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(02-03-2007)
1.
Amen I

2.
Amen II

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Origami
Replika
«Kommerz: Merzbow
in The Hands of Origami Replika»
CD Segerhuva, €
15,95

As fontes a que “Kommerz” vai beber são
nipónicas, e designadamente as fornecidas pelo Masami Akita do período
analógico (o subtítulo é “Merzbow in the Hands of Origami Replika”), mas
os ditos Origami Replika são de um país rival na produção de “noise
music”, a Noruega. E quem são eles? Lasse Marhaug, Tore H. Boe e Mads
Staff Jensen. As “réplicas” datam de 1997, mas o álbum só agora foi
editado, devido a vicissitudes várias. Pouco importa, pois os nove anos
entretanto decorridos não envelheceram o que aqui vem – de resto, com a
mesma impressão ficamos se ouvirmos o anterior “Kapotte Muziek in the
Hands of Origami Replika”. Atenção, o trabalho de reciclagem realizado não
foi feito com computadores, a principal ferramenta de Marhaug – é ele,
claramente, o mentor do projecto – na actualidade: a matéria-prima
fornecida por Merzbow estava contida em cassetes, discos de vinil e
compactos e foram “decks” de gravação, gira-discos e leitores de CDs o que
o trio nórdico utilizou, acrescentando-lhes minidiscs, dada a manipulação
imediatista proporcionada por estes, microfones, por exemplo para registar
a destruição de nove envólucros de cassetes editadas por Akita (afinal,
estamos em território nihilista Dada), e, claro, vários processadores de
sinal. Não sabemos se a voz feminina em êxtase de dor (é conhecido o
fascínio de Akita pelo S&M) aqui patente vinha já nos originais ou se foi
introduzida pelos OR, pois já não é possível encontrar as edições de
Merzbow utilizadas nestas faixas, mas uma coisa é certa: acrescenta um
nível de dramatização extra que o abstraccionismo do noise, por mais
encenado que seja, não conseguiria atingir por si mesmo. Arrepiante e
magnífico, atestando até que, afinal, há vida para além de Merzbow.
(14-07-2006)
1.
Untitled

2. Untitled
3. Untitled
4.
Untitled

5. Untitled
6. Untitled
7. Untitled
8. Untitled
9.
Untitled

10. Untitled
11. Untitled
12. Untitled
(16-03-2007)
1.
Comfy in Nautica

2.
Take Pills

3.
Bros

4.
Im Not

5.
Good Girl

6.
Carrots

7.
Search for Delicious

8. Ponytail

The
Paper Chase
«Now You Are One of Us»
CD Southern Records, €
17,50
Na capa vemos uma sala, com um
televisor no canto direito e virado para o aparelho, no esquerdo, um homem
nu da cintura para baixo, de costas, suspenso no ar. Mensagem possível: a
televisão esvaziou de tal modo o cérebro a este personagem que ele perdeu
peso e ganhou a propriedade de levitar, significando o rabo ao léu um
estado de demência sem retorno possível. Feita esta leitura, começamos a
ficar preocupados com o título, que diz que nós, os que ouvimos este álbum
dos Paper Chase, somos como eles, ou seja, revemo-nos todos nesta imagem
de despossessão das capacidades mentais. É sabido que os Estados Unidos (o
grupo reside em Dallas, no
Texas) têm das piores estações de TV do mundo (Portugal também está na
lista), pelo que se compreende. Quanto ao interior, uma boa surpresa:
eles, afinal, não são tão idiotas quanto querem aparentar (um dos temas
chama-se “The Kids Will Grow Up to Be Assholes”), fazendo um rock “indie”
de vocais desaustinados (fixem este nome: John Congleton), guitarras
abruptas, cordas de arco para uma dimensão quase orquestral e um piano (na
verdade dois - um deles Congleton outra vez –, mais outros teclados) que é
do melhor que temos ouvido neste contexto desde Jerry Lee Lewis,
curiosamente parecendo-se mais com algo que John Cage poderia ter feito do
que com os papéis definidos habitualmente para este instrumento pelo rock
‘n’ roll. Ora aqui está uma linguagem musical longe do esgotamento de que
tanto se tem falado, mesmo que para tal utilize elementos alienígenas. Um
grande disco, em suma, fresco como o vento no mar e desestabilizador como
uma casca de banana no passeio.
(15-09-2006)
1.
It's Out There and It's Gonna Get You 
2.
We Know Where You Sleep 
3.
Kids Will Grow Up to Be Assholes 
4.
Wait Until I Get My Hands on You 
5.
You Will Never Take Me Alive 
6.
Delivered in a Firm Unyielding Way Lingering for Just a Bit Too Long to

7.
Most Important Part of Your Body 
8.
What's So Amazing About Grace 
9.
You're One of Them Aren't You? 
10.
Song Will Eat Itself 
11.
...And All the Candy You Can Eat 
12.
All Manner of Pox or Canker 
13.
At the Other End of the Leash 
14.
We Will Make You One of Us 
15.
House Is Alive and the House Is Hungry 
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Partisans
«Max»
CD The Babel Label,
€ 15,95

E mais jazz bizarro
da Babel Label. Os Partisans anunciam a sua resistência logo no
nome do grupo e com este álbum homenageiam um nome cimeiro do jazz
afro-americano: Max Roach, o mais melódico dos bateristas. Fazem-no
com as suas próprias composições, mas também com base em partituras
de Charlie Parker (de resto, corre muito be bop por estes temas),
de, não se espantem, David Bowie, numa versão retro-avant de “John,
I’m Only Dancing” que inclui o órgão Hammond B3 de Jim Watson, e
ainda do guitarrista dos EUA Wayne Krantz, com quem já tocaram ao
vivo em Londres. As coordenadas vêm-lhes tanto de Sonny Rollins
e do primeiro período eléctrico de Miles Davis como do rei das seis
cordas do rock, Jimi Hendrix. Energético, mas de uma forma muito
“loose”, o formato saxofones (Julian Siegel, que também dobra em
clarinete baixo e cuica, o tambor brasileiro que geme como um instrumento
de sopro) – guitarra (Phil Robson) – contrabaixo (Thad Kelly) –
bateria (Gene Calderazzo) é por vezes complementado pelos convidados
Chris Batchelor (trompete), Thebe Lipere (percussão) e o já referido
Watson. A música é densa e particularmente agitada, mas os Partisans
não seguem propriamente a direito – os desvios vão-se sucedendo
e muitos dos conseguimentos de “Max” devem-se a isso. “Closing Light”,
por exemplo, é uma bem-vinda pausa, com a guitarra eléctrica e os
seus pedais em “panne” a ser substituída por uma acústica e um possante
sax tenor a centrar as atenções. Logo de seguida, porém, o motor
rítmico fornecido por Kelly e Calderazzo manda seguir viagem com
implacabilidade tipicamente rock. Curioso “cocktail”, este que nos
é oferecido, com Robson a hesitar entre o psicadelismo dos Cream
e as cores de Wes Montgomery e de Jim Hall e Siegel a dar conta
das influências recebidas de Wayne Shorter, o mais emblemático dos
sopradores do jazz-rock.
(20-01-2006)
1. Max
2. Z car
3. Partisans#2
4. The Eskaton
5. The Lacemakers
6. Last Chance
7. Some Of Those
8. John, I'm Only Dancing
9. Quarterlight
10. Wise Child

Paul
Wirkus
«Déformation Professionnelle»
CD Staubgold, € 15,95

Percussionista da área do free jazz
e da livre-improvisação e colaborador de nomes como Stefan Schneider (To Rococo
Rot), Johannes Frisch e Mikolai Trzaska (ambos do Kammerflimmer Kollektief), o
anterior álbum deste polaco residente em Colónia, “Inteletto d’Amore”, foi
celebrado como uma contribuição enriquecedora para a cena do “glitch” digital.
“Deformation Professionnelle” volta aos domínios da electrónica, e se bem que o
subgénero que é o “glitch” (termo que designa mais um processo – o equivalente
nos computadores, ou simplesmente no minidisc, às operações de corte e colagem
em fita da electrónica de Darmstadt – do que um estilo, de qualquer modo)
continue presente, as estruturas vêm da canção propriamente dita, o que só
reforça o carácter narrativo da música de Paul Wirkus. Talvez por essa razão, a
melodia tem um especial papel nestes temas, mas sem que tal mude de algum modo a
sua vocação para o abstraccionismo sonoro.
(29-09-2006)
1.
View Finder

2.
Kocham

3.
Valore Energetico

4.
Dogs After Flight

5.
Nie Kocham

6.
Exoten

7.
Déformation Professionnelle

8.
1964

9.
Erineru

10.
Terres Fortes


Pearls and Brass
«The Indian Tower»
CD Drag City, €
16,50

Que o rock dos nossos dias
reencontre as suas raízes em pequenas vilas do interior rural americano já
não constitui motivo de surpresa, pois é aí que elas estão, à mistura com
as raízes do trigo e do milho. Os Pearls and Brass são de Nazareth, na
Pennsylvania, e soam deliciosamente a “rednecks” e ao rock ‘n’ roll de
outros tempos. O que significa que voltam aos blues e aos fundamentos do
rock puro e duro, designadamente os do pré-metal. Se em versão acústica
nos lembramos inevitavelmente dos Led Zeppelin de “III”, com as guitarras
“plugged-in” vamos detectando as mesmas sonoridades que definiram o melhor
rock dos Sixties e dos Seventies (fazendo tábua rasa dos Eighties e dos
Nineties, anos de desvirtuação deste género musical). E não só o americano
como o europeu, mas se vocês “reconhecerem” os Black Sabbath nalgumas
passagens de “The Indian Tower”, ou até os Jethro Tull do início, saibam
desde já que esses grupos nunca lhes interessaram em especial.
Simplesmente, foram beber à mesma fonte que Randy Huth, Joel Winter e Josh
Martin escolheram agora para matar a sede. Nessa fonte banharam-se no
passado Cream (as colocações de voz de Huth remetem-nos mesmo para Jack
Bruce), Grand Funk Railroad, Yardbirds, Blue Cheer, Mountain e agora os
representantes do “novo” rock, como Melvins, Queens of the Stone Age,
White Stripes, Black Rebel Motorcycle Club e The Howling Hex. Distorção,
“feedback” e dissonância são os materiais com que lida este “power trio”,
e as letras, se são negras e algo místicas, têm mais a ver com a
religiosidade índia local do que com o “spleen” de Edgar Allan Poe ou de
Lovecraft. Este é um disco de revivalismo rock, e no entanto... nunca
psicadélicos, progressivos e “hard rockers” soaram como os Pearls and
Brass. E não é porque eles procedem a uma síntese das práticas anteriores,
mas por outra coisa. Provavelmente, o rock teve de ser testado para se
poder (re)descobrir a si mesmo desta maneira. E não há dúvida: isto é bom,
muito bom mesmo...
(03-03-2006)
1.
The Tower 
2.
No Stone 
3.
The Face Of God 
4.
Black Rock Man 
5.
The Mirror 
6.
I Learn The Hard Way 
7.
Pray For Sound 
8.
The Boy Of The Willow Tree 
9.
Wake In The Morning 
10.
Beneath The Earth 
11.
Away The Mirrors 
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Pelt
«Untitled»
CD Klang, € 16,50
Hoje em dia, quando se
fala em "drone music" fala-se inevitavelmente em electrónica.
Isso não é assim com o grupo formado por Jack Rose,
Mike Gangloff, Patrick Best e Mikel Dimmick: os "overtones"
dos Pelt são inteiramente fabricados com instrumentos acústicos
como a guitarra, o violoncelo, gongos, taças tibetanas, sruti
e esraj, inspirados nos usos orientais e no minimalismo do Theatre
of Eternal Music de La Monte Young, ele próprio um devoto
da música, da filosofia e da religiosidade indianas. Mas
não só: uma boa parte da personalidade deste agora
quarteto (Dimmick é o novo elemento) assenta sobre a "americana",
ou seja, a folk, o country e os blues dos Estados Unidos, entendidos
segundo um prisma transformador que respeita as raízes sem
as considerar um património inerte. Um exemplo disso é
a aplicação de técnicas não convencionais
no manejo da parafernália utilizada, o que é especialmente
evidente na forma como Rose trabalha as cordas. Para todos os efeitos,
o que os Pelt continuam a fazer neste "Untitled" - título
em sintonia com uma prática corrente na pintura -consiste
numa tentativa de reinvenção das tradições
a que vão beber, sob o signo da criatividade e da liberdade
expressiva. Quando se refere a existência de "drones"
(massas sonoras contínuas, parecendo não ter início,
meio ou fim), importa acrescentar que não se trata de estatismo
puro: do denso magma em questão irrompem "objectos"
(sons isolados) que captam a nossa atenção para logo
se dissiparem e darem lugar a outros pequenos eventos, de modo que
a diversidade é exaltada pela própria permanência
do mesmo. Os minimalistas originais entendiam o "drone"
como uma forma de alterar a consciência ou de contribuir para
a indução desta, conceito que, se decorreu da época
áurea da cultura da droga (os anos 1960) e do psicadelismo,
adopta hoje conotações que não têm necessariamente
a ver com o consumo de substâncias ilegais. A música
dos Pelt é hipnótica sem ser "druggy" (estamos
muito longe do "stoner rock") e convida à introspecção
sem nos dominar os sentidos. Pode ter uma vertente rural e até
naturalista, mas não é tribal nem hippie à
maneira dos Amon Duul, colectivo que hoje voltou a ter seguidores
- de resto, sabe-se como os hippies que ainda restam podem ser reaccionários.
É preciso desfazer o mito de que o abstraccionismo musical
está umbilicalmente ligado às "trips" de
LSD. Com os Pelt, a música é a própria "trip"...
(09-09-2005)
1. Untitled 1
2. Untitled 1
3. Untitled 3
4. Untitled 4

People
«People»
CD I+Ear, € 16,95
Alguém ficou realmente
surpreendido com a recente parceria do saxofonista "avantgarde"
Anthony Braxton com o grupo "noise" Wolf Eyes? Não
havia motivo para tal, sabendo-se que as últimas barreiras
existentes entre as linguagens musicais caíram por si próprias,
aliás sem qualquer estrondo. Simplesmente, aconteceu o que
tinha de acontecer. Temos nos People um bom exemplo. Mary Halvorson,
a guitarrista e vocalista, foi aluna do referido Braxton e participou
nalguns episódios do seu projecto Ghost Trance Music. Mais
recentemente, encontrámo-la numa tentativa, bem sucedida
aliás, de conciliação do jazz com o metal no
Trio Convulsant de Trevor Dunn, o baixista dos Fantômas e
antes dos Mr. Bungle. Kevin Shea, o baterista, pertenceu a um dos
mais bizarros grupos de rock de que há memória, os
Storm and Stress (até o nosso saudoso Fernando Magalhães
os achou "esquisitos"), e ao mesmo tempo afirmou-se como
percussionista nas novas tendências da improvisação,
juntando-se à trupe Crouton, a etiqueta que tem dado voz
ao mais radical experimentalismo americano que compõe na
altura de interpretar e que raras vezes faz soar uma nota, daquelas
que podemos assentar numa pauta segundo a escrita convencionada.
E o que fazem os People? Bom, canções rock, ainda
que dissonantes, desafinadas (a voz de Mary parece uma PJ Harvey
"on acid") e à beira do colapso, com uma rítmica
que hesita entre manter o tempo e desbundar. A bem dizer, trata-se
de pop, mas entre este álbum homónimo e a pop de Madonna
vai uma distância intransponível. Nem de helicóptero
lá chegamos. De resto, não nos lembramos de alguma
vez a "material girl" ter usado a palavra "motherfucker"
- Halvorson repete-a várias vezes. É pouco provável,
no entanto, que Al Gore, o paladino da censura na música
norte-americana, venha alguma vez a ouvi-la.
(09-09-2005)
1.
Likelihood of BANG
2. I
Just found ILL(i)N(o)ISs 
3. 1234567th
Month 
4. Before The Anhedoniac Clones collapsed Scopophiliacal Auratic
Traceability
5. The Story of Subjective Experience (Ethan Hawke, The Man of Men's
Men)
6. One New York Plaza Scattering Standard Forms (A Posthumous Conclusion)
7. Re-Tuning Champion (Identity is a Lack of Surprise)
8. Please Send Me a Refund
9. The townsfolk were agitated and perplexed. People looked stunned
by the expanse of the sky. With a blazing hell the ghosts of epiphanywreaked
a psychical extinction on their progeny. Prenatural insight plagued
the conglomerate. In the crebral winter, as despair evolved, negotiation
collapsed into a total destruction of peculiar properties. Smart
people talked to each other for the products of standard reactions.
Sameness peaked in a flash of aesthetic noumena. From satellite
images explosions resembled the round shaded foliage of architectural
blueprints. Hopeless analysts colored them green not giving a shit
about global ameriolation.
10. The Eternal Recurrence of Mark Ockenbock, A Man Devoted To The
Fantastic Real (Parable of Unforecast Choppy Hair)
11. remains
12. BREAKING NEWS PER NETIQUETTISH CYBERSCRIBER'S FALSE RELATIONSHIP
IN A BIG COUNTRY
13. Accessories Got Me To Where I Am (Hipsters Clearing The Good
Shit Out)
14. Complete
Flat Thoughts — Instants Elongate As Time Pulls And Stretches Flattening
Out Epiphanies Into Pancakes Whose Diameters Perpetually Revise
15. THE CYBORG ADULTERER TRAVELLED THROUGH A WORMHOLE
16.
the ending mistake
(16-03-2007)
1. The Iconoclast
2. Pandora's Box
3. Teatro
4. Chasin' Pirandello

Roedelius
«Works (1968-2005)»
2CD Groenland, €
30,50
Compilação de toda uma vida dedicada à
música, este “Works” tem o mérito de não ser o “best of” de Hans Joachim
Roedelius, mas um documentário sobre o que fez ao longo de quase quatro
décadas, incluindo registos dos tempos dos Kluster e dos Cluster, um dos
mais seminais grupos do chamado “krautrock”, que não é possível encontrar
noutras edições discográficas – caso, designadamente, de actuações ao vivo
no final da década de 1960 e ao longo dos anos 70. A mostra vai do
experimentalismo radical do colectivo que manteve com Dieter Moebius e
Conrad Plank até às suas mais recentes obras entre o “easy listening” e o
bizarro para piano, pelo meio deixando exemplos da sua electrónica de
acentuação rítmica ou carácter “espacial”. É a diversidade de Roedelius,
pois, que aqui está representada, podendo o “melhor” de um dos seus
investimentos ser menos valorizado por quem ouve do que outras das suas
realizações, dependendo do gosto e das predilecções de cada um. Ainda
assim, ele deu um rótulo a toda a sua produção musical: Roedeliusmuzik A
selecção, do próprio compositor e multi-instrumentista, é, pois, muito bem
pensada e dá-nos uma perspectiva bastante abrangente dos seus contributos
para o património cultural da humanidade – o que podemos dizer sem grande
exagero dado tratar-se de quem se trata. Encontram neste duplo álbum os
sincopados Harmonia (com Michael Rother, dos Neu!, a seu lado), exemplos
da colaboração que manteve com Brian Eno (lembram-se de “Before and After
Science”?), “freakouts” tendencialmente abstractos e simples, mas
eficazes, melodias em nome próprio, inspiradas em Bach e nas sonatas
clássicas. A música mais extrema que fez resultou de uma vida nada fácil:
passou em criança pelo terror nazi e pelo bombardeamento aliado, antes de
fazer 18 anos foi alistado compulsivamente pela volkspolizei da RDA (vivia
no lado Leste de Berlim), de que desertou fugindo para o parte ocidental
da cidade e, mais tarde, ao tentar visitar a família, foi preso pela
Stasi, a polícia política do regime comunista, sob a acusação de
espionagem. Daí a pouco formaria com Conrad Schnitzler um colectivo de
não-músicos, denominado Gerrausche (Barulhos), que colocou em prática uma
máxima de Joseph Beuys, o de que “qualquer um pode ser artista”, e o certo
é que se tornou definitivamente num, depois de ter sido massagista,
jardineiro e enfermeiro. Esse projecto equivalente aos Musica Elettronica
Viva e aos AMM só não consta da presente recolha porque, infelizmente,
nunca foi gravado. Já o seu duo de “art of noise” com o mesmo Schnitzler,
denominado Human Being, é lembrado nesta preciosidade lançada numa
magnífica, embora pouco prática, embalagem de cor prateada. Entretanto,
Roedelius já passou o marco dos 70 anos de idade e continua activo,
inventando novas estruturas no teclado do seu Bosendorfer.
(22-06-2006)
Disco 1:
1.
Harmonia – Monza, «Harmonia De Luxe», 1975

2.
Cluster – Hollywood, «Zuckerzeit», 1974

3.
Cluster & Eno – Ho Renomo, «Cluster & Eno» 1977

4. Harmonia – Dino, «Musik Von Harmonia», 1974
5. Roedelius – Human Being/Excerpt, «Live Im Zodiak», 1968
6. Roedelius – Regenmacher, «Durch Die Wueste», 1978
7. Cluster - Oh Odessa, «Cluster Curiosum», 1981
8. Roedelius – Digital Love, «Digital Love», 2002
9. Cluster - Excerpt, «Cluster 71»,1971
10. Lunz Live – Excerpt, from the MoreOhr Less Festival 2005
11. Roedelius – Poetry, «Pink Blue And Amber», 1996
12. Roedelius – Freudentanz, Wenn Der Suedwind Weht, 1981
13. Kluster – Klopfzeichen Excerpt, 1970
14. Roedelius - Amerika Recycled, 2004
15. Roedelius – Rue Fortune, «Jardin Au Fou», 1979
Disco 2:
1. Roedelius – Zerrissen Zwischen Illusionen, «Lieder Vom Steinfeld», 1998
2. Roedelius – Isleta, «Aquarello», 1998
3. Roedelius – By This Road, «Before & After Science», 1977
4. Cluster – Sowiesoso/excerpt, 1974
5. Roedelius – Twilighttide, «Tace», 1993
6. Roedelius – Einfach So, «Piano Piano», 1991
7. Lunz – Dew Climbs feat. Half Cousin, «Lunz-Reinterpretations», 2005
8. Roedelius – Imogen Remix by Imagine Imagine, «NOH1», 2005
9. Roedelius – Gewiss, «Sebstportait I», 1978
10. Cluster – Emmental, «Apropos Cluster», 1990
11. Kluster – Kluster & Eruption/Excerpt, 1971
12. Roedelius – Persistence Of Memory/Excerpt, 2002
13. Roedelius – Gefundene Zeit, «Gift Of The Moment», 1984
14. Roedelius – Voran, «Selbstporait VII», 1990
15. Roedelius – Blueblut, «Roedeliusweg», 2000
16. Roedelius – First Lesson, «Aqueous & Roedelius», 1997

Róisín Murphy
«Ruby Blue»
CD Echo, €16,95
Tudo na vida
funciona como uma fila de dominós a tombar, um após outro. Os Moloko,
grupo em que Róisín Murphy cantou, teve início quando esta tentou
engatar Mark Brydon num bar perguntando-lhe se ele gostava da sua
"sweater" justinha (sim, é mesmo por causa disso que o
primeiro álbum daquele projecto electro-pop se intitula "Do
You Like My Tight Sweater?" e o certo é que os dois acabaram
por casar, para mais tarde se separarem), e Matthew Herbert surge
neste "Ruby Blue", primeiro álbum a solo da dita, porque
este nome cimeiro da electrónica fez uns remixes da música dos Moloko.
E se a voz de Róisín surge sensual como sempre neste disco, a colaboração
com Herbert levou-a para territórios que nunca antes explorara,
ainda e sempre sob o signo da pop e da electrónica segundo o modelo
house, mas com uma encenação musical que lhe era totalmente inédita
e que por vezes parece até um jazz New Orleans digitalizado, com
um balanço swingante e situações composicionais pouco comuns, senão
mesmo bizarras. No início, estas canções não foram mais do que experiências
de sonorização dos mais diversos objectos - um simples bloco de
notas a bater num microfone, por exemplo, mas também despertadores,
capacetes, ventoinhas -, que o seu parceiro de ocasião (neste caso
no estúdio, que não na cama - pensamos nós, dado o seu casamento
feliz com a cantora Dani Siciliano) samplou de forma a obter aquilo
que ouvimos. Sem intencionalidade, antes aproveitando o acaso e
os acidentes, e sem grande trabalho de manipulação, convém que se
acrescente, tanto assim que muitas coisas foram mesmo gravadas ao
primeiro "take". Tematicamente, as letras celebram o verdadeiro
amor (ela ainda acredita em histórias de fadas) e lamentam o passado
de "one night stands" e perda de rumo. Esta reencontrada
candura de adolescente reflecte-se em "Night of the Dancing
Flame", que termina sob a forma de uma valsa. Não sem antes
ter passado pelo rugir de trompetes e a evocação de Josephine Baker
nos anos loucos de Paris...
(01-07-2005)
1.
Leaving the City 
2.
Sinking Feeling 
3.
Night of The Dancing Flame 
4.
Through Time 
5.
Sow Into You 
6.
Dear Diary 
7.
If We're in Love 
8.
Ramalama 
9.
Ruby Blue 
10.
Off On It 
11.
Prelude to Love in The Making 
12.
The Closing of The Doors 

RTX
«Western Xterminator»
CD Drag City, € 16,50

RTX são os Royal Trux sem Neil Hagerty, e isso
nota-se neste novo álbum, o segundo da fórmula. Mais “mainstream” do que alguma
vez foi e agora centrado em torno de Jennifer Herrema, o grupo surge-nos com o
formato do hard rock mais clássico, acusando mesmo semelhanças com Aerosmith ou
Van Halen! Não se deixem enganar pela faixa-título que abre o disco, um tema
psicadélico onde até se ouvem tambores à maneira dos Amon Duul, nem com a canção
de despedida, a quase “prog” “Rats Will Kill”, com sintetizadores e tudo – o
resto é um regresso às raízes “bluesy” do rock, com Herrema a reivindicar o
título de ídolo vocal feminina sobre uma base de guitarras à desfilada. Ídolo,
dissemos? Vão à net e leiam o que ela diz sobre as suas botas de pele de cobra e
as lojas onde compra a roupa. Voz e imagem: ela tem tudo o que precisa. Rock is
dead, long lives rock. (02-03-2007)
1. Western Xterminator
2. Balls To Pass

3. Black Bananas
4. Dude Love
5. Knightmare And Mane
6. WO WO Din
7. Money Will Roll Right In
8. Restoration Sleep
9. Last Ride
10. Rat Will Kill

RTX
«Speed To Roam»
MCD Drag City, €9,50
Depois de um álbum
que em 2004 marcou a transição da fórmula Royal
Trux para os actuais RTX, "Transmaniacon", eis que nos
chega um EP de confirmação da nova fase do grupo de
Neil Haggerty e Jennifer Herrema, mais pop, decididamente, mas com
o "punch" do rock de guitarras (Jaimo Welch e Haggerty
brilham e resplandecem em pequenos solos que condensam as longas
exibições guitarrísticas do psicadelismo dos
anos 1960/70) a prescindir das electrónicas anteriormente
utilizadas. A confirmação feita pelo palco, pois esta
edição integra versões "live" de
temas daquele CD. Punk e metal somam-se nas barragens de distorção
que envolvem os gritos e lamentos de Herrema, uma vocalista da melhor
linha Courtney Love, por vezes parecendo mesmo um Ozzy Osborne feminino.
Aliás, estes RTX são bem a súmula da história
do rock: ouvimo-los e pressentimos os fantasmas dos New York Dolls,
de T. Rex, dos Motley Crue, dos Dinosaur Jr., até dos mais
recentes Queens of the Stone Age ou de certas coisas de P.J. Harvey.
Os RTX são como que o cavalo de Tróia dos Royal Trux
numa nova realidade do rock em que encontramos Yeah Yeah Yeahs,
The Strokes ou White Stripes, uma realidade definida pelo retorno
do género à sua matriz "garage". Digamos
mesmo que são o elo que permite ao "novo" fundir-se
com o "clássico", ressuscitando uma música
que alguns garantiam estar moribunda - the good old rock and roll.
(24-03-2005)

Ryoji Ikeda
«Dataplex»
CD Raster-Noton, €
15,95

Lembram-se de quando se acusava de
“formalismo” a obra de arte que utilizava como título a sua própria
condição, como por exemplo o disco de uma formação instrumental eléctrica
intitular-se, precisamente, “Electric”? Pois esses tempos já lá vão, e
agora uma música que se faça com dados informáticos ou informatizados não
musicais pode receber o nome de “Dataplex”, e a série de que é o primeiro
tomo chamar-se “Datamatics”, não querendo isso significar mais nada senão
a tradução prática de um conceito. É o que se passa com o oitavo álbum de
um dos mais sólidos, desafiantes e assumidos conceptualistas da presente
electrónica, Ryoji Ikeda. O disco começa com a transposição para áudio, em
bruto, desses mesmos dados, e as frequências ouvidas vão ganhando
complexidade, estrutura e ritmo (um factor importantíssimo no trabalho
deste membro da troupe Dumb Type), ou seja, musicalidade, à medida que se
avança no percurso proposto, ainda que segundo os parâmetros minimais a
que nos habituou o japonês. No final, depois de súbitas erupções e de
buracos negros, voltamos aos sinais sonoros abstractos, com a
possibilidade de, dependendo do leitor de CDs que tivermos em casa, alguns
curiosos acidentes poderem ocorrer com o nosso aparelho, em caso algum o
deixando, no entanto, em perigo. É curioso, o que está implícito nesta
encenação da “panne”, transmitindo-nos a mensagem de que, mesmo em
construções rigorosamente matemáticas, mesmo em contexto de
implacabilidade tecnológica, o acaso, a disfunção, chamem-lhe o que
quiserem, é não só uma eventualidade mas algo que faz parte da mesma
lógica que rege o que nos parece mecânico e programado – pelo menos até
percebermos que não há nem caos nem determinismo no mundo dos dados, mas
apenas fluxo de zeros e uns, além ou aquém da ordem e da desordem.
Parece-vos tortuoso, este relato? Oiçam o novo Ikeda e verifiquem in loco
do que estamos a falar.
(07-07-2006)
1. Data.index
2.
Data.simplex

3. Data.duplex
4. Data.triplex
5. Data.multiplex
6. Data.complex
7. Data.hypercomplex
8. Data.googolplex
9.
Data.microhelix
10. Data.superhelix
11. Data.minimax
12.
Data.syntax
13. Data.telex
14. Data.flex
15. Data.reflex
16. Data.convex
17. Data.vertex
18. Data.vortex
19.
Data.matrix

20. Data.adaplex

Ryuichi Sakamoto
«Chasm»
CD KAB America, € 16,50

1.
Undercooled

2.
Coro

3.
War & Peace

4.
Chasm

5.
World Citizen - I Won't Be Disappointed/Looped Piano

6.
Only Love Can Conquer Hate

7.
Ngo/Bitmix
[New Balance CM Theme Song]

8.
Break With

9.
+Pantonal

10.
20 Msec.

11.
Laménto

12.
World Citizen/Re-Cycled

13.
Song

14.
Word

15.
Seven Samurai - Ending Theme

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Ryuichi Sakamoto
«Bricolages -
Chasm as Interpreted By: Alva Noto, C.Armstrong, Cornelius, Fennesz, etc.»
CD KAB America, €
16,50

Colecção de remisturas de nomes de primeiro
plano como Fennesz, Alva Noto, Taylor Dupree, Craig Armstrong, Cornelius e
Steve Jansen (dos extintos Japan), entre outros, do conteúdo do anterior
“Chasm”, já por si marcado pela estética digital, “Bricolages” leva
Ryuichi Sakamoto ainda mais para o interior do universo da electrónica.
Ele que começou precisamente por aí com a Yellow Magic Orchestra,
afastando-se para uma dedicação intermitente ao piano e uma especial
atenção às tradições populares de várias regiões do globo, numa vertente
do seu percurso que ficou conhecida como “neo-geo”, título de um dos seus
discos, e que teve ainda recentemente um novo episódio, com a
interpretação das canções de António Carlos Jobim em parceria com o casal
Morelenbaum*. Entre a experimentação, a pop, a “club music” e o
ambientalismo, este álbum ilustra uma vez mais um antigo propósito de
Sakamoto: “Deitar abaixo as barreiras entre géneros, categorias e
culturas.” Entregar os temas de “Chasm” a músicos tão distintos para que
dessem a sua própria perspectiva dos mesmos faz parte dessa estratégia e
pelo que ouvimos resulta plenamente. Aliás, já no disco que está na origem
deste que agora temos entre mãos o também actor procurou a companhia de
figuras que representam o passado (Haruomi Hosono e Yukihiro Takahashi,
dois antigos membros da YMO) e o presente (Ryoji Ikeda) da electrónica,
assim atestando que o seu objectivo é mesmo fechar o ciclo, completar o
presente com o que ele próprio fez há mais de 30 anos. As referências aí
encontradas relativamente a práticas actuais nesta área são muitas, indo
dos Oval a Raster-Noton, mas o certo é que “Bricolages” vai mais longe na
inserção da música de Sakamoto no fenómeno electro nascido à beira das
pistas de dança e por vezes até ocupando-as sem quaisquer preconceitos.
Influenciado, segundo ele mesmo, por Claude Debussy, John Cage e Steve
Reich, a principal característica da obra deste polifacetado artista é o
não reconhecimento de distinções entre alta cultura e cultura de rua.
Assim, se Cage seria incapaz de encher o Coliseu dos Recreios, Ryuichi
Sakamoto é, e enche.
*Entretanto, soubemos que o músico japonês anda especialmente interessado
em António Chainho, o mestre da guitarra portuguesa, podendo daí resultar
uma colaboração.
(22-06-2006)
1.
War & Peace (AOKI Takamasa Remix)

2.
Undercooled (Skuli Sverrisson Remix)
3.
War & Peace (Cornelius Remix)
4.
20 msec. (Fennesz Remix)
5.
Undercooled (Alva Noto remodel)
6.
World Citizen (Taylor Deupree Remix)
7.
Only Love Can Conquer Hate (snd. Remix)
8.
Seven Samurai (Richard Devine Remix)
9.
Word (Rob Da Bank & Mr. Dan Remix)
10.
20 msec. (Craig Armstrong Remix)
11.
NGO/bitmix (Slicker Remix)
12.
Break With (Steve Jansen Remix)
13.
Motopiate (Thomas Knak)

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Saint
Etienne
«Finisterre - A Film About London By P.Kelly and K.Evans»
DVD Plexifilm, €
23,95

Se pensa que vai encontrar
neste filme os “clips” ou um registo ao vivo do álbum com o mesmo título
deste grupo britânico baptizado segundo a equipa de futebol francesa que
já foi campeã da Europa, tire daí a ideia. O DVD “Finisterre” tem uma
total autonomia em relação ao disco da Mantra, a editora que ganhou fama
com discos de Natacha Atlas, Fun‘Da’mental, Prophets of Da City, Bim
Sherman, Six By Seven, Muki e Gorkys Zygotic Mynci. Se a música de Sarah
Cracknell e dos ex-jornalistas musicais Bob Stanley e Pete Wiggs é a que
se vai ouvindo ao longo do documentário, e se este é o resultado das
pessoais visões de Londres por parte dos três “electropoppers” (num
exemplo claro de como se vê uma cidade segundo a subjectividade de quem
olha, sendo esta no caso definida pela música), o projecto ganhou total
autonomia. A finisterra de que se fala é precisamente a capital inglesa,
arrancada do nevoeiro e revelada na sua contraditória diversidade. Os
realizadores, Paul Kelly e Kieran Evans, falam mesmo em “drama
psicogeográfico”: graffitis, sinalizações, avisos e posters dão vida às
paredes, inscrevendo estas com usos e memórias, e as imagens sobre os
telhados da metrópole revelam-nos numa mesma cena o que definha e morre
(as zonas degradadas dos subúrbios) e o que nasce ou se rejuvenesce (por
todo o lado vemos os guindastes da construção civil). E quando ficamos
fixados no geometrismo da arquitectura e nos vestígios da ocupação humana,
são pessoas mesmo o que o filme nos mostra: crianças e adultos em posições
estáticas, fixando a câmara como se à espera de algo. Os Saint Etienne
apresentam-se, assim, como o produto de uma realidade urbana específica
mas complexa, o que não deixa de ser curioso, dado serem originários de
Croydon, no Surrey. Surgidos sob influência da acid house dos anos 1980,
foram no início da década que se seguiu pioneiros de um híbrido que aliou
a electrónica de dança com a canção pop “indie”. “De um lado havia os
Stone Roses e os Happy Mondays e do outro S-Express e Bomb the Bass.
Pareceu-nos que podíamos misturar os dois mundos, e se nós não o
fizéssemos alguém acabaria por o fazer, pelo que seguimos em frente”,
lembra Stanley. Com o virar do milénio acrescentaram a vertente ambiental
que agora os define, acentuando ainda mais o carácter conceptual do seu
projecto, algo que só poderia vir da cabeça de dois críticos. Com uma
sonoridade “retro” sempre alusiva à “swinging London”, continuaram a
entender a música como festa, apesar de a terem levado das discotecas para
as “coffeehouses”. Flirtaram com o jazz e a música brasileira (quem não os
ouviu neste comprimento de onda, imagine Astrud Gilberto a cantar com os
Pizzicato Five), introduziram ritmos hip-hop e atreveram-se até a algum
experimentalismo. Entre outros materiais, “Finisterre” inclui como extras
sete percursos londrinos aconselhados pelos Saint Etienne e ensaios de Bob
Stanley, do escritor Michael Bracewell e dos jornalistas Pete Paphides,
Sukhdev Sandhu e Gail O’Hara sobre a urbe que já foi o epicentro de um
império e é hoje um exemplo de cosmopolitismo.
(24-03-2006)

The Salsoul Orchestra
«The Anthology»
2CD Suss'd Records, €19,95
Um bocadinho
de revisionismo não faz mal a ninguém neste compasso de espera pela
"next big thing". Enquanto aguarda pelos novos movimentos
desse ser vivo chamado música, dê uma escutadela a esta compilação
da que foi, certamente, a mais importante orquestra do "disco
sound" de meados da década de 1970 até ao início da seguinte.
Dirigida pelo vibrafonista de jazz Vincent Montana Jr. nos primeiros
anos (o primeiro CD é-lhe dedicado), a Salsoul Orchestra era a "orquestra
da casa" da Salsoul Records, e à semelhança do catálogo desta
associava funk, soul à maneira de Philadelphia (até nos violinos,
nada menos que 18) e ritmos latino-cubanos, sempre com as pistas
de dança na ideia. A importância deste projecto ultrapassou o período
da sua existência, pois influenciou a house e a electro-pop dos
80*, bem como algum techno que se lhe seguiu, estando a ser relembrado
pelo revivalismo da "club music" a que agora vamos assistindo.
Com o "tamanho certo" ("You're Just the Right Size")
e a "malandragem" ("Nice n' Naasty") como temas,
entre outros que versam o amor e o sexo, são notáveis os solos de
saxofone devedores a Maceo Parker e até o sintetizador Moog tem
um papel decisivo nos arranjos com a marca Montana, depois continuada
e adaptada pelos produtores Tom Moulton, Bunny Sigler, Patrick Adams
e Stan Lucas, tudo tresandando à banda sonora da série de filmes
"Shaft" e mais tarde ao euro-disco, este com um cunho
mais electrónico. Cantoras de primeiro plano na altura como Jocelyn
Brown, Loleatta Halloway, Charo ou Cognac colaboraram com esta formação
que chegou a ter 50 instrumentistas (seis na secção percussiva,
com especial presença das congas) e como não podia deixar de ser
surgem nas faixas mais interessantes desta compilação que mistura
versões originais com remisturas. Algumas das primeiras são autênticas
raridades, difíceis de encontrar noutras reedições, como "Salsoul
Hustle", "Alpha Centauri", "It's a New Day",
"I'll Keep You Warm" ou "Resorts International".
* Não por acaso, Vincent Montana colaborou com o conguero David
Morales, da Salsoul Orchestra, no "hit" "New York
City Boy" dos Pet Shop Boys.
(03-06-2005)

Sam
Prekop
«Who's Your New Professor?»
CD Thrill Jockey, €17,50
Os colaboradores
dos Sea and Cake continuam a ser os "convidados especiais"
de Sam Prekop a solo: Rob Mazurek, Josh Abrams, Chad Taylor e John
McEntire, figuras de relevo na cena de Chicago, surgem de novo neste
"Who's Your New Professor", e mesmo Archer Prewitt, co-fundador
daquele grupo com Prekop, está presente neste registo que podia
passar muito bem por mais um tomo da sua discografia. Ou quase,
pois trata-se de um álbum de canções e os Sea and Cake não resistiam
a enveredar por temas instrumentais - e isso apesar de "Magic
Step" ter sido totalmente entregue a uma inesperada combinação
de sintetizadores e guitarras acústicas. Como consequência do investimento
no "song writing", a voz soul do guitarrista e vocalista
que aqui reencontramos está mais em evidência, e se se mantém a
mesma presença de um falso jazz/bossa nova, tudo é agora muito mais
"funky". Até o carácter de "mood music" está
aqui mais saliente, embora com a elaboração própria de músicos que
não são propriamente os mais ortodoxos e, apesar de desenvolverem
actividade nos domínios da música popular, estão bem informados
quanto aos conseguimentos a que se chegou na música "culta"
contemporânea e nos sectores mais vanguardistas, que eles, de resto,
frequentam. Aliás, está por apurar o quanto o experimentalismo tem
influído na busca da "pop perfeita". Uma coisa é certa:
este disco é um dos tantos que ilustram tal esforço. Uma pop, evidentemente,
que não precisa de corresponder aos estereótipos do género para
o ser a corpo inteiro. "Chicago People", a quinta canção
do CD, é um bom exemplo disso, consistindo numa suite em miniatura
que evita a estrutura verso-refrão. A mudança da produção (Jim O'Rourke
no anterior "Sam Prekop") para as mãos de John McEntire,
dos Tortoise (um trabalho apresentado eufemisticamente como de gravação
e mistura), se diferenças trouxe foi no sentido de uma maior leveza.
As traves mestras, essas, continuam as mesmas há cinco anos anunciadas.
(01-07-2005)
1. Something
2. Magic Step
3. Dot Eye
4. Two Dedications
5. Chicago People
6. Little Bridges
7. A Splendid Hollow
8. C + F
9. Neighbor To Neighbor
10. Density
11. Between Outside
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