| |
(09-03-2007)
Disco 1: 1.
Hudson Dragonfly

2.
Ah Sunflower

Disco 2: 1. Kansas City Blues
2. Celtic Sea Captain

Jackie-O Motherfucker
«Flags of the Sacred Harp»
CD ATP Recordings, € 15,95
O título já diz o que vai dentro deste CD.
Chama-se Sacred Harp ao repertório tradicional americano dos hinos religiosos, e
o que fazem os Jackie-O Motherfucker é o que sempre fizeram com outros formatos:
pegam nele e viram-no do avesso. A música é lenta, lentíssima, e muitas vezes
dissonante, jogando com o factor repetição, e se nos faz pensar nos campos de
trigo do Novo Mundo fá-lo com uma perspectiva citadina e que pouco tem que ver
com qualquer nostálgico desejo de regresso à terra. O que aqui encontramos é
gospel, sim, mas dessacralizado e tornado num corpus auditivo entre outros da
era da informação, uma evocação da espiritualidade do ser humano mais do que uma
celebração divina. Folk (country mesmo, por momentos), sons do quotidiano, muito
experimentalismo, improvisação e trabalho de “patchwork” estilístico, noise
quanto baste, se bem que em versão psicadélica (space rock revisitado, mas com
sensibilidade punk) “drones” de guitarra e electrónica, mas tudo isto ao jeito
das “campfire songs” que estão a reintroduzir o sentido comunitário na sociedade
individualista erigida do outro lado do Atlântico. Os Jackie-O recuperaram o seu
lugar na montra da “weird (‘wonderful, arty and obscure’, como alguns críticos
têm acrescentado) music” feita nos EUA. (29-12-2006)
1.
Nice One

2.
Rockaway

3.
Hey Mr Sky

4.
Spirits

5.
Good Morning Kaptain

6.
Loud And Mighty

7.
Louder Roared The Sea

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas

Jackie-O Motherfucker/My
Cat Is An Alien
«From The Earth To The Spheres Vol.3»
CD Very Friendly, €16,50

A série de "split albums"
"From the Earth to the Spheres" tem servido aos italianos My Cat is
An Alien, ou mais exactamente os irmãos Roberto e Maurizio Opalio,
para conjugarem a sua improvisação "noise" tingida de colorações
ambientais e "folky" com alguns dos nomes sonantes das músicas
experimentais da actualidade. Fizeram-no já com Jim O'Rourke,
Thurston Moore (Sonic Youth) e o grupo Thuja, e na lista dos
convidados que se seguem estão Christina Carter (Charalambides) com
Andrew McGregor, Double Leopards, Glands of External Secretion (com
Nels Cline) e o "turntablist" Christian Marclay. Neste terceiro
volume é a vez de surgirem numa das partes do disco os Jackie-O
Motherfucker e a sua esquizóide mistura de blues e folk primitivos,
free-jazz e rock psicadélico. A peça com que intervêm, "Breaking",
começa por parecer um gospel entrecortado por "beats" electrónicos e
tudo se vai desconstruindo gradualmente até à abstracção total,
banhada por "scratches" de vinil e fragmentos de conversas
telefónicas. "Blank View", dos My Cat is An Alien, é uma exploração
sonora decorrida entre a tristeza e a catarse, um jogo de sombras e
luz com guitarra, percussão e voz a fazerem as despesas dos
acontecimentos, entre os "drones" do rock cósmico da década de 1970
e o "fingerpicking" do country. A verdade é que, se a condição "weird"
dos Jackie-O Motherfucker os leva a quebrar com as regras e os
estereóptipos do que se entende como música, o duo transalpino
denota bem o facto de ser constituído não por músicos, mas por
artistas plásticos. Para eles, música e artes visuais (pintura,
escultura, instalacionismo e fotografia são as suas áreas habituais
de criação) são apenas formas diferentes de expressar os mesmos
conceitos e significados, extensões umas das outras. Pouco importa
que se use um pincel ou um xilofone, mas o que se faz com eles...
(13-05-2005)

Jackson and His Computer Band
«Smash»
CD Warp Records, € 16,95
Depois de vários EPs com
inspiração na house e fama conquistada nos meios da electrónica de
dança (fez “remixes” de Femi Kuti, Air, Luke Vibert e Vanessa
Paradis, por exemplo), eis que o francês Jackson Fougeraud surge com
o seu primeiro álbum, resultado de um trabalho de quatro anos.
Descolado já daquele género, a música que nos apresenta em “Smash”
integra elementos de funk (é um admirador confesso dos Funkadelic),
soul, electro-pop e techno, recorrendo a técnicas de “cut and paste”
que lembram os Prefuse do início. Logo para dar uma ideia do
percurso percorrido neste tempo de preparação, a primeira faixa,
“Utopia”, é a mesma de um single surgido em 2003, com a
particularidade de ter a sua mãe, Paula Moore, a cantar. Daí em
diante as situações vão-se atropelando, entre o robótico e o
alegremente sincopado, com uma frescura e uma inventividade que já
não são muito comuns nos domínios da “club music”. É, de qualquer
modo, a postura do “produtor” (que não a do
instrumentista-compositor) que Fougeraud assume por inteiro, na
linha instituída pelas práticas digitais que convidam ao movimento
dos corpos. O que quer dizer que a Computer Band indicada pelo nome
do projecto não existe verdadeiramente; a banda é o próprio
computador, alimentado por samples de mil e uma músicas do circuito
comercial, quer as reconheçamos ou não. “Francofunk”, chamam já ao
tipo de equação operado por este “laptoper” do entretenimento
inteligente. O músico parisience prefere definir o que aqui ouvimos
como uma “orgia de estilos” e uma “celebração psicadélica do
conflito”...
(17-11-2005)
1.
Utopia

2.
Rock On
3.
Arpeggio
4.
Minidoux
5.
Oh Boy
6.
TV Dogs (Cathodica's Letter) feat. Mike Ladd 
7.
Hard Tits
8.
Teen Beat Ocean 
9.
Promo
10.
Tropical Metal 
11.
Headache
12.
Moto
13.
Fast Life 
14.
Radio Caca 
(30-03-2007)
1.
The Sun Never Sets

2.
Brain

3.
Our Time

4.
People Be Happy

5.
Greensleeves

6.
Rhythm Dance

7.
Mirrors

8.
The Squid

9.
Superheros

10.
Left Handed, Left Minded

Clique
aqui para escutar
excertos de todos os temas

Kieran
Hebden & Steve Reid
«The Exchange Session Vol. 2»
CD Domino, € 16,95
Ora aqui está um duo que ninguém imaginaria
possível, entre um dos mais interessantes cultores da electrónica com “beat”,
Kieran Hebden, mais conhecido como Four Tet, e um mestre da bateria, Steve
Reid, que tocou com os maiores do jazz (Miles Davis, Archie Shepp, Dexter
Gordon, Sam Rivers, etc.) e com nomes grandes da música negra como James
Brown e Fela Kuti. Segundo volume de uma colaboração que no início do ano
surpreendeu mas não foi muito mais além, esta nova “Exchange Session”
avança pelas pistas então anunciadas e conduz-nos a mais saciantes
desfechos. Quem tem apreciado as parcerias entre Stronen e Storloken sob a
designação Humcrush encontra aqui ainda melhor filão. À semelhança do tomo
anterior, a música contida neste CD foi inteiramente improvisada, e isso é
perceptível a cada momento, e não só naqueles em que estão claramente à
procura do que fazer a seguir. Tentar estradas secundárias para entrar na
via rápida sempre foi uma característica deste tipo de abordagem, e se nem
sempre isso é interessante para quem ouve, o que nos oferece de mais
impactante teve necessariamente de passar por aí. Como dizem os religiosos
progressistas, são muitos os caminhos para chegar a Deus, e o certo é que
esta dupla tem o êxtase como finalidade e propósito, aproximando-se muito
da epifania. Sobretudo em “We Dream Free”, e é efectivamente uma “free
music” o que ouvimos, plena de jazz e funk, mas com uma envolvência e uma
sonoridade que não encontramos normalmente nesses domínios. Não está muito
longe de “Africa / Brass” de John Coltrane, cujo modalismo é reinvindicado
por Reid, mas em vez dos sopros temos samples e sínteses. Muito bom.
(18-08-2006)
1.
Hold Down The Rhythms, Hold Down The Machines

2.
Noémie

3.
We Dream Free

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas

Kim Hiorthøy
«My Last Day»
CD Smalltown Supersound, € 15,95

Segundo álbum de originais, depois do aclamado "Hei" de 2002, "My
Last Day" não significa que Kim Hiorthøy tenha estado parado
entretanto, tendo lançado vários discos de lados B, EP's, álbuns ao
vivo e gravações de ambientes. Tem também actuado pela Europa,
Estados Unidos e Japão com frequência.
Extraordinariamente talentoso e expressivo, Kim Hiorthøy opera em
inúmeras áreas para além da música. Como designer gráfico é
responsável por todo o grafismo da também norueguesa Rune Grammofon
(tendo inclusivamente filmado e realizado o maravilhoso DVD "7" dos
Supersilent). É também artista plástico (vejam em
www.standardoslo.no) e
escritor.
Residente em Berlim e Oslo, trabalhou neste novo álbum durante
alguns anos, devido ao seu tempo extremamente ocupado com outras
actividades. A maior parte foi gravada em Berlim, e comparado com
"Hei", "My Last Day" é menos fragmentado e mais musical e melódico,
sempre com o seu som característico. Por vezes inclui na sua música
sons mais orgânicos e mesmo folk, tanto assim que a revista XLR8R
reconheceu-o como uma das mais importantes personagens da nova
música folk electrónica, a par de Herbert, Matmos e Four Tet. Kim
vai buscar inspiração ao folk, ao jazz (os seus sets ao vivo têm
sido com o virtuoso percussionista free-jazz Paal Nilssen-Love),
electrónica lo-fi, acid, hip-hop, gravações de ambientes e samples.
Toda a sua música é criada com um sampler MPC, o instrumento
original do hip-hop, o que leva a que as suas actuações ao vivo
sejam bem mais interessantes e físicas, evitando o vulgar
espectáculo com um laptop, a que normalmente assistimos com outros
artistas da electrónica.
Em “My Last Day” Kim Hiorthøy continua a criar excelente música pop
electrónica no seu particular e muito próprio estilo.
1.
I Thought We Could Eat Friends

2.
Beats Mistake
3.
Skuggan
4.
Album
5.
Same Old Shit

6.
Den Långa Berättelsen Om Stov Och Vatten

7.
Alt Går Så Langsomt
8.
Goodbye To Song
9.
Wind Of Failure
10.
Hon Var Otydlig, Som En Gas

11.
I'm This I'm That

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas

King
Kong
«Buncha Beans»
CD
Drag City, € 16,50

Devem-se contar por metade dos dedos de uma só
mão os portugueses que tenham em casa um disco dos King Kong… Banda liderada por Ethan Buckler, ex-baixista dos seminalíssimos e há muito extintos Slint, King
Kong é uma banda clássica (guitarra, baixo, bateria, sintetizador e vozes
masculinas e femininas), despreocupada e discreta; o seu charme reside
exactamente em não terem absolutamente charme algum. Em “Buncha Beans”, o sétimo
registo desde a estreia em 1992, confluem, de uma forma competente, a
fragilidade e a ironia de Jonathan Richman, os trejeitos monocórdicos de Mayo
Thomson/Red Krayola, e a idiossincrasia particular do seu líder - bem patente na
sua fascinante escrita -, criando-se assim um disco despretensioso, agradável e
muito provavelmente duradoiro. Excelente lufada de ar fresco no universo rock
alternativo americano actual, infelizmente pejado de pseudos-qualquer-coisa-muito-esquisita.
Não é post-rock, não é rock experimental nem neo-psicadélico, é simplesmente:
King Kong!
“…everybody wants to look tough in the city…John Doe, he´s gotta family…I don´t
need no monkey business at all…”. (09-03-2007)
1. Bulldozers
2. Freak Off You
3. Hungry Tiger
4. Bug Make
5. Sue Na Mi
6. Cirque Du Blase
7. Monkey Business
8. Tough Guys
9. Orange Ocean
10. Buncha Beans
11. Ride The Funky Mule

Kites
«Peace Trials»
CD Load, € 17,95
Kites é Christopher Forbes e este
“Peace Trials” um trabalho feito no singular, apenas com um
convidado episódico, Eric Rosenthal dos Udog. Com electrónica
“homemade” (não há computador, nem sampler nem sintetizadores
envolvidos) e guitarras (a acústica que se ouve por vezes tem apenas
três cordas e foi igualmente construída pelo próprio), tudo no
presente disco tem inscrita a filosofia DIY (de Do It Yourself, para
quem não sabe). A gravação, aliás, foi feita em cassete de quatro
pistas, sem recurso a produção de estúdio nem enfeites ou
correcções, seguindo a máxima “what you hear is what you get”. E o
que ouvimos vai do “noise” brutal à la Wolf Eyes, com uma atitude
punk de aparente displicência performativa (encenada, está claro,
pois Forbes mostra saber exactamente o que quer), a canções que nos
remetem imediatamente para os Pink Floyd dos primeiros anos e para
os vocalismos harmónicos típicos de Syd Barrett, ainda que com uma
dimensão “folky” acrescentada, consistindo estas no lado neo-hippie
do disco. Algo, de resto, que só surpreenderá quem não seguiu o
processo de continuidade dos princípios do “flower power” para os da
estética “no future” gerido pelos britânicos Crass, um paradigma no
que a esta questão diz respeito. A combinação no mesmo projecto de
materiais tão diferentes, longe de o tornar incongruente, surge sim
como as duas faces da mesma moeda: abstracções sónicas e figuras
melódicas, ruído branco e baladismo, são entendidos apenas como
formas possíveis do fazer musical nos dias que correm, mesmo que de
forma “revisionista”, uma não excluindo a outra. A coexistência de
muitos conceitos e práticas sonoras nas sociedades plurais de hoje
está a ser cada vez mais transposta para as visões personalizadas
dos músicos criativos. Nesta área, o certo é que já não vai sendo
possível identificar alguém como sendo exclusivamente “de rock”, “de
jazz” ou seja o que for. Tornou-se até difícil categorizar um
criador como “experimental” só porque parte das suas produções foge
à norma – aliás, se de normas quisermos falar, repare-se como as
explosões de “feedback” aqui registadas colam com o que fizeram
antes, e estabeleceram como vias de actuação, formações de “extreme
music” como Throbbing Gristle ou Whitehouse. Para todos os efeitos,
algumas das melhores canções pop dos últimos anos foram escritas por
músicos experimentais, e este Kites junta-se à lista.
(02-12-2005)
1. Flag Torn
Apart
2.
Something About America

3. Exploded Face
4. Dirt
5. Downward/Creepy Crawl
6. Baby Fawn with Broken Legs
7. True
8. Peace Trials

KK
Null
«Fertile»
CD Touch, € 15,95

Após o álbum de colaboração com o ex-Cabaret
Voltaire e The Hafler Trio Chris Watson e Z'ev, Kazuyuki Kishino, mais conhecido
por KK Null regressa em força. Estando no activo há mais de 20 anos em vários
projectos - dos quais Zeni Geva será o mais conhecido, não esquecendo as
colaborações com Jim O'Rourke, John Zorn James Plotkin e muitos outros -, na
última década Kazuyuki dedicou-se exclusivamente ao trabalho a solo sob o nome
KK Null. "Fertile" é o primeiro álbum a solo para a lendária Touch, e ainda que
já não utilize a sua guitarra, faz-se usar não só de sons ambientes recolhidos
na Austrália, como da electrónica mais agressiva.
"In June of 2006 i had the good fortune of
visiting Darwin in the Northern Territory in Australia and explored in Kakadu
National Park with some good friends. I took my digital recorder along with me
and did some live field recordings there. First we encountered a flock of wild
birds (Little Corella or Cacatua Pastinator) just beside the South Alligator
River, and then we happened to find "bush fire" flaring just beside the road we
were on. I also had a unique opportunity to record a magnificent symphony
orchestra of insects, frogs and birds in wetlands just before sunset.
At that time i had no idea or no specific purpose for using these field
recordings, and in the middle of working on this album [Fertile] in my home
studio, suddenly came up with the idea of mixing these field recordings into
some of the tracks that were unfinished.
I felt comfortable with layering & mixing different sounds from different
locations and times, digital and analogue sounds into one piece. I like also the
balance of spontaneity (field recording) and intentional act (studio recording)." Kazuyuki Kishino
(13-04-2007)
1. Untitled
2. Untitled
3. Untitled
4. Untitled
5. Untitled
6. Untitled
7. Untitled
8. Untitled

KK Null
«Kosmo Incognita»
CDEP Thisco, €
8,50
Este é o disco português do
guitarrista / vocalista do grupo punk-noise Zeni Geva, o mesmo que tocou
com Tatsuya Yoshida, dos Ruins, nos YB02, e com Seijiro Murayama, antigo
baterista dos Fushitsusha de Keiji Haino, nos Absolut Null Punkt, além de
ter colaborado com Mazami Akita, mais conhecido como Merzbow. Neste EP de
20 minutos que parecem uma eternidade, engolindo-nos na sua voragem como
um buraco negro (virá daí a referência cósmica do título?), deixa cair a
vertente punk, trocando a guitarra pela electrónica, e trabalha apenas com
a noise, ainda que se trate de um noise muito particular, inspirado nos
seus estudos do Butoh. Ensinou-lhe a dança imóvel do seu Japão natal a
obter o máximo de efeito com o mínimo de gestualidade musical e física, e
daí a tónica quase ambiental deste breve “Kosmo Incognita”, não obstante o
impacto sonoro inerente. E não, não se trata de uma “kosmic muzik”
convertida ao entendimento nipónico: em vez da impávida ordem sideral
metaforizada pelos electrónicos alemães, o que encontramos aqui é pura
entropia. Meteoros a embaterem violentamente contra planetas.
(24-02-2006)
1.
Kosmo Incognita 

Kubik
«Metamorphosia»
CD Zounds Records, € 13,50
"Oblique Musique" já tem
um sucessor e chama-se "Metamorphosia", o novo álbum de Kubik,
heterónimo que identifica a "sampling music" de Victor Afonso,
guitarrista da Guarda que vem ganhando nome dentro das fronteiras
portuguesas e fora delas - Mike Patton, por exemplo, é fã. Aliás,
foi Kubik quem fez a primeira parte do recente concerto dos Fantômas
em Lisboa, a convite do antigo vocalista dos Faith No More. Afonso
apresenta este CD como uma "evolução na continuidade" e se, de
facto, as coordenadas são as mesmas (junção de situações sonoras que
se diriam incompatíveis, mas que nas suas composições ganham uma
notável lógica sequencial), o certo é que tem um sentido de nuance
que antes parecia estar ausente. Não que à estreia faltasse
subtileza; simplesmente, tinha um objectivo e pressa de lá chegar.
Agora, o também programador e responsável do serviço de educação
musical do Teatro Municipal da Guarda permite-se alguns desvios do
caminho traçado e umas pausas para respiração, dele e nossa, seus
ouvintes. A lista de colaborações a que recorreu é curiosa e denota
bem o seu interesse pela diversidade, indo do poeta sonoro Américo
Rodrigues a Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta, com o seu
embargado "spoken word". Um destes convidados especiais é Old
Jerusalem (Francisco Silva), curiosamente surgindo num contexto
musical que nada tem a ver com a folk e o baladismo e que resulta
mesmo num dos melhores momentos deste trabalho dividido em duas
partes, como se se tratasse de um disco de vinil que fosse
necessário virar. No labirinto desta obra de constantes metamorfoses
reencontramos o Victor Afonso mais experimental, aquele que se tem
revelado na sua faceta de improvisador, mas com maior evidência
ainda o que se interessa pela pop e pela música popular em geral,
incluindo as franjas mais criativas deste universo - uma certa "world
music" (atenção à gaita de foles e à forma como "casa" com tudo o
resto), os "beats" electrónicos de dança e os "riffs" de heavy metal
que reconhecemos ao longo das faixas são apenas alguns exemplos.
Altamente recomendado.
(09-09-2005)
Side a
1. intro-in: shattering song
2. offertorium
3. sound nest
4. Cannibal vegetables
5. night and fog: ya!
6. i’m a vampire, i’m disgust
7. intro-middles:hitch song
Side b
8. touch of evil
9. etna
10. sweet
11. better look here
12. metamorphosia
13. era chegado o tempo
14. Intro-out: landscape song

The Ladybug Transistor
«Here Comes The Rain EP»
CDEP Green Ufos, € 9,95

Um delicioso EP de
quatro temas com 'covers' exclusivas de McCauley, Ayers, Cale e
Lofgren a abrir apetite para o novo álbum de 2007. Nas colaborações
ilustres como Jens Lekman, Keli Sutherland (Architecture in Helsinki),
Paul Niehaus (Calexico, Lambchop), Kevin Barker (Currituck Co), Gus
Franklin, e Isobel Knowles.
1.
Here Comes The Rain (Jackie McCauley) 
2.
Girl On A Swing (Kevin Ayers) 
3.
Empty Bottles (John Cale) 
4.
Everybody’s Missing The Sun (Nils Lofgren) 
Clique
aqui
para escutar excertos de
alguns dos temas

The Lappetites
«Before the Libretto»
CD Quecksilber, € 15,95

Em termos de
improbabilidades, já tivemos oportunidade de nos surpreendermos
recentemente com um disco em que o recentemente falecido Luc Ferrari
improvisava ao lado de partidários do tempo real como Noel Akchoté.
Agora é a vez de um quarteto electrónico feminino em que a
consagrada compositora de “drone music” Eliane Radigue emparceira
com as jovens terroristas sonoras Kaffe Matthews, Ryoko Kuwajima e
AGF (Antye Greie). E atenção: conhecida pelas suas obras
exclusivamente analógicas, com manejo de sintetizadores “vintage”,
Radigue utiliza no seio das Lappetites a mesma ferramenta que
caracteriza o trabalho das suas parceiras: o “laptop”. Muito
distante das “soundscapes” Zen a que nos habituou, a autora de
“Songs of Milarepa” é confrontada em “Before the Libretto” com
situações do mais descarnado “noise”, que passam, por exemplo, pela
transfiguração de uma das mais simbólicas canções punk dos Sex
Pistols, pela poesia sonora (assinalando a presença da alemã Greia,
cuja actividade passa grandemente por aí) e até pelo “beat”, é certo
que em estertor métrico, mas denunciando uma referenciação techno. O
extraordinário nesta colaboração é que cada participante encontrou
lugar para fazer ouvir a sua própria voz. Coisa que, convenhamos,
não é muito habitual no domínio da digitália, área em que a
tendência é para o nivelamento das personalidades musicais em prol
do objecto colectivo.
(28-10-2005)
1.
Tzungentwist

2. My Within
3. Avoiding Shopping
4. Birken
5. Disaster
6. Stop No. 394 Falkirk Street
7. Kuchen Keiki Cake
8. Aikokuka
9.
Heimat

10. Prologue
11. Funeral
12. Birthday Mister
13. Overture
1.
Alarmed And Distressed Duckling

2.
Sinus Shakedown
3.
Bergen Anal Dynamite

4.
Bottle Woodcarver
5.
The True Flamingo
6.
A Pair Of Spools To Make You Dance

7.
No Sleep 'Til Haugesund
8.
New York Is Now
9.
Soya Across The Street

10.
Lowest Bloodsugar Ever
11.
To Whom Who Keeps A Record

12.
Schwitter's Pistol Support

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas

Lasse
Marhaug | Nils
Henrik Asheim
«Grand Mutation»
CD Touch, € 15,95

Lasse Marhaug e Nils Henrik Asheim começaram a
sua colaboração em 2004 no All Ears Festival em Oslo, na Noruega. Esta
colaboração resultou numa reunião proveitosa de dois compositores com passados
musicais bem diferentes. O feedback de Marhaug para os sons de órgão de Asheim
no concerto de Oslo foi apenas uma pequena amostra para o que viria a ser este
álbum. Asheim fez uso do órgão de igreja e de algumas técnicas subtis de modo a
criar várias layers de som. Com uma componente vibratória flutuante, Asheim
transformou o som acústico numa espécie de melodia ambiente constante, para
depois Marhaug o manipular electronicamente e adicionar-lhe características mais
sintéticas, no entanto nunca deixando de o destituir do seu aspecto orgânico.
Os dois músicos voltaram a juntar-se em Junho de 2006, mesmo antes da catedral
de Oslo (que tem o instrumento favorito de Asheim) encerrar as suas portas para
alguns anos de restauro. Um dia de soundcheck e uma noite de gravações
produziram um fluxo improvisado de uma hora, mais tarde estruturado em cinco
temas.
A gravação foi efectuada ao vivo, na sala do órgão. Nils Henrik Asheim sentado
ao órgão e Lasse Marhaug atrás dele, tocando os seus instrumentos electrónicos
através de um sistema de altifalantes, levou a que os sons electrónicos e
acústicos se juntassem numa amálgama única. Tudo isto ocorreu durante a noite,
para que sons ambientes da própria cidade não perturbassem a gravação final, que
foi misturada por Marhaug em Janeiro de 2007.
(16-03-2007)
"Ao segundo álbum, James Murphy volta a
responder, e fá-lo com uma distinção que talvez não fosse previsível"
Vítor Belanciano in Ípsilon/Público
"Certamente um dos álbuns mais esperados do
ano, «The Sound Of Silver» não soa tão revolucionário quanto o primeiro disco da
banda mas não deixa de ter óptimas canções." Davide Pinheiro in
Disco Digital
"James Murphy e Tim Goldsworthy regressam
com som ainda mais refinado. Brilhante." Rui Miguel Abreu in
Blitz
1.
Get Innocuous!

2.
Time To Get Away

3.
North American Scum

4.
Someone Great

5.
All My Friends

6.
Us V Them

7.
Watch The Tapes

8.
Sound Of Silver

9.
New York, I Love You But You're Bringing Me Down

Clique
aqui para escutar
excertos de todos os temas ou então
aqui para
escutarem o álbum completo

LCD Soundsystem
«LCD Soundsystem»
2CD DFA/EMI, € 18,95
Disco 1:
1.
Daft Punk Is Playing At My House
2.
Too Much Love
3.
Tribulations
4.
Movement
5.
Never As Tired As When I’m Waking Up
6.
On Repeat
7.
Thrills
8.
Disco Infiltrator
9.
Great Release
Disco 2:
1.
Losing My Edge
2.
Beat Connection
3.
Give It Up
4.
Tired
5.
Yeah (Crass Version)
6.
Yeah (Pretentious Version)
7.
Yr City's A Sucker

Leafcutter
John
«The Forest and The Sea»
CD Staubgold, € 15,95

John Burton, mais conhecido por Leafcutter
John, está a tornar-se num caso muito sério da música actualmente feita
nas ilhas de Sua Majestade D. Isabel II. Se com os Polar Bear está
inserido em contexto jazzístico, mesmo que algo excêntrico, depois de ter
marcado pontos como um dos mais importantes nomes da electrónica
concretista ei-lo com uma obra – e que obra, do melhor que nos tem chegado
à mesa de trabalho no último par de anos! – em que volta a lançar pontes
para outras músicas, no caso a canção pop / folk. Exactamente, não leram
mal: “The Forest and the Sea” é um disco de baladas cantadas, pelo próprio
Burton e por Leo Chadburn e Alice Grant, em que ao computador e a “field
recordings” de diversa proveniência geográfica e sonora se juntam
instrumentos convencionais como a guitarra clássica, o bouzouki, o
acordeão, o trombone, o piano, o violoncelo e o harmonium, a maior parte
deles tocados pelo próprio autor e só muito ocasionalmente tratados por
meios digitais. Há algo por aqui dos Pink Floyd dos primeiros anos e de
algum pós-rock, mas o que sobretudo se pressente é que o jovem músico está
a desbravar um caminho alternativo à já estagnada folktrónica. O álbum
conta uma história, o que o coloca na tradição conceptual do rock
progressivo (na verdade a única equivalência com a música desses anos), e
tem uma dimensão trovadoresca que nos deixa de imediato surpreendidos e
desarmados, para mais tendo em conta os envolvimentos por computador
destes temas. A revista Wire já começou a chamar ao que faz de
“pós-electrónica”, whatever that means.
1. Let It Begin
2. Maria in the Forest
3. Dream, Pt. 1
4. Dream, Pt. 2
5. Dream, Pt. 3
6. In the Morning
7. Go Back
8. Seba
9. Now
Clique
aqui
para escutar excertos de
alguns dos temas

Lee Ranaldo, Carlos Giffoni, Thurston Moore,
Nels Cline
«Four Guitars Live»
CD Important Records, €
17,50
Gravado ao vivo em 2001 num
bar de Brooklyn que entretanto fechou as portas, mas só agora editado,
este registo junta dois consagrados da distorção guitarrística (e membros
dos Sonic Youth), Thurston Moore e Lee Ranaldo, a duas figuras das seis
cordas que na altura se encontravam em plena ascensão: Nels Cline divide
agora a sua actividade entre os Wilco e um jazz-country-rock de cunho
experimental, e Carlos Giffoni tornou-se num dos grandes militantes do
presente noise nova-iorquino, seja enquanto membro dos Monotract (e em
parcerias como a que teve com Lasse Marhaug, o Merzbow europeu) ou a
organizar o New York No Fun Festival. Totalmente improvisado, o que quer
dizer que, para além de não haver temas melódicos nem estruturas, não há
igualmente nada que se pareça com um “riff”, “Live At Luxx” tem um
substracto rock, sem dúvida, mas depois de passado pelo alambique
eléctrico / electrónico destes quatro “enfants terribles” do género ou
próximos dele. O que temos, então, é muito “feedback”, harmónicos de
cortar à faca, explosões sónicas vagamente inspiradas no punk ou no metal
(vulgo “power chords”) e logo seguidas por parasitagens de dimensão quase
microscópica (é preciso escutar várias vezes e de muito perto estas
texturas para detectarmos tudo o que acontece), jogos tonais / politonais
/ atonais e uma particular devoção pelas dinâmicas. O nirvana de quem
gosta de guitarrismos experimentais, em suma, bem como do tipo de
improvisação em que os egos capitulam face à lógica colectivista
ambicionada. De facto, não é possível perceber quem faz o quê nesta
amálgama, e isso apesar da excelência da gravação em multipistas, com cada
vibração sonora claramente perceptível. Quem tem acompanhado o trabalho de
pesquisa realizado por Moore e Ranaldo fora dos Sonic Youth, ou nos discos
mais “off” destes, saberá à partida o que pode encontrar aqui, mas o
envolvimento de Cline e Giffoni impede-lhes uma cristalização nas suas
formulações habituais. O primeiro terá influído no cuidado que, apesar de
tudo, é dado à forma, e o músico de origem venezuelana parece arrastá-los
ainda mais para os extremos da estética do ruído. Daqui resulta a vívida
impressão de que há mesmo ordem no caos.
(31-03-2006)
1.
Live At Luxx


Leslie Woods and Dark Mountain Orchid
«The Luxury of Sin + Velvet Sky»
2CD Glitterhouse , € 16,50

O que se poderia esperar de quem cresceu
entre o “old mountain style” do Tennessee e o honky tonk do Louisiana
senão que atravessasse todas as encarnações da Americana, do country e da
folk ao rock e ao jazz, com o bluegrass a fazer a ponte? Pois é o que nos
oferece a “singer/songwriter” Leslie Woods com o seu grupo, os altamente
competentes Dark Mountain Orchid, e essa música transversal até já recebeu
uma nova designação: country-soul. Tem outra particularidade: interiorizou
toda a tradição da literatura “gótica” do Sul dos Estados Unidos, de
Erskine Caldwell a Harry Crews. Se quiserem ir ao âmago do que é uma
“murder ballad”, está em “The Luxury Sin” (e no bónus que o acompanha, uma
reedição do primeiro disco desta senhora de voz quente, “Velvet Sky”) o
que há de mais vernacular nesse formato nos dias que correm. Sempre
acompanhada da sua Colt, Leslie canta amores desencantados, traições,
perdas, vícios e indefinidas melancolias, “all delicious and all fucking
poison”, como escreveu um crítico mais entusiasmado. A carga é tão densa
que já se imaginou esta música nos filmes de David Lynch, com Leslie Woods
na sala vermelha de “Twin Peaks” ou a contracenar
com um Dennis Hopper pedrado com oxigénio. Inquietante, por ocasiões até
algo “spooky”, esta cultora do “Apalachian gothic” consegue, no entanto,
conciliar o lado das sombras com a beleza de uma melodia, o que não é
fácil. Sabendo, porém, que no seu passado esteve ligada ao mundo da moda e
antes disso pertenceu a um grupo punk, não surpreende. E de facto, os
contrastes da sua música são grandes. Alguém chegou mesmo a descrevê-la
como uma Lydia Lunch rural com a misteriosa presença de Marianne Faithful
e de Nico e uma voz que lembra vagamente a de Billie Holliday. E como
estas, também tem coisas a dizer sobre a branquinha, tal como ouvimos na
última faixa do álbum, “Heroin”. “Diz-se que se deve escrever e compor
sobre o que se conhece, e é isso mesmo o que eu faço”, explica-se ela.
Ainda bem...
(31-03-2006)
Disco 1:
1.
Train

2.
Everyday Fevers

3.
I Am What

4.
Little Bit Of Me

5.
Sky So Pale

6.
Say Anything

7.
I Was Younger Then

8.
Cami

9.
Heart Is Black

10.
What I Thought

11.
Save It For Me

Disco 2:
1.
Velvet Sky

2.
Baby Mine

3.
I'm On Fire

4.
Crush Me

5.
I Am Fine

6.
Clyton County

7.
Rosemary

8.
Lullaby(3:25 am)


Letters
Letters
«Letters Letters»
CD/LP
Type, € 15,95

O álbum de estreia do trio de Montreal que inclui Mitchell Akiyama, Tony Boggs e
Jenna Robertson. Música sórdida pop com resquícios da no-wave, tudo numa
estática noise, será talvez a melhor classificação.
Montreal tem-se tornado num berço da música de novos talentos, não tivessem os
Arcade Fire ou Wolf Parade contribuído para isso. Mas debaixo dessa superfície
enganadora há muito mais. Mitchell Akiyama tem sido uma parte activa da cena
musical dessa cidade canadiana há já algum tempo, não só como artista a solo,
mas também em inúmeras colaborações com outros músicos, nomeadamente Tony Boggs
(Désormais) e Jenna Robertson (Avia Gardner) mas esta é a primeira vez que os
três músicos se juntaram e criaram algo que desafia o seu trabalho anterior. Em
vez de explorarem as raízes da música electrónica e pós-rock, como o faz
habitualmente, Mitchell decidiu desta vez contemplar o início dos anos 80 com a
sua colega (e riot-grrrl confessa) Jenna e o front-man acidental Tom e construir
a sua versão de música pop alternativa. Com sintetizadores avariados, caixas de
ritmo desreguladas e o habitual exército de guitarras eléctricas e
amplificadores em distorção, conseguiram obter uma fórmula pop perfeita e muito
colorida. Esta é uma abordagem fresca sobre a cena lo-fi caseira, e ainda que os
fanzines tenha sido substituídos pelos blogs e as webzines, isso não significa
que tenhamos de esquecer o lado mais áspero da vida. Temas penetrantes como
sexo, drogas e aquela cena fantástica do Unicórnio no Blade Runner são razões
mais que suficientes para deixar o projecto Letters Letters entrar na nossa vida
imediatamente.
(16-11-2007)
1.
Favorite Hands

2.
We'll Make Our Home

3.
Everyone's Afraid of Fear

4.
Between the Seams

5.
Dealer Dealer

6.
Iron Mountain

7.
Up To Our Waist

8.
In a Way

9.
Want To

10.
Wishing Well

11.
Everything Always

12.
(Stingray) Trapped in Platinum

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas

Liars
«Drum's Not Dead»
CD+DVD Mute, €19,50
1. Be Quiet
2. Let's Not Wrestle
3. Visit Prom Drum
4. Drum Gets a Glimpse
5. It Fit When I Was a Kid
6. The Wrong Coat
7. Kolo Drum
8. It's All Bloom in Gnow
9. Dr Drum and The Uncomfortable Can
10. You Drum
11. To Hold You Drum
12. The Other Side of

Lightning Bolt
«Hypermagic Mountain»
CD Load, €
17,95
Se nos últimos anos o
noise parece ter mudado de armas e bagagens para a electrónica, o
duo de baixo e bateria (e vocais por meio de “throat miking”)
Lightning Bolt tem sido dos poucos, com, por exemplo, os Wolf Eyes e
os Black Dice, a trazê-lo novamente para o abraço do rock. Mas não
se pense que num formato free, como é habitual acontecer quando
noise e rock se mesclam. O noise de “Hypermagic Mountain”, mais até
do que no anterior “Wonderful Rainbow”, é acompanhado pelo constante
alinhamento de “riffs” e até encontramos o que podemos entender como
melodias, figuras animadas numa paisagem brutal de cor cujos
contornos não conseguimos adivinhar. Vendo bem, apenas se distinguem
do preciosismo métrico de uns Ruins pelo facto de serem mais
primários (na medida, claro, em que um “modern primitive” o pode
ser) na gestão do seu virtuosismo instrumental (virtuosismo de
facto: atente-se bem na metralha rítmica de Brian Chippendale), o
que ainda se torna mais óbvio por cada uma das suas actuações
funcionar como uma cerimónia xamânica, toquem eles ao vivo ou em
estúdio. Para ajudar nesta adequação do noise à moldura do rock, a
produção deste álbum procura colocar tudo a claro, ao arrepio da
atracção da “noise music” pelos ruídos branco e cor-de-rosa. É assim
que a voz se ouve melhor, em vez de surgir embrulhada pela massa de
distorção e “feedback” herculeamente mantida por Brian Gibson, e é
assim igualmente que nos apercebemos melhor das construções tonais,
que deixam de ser apenas elementos de contradição e surpresa num mar
abstraccionista para se tornarem numa quase permanente antítese.
(20-01-2006)
1. 2 Morro Morro Land
2. Captain Caveman
3. Birdy
4. Riffwraith
5. Megaghost
6. Magic Mountain
7. Dead Cowboy
8. Bizarro Zarro Land
9. Mohawkwindmill
10. Bizarro Bike
11. Infinity Farm
12. No Rest for the Obsessed

Lindstrøm
«The Contemporary Fix EP»
CDEP Smalltown Supersound, € 9,95

Após o aclamado álbum “A Feedelity Affair”, que havia compilado os
seus famosos máxis na Feedelity, Lindstrøm regressa agora com este
EP com três novas versões de "The Contemporary Fix". Incluindo
também a versão original do álbum, podemos encontrar aqui uma nova
versão feita pelo próprio Lindstrøm, uma remistura de Eye, membro
dos nipónicos Boredoms e a fechar uma genial reconstrução de Bjørn
Torske, um dos mais inovadores produtores noruegueses da
actualidade. Pela primeira vez os dois mais talentosos personagens
musicais noruegueses da actualidade juntos num só disco.
Imprescindível!
A capa do EP é da autoria do também genial Kim Hiorthøy.
(21-12-2007)
1.
The Contemporary Fix

2.
The Contemporary Fix (Serious Syntoms Version)

3.
The Contemporary Fix (Eye Remix)

4.
The Contemporary Fix (Bjørn Torske Remix)

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas

Lindstrøm
«It's a Feedelity Affair»
CD Smalltwon Supersound/Feedelity, € 16,50

Da fria Noruega
chega-nos um dos mais quentes álbuns deste final de ano. Ainda que
mais não seja do que uma recolha dos vários máxis que Hans-Peter
Lindstrøm editou entre 2003 e 2006, "It's a Feedelity Affair" é uma
colecção de peças essenciais da nova música electrónica actual.
(30-11-2006)
"A carreira de Lindstrøm disparou após uma série de máxis que só por
si deram início a um movimento que a imprensa viria a chamar de
“space disco”. É também sobejamente conhecido pelas suas misturas,
que incluem LCD Soundsystem, Roxy Music, Franz Ferdinand, Annie e o
artista da DFA Juan McLean. No ano passado Lindstrøm também editou
um álbum de parceria com o amigo DJ Prins Thomas, denominado
“Lindstrøm and Prins Thomas”, um disco editado na Eskimo Records e
enormemente aclamado pela crítica mundial. O seu tema mais
conhecido, “I Feel Space”, que saíu em 12” na Playhouse e na
Feedelity, já vendeu mais de 17.000 cópias em todo o mundo, um
número impressionante para uma edição em vinil. Agora chegou
finalmente a altura de compilar todos os seminais máxis de Lindstrøm
num só CD. O álbum inclui também ”The
Contemporary Fix”, um tema novo do 12” já divulgado por Pete
Tong e Annie Mac na BBC radio. No início de 2007 sairá também
um single/EP do álbum com uma remistura de EYE dos Boredoms."
Press Release da Smalltown Supersound
"Todos os movimentos têm o seu porta-estandarte. Lindstrøm é quem
carrega o do nu-disco, a reencarnação do disco-sound vestido de
poderes cósmicos e de fato espacial. O nu-disco, sobretudo o de
Lindstrøm, está algures entre a pista de dança e os limites do
espaço-tempo, é brilho, sombras e grooves que funcionam a nível
epidérmico. Isso e melodias que escorregam num elegante fio de
azeite que, apesar de algumas ameaças (perigosas em "I Feel Space")
nunca resvala para o kitsch inconsequente."
Isilda Sanches in Diário de Notícias
"O título remete para o nome da editora. Seria difícil produzir
ideia mais banal. Só que as aparências ainda enganam. Sobretudo
quando se trata de quem já revelou sagacidade no desempenho da
espinhosa tarefa de procurar uma saída para o impasse da estética de
dança." Ricardo Saló in
Expresso
"O norueguês, como qualquer amante de "disco" não resiste a um
efeito de sintetizador, a um arranjo de cordas faustoso ou a uma
percussão eloquente, mas aquilo que o distingue é a exacta medida
das proporções. As suas longas suites, quase sempre intrumentais,
são polidas e equilibradas. Os elementos digitais e acústicos
sucedem-se voluptuosamente, a instrumentação é orgânica, as texturas
luxuriantes e a acção rítmica pacificadora. Há um clima de suspensão
imutável, como se esperássemos por um clímax que nunca
acontece."
Vítor Belanciano in Público
1.
Fast & Delirious (retirado de Lindstrøm - Untitled Ep Feed000)

2.
Limitations (retirado de Lindstrøm - Untitled Ep Feed000)

3.
Music (In My Mind) (retirado de Lindstrøm And Christabelle - Music (In
My Mind) Feed001)

4.
Cane It For The Original Whities (retirado de Lindstrøm - There's A
Drink In My Bedroom And I Need A Hot Lady Ep Feed002)

5.
There's A Drink In My Bedroom And I Need A Hot Lady (retirado de
Lindstrøm - There's A Drink In My Bedroom And I Need A Hot Lady Ep
Feed002)

6.
Further Into The Future (retirado de Lindstrøm & Prins Thomas -
Further Into The Future Ep Feed003)

7.
I Feel Space (retirado de Lindstrøm - I Feel Space Feed004)

8.
Arp She Said (retirado de Six Cups Of Rebel - Arp She Said Feed005)

9.
Gentle As A Giant (retirado de Six Cups Of Rebel - Arp She Said
Feed005)

10.
Another Station (retirado de Lindstrøm - Another Station Feed006)

11.
The Contemporary Fix (retirado de Lindstrøm - The Contemporary Fix
Feed008)

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas

LJ Kruzer
«This Is How I Write»
CD Uncharted Audio, € 18,50

Steve Fisk arriscava-se
a ser um autor de hinos para o Verão (foi o que Fil OK dos Nag Nag
Nag disse do seu single “Miami Nooch”), mas “This Is How I Write”, o
álbum de estreia do heterónimo LJ Kruzer, mostra-nos que mesmo os
dias mais solarengos são compostos de sombras. Não porque contenha
algo de fantasmagórico, uma tentação da actual electrónica – o que
verificamos é que até os banhos de luz têm os seus matizes e que
tudo o que é iluminado desenha por trás a escuro o seu perfil. Não
fossem estas diferenças e tudo seria indistintamente branco, ou
seja, nada se veria . E o que é o Verão, afinal, senão a festa dos
sentidos? Pois o presente disco tem um largo leque de timbres e
cores sonoras, incluindo alguns instrumentos acústicos e samples de
outros (ouvimos piano, muito piano, mas também cravo, instrumento
medieval que não esperaríamos encontrar neste contexto, e sopros,
sempre uma garantia de calor) na sua lógica. As composições são
“soft” e melancólicas, mas não dispensam o “beat” e até alguma
confecção específica do techno. Por outro lado, há algo de
neoclássico nas atmosferas criadas, uma forma não muito óbvia de
conjugar ambiências oníricas numa criação digital. Em “Apporte”,
surge a voz de um pregador a afirmar que o pecado é a razão que
explica a existência da morte no mundo, ironia reforçada pelo facto
de Fisk ser filho de um pastor. Sustenta alguma crítica literária
que o uso da ironia é o que faz a boa literatura, e isso também pode
ser verdade para a música. Nesse capítulo, LJ Kruzer está bem
servido: numa recente entrevista, respondendo a uma pergunta sobre
que músicas gosta de ouvir, disse que nas suas preferênias estão
excluídas a pop, a ópera, o country “e tudo aquilo que se apresenta
como cool jazz”. Sabendo-se que muita da electrónica dominante
integra figurações do jazz devido precisamente à sua “coolness”,
aqui está uma das razões para o facto de o seu trabalho soar tão
diferente.
(26-01-2006)
1. This Is How I Write
2.
Black Bossa 
3.
Twinkula
4.
Parleyvoo
5. Bunker
6. Portune
7.
Noft
8. Apporte
|