e uma pretensa nova área da acústica chamada “astrofonia” leva-nos a tomar os FTW como personagens de Jules Verne. Poderia ser só uma questão de marketing, mas o certo é que a nossa audição é induzida pelo facto e ouvir “Bluffer’s Guide to the Flight Deck” (o seu primeiro álbum, depois de dois EPs) é como fazer uma viagem ao interior da Terra ou à Lua, astro tão próximo mas tão longe do comum dos mortais. Uma viagem em que a estranheza e a descoberta proporcionadas pelo seu lado experimental (com recursos tipo “found-sound” integrados na composição) são conduzidos pelos factores de reconhecimento garantidos pela muito funcional simplicidade das melodias e a segura estabilidade das estruturas tipicamente pop, de maneira a não deixarmos de sentir o chão debaixo dos pés e o tecto em cima das cabeças, dado que o “alto” e o “baixo” não existem “out there”. Uma forma de nos maravilhar fazendo sem que corramos perigo. Um pouco mais de risco (além do inerente à utilização de uma serra cantante) não faria mal algum, mas se a literatura fantástica de Verne tem sido tão bem recebida pelos jovens de várias gerações é porque também esta faz sonhar sem maiores assombros – tanto quanto se sabe nenhum miúdo saltou da janela depois de ler “Dois Anos de Férias”, mas já o fizeram para imitar o Homem-Aranha. Nisto os FTW são até menos mercurianos que os Mercury Rev, trocando o cunho épico destes por uma abordagem mais comedida, senão mesmo próxima do ambientalismo. Muito cuidado, pois, com os brinquedos flutuantes.
(
16-03-2006)

1. Happy 13
2. Popstar Researching Oblivion
3. Losing Carolina - For Drusky
4. Made From Tiny Boxes
5. Donald Pleasance
6. Fire Engine On Fire Part I
7. Fire Engine On Fire Part II
8. Even Fantastica
9. Happiness Is On The Outside
10. How The Plains Left Me Flat

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

The Focus Group
«Sketches and Spells»
«Hey Let Loose Your Love»
CD's Ghost Box, € 16,50 cada


Já chamaram de “music-hall concrète” ao catálogo da Ghost Box, editora fundada por Julian House, o designer das capas dos Primal Scream e dos Stereolab, e muito especialmente ao trabalho apresentado pelo Focus Group. E isso porque transforma o concretismo, no que este tem de mais distintivo, a descontextualização dos sons, numa prática de índole popular. É assim que, sendo indubitavelmente experimental, a música contida em “Sketches and Spells” e “Hey Let Loose Your Love” tem a dimensão do “easy listening”. Numa primeira audição, poderíamos pensar neste projecto como um parente do plagiarismo dos Tape-Beatles ou de John Oswald, e mais ainda do de People Like Us, o heterónimo com que Vicki Bennett revisita a década do “baby boom” americano, pois tal como estes procede-se à colagem de músicas já existentes, mas não só os propósitos são outros (o acento não está no acto da pilhagem e na reconversão de “ready mades” musicais em outros objectos), como os procedimentos práticos se centram nos próprios sons, para só depois incidirem na forma não-linear e até fragmentária como os sons são organizados. O que resulta é ao mesmo tempo familiar e estranho. Há aqui algo da sonoridade típica da electrónica universitária de há 30 anos, o que tem mais a ver com a forma do que com o conteúdo, ou seja, trata-se de um “clin d’oreille”, e do mesmo modo vão-se somando rítmicas e ambiências do jazz, mas mais como elementos esporádicos de figuração do que outra coisa, entre muitos puxões de orelhas e piscadelas de olho. Já se disse que o Focus Group (além de House, uns senhores que usam os nomes Belbury Poly e Eric Zann, este roubado a uma personagem de Lovecraft) trabalha com sentimentos de nostalgia, dado utilizar como materiais restos descartados do passado, mas será mais verdadeiro o que diz DJ Spooky sobre a sua própria actividade, entendendo o DJing como uma forma de mnemónica ou de historiação, quando não mesmo de arqueologia. Ainda que não se trate de DJing, nem sequer de “sampling music” enquanto estilo à parte, estes dois CD's seguem essa lógica. Se a base de dados de Bennett são os anos 1950 e os media yankees, a do Focus Group são os 70 e seus equivalentes britânicos, com um gosto muito especial pelos seriados televisivos da BBC e suas bandas sonoras, a música acidental passada nos dramas radiofónicos, os “library records” e ainda os discos de aprendizagem para crianças. Talvez haja por aqui uma atitude retro, mas mesmo que o computador seja a ferramenta utilizada, House não gosta do carácter “clean” dos samples digitais, preferindo o “bad looping” de outros tempos.
(
27-04-2006)

«Sketches and Spells»:
1. Stringed Winds
2. Verberations
3. Open the Gate
4. Activity and Scales

5. Corn Holes
6. Verberations Exp.
7. Bells hazes
8. Alsh

9. Hocusing Fee
10. Colouring Toys
11. Danse & Atoms
12. Free Psych & Mirrors
13. Verberation Int.
14. Jout Sections
15. Geometree Hou
16. Sun Groof
17. Diagonalam
18. Underwater Pries
19. Jass Tarp
20. Hocusing Loe
21. What Are You Seeing?
22. Bromiding Place

23. Kasratu
24. Swirling Paths
25. Starry Wisdom

«Hey Let Loose Your Love»:
1. Icicle Wheel
2. You Do Not See Me

3. Clockbell
4. Echo Release
5. Xylophone Signal
6. Modern Harp
7. Inside The Rubber Box
8. Lifting Away
9. Today’s Rhythm People
10. Hey Let Loose Your Love
11. String Sine Romance
12. The Moon Ladder
13. Planning For Urban Green
14. Swinging Phantom
15. The Thre
16. Jam-Jar Carnival
17. Baroque Face
18. The Leaving

19. Reflected Message

 

Fog
«10th Avenue Freakout»
CD Lex, €16,50


O Andrew Broder que aqui se apresenta como Fog é o mesmo que, em "Hymie's Basement", contracenou com Why?, figura da Anticon e dos saudosos CloudDEAD, e se esse era um disco de hip-hop experimental, ainda que com uma forte componente pop, "10th Avenue Freakout", com as suas alusões ao psicadelismo dos anos 1970, anda pelos caminhos da folk-pop experimental. O adjectivo "experimental" pode ser o mesmo, mas a matéria-prima distingue-se, diga-se em abono da verdade que mais em termos de nuance do que de outra coisa qualquer quando se trata, como é o caso, de híbridos musicais feitos de muitas peças e influências. E porque tais relacionamentos estilísticos não são os mais óbvios, estas canções sucedem-se entre o reconhecível e o estranho. "The Poor Fella", uma das melhores faixas do álbum, é um exemplo vivo dessa condição "nem-nem" que envolve música de câmara, balada e electroacústica de formas inéditas e que até tem conduzido a alguma incompreensão por parte da crítica "mainstream" - a pop-rock lamenta as incursões de Fog pelo abstraccionismo, enquanto a alternativa não aceita a submissão das vertentes mais "noise", ambientais ou jazzísticas ao modelo canção, quando o certo é que este é um óptimo disco da nova música popular urbana, inventivo, variado em termos de conteúdo sem nunca perder personalidade, esteticamente aberto (ou dito de outro modo: sem se fixar em dogmas), desafiador e oportuno, no sentido em que tem tudo a ver com o que está musicalmente em causa nos dias que correm. Para todos os efeitos, Andrew Broder é igualmente um DJ, o que quer dizer que lida com memórias musicais e está ciente do seu relativismo.
(09-06-2005)

 

Food
«Last Supper»
CD Rune Grammofon, €16,50


O novo álbum do grupo do saxofonista inglês Iain Ballamy com três noruegueses, um deles o trompetista dos Supersilent, Arve Henriksen, tem um carácter de urgência que o seu título, "Last Supper", mais reforça, ainda que não faça menção à última ceia de Cristo ou à derradeira refeição dos condenados à morte, mas refira apenas este disco como o prato mais recente desta unidade "gastronómica" - e isto apesar de nos chegarem notícias de que, entretanto, Henriksen saiu e foi substituído pelo guitarrista Nils-Olav Johansen, o que ainda carrega mais as implicações do nome escolhido. Até a utilização da electrónica é aqui diferente, talvez porque a produção já não esteja entregue a Deathprod (Helge Sten), outro elemento dos Supersilent que esteve envolvido no anterior "Veggie", um menu vegetariano que desesperou quantos esperavam que aquele trabalho fosse mais "jazzy", ou seja, mais carnívoro. Pois este é-o decididamente, ainda que o bucolismo estilístico dos dois sopradores continue em evidência. A secção rítmica saltou, no entanto, para a frente, ou não fosse agora o baterista Thomas Strønen o produtor, e a aproximação ao legado do Miles Davis da década de 1970 não deixa dúvidas quanto aos propósitos. Trata-se de jazz saltitante mas lírico, com a componente "ambient" que o mítico "Bitches Brew" quase chegou a ter, mas não teve... O que quer dizer que este disco recua um bocadinho no tempo para ir mais adiante do que os Food alguma vez tinham ido.
(04-03-2005)

 

Four Tet
«Everything Ecstatic»
CD Domino, €17,50

Kieran Hebden, mais conhecido por Four Tet, chama à música que faz de "laptop jazz", e de facto este género afro-americano transparece frequentes vezes na electrónica dançante que pratica (não por acaso colaborou com Steve Reid, baterista que já encontrámos a usar as baquetas com James Brown, Fela Kuti e Sun Ra), uma techno feita a pensar na cabeça para além dos pés que tem a elegância e a sofisticação de uma Third Eye Foundation e a inteligência das misturas e das produções que distinguem Aphex Twin, "groovy", acessível, mas também consciente das inovações conseguidas pela música numérica experimental. Não só, mas também, pois Hebden é o primeiro nome que nos surge à ideia quando se fala em "folktronica", esse misto de folk e música por computador que se tornou toda uma tendência, mas cuja intervenção, de qualquer modo, é bastante discreta neste "Everything Ecstatic". No lugar das ambiências pastorais que marcaram outras edições suas, temos agora a percussão, massiva, polirrítmica e, surpresa, só episodicamente cingida aos padrões do hip-hop, baseada em "samples" do (só podia) já referido Steve Reid. "Sun Drums and Soil" é bem um exemplo desta aposta, e até não falta, no final da peça, um saxofone de free jazz para mostrar o que anda o autor deste excelente disco a ouvir. E porque depois de cada inspiração deve vir uma expiração, Four Tet intercala tais incursões pelo "beat" com situações bem distintas, como é o caso do curto "Clouding", em tudo devedor da música concreta, ou de "And Then Patterns", uma recordação do que fez no álbum "Rounds", com a sua ambiência de banda sonora do cinema. Mais adiante, "Turtle Turtle Up" é um achado, com a sua inspiração no característico trâfego de Hong Kong, e "Sleep, Eat Food, Have Visions" (grande título) é o acompanhamento ideal para a leitura da escritora de literatura fantástica Ursula K. LeGuin. O disco termina com "You Were There With Me", o mais próximo que pode haver dos sons da chuva a cair sobre gongos e sinos.
(09-06-2005)

1. A Joy
2. Smile Around The Face
3. Fuji Check
4. Sun Drums And Soil
5. Clouding
6. And Then Patterns
7. High Fives
8. Turtle Turtle Up
9. Sleep, Eat Food, Have Visions
10. You Were There With Me

 

Fovea Hex
«Neither Speak Nor Remain Silent Part 1: Bloom»
«Neither Speak Nor Remain Silent Part 2: Huge»
«Neither Speak Nor Remain Silent Part 3: Allure»
MCD's die Stadt/Janet Records, € 13,95 cada


Por altura da edição do terceiro volume desta épica colecção de EP's - o primeiro episódio surgiu há já quase dois anos -, é altura de finalmente destacarmos este(s) título na nossa newsletter.

Fovea Hex é um projecto que gira essencialmente à volta de Clodagh Simmons e Andrew McKenzie (The Hafler Trio), mas tem vindo a incluir nestas três edições as colaborações de nomes tão ilustres como Brian Eno, Roger Eno, Robert Fripp, Roger Doyle, Colin Potter, Carter Burwell, John Contreras, e muitos outros. "Bloom", de Novembro de 2005, foi o primeiro episódio, a primeira experiência que causou imediatamente impacto. Seguiram-se em Maio de 2006 e Junho de 2007 "Huge" e "Allure", respectivamente.  Ao contrário do que poderíamos esperar pelo envolvimento de Andrew McKebnzie, Fovea Hex está longe da sonoridade dos H3O. Algumas semelhanças a peças de Eno são imediatas, mas a inclusão da frágil e cristalina voz de Simmons dá um toque épico único e uma enorme força a toda a composição. Toda a parte instrumental assemelha-se a uma construção de proporções estonteantes, tal a intensidade e a perfeição; como uma catedral de vidro, onde o som do cristal se mistura com os coros religiosos e com os sons do vento e da própria ressonância do edifício. As vozes femininas parecem quebrar a qualquer momento esta construção sonora tão frágil, mas bem pelo contrário, solidificam-na ainda mais. Os três episódios mantêm uma linha contínua, e não se podem separar entre si. São episódios de uma trilogia que não podem sobreviver por si só. Mas são também peças imprescindíveis de uma beleza extrema. E tal como Brian Eno disse "some of the most extraordinary songs I've heard in years".
(
15
-06-2007)

"(...) Playing it from beginning to end was when I had my revelation; this record is as gorgeous as any of Burwell’s stunning soundtrack work, as sentimental and romantic as Eno’s very best and polished off expertly by the experimental flourishes of avant garde mad-scientist McKenzie." Boomkat

«Neither Speak Nor Remain Silent Part 1: Bloom»:
1. Don't These Windows Open
2. We Sleep You Bloom
3. That River

«Neither Speak Nor Remain Silent Part 2: Huge»:
1. Huge (The Joy of Trouble)
2. A Song for Magda 
3. While You're Away

«Neither Speak Nor Remain Silent Part 3: Allure»:
1. Allure
2. Long Distance (Oblivion)
3. Neither Speak Nor Remain Silent

 

Fra Lippo Lippi
«The Early Years»
«The Best Of»
C
D's Rune Grammofon, € 17,
50


A designação do projecto que Rune Kristoffersen, hoje o patrão da Rune Grammofon, manteve na década de 1980 com Per Oystein Sorensen tem uma referência artística que não é comum encontrar na pop, ou que pelo menos assim não tem sido desde que esta prática musical deixou de partilhar com a “pop art” as mesmas preocupações estéticas (já lá vão os tempos em que Andy Warhol foi patrono dos Velvet Underground e dos Curiosity Killed The Cat). Fra Lippo Lippi é o nome dado pelo poeta Robert Browning a uma sua personagem inspirada no monge e pintor renascentista Fra Filippo Lippi, que ficou conhecido na história por acreditar na arte como o produto da experiência directa e por ser um sensualista, ou melhor dizendo, um artista que acreditava mais na realidade imediata do que no divino absoluto, o que, obviamente, lhe criou graves dificuldades com a hierarquia da Igreja. Não só porque colocava em causa os dogmas católicos, mas por, sendo um sacerdote, se interessar demasiado por mulheres. Segundo Vasari, no seu “Vidas de Artistas”, quando não podia possuir uma, Lippi pintava-a e assim se penitenciava. Aliás, sabendo da sua fraqueza, Cosimo de Medici fechava-o a sete chaves quando o frade estava a trabalhar nalguma das suas encomendas. Como o artista florentino, os noruegueses Fra Lippo Lippi da música foram recuperados do esquecimento (nas Filipinas, pelo contrário, continuaram sempre a ser um êxito retumbante) com a reedição de canções dos seus primeiros anos de existência e com uma recolha dos seus maiores êxitos. “The Early Years” apresenta-nos um grupo (o baterista Morten Sjoberg ainda estava em funções) devedor do estilo Joy Division, ainda que com uma acentuação no trabalho dos teclados, por sinal com uma economia de materiais que os distingue da saturação sonora do breve empreendimento de Ian Curtis, e em “Best Of” (que, como não podia deixar de ser, inclui o “hit” internacional “Shouldn’t Have To Be Like That”) encontramo-los já conquistados pela sonoridade electro instituída pelos New Order. Estas filiações nunca foram mais do que isso. A alusão a Filippo Lippi tem mesmo uma segunda leitura: na sua tentativa de comporem e interpretarem a canção pop perfeita (equivalente ao desejo do frade de tornar o sexo na arte suprema), segundo, está claro, o entendimento da altura, padronizado por aquelas duas formações seminais, o que fizeram foi outra coisa. “Pintaram” o que viria a ser a música com instrumentário electrónico do futuro, mesmo que distanciada da pop. Repare-se no que Kristoffersen fez de seguida, seja no domínio do techno experimental como no do ambientalismo...
(15-12-2005)

«The Early Years» :
1. Some Things Never Change
2. A Small Mercy
3. Barrier
4. Sense Of Doubt
5. The Treasure
6. Slow Sway
7. Now And Forever
8. French Painter Dead
9. Out Of The Ruins
10. A Moment Like This
11. In Silence
12. Recession
13. The Inside Veil
14. I Know
15. Quiet
16. Lost
17. In A Little Room
18. An Idea

«The Best Of» :
1. Shouldn´t Have To Be Like That
2. Angel
3. Love Is A Lonely Harbour
4. Light And Shade
5. Naive
6. Beauty And Madness
7. Everybody Everywhere
8. Crazy Wisdom
9. Everytime I See You (live)
10. Even Tall Trees Bend
11. Coming Home
12. Thief In Paradise
13. Leaving
14. Mothers Little Soldier
15. Dreams

 

Fra Lippo Lippi
«Songs (Ed.Especial)»
CD Rune Arkiv, 17,95


No início (1981), os noruegueses Fra Lippo Lippi eram mais uma cópia do rock negro e depressivo dos Joy Division e dos Cure. O mergulho na pop veio depois (em 1983), ainda que algumas nuvens escuras continuassem a acompanhá-los, e foi só ao terceiro álbum (de 1985), precisamente este “Songs” agora reeditado, que assumiram a identidade que haveria de ser a sua, enquanto autores de baladas electrónicas – ainda que sempre com o piano de Rune Kristoffersen no segundo plano, logo por trás da voz de Per Oystein Sorensen – em que se contam histórias e já não apenas mal-estares. É deste disco e desta altura o grande “hit” do grupo, “Shouldn’t Have to Be Like That”, canção que lhes daria uma desmesurada e estranha fama no mais improvável dos países, Filipinas. Mais tarde, mesmo quando acrescentaram algum jazz ao seu estilo, tendo como convidado, por exemplo, o trompetista Mark Isham, a pop seria a sua causa, e neste capítulo pode dizer-se que muito contribuíram para o seu aprimoramento formal enquanto estilo emancipado do rock e da canção ligeira. As composições de “Songs” podem entrar facilmente no ouvido e aparentar uma grande simplicidade, mas esta não é uma música de mastigar e deitar fora, ao contrário de muitos produtos que se deram a ouvir nos anos 1980. A verdade é que os Fra Lippo Lippi continuam a ser um dos grandes exemplos de sofisticação da pop. Aqueles que vêm acompanhando o que hoje faz Kristoffersen sob o nome Monolight, no domínio da música experimental, e estão atentos às edições da Rune Grammofon, a editora especializada em “noise music” e improvisação electroacústica que fundou e dirige, terão uma boa surpresa quando se debruçarem sobre o trabalho por ele desenvolvido na década em que se disse que a estética iria substituir a ética, encontrando nestes temas boas explicações para o que é hoje. As sementes estão aqui, é só ouvi-las florir.
(
16-03-2006)

1. Come Summer
2. Shouldn''t Have To Be Like That
3. Even Tall Trees
4. Just Like Me
5. Crash Of Light
6. The Distance Between Us 
7. Regrets
8. Leaving
9. Coming Home
10. Crash Of Light (Live)
11. The Distance Between Us (Live)
12. Everytime I See You (Live)
13. Fade Away (Live)
14. Shouldn''t Have To Be Like That (Live)
15. Even Tall Trees Bend (Live)
16. Say Something (Live)
17. Regrets (Live)

 

Francesco Tristano
«Not For Piano»
CD Discograph, € 16,50


Uma das grandes surpresas deste primeiro semestre de 2007, e vindo da escola clássica, Francesco Tristano (nos meios clássicos mais conhecido por Francesco Tristano Schlimé) oferece-nos "Not For Piano", uma obra em piano solo onde digere e reinterpreta composições de outros artistas (desde Autechre a Derrick May, com produção de Murcof) do clássico ao jazz, do experimental ao electro. Com um equilíbrio entre a intensidade e a melancolia, fez-nos imediatamente lembrar em alguns dos trechos as brilhantes composições de Robert Haigh, nos já idos anos 80 (quem não se lembra dos EP's "Music From The ante Chamber" ou "Juliet of The Spirits", ou dos álbuns "Valentine Out of Season" ou "A Waltz in Plain C"?). Noutros aproxima-se mais de uma postura jazzística ou mesmo experimental, nunca nos deixando de impressionar - ouça-se o enérgico "Strings of Life", por exemplo, ou "Andover" (orifginal dos Autechre). Autor de uma discografia impressionante, e já galardoado com vários prémios, com apenas 26 anos de idade Tristano mostra em "Not for Piano" que não se limita ao eixo hermético e por vezes claustrofóbico da música clássica, fazendo uma muito arrojada ponte entre a velha e a nova música. Essencial e imprescindível.
(11
-05-2007)

1. Hello
2. Barceloneta Trist

3. Strings Of Life

4. Andover

5. AP*

6. The Melody

7. Jeita

8. The Bells

9. Hymn

10. Two Minds One Sound

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Frank Bretschneider
«Rhythm»
CD Raster Noton, € 15,9
5

Nem pop nem vanguardista, "Rhythm" lida simplesmente com os princípios básicos de qualquer música moderna: o ritmo.

Frank Bretschneider leva a sua relação com o ritmo - nunca simples mas sempre provida de um sentimento profundo - a outro nível, e desta vez faz menos uso de sons abstractos. A precisão de outros álbuns anteriores persiste, bem como a preferência por sons entre o noise e o experimental, mas agora Frank usou combinações de programação, composição e construção que estão bem longe dos loops a que nos habituou anteriormente, tendo mais a ver com a sua idiossincrática estética de som digital: controlada e objectiva. O todo segue regras simples: ligado/desligado, para a frente/para trás, para cima/para baixo, lento/rápido, aborrecido/brilhante, e é também caracterizado por uma total ausência de romantismo. No entanto este regresso ao elementar não reduz a música à função de música de dança, em vez disso Bretschneider mantém-se enfaticamente musical e consegue gerar estruturas rítmicas sofisticadas e complexas. Resumindo, "Rhythm" é, provavelmente, o seu disco mais imediato e directo.

Aproveitem e assistam ao seu concerto hoje no cinema S.Jorge, inserido no festival Número-Projecta.
(09-11-2007)

1. A Soft Throbbing Of Time
2. The Big Black And White Game
3. We Can Remember It For You Wholesale
4. The Eight Day People
5. Other Days, Other Eyes
6. Construction Shack
7. The Moon Is A Hole In The Sky
8. All Summer In A Day
9. The October Game

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Franz Ferdinand
«You Could Have It So Much Better»
CD Domino, € 17,95

1. The Fallen
2. Do You Want To
3. This Boy
4. I'm Your Villain
5. Evil And A Heathen
6. You're The Reason I'm Leaving
7. Well That Was Easy
8. Eleanor Put Your Boots On
9. What You Meant
10. Walk Away
11. You Could Have It So Much Better
12. Fade Together
13. Outsiders

 

Fred Armisen
«Presents Jens Hannemann Complicated Drumming Technique»
DVD Drag City, € 16,50

Esta é talvez a primeira vez que a Drag City investe os seus conhecimentos na edição de um DVD que ensina todos aqueles admiradores e potenciais músicos da nova geração.
"Complicated Drumming Technique" é mais do que um simples modo de ensinar os pequenos e grandes truques na arte da percussão. Vai ao encontro do interesse não só dos iniciados mas também dos veteranos.

O respeitado comediante e personalidade da TV Fred Armisen é aqui acompanhado pelo percussionista Jens Hannemann, abrindo os nossos olhos para as pequenas vitórias que qualquer percussionista consegue atrás dos seus instrumentos. Nesta peça de colecção encontramos:
-Quase 30 minutos de lições:
-Uma série de dicas do veterano Victor Benedetto;
-Impressões de três composições originais de Hannemann;
-Um olhar sobre as jam sessions profissionais;
e muito, muito mais...
(23-11-2007)

 

Fred Lonberg-Holm Trio
«Other Valentines»
CD Atavistic, € 15,95

Continuação do muito celebrado “A Valentine for Fred Katz”, neste “Other Valentines” o violoncelista de Chicago Fred Lonberg-Holm volta a abraçar um jazz mais “mainstream” e “straightahead”, para surpresa de quantos o conhecem de situações mais atrevidas, como o recente “Grammar” do Punctual Trio, com Carlos Zíngaro e Lou Malozzi, ou a sua participação na Territory Band de Ken Vandermark. Ainda assim, o novo álbum de “covers” deste discípulo de Pablo Casals na Atavistic inclui composições de nomes tão imprevisíveis para um disco de jazz como Syd Barrett, o fundador dos Pink Floyd, Wilco (com quem, aliás, o camaleão Lonberg-Holm já gravou) ou Cat Power, grupo rock feminino que muito tem dado que falar. Interpretados por um invulgar trio de violoncelo, contrabaixo (o mesmo Jason Roebke da anterior edição) e bateria (com Frank Rosaly a substituir Glenn Kotche), estes temas ficam quase irreconhecíveis: se as melodias originais estão lá, íntegras, o swing é todo ele jazzístico. E como não podia deixar de ser, é novamente tocada a música do compositor e arranjador (e violoncelista, não o esqueçamos) Fred Katz, colaborador essencial de Chico Hamilton nos seus grupos dos anos 1950. Recordado também é Sun Ra, outra importante figura do universo musical frequentado pelo novo membro dos Vandermark 5, com o seu “cello” a substituir o trombone de Jeb Bishop, e logo a abrir o CD.
(14-10-2005)

1. East of Uz
2. Fool
3. Arnold Layne
4. Almost Mid-Day
5. Vals Pa Vinegar
6. Flo
7. Winter in America
8. Jesus Etc.
9. I Got Nothing
10. To My Buddy, Buddy

 

Free Base
«The Ins and Outs»
CD Emanem, € 15,95


Foram necessários dez anos de existência para que o trio Free Base (Alan Wilkinson, Marcio Mattos e Steve Noble) gravasse um disco. O que só pode ser explicado pelo facto de a música improvisada ter o palco como prioridade, ainda que tal signifique muitos excelentes momentos e formações instrumentais não ficarem documentados para a posteridade. Wilkinson tem como principal instrumento o saxofone barítono e destaca-se pela sua abordagem brutalista do dito, patente neste álbum, aliás, em “Kissing the Shuttle”, mas na maior parte dos casos, e muito especialmente em “Sea Frett”, escolhe uma intervenção mais introspectiva e comedida. Mas não propriamente “soft”: a inquetação está sempre presente e por vezes há grandes ascensões de volume. Há longas décadas radicado em Londres, o contrabaixista (e noutros contextos violoncelista) brasileiro Marcio Mattos tem um papel fundamental na construção das densidades que caracterizam a música proposta. Utilizando muito frequentemente o arco, pode dizer-se que ele pensa tudo o que faz tendo em conta a utilidade das suas contribuições para o efeito global. Noble, por sua vez, adopta regra geral a função do baterista de jazz, seja definindo as métricas, por mais irregulares que elas nos surjam, como jogando com colorações (grande trabalho de pratos!). Embora “The Ins and Outs” seja totalmente improvisado, ou assim parece, o alinhamento com as coordenadas do free jazz é mais do que óbvio, o que até explica a designação do grupo. A esse nível, nada acrescenta de novo a esta estética já bem definida, mas mostra-nos que o modelo ainda não está esgotado.
(13-01-2006)

1. Trepid
2. Sea Frett
3. Absolute Xero
4. Skzypce
5. Kissing The Shuttle
6. Soup Song
7. I Wak On (For John Lester)
8. Sortie

 

Free Fall
«Amsterdam Funk»
CD Smalltown Superjazz, € 16,50


O "Free" do título e o "Funk" do nome deste trio constituído pelo contrabaixista Ingebrigt Haker Flaten com Havard Wiik no piano e o grande Ken Vandermark nos clarinetes são algo enganadores quanto ao seu conteúdo, pois não encontramos neste CD os assomos recuperadores da "new thing" dos Sixties e dos Seventies que os músicos envolvidos têm dado à estampa nem recriações da rítmica gingada de uns Funkadelic, a que designadamente Vandermark já dedicou a sua atenção. O que se propõe em "Free Fall" é uma continuação do espírito camerístico do jazz aberto e "savant" tocado por Jimmy Giuffre com Paul Bley e Steve Swallow. Com a diferença, relativamente a "Furnace", o anterior e único disco do grupo, de que agora as improvisações são totalmente livres, prescidindo da escrita de temas prévios - algo que Giuffre nunca teria feito. Se Haker-Flaten e o menino prodígio dos instrumentos de palheta são iguais a si próprios, mantendo bem alta a fasquia que eles próprios colocaram lá em cima, já o pouco ou nada conhecido Wiik é uma revelação que merece ser assinalada. Com um estilo pianístico que intercala a intensidade com uma delicadeza que chega a ser de filigrana, por ele passam muitas das pontes em direcção à música contemporânea que descobrimos nesta música. A utilização dos espaços e da melodia vem claramente dessa outra margem. Muito bom. Sentem-se à frente dos altifalantes e dêem-se tempo, que isto é música para ouvir com vagar e predisposição. Uma das melhores faixas chama-se "November" e bem que pode ser a banda sonora deste Outono...
(11-11-2005)

1. Accidents with Ladder (for Nate McBride)
2. Framework 4
3. November (for Jeb Bishop)
4. Framework 6
5. Turn[s] (for Terrie Ex)
6. Framework 9
7. 291 (for Jimmy Giuffre)
8. Framework 5
9. Lonnie
10. Framework 3
11. Still life (for Willem de Kooning)
12. Framework 10
13. Mythologies

Fridge
«The Sun»
CD Domino, € 18,50

Os britânicos Fridge foram sempre uns ilustres desconhecidos desde que em 1997 começaram a dar os primeiros passos no território indefinido do pós-rock, com guitarra, baixo e bateria, e sempre com a electrónica a (des)marcar compasso e o jazz como inspiração. O segundo e provavelmente mais eclético álbum “Semaphore” (1998) deu alguma projecção à banda de Kieran Hebden, Adem Ilhan e Sam Jeffers, mas essa projecção que acabou por dar mais frutos aos projectos dos três músicos para além dos Fridge. Nomeadamente os Fourtet de Kieran Hebden, cada vez mais famoso e bem vincado na vertente electrónica, mas também estou a falar Adem, o projecto pessoal de Adem Ilhan, que aborda o pop-folk com simplicidade e muita elegância. Sam Jeffers foi o único que ficou musicalmente fiel aos Fridge em exclusivo, sendo a sua actividade paralela o webdesign, que aliás pode ser apreciado nos websites dos Fourtet e Adem.

Foi o facto dos Fridge terem ficado em segundo plano em relação a Fourtet e Adem, que provavelmente fez com que desde 2001 o projecto tenha ficado em pousio, sendo agora ressuscitado com um grande disco que recorda os tempos mais inspirados e abrangentes dos Fridge. Um disco complexo, ambicioso e até disruptivo, que contrasta com a linearidade do seu título, “The Sun”, mas que nem por isso é menos agradável e refrescante. Um disco que demonstra que apesar de tudo, estes três músicos continuam a ter um enorme prazer em tocar juntos e que continuam a saber explorar, agora com ainda mais capacidade, todas as influências que os continuam a marcar, como por exemplo no portentoso “Eyelids”, ou no etéreo “Insects”.
“The Sun” é assim como que um regresso à garagem que os viu nascer e também marca o regresso a um género sempre indefinido, o dito pós-rock, que teve algum furor na segunda metade da década de 90 do século passado, mas que ainda demonstra capacidade para surpreender. E para ser refrescante...
 Covas Dauro in Escape From Noise

(
07-09-2007)

1. Sun
2. Clocks
3. Our Place in This
4. Drums of Life
5. Eyelids
6. Oram
7. Comets
8. Insects
9. Lost Time
10. Years and Years and Years...

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Fujiya + Miyagi
«Transparent Things»
CD Tirk!, € 16,50

Isto dos fenómenos culturais tem muito que se lhe diga. No Japão de hoje foi-se pegando em formas artísticas deste lado do globo e dando-lhe vincos nipónicos, mas agora vemos acontecer exactamente o mesmo processo na inversa. Os Fujiya & Miyagi, apesar do nome, não são do país do Sol Nascente nem um duo, mas ingleses e um trio, designadamente David Best, Steve Lewis e Matt Hainsby. Esforçam-se por parecerem japoneses a fazerem música urbana do Ocidente, mas na verdade trata-se de uma ironia e até de uma provocação – aliás, Miyagi não é outro senão a personagem do filme “Karate Kid”, e Fujiya não passa de uma marca de gira-discos. Independentemente do humor britânico, a combinatória entre Can, Neu!, Talking Heads e Happy Mondays que encontramos em “Transparent Things” (título roubado a um romance de Vladimir Nabokov) é, de facto, algo que poderia surgir com rótulo Made in Japan – foram eles que se notabilizaram a produzir este tipo de híbridos, afinal. A música é meio rock Seventies e meio electrónica de agora e ouve-se muito bem, convidando a novas visitas.
(
07-07-2006)

1. Ankle Injuries
2. Collarbone
3. Photocopier
4. Conductor 71
5. Transparent Things
6. Sucker Punch
7. In One Ear & Out The Other
8. Cassettesingle
9. Cylinders

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Gary Bredow
«High Tech Soul – The Creation of Techno Music»
DVD Plexifilm, € 23,95


Detroit. A cidade americana onde se concentra a indústria automóvel foi também a que marcou a fundação de um novo género de música vocacionado para a noite, a soul electrónica baseada na manipulação de gira-discos que depois ficou simplesmente conhecida como techno. Num documentário de Gary Bredow, estrelas locais do género como Juan Atkins, Derrick May, Kevin Saunderson, Richie Hawtin, Jeff Mills, Carl Craig e Eddie Fowlkes contam o que aconteceu desde finais da década de 1980 e avançam com as suas próprias interpretações do que significou e significa o fenómeno que roubou protagonismo ao jazz e à Motown como a mais mobilizadora das músicas negras. Entre explicações e conjecturas, ouvimos e / ou vemos Aux 88, Cybotron, Inner City, Mayday, Model 500, Plastikman e Rhythim Is Rhythim, entre muitos outros exemplos. Sabe-se o rastilho que esta identificação de uma música com uma cidade representou, tanto para o resto dos EUA, com a gradual explosão de outras cenas metropolitanas, como para o Canadá, a Europa, o Japão. Muito depressa o novo techno se tornou no padrão das músicas de dança e desbunda nos quatro cantos do planeta, do Brasil e da África do Sul à Tailândia e à Islândia, tanto assim que uma expressão musical de natureza afro-americana ganhou universalidade, e não necessariamente devido às influências do “imperialismo” cultural yankee. Ainda assim, o “estilo de Detroit” permaneceu intocável, prova de que “agir localmente” impõe mesmo formatos ao “pensamento global”. Afinal, a robotização e a informatização das linhas de montagem automóvel só poderiam ter consequência no imaginário dos filhos dos operários. Se nos empregos dos pais as máquinas colocavam em risco os seus postos de trabalho, ou dispensava-os mesmo, porque não utilizar a tecnologia inteiramente ao seu serviço na música, e não o contrário? O techno começou por ser um acto simbólico de possessão, é o que ficamos a perceber com este filme que já tardava.
(22-09-2006)

 

Gary Higgins
«Red Hash»
CD Drag City, € 16,50


Ora cá está a reedição que fazia falta e que nos demonstra que a presente febre do free folk não é tão inovadora quanto se julgava. Sobre este “Red Hash”, gravado em 1973 e editado pela micro-label Nufusmoon Records, muito se falava mas poucos tinham ouvido. David Tibet era um acólito, como aliás a folk psicadélica/industrial dos Current 93 testemunhava, e Ben Chasny (Six Organs of Admittance) fez uma cover de “Thicker than a Smokey” que deixou as antenas de muita gente em alerta, mas pouco mais indicava que esta obra alguma vez tinha visto a luz do dia, a não ser, claro, e já é muito, a influência que deixou nos Devendra Banharts que foram despontando dos dois lados do Atlântico. Exemplares da edição original em vinil ainda são publicitados na Internet a elevadíssimos preços de coleccionador, mas temos finalmente este marco histórico em suporte digital, e – boas notícias – com a mesma capa que nos mostra um Gary Higgins barbudo e ruivo, de longos cabelos e a aparência hippie própria da época.E com duas faixas extra totalmente inéditas, “The Last Sperm Whale”, registada em 1975, e, já datando de 1980 e mais convencional, a canção “Don’t Ya Know” A designação Red Hash, também o nome do grupo que o acompanhava e que integrava violoncelo, flauta, bandolim, piano, baixo, bateria e guitarras (acústica, claro, e eléctrica, tocadas por um futuro membro dos Silver Apples, Jake Bell), diz tudo sobre o mundo fumarento em que este cantautor vivia então. Rezam as crónicas, aliás, que logo após a gravação deste disco Higgins teve de se apresentar às autoridades para cumprir uma pena de dois anos por posse de haxixe. Eram para ser mais, mas um bom advogado conseguiu diminuir-lhe o tempo de cadeia. O tema dedicado à baleia é uma celebração da liberdade reconquistada, mas a verdade é que no fim da história a que dá voz a dita morre e este pioneiro saiu de cena, para só agora ser redescoberto. E de que maneira, com uma agenda de concertos que está a ser a consequência do sucesso deste álbum essencial da história da música popular americana. Depois de o ouvir, percebemos melhor o que estão a fazer os Animal Collective ou os Sunburned Hand of Man. Para que tal acontecesse e este CD da Drag City visse a luz do dia, houve um homem que se desdobrou em iniciativas para encontrar Gary Higgins nas listas telefónicas do Connecticut, enviando cartas a todos quantos tinham o mesmo nome: Zach Cowie. A sua investigação foi coroada de êxito, para nossa felicidade e a deste grande músico que os imperativos da vida (uma família e a sobrevivência) obrigaram a arranjar um emprego “normal”. Nunca é tarde para voltar...
(26-08-2005)

1. Thicker Than A Smokey
2. It Didn't Take Too Long
3. Windy Child
4. Telegraph Towers
5. I Can't Sleep At Night
6. Cuckoo
7. I Pick Notes From The Sky
8. Stable The Spuds
9. Down On The Farm
10. Unable To Fly
11. Looking For June
12. Don't Ya Know - (bonus track)
13. Last Great Sperm Whale - (bonus track)

 

Gavouna
«Falling EP»
3"CD LOAF, € 14,50


Com anteriores edições de prestígio, Gavouna (de nome real Athanasios Argianas) calmamente alcançou reputação na criação de paisagens sonoras delicadas, e em experiências ambientais introspectivas. Não há comparação possível para a sua música... Talvez Arthur Russell na sua fase mais frágil, ou Penguin Café Orchestra... No fundo algo tão frágil para se conseguir absorver, no entanto imbuído de uma persistente ressonância emocional, raramente encontrada neste mundo electrónico tão agressivo.
(
29
-06-2007)

"Widescreen soundscapes" DJ Magazine

"unfathomably warm, heart wrenching orchestral instrumentation that fuses Aphex Twin's vulnerable side with the measured emotion of Steve Reich. An absolute wonder." Dummy

"Meticulously hand crafted, delicate precision" I-DJ

"Heartfelt organic warmth" Jockey Slut

"Incredibly delicate…often dreamlike, gentle experimental joy" XLR8R

1. Airs vs 1
2. Fools (Detuned Guitar Version)
3. Leo & Lydia vs 2
4. Airs vs 2

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

General Patton/The X-Ecutioners
«General Patton Vs. The X-Ecutioners»
CD Ipecac, €18,90

Aqui está a resposta a quantos se interrogavam quanto à possibilidade de as improvisações ao vivo de Mike Patton (o ex-Faith No More e ex-Mr.Bungle que agora encontramos como “frontman” dos Fantômas e dos Tomahawk) com o trio de DJs conhecido como X-Ecutioners vir a dar origem a um disco. Deu mesmo e é um acontecimento, à semelhança do que sucedeu com o muito aplaudido “California”. O universo em que se insere já não é o pop-rock, como nesse título que se tornou numa referência de base, mas o hip-hop, com os scratches de gira-discos que definiram o género e a actividade daquela “task force” – é assim que gosta de se apresentar – constituída por Rob Swift, Roc Raida e DJ Total Eclipse. E não se pense que Patton ocupa a posição convencional do MC: adiciona teclados, guitarra, baixo, percussão e programações electrónicas, para além da sua voz, às manipulações de discos de vinil, e enquadra estas nas molduras distintivas da sua própria música. Aliás, pressente-se em “General Patton vs. the X-Ecutioners” a influência de John Zorn, com quem tem colaborado com frequência, para não falar também na de Frank Zappa: as estratégias de colagem de situações totalmente diversas e as mudanças abruptas de direcção assemelham-se bastante às de ambos esses nomes, com a diferença de que atingem um nível de esquizofrenia sonora e estrutural inédito.

O método de trabalho escolhido é elucidativo de que este é, sobretudo, um disco de Mike Patton, e talvez seja por isso que se anuncie, sem quaisquer pruridos, como “general”. Foi ele quem forneceu a matéria-prima utilizada pelos X-Ecutioners a partir da sua pessoal colecção de títulos de vinil e os registos do que estes fizeram foram por ele posteriormente “tratados” a sós, de uma forma que nos remete para os procedimentos “cut and paste” de alguma electrónica digital que tem a plunderfonia e o plagiarismo como marca. É assim que, tratando-se de hip-hop em termos de filiação, o que esta estranha parceria nos proporciona ultrapassa as fronteiras do género, indo para zonas de experimentalismo onde já estavam uns CloudDead ou a recente proposta de Dalek com os históricos Faust. Altamente recomendado.
(18-02-2005)

 

Gerard Malanga
«Up From the Archives»
CD Sub Rosa € 15,50


Conhecida pelos seus preciosos documentos áudio, a belga Sub Rosa reedita o CD que dedicou em 1999 ao poeta, fotógrafo, cineasta e performer que esteve ligado aos Velvet Underground e foi assistente de Andy Warhol, entretanto esgotado. Uma decisão que se justifica por si mesma, pois trata-se do melhor exemplo do poliartista dos Sixties, em parte ligado à “beat generation” da década anterior (ouvimo-lo em “Up From the Archives” a conversar com William Burroughs) e em parte envolvido com o universo então emergente da Pop Art. E porque continua activo e actuante e a sua relação com a música se mantém viva, as leituras que faz de poemas e os seus diálogos com personagens históricas da (contra)cultura americana (Kerouac, Ginsberg, Corso, Orlovsky, Mead, Ford, Hartman, Warhol) são completadas com apontamentos musicais não só de Iggy Pop, um produto dessa época áurea, como também de Thurston Moore (Sonic Youth), que tem procurado muito especialmente alinhar a tradição artística do rock com o presente e o futuro, e DJ Olive, um dos poucos “scratchers” do hip-hop a desenvolver trabalho experimental com a mesma acuidade daquele proposto nesses tempos de grandes mudanças em que “helping to advance consciousness” (algo que Malanga disse a propósito de um dos seus autores favoritos, Ted Roethke) era o mote. Outro foi assumir a “coragem da descoberta”, ensinamento que recebeu do artista visual Marcel Duchamp, que aponta como uma influência decisiva. Aconselhou-o este, em 1963, a escrever poesia sem propriamente a escrever, utilizando apropriações, um processo que viria também a surgir na música por meio do “sampling” e dos pratos de DJing. “It came all from Duchamp”, recorda Malanga, não se verifique o caso de o esquecermos, e o certo é que muito boa gente não sabe como e quem começou o que fazem. Foi, de resto, Gerard Malanga dos primeiros a incluir movimento e coreografia em espectáculos de música e projecção de filmes, com os Velvet e Andy Warhol, coisa que hoje vai sendo comum mas na altura era uma novidade absoluta. Recentemente, fez uma leitura dos seus poemas em contexto electrónico, ao lado de Christian Fennesz, mais uma indicação de como continua na ordem do dia.
(03-02-2006)

1. To The Young Model, Name Unknown
2. Untitled - (with Iggy Pop)
3. The Recording Of Couch Dialogue - (with Jack Kerouac/Allen Ginsberg/Andy Warhol/Gregory Corso)
4. Cloud Asylum
5. The Recording Of Couch Dialogue Part 2
6. Comissioned By Gerard Malanga For His Film, In Search Of The Miraculous - (with Peter Hartman)
7. Library Of Congress- Division Of Music, Washington, D.C., May 28, 1945 - (with Willard Maas)
8. The 3rd Avenue El - (with DJ Olive)  
9. The Life And Death Of A Photograph
10. Leaving New York
11. 3 Haiku - (with Charles Henri Ford)
12. The Silk Process - (with Paradise Now)
13. The Young Mod - (with Erwan Szabo)
14. Discussion Of "Dream", New York, July 21, 1974 - (with William S. Burroughs)  
15. Untitled - (with Thurston Moore)

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Ghost
«Overture: Live in Nippon Yusen Soko 2006»
CD+DVD Drag City, € 16,50

Peça de 56 minutos e só com uma faixa (o que nos obriga a ouvir o CD do princípio ao fim), "Overture..." tal como o nome indica, é a gravação de um espectáculo ao vivo dos Ghost na sua terra natal. Pela qualidade da obra, e pela falta de sons do público, somos levados a pensar que se trata de uma gravação em estúdio, mas como é habitual nos concertos no Japão, o público só se manifesta (comedidamente) quando os artistas dão por terminada a sua performance.
Este disco é bem mais experimental que outros álbuns do colectivo, mas muito interessante também, mostrando que os Ghost se movimentam extremamente bem em várias áreas musicais. De fora estão os sons rock épicos que mostraram em "Stormy Nights", esta peça é, em contrapartida, uma 'quiet night' hipnótica, perturbante mas também electrizante.
Vale bem a pena ver o DVD com o espectáculo. 
Uma valente lufada de ar fresco.
(23-11-2007)

1. Overture

 

Ghost
«In Stormy Nights»
CD/2LP Drag city, € 16,50/€17,50


Entre o acid folk e o noise rock, os japoneses Ghost lançaram mais um grande disco alinhado com a cartilha psicadélica. Está cá tudo: baladas (cantadas em Inglês), flautas e percussão “freak”, distorção guitarrística, electrónica na fronteira com a música concreta, contrabaixo de jazz. Tudo misturado, e muitas vezes na mesma faixa, as improvisações free irrompendo próprio formato canção. A condição esquizóide desta música é tão peremptória que os investimentos musicais exclusivistas é que nos parecem artificiais. E no entanto, nada a banda de Masaki Batoh faz para esconder o conflito inerente às associações operadas: não há fusão nem colagem, mas simples coexistência de direccionalidades. Neste difícil contexto, surpreende que seja possível dar uma personalidade própria ao conjunto das realizações documentadas em “In Stormy Nights”, e o certo é que os Ghost nada têm quer ver com outros exemplos do psicadelismo nipónico, Acid Mothers Temple, Boredoms e Boris à cabeça. O conflito referido está petente, por exemplo, nas tentativas de estabelecer uma ordem estruturante à amálgama sonora de algumas passagens do álbum e na verificação de que nem sempre tal é conseguido, consistindo a sua mais-valia precisamente nas impossibilidades de conciliação. Exemplar.
(23-02-2007)

No CD:
1. Motherly Bluster

2. Hemicyclic Anthelion

3. Gareki No Toshi

4. Water Door Yellow Gate

5. Caledonia

6. Grisaille

No 2xLP:
1. Hemicyclic Anthelion
2. Water Door Yellow Gate
3. Gareki No Toshi
4. Motherly Bluster
5. Caledonia
6. Grisaille
7. Caledonia (Sing Together Mix)

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Ghost
«Metamorphosis: Ghost Chronicles 1984-2004»
CD+DVD Drag City, €18,50



O grupo de rock neopsicadélico japonês que já foi capa da "Wire" fez no ano passado 20 anos de vida e esta edição em CD e DVD documenta-os com a necessária amplitude. A parte áudio recorda-nos o que foram no final da década de 1980, entre gravações de estúdio até agora deixadas inéditas, dois "outtakes" do seu homónimo álbum de estreia, saído em 1990, e improvisações ao vivo, uma delas no metropolitano de Tóquio. A influência dos germânicos Amon Duul e até dos brasileiros Mutantes é óbvia na sua "trance music" que deve tanto ao psicadelismo rock e folk como à espiritualidade "free" de um John Coltrane. Os vídeos vão de 1984, com o registo de uma demonstração a favor da libertação do Tibete em frente à embaixada da República Popular da China na capital nipónica, a 2004, com um concerto no americano Star Pine Cafe. E se pelo meio assistimos a imagens e sons de actuações dos Ghost em templos vários, não é sem surpresa, dado o carácter ritualístico da música que desde sempre vêm praticando, entre o neo-hippismo "freakout" de que os Acid Mothers Temple também são um estandarte e a experimentação com base em estruturas estáticas, numa linha não muito distante do que propõem os AMM ou os Musica Electronica Viva. Ao longo do tempo muitos músicos têm entrado e saído do colectivo, como se verifica consultando as fichas técnicas, mas este é o projecto pessoal e reiterado de Masaki Batoh, guitarrista/vocalista que toca também os mais diversos instrumentos de cordas, do banjo à medieval sanfona, em situações musicais que cruzam a tradição religiosa japonesa com a vanguarda e a pop ocidentais. Muita percussão, vozes guturais, estridências de saxofone, violino, guitarra acústica em versão "campfire", flautas barrocas e sintetizador analógico contribuem para as muitas cores desta música que funciona como um caleidoscópio e uma "trip" sonora pelos férteis mundos da psique. Magnífico e essencial.
(09-06-2005)

 


Giant Sand
«Is All Over The Map»
CD Thrill Jockey, €16,99

Estes Giant Sand, de momento, já não são os Giant Sand de Joey Burns e John Convertino. Da mesma forma que não o eram no início, em 1980 – com Rainer Ptacek e Dave Seeger então ao lado de Howe Gelb. Tudo porque os Giant Sand nunca foram pensados como uma banda tradicional. Pelo contrário, e em especial nos últimos anos – em que Burns e Convertino se ocupam cada vez mais dos Calexico e Howe se tem desdobrado em colaborações e álbuns a solo -, os Sand são tidos como um pretexto para juntar velhos e novos amigos em torno de um núcleo capaz de andar na estrada. E com esse fim, Howe recrutou os mesmo músicos que o tinham ajudado em «The Listener» enquanto vivia na Dinamarca: Anders Pedersen, Thoger T. Lund e Peter Dombernowsky. E para equilibrar um pouco as coisas quis também ter John Parish por perto. Em entrevistas de promoção a este «Is All Over the Map» tem frisado as características intrínsecas à sua génese, sustentação e até à forma em como o seu título serve para reforçar a noção de que os Giant Sand já não têm propriamente residência física. Pelo contrário, um álbum de Giant Sand deverá ser suficiente para os fãs perceberem por onde é que Howe andou nos últimos tempos, com quem esteve e com quem é que gostou mais de estar. Assim, não deixa de ser curiosa a falta de cerimónia no anúncio que dá conta das participações neste novo álbum. Ao terceiro tema temos um dueto com Scout Niblett; em vários, novamente como em «The Listener», Marie Frank e Henriette Sennenvalt fazem coros; Vic Chesnutt canta no 13º tema; a voz do pequeno tributo aos Sex Pistols – 14º tema – é a da sua filha Indiosa Patsy Jean Gelb; e, por fim, em «Les Forçats Innocents» canta em francês com a sua própria mulher, Sofie Albertsen Gelb. No geral, passa-se obliquamente pelo country e blues, mas manobra-se em território imaginado, alimentado por algumas valsas, polcas, rumbas e muitos km. No fim da viagem está sempre Tucson e, provavelmente, Nick Luca por detrás de uma mesa de misturas. Porque é assim o mundo de Howe Gelb: um pouco como o deserto que envolve a sua casa, permanece selvagem, inesperado e permeável ao acaso, ainda que, visto de longe, nada de muito importante lhe pareça estar a acontecer. Há apenas que entendê-lo no seu próprio espaço e tempo.

 

The Girls
«Rush»
CDEP LOAF, € 7,50


1. Rush
2. The Girl From Yesterday

3. The Girl From Yesterday (Vincent Oliver's Fripp Mix)

4. Rush (Kid Twist's Beat Down The Upset Mix)

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Githead
«Art Pop»
CD Swim, € 16,
50

Constituído por 4 estrelas à medida do cenário arty que sucedeu à explosão provocada pelo punk, os Githead ameaçaram ser apenas uma pequena brincadeira montada em honra a um evento específico (o 10º aniversário da editora Swim) para, ao 2º álbum, se tornarem num caso muito sério de talento, equilíbrio, inovação, experiência e criatividade. «Art Pop» evidencia tudo isto num condensado musical atractivo e inteligente!

Vamos às partes: Colin Newman (inglês) é um músico por demais conhecido entre os cultores atentos da produção musical punk e pós punk, tendo passado boa parte da sua carreira a criar géneros para, de seguida, os questionar com a mesma diligência e sabedoria. O seu percurso com os insuspeitos Wire, primeiro, e a solo, depois, transformaram o músico britânico num elemento respeitável, cuja irreverência artística sempre parece levá-lo a encontrar novas formas de expressão; Malka Spigel (israelita), sua mulher, destacou-se nos Minimal Compact com o minimalismo do seu baixo e a sua voz sulfúrica, ajudando a desenhar um conceito de música intelectual que fez escola na Bélgica e Holanda no decorrer dos anos 80, lado a lado com os inesquecíveis Tuxedomoon e um conjunto de músicos que ali encontrou exílio artístico e mesmo político; Max Franken (holandês) foi o elemento europeu adicionado aos Minimal Compact quando se tornou evidente que aquele trio israelita necessitaria de um baterista que assegurasse o dinamismo dos espectáculos ao vivo; já Robin Rimbaud (inglês) tem-se ocupado com o seu projecto a solo, Scanner, com o qual desenvolve uma apertada relação entre som, ambiente, imagem e forma, criando música e instalações artísticas que equacionam a tecnologia e as suas interpenetrações com a esfera social envolvente.

Se «Art Pop» se limitasse a somar os talentos de cada um dos elementos do quarteto Githead seria já um disco notável, de eficácia garantida. Mas a sua busca de movimentos de impulsão criativa que se manifestem em formato musical consegue burilar os seus talentos individuais, que encontram na conjugação de esforços a combinação exclusiva que faz deste disco uma peça de joalharia desenhada com cuidado e rigor, mas também com o brilho próprio dos tesouros exclusivos.

As vozes de Newman e Spigel alternam-se ou recombinam-se em lugares novos e estranhos. As guitarras processadas são o elemento de choque e ruído, milimétricamente disposto sobre os desenhos electrónicos de Rimbaud, que sustentam com pormenores os vapores inundantes que torneiam cada canção, envolvendo-as num veludo suave, mas desconhecido. Depois há o ritmo. Franken bate nas peles com a mesma precisão demencial que provavelmente observa nos seus pacientes, quando no dia a dia troca a bateria pela bata de enfermeiro de psiquiatria.

Tudo isto combinado eleva «Art Pop» ao estatuto de manifesto artístico de alta relevância, em que a encruzilhada de diferentes expressões e géneros resultam num disco incatalogável, em que os estilhaços de punk, funk, dub, rock, industrial se lambuzam deleitadamente com linguagens cinemáticas e literárias, originando uma obra decididamente pop, mas arrojadamente arty. Pedro Portela in O Domínio dos Deuses

"Newman seems to have relocated the combination of sardonic intellectual wit and winning pop song craft that made Wire such an engaging (and influential) post punk prospect." Andy Gill in The Independent

"Slyly subversive gems that recall Wire when they were edging into poppier territory." John Lewis in Uncut

"Gloriously demented" Dave Simpson in The Guardian

"Simultaneously brooding, lush, aggressive and lyrical, this is a reclamation of pop and rock music at their most atmospheric and beguiling." Michael Bracewell in The WIRE Magazine

1. On Your Own
2. Drop
3. Drive By
4. Lifeloops
5. These Days
6. Jet Ear Game
7. Space Life
8. All Set Up
9. Darkest Star
10. Rotterdam
11. Live In Your Head

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Githead
«Profile»
CD Swim, €16,50


O que esperar de um grupo que inclui dois antigos membros dos Minimal Compact, Malka Spiegel e Max Franken, o mentor do grupo pós-punk Wire, Colin Newman, e Robin Rimbaud, mais conhecido nos meios da electrónica como Scanner, não com o seu habitual computador mas com uma guitarra eléctrica? É difícil de imaginar, mas aqui estão eles, oferecendo-nos uma pop sofisticada que funciona como uma espécie de "PIL meets Neu!". De facto, o baixo industrial/funky de Spiegel parece vir directamente de "Metal Box", da banda de Johnny Lydon, e os saltitantes ritmos e atmosferas deste desconcertante álbum lembram "Hallogallo" ou até "Neu!2". Do anterior EP "Headgit" vem o surrealismo das letras, "cadáveres esquisitos" com pouco sentido imediato retirados de revistas e "spam" disseminado por e-mail, apontadas pelos Githead como "detritos da vida dos nossos dias", mas se a estreia discográfica do projecto incluía dois temas instrumentais (influência de Rimbaud?), o que agora encontramos são canções "tout court". A atitude tem tudo a ver com o punk e o tratamento dos sons deve muito às coordenadas por que se rege o ambientalismo e a electrónica "dub", mas é inútil procurar influências de qualquer das outras actividades, presentes ou passadas, dos músicos envolvidos, a não ser talvez os primeiros discos a solo de Newman nos anos 1980. Os créditos vocais vão principalmente para este, mas mais uma vez o músico britânico faz questão de não ser possível comparar estes seus desempenhos com os que vem desenvolvendo no seio dos Wire. Se nada há em "Profile" de verdadeiramente inovador, o mais não seja porque ainda há muito a fazer com as coordenadas em circulação, este disco é uma autêntica lufada de ar fresco no panorama "indie". Pelo simples motivo de que baralhou as cartas e tornou a dar.
(13-05-2005) 

1. Alpha
2. My Lca (Little Box Of Magic)
3. Cosmology For Beginners
4. Antiphon
5. They Are
6. Option Paralysis
7. Wallpaper
8. Raining Down
9. Pylons

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Gnac
«The Arrival of The Fog»
CD LTM, € 15,95

Este é o quinto álbum de estúdio do projecto Gnac, da autoria de Mark Tranmer, a outra metade dos Montgolfier Brothers. O álbum centra-se em dez novas peças instrumentais gravadas em Tóquio, Osaka, Wollongong e Hebden Bridge entre Outubro de 2006 e Maio de 2007. Ao invés de discos anteriores, "The Arrival of The Fog" possui uma estrutura bem mais rica a nível instrumental, não só com o piano a marcar presença mas também instrumentos de cordas, e alguma tímida electrónica. Esta riqueza instrumental dá origem a melodias fílmicas, com uma forte característica melancólica, por vezes influenciadas por ilustres como os compositores de bandas sonoras John Barry e François de Roubaix, por outras por Vini Reilly ou Georges Delerue. 
(21-12-2007)

1. Arrival Of The Fog
2. Nautical Episodes
3. Japanese Fiction
4. Vetchinsky Backdrop
5. Vertical Features
6. Horizontal Happiness
7. Winter Circus
8. What To Make Of Jagged Graphs
9. Examples Of Bad Driving
10. Cliques And Clusters
11. Bright Days In Winter
12. Winter Blanket

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

Ouros títulos disponíveis:

Gnac
«Sevens»
CD LTM, € 15,95

Gnac
«Biscuit Barrel Fashion»
CD Poptones, € 12,50

Gnac
«Twelve Sidelong Glances»
CD LTM, € 15,95

 

 

Great Lake Swimmers
«Bodies and Minds»
CD Fargo Records, €16,50


Gravado numa igreja (a St. Theresa's Church de Ontario, no Canadá), mas sem pretensões religiosas (mesmo quando se trata a busca de transcendência espiritual), "Bodies and Minds" centra a acção na voz de Tony Dekker e nas cordas dedilhadas (guitarra clássica, guitarra eléctrica, banjo, lap steel, tocados pelo próprio Dekker e por Erik Arneson e Sandro Perri), associando-lhes um piano, uma discreta bateria e por vezes o instrumento mais simbólico da folk, a harmónica. Numa das faixas ("Falling Into the Sky"), participam os London Ontario Community Singers, mas tudo decorre de forma leve e despida de ornamentações excusadas. O canto é sensual e ligeiro, mesmo quando o tema é a depressão maníaca, e se o ouvinte reconhecer inflexões dos Love, de Nick Drake e de Neil Young via Will Oldham não se engana, pois é esse o mundo habitado por esta música inserível na presente vaga dos "cantautores". A nostalgia do campo é mesmo um dos temas escolhidos, e não se admirem se uma canção falar de anjos ("Song for the Angels"): os Great Lake Swimmers acreditam mesmo em poderes superiores ao humano. As letras não são letras, mas poesia na verdadeira dimensão do termo (um exemplo: "Breathing this poison, alive but near death / Under the water and holding my breath / But we were made to drink in the earth / Its rivers and gutters and mountain of worth"). Tony Dekker já o esclareceu: "Tento ser o mais directo que posso, com os termos mais simples que encontro." Está tudo dito.
(22-04-2005) 

 

Gregor Samsa
«55:12»
CD Own Records, 15,95


Gregor Samsa: é assim que se chama a personagem de “A Metamorfose” (Kafka) que numa terrível manhã acorda para se descobrir transformado numa enorme barata. É também o nome de um grupo de Richmond, EUA, que despertou para o rock “de câmara” com um som canadiano que nos remete imediatamente para Godspeed You! Black Emperor, A Silver Mount Zion, Tra-La-La Band e demais feitores do estilo Constellation, somando-lhe ainda alguma coisa da Islândia (Sigur Ros, Múm). “Vacuous mindscapes” é uma das muitas tentativas de definição já utilizadas para caracterizar este tipo de abordagem que concilia a distorção das guitarras eléctricas e os vocais ganzados com o neo-classicismo das cordas de arco, mas se o primeiro dos grupos referidos tem ambições épicas e as suas peças consistem usualmente em ascensões sonoras seguidas de implosões quando chegam lá acima, os Gregor Samsa desenvolvem as suas tramas cá por baixo, enchendo o ar com cores sem nunca necessitarem da espectacularidade do fogo-de-artifício. Aliás, as suas vozes sussurrantes e até “de cama” (parecendo, de resto, referir-se menos a Kafka e mais a Philip Roth, autor de um conto kafkiano em que um homem se transforma numa mama) são mais langorosas do que outra coisa, convidando à horizontalidade e não propriamente a transportar bandeiras.
(
27-04-2006)

1. Makeshift Shelters
2. Even Numbers

3. What I Can Manage 

4. Loud and Clear

5. These Points Balance

6. Young and Old

7. We'll Lean That Way Forever 

8. Lessening
 

Clique aqui para escutar excertos de alguns dos temas

 

Grizzly Bear
«Yellow House»
CD Warp,
 €16,95

1. Easier
2. Lullabye

3. Knife

4. Central And Remote

5. Little Brother

6. Plans

7. Marla

8. On A Neck On A Spit

9. Reprise

10. Colorado

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Gudrun Gut
«I Put a Record On»
CD Monika Enterprise, € 15,9
5

Gudrun Gut:
-realizadora do programa de rádio "Oceanclub Radio" da Radio Eins de Berlin;
-label manager da etiqueta Monika Enterprise;
-popular DJ, frequentemente em tournée por todo o mundo;
-e ainda artista que consegue gravar álbuns; é obra! Um dos membros fundadores das lendárias Malaria!, Maria D. e Matador, Gudrun Gut não dorme em serviço, e não é por ser hiper-activa, está sim na sua natureza. Com toda esta actividade, é incrível como "I Put a Record On" é o seu álbum de estreia a solo.
Ao longo do álbum é criada uma atmosfera delicada, e ainda que os temas sejam extremamente diferentes entre si, esta atmosfera nunca é quebrada. Dentro dos parâmetros da música electrónica, Gudrun aproxima-se por vezes do techno-pop, outras de ambiências experimentais, outras ainda por melodias mais negras e obscuras, mas sempre com uma componente quase hipnótica, puxando-nos para um estado de torpor definitivo. De temas como a genial versão do original dos Smog "Rock Bottom Riser" (aqui com a colaboração de Matt Elliott), a "Move Me", um cruzamento de Polka e Tango, e que causou boa impressão não só à revista Wire como a Martin Gore, "I Put a Record On" é uma pedrada no charco, uma obra-prima (a primeira de muitas, esperamos) de uma artista que ainda não mostrou tudo aquilo que vale.

(
25
-05-2007)

1. Move Me
2. Rock Bottom Riser
3. The Land
4. Cry Easy
5. Girlboogie 6
6. Blätterwald
7. Last Night
8. Sweet
9. Pleasuretrain
10. The Wheel
11. Tip Tip
Vídeo "Celle"

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Guided by Voices
«The Electrifying Conclusion»
DVD Plexifilm, 23,95


Para os saudosistas, os coleccionadores e todos aqueles que cultivam o sentido histórico, “The Electrifying Conclusion” é o documento audiovisual do último concerto dado pelos Guided by Voices. Aconteceu na Metro de Chicago, quando corriam as primeiras horas de 1 de Janeiro de 2004 – para ser mais exacto, quatro, tantas quantas as que tocaram nesta despedida, o equivalente a 65 canções. A introdução é difícil de acompanhar, com fotos de várias épocas deste grupo de longa existência (mais de 20 anos!) intercaladas com imagens de flores e borboletas e um sintetizador a confirmar que se trata de um requiem, mas depois dos longos minutos de excusado sentimentalismo é o mais próximo que há da música ao vivo o que temos, e sem particulares cuidados de edição e montagem, transmitindo-nos toda a verdade de um concerto rock (deliciosa, a forma como a câmara acompanha o vocalista Robert Pollard quando este larga o microfone para ir beber shots de tequila ao bar montado num canto do palco, temperando a cerveja que volta e meia o vemos a emborcar). E levaram vários antigos membros do grupo e alguns convidados e amigos, como Matt Sweeney (Zwans) e Jon Wurster (Superchunk), entre outros. As actuações ao vivo dos GBV eram famosas por arrancarem com muita energia e objectividade, ganhando gradualmente ao nível da performance o que perdiam de coerência musical conforme as garrafas iam ficando vazias. Neste, as coisas não se passaram exactamente do mesmo modo, dadas a longa experiência etílica e a mestria instrumental acumuladas, mas há quem quase coloca a toalha aos ombros e desista: Nate Farley, um dos guitarristas, tão embriagado que já quase não consegue tocar. A idade, decididamente, não perdoa. E o certo é que Pollard, mentor dos GBV e o único que restou da formação original, já não era nesta altura o que foi noutros tempos, com o seu cabelo grisalho e uma barriga de cevada fermentada a acusar que se tornou num quarentão. O cansaço é visível no seu rosto e em algumas posturas, mas o certo é que nunca esmorece. Quem esteve presente nesta passagem de ano ficou na memória com um dos melhores momentos dos homens que ouviam vozes e quem adquirir este DVD guardará em casa o registo de uma das mais emocionantes celebrações que o rock and roll já teve.
(
24-03-2006)

 

Guitar
«Tokyo»
CD Onitor, € 18,95

Justificando o título que tem, o novo álbum de Michael Luckner sob o nome Guitar é para a música tradicional japonesa o que o seu anterior “Honeysky” foi para o country e para o bluegrass da América “hillbilly”, com o koto e a pipa no lugar do banjo e da guitarra de cordas de aço, apresentando os mesmos envolvimentos electrónicos e um agitado “beat” de dança a suportar cada construção. Guitar porque no centro do trabalho de Luckner estavam as guitarras, eis que o músico alemão abre o âmbito do projecto a outros instrumentos de cordas dedilhadas, mas sempre passando-os pelo crivo do “sampling”. Já a voz de Ayako Akashiba surge, regra geral, em reprodução directa e ligando os dois mundos desta música que dá uma perspectiva cibernética à ancestralidade nipónica, algo que, aliás, a modernidade daquele país convida a fazer. A ideia é simples e até óbvia, os resultados são assaz curiosos. E que distância percorreu já este músico relativamente à sua influência maior quando arrancou, o grupo My Bloody Valentine...
(29-09-2006)

1. Sunday Afternoon At Tamagawa River
2. Naoki
3. Red & White
4. Tokyo Memory
5. Ayako
6. Wash Me Away
7. Akiko
8. Sakura Coming
9. Maki

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 



The Gun Club
«Miami»
«Dance Party»
«The Las Vegas Story»
todos CD Sympathy For The Record Industry, €14,50

Do final dos anos 70 até à sua morte em meados da década de 90, Jeffrey Lee Pierce foi figura de proa de uma das mais lendárias bandas de rock’n’roll dos últimos 20 anos, os Gun Club. Pierce viveu no fio da navalha conforme os mandamentos do rock, ajudando a construir uma aura única em torno dos Gun Club que, por onde passavam, iam arrasando palcos e multidões, valendo-lhes em pouco tempo a admiração de muitos e o estatuto de “one of the best live acts ever”. Por cá podemos testemunhar uma das últimas das várias incarnações da banda, numa fugaz passagem pela antiga sala do cinema Império, já em inícios de 90. A banda foi ainda responsável por um punhado de discos que estiveram sempre mais ou menos disponíveis, à excepção do tríptico essencial composto por «Miami», «Death Party» e «Las Vegas Story», os três agora oficialmente reeditados através da Sympathy For The Record Industry. Há mais de dez anos sem uma edição oficial em CD, «Miami» de 1982, é o difícil sucessor do celebrado «Fire Of Love». Chris Stein dos Blondie, assegura uma produção cristalina e Debbie Harry (sob o pseudónimo de D.H. Lawrence) insinua-se por detrás da voz de Pierce em grande parte do álbum. Poucos meses depois, então novo formato, os recém reformulado Gun Club assinavam «Dearth Party», mini-álbum que contava com as participações de Dee Pop dos Bush Tetras e Jim Duckwood dos Panther Burns. Na presente reedição são ainda adicionados 7 faixas gravadas ao vivo em Março de 1983 para uma estação de rádio suíça. Poucos meses e uma nova formação depois, agora com um Kid Congo Powers e Patricia Morrison, a banda lançam «Las Vegas Story». Aqui para além de um série originais incandescentes dignos do melhor Gun Club e as versões de «The Master Plan» de Pharoah Sanders e «My Man’s Gone Now» de George Gershwin. Três aguardadas reedições que vêm reacender a (não extinta mas há muito baixa) chama em torno desta banda de culto.

 

Gush
«Norrköping»
CD Atavistic, € 15,95

Fala-se no diabo e eis que ele aparece. Os Gush são o grupo exclusivamente sueco do saxofonista Mats Gustafsson (em “Norrköping” também flautista, apesar de tocar as flautas em dó e alto com uma embocadura e uma palheta de saxofone, surgindo igualmente com o flageolet, um híbrido com pelo menos três séculos de existência entre o clarinete e a flauta barroca). Conhecido pelo seu free jazz musculado e tocado com uma atitude punk e por, volta e meia, fazer incursões menos previsíveis, como as suas parcerias “noise” com os Sonic Youth ou as colaborações em duo com David Grubbs, estas em terreno do mais puro minimalismo à La Monte Young e Tony Conrad, o colectivo que vem mantendo com o pianista Sten Sandell, que tem um percuso paralelo de reinvenção das coordenadas do art rock, e com o percussionista Raymond Strid acaba por incluir outros aspectos que não apenas os da tradição free – o pianismo de Sandell, aliás, evidencia grandes recursos da linguagem “clássica” contemporânea. Neste disco gravado ao vivo na cidade que lhe dá nome, a música, apesar de enérgica, tem mesmo uma elegância “composicional” (trata-se de improvisações livres, bem entendido) que não é de regra encontrar entre os actuais continuadores da estética “new thing”. Uma coisa é certa: aqui não encontramos os elementos bop que os praticantes do free jazz ligam por estes dias aos postulados de Ornette Coleman e dos Art Ensemble of Chicago. Tudo é muito mais abstracto e “in your face”, e se falta a melodia, convenção musical a que ainda aderem os “free boppers”, a criação de atmosferas (influência indirecta da escola ambientalista?) é uma constante. Acham estranho? Mas porque não haveriam o jazz e a improvisação de se tornar ambientais, depois de tal já ter acontecido com o rock e com a chamada “new music” experimental?
(14-10-2005)

1. Handpicked
2. Sava
3.
Rhomb

 

The Hafler Trio
«Only The Hand That Erases Can Write The True Thing (Clear Vinyl)»
2x10" Small Voices, € 29,95
Nick Castro & The Young Elders
«A Day Without Disaster»
«A Day Without Disaster (Gold Vinyl)»
10" A Silent Place, € 15,95 (€ 29,95 - Gold Vinyl)
My Cat Is An Alien
«Different Shades of Blue»
LP A Silent Place, € 15,95
Praxinoscope (My Cat Is An Alien)
«Praxinoscope (Picture Disc)»
LP A Silent Place, € 15,95
Maurizio Bianchi & Land Use
«Tse-K»
LP Small Voices, € 15,95
Nocturnal Emissions
«Nightscapes (Blue Vinyl)»
LP Small Voices, € 15,95
Tom Carter & Vanessa Arn
«What Is Here For?»
LP A Silent Place, € 15,95