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Jackie-O Motherfucker
«America Mystica»
2CD Very Friendly, € 19,95


Se na vossa ideia o expoente máximo do psicadelismo foram os clássicos Hawkwind ao vivo, oiçam este “America Mystica” e juntem-no a “Space Ritual” na colecção que têm em casa. A única diferença é que, se o antigo grupo de Lemmy era épico nas suas desbundas, os Jackie-O Motherfucker deste duplo álbum dão um carácter melancólico às “trips” sonoras documentadas durante um punhado de concertos e sessões radiofónicas em Hoboken, Paris, Minneapolis e Bristol. Pode até ser que essa melancolia seja a própria de um investimento com tudo de nostálgico relativamente a práticas de um tempo que passou, mas a música aqui contida vai tão longe quanto podemos imaginar numa estética que se define pelo “stream of consciousness”, a improvisação minimalista (estruturas rítmicas fixas, “soundscapes” obsessivas e unidireccionais, ainda que prenhes de pormenores) e um gosto pelo “noise” que não se coíbe de ser harmonicamente organizado. Cada faixa ronda os 20 minutos, a duração necessária para os conceitos não-desenvolvimentistas aplicados se instalarem, o que é um delicioso contrasenso deste projecto que não podemos classificar como de “space music” porque as viagens procedidas são interiores e não intergalácticas. Se algo dos referidos Hawkwind aqui encontramos, os Jackie-O são mais focados e muito menos inocentes, indo buscar a outras músicas que não o rock alguns dos processos e dos léxicos utilizados, e designadamente ao jazz (reconhece-se num ponto ou noutro o Herbie Hancock das fases Mwandishi e Headhunters), à música improvisada (AMM, Taj Mahal Travellers, Nuova Consonanza, Musica Electronica Viva) e à electrónica experimental (os “drones” por camadas da linha “lower case”, apesar de o colectivo do Oregon preferir os sons “lo fi” e subir mais o volume). “A dream jam”, já disse a crítica a propósito e nós subscrevemos...
(09-03-2007)

Disco 1:
1. Hudson Dragonfly

2. Ah Sunflower

Disco 2:
1. Kansas City Blues
2. Celtic Sea Captain

 

Jackie-O Motherfucker
«Flags of the Sacred Harp»
CD ATP Recordings, € 15,95

O título já diz o que vai dentro deste CD. Chama-se Sacred Harp ao repertório tradicional americano dos hinos religiosos, e o que fazem os Jackie-O Motherfucker é o que sempre fizeram com outros formatos: pegam nele e viram-no do avesso. A música é lenta, lentíssima, e muitas vezes dissonante, jogando com o factor repetição, e se nos faz pensar nos campos de trigo do Novo Mundo fá-lo com uma perspectiva citadina e que pouco tem que ver com qualquer nostálgico desejo de regresso à terra. O que aqui encontramos é gospel, sim, mas dessacralizado e tornado num corpus auditivo entre outros da era da informação, uma evocação da espiritualidade do ser humano mais do que uma celebração divina. Folk (country mesmo, por momentos), sons do quotidiano, muito experimentalismo, improvisação e trabalho de “patchwork” estilístico, noise quanto baste, se bem que em versão psicadélica (space rock revisitado, mas com sensibilidade punk) “drones” de guitarra e electrónica, mas tudo isto ao jeito das “campfire songs” que estão a reintroduzir o sentido comunitário na sociedade individualista erigida do outro lado do Atlântico. Os Jackie-O recuperaram o seu lugar na montra da “weird (‘wonderful, arty and obscure’, como alguns críticos têm acrescentado) music” feita nos EUA.
(29-12-2006)

1. Nice One
2. Rockaway

3. Hey Mr Sky

4. Spirits

5. Good Morning Kaptain

6. Loud And Mighty

7. Louder Roared The Sea

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Jackie-O Motherfucker/My Cat Is An Alien
«From The Earth To The Spheres Vol.3»
CD Very Friendly, €16,50


A série de "split albums" "From the Earth to the Spheres" tem servido aos italianos My Cat is An Alien, ou mais exactamente os irmãos Roberto e Maurizio Opalio, para conjugarem a sua improvisação "noise" tingida de colorações ambientais e "folky" com alguns dos nomes sonantes das músicas experimentais da actualidade. Fizeram-no já com Jim O'Rourke, Thurston Moore (Sonic Youth) e o grupo Thuja, e na lista dos convidados que se seguem estão Christina Carter (Charalambides) com Andrew McGregor, Double Leopards, Glands of External Secretion (com Nels Cline) e o "turntablist" Christian Marclay. Neste terceiro volume é a vez de surgirem numa das partes do disco os Jackie-O Motherfucker e a sua esquizóide mistura de blues e folk primitivos, free-jazz e rock psicadélico. A peça com que intervêm, "Breaking", começa por parecer um gospel entrecortado por "beats" electrónicos e tudo se vai desconstruindo gradualmente até à abstracção total, banhada por "scratches" de vinil e fragmentos de conversas telefónicas. "Blank View", dos My Cat is An Alien, é uma exploração sonora decorrida entre a tristeza e a catarse, um jogo de sombras e luz com guitarra, percussão e voz a fazerem as despesas dos acontecimentos, entre os "drones" do rock cósmico da década de 1970 e o "fingerpicking" do country. A verdade é que, se a condição "weird" dos Jackie-O Motherfucker os leva a quebrar com as regras e os estereóptipos do que se entende como música, o duo transalpino denota bem o facto de ser constituído não por músicos, mas por artistas plásticos. Para eles, música e artes visuais (pintura, escultura, instalacionismo e fotografia são as suas áreas habituais de criação) são apenas formas diferentes de expressar os mesmos conceitos e significados, extensões umas das outras. Pouco importa que se use um pincel ou um xilofone, mas o que se faz com eles...
(13-05-2005)

 

Jackson and His Computer Band
«Smash»
CD Warp Records, € 16,95

Depois de vários EPs com inspiração na house e fama conquistada nos meios da electrónica de dança (fez “remixes” de Femi Kuti, Air, Luke Vibert e Vanessa Paradis, por exemplo), eis que o francês Jackson Fougeraud surge com o seu primeiro álbum, resultado de um trabalho de quatro anos. Descolado já daquele género, a música que nos apresenta em “Smash” integra elementos de funk (é um admirador confesso dos Funkadelic), soul, electro-pop e techno, recorrendo a técnicas de “cut and paste” que lembram os Prefuse do início. Logo para dar uma ideia do percurso percorrido neste tempo de preparação, a primeira faixa, “Utopia”, é a mesma de um single surgido em 2003, com a particularidade de ter a sua mãe, Paula Moore, a cantar. Daí em diante as situações vão-se atropelando, entre o robótico e o alegremente sincopado, com uma frescura e uma inventividade que já não são muito comuns nos domínios da “club music”. É, de qualquer modo, a postura do “produtor” (que não a do instrumentista-compositor) que Fougeraud assume por inteiro, na linha instituída pelas práticas digitais que convidam ao movimento dos corpos. O que quer dizer que a Computer Band indicada pelo nome do projecto não existe verdadeiramente; a banda é o próprio computador, alimentado por samples de mil e uma músicas do circuito comercial, quer as reconheçamos ou não. “Francofunk”, chamam já ao tipo de equação operado por este “laptoper” do entretenimento inteligente. O músico parisience prefere definir o que aqui ouvimos como uma “orgia de estilos” e uma “celebração psicadélica do conflito”...
(17-11-2005)

1. Utopia
2. Rock On
3. Arpeggio
4. Minidoux
5. Oh Boy
6. TV Dogs (Cathodica's Letter) feat. Mike Ladd  
7. Hard Tits
8. Teen Beat Ocean  
9. Promo
10. Tropical Metal  
11. Headache
12. Moto
13. Fast Life  
14.
Radio Caca

 

Jacob Kirkegaard
«4 Rooms»
CD Touch, € 15,95


Ainda que possa não parecer numa primeira audição, o novo de Jacob Kirkegaard tem tudo que ver com “I Am Sitting in a Room”, de Alvin Lucier. No conceito e no processo: o artista sonoro gravou o silêncio de quatro espaços públicos muito diferentes (uma igreja, um auditório, uma piscina e um ginásio) de Chernobyl, na Ucrânia, uma área abandonada após o acidente nuclear de há 20 anos, projectou esses registos nos locais referidos e gravou de novo o resultado, repetindo essa operação dez vezes em cada um deles, até obter o que ouvimos em “4 Rooms”. Algo que ele descreve como uma “exploração do fenómeno da radiação através do som”, ainda que a influência da radioactividade no plano acústico não seja coisa provável cientificamente. O que quer dizer, muito simplesmente, que o conceito deste disco é da ordem do metafísico, ou pelo menos do metafórico. Pretende Kirkegaard demonstrar que dentro daquilo que está aparentemente vazio (os espaços, tendo sido este projecto apresentado ao vivo com acompanhamento de imagens vídeo colhidas “in situ”), há, afinal, algo que os nossos sentidos não apreendem por si sós, mas que pode ser “desvelado” por meio de um trabalho analítico com recurso a tecnologia de ponta. Se geralmente o que um cientista faz é ir retirando camadas para ir à essência (foi o que fizeram ao tentar analisar a inteligência de Einstein, cortando-lhe o cérebro às fatias – com o infeliz, mas previsível, desfecho de não terem chegado a conclusão alguma), o que aqui aconteceu foi o inverso: o silêncio somado ao silêncio somado ao silêncio dá som. Há algo de incongruente nisso, mas a gente o que quer saber é das consequências finais, e essas são deveras interessantes. Só esperamos que ouvir este álbum não faça com que nos nasça um braço nas costas...
(27-10-2006)

1. Church
2. Auditorium
3. Swimming Pool
4. Gymnasium

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Jacob Kirkegaard
«Eldfjall»
CD Touch,15,95


Houve um tempo em que a música electrónica sugeria um mundo inteiramente artificial, com a cultura a substituir a natureza. Tal não se verificou nem parece que venha a acontecer no futuro, desmentindo assim a imagética da ficção científica, com essa mesma electrónica a referenciar-se cada vez mais no mundo natural para o desenvolvimento das suas estratégias (Fibonacci, atractores estranhos, etc., etc.). A fórmula “field recording” levou finalmente estas práticas para o domínio da ecologia sonora, quando pouco antes a arte parecia assumir-se como uma “anti-ecologia”, ou seja, como a constituição de um sistema paralelo de produção exclusivamente humana. Pois tais práticas têm agora um novo aderente, Jacob Kirkegaard. Antes ocupado com a manipulação digital dos característicos sons da manipulação de gira-discos, confirmando o artifício como um “remake” desnaturalizante (investimento esse, de resto, que viria a resultar na sua colaboração com Philip Jeck e os seus velhos Dansettes), eis que o dinamarquês radicado na Alemanha se volta para a Terra e para a criação sonora com base nos fenómenos naturais. “Eldfjall” consiste, precisamente, na amplificação sem qualquer intervenção – é ele que o garante –a nível de processamento ou de mistura, das texturas auditivas provocadas por geysers e estremecimentos da crosta terrestre, captadas em diferentes alturas e locais na Islândia. Da parte de Kirkegaard não houve, sequer, a preocupação de que estas recolhas tivessem um tratamento especificamente musical, com algum tipo de estruturação ou de sequenciação que implicasse uma ideia de início e outra de fim. O seu papel não é, pois, o de um compositor, mas simplesmente o de um “revelador” de sons normalmente imperceptíveis ao ouvido ou pelo menos não isolados desta forma, pelo simples facto de que, se calha observarmos um geyser, o vê-lo secundariza o ouvi-lo. Face a este género de trabalhos, compreende-se a preferência pela utilização de tais materiais, quando afinal as sínteses por computador não fazem mais, em muitos casos, do que imitar o que a própria natureza já “sintetizou”.
(08-12-2005)

1. Ala
2. Gaea
3. Nerthus
4. Coatlicue
5. Al Lat
6. Aramaiti
7. Izanami
8. Kali
9. Gerd

 

Jaga
«What We Must»
2CD Smalltown Supersound/Ninja Tune, €19,95

Depois de dois anos de interregno para reformulação e de uma sessão de improvisações gravadas ao primeiro "take" que depois foram editadas e misturadas em estúdio, eis que os Jaga Jazzist regressam com um trabalho em que "Jazzist" já não surge no nome do decateto liderado por Lars Horntveth, denotando a nova orientação mais rock (progressivo, entenda-se, não o rock FM que invadiu as ondas radiofónicas) de um projecto que se distinguiu por associar o jazz de uma sólida secção de sopros aos "soundscapes" da electrónica digital. Resultado: "What We Must" é um CD mais incisivo do que todos os anteriores, tal como, aliás, se descobre logo na faixa de abertura, "All I Know is Tonight", com o seu muro de guitarras eléctricas e uma secção rítmica particularmente energética. A faceta rock agora estreada faz por vezes lembrar os My Bloody Valentine e até os Godspeed You! Black Emperor, mas trata-se ainda de uma "big band" de matriz jazzística - motivo pelo qual, de resto, foi agendada para o próximo Jazz em Agosto da Gulbenkian. A origem escandinava desta música está bem patente, parecendo provir de etiquetas como a Rune Grammofon ou a ECM, a que se acrescentam os factores distintivos da "club culture", "chill out" incluído (Marcus Schmickler é um dos produtores e isso nota-se). Ingredientes que tornam os Jaga numa proposta única, experimental sem dúvida, mas bastante acessível, algo que já foi apresentado como "Charles Mingus with the Aphex Twin up his arse". E se "The Stix" já tinha sido um passo adiante em relação a "A Livingroom Hush", com a sua rítmica agitada, neste retorno estão ainda mais orgânicos. O que se explica pelo facto de a dimensão "live" do grupo ter invadido por inteiro o seu labor composicional e ao nível dos arranjos, que continuam a ser tão subtis e complexos como sempre. O disco abre com um sample dos ruídos da transportadora de "Star Trek", querendo com isso dizer que vamos ser levados numa viagem muito especial. Façam o favor a vocês mesmos de embarcar... Atenção aos desvios: o segundo CD deste duplo álbum inclui demos e misturas "rough" de peças que vêm no primeiro.
(18-07-2005)

Alinhamento:

Disco 1:
1. All I Know Is Tonight
2. Stardust Hotel
3. For All You Happy People
4. Oslo Skyline
5. Swedenborgske Rom
6. Mikado
7. I Have A Ghost Now What?

Disco 2:

1. Mikado (demo)
2. All I Know Is Tonight (demo)
3. Stardust Hotel (demo)
4. Swedenborgske Rom (demo)

 

James Nice
«Shadowplayers: Factory Records & Manchester Post-Punk 1978-81»
DVD LTM, € 19,95


Documentário de qualidade realizado por James Nice sobre os primeiros quatro anos da Factory Records, são lembradas em “Shadowplayers” algumas das formações que marcaram o pós-punk britânico, como Joy Division, New Order, A Certain Ratio, Durutti Column, Section 25, Cabaret Voltaire, Magazine, Crispy Ambulance, Minny Pops, The Names, Swamp Children e Thick Pigeon, entre outros. Entrevistas com personagens da época (Tony Wilson, Vinny Reilly, Peter Hook, Peter Saville e Lindsay Reade são apenas alguns) servem para termos conhecimento de pormenores que, a esta distância, nos permitem compreender melhor o que se passou. Ficamos, por exemplo, a saber que os Joy Division de Ian Curtis poderiam ter soado a algo de muito diferente, e não tão original, se o produtor Martin Hannett não tivesse conseguido impor as suas pouco ortodoxas ideias aquando da gravação do primeiro disco do grupo, “Unknown Pleasures”. É dos New Order e dos Section 25 a banda sonora deste filme que nos mostra como a Factory trabalhava nos vários estágios da produção de um disco, desde o estúdio ao empacotamento, passando pelo design das capas. As passagens de maior interesse poderiam ser as que lembram os distúrbios ocorridos num concerto dos Joy Division em 1980 e as que dão conta do suicídio de Curtis, não fosse em dado momento assistirmos a uma curiosa discussão entre Saville, o gráfico da editora, e Hook, membro dos JD que depois formaria os New Order, sobre a importância da imagem na promoção de música, um tema que continua, mais de 20 anos depois, em aberto.
(25-08-2006)

1. Use Hearing Protection - The Factory Club, Maio 1978 - Abril 1980
2. A Factory Sample – Single 2x 7", Lançado Em Janeiro 1979, Com Durutti Column, Cabaret Voltaire, John Dowie E Joy Division
3. Factory Foremen – Cinco Directores: Tony Wilson, Alan Erasmus, Peter Saville, Rob Gretton E Martin Hannett.
4. Unknown Pleasures – Primeiro Álbum Dos Joy Division, Lançado Em Maio 1979, Com Produção De Martin Hannett
5. Zero - Martin Hannett, Produtor
6. Situationist Group - Vini Reilly E The Durutti Column
7. The Thin Boys – Primeiro Single Dos A Certain Ratio, All Night Party, Em Maio 1979. Sem Baterista
8. Larry And Vinny - Section 25 De Blackpool, Lancashire
9. Get In The Van - Heads, Tales, Cocks And Jokers On The Road
10. Rue De Manchester - Joy Division E Cabaret Voltaire No Plan K, Brussels, 16 October 1979
11. The Rainbow - Em 4 Abril 1980 Joy Division Toca No The Rainbow E No The Moonlight Club De Londres
12. Factory Benelux – Amigos Da Bélgica (E Da Holanda)
13. Disorder - Bury Derby Hall, 8 Abril 1980
14. In A Lonely Place - 18 Maio 1980. Na Véspera Da Primeira Digressão Americana Dos Joy Division, Ian Curtis Enforca-Se Na Sua Casa De Macclesfield
15. Beneath The Pavement – Estreia Dos New Order No The Beach Club, Manchester, Em 29 Julho 1980
16. Of Factory America - New Order E A Certain Ratio In Nova Iorque, Setembro 1980
17. Futurists - Primeiro Album Dos New Order, Movement, Lançado Em Novembro 1981
18. Choir Boys – Letras De Meninos Da Escola E Timbales: Simon Topping E Vini Reilly
19. Like Punk Never Happened - 1981: Nova Pop, Velhos Processos

 

Jamie Lidell
«Multiply»
CD Warp, € 16,95

1. Yougotmeup
3. When I Come Back Around
4. A Little Bit More
5. What's The Use?
6. Music Will Not Last
7. Newme
8. The City
9. This Time
10. Game For Fools

 

Jan Jelinek
«Tierbeobachtunger»
CD ~scape, € 15,95


Depois de “Kosmischer Pitch”, disco em que Jan Jelinek homenageou os Can, o novo “Tierbeobachtunger” volta a ter o krautrock como fonte de inspiração, desta vez centrando-se nas paisagens sonoras criadas pelos Popol Vuh. Baseado em “loops” (“samples” de sintetizador, guitarra, vibrafone, etc.) e com um “modus operandi” que privilegia a disposição por camadas de som, tal como é prática no ambientalismo, o que este trabalho nos oferece pode ter tudo que ver com a actual panorâmica da música por computador, mas é com certeza mais quente e tem o cunho muito particular deste músico de Berlim. Apesar das diferenças, o que aqui ouvimos tem mais afinidades com o seu “Loop Finding Jazz Records” do que com a sua produção techno sob o nome Farben ou o “glitch” que também já tem abraçado. Igualmente mais do que o factor “kraut”, é a vertente psicadélica inscrita neste álbum que lhe interessa explorar. Jelinek disse recentemente numa entrevista que descobriu a electrónica sob o efeito de drogas e isso o marcou para sempre: “Os alucinogéneos ajudam muito a audição concentrada e concordo com a ideia de tomar drogas como ´ferramenta’ para uma melhor cognição, o que não é a mesma coisa que tomar drogas pelo simples gosto de ficar pedrado.” Enquanto música electrónica psicadélica, “Tierbeobachtunger” representa para Jan Jelinek um “Kosmischer Pitch” mais básico e mais repetitivo, por um lado com uma dimensão “live” que o anterior álbum não tinha e por outro mais próximo do que entende ser uma “drone music” pura. Outra particularidade desta edição é o facto de o seu conteúdo ter sido totalmente improvisado. Muito distantes parecem estar as suas origens na música de dança, que, segundo ele, se já esteve na vanguarda, hoje tornou-se “retro”. O salto por cima dado por Jelinek está nestas faixas bem fotografado...
(30-11-2006)

1. A Concert For Television
2. Palmen Qus Leader

3. The Ballad Of Soap Und: Die Gema Nimmt Kontakt Auf

4. Up To My Same Old Trick Again

5. Happening Tone

6. Tierbeobachtung

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Jan Jelinek
«Kosmischer Pitch»
CD ~scape,16,5
0


Se em realizações anteriores Jan Jelinek utilizou como matéria-prima velhos discos da sua colecção de jazz, “Kosmischer Pitch” vai beber à “cosmic music” alemã da década de 1970, e designadamente a grupos como Popol Vuh e Tangerine Dream, além de umas passagens pelos universos muito próprios ( a “jam” transformada num modo permanente de criar música) dos Amon Duul e dos Can. Fá-lo dentro das coordenadas da house e do techno minimalista, mas longe já do domínio da música de dança que marcou a sua produção inicial. Na verdade, tem mais a ver com o que faz, por exemplo, um Philip Jeck ao nível do DJing experimental do que com as batidas “dancefloor”, apesar de estas estarem bem presentes. Fazem-se ouvir, mas já não são o foco dos acontecimentos. A sua música é construída com base em “loops” e sobreposições de camadas de som – nada de muito diferente da electrónica dominante, não fora o modo como o faz, dando especial atenção às texturas e aos elementos de pormenor. Um bom exemplo é “Vibraphonspulen”, como o próprio nome indica feito a partir de dinâmicas criadas com o rei dos instrumentos de percussão, o vibrafone, permitindo-lhe ir do pequeno para o grande, seguindo o arco vibracional do muito “reverb” adicionado. Já “Lithiummelodie I” vai do grande para o pequeno –a nossa atenção começa por se fixar na estática colocada em primeiro plano para depois “descobrir” a enorme quantidade de eventos sonoros que ocorrem em simultâneo por trás de tal aparato. Neste disco, o ambientalismo convive com o “noise”, os densos “drones” associam-se a cuidadas estratégias de mudança e, como já a imprensa tem assinalado, o famoso estúdio germânico de Conny Plank nos tempos do krautrock é ligado directamente à cena de Detroit – Jelinek é, decididamente, um músico de interesses plurais. Estes ele não os funde nem cola, antes atravessa na diagonal.
(02-12-2005)

1. Universal Band Silhouette
2. Lemminge und Lurchen Inc.
3. Im Diskodickicht
4. Vibraphonspulen
5. Lithiummelodie 1
6. Planeten in Halbtrauer
7. Western Mimikry
8.
Morphing Leadgitarre Rückwärts

 

Jana Hunter
«Blank Unstaring Heirs of Doom»
CD Gnomonsong, € 16,
50

Depois do “split album” de Devendra Banhart com Jana Hunter, não surpreende que o primeiro título da editora fundada pelo excêntrico cantor e autor de canções da nova folk tenha precisamente o nome da texana na capa. Mas não se pense que o fez para dar uma oportunidade àquela que já foi apontada como a sua maior discípula. Hunter tem uma personalidade musical própria e isso fica cabalmente demonstrado ao longo da audição deste disco muito especial. Inclusive, se o formato escolhido é o típico da folk (uma voz e uma guitarra de caixa são o que consta simplesmente na maior parte das faixas), não é pacífico classificar o que aqui se ouve com o que regra geral leva essa designação no Novo Mundo, e já agora também no Velho. A aparição da electrónica, mesmo que lo-fi, dá-lhe outro âmbito e as letras têm um referencial gótico que não é comum nesta área. O percurso de Jana é, aliás, outro, e centrado sobretudo na pop psicadélica. Bem pode ela escrever “cowboy poems” (aqui vai um, totalmente grátis: “I love to be at home on the ranch / Wind blowin’ round through my hair / Cause when I’m ridin’ I am free / From life, without a care / The smell of leather, horse and dust / Has no beginin’ or end / It hangs and lingers, driftin’ on sunbeams / Like an old forgotten friend / And when I watch the horses run / Across the fields of green / My heart is runnin’ with them / I’m dancin’ with my dreams / Whether it be the horses / Or the sweet fresh smells of hay / I see this place with new eyes every time / And it’s where I wanna stay!”), que a sua perspectiva é diversa da de um baladeiro das pradarias. O que aqui temos é o resultado de um labor de solidão, e como tal dificilmente o poderemos inserir numa realidade global e muito menos num movimento. Poucos “songwriters” de hoje têm tanto de pessoal.
(08-12-2005)

1. All The Best Wishes
2. The New Sane Scramble

3. The Earth Has No Skin

4. Christmas

5. Laughing & Crying

6. Farm, CA.

7. Heatseeker's Safety Den

8. Have You Got My Money

9. Restless

10. The Angle

11. Untitled (Hanging Around)

12. Angels All Cry The Same

13. K

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Jandek
«Glasgow Sunday»
CD Corwood Industries, € 12,50

Foram precisos 40 discos e 27 anos sem fotografias, nem concertos, nem entrevistas, o primeiro dos quais datando de 1978 (“Ready for the House”), para que Jandek finalmente desse a cara na actuação ao vivo não anunciada do Instal Festival que aqui se documenta, o que torna o presente álbum, logo à partida, num objecto histórico. Figura de culto das mais referidas quando se fala do lado “weird” da música popular urbana, era também a personalidade do rock alternativo mais misteriosa de todos os tempos, o exemplo da anti-superstar por excelência. Depois deste espectáculo, começámos a vê-lo a cores ou a preto-e-branco nas revistas e nos jornais, e parece que Jandek tomou mesmo o gosto de subir ao palco, pois chegam-nos sucessivas notícias de concertos seus. A música surge-nos um tudo nada mais acessível, em forma de canções excêntricas e viradas do avesso que só remotamente nos lembram determinadas coisas dos Red Krayola, do “Lorca” de Tim Buckley, dos primeiros Half Japanese, dos Godz ou de Skip Spence. Eterno solitário, estranha encontrar outros nomes a acompanhá-lo nesta primeiríssima apresentação pública: Richard Youngs no baixo, músico sobejamente conhecido nas áreas da free folk e do abstraccionismo minimalista, e Alexander Neilson na bateria. Tudo o que se considera como um elemento identificatório do rock é mandado por Jandek às urtigas: não há melodias nem “riffs”, acordes é coisa que ele evita fazer com a guitarra, a voz é dissonante e “off-tempo”, os ritmos são quebrados e pouco consentâneos com os ditames do binarismo e as letras não falam propriamente de amores desavindos, isto quando conseguimos perceber alguma sequência nas palavras que atira contra o microfone. Ainda assim, essas palavras derramam uma enorme tristeza. À máxima depuração de materiais sonoros e até de estruturas musicais corresponde, contraditoriamente, a máxima expressividade: com pouco, pouquíssimo mesmo, Jandek faz muito. E regra geral nada preocupado com a “validade” musical das suas propostas. As suas canções são feias, disformes e aparentemente “mal tocadas”, tudo isto com o maior dos propósitos e das convicções. O céu para quem está farto da pop certinha que se vai fazendo hoje em dia...
(02-09-2005)

1. Not Even Water
2. Where I Stay
3. Darkness You Give
4. Sea of Red
5. I Can't Sleep At Night
6. Don’t Want to Be
7. Blue Blue World
8. The Other Side

 

Jane
«Berserker»
CD Paw Tracks, € 17,50

Um dos membros deste duo, Noah Lennox, mais conhecido como Panda Bear, pertence aos muito aplaudidos Animal Collective, mas nem por isso podemos esperar que estes Jane tenham qualquer tipo de afinidade com aquele outro projecto. Lennox e Scott Mou dão largas em “Berserker” ao seu gosto pela música de dança, que contextualizam em canções pop nas quais o elemento “ambient” também é uma constante. E como não podia deixar de ser, há uma vertente experimental que passa pela utilização inconvencional da electrónica, por vocais onomatopaicos ou simples murmúrios e por uma geral configuração “weird”. A duração dos temas dá-nos logo uma indicação do estado de espírito dos dois músicos: “Swan”, a mais longa faixa do álbum, ultrapassa os 24 minutos, e mesmo a mais breve (quase seis minutos), a que dá título à edição, não obedece ao formato determinado pela rádio, pelo que não é de esperar ouvi-lo na Comercial ou mesmo na Radar. Associar o “beat” com a psicadelia e “drones” minimalistas com “loops” estrelados de vinil não é propriamente o que há de mais óbvio. Imaginem uma mistura de Keith Fullerton Whitman e Arthur Russell, ou de “Selected Ambient Works Vol. 2” de Aphex Twin e “Delirium Cordia” dos Fantômas e andarão lá perto. Segundo o brincalhão Panda Bear, esta foi uma experiência de gozo, ainda que para levar a sério porque é a isto que se chama “qualidade de vida”: “Regra geral, tratou-se de convivermos um pouco, falando, tocando música, pensando, sentindo, divertindo-nos e dançando.” Como verificamos por estas palavras, já nem é uma questão de “fazer arte”, mas de viver a vida “artisticamente”. Não se deixem influenciar pela violenta imagem da capa. Esta era também a imagética dos Grateful Dead, e vejam como eles puseram tanta gente feliz. Como prova de que a vocação “feel good” de Noah Lennox é mesmo para valer, fica uma informação para quem ainda não sabe: ele apaixonou-se por uma portuguesa e veio viver para Lisboa.
(30-09-2005)

1. Berserker  
2. Agg Report  
3. Slipping Away  
4. Swan

 

Jazkamer
«Metal Music Machine»
CD Smalltown Superjazz, € 16,50


O título indica tudo quanto à filiação desta obra com “Metal Machine Music”, o hino de homenagem ao “feedback” assinado por Lou Reed, mas também à paixão que a electrónica e o noise descobriram pelas variantes do metal (speed, trash, death...), casos de Kevin Drumm, Francisco Lopez e Hecker, ou que o metal e o punk vêm dedicando ao experimentalismo electro, como acontece com Sunn 0))), Wolf Eyes e Sightings. Lasse Marhaug (que a solo já vinha namorando “all things metal”, como por exemplo em “The Shape of Rock to Come”, paródia a “The Shape of Jazz to Come” de Ornette Coleman) e John Hegre, os dois tripulantes do bombardeiro Jazzkammer (ou Jazzkamer com apenas um “m”, como surge na capa de “Metal Music Machine”) chegaram ao ponto de neste álbum, o seu mais recente após alguns anos de ausência, irem buscar verdadeiros “metaleiros” à cena escandinava – uma das melhores na área, como se sabe – para os acompanharem: Jorgen Traeen dos Toy, Ivar Bjornson dos Enslaved e, ambos dos Manngard, Iver Sandoy e Olav Kristiseter. Resultado: um rock digital e abstractizante de inaudita violência. Não que seja um exercício de raiva, apesar das referências satânicas dos nomes dados aos temas, que aqui funcionam apenas como um cliché metálico. Como disse Marhaug numa entrevista, “não faço música para exorcizar demónios pessoais ou para libertar energias negativas – aliás, não sou uma pessoa especialmente zangada ou tensa; a música é mais uma celebração para mim do que outra coisa”. O que ele está a proceder, a sós ou em parceria com Hegre, é à refundação das bases da “free music” que pratica, transpondo-as do free jazz e da clássica contemporânea para o rock guitarrístico, que lhe é mais geracional (o que é até motivo de reflexão, dado que a tal “música livre” se referencia sempre de alguma maneira, nem que seja por refutação, nas músicas engajadas).
(
01-06-2006)

1. Friends Of Satan
2. The Worms Will Get In

3. Abomination

4. Metal Music Machine

5. Occult Glider

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Jazkamer & Smegma
«Endless Coast»
CD No Fun Productions, € 15,95

O colectivo Smegma é um peso pesado da música americana alternativa/underground (associada ao Free-Jazz mais experimental), tanto pela sua longevidade (os Smegma têm origem na organização Los Angeles Free Music Society - LAFMS, fundada em 1973), como pelas ricas e variadas colaborações ao longo dos anos (Merzbow (1996), Wild Man Fischer (1997) Wolf Eyes (2003), etc.)
A par dos saudosos Sun City Girls, os Smegma orgulham-se das gravações independentes na sua própria editora (Pigface Recor ds) em suportes fonográficos alternativos como cassetes ou split singles de edição limitada, e da disponibilidade efectiva para colaborações que lhes proporcionam o devido prazer criativo.
Desta feita, os 5 "Smegmas" convidaram os 3 noruegueses Jazkamer (Lasse Marghaug, John Hegre e Carlos Giffoni, banda já com 10 anos de existência, exploradores do Noise e do Metal extremo) para a gravação deste registo nos Portland Smegma Studios.
O resultado é um disco de 35 minutos com 5 faixas, complexo, noisy e desconcertante, para apreciadores de elevadas entropias sónicas, e improvisações free free endlessly geradas por estas oito almas que nunca viraram costas aos limites extremos da exploração musical/sónica.

Tradução de Smegma:
Esmegma: substância esbranquiçada que é segregada por glândulas sebáceas dos órgãos genitais externos e se acumula nas dobras destes;

(
21-09-2007)

1. Heavy Fog
2. White Witch
3. Portland Swamps
4. Stone Eater
5. Carniviorous Bog

 

Jean-Jacques Perrey & Luke Vibert
«Moog Acid»
CD/2LP Lo Recordings, € 16,50/€ 18,95

2001 UMA ODISSEIA NO MOOG

Em 2001 Jean-Jacques Perrey e Luke Vibert encontraram-se pela primeira vez para enveredarem por uma fantástica viagem que os levaria à criação deste genial álbum mais de seis anos depois.
Durante esses anos muitas sessões de gravações tiveram lugar, em variadíssimos locais e incluindo outros tantos músicos, tudo de modo a que o perfeito som Moog fosse encontrado. Durante esse tempo mensagens esotéricas de Perrey retiradas do Livro de Enoch, sobre o futuro da raça humana ou ainda sobre as suas secretas comunicações com os golfinhos eram incorporadas na obra... 

Para aqueles menos atentos à história da música, Jean-Jacques Perrey é o pioneiro da electrónica francesa, que utilizou os métodos da música concreta - nomeadamente na astuta montagem em fita magnética - e do som sintetizado de modo a criar obras primas da pop tão complexas como as peças de Brian Wilson ou de George Martin. Perrey foi descoberto pelo famoso Jean Cocteau, ensinou Edith Piaf a tocar o sintetizador, mudou-se para os Estados Unidos onde escreveu o tema para a Disney World, e conviveu com Salvador Dali, que classificou de genial a sua versão da peça de Rimsky-Korsakov  "O Vôo do Moscardo" (criado com a utilização de gravações tratadas e modificadas de insectos voadores). JJP é também responsável pelo tema "E.V.A.", remisturado em 1997 por Fatboy Slim e transformado num verdadeiro sucesso comercial. Ele também é co-autor do tema "Remember", dos Air no álbum "Moon Safari". Com a avançada idade de 77 anos, ainda actua ao vivo por todo o mundo,  tendo inclusivamente estado recentemente na Rússia e nos EUA. 

Luke Vibert é o homem dos Wagon Christ, Plug, Amen Andrews, Kerrier District e muitos outros projectos. Gravou já para a Warp, Virgin, Mo' Wax, Ninja Tune, Rephlex, e recentemente para a Planet Mu, e com os seus colegas Richard ‘Aphex’ James e Tom 'Squarepusher’ Jenkinson foi um dos responsáveis pela revolução da música electrónica britânica no início da década de 90. 

O álbum "Moog Acid" é uma amálgama de estilos, não fossem os seus autores bem versáteis na criação de peças sonoras, sinónimo da criatividade do duo. Montagens inesperadas de criações de Perrey com influências do drum & bass, nu-disco, hip hop ou funk,  e a adição de instrumentos como a cítara, o trompete, o Moog, e a própria voz do compositor francês dão origem a um dos discos mais originais e cativantes que escutámos este ano.

"Moog Acid could hardly be more likeable, the project sidesteps any potential descent into the realm of kitsch whilst remaining utterly joyful at all times, faithfully referencing both Perrey's lifetime of experimentation with recording techniques and Vibert's contemporary production savoir faire. Ace." Boomkat
(28-09-2007)

1. Intro
2. Schwing
3. Analog Generique
4. Dream 106
5. Frere Jacques
6. JJPLVDNB
7. Ye Olde Beatbox
8. Vision For The Future
9. Messy Hop
10. White Knight (Black In The Day)
11. You Moog Me
12. Tema 12

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Jel
«Soft Money»
 CD Anticon, € 17,50

O novo álbum de Jel (ou Jeffrey Morgan, como os seus pais lhe chamaram) continua a lançar as mesmas pontes entre o hip-hop experimental, o rock psicadélico e o ambientalismo concretista que se tornaram na imagem de marca da Anticon, com o apoio de uma mão-cheia de colaboradores: Wise Intelligent (Poor Righteous Teachers), Stephanie Bohm (Ms John Soda), Hervé Salters (General Electrics), Pedestrian e Odd Nosdam, dos celebrados cloudDEAD. Com muito “beat” de drum machine e muito “sampling” – Jel é um aficionado da SP-1200 e tem como base de dados do seu DJing três décadas de hip-hop – “Soft Money” destaca-se sobretudo pelo prenunciado melodismo, algo que virá decerto dos 13 & God, a sua (e de Doseone, outra personagem de destaque do “rapping” alternativo) recente parceria com o grupo pop The Notwist. As letras, como é hábito nesta editora, revelam uma boa dose de consciência social e política, indo desde apelos ao não consumismo (“Don’t buy this product / You don’t need it”, em “To Buy a Car”) até diatribes contra a administração de George W. Bush (“WMD”). Há aqui de tudo, no que respeita a situações musicais ou simplesmente sonoras: estática, “drones” vagamente baseados em cordas de arco, baixos de acentuação “funky”, pescadinhas de rabo na boca (leia-se “loops”) com efeito rítmico, o velhinho mas sempre incontornável Fender Rhodes, guitarras eléctricas que ora lembram Fennesz ora distorcem numa espécie de rhythm ‘n’ blues cibernético, vocais com processamento e muito fuzz e reverb. Se ouvirem bem reparam que Jel não programa a SP: são os seus dedos que trabalham sobre os “pads”, em tempo real. Porque vem marcando a diferença (chegou-se mesmo a comentar na imprensa que muito tem “contribuído para reescrever o manual de regras do hip-hop”), alguns nomes na ribalta procuram a companhia de Morgan, como Malcolm Mooney, o “outro” vocalista dos Can, ou Mike Patton, o ex-Faith No More e ex-Mr. Bungle agora nos Fantômas. Este novo título reforça a fama conquistada, e segue até na esteira do seminal “Endtroducing” de DJ Shadow, percorrendo o mesmo caminho em direcção ao desconhecido, se bem que com armas e argumentos distintos. Àqueles que o acusam de se ter vendido à pop, ele tem a resposta na ponta da língua, assinalando que a dita não passa de uma estrutura dentro da qual é possível encontrar muito espaço para se movimentar livremente. Como em tudo o mais, afinal, há pop e há pop...
(24-02-2006)


1. To Buy A Car
2. All Day Breakfast
3. No Solution
4. All Around
5. Thrashin'
6. Sweet Cream In It
7. Soft Money, Dry Bones
8. Know You Don't
9. WMD
10. Mislead
11. Nice Last
12. Chipmunk Technique

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Joanna Newsom
«Joanna Newsom & The Ys Street Band E.P.»
CDEP Drag City, € 9,9
5

EP lançado com o propósito de apoiar a digressão europeia que Joanna Newsom leva a cabo actualmente, "Joanna Newsom & The Ys Street Band E.P." é um disco com novos arranjos em dois temas já existentes - “Cosmia” (de "Ys") e “Clam, Crab, Cockle, Cowrie” (de "The Milk-Eyed Mender") - e um totalmente original - “Colleen”. É sem dúvida um disco a reter, e mais uma obra-prima de Joanna Newsom, muito mais folk, e próximo daquilo que vimos ao vivo nos passados dias 2 e 3 de Maio.
(11
-05-2007)

1. Colleen
2. Clam, Crab, Cockle, Cowrie

3. Cosmia

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Joanna Newsom
«Ys»
CD Drag City, € 16,50


O “difícil segundo disco” de Joanna Newsom é muito mais do que isso – é um desafio proposto pela artista a si mesmo. Um desafio aos seus limites como instrumentista e ao seu talento para a composição – a harpa de Joanna deixa de ser protagonista, passa a contracenar com uma orquestra de cordas de mais de 30 elementos (é como se fosse um coro grego). “Quis sentir a orquestra como se ela tivesse uma forma alucinogénica, suspensa em redor da harpa e da voz”. A produção instrumental é de Van Dyke Parks, a vocal é de Steve Albini (Big Black), e a mistura final foi entregue a Jim O’Rourke.
“Sem tentar ser pretensiosa, o meu objectivo era fazer deste disco um álbum, de maneira a que os temas se interligassem entre si”. Ys é uma palete de cinco temas territoriais cuja média de tempo são os dez minutos por canção. Tempo para respirar e reaprender a ouvir. Cinco vastas planícies sonoras, de histórias sem fim, ou com um novo início, numa aventura circular que é simultaneamente um passo em frente na carreira da artista. Se o primeiro disco, Milk-Eyed Mender, foi virginal, Ys é a emancipação irresoluta de Joanna Newsom. Mas não necessariamente o fim da inocência: a sua voz parece a banda sonora de um quadro pré-rafaelita. (A capa, um retrato de Joanna Newsom por Benjamin Vierling, vai buscar elementos à Escola Holandesa do século XV e XVI e aos românticos do século XIX).
Um disco de cordas (e de cordas vocais) para encantar homens e domesticar mulheres. Ou vice versa.

(03-11-2006)

1. Emily
2. Monkey & Bear
3. Sawdust & Diamonds
4. Only Skin
5. Cosmia

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Jóhann Jóhannsson
«IBM 1401, A User’s Manual»
CD 4AD, € 17,50

Jóhannsson não é propriamente o artista típico de uma “label” como a 4AD, como verificamos conhecendo o percurso do islandês no colectivo Kitchen Motors, e este não é o álbum que seria de esperar mais no seu catálogo. Uma composição para orquestra de 60 elementos, a Filarmónica de Praga, conduzida por Mario Klemens, a que se acrescentam alguma electrónica e instrumentos como o órgão Hammond B-3, o piano, a celesta e sinos, sons do velho computador modelo 1401 da IBM e “spoken word” estrategicamente distribuída (a voz do seu pai, técnico da IBM, num fita com 30 anos de existência com instruções para o uso daquela máquina), “IBM 1401, A User’s Manual” tem a dimensão de um álbum conceptual mas um carácter de curiosidade que desfaz à partida qualquer pretensiosismo. Para “nerds” de informática e apreciadores de boas melodias.
(16-02-2007)

1. Part I
2.
Part II

3.
Part III

4.
Part IV

5.
Part V

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John Duncan & Carl Michael von Hausswolff
«Our Telluric Conversation (Ed.Especial)»
CD 23Five Records, € 24,50

Agora que a realização de filmes pornográficos parece ser coisa do passado na vida de John Duncan, eis mais uma incursão do americano expatriado pela electrónica experimental, desta feita com um dos monarcas (Carl Michael Hausswolff) dos reinos unidos de Elgaland-Vargaland, um país unicamente existente na Internet que tem artistas como cidadãos. A conversa telúrica indicada pelo título é aquela em que os dois “escultores sonoros” se envolvem, mas também encontramos um monólogo, dito aparentemente por Duncan. Trata-se de uma estória de cunho fortemente burroughsiano, sobre um homem que viaja até ao Egipto para estudar o veneno das cobras e até à Tailândia para observar os lagartos locais. Coincidência ou não, a música tem um carácter ziguezagueante, como se fosse o sucedâneo dos movimentos motores de um réptil. Podemos, inclusive, entendê-la como uma analogia entre a locomoção dos animais rastejantes, as transmissões radiofónicas (Duncan preza muito especialmente a manipulação de ondas curtas) e os fluxos e descargas eléctricos (algo que interessa a Hausswolff). O domínio é o da “drone music”, mas sem a densidade desta, antes procurando uma qualidade que não é própria do ruído, sendo este o tipo de material habitualmente utilizado nestas construções, tal como aqui acontece – até a estática surge em “Our Telluric Conversation” com uma transparência e uma cristalinidade que surpreendem. Seja como for, os autores falam de magnetismo a propósito deste álbum, tanto no que diz respeito ao fenómeno físico que explica a atracção ou a repulsa entre objectos, como aos estados psicológicos de duas pessoas que passam pelos mesmos processos de aproximação e desencontro no seu relacionamento. O certo é que, não sabendo nós o que aconteceu nesta colaboração (a segunda entre ambos), mesmo que tenha havido alguma má química entre John Duncan e Carl Michael Hausswolff os resultados são magníficos. Não muito dissemelhantes do que nos têm ofertado nos respectivos projectos a solo, mas somando-lhes as implicações. Se é assim que soa o conflito e a disfuncionalidade, tanto pior ou tanto melhor, o que neste caso vai dar no mesmo.
(15-09-2006)

1. ...Like a Lizard
2. Entry (enhanced)
3. Yet Another (Very) Brief and Linear History of the Planet as We Know It

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John Duncan / Mika Vainio / Ilpo Vaisanen
«Nine Suggestions»
CD Allquestions, € 23,95

É caso para dizer: olhem que três! Figura controversa da electrónica experimental, John Duncan fugiu das autoridades dos Estados Unidos na sequência de uma performance abjeccionista em que violou o cadáver de uma mulher (“foi como f***r com um bocado de carne”, conta) para se tornar num cineasta pornográfico no Japão e só depois no reconhecido, mas especialmente difícil, compositor que hoje é. Mika Vainio e Ilpo Vaisanen, por sua vez, são os dois membros do projecto Pan Sonic, os mesmos que num concerto à beira-Tejo, há uns anos, tocaram com um tal nível de decibéis e uma tão virulenta agressividade na gestão das frequências altas e baixas que se viam pessoas a saírem precipitadamente do espaço da actuação para vomitar. Nós estávamos lá e se isso não nos aconteceu, a verdade é que durante dois dias ficámos com os ouvidos a zumbir. Juntar os três poria qualquer um apreensivo, mas se as duas primeiras das “Nine Suggestions” deste CD são bastante duras, e desaconselháveis para quem gosta de usar “headphones”, o resto do álbum é bastante suave – se é que o termo se aplica a estas paisagens sonoras que parecem anunciar a entropia – e foca até a nossa atenção nos mais pequenos pormenores e nas diversas matizes expostas. Reunindo trabalhos em colaboração desenvolvidos num período de três anos, neste disco Duncan utiliza sobretudo rádio de ondas curtas e os seus companheiros da Finlândia simples osciladores, ainda que seja perceptível o muito labor de processamento em estúdio que aqui está investido. Como diz o avô de um de nós, “com a idade todos nós nos acalmamos”.
(01-09-2006)

1. Scratch Ring
2. Volume
3. The Metallic Conversation
4. Eliminated: The Stress
5. Eliminated: The Jolly
6. Center: The Pause
7. Found...!
8. The Deepening
9. The Bristling Haze

 

John Foxx
«Cathedral Oceans III»
CD Metamatic, € 15,95


John Foxx é Dennis Leigh, o fundador dos Ultravox, grupo electro-pop dos anos 1980 que fez escola e ganhou fama, mas não esperem os fãs destes encontrar algo de familiar no agora chegado terceiro volume da série “Cathedral Oceans”. Os Ultravox e a actividade a solo de Foxx nos domínios da “ambient music” têm, no entanto, um ponto em comum: se os primeiros traduziram o “krautrock” em algo de britânico, o ambientalismo electrónico do actual projecto remete-nos inevitavelmente para os Tangerine Dream, o que quer dizer que o universo sonoro de Leigh não mudou assim tanto. Neste disco, a essência do que ouvimos está nas muitíssimo lentas progressões harmónicas de um coro, mas no preciso momento em que nos apercebemos do enraízamento desta música na história da polifonia vocal e do canto sacro, o tapete é-nos retirado de debaixo dos pés, dado o carácter alienígena e esotérico do que ouvimos. É como se, em vez do Deus que habita no Céu da Terra, estas vozes cantassem o Diabo subterrâneo de alguma religião extraterrestre. À falta de se documentar com viagens pelo espaço sideral, Dennis inspirou-se nas suas experiências de criança: “Cantei num coro de igreja quando era pequeno e a forma como diferentes igrejas modificavam a nossa actuação intrigava-me sobremaneira. Levei o resto da minha vida à procura de coisas que ouvi então – os ecos e as reverberações dos diferentes espaços arquitectónicos.” Esta é, pois, a música resultante do desejo de refazer uma memória auditiva, não de reproduzir fenómenos acústicos reais mas a subjectiva, quando não mesmo ilusória, impressão dos mesmos. Brian Eno com um pouco de D. Quixote, dir-se-ia...
(30-09-2005)

1. Oceanic
2. Through Gardens Overgrown
3. Spiral Overture
4. The Shadow of a Woman's Hand
5. Radial Harmonics
6. Serene Velocity
7. Fog Structures
8. Eternity Sunrise
9. Harmonia Mundi
10. City of Endless Stairways
11. In Rising Light
12. Metanym

 

John Parish
«Once Upon a Little Time»
CD Thrill Jockey18,50

Nome associado a PJ Harvey, Eels, Giant Sand e Sparklehorse, não admira que o novo álbum a solo de John Parish tenha aspectos da música ouvida em discos assinados por esses nomes, entre os blues da primeira, a melancolia dos Eels, o folk de Howe Gelb e os acentos góticos da banda de Mark Linkous. Outra particularidade de “Once Upon a Little Time” é a voz de Parish, que não se fazia ouvir há mais de uma década. Ainda que fique claro que ele não é um cantor, assume aqui por completo que a sua condição de autor de canções implica a interpretação destas. E a verdade é que não se sai mal, suportado por um grupo italiano (só o parisience Jean-Marc Butty é de outras paragens; alguns poderão estar lembrados da colaboração dele em “To Bring You My Love”, da superestrela alternativa Polly Jean Harvey) e por alguns “special guests”, como Adrian Utley (Portishead), Jeremy Hogg (PJ Harvey) e Hugo Race (Bad Seeds). As letras, essas, combinam elementos ora intimistas, ora épicos, umas vezes mundanos e outras dissertando sobre os grandes temas da existência, com tratamentos que vão do sério (sério no sentido de que nos põem a pensar) ao humorístico. E que diferente é este disco acentuadamente vocal do anterior “How Animals Move”, com o seu carácter morriconiano e instrumental, uma demonstração de que há outras coisas que interessam a este grande obreiro. Ainda bem que as figuras de bastidores do rock (de bastidores, mas decisivas para a sua evolução) se coloquem de vez em quando sob os focos de luz para fazer valer o dito “a César o que é de César”.
(28-10-2005)

1. Salo
2. Boxers
3. Choice
4. Sea Efences
5. Even Reder Than That
6. Water Road
7. Somebody Else
8. Kansas City Electrician
9. Stranded
10. Glade Park
11. Even Redder Than That Too
12. The Last Thing I Heard Her Say

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John Tilbury
«Plays Samuel Beckett»
CD Matchless Recordings, € 16,99


AMM
«Norwich»
CD Matchless Recordings, € 16,99


Renomado intérprete de compositores da chamada "new music" como Morton Feldman, John Cage, Christian Wolff e Cornelius Cardew, John Tilbury compõe ele próprio e tem-se dedicado igualmente à improvisação, regra geral inserido nos já lendários AMM, o grupo que nos idos anos 1960 descolou do jazz para "inventar" uma música não-idiomática. No último "Norwich" este está reduzido ao formato duo, após a saída de Keith Rowe devido a litígios com o percussionista Eddie Prévost, mas o espírito e o tipo de intervenção mantêm-se, desde há algum tempo com uma acentuação do enfoque feldmaniano que o pianista inglês lhe introduziu - cadências pausadas, grandes espaços entre as notas, alinearidade discursiva. Surpreende é o que o mesmo Tilbury nos oferece em "Plays Samuel Beckett". Antiga paixão literária do músico, textos de Beckett são magistralmente lidos por si e por Christina Jones entre os seus distintivos pianismos e as modulações electrónicas de Sebastian Lexer. Se Feldman já tinha "traduzido" em música o particular universo do célebre dramaturgo do "non-sense", eis que o seu mais fiel continuador também o faz, em jeito de peça radiofónica. "Cascando", a composição que abre o CD, foi estreada publicamente no ano passado, sendo aqui acrescentada pela inédita "Rough for Radio 1", com inclusão do acima referido Prévost. A estrutura musical reproduz os mesmos cortes da escrita do autor de "Waiting for Godot": "If you could finish it... you could rest... sleep... not before... oh I know... the ones I've finished... thousands and one... all I ever did... in my life... saying to myself... finish this one... it's the right one... then rest... sleep... no more stories... no more words." Esta gestão fragmentária da continuidade do tempo é similar à procedida desde sempre pelos AMM e mais uma vez evoca o pessoal estilo de Morton Feldman. O facto de se aludir repetidamente a uma finalização, sem que esta aconteça (o final do disco é apenas um corte mais, uma saída de cena), faz com que se pressinta que algo poderá estar para acontecer. É prometido um desenlace que nunca chega, fazendo com que a ansiedade se transmita ao ouvinte. Curiosamente, a ausência no mais recente título AMM dos "drones" alimentados por Rowe mais contribui para o carácter não narrativo da música que propõem. "Norwich" não conta uma história ("no more stories"), enquadra sim um espaço. E, designadamente, um espaço que podemos entender como um adormecimento do tempo ("sleep").
(12-08-2005)

John Tilbury:

1. Cascando: A radio piece for music and voice
2. Rough for Radio 1.: For music and voices

AMM:

1. Track 1
2. Track 2
3. Track 3
4. Track 4
5. Track 5

 

John Wall
«Cphon»
CD Utterpsalm, € 19,95

A “sampling music” sempre teve como característica a demasia de sons, quase em “overdose” de informação, como se quisesse compensar com sugestões de gestualidade – é, por natureza, uma abordagem teatral – a inexistência de “verdadeiros” instrumentos e instrumentistas. Também John Wall passou por aí, realizando colagens com a clássica, o rock e o jazz como fontes, na prossecusão de um dos ideais deste tipo de investimento – o meta-estilismo, que acabou por tomar as feições até de uma metamúsica. Até que tudo mudou – Wall foi reduzindo drasticamente a paleta de elementos, cortou com a maior parte das amarras idiomáticas, encurtou a duração das suas obras (à semelhança de outras edições recentes, “Cphon” não ultrapassa a marca dos 20 minutos), abriu espaços, assim desdensificando a sua música, e em alguns casos até convidou músicos de carne e osso para os seus projectos, em vez de simplesmente “picar” os discos que vai comprando. Continua a utilizar as técnicas do “sampling”, se bem que agora num computador, mas já não é possível identificar o que faz com aquela corrente. Este EP é bem um exemplo disso mesmo, provindo a maior parte do material utilizado de gravações do próprio autor ao piano, se bem que não seja possível reconhecer este enquanto tal – aliás, essa é outra das características do novo John Wall, a dificuldade, senão impossibilidade, do reconhecimento, o que é precisamente o contrário das estratégias que nortearam, ou ainda norteiam as poucas práticas assim identificáveis ainda reminiscentes, a plunderfonia e o plagiarismo. Foi outra coisa o que ele divisou nos processos proporcionados pelo sampler: a abertura de todo um campo de possibilidades a nível da composição. Esta há muito deixou de ser uma questão de caneta e papel, e se quiséssemos escolher um rosto que melhor representasse as novas formas de compor essa escolha poderia recair sobre Wall, que compõe com uma máquina, a mesma que depois executa a sua música. Com pessoas dentro, a começar por ele próprio.
(
07-07-2006)

 

John Zorn
«Moloch: Book of Angels Vol.6 - Uri Caine Plays Masada»
CD Tzadik, € 16,50

A composição é de John Zorn e integra-se na série “Book of Angels”, de que “Moloch”, aliás, é o sexto volume, mas os arranjos e a interpretação são de Uri Caine e, de facto, ninguém melhor do que este pianista-camaleão para dar vida a partituras que reflectem a história do piano jazz (Art Tatum e Bill Evans pressentem-se muito claramente), acrescentando-lhe elementos clássicos (Satie!!) e do riquíssimo universo musical judaico, que de resto parece marcar cada vez mais o Zorn autor. E se este vem manifestando um crescente fascínio pelo lado negro do Velho Testamento (Moloch é um dos demónios dos idólatras israelistas, mas também de fenícios e cartagineses), o certo é que as leituras de Caine são luminosas e inspiradas, comunicando-nos “sentires” que não são propriamente os inspirados pelos sacrifícios de crianças que no passado remoto do Médio Oriente eram realizados em louvor do deus que dá nome a este disco. É um outro Uri Caine que se revela aqui, já não o que adaptou Mahler, Bach, Beethoven, Mozart, Wagner e Schumann com a inclusão de um DJ, não o que toca um Fender Rhodes com Dave Douglas e não aquele que se fez acompanhar por músicos brasileiros em “Rio”. Nem sequer já o do seu primeiro disco a sós com um piano, “Solitaire”, mas um grande executante que maturou mais uma forma de estar na música, segundo muitos até a mais difícil de todas: o solo. Depois do compositor, do arranjador, do líder, do “sideman” ilustre, finalmente o performer de corpo inteiro.
(19-01-2007)

1. Rimmon
2. Domiel

3. Mehriel

4. Savliel

5. Tufrial

6. Jearzol

7. Harshiel

8. Dumah

9. Harviel
10. Segef

11. Sahriel

12. Shokad

13. Zophiel

14. Hayyoth

15. Nuriel

16. Ubaviel

17. Hadrial

18. Cassiel

19. Rimmon

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John Zorn
«Filmworks XVIII: The Treatment»
CD Tzadik, 16,50

A edição em disco das composições para o grande e o pequeno ecrãs de John Zorn já vai no tomo 18, constituindo mesmo uma área à parte na sua produção composicional. Destinada a um filme de Oren Rudavsky, “The Treatment”, a primeira comédia romântica que lhe foi proposta (género que não é muito do seu agrado, tanto assim que no início esteve tentado a recusar), o conteúdo deste “Filmworks XVIII” tem uma instrumentação invulgar (violino, acordeão, vibrafone e contrabaixo, a que se associa em duas faixas uma guitarra) e mesmo em termos estilísticos trata-se de uma nova experiência, se bem que dentro do quadro de colagem que lhe é habitual: tango de câmara, segundo o modelo estabelecido por Astor Piazzolla, klezmer (mais uma vez descendo às raízes da música judaica), um certo minimalismo reichiano e muito jazz. O produto final é acentuadamente melódico e de uma leveza que só não estranhamos em Zorn porque este tem dado conta ultimamente do seu gosto pelo chamado “easy listening”, contendo inclusive um humor menos malicioso do que lhe conhecemos nalgumas (raras) ocasiões, tendo em conta que o também saxofonista de Nova Iorque gosta de parecer “deadly serious”, mesmo quando se inspira nos desenhos animados. E isto não obstante algumas passagens mais soturnas em termos dos estados de espírito investidos. Uma coisa é certa: não é neste CD que encontramos um exemplo da sua “new radical jewish music”. Mark Feldman, Marc Ribot e Kenny Wollesen são os nomes mais sonantes entre os intérpretes desta partitura que, aparentemente, lhes deixou espaços para improvisar (e swingar!), mas seria injusto não referir o acordeonista Rob Burger e o contrabaixista Shanir Ezra Blumenkranz – este, aliás, com uma função estruturadora determinante. O grande destaque vai, porém, para o papel dado ao vibrafonista (Wollesen), o qual, apesar de não se cingir a manobras colorativas, remete-nos para um modelo de sucesso da música cinematográfica / televisiva: a “soundtrack” de Badalamenti para “Twin Peaks” deve muito das ambiências criadas à utilização desse instrumento. Não obstante ser fácil de ouvir, o que aqui encontramos não dispensa alguns padrões rítmicos bem complexos e uma gestão do contraponto que não envergonha os grandes clássicos. Aliás, John Zorn é um músico de contrastes, em muitas ocasiões saltando de um extremo para o outro. “O meu mundo musical é como um pequeno prisma. Olhamos através dele e o que vemos vai num milhão de direcções diferentes”, lemos no seu website pessoal. Alguns críticos já disseram que esta bem pode ser a sua melhor banda sonora de sempre.
(
13-04-2006)

1. The Treatment
2. Romance
3. Why Me?
4. Family
5. Marking Time
6. Anxieties
7. Freud's Rondo
8. Totem and Taboo
9. Rush Hour
10. Bad Dreams
11. Uncertainty
12. Happy Ending

 

Joseph Holbrooke Trio
«The Moat Recordings»
2CD Tzadik, € 23,50

A morte de Derek Bailey no Natal de 2005 dá uma ainda maior relevância a este duplo álbum que documenta o reagrumento em 1998 do seminal Joseph Holbrooke Trio para uma gravação de estúdio e um concerto em Koln, na Alemanha, e seminal porque foi, entre 1963 e 1966, dos primeiros a configurar uma abordagem especificamente europeia da improvisação (isto não obstante a sua inspiração inicial no trio Bill Evans / Scott LaFaro / Paul Motion e no período modal de Miles Davis), tendo esta como exclusivo meio criativo – aquilo que o próprio Bailey viria a baptizar como “música não-idiomática”. Além do guitarrista que desenvolveu novas técnicas e um novo léxico para as seis cordas, faziam parte deste grupo Gavin Bryars (contrabaixo), que entretanto se notabilizou na composição “clássica” com obras como “Jesus Blood Never Failed Me Yet” e “The Sinking of the Titanic”, refutando a sua anterior prática improvisacional, e o baterista Tony Oxley, neste contexto já distanciado do jazz, o seu território de acção original e aquele a que foi regressando diversas vezes ao longo dos anos, como no caso recente da sua parceria com Cecil Taylor e Bill Dixon. Só agora estes registos vêem a luz do dia porque o seu responsável, Gary Todd, da editora Organ of Corti, sofreu um grave acidente que o vem obrigando a uma hospitalização permanente, tendo acabado por passá-los à Tzadik de John Zorn. A principal incógnita deste retorno residia em Bryars, cujas negativas opiniões sobre a improvisação são conhecidas e que tinha abandonado o seu instrumento para se dedicar apenas à escrita, mas é com agrado que o descobrimos em “The Moat Recordings” como a coluna vertebral de tudo o que vai sucedendo, com Oxley a concentrar-se muito especialmente na percussão metálica, não se preocupando com métricas e tempos, e um Derek Bailey igual a si mesmo, ora tocando eléctrico, ora acústico com os seus típicos, mas sempre surpreendentes, fraseados alineares, uma curiosa utilização do pedal de volume, para acentuação das dinâmicas, e uma subtil mas eficaz gestão de “feedbacks” e dissonâncias. Esta edição vem colmatar a inexistência de uma discografia do projecto que permitisse compreender, a quem não os ouviu na altura, por que motivo continuava a ser tão falado décadas depois – a única excepção foi um CD-ROM da Incus Records, a etiqueta de Bailey, que incluía um ensaio de 1965 da formação (“Rehearsal Extract 10’26’’”) com base num tema de John Coltrane, “Miles Mode”. Se alguns dos nossos leitores ainda tiverem reservas quanto à suposta “secura” dos guitarrismos baileyanos, diga-se que esta música não é desprovida de humor. Aliás, nem outra coisa seria de esperar de um trio que nunca interpretou o compositor de que usa o nome, Joseph Holbrooke.
(
12-05-2006)

Disco 1:
1. Orchard

2. Condensation

3. Crookesmoor
4. Campo

5. Fermata

6. Radio Bossa

7. Mappin


Disco 2:
1. Holderness

2. Cord

3. Tenter

4. Edinburgh

5. Cortical

6. Chiuso

7. From Bar Seven

8. Matilda

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Josephine Foster
«A Wolf in Sheep’s Clothing»
CD Locust Music, 16,50

Característica fundamental das artes e da cultura contemporâneas, o fenómeno de hibridização a que vamos assistindo parece definitivamente instalado. Mas se este é um procedimento comum, ainda surge quem nos surpreenda, propondo algo que ninguém tinha imaginado antes. O último caso é-nos apresentado por este “A Wolf in Sheep’s Clothing”: nele, a cantora folk Josephine Foster faz um intervalo no seu namoro com o rock psicadélico para pegar nalguns “lieder” de Schubert, Brahms e Schumann, compositores típicos do romantismo germânico do século XIX, e oferece-nos versões altamente intrigantes dos mesmos (no Alemão original, atenção!), com acompanhamento de guitarra eléctrica em distorção e muita dissonância (um essencial Brian Goodman, sempre a caminhar na corda bamba mas a sair-se muito bem), contrastante com os acordes de guitarra de caixa da autora destes arranjos, que têm a simplicidade das baladas de fogueira à luz das estrelas, e com a sua voz dobrada em tons diferentes, para maior tessitura e com vista a estabelecer jogos de doçura e tensão, luz e sombra. Tudo isto é um anacronismo, está claro, mas precisamente por o ser é que estamos perante um disco excepcional – mais ainda pelo facto de não soar pretencioso nem rebuscado. A vertente “retro” desta música é apenas aparente – simplesmente, Foster resolveu mergulhar numa das grandes tradições da canção e mostrar o que ela seria hoje se tivesse tido efectiva continuidade, ou seja, se a fórmula não tivesse congelado e sido constantemente reproduzida nesse estado de suspensão, e ainda se outras correntes da música vocal não tivessem ganho uma relevância pública superior (referimo-nos à sobreposição do canto americano popular sobre os europeus, “lieder” clássicos alemães e ópera italiana incluídos, que no seu tempo eram pop) relativamente a esta outra via.
(
05-05-2006)

1. An Die Musik
2. Der Konig in Thule
3. Verschwiegne Liebe
4. Die Schwestern
5. Wehmut
6. Auf
Einer Burg
7. Nahe des Geliebten

 

Josh Rubin
«Derailroaded – Inside the Mind of Larry ‘Wild Man’ Fischer»
DVD Plexifilm, € 23,95


É por demais sabido que as artes sempre se inspiraram naquilo a que genericamente se chama “loucura”, e tanto melhor quando quem as cria é, de facto, louco, pois deixa de ser necessário procurar “estados alterados de consciência” ou agir por mimetismos e metáforas. Maníaco depressivo e paranóico esquizofrénico certificado, foi esse o caso, na música, de Larry “Wild Man” Fischer, cantor de rua “descoberto” por Frank Zappa em meados da década de 1960 que se tornou numa figura de culto e hoje ainda é recordado, apesar de os seus discos nunca terem sido reeditados em CD. A Rhino lançou a compilação “The Fischer King” em 1999, incluindo um dueto que fez com Rosemary Clooney, mas com tiragem limitada. No caso de “An Evening with Wild Man Fischer”, com produção do mentor dos Mothers of Invention, deve-se tal ao facto de a viúva de Zappa, Gail, não querer disponibilizar as “masters” por considerar que esse duplo álbum – apontado como o mais bizarro alguma vez editado – representa a pior faceta do marido. A explicação do “Wild Man” é outra: numa discussão com Zappa em casa deste atirou-lhe com uma garrafa que ia acertando na filha, Moon Unit, então bebé. Valha-nos a existência de “Derailroaded”, filme de Josh Rubin que nos conta a história deste “descarrilado” que desde o final dos anos 70 desapareceu de cena, presumindo-se que ainda esteja vivo e a residir em Washington. A indústria do disco virou-lhe as costas, Zappa também, Fisher considerou-se injustiçado e perseguido e nas últimas declarações que deu à imprensa disse nada dever ao homem que o levou para estúdio: “Dever devo o IRS, e nem por isso lhe enfio a língua no cu”, comentou ao jornalista num assomo de fúria. Neste documentário, Rubin recolhe depoimentos de quem privou com esta anti-estrela do rock, como “Weird” Al Yankovic, Mark Mothersbaugh dos Devo, o cantor soul Solomon Burke, o radialista Dr. Demento, os produtores Barnes & Barnes, responsáveis pelos três restantes discos de Larry Fischer, e até a tão odiada Gail Zappa. Ponto alto é também uma animação com base na banda desenhada que Pat Moriarty lhe dedicou. Fundamental...
(22-09-2006)

 

Joy Division
«Limited Edition Vinyl Box Set»
Caixa 4LP, London Records € 215,00

Caixa de luxo de edição limitada a 3000 cópias incluindo os três clássicos álbuns da lendária banda de Ian Curtis em vinil de 180g - "Unknown Pleasure", "Closer" e "Still" (este um duplo LP). Ao contrário do anunciado nalgumas lojas online, esta caixa inclui os discos originais remasterizados, mas as capas limitam-se a envelopes sem quaisquer grafismos ou textos. Trata-se, no entanto, de uma belíssima peça de colecção criada pelo próprio Peter Saville.
(07-12-2007)

 

Joy Division
«Unknown Pleasures (180g Remaster)»
LP Rhino, € 19,50

Lado 1:
1. Disorder
2. Day Of The Lords
3. Candidate
4. Insight
5. New Dawn Fades

Lado 2:
1. She's Lost Control
2. Shadow Play
3. Wilderness
4. Interzone
5. I
Remember Nothing

Joy Division
«Closer (180g Remaster)»
LP Rhino, € 19,50

Lado 1:
1
. Atrocity Exhibition
2. Isolation
3. Passover
4. Colony
5. Means To An End

Lado 2:
1. Heart And Soul
2. Twenty Four Hours
3. Eternal
4. Decades

Joy Division
«Still (180g Remaster)»
2LP Rhino, € 53,50

Lado 1:
1. Exercise One
2. Ice Age
3. Sound of Music
4. Glass
5. The Only Mistake

Lado 2:
1
. Walked in Line
2. The Kill
3. Something Must Break
4. Dead Souls
5. Sister Ray

Lado 3:
1
. Ceremony
2. Shadowplay
3. A means To An End
4. Passover
5. New Dawn Fades

Lado 4:
1
. Transmission
2. Disorder
3. Isolation
4. Decades
5. Digital

Tal como prometido, finalmente disponibilizamos as versões remasterizadas e editadas em vinil de 180g. Fiéis aos originais, com as capas genuinamente reproduzidas, salientamos especialmente o duplo álbum "Still", que, tal como os primeiros exemplares da versão de 1981, vem envolvido num pano e numa fita. Imprescindíveis.
(07-12-2007)

 

Junior Boys
«So This Is Goodbye»
CD Domino, € 17,95

1. Double Shadow
2. The Equalizer
3. First Time
4. Count Souvenirs 
5. In The Morning
6. So This Is Goodbye
7. Like A Child
8. Caught In A Wave
9. When No One Cares
10. FM

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Kammerflimmer Kollektief
«Remixed  (by Nôze, Sutekh, Radian, Secondo, Lump200, David Last, Jan Jelinek, Aoki Takamas & Hans Appelqvist)»
CD Staubgold, € 15,95


Com material já editado em dois EPs e alguns extras, eis os remixes de nomes como David Last, Aoki Takamasa, Noze, Jan Jelinek, Radian, Secondo, Sutekh, Lump200, Hans Appelqvist e Pocket Pet, alterego do já referido Last, do muito celebrado “Absencen” do Kammerflimmer Kollektief. E o curioso é que, se este grupo alemão é conhecido pela sua ambivalência entre o techno, o jazz e o experimentalismo, com referências cruzadas como John Coltrane, The Wailers, Robert Wyatt, AMM, This Heat e Miles Davis, as versões apresentadas incidem sobretudo na vertente dança, ou muito próxima, se bem que pelo meio se evidencie o gosto de Jelinek por trabalhar as sonoridades jazzísticas, bem documentado, aliás, no seu álbum “Loop Finding Jazz Records” (que pena ele ter abandonado a fómula), ou o cunho desestruturante e “noisy” dos Radian, exemplo de como uma “extreme music” pode até ser acessível. As interpretações dos vários participantes são bastante eclécticas e o certo é que este não é propriamente um vulgar álbum de electrónica sincopada, área em que, por exemplo, não encontramos os sopros que em algumas destas faixas são enquadrados de forma trans-idiomática.
(
07-07-2006)

1. Matt (David Last's Doki Doki Rock mix)
2. After The Rain (Aoki Takamasa remix)
3. Lichterloh (Nôze remix)
4. Unstet-Schleifen (Jan Jelinek remix)
5. Absencen (Sutekh remix)
6. Nachtwache (Lump 200 remix)
7. Unstet (Secondo Reshuffle)
8. Radian On Equilibrium (Radian remix)
9. Shibboleth (Hans Appelqvist remix)
10. Matt (David Last's Pocket Pet mix)

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Kangding Ray
«Stabil»
Pixel
«Set Your Center Between Your Parts in Order To»
CD's Raster-Noton, € 15,95 cada


David Letellier (ou Kangding Ray na estreia discográfica que é “Stabil”) passou por grupos de rock e jazz como guitarrista e baterista e Jon Egeskov (o senhor Pixel de “Set Your Center Between Your Parts in Order to”) foi saxofonista de jazz no passado. Mudaram-se ambos de armas e bagagens para a electrónica, mas com eles levaram o sentido rítmico adquirido nos géneros musicais em que antes se inseriam. Adequaram-no ao ultraminimalismo da Raster-Noton, etiqueta que representa toda uma variante estética da música digital, mas o “groove” e a acentuação “funky”, versão robótica, dos seus respectivos títulos têm uma carga que fala por si, distanciando-os do “pai” do “glitch” e fundador desta editora, Alva Noto. Se a produção deste resulta da radical descarnação do próprio conceito de música, tudo reduzindo ao osso, em Kangding Ray (sobretudo ele) e em Pixel ainda descobrimos alguns músculos e até alguns órgãos internos. Em Ray ouvimos “loops” de guitarra, linhas de baixo e instrumentos acústicos em meio às texturas elaboradas com sínteses e ruído, passagens havendo em que reconhecemos esboços de melodia. No caso de Pixel, referências nas músicas africana e indiana estão patentes nas suas complexas polirritmias e métricas, ainda que se aproxime mais de um Bretschneider do que de uns Autechre. O trabalho de “mastering” do seu disco foi feito por Stefan Betke, que conhecemos sob a designação de Pole, o que é logo à partida um aval...
(27-10-2006)

«Stabil»:
1. Nn/Peaks

2. Interrompu Court
3. Sub.res
4. Visible
5. Mai
6. Dadaist
7. Stabil
8. Persan
9. Cyan
10. _isoline
11. Status+light
12. Nine
13. Wellen

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«Set Your Center Between Your Parts in Order to»:
1. Drum
2. Sinus
3. Feeds
4. Lion

5. .matrix

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Karen Dalton
«In My Own Time»
2CD/LP Light In The Attic, € 17,
50/€ 19,50

Karen Dalton - falecida em 1993 - tem sido a musa inspiradora para inúmeros génios folk da actualidade, de Bob Dylan a Devendra Banhart, ou Lucinda Williams a Joanna Newsom. A lendária cantora Lacy J. Dalton até adoptou o apelido Dalton quando começou a sua carreira de country. Karen Dalton surtia esse efeito nas pessoas - o seu espírito nativo americano intemporal, melancólico e deprimente foram fonte de inspiração para os temas "Katie's Been Gone" dos Band e de Bob Dylan (em "The Basement Tapes") ou "When I First Came To Town" de Nick Cave (de "Henry's Dream"). Gravado num período de seis meses em 1970 e 1971 em Bearsville, nos Estados Unidos, "In My Own Time", seguidor do primeiro "It's So Hard to Tell Who's Going to Love You the Best", foi o único álbum planeado por Karen Dalton. O material foi cuidadosamente seleccionado e esculpido para ela pelo seu produtor e músico Harvey Brooks, o homem que tocou guitarra-baixo no clássico de Dylan "Highway 61 Revisited" e em "Bitches Brew" de Miles Davis. "In My Own Time" contém dez faixas que reflectem a incrível capacidade de Karen Dalton para quebrar o coração de qualquer um. Com a sua voz melancólica, semelhante à de Billie Holiday, Dalton espanta-nos desde o original de Joe Tate "One Night of Love," ao trágico tradicional "Katie Cruel." Vastamente conhecida como uma grande intérprete de material de outros artistas, Dalton consegue com mestria abordar estilos musicais quase opostos. Na sua figura magra e alta, sempre vestindo cores escuras, Karen Dalton interpretava os seus temas sob a influência do jazz de Ella Fitzgerald, Billie Holiday e Nina Simone, do R&B e do country. Este é um dos álbuns de cabeceira de Devendra Banhart e Nick Cave - que contribuiem com textos no 'booklet' que acompanha esta edição -, e uma obra imprescindível para Lenny Kaye ("Nuggets" e Patti Smith Group), que também tece longos elogios no mesmo 'booklet'. Esta edição inclui também um CD bónus com temas nunca antes disponíveis.
(
10
-08-2007)
  

"My favorite singer in the place was Karen Dalton. Karen had a voice like Billie Holiday's and played the guitar like Jimmy Reed." Bob Dylan

"She is my favorite female blues singer." 
Nick Cave

"Without a doubt, she is my favorite singer."
Devendra Banhart

"She sure can sing the sh*t out of the blues."
Fred Neil

1. Something on Your Mind
2. When A Man Loves A Woman
3. In My Own Dream
4. Katie Cruel
5. How Sweet It Is
6. In A Station
7. Take Me
8. Same Old Man
9. One Night Of Love
10. Are You Leaving For The Country

Bónus CD:
1. Something On Your Mind (alternate mix/take)
2. In My Own Dream (alternate mix/take)
3. Katie Cruel (alternate mix/take, without violin)
4. Are You Leaving For The Country (backwards)

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Keiji Haino and Tatsuya Yoshida
«New Rap»
CD Tzadik, 16,50

Um encontro entre o “guitar anti-hero” dos Fushitsusha, conhecido também pelos seus álbuns a solo de sanfona, percussão, electrónica e voz num estranho misto de psicadelismo, trova medieval e improvisação livre, e o baterista dos Ruins, que tão bem soube conciliar a tradição do rock progressivo com a verve do punk, só podia ser algo de especial. E “New Rap” é-o sem sombra de dúvida, e mais até do que poderíamos esperar. Como os americanos gostam de dizer, e pelo ouvido o conceito existe também no Japão, o presente disco “kick ass”. Entrando decididamente em território do “japanoise”, este duo de mestres senta-se nos ombros de um gigante, os blues, e aí está a sua diferença relativamente ao “noise” de “drones” (sons contínuos) ou de texturas que muitos dos seus pares na cena nipónica preferem. Não se trata, bem entendido, de um disco de rimas e “scratch”, ao contrário do que o seu título pode sugerir, mas é evidente a vontade de propor uma nova música de rua, tal como o rap em tempos já o foi. Nem que seja por ironia. Keiji Haino toca rápido sem entrar na armadilha do virtuosismo, e o que faz com as seis cordas e os pedais de que dispõe ocupa vários planos do espectro sonoro, como se fosse mais do que um músico a tornar a electricidade num fundamento criativo. Sobre as muralhas de “feedback” e distorção que vai construindo cola por vezes alguns vocais do inferno, conciliando a tradição Dada com o guturalismo do death metal. Se já estávamos cientes da sua capacidade para gerir densidades e intensidades, nesta nova edição da Tzadik de John Zorn excede-se a si mesmo. É a isto que se chama “extreme music”, e muito mais apropriadamente do que noutros casos a que foi aplicado tal rótulo. Wolf Eyes? Mouthus? Ao lado do que aqui encontramos não passam de meninos de coro. Inacreditavelmente, Tatsuya Yoshida encontra espaço para as suas pontuações rítmicas irregulares e os seus fraseios percussivos quebrados. Cada batida das baquetas nas peles é de um essencialismo que surpreende. O resultado pode parecer excessivo, mas os meios para o obter são de um controlo e de uma oportunidade absolutos. E não, nas intenções de Haino e Yoshida não está a prioridade de encadear explosões de energia, mas de ir construindo uma aguda consciência do corpo. O que eles pretendem é que os seus corpos ressoem no ar por meio dos instrumentos. O guitarrista de que toda a gente fala costuma falar disso nas entrevistas, e com um discurso que se aproxima do limiar do misticismo. Esta é uma música com carne, sangue, nervos e vísceras. Performarte.
(
13-04-2006)

1. Houston Street
2. West Broadway
3. Tompkins Square
4. Lower East Side
5. West 48th Street
6. Avenue D
7. East Village
8. Chinatown
9. Canal Street

 

Keiji Haino
«Uchu Ni Karamitsuiteru Waga Itami»
CD PSF Records, € 23,50

Quando já nos habituávamos a vê-lo como o “guitar hero” da cena noise japonesa, Keiji Haino pôs de lado a guitarra e experimentou outros sons, como os da medieval sanfona e os da percussão metálica, além da própria voz. E se as “seis cordas” já ele as processava fortemente, fosse a solo ou no seu projecto Fushitsusha, ei-lo que surge com um disco inteiramente electrónico. Como seria de esperar da parte de um músico tão performativo, a electrónica de “Uchu ni Karamistsuiteiru Waga Itami” (“Tangled up in the universe, my pain”, em Inglês) não é a computadorizada, mas precisamente a que lhe permite uma maior gestualidade, a proporcionada pelo theremin em versão digital e por aquilo a que ele chama de “air synth” e “air FX”, ou seja, instrumentos e gadgets que necessitam da proximidade do movimento para serem accionados. A energia e a densidade do conteúdo deste disco são as de sempre, mas aqui a um nível microscópico, para não dizer subatómico, particularista na forma como esculpe cada pormenor, incisivo sem ser matemático e altamente concentrado – os drones são habitados por seres liliputianos e as investidas sonoras têm carne e substância, que não apenas aparência. O que significa que continua a fazer uma “body music” para as sinapses, condicionada por um factor que Haino, assumido xamã contemporâneo, considera básico na criação sonora, a experiência da dor, o mesmo factor que o leva a contestar as pretensões daqueles que dizem fazer música “de cura”, com o argumento de que não é possível curar sem antes ter vivido a “doença”. Pelo ouvido, o antigo mentor dos seminais Lost Aaraaff prefere ficar pela sintomatologia do que não funciona bem organicamente. Esta é uma música de clínica geral (identificação das patologias), não de cirurgia recuperadora.
(19-08-2005)

 

Ken Vandermark/Paal Nilssen-Love
«Seven»
CD Smalltwon Superjazzz, € 16,50


O que está por detrás de um fraseado de saxofone ou de uma textura percussiva num contexto como o de “Seven”, no qual a performance musical é reduzida ao seu esqueleto (apenas dois executantes e respectivos instrumentos) e a abordagem é a da improvisação livre? Ken Vandermark tem apontado como suas referências nomes tão diversos quanto “Mississippi” Fred McDowell, James Brown, John Cage, The Ex, Gyorgy Ligeti, Sly and The Family Stone, Morton Feldman e Lee “Scratch” Perry, além dos suspeitos do costume na arte do saxofone jazz, mas até que ponto as influências destas figuras estão inscritas no seu som e na sua lógica discursiva, tratando-se para mais de um músico com uma voz tão pessoal? Estas perguntas são inevitáveis numa prática musical como o jazz, incluindo a sua vertente free, na medida em que a escuta do género tem uma componente de detecção de “backgrounds” e interesses: diz-me o que ouviste e eu dir-te-ei quem és e para onde vais, parece ser o posicionamento do ouvinte experimentado de jazz. Pois com esta fórmula Vandermark, e com ele Nilssen-Love, dado o percurso semelhante que tem feito, vão para muitos lados e é patente que não procuram fazer sínteses nem arrumar conceitos. A mesma combinação que permitiu a John Coltrane e Rashied Ali gravar o seminal “Interstellar Space” possibilita-lhes colocar em equação o que têm dentro de si de uma forma espontânea e intuitiva, sabendo que o que está implícito ou é subreptício pode ser muito mais interessante do que aquilo que é declaradamente formulado.
(15-12-2006)

1. First Hit, Second Fall
2. Open Too Close
3. Universal Funeral

Também disponíveis:

Paal Nilssen-Love/Ken Vandermark
«Dual Pleasure»
CD Smalltwon Supersound, € 16,50


Paal Nilssen-Love/Ken Vandermark
«Dual Pleasure»
2CD Smalltwon Supersound, € 17,50


 

 

Kevin Ayers
«The Unfairground»
CD Tuition, € 16,
50

Lá no fundo do túnel, estão os Soft Machine, um projecto que marcou a diferença nos longínquos anos 60 e que continua, felizmente, a influenciar inúmeros músicos das novas gerações.
Cá por cima está um dos mais enigmáticos personagens na arte de fazer música. Kevin Ayers faz parte de ambos os elencos.
Apesar de Brian Eno, John Cale ou Robert Wyatt (o novo «Comicopera» está para aí a estoirar !!!) militarem pela mesma corrente, e manifestarem-se com maior regularidade, Ayers não dá ponto sem nó.
Qualquer das canções de «The Unfairground» justifica a sua audição pela exuberância e frontalidade com que relata temas como o velho e o novo, a dôr e o prazer, a esperança e o desgosto ou a vida e a morte.
Agora que «redescobrimos Drake, Martyn e Harper, está na altura de prestar atenção a Kevin Ayers !! (1).
Por favor disponham e não se queixem das injustiças terrestres... pois, face a um disco como este, somos todos uns felizardos !!

(1) in UNCUT Outubro 2007

 "The question 'why isn't Kevin Ayers an almighty star?' is up there with 'how did the universe begin?" Nick Dalton in Record Collector
(14
-09-2007)

1. Only Heaven Knows
2. Cold Shoulder

3. Baby Come Home

4. Wide Awake

5. Walk On Water

6. Friends And Strangers

7. Shine A Light

8. Brainstorm

9. Unfairground

10. Run Run Run
 
   

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Kid606
«Pretty Girls Make Raves»
CD Very Friendly, € 16,50


Diatribe referenciada no grupo rock Pretty Girls Make Graves, o que poderá justificar-se pelo facto de encontrarmos por aqui alguns samples, sobretudo vocais, desse género musical, mas com um “twist” no final do título que recorda as desbundas dançantes de outros tempos que não este (afinal, as “raves” foram um produto da década de 1980), “Pretty Girls Make Raves”, com o seu techno muito ligado à velha cena de Baltimore, é bem capaz de ser o álbum retro de Miguel Depedro, aka Kid606, e talvez uma forma de ele dizer que o “kid” que foi está agora com mais uns anos de idade. E com falta de paciência, pois é precisamente este cultor da produção, por sinal um dos mais maníacos na electrónica “club”, a par de Aphex Twin, quem nos apresenta um disco com materiais quase deixados no seu estado bruto. Pela nossa parte, desconfiamos que até houve muito trabalho de estúdio aqui investido, mas se houve, foi para perfeccionar este aprumo de desleixo que, vendo bem, é muito punk, uma atitude, mais do que um estilo, que aliás sempre interessou ao agora Adult606, mas sobretudo ao nível da agressividade sonora – e, se nos é permitido acrescentar, a nós mesmos aqui na AnAnAnA. Musicalmente, o que aqui vai embalado é como se Laurent Garnier tivesse pertencido aos Dead Kennedys e o seu propósito actual fosse muito simplesmente divertir-se, o mais não seja para não pensar que na faixa etária dos 30 anos não há desculpas para não se ser advogado, engenheiro ou gestor de empresas. Contra isso, aí está o grande argumento dos BPM, com cada faixa do CD a informar antecipadamente os utilizadores que cultivam alma de DJ quantas batidas por minuto vão encontrar lá dentro (muitas, o que é sempre uma boa notícia!), de maneira a pensarem desde logo nas misturas a fazer. Mas esperem lá... Será que o que Miguel pretende é, afinal, que sejam estes a produzir o álbum? Que a produção do mesmo mudará de cada vez que “Pretty Girls...” for passado numa discoteca, algures no mundo, se bem que as discotecas, de modo geral, já não passem esta música? Ora aí está, ou estaria, uma perspectiva interessante. A ver se lhe perguntamos...
(
07-07-2006)

1. Let It Roll
2. Chickenfight
3. Boomin'
4. Meet Me At The Bottom
5. Comeuppance
6. T.Y.T.R.
7. Getdownlow
8. Oakland Highsiding

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Kid 606
«Resilience»
CD Wichita Recordings, € 18,50

Já nos habituámos a que cada novo disco de Miguel Depedro seja diferente do anterior e ainda por cima mantendo a mesma identidade, o que é algo de notável, tendo em conta que lança pelo menos três num ano. Para os que vibraram com os impactantes “Down with the Scene” e “Kill Sound Before Sound Kills You”, será necessário avisar desde já que este “Resilience” é muito, mas muito mais calmo e “down to earth”. Em vez do noise à Merzbow misturado com as rítmicas galopantes do digital hardcore de uns Atari Teenage Riot e com o quase-ambientalismo de algum Aphex Twin, o que agora encontramos é melodias simples sobre “beats”... como dizer... “domesticados”, com colorações que vão do reggae ao disco, mas sem a esquizofrenia sonora e estilística a que nos habituou. Esta “normalização” da música do Kid levou já a que se falasse neste álbum como no da sua maturidade, mas será de esperar que o próximo título venha a desmentir que Miguel tenha assentado e calçado as pantufas. Uma coisa é certa: “Resilience” é dedicado à sua mãe, o que pode querer dizer que ele, por uma vez que seja, desejou fazer algo de aceitável até no entender de quem nos deu a vida e não quer estar por perto quando colocamos certas coisas no tabuleiro do leitor de CDs. O que, atenção, não tem necessariamente de ser mau. O disco fala por si mesmo, constituindo até uma prova de que este “enfant terrible” da electrónica está igualmente à vontade numa abordagem mais “mainstream”. Quem gosta de sintetizadores fique também a saber que uma boa parte dos sons aqui ouvidos provém dos ditos, ainda que samplados e manipulados em computador.
(21-10-2005)

1. Done With the Scene
2. Spanish Song
3. Phoenix Riddim
4. Xmas Funk
5. Sugarcoated
6. I Miss You
7. Banana Peel
8. King of Harm
9. Cascadia
10. Hold it Together
11. Short Road Down
12. Audition

 

Kieran Hebden & Steve Reid
«Tongues»
CD Domino, € 17,95

Bastante diferente dos dois volumes de “Exchange Session”, o novo álbum da dupla constituída por Kieran Hebden (Four Tet) e Steve Reid (baterista com um currículo que passou por James Brown, Miles Davis, Fela Kuti e Archie Shepp) é uma colecção de peças curtas, implicando um enfoque em situações e já não em desenvolvimentos do tipo “jamming”. Numa altura em que o formato duo de electrónica e percussão vai ganhando adeptos na área experimental / improvisada – lembrem-se os casos de Lasse Marhaug / Paal Nilssen-Love, Tom & Gerry (Thomas Lehn e Gerry Hemingway) e Humcruch (Stale Storlokken e Thomas Stronen), a inflexão pode ser estratégica, mas tal encapsulamento resulta numa via mais de associação do “sampling” (caso vertente), do computador ou dos sintetizadores com as peles e os pratos de um “kit” de bateria. Uma via pop será, como já a crítica observou, e de facto “Tongues” é o título mais acessível desta colaboração, mas permite igualmente aos dois músicos uma maior objectividade. Isso tem implicações na forma como Hebden dispara os seus sons, com uma economia de recursos e um espírito de síntese que, de facto, lhe faltavam enquanto improvisador em contextos de longa duração, bem como no modo com que Reid centra as atenções num único quadro rítmico, sem preocupações a nível de progressão. É verdade que se perde em “drive”, sentido de construção e espontaneidade, mas ganha-se em termos composicionais e formais. Será, no entanto, de crer que o futuro deste dueto não estará na continuação desta vertente, mas num meio-termo entre as duas abordagens. Se assim for, o melhor do projecto está para vir...
(
30
-03-2007)

1. The Sun Never Sets
2. Brain

3. Our Time

4. People Be Happy

5. Greensleeves

6. Rhythm Dance

7. Mirrors

8. The Squid

9. Superheros

10. Left Handed, Left Minded

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Kieran Hebden & Steve Reid
«The Exchange Session Vol. 2»
CD Domino, € 16,95

Ora aqui está um duo que ninguém imaginaria possível, entre um dos mais interessantes cultores da electrónica com “beat”, Kieran Hebden, mais conhecido como Four Tet, e um mestre da bateria, Steve Reid, que tocou com os maiores do jazz (Miles Davis, Archie Shepp, Dexter Gordon, Sam Rivers, etc.) e com nomes grandes da música negra como James Brown e Fela Kuti. Segundo volume de uma colaboração que no início do ano surpreendeu mas não foi muito mais além, esta nova “Exchange Session” avança pelas pistas então anunciadas e conduz-nos a mais saciantes desfechos. Quem tem apreciado as parcerias entre Stronen e Storloken sob a designação Humcrush encontra aqui ainda melhor filão. À semelhança do tomo anterior, a música contida neste CD foi inteiramente improvisada, e isso é perceptível a cada momento, e não só naqueles em que estão claramente à procura do que fazer a seguir. Tentar estradas secundárias para entrar na via rápida sempre foi uma característica deste tipo de abordagem, e se nem sempre isso é interessante para quem ouve, o que nos oferece de mais impactante teve necessariamente de passar por aí. Como dizem os religiosos progressistas, são muitos os caminhos para chegar a Deus, e o certo é que esta dupla tem o êxtase como finalidade e propósito, aproximando-se muito da epifania. Sobretudo em “We Dream Free”, e é efectivamente uma “free music” o que ouvimos, plena de jazz e funk, mas com uma envolvência e uma sonoridade que não encontramos normalmente nesses domínios. Não está muito longe de “Africa / Brass” de John Coltrane, cujo modalismo é reinvindicado por Reid, mas em vez dos sopros temos samples e sínteses. Muito bom.
(18-08-2006)

1. Hold Down The Rhythms, Hold Down The Machines
2. Noémie
3. We Dream Free

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Kim Hiorthøy
«My Last Day»
CD Smalltown Supersound, € 15,9
5

Segundo álbum de originais, depois do aclamado "Hei" de 2002, "My Last Day" não significa que Kim Hiorthøy tenha estado parado entretanto, tendo lançado vários discos de lados B, EP's, álbuns ao vivo e gravações de ambientes. Tem também actuado pela Europa, Estados Unidos e Japão com frequência.

Extraordinariamente talentoso e expressivo, Kim Hiorthøy opera em inúmeras áreas para além da música. Como designer gráfico é responsável por todo o grafismo da também norueguesa Rune Grammofon (tendo inclusivamente filmado e realizado o maravilhoso DVD "7" dos Supersilent). É também artista plástico (vejam em www.standardoslo.no) e escritor.

Residente em Berlim e Oslo, trabalhou neste novo álbum durante alguns anos, devido ao seu tempo extremamente ocupado com outras actividades. A maior parte foi gravada em Berlim, e comparado com "Hei", "My Last Day" é menos fragmentado e mais musical e melódico, sempre com o seu som característico. Por vezes inclui na sua música sons mais orgânicos e mesmo folk, tanto assim que a revista XLR8R reconheceu-o como uma das mais importantes personagens da nova música folk electrónica, a par de Herbert, Matmos e Four Tet. Kim vai buscar inspiração ao folk, ao jazz (os seus sets ao vivo têm sido com o virtuoso percussionista free-jazz Paal Nilssen-Love), electrónica lo-fi, acid, hip-hop, gravações de ambientes e samples. Toda a sua música é criada com um sampler MPC, o instrumento original do hip-hop, o que leva a que as suas actuações ao vivo sejam bem mais interessantes e físicas, evitando o vulgar espectáculo com um laptop, a que normalmente assistimos com outros artistas da electrónica.

Em “My Last Day” Kim Hiorthøy continua a criar excelente música pop electrónica no seu particular e muito próprio estilo.
(29-11-2007)

1. I Thought We Could Eat Friends
2. Beats Mistake
3. Skuggan
4. Album
5. Same Old Shit
6. Den Långa Berättelsen Om Stov Och Vatten
7. Alt Går Så Langsomt
8. Goodbye To Song
9. Wind Of Failure
10. Hon Var Otydlig, Som En Gas
11. I'm This I'm That

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King Kong
«Buncha Beans»
CD Drag City, € 16,50


Devem-se contar por metade dos dedos de uma só mão os portugueses que tenham em casa um disco dos King Kong… Banda liderada por Ethan Buckler, ex-baixista dos seminalíssimos e há muito extintos Slint, King Kong é uma banda clássica (guitarra, baixo, bateria, sintetizador e vozes masculinas e femininas), despreocupada e discreta; o seu charme reside exactamente em não terem absolutamente charme algum. Em “Buncha Beans”, o sétimo registo desde a estreia em 1992, confluem, de uma forma competente, a fragilidade e a ironia de Jonathan Richman, os trejeitos monocórdicos de Mayo Thomson/Red Krayola, e a idiossincrasia particular do seu líder - bem patente na sua fascinante escrita -, criando-se assim um disco despretensioso, agradável e muito provavelmente duradoiro. Excelente lufada de ar fresco no universo rock alternativo americano actual, infelizmente pejado de pseudos-qualquer-coisa-muito-esquisita.
Não é post-rock, não é rock experimental nem neo-psicadélico, é simplesmente: King Kong!
“…everybody wants to look tough in the city…John Doe, he´s gotta family…I don´t need no monkey business at all…”.

(0
9-03-2007)

1. Bulldozers
2. Freak Off You
3. Hungry Tiger
4. Bug Make
5. Sue Na Mi
6. Cirque Du Blase
7. Monkey Business
8. Tough Guys
9. Orange Ocean
10. Buncha Beans
11. Ride The Funky Mule

 

Kites
«Peace Trials»
CD Load, € 17,95

Kites é Christopher Forbes e este “Peace Trials” um trabalho feito no singular, apenas com um convidado episódico, Eric Rosenthal dos Udog. Com electrónica “homemade” (não há computador, nem sampler nem sintetizadores envolvidos) e guitarras (a acústica que se ouve por vezes tem apenas três cordas e foi igualmente construída pelo próprio), tudo no presente disco tem inscrita a filosofia DIY (de Do It Yourself, para quem não sabe). A gravação, aliás, foi feita em cassete de quatro pistas, sem recurso a produção de estúdio nem enfeites ou correcções, seguindo a máxima “what you hear is what you get”. E o que ouvimos vai do “noise” brutal à la Wolf Eyes, com uma atitude punk de aparente displicência performativa (encenada, está claro, pois Forbes mostra saber exactamente o que quer), a canções que nos remetem imediatamente para os Pink Floyd dos primeiros anos e para os vocalismos harmónicos típicos de Syd Barrett, ainda que com uma dimensão “folky” acrescentada, consistindo estas no lado neo-hippie do disco. Algo, de resto, que só surpreenderá quem não seguiu o processo de continuidade dos princípios do “flower power” para os da estética “no future” gerido pelos britânicos Crass, um paradigma no que a esta questão diz respeito. A combinação no mesmo projecto de materiais tão diferentes, longe de o tornar incongruente, surge sim como as duas faces da mesma moeda: abstracções sónicas e figuras melódicas, ruído branco e baladismo, são entendidos apenas como formas possíveis do fazer musical nos dias que correm, mesmo que de forma “revisionista”, uma não excluindo a outra. A coexistência de muitos conceitos e práticas sonoras nas sociedades plurais de hoje está a ser cada vez mais transposta para as visões personalizadas dos músicos criativos. Nesta área, o certo é que já não vai sendo possível identificar alguém como sendo exclusivamente “de rock”, “de jazz” ou seja o que for. Tornou-se até difícil categorizar um criador como “experimental” só porque parte das suas produções foge à norma – aliás, se de normas quisermos falar, repare-se como as explosões de “feedback” aqui registadas colam com o que fizeram antes, e estabeleceram como vias de actuação, formações de “extreme music” como Throbbing Gristle ou Whitehouse. Para todos os efeitos, algumas das melhores canções pop dos últimos anos foram escritas por músicos experimentais, e este Kites junta-se à lista.
(02-12-2005)
 

1. Flag Torn Apart
2. Something About America

3. Exploded Face
4. Dirt
5. Downward/Creepy Crawl
6. Baby Fawn with Broken Legs
7. True
8. Peace Trials

 

KK Null
«Fertile»
CD Touch, € 15,95


Após o álbum de colaboração com o ex-Cabaret Voltaire e The Hafler Trio Chris Watson e Z'ev, Kazuyuki Kishino, mais conhecido por KK Null regressa em força. Estando no activo há mais de 20 anos em vários projectos - dos quais Zeni Geva será o mais conhecido, não esquecendo as colaborações com Jim O'Rourke, John Zorn James Plotkin e muitos outros -, na última década Kazuyuki dedicou-se exclusivamente ao trabalho a solo sob o nome KK Null. "Fertile" é o primeiro álbum a solo para a lendária Touch, e ainda que já não utilize a sua guitarra, faz-se usar não só de sons ambientes recolhidos na Austrália, como da electrónica mais agressiva.

"In June of 2006 i had the good fortune of visiting Darwin in the Northern Territory in Australia and explored in Kakadu National Park with some good friends. I took my digital recorder along with me and did some live field recordings there. First we encountered a flock of wild birds (Little Corella or Cacatua Pastinator) just beside the South Alligator River, and then we happened to find "bush fire" flaring just beside the road we were on. I also had a unique opportunity to record a magnificent symphony orchestra of insects, frogs and birds in wetlands just before sunset.

At that time i had no idea or no specific purpose for using these field recordings, and in the middle of working on this album [Fertile] in my home studio, suddenly came up with the idea of mixing these field recordings into some of the tracks that were unfinished.

I felt comfortable with layering & mixing different sounds from different locations and times, digital and analogue sounds into one piece. I like also the balance of spontaneity (field recording) and intentional act (studio recording)."  
Kazuyuki Kishino
(1
3
-04-2007)

1. Untitled
2. Untitled
3. Untitled
4. Untitled
5. Untitled
6. Untitled
7. Untitled
8. Untitled

 

KK Null
«Kosmo Incognita»
CDEP Thisco, 8,50

Este é o disco português do guitarrista / vocalista do grupo punk-noise Zeni Geva, o mesmo que tocou com Tatsuya Yoshida, dos Ruins, nos YB02, e com Seijiro Murayama, antigo baterista dos Fushitsusha de Keiji Haino, nos Absolut Null Punkt, além de ter colaborado com Mazami Akita, mais conhecido como Merzbow. Neste EP de 20 minutos que parecem uma eternidade, engolindo-nos na sua voragem como um buraco negro (virá daí a referência cósmica do título?), deixa cair a vertente punk, trocando a guitarra pela electrónica, e trabalha apenas com a noise, ainda que se trate de um noise muito particular, inspirado nos seus estudos do Butoh. Ensinou-lhe a dança imóvel do seu Japão natal a obter o máximo de efeito com o mínimo de gestualidade musical e física, e daí a tónica quase ambiental deste breve “Kosmo Incognita”, não obstante o impacto sonoro inerente. E não, não se trata de uma “kosmic muzik” convertida ao entendimento nipónico: em vez da impávida ordem sideral metaforizada pelos electrónicos alemães, o que encontramos aqui é pura entropia. Meteoros a embaterem violentamente contra planetas.
(24-02-2006)

1. Kosmo Incognita

 

Kubik
«Metamorphosia»
CD Zounds Records, € 13,50

"Oblique Musique" já tem um sucessor e chama-se "Metamorphosia", o novo álbum de Kubik, heterónimo que identifica a "sampling music" de Victor Afonso, guitarrista da Guarda que vem ganhando nome dentro das fronteiras portuguesas e fora delas - Mike Patton, por exemplo, é fã. Aliás, foi Kubik quem fez a primeira parte do recente concerto dos Fantômas em Lisboa, a convite do antigo vocalista dos Faith No More. Afonso apresenta este CD como uma "evolução na continuidade" e se, de facto, as coordenadas são as mesmas (junção de situações sonoras que se diriam incompatíveis, mas que nas suas composições ganham uma notável lógica sequencial), o certo é que tem um sentido de nuance que antes parecia estar ausente. Não que à estreia faltasse subtileza; simplesmente, tinha um objectivo e pressa de lá chegar. Agora, o também programador e responsável do serviço de educação musical do Teatro Municipal da Guarda permite-se alguns desvios do caminho traçado e umas pausas para respiração, dele e nossa, seus ouvintes. A lista de colaborações a que recorreu é curiosa e denota bem o seu interesse pela diversidade, indo do poeta sonoro Américo Rodrigues a Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta, com o seu embargado "spoken word". Um destes convidados especiais é Old Jerusalem (Francisco Silva), curiosamente surgindo num contexto musical que nada tem a ver com a folk e o baladismo e que resulta mesmo num dos melhores momentos deste trabalho dividido em duas partes, como se se tratasse de um disco de vinil que fosse necessário virar. No labirinto desta obra de constantes metamorfoses reencontramos o Victor Afonso mais experimental, aquele que se tem revelado na sua faceta de improvisador, mas com maior evidência ainda o que se interessa pela pop e pela música popular em geral, incluindo as franjas mais criativas deste universo - uma certa "world music" (atenção à gaita de foles e à forma como "casa" com tudo o resto), os "beats" electrónicos de dança e os "riffs" de heavy metal que reconhecemos ao longo das faixas são apenas alguns exemplos. Altamente recomendado.
(09-09-2005)

Side a
1. intro-in: shattering song
2. offertorium
3. sound nest
4. Cannibal vegetables
5. night and fog: ya!
6. i’m a vampire, i’m disgust
7. intro-middles:hitch song

Side b
8. touch of evil
9. etna
10. sweet
11. better look here
12. metamorphosia
13. era chegado o tempo
14. Intro-out: landscape song

 

The Ladybug Transistor
«Here Comes The Rain EP»
CDEP Green Ufos, € 9,
95


Um delicioso EP de quatro temas com 'covers' exclusivas de McCauley, Ayers, Cale e Lofgren a abrir apetite para o novo álbum de 2007. Nas colaborações ilustres como Jens Lekman, Keli Sutherland (Architecture in Helsinki), Paul Niehaus (Calexico, Lambchop), Kevin Barker (Currituck Co), Gus Franklin, e Isobel Knowles.

1. Here Comes The Rain (Jackie McCauley)
2. Girl On A Swing (Kevin Ayers)
3. Empty Bottles (John Cale)
4. Everybody’s Missing The Sun (Nils Lofgren)

Clique aqui para escutar excertos de alguns dos temas

 

The Lappetites
«Before the Libretto»
CD Quecksilber, € 15,
95


Em termos de improbabilidades, já tivemos oportunidade de nos surpreendermos recentemente com um disco em que o recentemente falecido Luc Ferrari improvisava ao lado de partidários do tempo real como Noel Akchoté. Agora é a vez de um quarteto electrónico feminino em que a consagrada compositora de “drone music” Eliane Radigue emparceira com as jovens terroristas sonoras Kaffe Matthews, Ryoko Kuwajima e AGF (Antye Greie). E atenção: conhecida pelas suas obras exclusivamente analógicas, com manejo de sintetizadores “vintage”, Radigue utiliza no seio das Lappetites a mesma ferramenta que caracteriza o trabalho das suas parceiras: o “laptop”. Muito distante das “soundscapes” Zen a que nos habituou, a autora de “Songs of Milarepa” é confrontada em “Before the Libretto” com situações do mais descarnado “noise”, que passam, por exemplo, pela transfiguração de uma das mais simbólicas canções punk dos Sex Pistols, pela poesia sonora (assinalando a presença da alemã Greia, cuja actividade passa grandemente por aí) e até pelo “beat”, é certo que em estertor métrico, mas denunciando uma referenciação techno. O extraordinário nesta colaboração é que cada participante encontrou lugar para fazer ouvir a sua própria voz. Coisa que, convenhamos, não é muito habitual no domínio da digitália, área em que a tendência é para o nivelamento das personalidades musicais em prol do objecto colectivo.
(28-10-2005)

1. Tzungentwist
2. My Within
3. Avoiding Shopping
4. Birken
5. Disaster
6. Stop No. 394 Falkirk Street
7. Kuchen Keiki Cake
8. Aikokuka
9. Heimat
10. Prologue
11. Funeral
12. Birthday Mister
13. Overture

 

Lasse Marhaug
«Alive - Live Recordings 1998-2006»
CD Smalltown Superjazzz, € 15,9
5

That´s Noise Folks!

"Alive – Recordings 1998-2006" é uma compilação/antologia do trabalho a solo do mago do Noise escandinavo Lasse Marhaug (Guitarra, Tapes, Powerbooks G3/G4, Electrónica, Objectos e Voz). Doze faixas gravadas nos mais variados suportes – cassete, minidisc, harddisc, camera e DAT, ao longo de 9 anos de carreira, em várias cidades do chamado mundo-ocidental – EUA, Canadá e Europa.

O som é cru, puro e duro, personalizado, sem concessões e sem remisturas. Editado pela Smalltown Superjazz (provavelmente para apresentação a novos públicos…). Estala e estiola, "That´s Noise Folks"!
(29-11-2007)

1. Alarmed And Distressed Duckling
2. Sinus Shakedown
3. Bergen Anal Dynamite
4. Bottle Woodcarver
5. The True Flamingo
6. A Pair Of Spools To Make You Dance
7. No Sleep 'Til Haugesund
8. New York Is Now
9. Soya Across The Street
10. Lowest Bloodsugar Ever
11. To Whom Who Keeps A Record
12. Schwitter's Pistol Support

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Lasse Marhaug | Nils Henrik Asheim
«Grand Mutation»
CD Touch, € 15,95


Lasse Marhaug e Nils Henrik Asheim começaram a sua colaboração em 2004 no All Ears Festival em Oslo, na Noruega. Esta colaboração resultou numa reunião proveitosa de dois compositores com passados musicais bem diferentes. O feedback de Marhaug para os sons de órgão de Asheim no concerto de Oslo foi apenas uma pequena amostra para o que viria a ser este álbum. Asheim fez uso do órgão de igreja e de algumas técnicas subtis de modo a criar várias layers de som. Com uma componente vibratória flutuante, Asheim transformou o som acústico numa espécie de melodia ambiente constante, para depois Marhaug o manipular electronicamente e adicionar-lhe características mais sintéticas, no entanto nunca deixando de o destituir do seu aspecto orgânico.

Os dois músicos voltaram a juntar-se em Junho de 2006, mesmo antes da catedral de Oslo (que tem o instrumento favorito de Asheim) encerrar as suas portas para alguns anos de restauro. Um dia de soundcheck e uma noite de gravações produziram um fluxo improvisado de uma hora, mais tarde estruturado em cinco temas.

A gravação foi efectuada ao vivo, na sala do órgão. Nils Henrik Asheim sentado ao órgão e Lasse Marhaug atrás dele, tocando os seus instrumentos electrónicos através de um sistema de altifalantes, levou a que os sons electrónicos e acústicos se juntassem numa amálgama única. Tudo isto ocorreu durante a noite, para que sons ambientes da própria cidade não perturbassem a gravação final, que foi misturada por Marhaug em Janeiro de 2007.

(
06
-07-2007)

1. Bordunal
2. Phoneuma
3. Magnaton
4. Philomela
5. Clavaeolina

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Lauren Hoffman
«Choreography»
CD Fargo,16,50


1. Broken
2. As The Stars
3. White Sheets
4. Ghost You Know
5. Solipsist
6. Another Song About The Darkness
7. Riding In Plain Sight
8. Out Of The Sky, Into The Sea
9. Reasons To Fall
10. Love Gone Wrong
11. Joshua

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LCD Soundsystem
«Sound of Silver»
CD DFA/EMI, € 17,50

Dois anos após o aclamado 1º álbum homónimo, e inúmeros singles, eis que finalmente James Murphy regressa com os seus LCD. O difícil segundo álbum é, na opinião de muitos, o consolidar do projecto no panorama musical alternativo, mas para outros é também uma decepção, enveredando por áreas mais dançáveis e pondo de parte a influência rock que marcava o primeiro disco. A nossa opinião é a da maioria: a de que James Murphy voltou a surpreender-nos com um álbum fora do vulgar, intenso nos ritmos, e arrojado nas composições. E a crítica é também unânime.
(16-03-2007)

"Ao segundo álbum, James Murphy volta a responder, e fá-lo com uma distinção que talvez não fosse previsível" Vítor Belanciano in Ípsilon/Público 

"Certamente um dos álbuns mais esperados do ano, «The Sound Of Silver» não soa tão revolucionário quanto o primeiro disco da banda mas não deixa de ter óptimas canções." Davide Pinheiro in Disco Digital

"James Murphy e Tim Goldsworthy regressam com som ainda mais refinado. Brilhante." Rui Miguel Abreu in Blitz

1. Get Innocuous!
2. Time To Get Away

3. North American Scum

4. Someone Great

5. All My Friends

6. Us V Them

7. Watch The Tapes

8. Sound Of Silver

9. New York, I Love You But You're Bringing Me Down

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas ou então aqui para escutarem o álbum completo

 

LCD Soundsystem
«LCD Soundsystem»
2CD DFA/EMI, € 18,95

Disco 1:
1. Daft Punk Is Playing At My House
2. Too Much Love
3. Tribulations
4. Movement
5. Never As Tired As When I’m Waking Up
6. On Repeat
7. Thrills
8. Disco Infiltrator
9. Great Release

Disco 2:
1. Losing My Edge
2. Beat Connection
3. Give It Up
4. Tired
5. Yeah (Crass Version)
6. Yeah (Pretentious Version)
7. Yr City's A Sucker

 

Leafcutter John
«The Forest and The Sea»
CD Staubgold, € 15,95


John Burton, mais conhecido por Leafcutter John, está a tornar-se num caso muito sério da música actualmente feita nas ilhas de Sua Majestade D. Isabel II. Se com os Polar Bear está inserido em contexto jazzístico, mesmo que algo excêntrico, depois de ter marcado pontos como um dos mais importantes nomes da electrónica concretista ei-lo com uma obra – e que obra, do melhor que nos tem chegado à mesa de trabalho no último par de anos! – em que volta a lançar pontes para outras músicas, no caso a canção pop / folk. Exactamente, não leram mal: “The Forest and the Sea” é um disco de baladas cantadas, pelo próprio Burton e por Leo Chadburn e Alice Grant, em que ao computador e a “field recordings” de diversa proveniência geográfica e sonora se juntam instrumentos convencionais como a guitarra clássica, o bouzouki, o acordeão, o trombone, o piano, o violoncelo e o harmonium, a maior parte deles tocados pelo próprio autor e só muito ocasionalmente tratados por meios digitais. Há algo por aqui dos Pink Floyd dos primeiros anos e de algum pós-rock, mas o que sobretudo se pressente é que o jovem músico está a desbravar um caminho alternativo à já estagnada folktrónica. O álbum conta uma história, o que o coloca na tradição conceptual do rock progressivo (na verdade a única equivalência com a música desses anos), e tem uma dimensão trovadoresca que nos deixa de imediato surpreendidos e desarmados, para mais tendo em conta os envolvimentos por computador destes temas. A revista Wire já começou a chamar ao que faz de “pós-electrónica”, whatever that means.

1. Let It Begin
2. Maria in the Forest
3. Dream, Pt. 1
4. Dream, Pt. 2
5. Dream, Pt. 3
6. In the Morning
7. Go Back
8. Seba
9. Now

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Lee Ranaldo, Carlos Giffoni, Thurston Moore, Nels Cline
«Four Guitars Live»
CD Important Records, 17,50

Gravado ao vivo em 2001 num bar de Brooklyn que entretanto fechou as portas, mas só agora editado, este registo junta dois consagrados da distorção guitarrística (e membros dos Sonic Youth), Thurston Moore e Lee Ranaldo, a duas figuras das seis cordas que na altura se encontravam em plena ascensão: Nels Cline divide agora a sua actividade entre os Wilco e um jazz-country-rock de cunho experimental, e Carlos Giffoni tornou-se num dos grandes militantes do presente noise nova-iorquino, seja enquanto membro dos Monotract (e em parcerias como a que teve com Lasse Marhaug, o Merzbow europeu) ou a organizar o New York No Fun Festival. Totalmente improvisado, o que quer dizer que, para além de não haver temas melódicos nem estruturas, não há igualmente nada que se pareça com um “riff”, “Live At Luxx” tem um substracto rock, sem dúvida, mas depois de passado pelo alambique eléctrico / electrónico destes quatro “enfants terribles” do género ou próximos dele. O que temos, então, é muito “feedback”, harmónicos de cortar à faca, explosões sónicas vagamente inspiradas no punk ou no metal (vulgo “power chords”) e logo seguidas por parasitagens de dimensão quase microscópica (é preciso escutar várias vezes e de muito perto estas texturas para detectarmos tudo o que acontece), jogos tonais / politonais / atonais e uma particular devoção pelas dinâmicas. O nirvana de quem gosta de guitarrismos experimentais, em suma, bem como do tipo de improvisação em que os egos capitulam face à lógica colectivista ambicionada. De facto, não é possível perceber quem faz o quê nesta amálgama, e isso apesar da excelência da gravação em multipistas, com cada vibração sonora claramente perceptível. Quem tem acompanhado o trabalho de pesquisa realizado por Moore e Ranaldo fora dos Sonic Youth, ou nos discos mais “off” destes, saberá à partida o que pode encontrar aqui, mas o envolvimento de Cline e Giffoni impede-lhes uma cristalização nas suas formulações habituais. O primeiro terá influído no cuidado que, apesar de tudo, é dado à forma, e o músico de origem venezuelana parece arrastá-los ainda mais para os extremos da estética do ruído. Daqui resulta a vívida impressão de que há mesmo ordem no caos.
(
31-03-2006)

1. Live At Luxx

 

Leslie Woods and Dark Mountain Orchid
«The Luxury of Sin + Velvet Sky»
2CD Glitterhouse ,16,50


O que se poderia esperar de quem cresceu entre o “old mountain style” do Tennessee e o honky tonk do Louisiana senão que atravessasse todas as encarnações da Americana, do country e da folk ao rock e ao jazz, com o bluegrass a fazer a ponte? Pois é o que nos oferece a “singer/songwriter” Leslie Woods com o seu grupo, os altamente competentes Dark Mountain Orchid, e essa música transversal até já recebeu uma nova designação: country-soul. Tem outra particularidade: interiorizou toda a tradição da literatura “gótica” do Sul dos Estados Unidos, de Erskine Caldwell a Harry Crews. Se quiserem ir ao âmago do que é uma “murder ballad”, está em “The Luxury Sin” (e no bónus que o acompanha, uma reedição do primeiro disco desta senhora de voz quente, “Velvet Sky”) o que há de mais vernacular nesse formato nos dias que correm. Sempre acompanhada da sua Colt, Leslie canta amores desencantados, traições, perdas, vícios e indefinidas melancolias, “all delicious and all fucking poison”, como escreveu um crítico mais entusiasmado. A carga é tão densa que já se imaginou esta música nos filmes de David Lynch, com Leslie Woods na sala vermelha de “Twin Peaks” ou a contracenar com um Dennis Hopper pedrado com oxigénio. Inquietante, por ocasiões até algo “spooky”, esta cultora do “Apalachian gothic” consegue, no entanto, conciliar o lado das sombras com a beleza de uma melodia, o que não é fácil. Sabendo, porém, que no seu passado esteve ligada ao mundo da moda e antes disso pertenceu a um grupo punk, não surpreende. E de facto, os contrastes da sua música são grandes. Alguém chegou mesmo a descrevê-la como uma Lydia Lunch rural com a misteriosa presença de Marianne Faithful e de Nico e uma voz que lembra vagamente a de Billie Holliday. E como estas, também tem coisas a dizer sobre a branquinha, tal como ouvimos na última faixa do álbum, “Heroin”. “Diz-se que se deve escrever e compor sobre o que se conhece, e é isso mesmo o que eu faço”, explica-se ela. Ainda bem...
(
31-03-2006)

Disco 1:

1. Train
2. Everyday Fevers
3. I Am What
4. Little Bit Of Me
5. Sky So Pale
6. Say Anything
7. I Was Younger Then
8. Cami

9. Heart Is Black
10. What I Thought

11.
Save It For Me

Disco 2:

1. Velvet Sky
2. Baby Mine
3. I'm On Fire
4. Crush Me
5. I Am Fine
6. Clyton County

7. Rosemary

8.
Lullaby(3:25 am)

 

Letters Letters
«Letters Letters»
CD/LP Type, € 15,95


O álbum de estreia do trio de Montreal que inclui Mitchell Akiyama, Tony Boggs e Jenna Robertson. Música sórdida pop com resquícios da no-wave, tudo numa estática noise, será talvez a melhor classificação.

Montreal tem-se tornado num berço da música de novos talentos, não tivessem os Arcade Fire ou Wolf Parade contribuído para isso. Mas debaixo dessa superfície enganadora há muito mais. Mitchell Akiyama tem sido uma parte activa da cena musical dessa cidade canadiana há já algum tempo, não só como artista a solo, mas também em inúmeras colaborações com outros músicos, nomeadamente Tony Boggs (Désormais) e Jenna Robertson (Avia Gardner) mas esta é a primeira vez que os três músicos se juntaram e criaram algo que desafia o seu trabalho anterior. Em vez de explorarem as raízes da música electrónica e pós-rock, como o faz habitualmente, Mitchell decidiu desta vez contemplar o início dos anos 80 com a sua colega (e riot-grrrl confessa) Jenna e o front-man acidental Tom e construir a sua versão de música pop alternativa. Com sintetizadores avariados, caixas de ritmo desreguladas e o habitual exército de guitarras eléctricas e amplificadores em distorção, conseguiram obter uma fórmula pop perfeita e muito colorida. Esta é uma abordagem fresca sobre a cena lo-fi caseira, e ainda que os fanzines tenha sido substituídos pelos blogs e as webzines, isso não significa que tenhamos de esquecer o lado mais áspero da vida. Temas penetrantes como sexo, drogas e aquela cena fantástica do Unicórnio no Blade Runner são razões mais que suficientes para deixar o projecto Letters Letters entrar na nossa vida imediatamente. 
(16-11-2007)

1. Favorite Hands
2. We'll Make Our Home
3. Everyone's Afraid of Fear
4. Between the Seams
5. Dealer Dealer
6. Iron Mountain
7. Up To Our Waist
8. In a Way
9. Want To
10. Wishing Well
11. Everything Always
12. (Stingray) Trapped in Platinum

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Liars
«Drum's Not Dead»
CD+DVD Mute, €19,50

1. Be Quiet
2. Let's Not Wrestle
3. Visit Prom Drum
4. Drum Gets a Glimpse
5. It Fit When I Was a Kid
6. The Wrong Coat
7. Kolo Drum
8. It's All Bloom in Gnow
9. Dr Drum and The Uncomfortable Can
10. You Drum
11. To Hold You Drum
12. The Other Side of

 

Lightning Bolt
«Hypermagic Mountain»
CD Load, € 17,95

Se nos últimos anos o noise parece ter mudado de armas e bagagens para a electrónica, o duo de baixo e bateria (e vocais por meio de “throat miking”) Lightning Bolt tem sido dos poucos, com, por exemplo, os Wolf Eyes e os Black Dice, a trazê-lo novamente para o abraço do rock. Mas não se pense que num formato free, como é habitual acontecer quando noise e rock se mesclam. O noise de “Hypermagic Mountain”, mais até do que no anterior “Wonderful Rainbow”, é acompanhado pelo constante alinhamento de “riffs” e até encontramos o que podemos entender como melodias, figuras animadas numa paisagem brutal de cor cujos contornos não conseguimos adivinhar. Vendo bem, apenas se distinguem do preciosismo métrico de uns Ruins pelo facto de serem mais primários (na medida, claro, em que um “modern primitive” o pode ser) na gestão do seu virtuosismo instrumental (virtuosismo de facto: atente-se bem na metralha rítmica de Brian Chippendale), o que ainda se torna mais óbvio por cada uma das suas actuações funcionar como uma cerimónia xamânica, toquem eles ao vivo ou em estúdio. Para ajudar nesta adequação do noise à moldura do rock, a produção deste álbum procura colocar tudo a claro, ao arrepio da atracção da “noise music” pelos ruídos branco e cor-de-rosa. É assim que a voz se ouve melhor, em vez de surgir embrulhada pela massa de distorção e “feedback” herculeamente mantida por Brian Gibson, e é assim igualmente que nos apercebemos melhor das construções tonais, que deixam de ser apenas elementos de contradição e surpresa num mar abstraccionista para se tornarem numa quase permanente antítese.
(20-01-2006)

1. 2 Morro Morro Land 
2. Captain Caveman 
3. Birdy
4. Riffwraith 
5. Megaghost
6. Magic Mountain
7. Dead Cowboy
8. Bizarro Zarro Land
9. Mohawkwindmill
10. Bizarro Bike 
11. Infinity Farm 
12. No Rest for the Obsessed

 

Lindstrøm
«The Contemporary Fix EP»
CDEP Smalltown Supersound, € 9,95

Após o aclamado álbum “A Feedelity Affair”, que havia compilado os seus famosos máxis na Feedelity, Lindstrøm regressa agora com este EP com três novas versões de "The Contemporary Fix". Incluindo também a versão original do álbum, podemos encontrar aqui uma nova versão feita pelo próprio Lindstrøm, uma remistura de Eye, membro dos nipónicos Boredoms e a fechar uma genial reconstrução de Bjørn Torske, um dos mais inovadores produtores noruegueses da actualidade. Pela primeira vez os dois mais talentosos personagens musicais noruegueses da actualidade juntos num só disco. Imprescindível!

A capa do EP é da autoria do também genial Kim Hiorthøy.
(21-12-2007)

1. The Contemporary Fix
2. The Contemporary Fix (Serious Syntoms Version)

3. The Contemporary Fix (Eye Remix)

4. The Contemporary Fix (Bjørn Torske Remix)

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Lindstrøm
«It's a Feedelity Affair»
CD Smalltwon Supersound/Feedelity, € 16,50


Da fria Noruega chega-nos um dos mais quentes álbuns deste final de ano. Ainda que mais não seja do que uma recolha dos vários máxis que Hans-Peter Lindstrøm editou entre 2003 e 2006, "It's a Feedelity Affair" é uma colecção de peças essenciais da nova música electrónica actual.
(30-11-2006)

"A carreira de Lindstrøm disparou após uma série de máxis que só por si deram início a um movimento que a imprensa viria a chamar de “space disco”. É também sobejamente conhecido pelas suas misturas, que incluem LCD Soundsystem, Roxy Music, Franz Ferdinand, Annie e o artista da DFA Juan McLean. No ano passado Lindstrøm também editou um álbum de parceria com o amigo DJ Prins Thomas, denominado “Lindstrøm and Prins Thomas”, um disco editado na Eskimo Records e enormemente aclamado pela crítica mundial. O seu tema mais conhecido, “I Feel Space”, que saíu em 12” na Playhouse e na Feedelity, já vendeu mais de 17.000 cópias em todo o mundo, um número impressionante para uma edição em vinil. Agora chegou finalmente a altura de compilar todos os seminais máxis de Lindstrøm num só CD. O álbum inclui também ”The Contemporary Fix”, um tema novo do 12” já divulgado por Pete Tong e Annie Mac na BBC radio.  No início de 2007 sairá também um single/EP do álbum com uma remistura de EYE dos Boredoms." Press Release da Smalltown Supersound

"Todos os movimentos têm o seu porta-estandarte. Lindstrøm é quem carrega o do nu-disco, a reencarnação do disco-sound vestido de poderes cósmicos e de fato espacial. O nu-disco, sobretudo o de Lindstrøm, está algures entre a pista de dança e os limites do espaço-tempo, é brilho, sombras e grooves que funcionam a nível epidérmico. Isso e melodias que escorregam num elegante fio de azeite que, apesar de algumas ameaças (perigosas em "I Feel Space") nunca resvala para o kitsch inconsequente."  Isilda Sanches in Diário de Notícias

"O título remete para o nome da editora. Seria difícil produzir ideia mais banal. Só que as aparências ainda enganam. Sobretudo quando se trata de quem já revelou sagacidade no desempenho da espinhosa tarefa de procurar uma saída para o impasse da estética de dança."  Ricardo Saló in Expresso

"O norueguês, como qualquer amante de "disco" não resiste a um efeito de sintetizador, a um arranjo de cordas faustoso ou a uma percussão eloquente, mas aquilo que o distingue é a exacta medida das proporções. As suas longas suites, quase sempre intrumentais, são polidas e equilibradas. Os elementos digitais e acústicos sucedem-se voluptuosamente, a instrumentação é orgânica, as texturas luxuriantes e a acção rítmica pacificadora. Há um clima de suspensão imutável, como se esperássemos  por um clímax que nunca acontece."  Vítor Belanciano in Público

1. Fast & Delirious (retirado de Lindstrøm - Untitled Ep Feed000)
2. Limitations (retirado de Lindstrøm - Untitled Ep Feed000)
3. Music (In My Mind) (retirado de Lindstrøm And Christabelle - Music (In My Mind) Feed001)
4. Cane It For The Original Whities (retirado de Lindstrøm - There's A Drink In My Bedroom And I Need A Hot Lady Ep Feed002)
5. There's A Drink In My Bedroom And I Need A Hot Lady (retirado de Lindstrøm - There's A Drink In My Bedroom And I Need A Hot Lady Ep Feed002)
6. Further Into The Future (retirado de Lindstrøm & Prins Thomas - Further Into The Future Ep Feed003)
7. I Feel Space (retirado de Lindstrøm - I Feel Space Feed004)
8. Arp She Said (retirado de Six Cups Of Rebel - Arp She Said Feed005)
9. Gentle As A Giant (retirado de Six Cups Of Rebel - Arp She Said Feed005)
10. Another Station (retirado de Lindstrøm - Another Station Feed006)
11. The Contemporary Fix (retirado de Lindstrøm - The Contemporary Fix Feed008)

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LJ Kruzer
«This Is How I Write»
CD Uncharted Audio, 18,50


Steve Fisk arriscava-se a ser um autor de hinos para o Verão (foi o que Fil OK dos Nag Nag Nag disse do seu single “Miami Nooch”), mas “This Is How I Write”, o álbum de estreia do heterónimo LJ Kruzer, mostra-nos que mesmo os dias mais solarengos são compostos de sombras. Não porque contenha algo de fantasmagórico, uma tentação da actual electrónica – o que verificamos é que até os banhos de luz têm os seus matizes e que tudo o que é iluminado desenha por trás a escuro o seu perfil. Não fossem estas diferenças e tudo seria indistintamente branco, ou seja, nada se veria . E o que é o Verão, afinal, senão a festa dos sentidos? Pois o presente disco tem um largo leque de timbres e cores sonoras, incluindo alguns instrumentos acústicos e samples de outros (ouvimos piano, muito piano, mas também cravo, instrumento medieval que não esperaríamos encontrar neste contexto, e sopros, sempre uma garantia de calor) na sua lógica. As composições são “soft” e melancólicas, mas não dispensam o “beat” e até alguma confecção específica do techno. Por outro lado, há algo de neoclássico nas atmosferas criadas, uma forma não muito óbvia de conjugar ambiências oníricas numa criação digital. Em “Apporte”, surge a voz de um pregador a afirmar que o pecado é a razão que explica a existência da morte no mundo, ironia reforçada pelo facto de Fisk ser filho de um pastor. Sustenta alguma crítica literária que o uso da ironia é o que faz a boa literatura, e isso também pode ser verdade para a música. Nesse capítulo, LJ Kruzer está bem servido: numa recente entrevista, respondendo a uma pergunta sobre que músicas gosta de ouvir, disse que nas suas preferênias estão excluídas a pop, a ópera, o country “e tudo aquilo que se apresenta como cool jazz”. Sabendo-se que muita da electrónica dominante integra figurações do jazz devido precisamente à sua “coolness”, aqui está uma das razões para o facto de o seu trabalho soar tão diferente.
(26-01-2006)

1. This Is How I Write
2. Black Bossa
3. Twinkula
4. Parleyvoo
5. Bunker
6. Portune
7. Noft
8. Apporte

 

London Sinfonietta
«Warp Works & Twentieth Century Masters»
2CD Warp, € 21,50

Se nos EUA o Kronos Quartet sempre perseguiu a ideia de que se podia dar um enquadramento pop à música “clássica” contemporânea e na Alemanha o colectivo de câmara Zeitkratzer vem entendendo que o experimentalismo pode ter o mesmo tratamento, chega-nos agora da Grã-Bretanha um duplo álbum da London Sinfonietta em que ambos esses parâmetros – o “clássico” (entre aspas porque, neste como em outros casos, o rótulo não corresponde à realidade dos factos – afinal, o classicismo ficou-se pelo século XVIII e o que depois surge nessa linha são ressurgências “neo”) e o experimental (um termo que, mesmo sem aspas, é muito discutível) – são associados numa embalagem teoricamente destinada ao grande público. O curioso de “Warp Works & Twentieth Century Masters” é juntar interpretações / adaptações de obras-chave de alguns grandes compositores do passado recente e do presente (John Cage, Conlon Nancarrow, Steve Reich, Karlheinz Stockhausen, Edgard Varèse e Gyorgy Ligeti) a nomes que se notabilizaram na electrónica popular da actualidade, simultaneamente inovadora em termos musicais e ligada ao universo do lazer, pois vive no seio da “club music” (Aphex Twin e Squarepusher). O curioso é que não foi a London Sinfonietta que assim procurou expandir a sua audiência e adoptar uma aura de “modernidade” (queira isso dizer o que for nestes dias em que o próprio conceito por detrás da palavra se relativizou) – foi a própria Warp, a editora de Aphex Twin e Squarepusher, que o fez. O álbum saiu nesta etiqueta e o seu conteúdo resulta de concertos da orquestra em 2003 e 2004 promovidos por ela mesma. É um factor inverso que tem lugar: uma estrutura alicerçada na cultura pop, ainda que conhecida pelo seu interesse em relação às práticas “underground” com utilização de instrumentário electrónico, interessou-se em buscar relacionamentos com a música “do outro lado”, a vulgarmente (e em muitos casos erradamente) designada por erudita. E a verdade é que há paralelismos – de resto, o primeiro CD abre com duas peças de Aphex Twin para piano preparado, uma “invenção” de Cage na década de 1940. O simples facto de existir uma edição como esta significa que as hierarquizações existentes na música (sociais, etárias, etc.) estão a ser postas em causa. Anseia-se pelo definitivo desmoronamento.
(13-10-2006)

Disco 1:
1. Prepared Piano Piece 1 - Aphex Twin
2. Prepared Piano Piece 2 - Aphex Twin
3. Study No.7 - Nancarrow, Conlon
4. Sonatas 1 And 2 - Cage, John
5. Violin Phase - Reich, Steve
6. First Construction In Metal - Cage, John
7. Tide - Squarepusher
8. Spiral - Stockhausen, Karlheinz

Disco 2:
1. Sonata 12 - Cage, John
2. Ionization - Varese, Edgard
3. Six Marimbas - Reich, Steve
4. Conc 2 Symmetriac - Squarepusher
5. Sonata 5 And 6 - Cage, John
6. AFX237 V7 - Aphex Twin
7. Chamber Concerto - Ligeti, Gyorgy
8. Chamber Concerto - Ligeti, Gyorgy
9. Chamber Concerto - Ligeti, Gyorgy
10. Chamber Concerto - Ligeti, Gyorgy
11. Polygon Window - Aphex Twin

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Loose Fur
«Born Again In The U.S.A.»
CD/LP Drag City, 16,50/ 12,50


Dois membros dos Wilco, Jeff Tweedy e Glenn Kotche, e um ex-Sonic Youth e ex-Gastr Del Sol, Jim O’Rourke, constituem o “side project” Loose Fur. “Born Again in the U.S.A.” é o segundo álbum do trio, saído quatro anos depois da estreia homónima com material do mesmo tipo – um misto de rock e folk com acentuação melódica –, mas “menos abrasivo” e “estridente”, para utilizar as expressões de Tweedy. E mais “prog-rock or something”, como ele também acrescentou, manifestando a sua incapacidade de definir com exactidão o que aqui ouvimos. De facto, não é fácil. Dizia Evan Parker que o rock experimental não é mais do que o departamento de pesquisa do rock e da pop “mainstream”, e se a perspectiva pode ser algo injusta (na mesma toada poderíamos afirmar que a livre-improvisação praticada pelo saxofonista não faz mais do que alimentar o presente e o futuro do jazz, o que é igualmente duvidoso), não há dúvidas de que este rock tem o cunho de músicos cujas perspectivas foram formadas fora desse território ou pelo menos na sua fronteira – o mais não seja porque há claramente uma encenação estilística e porque vão surgindo situações composicionais ou sonoras que não são próprias do rock. Ainda assim, o que ouvimos ao longo deste disco vai aos fundamentos do género e designadamente à sua versão Summer of Love. Caracterizar o que aqui está como simples revisionismo seria desadequado, mas é evidente o esforço refundador de uma música que pelo caminho foi perdendo identidade. Demarcando-se com ironia das conotações do rock com o satanismo, “Born Again...” está cheio de alusões bíblicas e numa audição apressada poderia mesmo ser arrumado na prateleira da “Christian music” (não seria muito normal ouvir de um grupo pop missionário versos como estes de “Thou Shalt Wilt”: “Now gather round and check this shit out / I’ve found a simple way to keep us all devout”). Aludindo à ressurreição de Jesus Cristo nos Estados Unidos, tal como advogam os Mormons, os Loose Fur fazem uma crítica da América evangélica em que o evolucionismo de Charles Darwin continua a ser proscrito. E não são nada meigos, apesar dos refrões “user friendly”...
(
24-03-2006)

1. Hey Chicken 
2. The Ruling Class
3. Answers To Your Questions
4. Apostolic 

5. Stupid As the Sun
6. Pretty Sparks
7. An Ecumenical Matter
8. Thou Shalt Wilt
9. Wreckroom
10. Wanted

 

L-R & RadioMentale
«I Could Never Make That Music Again»
CD Sub Rosa, € 15,95


"I Could Never Make That Music Again" é um álbum coral, uma colagem de sons montada a partir de entrevistas onde artistas, músicos, DJ's e criadores de sons falam abertamente sobre o seu trabalho, as suas visões, as suas esperanças, os seus momentos de dúvida e os seus pesares numa narrativa construída livremente. Ainda que a maior parte dos intervenientes nunca se tenham encontrado, ou tenham-no feito muito esporadicamente, todos fazem parte da história da música electrónica; desde as experiências em fita dos anos 50 até às mais recentes tendências do techno. Derrick May e Stacey Pullen, os pioneiros do techno de Detroit, comentam uma carta audio gravada em 1966 no Philips Research Laboratory na Holanda por Fred Judd onde fala a um certo Tom Dissevelt sobre a falta de interesse comercial na música electrónica. Quarenta anos depois os músicos de hoje comentam sobre isso. Steve Reich e os Residents partilham episódios curiosos, DJ Shadow conversa com os Coldcut, Ryoji Ikeda com Richie Hawtin. Os Autechre refletem sobre a beleza das máquinas, A Guy Called Gerald pondera sobre os reinos cósmicos do som, Aphex Twin recorda os seus sonhos, e Mad Mike da Underground Resistance divaga sobre as forças da Natureza. David Toop reflete sobre a arte de ouvir, e Matthew Herbert compõe com sons do dia-a-dia.

A música que acompanha, sublinha, perturba e enriquece este fluxo de palavras não é mais do que o ambiente sonoro que nos envolve. Sons de rua, excertos de discos, frequências perturbantes e máquinas em funcionamento The music that accompanies, underlines, perturbs and enrichs this flow of words, mirrors the sonic environment that surrounds us. Everyday sounds, samples from hit records, disturbing frequencies and banging machines opõem-se a este coro polifónico de vozes e memórias.

Co-escrito por Jean-Yves Leloup, Eric Pajot e Jean-Philippe Renoult, "I Could Never Make That Music Again" começou como uma série de entrevistas realizadas entre 1990 e 2004 para a imprensa musical francesa (as revistas Coda e Trax) e faziam parte integrante do livro "Global Tekno" (co-escrito por Renoult e Leloup). Foram também transmitidas na famosa estação parisiense de música electrónica Radio FG, e também na estação pública France Culture. ao longo dos últimos quinze anos Leloup e Pajot têm vindo a trabalhar juntos como  RadioMentale (originalmente um programa de rádio na FG) e em 2000 Renoult lançou "Sonotales", um workshop experimental para rádio transmitido na France Culture.

Esta aproximação dupla é o que faz deste álbum uma peça original e única. Arquivos históricos, artigos, criações sonoras e fragmentos musicais enterlaçam-se e formam um trabalho híbrido que poderá lembrar a alguns o ponto alto das emissões radiofónicas da BBC e da Radio France. "I Could Never Make That Music Again" é uma peça de arte rádio que mistura crítica musical e inovação sonora, e coloca todas as ideias tecnológicas e culturais  nascidas no final do Séc.XX ao mesmo nível.
(
15
-06-2007)

1. I Could Never Make That Music Again
2. Thousands of Records
3. Turn Left (Interlude)
4. Cool Noises
5. Toy Box (Interlude)
6. Never Got a Job (Interlude)
7. Soulmates

 

Luc Ferrari
«Didascalies»
CD+DVD Sub Rosa, € 19,95


Luc Ferrari pegou numa peça antiga - "Tautologos III" - e gravou-a no Verão de 2005 ao vivo no La Muse en Circuit (centro de criação musical localizado em Alfortville, e criado em 1982 pelo próprio Luc Ferrari). A obra consiste em três regras básicas:
1. Cada músico decide livremente qual o tema e a duração do silêncio a ser repetido durante 21 minutos;
2. Cada músico pode manter a sua escolha ou modificá-la se assim o pretender, tendo como referência aquilo que o parceiro fizer;
3. Não há terceira regra...
A peça foi gravada em várias fases, em 'layers', e com base numa fita que consistiu nos sons mais incríveis que se conseguissem criar, de modo a enriquecer a massa sonora da composição. Parecia fácil mas não foi. De facto a primeira 'layer' foi realizada com sucesso nos primeiros 21 minutos de gravação, mas demorou quase dois dias para que Luc e os músicos - Jean-Philippe Collard-Neven e Vincent Royer - conseguissem gravar a segunda layer. A terceira, tal como uma cereja no cimo do bolo, consistiu no som de livros a serem violentamente fechados a cada dois minutos e meio.

Luc faleceu pouco mais de um mês após esta experiência. Acabou por ser a sua brincadeira derradeira.
(
22
-06-2007)

 

Luc Ferrari
«Far-West News (1998-99) Episodes 2 and 3»
CD Blue Chopsticks, € 16,50


Falecido o ano passado, a extraordinária produção daquele que foi um dos mais importantes compositores electroacústicos do século XX continuará, com certeza, a surgir em disco durante algum tempo, e este “Far-West News”, que foi primeiro uma emissão de rádio na Holanda, é já um desses casos póstumos. Tendo como base os registos de uma viagem do casal Ferrari pelo Oeste norte-americano em 1998, com o filme “Bagdad Café”, de Percy Adlon, como grelha imaginária e o então previsível “empeachment” de Bill Clinton, o então Presidente dos EUA, como tema de conversa com as gentes locais (o grande amante das mulheres que foi Luc Ferrari não poderia ter deixado de se interessar pelo “escândalo” Lewinsky), eis aqui mais um exemplo do “jornalismo sonoro” caro a este co-fundador do GRM – Groupe de Recherches Musicales. A estrutura é a típica de um documentário radiofónico, tanto assim que conseguimos imaginar o Grand Canyon a partir das conversas gravadas, mas não há dúvida de que se trata de uma composição musical – e não apenas por se tratar de “organização de sons”, a mais abrangente e liberal das definições de música. O facto é que, ao longo da obra, surgem apontamentos especificamente musicais (desde processamentos dos materiais recolhidos a sínteses electrónicas) que à semelhança dos coros no teatro clássico grego funcionam como comentários à acção. Ou seja, não são as palavras do guia num passeio pelas vivendas das estrelas de Hollywood, nem o barulho dos automóveis e dos aviões a passar, que constituem o essencial, mas a forma como Luc Ferrari os enquadra e sustenta musicalmente.
(06-10-2006)

1-5. Far-West News Episode 2 (May 1999) Sept 17–24, 1998 - From Page to the Grand Canyon
6-11. Far-West News Episode 3 (June 1999) Sept 25–30, 1998 - From Prescott to Los Angeles

 

Luc Ferrari
«Son Mémorisé»
CD Sub Rosa, € 16,50


Falecido há quase um ano, Luc Ferrari tem em “Son Mémorisé” um álbum póstumo, incluindo a quarta versão de “Presque Rien”, com o subtítulo “La Remontée du Village” (1990-98), um documentário áudio realizado numa aldeia de pescadores italiana que é também uma peça musical plenamente assumida; depois um testemunho da sua passagem pela Argélia na década de 1970, “Promenade Symphonique...”; e a fechar uma peça em quatro partes de cariz mais electrónico, se bem que, tal como as restantes, consistindo em manipulação de fita, “Salicebury Cocktail”, de 2002, um exemplo do que a Sub Rosa designa como “scrambled listening”. Uma boa selecção, se o propósito foi apresentar os conceitos narrativos e impressionistas deste compositor, baseada na montagem de sons do quotidiano e de conversas que mantinha com as pessoas na rua. Com o pressuposto, aliás, do seu entendimento de que também as trocas humanas pela fala são música, porque som organizado já por si mesmo, no seguimento de uma máxima de John Cage que Ferrari abraçou: “A música rodeia-nos em todos os lados e a cada momento, se tivermos ouvidos para a escutar.” O curioso é que não era propriamente uma “musique concrète” o que fazia este antigo colaborador de Pierre Schaeffer: estes sons têm contexto e o contexto é mesmo de suma importância no “jornalismo” musical que propôs. A vida do dia-a-dia em toda a sua complexa realidade, social, psicológica e sentimental, é isto o que encontramos na sua obra e neste CD.
(
01-06-2006)

1. Presque Rien No. 4
2. La Remontée du Village

3. Promenade Symphonique dans un Paysage Musical ou un Jour de Fête à El-Oued en 1976 (Pt. 1)

4. Promenade Symphonique dans un Paysage Musical ou un Jour de Fête à El-Oued en 1976 (Pt. 2)

5. Promenade Symphonique dans un Paysage Musical ou un Jour de Fête à El-Oued en 1976 (Pt. 3)

6. Promenade Symphonique dans un Paysage Musical ou un Jour de Fête à El-Oued en 1976 (Pt. 4)

7. Saliceburry Cocktail/(Pt. 1)

8. Saliceburry Cocktail/(Pt. 2)

9. Saliceburry Cocktail/(Pt. 3)

10. Saliceburry Cocktail/(Pt. 4)

11. Saliceburry Cocktail/(Pt. 5)

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Luigi Archetti/Bo Wiget
«Low Tide Digitals II»
CD Rune Grammofon, €16,50


Sequela do álbum saído em 2001, "Low Tide Digitals II" pode ter como principais características, de novo, a improvisação e a combinação de instrumentos acústicos e eléctricos (violoncelo, guitarras) com a electrónica digital, mas pouco tem a ver com a fragilidade e a suave beleza daquele primeiro trabalho da dupla formada por Luigi Archetti e Bo Wiget. Se antes as flores estavam em botão, agora abriram e desvendam a cor das suas pétalas em toda a plenitude. Entre a "ambient music", o experimentalismo e a electroacústica "culta", o que ouvimos nesta inspirada abordagem do melhor de dois mundos, o orgânico e o mecânico, como referiu a "Wire" a propósito do primeiro "Low Tide Digitals", chega a ser melhor do que o já excelente seu antecessor. De Eno a Stockhausen, com Deathprod de permeio, voltam os "drones" e a congregação de "loops", mas se antes notávamos neste projecto uma certa dimensão "lounge", agora tudo é mais interventivo e actuante, chegando inclusive a ter um volume mais elevado e um maior recorte sonoro. Curiosamente, este segundo opus é também menos sombrio, denotando uma vivacidade que já é muito mais solar do que lunar, em contraste com a electrónica dominante. As personalidades e os percursos de ambos os músicos estão bem vincadas neste exaltante disco. Igualmente um artista plástico de renome, Archetti passou pela última configuração do grupo psicadélico germânico Guru Guru e o seu CV inclui parcerias com alguns grandes nomes da improvisação livre, de Werner Ludi a Taku Sugimoto, tendo tocado também com luminárias do "krautrock" como Dieter Moebius (Cluster), Michael Karoli e Damo Suzuki (Can). Com formação clássica, mas uma confessada propensão para a "música alta e eléctrica", Wiget tem-se dedicado de corpo e alma à adulteração do rock e ao seu cruzamento com as técnicas e a estética da música improvisada, utilizando as designações de "free-rock" e "noisecoretrash" para classificar o que faz. Este lado rock dos dois suíços (Archetti nasceu em Itália, mas vive no país dos relógios e dos chocolates desde os 10 anos de idade) está muito mais em evidência nesta novidade da Rune. Não se trata de rock, bem entendido, mas este sobrevive nas paisagens abstractas criadas pelo duo.
(27-05-2005)

 



Luna
«Rendezvous»
CD Jet Set, €17,50

Existirão poucas bandas na história da música pop e da música independente com um percurso no caminho das canções tão brilhante quanto o dos Galaxie 500. A banda de Dean Wareham, Naomi Yang e Damon Krukowski deixou três álbuns de estúdio repletos de canções perfeitas e saiu de cena de forma inesperada, em nota altíssima, entrando quase imediatamente para os cânones e não dando espaço a que o seu legado ficasse poluído pelas falhas que o tempo pode trazer. (Conferir em «This Is Our Music», «Today» e «On Fire», claro, mas também no DVD «1987-1991: Don’t Let Our Youth Go To Waste», editado pela Plexifilm). De muitas formas os Luna foram sempre a ressaca dos Galaxie 500. Dean Wareham partia do trio de alguns dos meninos mais bonitos dos independentes norte-americanos da segunda metade dos anos 80 para formar uma espécie de super-grupo de indie rock, com o baixista Justin Harewood (dos Chills) e o baterista Stanley Demeski (ex-Feelies). O lirismo da incendiária guitarra de Wareham continuou intacto, contudo o que antes era urgência passou a ser placidez, palidez lírica e um tipo de electricidade mais experiente e sábia. Se os Galaxie 500 eram as primeiras cervejas bebidas em idade ilegal numa festa adolescente de sótão, os Luna foram margueritas em Miami, por entre palmeiras – ou aperitivos preparados para acompanhar leituras amadurecidas de Douglas Coupland e Brett Easton Ellis. Doze anos e seis álbuns depois da estreia com «Lunapark» (sem contar com o registo ao vivo «Luna Live»), os Luna editam o seu derradeiro longa-duração, «Rendezvous». Para quem acompanhou minimamente o caminho dos Luna até aqui é precisamente aquilo que está a imaginar que é, imaculadamente composto, executado e gravado. Está cá a influência do terceiro álbum dos Velvet Underground, os «rockers» à Jonathan Richman eléctrico «vintage», o humor irónico e mordaz «thirtysomething» e as boas canções, as faixas mais vagarosas e «mellowed out», como um Neil Young com swing. Está cá, em todo o seu esplendor, o clássico «interplay» de dois dos «guitar heroes» do indie da década de 90: Dean Wareham e Sean Eden. Mestres no solo lírico-melancólico, exercem com total controlo e elegância o seu poder sobre a guitarra. Eden finalmente canta num álbum dos Luna, em «Broken Chair» e «Still At Home» (dois dos pontos altos), depois de vários créditos de compositor ou co-compositor em prévios lançamentos dos Luna. Britta Phillips, a baixista do grupo para o século XXI, adiciona à equação uma sensualidade e languidez próprias, acentuando o carácter etéreo e sonhador da banda. É com a sua voz que se misturam hoje os falsettos de Wareham, naquele inominável ponto de efervescência dourada, brilho intenso e ausência de gravidade que recordamos dos tempos dos Galaxie 500. Neste ponto já ninguém esperava (alguma vez esperámos?) uma revolução na música dos Luna. Apesar disto, não deixamos de ficar com uma sensação de dever cumprido de uma que abandona a actividade com classe, coerência, homogeneidade estética e imaculado percurso. Afinal de contas, «Rendezvous», como todos os melhores discos dos Luna, é um óptimo álbum para domingos à tarde pachorrentos, preguiçosos, confortáveis e leves. E todos sabemos como isso toca a todos de vez em quando.

 

The Magic Band
«21st Century Mirror Man»
CD+DVD Proper Records, € 16,50

Pode até ser que a motivação que tenha levado ao reagrupamento da Magic Band com músicos que pertenceram a diversas formações de Captain Beefheart tenha sido a nostalgia pela época de ouro do rock and roll, um sentimento, aliás, que explica muitos regressos actuais a estéticas de há 30, 40 anos, mas mesmo que a única justificação que encontremos seja essa (decididamente não é, e diga-se mesmo que a visão da música de Don Van Vliet não teve propriamente continuadores), a excelência dos resultados finais é suficiente para considerarmos que certos impulsos neo-modernistas valem, afinal, a pena. A única diferença é que, se a Arkestra de Sun Ra sem Sun Ra não faz mais do que continuar o legado do imigrante de Saturno na Terra, o que é perfeitamente legítimo, a Magic Band sem Don Van Vliet / Captain Beefheart, à semelhança dos Fast 'n' Bulbous do saxofonista Philip Johnston, que contam igualmente com a contribuição de Gary Lucas (parceiro do cantor no período "Ice Cream for Crows" em grande forma neste "21st Century Mirror Man"), constitui um tributo e uma relembrança de uma maneira de estar no rock e nos blues eléctricos que parecia ter ficado definitivamente arrumada no armário do tempo, estéril e esquecida. Pois a verdade é que música que consegue atingir tal grau de excitação não pode estar morta e música que ainda mantém este carácter inovador está muito à frente de propostas actuais cujo selo de validade será com certeza bem mais curto. Se nos é permitido torcer o nariz ao critério que levou John "Drumbo" French a cantar com uma voz em tudo semelhante à do "shouter" que resolveu retirar-se dos palcos e dos estúdios de gravação e dedicar-se exclusivamente à pintura, tanto assim que parece estarmos em presença do dito cujo, o que (re)encontramos neste CD e neste DVD gravados em vários concertos de 2003 e 2004 - um deles, inserido no All Tomorrow's Parties, comissariado por Matt Groening, o pai da série televisiva de animação "The Simpsons" -, mantém uma pertinência notável nos dias de hoje. Tanto mais que aconteceu num contexto de revitalização das raízes do rock que explica a existência de uma PJ Harvey ou de uns White Stripes. Não é a primeira vez que o passado se torna futuro, ainda que raramente com esta "garra". A pop "buble gum" é que ainda não percebeu que o presente não existe, apenas o "antes" e o "depois" de cada momento. Quando "Mantis" Lucas  assinala no seu diário online que nasceu no mesmo dia que Brian Wilson e Eric Dolphy e que estes são os seus pólos referenciais, ele não está mais do que a apontar dois nomes do "antes" que em associação prefiguram esse "depois" que Van Vliet adivinhou e que os seus próximos ainda estão a construir. Bem hajam...
(16-09-2005)

1. Matt Groening Spoken Introduction
2. Moonlight On Vermont
3. The Floppy Boot Stomp
4. Smithsonian Institute Blues
5. Drum Solo/Abba Zaba
6. Circumstances
7. On Tomorrow
8. Steal Softly Thru Snow
9. My Human Gets Me Blues
10. Alice In Blunderland
11. Hair Pie
12. Grow Fins
13. Veterans Day Poppy
14. Mirror Man
15. When It Blows It's Stacks
16. Electricity
17. Big Eyed Beans From Venus

Bónus DVD - Gravado ao vivo em Camber Sands, Inglaterra - 2003/04/06

1. My Human Gets Me Blues
2. Abba Zaba
3. Hair Pie Bake Ii
4. Steal Softly Thru Snow
5. On Tomorrow
6. Alice In Blunderland
7. I Wanna Find Me A Woman To Hold My Big Toe

 

Magoo
«The All Electric Amusement Arcade»
CD Series 8, €16,50


O que pensar de uma formação que aponta como suas principais influências grupos tão diferentes quanto Guided by Voices, Mercury Rev, Boo Radleys e Flaming Lips? Que são mais do mesmo? Think again, pois os Magoo têm uma identidade muito própria, e isso apesar de saltarem constantemente do rock ‘n’ roll para a electrónica e vice-versa, só por vezes cruzando os dois âmbitos – como quando irrompem sintetizadores “vintage” em meio às guitarras. E é assim que ouvimos colagens concretistas, batidas drum & bass e “field recordings” na introdução de temas onde depois se instala uma seis-cordas “folky” ou um muro de distorção eléctrica. Um trunfo da banda é a andrógina voz de Andrew Rayners, que poderíamos comparar com a de Brian Molko, dos Placebo, se a deste não fosse tão anasalada, ou com a de Jon Anderson se o vocalista dos Yes tivesse alguma vez transmitido calor humano, coisa que Rayners faz mesmo quando o seu canto é transformado por um vocoder. Outra vantagem é o facto de os Magoo serem tão consistentes “a abrir”, sustentando-se sobre rítmicas aceleradas e até robóticas (atenção à drum machine primitiva), como a fazer baladas psicadélicas, as quais foram, aliás, colocadas em conjunto na segunda metade deste “The All Electric Amusement Arcade”. O segredo mais mal guardado das ilhas britânicas, já se disse sobre este projecto, e mal guardado porque finalmente o descobrimos. Um dos primeiros a fazê-lo foi John Peel, e ele é que percebia destas coisas da pop, mesmo a congeminada nas margens...
(08-09-2006)

1. Welcome
2. Micronaut
3. It's Apparent
4. Can't Get Off The Ground Today
5. Kamikaze Condor Crash
6. Superteen Scene
7. Golden Tones
8. Lana Turner
9. Nite Per Second
10. Expansion Ride
11. Trust To Love
12. You Make My Good Days
13. Song Of Birds

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Make Up
«Untouchable Sound»
CD/LP Drag City/Sea Note, 16,50/ 12,50


Ponto prévio: os Make Up já não existem. O mentor do grupo, Ian Svenonius, resolveu dissolvê-lo após reparar que o seu estilo estava a ser vulgarizado por uma série de imitadores. Parêntesis: este Svenonius é o mesmo que agora está à frente dos Weird War, um projecto totalmente distinto que, no entanto, tem de comum com o anterior grupo o facto de também ambicionar a sobrevivência de todo um género de música. História: na década de 1990, os Make Up propuseram-se devolver a vida ao corpo moribundo do rock por meio do gospel, a música salvífica de tradição afro-americana cantada nas igrejas baptistas do Sul dos Estados Unidos. Estranho? Nem por isso, pois o rock já foi em tempos uma música negra e se Svenonius e os seus pares são brancos, entenderam que, se a aposta era voltar às raízes do rock, tinham de escurecer a pele da sua música. Sem complexos étnicos (“viemos todos como emigrantes e escravos para este país”) e não isentando a comunidade negra da geral alienação consumista do capitalismo americano. E conseguiram mesmo: o vocalista adoptou os trejeitos e as estratégias de convencimento dos pregadores do Mississipi e não só levantou o cadáver do rock ‘n’ roll como o pôs a mexer-se. A influência religiosa pára aqui, e o certo é que o discurso de Ian Svenonius combina conceitos marxistas com influências de Débord e do Situacionismo, formas de materialismo ateu. Neste contexto, “Free Arthur Lee”, o seu tributo ao líder (preso por posse de drogas) dos psicadélicos Love, tem tanto de político como de elogio ao tal rock negro em que busca referência e alimento. E sem quaisquer ilusões: “É o dinheiro que define as categorias musicais; a única coisa que realmente muda é a tecnologia com que se faz a música. O rock é uma máquina de produzir dinheiro”, disse numa entrevista. O que quer dizer que havia uma grande dose de autocrítica e terá sido isso, em parte, que levou à descontinuação do colectivo. Na verdade, os Make Up nunca se deram bem com a mitologia do rock, e designadamente com o capítulo desta respeitante ao consumo de estupefacientes e psicotrópicos. Numa sociedade em que o sistema médico considera que as desordens psicológicas se devem exclusivamente a disfunções químicas do cérebro, com as crianças a tomarem Ritalin por supostamente sofrerem de défices de atenção e com os adultos a compensarem as frustrações com Prozac, eles fizeram questão de se abster – “Essa é, talvez, a melhor experiência psicadélica de sempre”, argumentou este combatente revolucionário. Explicação: “Untouchable Sound” foi inteiramente gravado ao vivo e é o testamento dos Make Up no seu melhor – em cima de um palco.
(
24-03-2006)


1. Intro
2. Save Yourself

3. Every Baby Cries The Same
4. Hey! Orpheus
5. Call Me Mommy
6. They Live By Night
7. I Am Pentagon
8. The Prophet
9. The Bells
10. Born On The Floor
11. Wade In The Water
12. White Belts
13. C'mon Let's Spawn

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Man
«Helping Hand»
CD Sub Rosa, € 15,95


Um grupo (na verdade um duo constituído pelos multi-instrumentistas Charles-Eric Charrier e Rasim Biyikli, a que se acrescenta Anthony Taillard) de filiação pós-rock que na ficha técnica dos seus discos menciona a utilização de “bruitages”, em Francês porque nos chega do Hexágono, dá-nos de imediato a perspectiva de que os conteúdos não são os mais “mainstream”. Saber, igualmente, que estes mesmos Man passaram por colaborações com os Clogs e com os Tarwater mais nos indica, por antecipação, o que o seu novo “Helping Hand” nos pode trazer. Ouvido o álbum, ficam confirmadas as suspeitas e os Homem vão até mais além, com uma proposta musical que tem sido aplaudida como a sua melhor de sempre. E isso porque aliam uma postura intimista, o que geralmente pressupõe um determinado nível de fragilidade, a uma gestão dos impactos que supõe outros tipos de abordagem. Não é fácil, mas por isso é que estiveram dois anos a preparar as peças aqui incluídas. Tudo muito simples, e o certo é que a simplicidade em música é o mais difícil de obter, mas ao mesmo tempo com uma dimensão de estranheza que nos intriga e cativa. Na pop “indie” a bizarrice tornou-se quase numa receita, mas a verdade é que Charrier e Biyikli não encaixam nesse modelo. Não é mais do mesmo o que se ouve nestas faixas, mas outra(s) coisa(s). Há algo de “ambient music”, mas a milhas já de distância da congeminada por Brian Eno, mais uns pozinhos do impressionismo surrealista de Erik Satie, mais uns namoros com as pistas de dança protagonizados por uma endiabrada drum machine, mais o que podemos designar como “fake jazz”, trazendo para a ribalta um dos instrumentos-chave do género de origem afro-americana, o contrabaixo, bem como aspectos do minimalismo sessentista e estridências / dissonâncias do rock propriamente dito. Isto e o mais que se possa detectar sem seguir as clássicas estratégias de fusão ou de colagem (exacto: nada neste álbum há de Zappa ou de Zorn), antes como marcos de passagem de um itinerário que segue aos ziguezagues e se caracteriza por mudanças de rumo que nem percebemos muito bem como aconteceram, tal a lógica interna estabelecida. E uma lógica que tem mais de montagem cinematográfica do que de especificamente composicional. Se o ponto de partida pode ser uma balada particularmente melancólica, depressa nos encontramos em meio a um turbilhão electroacústico – a transição pode ser subtil, mas é efectiva. Ou seja, ainda é possível descobrir bons motivos de surpresa em águas que julgávamos demasiado percorridas. Altamente recomendado.
(
08-06-2006)

1. You're In For It
2. Strange Feeling

3. Helping Hand

4. Drifting

5. Maiomie

6. Separation

7. Dirty Some Paper to Clear Out My Brain

8. Farewell

9. Revenir

10. 8 mm

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Manhead
«Manhead»
CD Relish, €19,95

Manhead (noutros contextos também conhecido como Headman) é a cabeça que está por trás da etiqueta Relish, Robi Insinna, o mesmo que vem animando como DJ as noites de Zurique desde 1999 e editando "remixes" de Franz Ferdinand, Annie e Mylo. A sua causa é o disco-punk, na versão Manhead pretendidamente mais electrónico e mais pop, ainda que sempre com a pulsação da house que é a sua imagem de marca seja qual for o pseudónimo escolhido e a mesma referenciação na música de dança da década de 1980. As piscadelas de olho vão-se sucedendo faixa a faixa, "Show Me the Way" sugerindo o que poderia ser um encontro de Weatherall com Air, "Hey Now" funcionando como uma homenagem a "Hey Ya" de Fac 51 - D-Shake, "Sister" dirigindo-se descaradamente aos fãs da fórmula Music For Freaks e "Special" aludindo aos New Fast Automatic Daffodils. A atitude de Insinna é, no entanto, tudo menos estereotipada: "Posso trabalhar com computadores, mas não quero nada que pareça limpo", assegura. Admirador confesso dos New Order e dos Liquid Liquid, este reciclador de estilos apresenta-se como um retrofuturista que vai buscar às memórias da "club music" e da pop os ingredientes para a sua própria invenção de um futuro em que reine o que apelida de "música electrónica para o corpo", feita de rock, funk e hip-hop, géneros desenvolvidos a pensar na motricidade humana e na inventividade da líbido. O muito "swing" e o "groove" deste disco saído da nebulosa techno, bem como a vontade de que esta música seja "all about feelings", têm um evidente enfoque europeu. Manhead inscreve-se mesmo na típica linha germânica de robotização dos ritmos, pelo que os Kraftwerk não andam longe.
(17-06-2005)

 

Mapstation
«Distance Told Me Things To Be Said»
CD ~scape,16,50


Mapstation não é outro senão Stefan Schneider, o membro dos To Rococo Rot e dos Kreidler que parece ter abandonado o propósito de dar seguimento à tradição do “krautrock”, cruzando-o com o pós-rock de formulação americana. Com Martin Brandlmayr, dos austríacos Radian, nas baquetas, a trombonista britânica Annie Whitehead e, numa das faixas apenas, “The Sinuous Ribbon”, Volker Bertelmann em piano preparado, concebeu um trabalho que pode ser descrito como “nu-dub”, apesar de a Jamaica de “Distance Told Me Things To Be Said” ter sido transplantada na Alemanha. De facto, o modelo de electrónica aqui aplicado é indubitavelmente o germânico, ainda que as demais referências ultrapassem fronteiras e não tenham território definido. O espectro é tão largo quanto a distância que vai da “club music” ao experimentalismo, com o reggae e o jazz a marcar o meio. Especialmente interessante é a incorporação de “field recordings” urbanos em “Listening to Stockholm” e “Valencia Was Asleep”, emprestando uma bem-vinda vivencialidade a esta música e chãos muito específicos onde colocar os pés, ao mesmo tempo ampliando o leque de materiais que a constitui. Noutra peça, “Loin d’Afrique” (alusão a Raymond Roussel e ao seu romance “L’Impressions d’Afrique”), os elementos percussivos vão beber directamente à tradição da África Ocidental. “Draw a map and get lost”, indicou Yoko Ono numa das suas partituras em prosa do tempo do Fluxus, e é isso mesmo o que Schneider faz enquanto Mapstation. Este é um disco Situacionista, no sentido em que reinventa os mapas da música, juntando as geografias mais dispersas. Não para rearrumar ruas e praças, mas para cartografar a desordem que se lhe apresenta. Bem pensado e melhor feito.
(
27-04-2006)

1. Horns Version
2. The Way Things Change
3. Sonorities
4. The Sinuous Ribbon
5. Eleven
6. Listening To Stockholm
7. Loin D'Afrique
8. Warm Distance
9. Constant
10. Valencia Was Asleep

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Marc Leclair
«Musique Pour 3 Femmes Enceintes»
CD Mutek, €16,50


Marc Leclair é nem mais nem menos do que Akufen, o mesmo produtor electrónico canadiano a quem se chegou a depositar a esperança de que “salvasse” a música de dança. Não sabemos se o abandono do pseudónimo significa uma admissão de derrota, mas a realidade é que este “Musique pour 3 femmes enceintes” dá um presente, senão mesmo um futuro, ao techno experimental situado entre a linha “click and cut” de um Pole ou dos Rechenzentrum (de resto, o próprio Stefan Belke encarregou-se da masterização deste CD e o grupo alemão participa na primeira faixa) e o ambientalismo “chill out”. As atmosferas são aquáticas, aludindo à existência pré-natal, e os característicos soluços de software e hardware em “panne” misturam-se com várias camadas de cordas sintetizadas e fantasmizadas. Este é um hino à vida e à maternidade, inspirado pela gravidez da mulher de Leclair e de duas amigas próximas, pelo que a música nele contida só podia ter uma dimensão solar e positiva, bem distinta da geral propensão da presente electrónica para cultivar o lado obscuro da psique humana. E é também uma música interiorista e perscrutadora sem ser cerebral, com a rítmica “funky” a salientar que a gestação é um processo físico. Estamos, pois, muito longe do seu anterior “My Way”, que consistiu na combinação de milhares de fragmentos de canções de terceiros, segundo o princípio frankensteiniano da “sampling music”. Não há dúvida de que este cidadão do Quebec está obcecado com a criação de vida: fê-lo antes com base em retalhos e agora praticamente dispensando o recurso a “samples”, ou seja, plantando uma semente. O padrinho da criança está identificado: chama-se Steve Reich e o seu “Electric Counterpoint” é a clara referência da sexta parte desta obra, se é que não de todas elas.
(06-05-2005)

 

Maria Taylor
«11:11
CD Saddle Creek, € 15,95


A voz de Maria Taylor não é estranha ao catálogo da Saddle Creek, a mesma editora que revelou os Bright Eyes, mas este é o seu primeiro álbum a solo. Membro dos Now It’s Overhead e metade do duo Azure Ray, conhecido pelas suas canções feitas com a matéria dos sonhos, a cantora trabalhou neste disco com a prata da casa, e nomeadamente com Andy LeMaster, do primeiro daqueles grupos, e com Mike Mogis, dos referidos e já incontornáveis Bright Eyes. O terreno é, pois, já conhecido pelos adeptos deste selo, mas a electro-pop com paladar folk do Sul dos EUA (e até country, como em “Speak Easy”, que não dispensa um banjo e uma rabeca) que Maria subscreve assume por inteiro a grande sensualidade de um canto a que antes não foi feita plena justiça – e isso porque, simplesmente, uma voz só ganha corpo quando é acompanhada pela personalidade que a emite, e a melhor maneira de expressar esta passa pela autoria. Desenganem-se, porém, os que já estão a pensar que este é um disco de evasões beatíficas e prazenteiras. “Xanax”, o mais interessante tema do conjunto, inspirado nos comprimidos que nos alienam das preocupações deste mundo e nos mantêm ilusoriamente sossegados, revela-nos uma mulher agorafóbica que tem medo de aviões e de automóveis. Uma tragédia, quando há uma agenda de concertos a cumprir, não acham? As restantes canções têm o mesmo lado sombrio e de desencanto, como “Song Beneath the Song”, com a nossa Maria a repetir “it’s not a love song”, no caso de não termos reparado (onde é que já ouvimos algo de semelhante? Ah, foi nos PIL de Johnny Lydon, se bem que com muito maior “dor de corno”). Se Maria Taylor é uma herdeira do eterealismo dos Cocteau Twins, o certo é que pôs chumbos nas letras e nem com Red Bulls ganhamos asas. Pode parecer leve, esta “songwriting”, mas isso é antes de percebermos que nos põe a pensar, em vez de nos distrair. O que até é bom, pois andamos demasiado distraídos nos tempos que correm...
(22-07-2005)

1. Leap Year
2. Song Beneath the Song
3. Two of Those Two
4. Nature Song
5. Light House
6. One of the Shareholder
7. Xanax
8. Birmingham 1982
9. Speak Easy
10. Hitched

 

Marissa Nadler
«The Saga of Mayflower May»
CD Beautiful Happiness, € 18,9
5

Contar histórias é uma tradição na folk, sobretudo a britânica, mas como com Marissa Nadler a balada é um formato em processo de reinvenção, a personagem (Mayflower May, que já tinha utilizado no seu primeiro registo) importa mais do que a narrativa. E como no cinema, que mesmo quando realista trata de temas “out of the ordinary”, Nadler canta episódios que não são propriamente os mais banais, ainda que possamos identicar-nos com os sentimentos expressos. A melancolia pode não se compadecer com o dia-a-dia das grandes cidades, mas é sem dúvida uma consequência dos contratempos próprios da existência moderna, nas suas diversas manifestações. Mesmo as mais agrestes – note-se que algumas destas canções entram na categoria das “murder ballads”, não para nos falarem de violência, mas sim da perda dos que nos são queridos. Só “Lily, Henry, and the Willow Trees” foge a este figurino, adoptando mesmo características que já foram classificadas pela crítica como “gore”. Importa não esquecer que em “Balladas of Living and Dying”, a sua estreia discográfica, Marissa Nadler utilizou poemas de Edgar Allan Poe, um mestre do género. E quem disse que a melancolia se pinta necessariamente a cinzento e mostra campos cobertos de neve e árvores despidas? “The Saga of Mayflower May” está cheio de cores, sejam a cor dos olhos de um amante ou a de uma certa incidência da luz do sol sobre a vegetação e as casas. A melancolia da folk psicadélica sempre foi diferente, e a verdade é que é no caldeirão da década de 1960 que esta cantora vai beber inspiração e referências. Por vezes, lembra-nos até Linda Perhacs e Vashti Bunyan. Além disso, a voz de Marissa consegue ser misteriosa e sedutora sem perder o encanto da sua fragilidade e o alcance do que pretende afirmar, mesmo que nos leve para terreno desconhecido, o que significa que podemos tecer dela várias interpretações num mesmo fôlego. Para todos os efeitos, a alma humana é complexa e incoerente, capaz do mais sublime mas também afoita à traição e ao assassínio. Se gostarem de Mazzy Star, como nós, vão com certeza querer ouvir este trabalho.
(02-09-2005)

1. Under An Old Umbrella
2. The Little Famous Song
3. Mr.John Lee (Velveteen Rose)
4. Damsels In The Dark
5. Lilly, Henry, And The Willow Trees
6. Yellow Lights
7. Old Love Haunt Me In The Morning
8. My Little Lark
9. In The Time of The Lorry Low
10. Calico
11.
Horses And Their Kin

 

Mark Fosson
«The Lost Takoma Sessions»
CD Drag City, € 16,50


Título apropriado para um disco que esteve para sair na Takoma de John Fahey no final dos anos 1970, mas que não chegou a ter tal sorte porque a editora, entretanto, faliu. Mark Fosson bateu a outras portas, mas ninguém se interessou por este solo de guitarra folk que inovava a tradição, no seguimento, aliás, do que o próprio Fahey fazia. Até que, quase 30 anos depois, a esquecida gravação vê a luz do dia, graças ao empenho da Drag City em revelar o património esquecido da música popular norte-americana e os fundamentos do que hoje fazem músicos como Jack Rose. São 12 temas instrumentais na fronteira dos blues e do country, mas com uma abordagem que diríamos “clássica”, um “feeling” mais solar, digamos assim (John Fahey era decididamente nocturno), e um gosto especial pelo “slide” e pela produção de harmónicos. Aliás, mais do que o patrão da Takoma, parece ser Leo Kottke a grande referência desta música. Revelando uma grande mestria técnica, Fosson caracteriza-se pela forma como gosta de preencher o espectro sonoro com o seu intrincado “finger-picking”, razão pela qual a faixa “Chillicothe”, uma das mais interessantes do álbum, se torna ainda mais curiosa, devido aos seus muitos espaços e respirações.
(06-10-2006)

1. Jubilaya
2. Wind Through A Broken Glass
3. Variations On A Thumb
4. Quarter Moon
5. Cosmic Hiccup
6. Chillicothe
7. Arrival Of The Grand Picayune
8. Gorilla Mountain
9. All The Time In The World
10. Sky Piece
11. Frozen Fingers
12. Nancy’s Waltz

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Mark Stewart
«Kiss The Future»
CD Soul Jazz, €17,95

O antigo vocalista do The Pop Group, na altura da sua estreia (1978) com apenas 16 anos de idade (!), oferece-nos nesta compilação uma retrospectiva do seu percurso desde aquele grupo seminal do pós-punk até ao seu trabalho a solo na década de 1980 e ao projecto Mark Stewart & The Maffia, sempre com uma música que funde dub, disco, funk e rock industrial de modo inventivo e com uma atitude experimentalista. Stewart foi, aliás, um pioneiro na hibridização do punk com a música negra americana e dos guitarrismos rock com a electrónica de dança, bem como de um tipo de sonoridade "dirty" que criou escola em várias frentes, desde o rock "no wave" de Nova Iorque e seus derivados à techno de uns LCD Soundsystem e ao trip-hop dos Massive Attack e de Tricky, com quem, aliás, colaborou. O conteúdo político da sua música, surgido nos anos negros do thatcherismo, volta na era Bush-Blair a ganhar nova pertinência, um dos motivos, aliás, que explicam o renovado interesse por este músico cujo currículo assinala parcerias com Grandmaster Flash, Afrika Bambaata, Sugarhill Gang, Mos Def e The Last Poets, entre outros. Figuras da música de hoje tão diferentes quanto Nick Cave e Daddy G apontam-no como o seu artista favorito, o que quer dizer muito. Mais radical ainda do que os Gang of Four, os Cabaret Voltaire ou os 23Skidoo, o Pop Group é recordado neste "Kiss the Future" por meio dos temas "Beyond Good and Evil", "We Are All Prostitutes" e "We Are Time", mas é a fórmula The Maffia que ocupa a maior parte da sua duração - bem exemplificada, aliás, pela faixa de abertura do disco, "Radio Freedom", que é quase um manifesto. Uma fórmula que foi pensada para as pistas de dança, sem dúvida, mas que continua o pendor extremista daquele colectivo. Sem surpresas, de resto, dado o propósito desde sempre manifestado por Stewart de questionar a ortodoxia musical tanto quanto qualquer outra. Pode até ser que no início o Pop Group tenha sido tomado como de "vanguarda" porque os seus elementos não sabiam tocar e não atinavam com os tempos, como o eu líder admitiu provocatoriamente, mas passados todos estes anos a abordagem que faz da música continua a mesma e é óbvio que Mark Stewart (já) conhece muito bem todos os truques. "Ele é o meu caos", confessou Tricky para explicar o lado mais "estranho" da sua própria criação musical.
(24-06-2005)

 

Markus Kienzl
«Product»
CD Mutek, €16,00

Quando se pertence a um colectivo com a forte personalidade dos Sofa Surfers, quaisquer actividades a solo são secundárias, e foi esse o trajecto de Markus Kienzl por EPs, bandas sonoras e remixes. Até que aconteceu este "Product" e nos vimos obrigados a abandonar tal noção. Inserível na distintiva "escola de Viena" da música feita com "beats", este álbum é muito mais "negro" do que qualquer produção da dupla Kruder & Dorfmeister para as pistas de dança, graças em grande parte ao trabalho desenvolvido ao nível das vozes pelos convidados, que vão do mais literal rap (Oddatee) ao soul/jazz (Barbara Stanzl), passando pelo ragga (Paul St. Hilaire), mas também a composições, arranjos instrumentais (atenção aos sintetizadores analógicos de Andy Meecham aka Emperor Machine aka Chicken Lips) e misturas pouco comuns nas práticas "dub", chegando mesmo a incluir uma vertente experimental, especialmente evidente na última peça do disco, a admirável "Found", com a sua percussão quase de música de câmara contemporânea. Muito do atractivo deste excelente álbum vem dos contrastes operados, tudo se encaixando como que por milagre. "Dundy Lion" e "Like a Ghost" são bons exemplos do jogo entre a electrónica de recorte ambiental/industrial (Kienzl ouviu com certeza "In the Shadow of the Sun", dos Throbbing Gristle) e os vocalistas centrados em universos estilísticos totalmente alheios, um em termos de impacto e o outro de lirismo, ambos alicerçando a sua eficácia precisamente na estranheza das combinações. Como o próprio autor desta surpresa já teve ocasião de afirmar: "Se a 'club music' é obviamente importante para mim, aborrecer-me-ia de morte se tivesse de fazer um disco inteiro só com música de dança." Para colocar na estante ao lado de CloudDead, "Derbe Respect, Alder" da parceria Faust/Dalek, Third Eye Foundation, Autechre e Squarepusher.
(13-05-2005)

 

Martin Lilleker
«Beats Working For a Living - The Story of Popular Music in Sheffield 1973-1984»
Livro+CD Juma, € 35,95


Vários Artistas
«Made in Sheffield - The Birth of Electronic Pop»
DVD Plexifilm, € 23,95


Pack Livro (com CD)+DVD, € 55,95

Fosse porque Sheffield é (e era nos anos 1970 ainda mais do que hoje) uma cidade metalúrgica ou porque a água municipal continha demasiado ferro, os filhos do proletariado acharam mais interessante trocar as guitarras eléctricas pelos sintetizadores e os gravadores de bobinas. O punk local logo se revelou distinto do que estava a nascer em meados da década na capital britânica e deu origem a um ramo da música popular em que a electrónica ganhou um uso diferente do que até então se verificava – o que estava circunscrito aos estúdios electroacústicos de algumas universidades da Europa e dos Estados Unidos passou a ter lugar nas traseiras dos pubs desta urbe e depois de outras, a pesquisa cedendo às pressões da urgência expressiva e do espírito performativo. “Made in Sheffield”, o documentário de Eve Wood que se propõe fazer essa história, inclui depoimentos de vários dos agentes desse fenómeno, músicos envolvidos em grupos como Cabaret Voltaire, ABC, Human League, Heaven 17, Pulp, Artery, Vice Versa, etc., bem como imagens de concertos da época que redescobrem a velhíssima propensão humana para o ritual e algo que a crítica classificou como “histeria masculina”. Diz Ian Craig Marsh (Heaven 17) em certo momento do filme que a impressão existente na altura era a de que estas formações estavam a matar o rock and roll. Sabemos agora que não foi bem assim, ou que só o foi em certa medida (de facto, o que há de rock na electro-pop surgida na sequência desta revolução?), mas sem dúvida que Sheffield mudou radicalmente o curso da música. Se o punk se caracterizou pelo facto de os seus praticantes não saberem tocar mais do que três acordes, tanto assim que quando aprendiam passavam para a chamada new wave ou para a comum pop guitarrística, a nova electrónica operária ia mais longe neste particular: procurava-se fazer música sem “verdadeiros” instrumentos, a exemplo de Brian Eno, o membro dos Roxy Music que frisava a sua condição de não-músico. Chris Watson, fundador dos Cabaret Voltaire e um dos entrevistados, é bem um exemplo: hoje dedica-se à recolha e à montagem / mistura de sons ambientais, e não propriamente à composição e à execução instrumental. “Beats Working For a Living”, livro de uma testemunha destes acontecimentos, o jornalista e crítico Martin Lilleker, vai mais fundo na análise desta época e coloca em letra de imprensa as memórias dos seus intervenientes, incluindo fotos raras e a reprodução de posters e documentos vários. E atenção, também um CD, com uma selecção de temas de agrupamentos mais ou menos conhecidos, como Artery, 2.3, Vice Versa, Pulp, Mau Maus, The Extras (que tiveram a má ideia de mudar para Londres na altura em que todos os ouvidos se dirigiram para Sheffield, assim perdendo oportunidades), In The Nursery e mais.
(06-01-2006)

Alinhamento do CD:
1. Artery - Into The Garden
2. Chakk - Out Of The Flesh
3. They Must Be Russians - Don’t Cry To Cure Yourself
4. The Comsat Angels - Independence Day
5. 2.3 - All Time Low
6. Vena Cava - A Girlfriend Is
7. Vice Versa - New Girls / Neutrons
8. Pulp - Death Comes To Town
9. Mau-Maus - Running With The Packs
10. Disease - Psychobin
11. The Past 7 Days - Raindance
12. Hula - Freeze Out (Club Mix)
13. The Negatives - Money Talk
14. I’m So Hollow - The Triangular Hour
15. The Extras - Playback
16. In The Nursery - Witness To A Scream
17. Graph - March Of The One State
18. I’m So Hollow - Touch
19. Stunt Kites - Home Sweet Home
20. Dig Vis Drill - Fix The Kitchen
21. The Box - Big Slam
22. Artery - Afterwards

Clique aqui para ver o trailer de "Made In Sheffield"

 

Martyn Bates
«Your Jewled Footsteps
- Solo and Collaboration Works 1979-2005»
CD Sub Rosa, € 15,95


Eyeless In Gaza
«Plague of Years - Songs and Instrumentals 1980-2005»
CD Sub Rosa, € 15,95


Algures entre o industrialismo e a electropop, a produção de Martyn Bates, a solo ou com os Eyeless in Gaza, o seu duo com Peter Becker, ocupou um lugar muito próprio na década de 1980, agora relembrada por meio de dois álbuns que juntam temas já editados com outros mantidos inéditos até à data, complementados por canções de recente confecção. “Your Jewled Footsteps”, de Bates a sós ou com colaboradores vários, cobre o período que vai de 1979 a 2005; “Plague of Years”, daquela formação de relevo histórico (ficaram célebres as suas contribuições para as bandas sonoras de dois filmes de Derek Jarman, “The Garden” e “The Last of England”), tem como marcos 1980 e 2006, com um hiato entre 1987 e 1993. E o que faz de Martyn Bates um músico e compositor tão idiossincrático foi e é o facto de estar fundamentado na tradição folk inglesa – aliás, muitos dos temas que compõe ou interpreta (alguns deles anónimos) têm raízes na era elizabetiana. Paralelamente aos Eyeless in Gaza e às suas parcerias com Deidre Rutkowski dos This Mortal Coil, Anne Clark e MJ Harris (o ex-Scorn, Painkiller e Napalm Death que trocou o “beat” pelo “drone”) esta figura hoje lendária da música popular surgiu cada vez mais como um trovador, armado apenas com uma guitarra acústica de 12 cordas. O que a Sub Rosa nos oferece nestas duas edições de luxo está bem distante desses investimentos e dos também seus “Chamber Music Vol. 1” e “Vol.2”, nos quais Bates canta a capella os poemas de James Joyce. Temos agora o Bates mais acessível e pop, ainda que estas canções não sejam propriamente convencionais. A associação entre sintetizadores e cordas dedilhadas que podemos rever em ambas as compilações está, sem dúvida, na base de muito do que se tem feito na recente folktrónica, pelo que se trata de documentos de consulta bastante úteis. Convirá não esquecer, também, que o movimento “wyrd folk” adoptou Martyn Bates como uma das suas referências, pelo que estas “memórias” chegam em boa altura.
(08-12-2006)

Martyn Bates:
1. Cut Like Sunset

2. Shoreform

3. I Cant Look For You

4. First And Last February

5. The God On The Tree

6. Morning Singing

7. Of That So Sweet Imprisonment

8. Mirrored In Me

9. Twilight Turns From Amethyst...

10. Once Loved

11. Dissonance Excerpt

12. Later War Cries

13. Pomes Penyeach (Alone)

14. The Garden Of Olives

15. No-One Spoke

16. Overflowing Look

17. Cherry Tree Carol

18. Once Blessed

19. The Cruel Mother

20. Leitmotif #1

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

Eyeless In Gaza:
1. Mock Sun

2. Reminding Pictures

3. Every Which Way

4. Mixed Choir
5. One By One
6. Before December
7. Ever Pitch And Bite
8. History Book
9. John Of Patmos
10. See Red
11. Rose Petal Knot
12. Guide This Night
13. The Lovely Wanton
14. To Steven [I]
15. Sun-Like-God [II]
16. To Elizabeth S. [III]
17. At Arms Length
18. Lights Of April
19. To Cry Mercy
20. She Moves Thru The Fair
21. Falling Leaf/Fading Flower: Goodbye To Summer

 



Masada
«Masada Live At Tonic 1999 (DVD NTSC)»
DVD Tzadik, €24,50

Na ideal documentação do jazz, assegurada ou não a fidelidade do registo, é natural dar-se primazia aos concertos. A razão é simples e de todos conhecida: para além do planeado numa pauta, do gravado em estúdio ou do que nasce por entre ensaios, há na maioria das composições que no género se inscrevem (quando as há) espaço previsto para a improvisação e espontaneidade dos seus intérpretes. O que, diga-se, em si mesmo e por si só não é aval de excelência - são muitos os factores que contribuem para que a imortalização de um momento preciso documente algo de verdadeiramente excepcional. Mas, paradoxalmente, a história do jazz está deles repleta. Charlie Parker, Bill Evans, John Coltrane, Lester Young, Albert Ayler, Sonny Rollins, Miles Davis ou Keith Jarrett possuem na edição em CD de concertos das suas formações alguns dos mais lúcidos e esclarecedores momentos nas suas carreiras. John Zorn, como é sabido, sempre privilegiou esta faceta da sua produção. Por isso, agora, a fechar o ano, surge com naturalidade um DVD dedicado ao seu projecto Masada, com Dave Douglas, Joey Baron e Greg Cohen – porventura o mais emblemático, sólido, original e bem sucedido quarteto a surgir no mundo do jazz nos últimos 15 anos. E desta vez não nos ficaremos apenas por ouvir tudo o que de novo surge nas suas apresentações. Podemos, pela primeira, vez, assistir por inteiro ao ritual que lhe dá origem. E, como não poderia deixar de ser, o resultado é de tirar a respiração. Uma montagem agressiva a acompanhar as improvisações deste virtuoso quarteto, colocando-nos em todos os pontos do palco e colando-nos à pele e respiração de cada um dos seus intervenientes. 68 vertiginosos minutos de concerto no Tonic, em 1999 – 3 câmeras, som stereo/surround 5.1 –, realizado por Antonio Ferrera, prestigiado documentarista da série «With The Filmmakers» (um conjunto de filmes sobre cineastas, onde se incluem capítulos dedicados já a Martin Scorcese, Jane Campion, Wes Anderson e Robert Duvall). Uma intensa e reveladora viagem por 11 capítulos do clássico repertório Masada, consagrado entre ’91 e ’99 nas 10 gravações para a japonesa DIW, e, no novo milénio, reavaliado em 13 volumes com ele relacionados – entre gravações ao vivo do quarteto à sua expansão, transformação e redução pelas mãos de cúmplices de Zorn - para a Tzadik.

 

The Master Musicians of Joujouka
«Boujeloud»
CD Sub Rosa, € 15,95


Não fossem o poeta e pintor Brion Gysin, Brian Jones dos Rolling Stones, Ornette Coleman e Elliott Sharp (quem se lembra do seu magnífico duo com Bachir Attar?), e a fama dos músicos da aldeia de Joujouka não teria passado das fronteiras de Marrocos, mas o certo é que hoje já não necessitam de o nome Master Musicians of Joujouka vir associado aos de estrelas da Beat Generation, do rock e do jazz para que um novo disco seu seja recebido como um acontecimento muito especial. “Boujeloud” aí está, renovando o mito deste clã com um tema igualmente mítico que faz um paralelo com as lendas da Grécia Antiga. Se o Boujeloud de Atenas se chamava Pan, o do Norte de África é igualmente uma criatura meio homem, meio bode que oferece uma flauta a um pastor. Na tradição Soufi, os MMJ tocam música de transe com ritmos fixos retirados a pandeiros de pele de cabra e com melodias encantatórias executadas em liras (flautas de bambu) e rhaitas (oboés) com uma técnica especial de respiração contínua (o ar é inspirado e expirado em simultâneo) que se diz ter virtudes curativas e é imputado ao santo Sidi Achmed Sheich, padroeiro de Joujouka. Disse Billy Corgan, dos Smashing Pumpkins, depois de os ouvir “in loco”: “Em termos de intensidade, isto é o que há de mais próximo do rock ‘n’ roll.” Verdade ou não, o que ouvimos neste álbum é de ordem devocional, misturando elementos islâmicos com outros de origem pagã, e revelando um forte carácter ritualístico e até xamânico, algo que a música popular foi perdendo em todo o mundo. Altamente recomendado.
(06-10-2006)

1. Boujeloud Al Boudadi
2. Boujeloud featuring Mujehid Mujdoubi
3. Boujeloudia/ Joujouka Ei Calihoun Boujeloud/Joujouka Black Eyes
4. Mali Mal Hal M'Halmaz Everyone is Together
5. Boujeloud Solo Drums
6. Boujeloud
7. Allah a Mohamed El Hub Tenani Allah and Mohamed Kiss my Heart
8. Boujeloud
9. Joujouka Ei Calihoun/ T'werkia d'Boujeloudia: Aishi H'liba Bab Dar Joujouka Black
10. Jewash Halal/Tweka Miserisa

 

Mats Gustafsson/David Stackenäs
«Blues»
CD Atavistic,15,95

Para muitos, a música improvisada feita no Velho Continente é o free jazz sem o fundamento dos blues, mas para contrariar quaisquer ideias feitas que possa haver sobre o que é a livre-improvisação, o jazz ou a folk afro-americana, os suecos Mats Gustafsson e David Stackenäs surgem em "Mountain Blues Sweden" a tocar a folk negra dos EUA à sua maneira (isto é, transfigurando-a, ainda que com a preservação do "feeling" e da coloração específica do género), com dedicatórias a alguns dos seus grandes nomes, como Memphis Minnie, Howlin' Wolf, Hound Dog Taylor e Albert King. E isto, ironia das ironias, produzido e misturado por Guy Picciotto, do grupo rock Fugazi. Aliás, no que respeita a este prego na engrenagem dos blues, do jazz e da improvisação, convirá lembrar o que noutra altura e noutro contexto Gustafsson disse sobre o guitarrista que com ele emparceira neste projecto, ao assinalar que a atitude de Stackenäs é tipicamente rock, mesmo que em contextos por nós julgados alheios a tal. Como não podia deixar de ser, este disco complica ainda mais as discussões que se vão fazendo sobre a prática improvisacional como coisa idiomática ou não-idiomática (enfim, para todos os efeitos apenas uma questão académica). O facto de estas improvisações se basearem numa tipologia muito definida da música poderia bastar para as classificarmos como idiomáticas, mas a leitura que o saxofonista e o seu parceiro deles fazem não o é decididamente. Inclusive, ouvimos Gustafsson aqui por vezes a abandonar a articulação de freaseados, uma característica "não-idiomática" da "free music".
(04-11-2005)

1. Shave 'Em Wet (To Memphis Minnie)
2. Bumble Bee Blues (To Ake Hodell)
3. Built to Do What You Did Last Night (To Howlin' Wolf)
4. You Have to Get Low as a Toad Again (To Hound Dog Taylor)
5. Take Your Hand Off It (To Albert King)
6. Rotten Herring Blues (To Per-Ake Holmlander)

 

Matt Elliott
«Failing Songs»
CD Ici d’Ailleurs, € 15,95

Quando Matt Elliott trocou o projecto electrónico Third Eye Foundation pela canção folk, entendeu-se tal como a resposta ao mesmo chamamento da simplicidade que levou outros a aderir ao “lowercase” ou à electropop, no seu caso indo até um pouco mais longe e ao abandono do sampler em favor da guitarra de caixa, mas o certo é que o Elliott cantautor está a ficar com tantos emaranhamentos de situações e particularidades quanto os de, por exemplo, “You Guys Kill Me”. Até os resquícios de My Bloody Valentine presentes em “Semtex”, o primeiro Third Eye, voltam a surgir neste novo “Failing Songs”, se bem que em enquadramento pós-rock. A música dos Balcãs está ainda mais presente do que no anterior “Drinking Songs”, casando-se com motivos hispânicos e ciganos, e as atmosferas criadas, tal como as letras de resto, são tudo menos leves, falando-nos de guerras, morte, desespero, azedume e resignação. É um disco pesado, sim senhor (e não há padrões rítmicos drum ‘n’ bass que aliviem a coisa), mas também é belo e tem dimensão política.
(19-01-2007)

1. Our Weight In Oil
2. Chains

3. The Seance