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O Yuki Conjugate
«The Euphoria of Disobedience»
CD O Yuki Conjugate, € 26,95


Estiveram 10 anos sem publicar qualquer novo álbum, e agora que o fazem, quando já se julgava “descontinuado” o projecto, as mudanças operadas no seio dos O Yuki Conjugate parecem ser muitas. Campeões do chamado “tribal ambient” (ambientalismo com elementos étnicos, rítmicos sobretudo), como se ouviu em “Peyote” com os seus rototoms, bongos, congas, tablas e demais percussão, converteram-se num hoje mais populacionado “dark ambient” (eles preferem designá-lo de “dirty ambient”, mesmo que o lado “dirty” não o seja muito), feito de “drones” electrónicos dispostos em camadas cujos peso e densidade parecem querer iludir em cada construção. E no entanto, num ponto deste “The Euphoria of Disobedience” em que os achávamos já apartados de uma abordagem que também Robin Storey (ex-Zoviet France, presentemente conhecido como Rapoon) deixou para trás, eis que ouvimos algo como “Where She Goes at Night”, o mais belo tema do conjunto, não muito distante do melhor que fez a dupla Musci / Venosta ou de um Paul DeMarinis: uma voz feminina aparentemente do hemisfério Sul do planeta (África?), tratada digitalmente com grande efeito. O que quer dizer que o corte com o passado não foi completo, o que reconfortará certamente aqueles que aderiram às propostas do colectivo formado por Andrew Hulme e Roger Horberry na década de 1980. Hulme não esteve propriamente parado durante este tempo, e além de tornar a colaborar com os A Small Good Thing em “Slim Westerns II” lançou alguns discos a solo, como por exemplo o muito “lounge” “The Pink and Purple World of Dishonesty”. Quanto a Horberry, virou-se para a música concreta e os “field recordings”, como se ouve em “Out and About”, sob a designação Alp. Alguns desses investimentos reflectem-se no que propõem nesta edição que tem a melhor capa do ano, com uma flor a surgir por detrás de um bloco transparente de resina.
(24-11-2006)

1. Noiseflaw
2. In Dreams, Perhaps
3. Slither
4. Binaryglow
5. Out Through The Skin
6. Tropospheric
7. Where She Goes At Night
8. Incomplete
9. Estuary
10. Sunlessglare
11. Dirty-roads

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O'Questrada
«EP»
CDEP Piajio, € 6,50

Universal e indescritível, a sua sonoridade ousa uma fusão única impregnada do espírito do fado, do ska, da pop, e de outras histórias que cruzam o seu caminho, esta trupe de 5 músicos, com os seus instrumentos base: a guitarra à portuguesa, a contrabacia, a guitarra rítmica, a voz e o acordeão, falam uma língua singular, energética e popular numa viagem sonora 99% acoustic style.

“ ... os O'QueStrada são mais que um novo projecto no panorama musical português. Desde logo se distinguem pela sua formação instrumental suigeneris totalmente acústica - uma guitarra portuguesa, uma viola dedilhada, um acordeão, uma contrabacia e voz – mas acima de tudo pelo universo caleidoscópico de estilos e linguagens musicais que apresentam, que ainda assim se consubstanciam numa identidade musical já muito assumida.
Com uma dramaturgia simples mas eficaz a estimular cumplicidades múltiplas entre músicos e público, tem na figura vocal feminina o elemento chave em todo o ambiente que o grupo consegue criar. De sorriso intenso e autêntico, a Miranda irradia energias boas aos músicos e a todos a quem toca com o seu olhar, contracenando em vários momentos com Zeto, o guitarrista e violinista que chama a si alguns dos momentos dramatica e vocalmente mais surpreendentes da performance. A todo este ambiente timbricamente muito rico juntam-se intérpretes carismáticos na Guitarra Portuguesa e na contrabacia. Lima explora o tradicional instrumento português de forma particularmente criativa, oscilando entre o uso da guitarra como uma Stratocaster do Pop Rock mais distorcido até à mais lírica das frases que evocam o fado. É contudo o baixo da contrabacia que estrutura musicalmente o alinhamento do grupo, pelo especial timbre e afinação que consegue de um instrumento feito de um simples pau, uma corda e uma bacia.
Intenso, poético, apaixonante, cúmplice, simples, original, surpreendente, a apetecer ouvir mais.”
Paulo Lameiro – musicólogo in http://samp.pt - SAMP - Sociedade Artística Musical dos Pousos Gerado em 2006/09/11

“ Os O`queStrada apresentaram uma agradável desconstrução dos cânones habituais da música, reinventando a canção. (…) Um excelente momento, em que públicos antagónicos se reuniram (…) sem preconceitos e sem ceder a separatismos”
In RockSound, edição portuguesa de Maio 2003

“(…) Em O’queStrada tudo é imprevisto. (…) O caminho de O’queStrada é feito de uma fusão musical sem limites, sem barreiras e sem horizontes castradores, de uma originalidade imparável. (…)
As rotas são diversas, as emoções são diferenciadas, a paixão suscitada é algo anormal tal a expressividade dramática, tal a imagem universal tingida pela música dos O`queStrada. Sim porque é de música que se fala. De uma expressão feita arte em evolução.”
In A Trompa, Rui Dinis (set.2004)

“ (….) A sua vitalidade é impressionante, a sua capacidade comunicativa também. Impressionantes são, também, a competências musicais, a versatilidade e a disponibilidade de cada um e do grupo. Populares e de grande qualidade.”
In revista Expresso – João Carneiro, 2006

Escute em www.oquestrada.com

 

Odd Nosdam
«Burner»
CD Anticon, € 17,50

Era ele o produtor dos cLOUDDEAD o responsável pelas "soundscapes" de carácter ambiental que se construíam por trás das vozes dos MC Why? e Dose One no surpreendente álbum homónimo daquele colectivo entretanto desfeito. É ele ainda, como este "Burner" confirma, o mais arrojado de quantos se propuseram renovar o hip-hop e tornar a dar a este a carga revolucionária que teve há umas décadas, quando ainda era uma música de rua e não um filão comercial com formato definitivamente estabelecido. E se o hip-hop experimental de Odd Nosdam transborda para outras áreas musicais, é porque nenhuma tipologia da música é hoje uma ilha. Reconhecemos nos "field recordings" urbanistas deste álbum algo dos Negativland e dos Tape-Beatles, o uso da electrónica tem tudo a ver com as actuais tendências do "drone" e do "looping" e mesmo o pop-rock mais sofisticado (o de uns My Bloody Valentine ou uns Slowdive, com as melodias a emergirem de um mar de distorção líquida) faz uma intervenção decisiva quando as paisagens lunares e os "beats" (desconjuntados) de dança dão lugar ao que parecem ser verdadeiras canções. Este hip-hop é psicadélico e absorveu a estética do noise, o que distingue Nosdam, por exemplo, dos Dalek, mais virados para as rimas, ainda que o ruído seja um ingrediente fundamental na colaboração destes com os alemães Faust. "Burner" tem alguns convidados de peso: Orvar Smárason, dos Múm, intervém em "Small Mr. Man Pants" com uma simples melódica, Mike Patton, dos Fantômas e ex-Mr. Bungle, vocaliza em "11th Avenue Freakout nº 2", e o canto de Jessica Bailiff é reconhecível em "Untitled Three", apesar dos "tratamentos" operados. Alguns dos cLOUDDEAD fazem uma perninha, como Dosh, Jel (Themselves), Josiah Wolff e Doug McDiarmid (Why?). E se alguém achar que isto já não é hip-hop, só acertou em metade da questão. O que aqui temos é meta-hip-hop subversivo, bem humorado mas com uma dose q.b. de perversidade, sonicamente saturado (à la Flying Saucer Attack), superproduzido ainda que "lo-fi", feito com uma atitude punk de não virtuosismo técnico e por vezes lembrando até Prince Paul.
(05-08-2005)

1. Untitled One
2. Refreshing Beverage
3. Choke
4. Small Mr Man Pants
5. Untitled Two
6. 11th Ave Freakout Pt 1
7. 11th Ave Freakout Pt 2
8. Clouded
9. Untitled Three
10. Gun
11. Upsetter
12. Flying Saucer Attack

 

Olaf Rupp/Tony Buck/Joe Williamson
«Weird Weapons»
CD Emanem, € 15,95


Era uma vez um alemão, um australiano e um canadiano. O primeiro foi crescendo na cena germânica da improvisação sem que ninguém verdadeiramente se apercebesse do que iria acontecer em consequência - o seu instrumento, aliás (a guitarra), não era habitual num meio tão normatizado em termos de práticas, usos e costumes. Não se trata de um seguidor de Derek Bailey, nem de uma lança da free music no território do rock como Caspar Brotzmann, nem da resposta alemã aos não-idiomáticos John Russell e Roger Smith. O australiano vinha com uma bagagem de prestígio, conquistado junto dos The Necks, grupo coqueluche das revistas de música que sempre procuram a "próxima novidade", no caso devido à estranha combinação que fazem da fórmula "piano jazz trio" com os preceitos do minimalismo. Num meio em que habitualmente ou se é uma coisa ou se é outra, surpreendeu que o baterista do país dos cangurus fosse tão bom a marcar tempos e a estabelecer métricas como a construir puzzles de texturas. O canadiano desconcertou por ser, talvez, o mais europeu dos contrabaixistas vindos dos States. Com o coração no free jazz e técnicas "clássicas", tem uma enorme tendência para a experimentação ao nível do fundamento mesmo do fazer musical: a manipulação do som. Ora, aconteceu que estes três rapazes, Olaf Rupp, Tony Buck e Joe Williamson de seus nomes respectivamente, se encontraram um belo dia na Alemanha e resolveram tocar juntos. O resultado é descrito por um deles, Tony, como "um grande e lento organismo feito de milhões de células irrequietas que trabalham em conjunto para compor o conjunto". Quer ele dizer com isto que eles são hiperactivos a tocar a um nível microscópico, mas que ao nível macro nada parece acontecer em termos de direccionalidade, precisamente o tipo de dualismo com que lida a chamada "música estática" iniciada por John Coltrane. O fio da meada é agora retomado num projecto totalmente acústico mas que depende de uma microfonia tão próxima dos instrumentos que parece estarmos colocados a dois palmos deles, isto para que não percamos nada dos tais liliputianos pormenores e que, ao mesmo tempo, tenhamos uma perspectiva global da coisa. Quando, no final do ano, se escolherem os melhores discos de música improvisada de 2005, este terá obrigatoriamente de constar entre eles.
(16-09-2005)

1. Naugahyde
2.
Spandex

 

Old Jerusalem
«Twice The Humbling Song»
CD Bor Land, €12,95

Old Jerusalem, ou melhor, Francisco Silva, é o Will Oldham português. De resto, assim se intitula uma canção deste contida em “Viva Last Blues”, pelo que um dos modelos perseguidos pelo jovem cantautor fica claro desde logo o início – o outro vem mais de trás no tempo e chama-se Nick Drake, perceptível na extrema delicadeza das suas composições. Como Oldham, Old Jerusalem pratica uma folk-country-pop (atenção: com umas pinceladas de electrónica aqui e ali, fazendo valer o adjectivo “alternativa”) de recorte intimista e anunciando o êxodo espiritual (pelo menos) em direcção ao campo a que cada vez mais vamos assistindo nas metrópoles ocidentais. Tudo, como já se percebeu, cantado em Inglês e buscando a matéria-prima à música popular americana, dado que o folk luso não é folk, mas folclore. Designa-se também este entendimento suave e despido de efeitos da canção como “slowcore”, um rótulo que serve, afinal, para menorizar a importância de todos os outros, dado que não é a componente folk e a componente pop que verdadeiramente importam, mas a acção abstractizante do seu relacionamento. O anterior disco de Francisco Silva, “April”, de 2003, foi considerado o melhor do ano em Portugal, mas “Twice the Humbling Sun” é mais maduro e especialmente bem conseguido, pelo que é de prever outros ecos além-fronteiras.
(06-05-2005)

 

120 Days
«120 Days + Bónus CD»
2CD Smalltown Supersound, € 16,50


Após uma enorme onda de críticas favoráveis na Noruega ao seu álbum de estreia, eis que finalmente os 120 Days chegam ao resto da Europa (e mundo), logo após vários espectáculos no Reino Unido. De modo a bonificar este disco de estreia já lançado no seu país de origem no final de 2006, a Smalltown Supersound oferece nesta edição um disco bónus com uma versão de "Sleepwalking" e três de "Come Out, Come Down, Fade Out, Be Gone".
Tendo assinado pela Vice nos Estados Unidos e pela Smalltown Supersound (Lindstrøm, Bjørn Torske, The Whitest Boy Alive) para o resto do mundo, os 120 Days têm vindo, ao longo do último ano, a criar uma enorme legião de fãs. O álbum chegou recentemente ao lugar cimeiro do Top Norueguês, e foi também nomeado para um Grammy no seu país natal, tendo ganho o prémio de Melhor Álbum do Ano e Melhor Novo Artista. Os 120 Days já foram também convidados para remisturar Bloc Party, Justice e Lindstrøm, e os pioneiros Underworld são grandes admiradores da sua obra.
E então de que trata exactamente a nova exportação da Noruega? Ao contrário dos seus compatriotas – que provêm de uma área semelhante – os 120 Days são uma proposta bem diferente. A sua música é feita a um nível proporções épicas. Formado por quatro amigos de Kristiansund (na costa noroeste da Noruega), os 120 Days mudaram-se em 2001 para Oslo à procura de inspiração e novas ideias. Ao contrário do que esperavam, tornou-se demasiado pesado a nível económico viver num apartamento nessa cidade, e assim compraram uma caravana, estacionaram-na numa rua e viveram e tocaram aí durante um ano. O resultado reflecte os tempos frios e difíceis que atravessaram em Oslo – música nascida de uma casa provisória, sem grandes luxos, na berma da estrada, num local gelado. Isso adicionado à admiração da banda por nomes como Neu!, Suicide e Spacemen 3 deu origem à criação deste novo género de rock/pop electrónico. Com também influências de alguns projectos dos anos 80 - saltam-nos à memória A Flock of Seagulls ou The Cure, os 120 Days vão, porém, muito mais longe, conjugando esse tipo de sons com uma vertente electrónica bem actual e uma postura inovadora. Tendo sido eleitos pelo NME como autores de um dos melhores concertos do festival SXSW de Março passado, os 120 Days atingiram um pico de popularidade no Reino Unido e no outro lado do Atlântico inesperado. Esperemos que se desloquem ao nosso país em breve…

(11
-05-2007)

1. Come Out, Come Down, Fade Out, Be Gone
2. Be Mine

3. C-musik

4. Sleepwalking

5. Get Away

6. Keep on Smiling

7. Lazy Eyes

8. Sleepless Nights

9. I've Lost My Vision


Bónus CD:
1. Sleepwalking (120 Days remix)
2. Come Out (T.A. Kaukolampi remix)
3. Come Out (Secret Machines rework)
4. Come Out (Mental Overdrive remix)

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One Self
«Children of Possibility»
CD Ninja Tune, € 18,95

1. Fear The Labor
2. Trying To Speak
3. Be Your Own
4. Temptation
5. Over Exposed
6. BlueBird
7. SD2
8. Paranoid
9. Hollow Human Beings
10. Cupid Smiling The Smile
11. Sunshine
12. Unfamiliar Places

 

OneTwo
«Item»
CDEP There, €11,50


"OneTwo são Claudia Brücken (Propaganda, Act) e Paul Humphreys (Orchestral Manoeuvres in the Dark), e se o que fizeram em "Another Language" com Andrew Poppy foi uma tentativa de adaptar o seu entendimento do formato canção ao despojamento da actualidade, este EP cruza a pop de sintetizadores da década de 80 do século passado com a techno digital tal como hoje a entendemos. Não se pense que a atmosfera "dark" e até sinistra de "The Nine Lives of Dr. Mabuse", dos Propaganda, é reproduzida em "Item": a nova pop pode ser triste, mas a onda depressiva está definitivamente ultrapassada, pelo que este regresso dos dois grandes nomes da música popular de há vinte anos se fica pela agridoce aura de mistério de "Cloud 9", faixa que conta com a adição de Martin Gore, dos Depeche Mode. O "beat" de "Sister", por exemplo, é o da presente música de dança, e algumas características do ambientalismo passam por "Signals", mas a abordagem geral continua a ser tipicamente anos 80. Quem apreciou este período vai sentir-se "em casa" - Bob Kraushaar, antigo colaborador dos Propaganda e dos Pet Shop Boys, encarregou-se de manter esse vínculo aos comandos da mesa de mistura.
(08-04-2005)

1. Sister
2. Cloud 9
3. Element of Truth
4. Signals
5. One and Only (Sister)

Artigos relacionados: Claudia Brücken+Andrew Poppy «Another Language» CD

 

OOIOO
«Gold & Green»
CD Thrill Jockey, € 18,50

OOIOO é o nome de um grupo japonês feminino, formado com base na nebulosa Boredoms (ah, bom!) e com o krautrock como fonte inspiradora. Com o apoio de uma mão-cheia de convidados, Yoshimi (P-We, baterista do grupo de Yamataka Eye e membro das Free Kitten de Kim Gordon, aqui surgindo como multi-instrumentista) , Hayano, Maki e Yoshico experimentam tudo o que é possível fazer com canções rock sem destruir os aspectos formais das mesmas. Instrumentos tradicionais da Ásia e de África como o koto, as tablas, o santoor ou o djembe fazem a sua aparição, mas a linha da frente é ocupada pelas guitarras eléctricas, com alguma electrónica e gira-discos à mistura e uma bateria que anuncia as direcções a tomar. Tocados com “punch”, mas também com um agudo sentido do pormenor e com bem-vindas respirações, de maneira que recebemos o próximo impacto sonoro como se fosse a primeira vez. Os ritmos são “funky”, regra geral, e o pendor tribalístico, tal como muito do rock alemão dos anos 1970 e a influência destes nos Boredoms mais recentes, mas é para a frente que as quatro nipónicas olham. Nunca, de facto, os Faust ou os Can tiveram este tipo de recorte, que é tão próprio do país do Sol Nascente quanto uma Kawasaki. O álbum saiu no Japão em 2000 e só agora no Ocidente, mas cinco anos não envelheceram esta música. Foi mesmo gravado antes de “Kila Kila Kila” (2003), apesar de parecer uma evolução desse outro disco, e se o dito tinha o free jazz como ponto de partida, há uma tónica “ambient” em “Gold & Green” que está na ordem do dia. Tudo isto, claro, com um embrulho pop, para aumentar a confusão.
(07-10-2005)

1. Moss Trumpeter
2. t<t< Tune
3.
Grow Sound Tree
4. Mountain Book
5. I'm a Song
6. Fossil
7. Ina #<@#
8. Unu
9. Idbi
10. #6##
11. Emeraldragonfly
12. Return to New!!!

 

Opsvik & Jennings
«Commuter Anthems»
CD Rune Grammofon, € 16,
50

O segundo álbum, e primeiro para a Rune Grammofon, deste duo formado pelo norueguês (residente em Nova Iorque) Eivind Opsvik e pelo norte-americano Aaron Jennings é uma verdadeira pérola da nova música feita nos Estados Unidos.

Opsvik começou a tocar percussão muito cedo, gradualmente mudando para a guitarra baixo e ao mesmo tempo explorando o seu gravador de 4 pistas. Em N. Iorque tem agora o seu próprio projecto Eivind Opsvik Overseas, fazendo também parte de uma leque de grupos vanguardistas daquela cidade como Kris Davis Quartet, David Binney's Out of Airplanes (com Bill Frisell), Tone Collector, Rocket Engine, UP, Hari Honzu e Ben Gerstein Collective. Recentemente fez uma gravação com Jacob Sacks no piano, Mat Maneri na viola e Paul Motian na bateria.

Aaron Jennings, guitarrista e entusiasta de software de Tulsa, Oklahoma, mudou-se também ele para Nova Iorque, onde deu início a vários projectos musicais. Ao longo da sua carreira tem vindo a concentrar-se no free jazz e na electrónica experimental, mas hoje em dia pode-se considerar que se move pelos meandros da música pop experimental. As suas energias concentram-se actualmente neste projecto, e numa banda onde participa com Opsvik, Hari Honzu, um quarteto instrumental que interpreta temas pop de três minutos inspirados por Ornette e com um leve sabor a punk(!)

Tal como muitas das edições da Rune Grammofon, também esta é difícil de categorizar. Ambos os músicos têm um passado jazz, mas essa é apenas uma pequena parte. Aqui influências folk e country dão uma característica rural, e um ambiente relaxado a toda a obra. Guitarras, concertinas, órgãos, banjos e várias técnicas de gravações e manipulações electrónicas criam uma história musical cinemática, originada por uma orquestra pop experimental de sonho.

"Ambient without wandering, sweet but not sickly, quirky yet never wacky, this is a beautifully paced piece of work." The Wire sobre o álbum anterior ”Fløyel Files”

"Fløyel Files places emphasis on lyricism, texture and mood. It's an intimate and introspective album, imbued with a stripped-down pop mystique." JazzTimes

”A delicate and enduring piece of work, each track shows new layers of complexity and intricacy and opens up new grounds.” The Milkfactory
(09-11-2007)

1. Last Country Village
2. Silverlake
3. Commuter Anthem
4. Wrong Place Right Time
5. Lorinda Sea
6. Port Authority
7. Ways
8. I'll Scrounge Along
9. Pendler
10. Apology/Goodbye

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Orange Juice
«The Glasgow School (Ed.Especial)»
CD Domino, € 21,95

E por falar em história, os escoceses Orange Juice têm alguma para contar e é isso que faz “The Glasgow School”, uma revisão das suas contribuições para a pop. Tanto assim que, como se vem dizendo e insistindo, não haveria uns Franz Ferdinand nem uns Belle and Sebastian, ou mesmo uns Mogwai e uns Jesus and Mary Chain, se não fosse o pioneirismo deste grupo que chegou a ser visto nos anos 1980 como os Velvet Underground britânicos. A presente compilação recolhe os primeiros quatro singles dos Sumo de Laranja e junta essas canções ao primeiro álbum da formação, “Ostrich Churchyard”, que só seria publicado tal como foi pensado e gravado originalmente em 1992 (em vez dele saiu uma versão mais comercial pela “major” Polydor, com o título “You Can’t Hide Your Love Forever”). E quando se fala de pop assinale-se, a quem não os conhece, que se trata de pop de guitarras a rasgar e de sincopação agitada, segundo o modelo “indie”, que não aquele a que os quiseram obrigar. A sua primeira influência foi o punk dos Sex Pistols, dos Buzzcocks e dos Subway Sect, mas o interesse de Edwyn Collins e dos seus companheiros pela música negra americana, tão grande quanto o seu desagrado relativamente ao blues-rock chegado dos Estados Unidos, levou-os a buscarem inspiração na soul e até no disco. A música dos Orange Juice é o resultado dessa mistura pouco óbvia que se tornou distintiva do “som Glasgow”. É importante não esquecer de onde este vem...
(21-10-2005)

1. Falling and Laughing
2. Moscow
3. Moscow Olympics
4. Blue Boy
5. Lovesick
6. Simply Thrilled Honey
7. Breakfast Time
8. Poor Old Soul (part one)
9. Poor Old Soul (part two)
10. Louise Louise
11. Three Cheers For Our Side
12. (To Put It In A) Nutshell
13. Satellite City
14. Consolation Prize
15. Holiday Hymn
16. Intuition Told Me (part one)
17. Intuition Told Me (part two)
18. Wan Light
19. Dying Day
20. Texas Fever
21. Tender Object
22. Blokes On 45
23. I Don't Care

 

Oranger
«New Comes and Goes»
CD Fargo,16,50


"Their guitar-driven power pop evokes bands like The Who and Cheap Trick without ever actually ripping them off, and that's a tall task." SPIN

1. Crooked In The Weird Of The Catacombs
2. New Comes And Goes
3. Sukiyaki
4. Garden Party For The Murder Pride
5. Outtatoch
6. RadioWave
7. Whacha Holden
8. Crones
9. Haeter
10. Flying Pretend
11. Light Machine
12. Target You By Feel
13. Come Back Tomorrow

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The Orb
«The Orb’s Adventures Beyond the Ultraworld – Deluxe Edition»
3CD Island, € 22,95

Reedição do primeiro título (e logo duplo!) dos The Orb, saído em 1991 e então referido como um “álbum techno para dançarinos cansados” pelo facto de se inspirar nas horas de “chill out”, a “deluxe edition” de “Adventures Beyond the Ultraworld” integra um terceiro CD com as John Peel Sessions registadas por este grupo que se deslocou das pistas de dança para as salas de estar, num composto de house, dub, ambientalismo e experimentação que antecedeu a actual Electrónica. De resto, o próprio carácter conceptual desta colecção de peças que procura contar uma história inaugurou uma forma diferente de ouvir o techno, já não funcionalizada para o movimento dos corpos. Muita baseada na utilização de samples, a obra agora remasterizada inclui muita “spoken word”, em várias línguas porque interessa mais a musicalidade das falas do que o seu significado, “found sounds” de índole vária, de materiais da natureza a outros de produção humana, e até citações de música clássica, como o coro e o violino solo de “Into the Fourth Dimension”. Já houve quem identificasse o que aqui vem com “Echoes”, o tema mais abstracto de “Meddle”, dos Pink Floyd, e até com “Vision Creation Newsun”, dos japoneses Boredoms, o que é um bom indicativo de que os avanços da música popular urbana passaram por este projecto de Alex Paterson que acabou por ser vencido nas próprias coordenadas que inventou pelos mais espertos Orbital e Underworld. Um documento imprescindível para quem quiser conhecer as origens daquilo que gosta.
(18-08-2006)

Disco 1:
1. Little Fluffy Clouds
2. Earth (Gaia)
3. Super Nova At The End Of The Universe
4. Back Side Of The Moon
5. Spanish Castles In Space

Disco 2:
1. Perpetual Dawn
2. Into The Fourth Dimension
3. Outlands
4. Star 6 & 7 8 9
5. A Huge Ever Growing Pulsating Brain That Rules From The Centre Of The Ultraworld

Disco 3:
1. Huge Ever Growing Pulsating Brain That Rules From The Centre Of The Ultraworld (John Peel Session from December 1989)
2. Perpetual Dawn - Ultrabass II
3. Little Fluffy Clouds (Cumulo Nimbus Mix by Pal Joey)
4. Back Side Of The Moon (Under Water Deep Space Mix by Steve Hillage)
5. Outlands (Fountains of Elisha Mix by Ready Made)
6. Huge Ever Growing Pulsating Brain That Rules From The Centre Of The Ultraworld (Aubrey Mix Mk 11 by Jimi Cauty & Dr Alex Paterson)
7. Spanish Castles In Space (Extended Youth Mix)

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Oren Ambarchi
«In The Pendulum's Embrace»
CD Touch, € 15,9
5

Oren Ambarchi prossegue as suas investigações do outro mundo com "In The Pendulum's Embrace", um irmão mais obscuro do disco de 2004 "Grapes from the Estate". Regressando aos consgrados estúdios BJB em Sydney, Ambarchi expande o alcance e a variedade da sua linguagem musical única, incorporando uma ainda mais ampla palete de instrumentos e sensibilidades. Apesar do uso da harmónica, das cordas, dos sinos, do piano, da percussão e das guitarras, é impressionante como o mundo criado é inconfundivelmente seu, existindo uma coesão da sua visão ao longo das três longas peças do álbum. Com este disco há ainda uma mais ténue coexistência entre a fragilidade e a densidade, onde sons leves como o ar se misturam com vibrações graves instensas e poderosas. Os convertidos já conhecem bem a euforia hipnótica da música de Ambarchi. Os recém-chegados pesquisarão intensamente as suas obras anteriores...
(12-10-2007)

"'There's almost a bluesy quality to Ambarchi's sound by this point: it's resolutely downbeat, yet never quite slips into the doom-laden, metallic sound he's recently immersed himself in. Instead, this is a music of meditative introspection, inhabiting dark corners. Very highly recommended." Boomkat

1. Fever A Warm Poison
2. Inamorata
3. Trailing Moss In Mystic Glow

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Organ Eye
«Organ Eye»
CD/LP Staubgold, € 15,95/€ 16,50


Nascidos pelo acaso e pela empatia aquando do seu encontro, os Organ Eye foram formados num concerto de David Maranha (Osso Exótico) e Minit (Jasmine Guffond & Torben Tilly), que teve lugar na Galeria Zé dos Bois em Lisboa no final de Fevereiro de 2005. Com a participação de Patrícia Machás (também dos Osso Exótico), o quarteto que actualmente faz parte dos Organ Eye estava completo, e em Março e Dezembro de 2006 gravaram o seu primeiro álbum de orignais.

Os dois temas que fazem parte deste trabalho reflectem igualmente as qualidades dos dois diferentes contribuintes: as melodias melancólicas fragmentadas em loops dos Minit, e os estudos electro-acústicos ritualísticos e hipnóticos de Maranha e Machás. Esta união forma uma retalho dinâmico de vibrações que se desfasam e realinham em melodias cíclicas convulsivas, enquanto um delicado violino misturado com sons drone resultam num pulsante ambiente sonoro. Ainda que possa parecer algo de uma natureza monótona, existe um enorme detalhe, e a repetição da audição revelará um ambiente e um mundo de vibrações minúsculas, harmonia, e noise. Por entre um ambiente geral sombrio e pesado surgem momentos sublimes de êxtase e serenidade.
Organ Eye - um foguete volátil de instensa mutação drone, fantasmas sónicos e feedback em suspensão à beira da implosão.

A versão em vinil é limitada a 250 exemplares com uma capa especial.
(18-05-2007)

1. Tema #1
2. Tema #2

 

Organum
«Amen»
CD Die Stadt, € 18,50


Antigo membro da Scratch Orchestra de Cornelius Cardew, colaborador de Steven Stapleton (Nurse With Wound), Christoph Heemann, Robert Hampson (Main), Jim O’Rourke, Michael Prime (Morphogenesis), Eddie Prévost (AMM), Andrew Chalk, Z’ev e The Haters, entre outros, David Jackman está por estes dias apostado em formular uma música sacra no domínio do “drone” pós-minimalista. Depois de “Sanctum”, e exactamente com a mesma instrumentação (órgão, piano, percussão metálica e um “sample” coral), chega-nos “Amen”. A composição não tem desenvolvimento e muito menos clímax, consistindo na repetição de um mesmo ciclo durante os 20 minutos de cada faixa. O órgão mantém uma muralha compacta de som, o piano pontua e a percussão comenta, surgindo o coro masculino a intervalos regulares, sempre com um “amen” que parece repercutir numa enorme catedral. Quem se perder no meio desta trama encantatória e não encontrar Deus pode ter a certeza de que nunca O verá.
(02-03-2007)

1. Amen I
2. Amen II

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Origami Replika
«Kommerz: Merzbow in The Hands of Origami Replika»
CD Segerhuva, € 15,95


As fontes a que “Kommerz” vai beber são nipónicas, e designadamente as fornecidas pelo Masami Akita do período analógico (o subtítulo é “Merzbow in the Hands of Origami Replika”), mas os ditos Origami Replika são de um país rival na produção de “noise music”, a Noruega. E quem são eles? Lasse Marhaug, Tore H. Boe e Mads Staff Jensen. As “réplicas” datam de 1997, mas o álbum só agora foi editado, devido a vicissitudes várias. Pouco importa, pois os nove anos entretanto decorridos não envelheceram o que aqui vem – de resto, com a mesma impressão ficamos se ouvirmos o anterior “Kapotte Muziek in the Hands of Origami Replika”. Atenção, o trabalho de reciclagem realizado não foi feito com computadores, a principal ferramenta de Marhaug – é ele, claramente, o mentor do projecto – na actualidade: a matéria-prima fornecida por Merzbow estava contida em cassetes, discos de vinil e compactos e foram “decks” de gravação, gira-discos e leitores de CDs o que o trio nórdico utilizou, acrescentando-lhes minidiscs, dada a manipulação imediatista proporcionada por estes, microfones, por exemplo para registar a destruição de nove envólucros de cassetes editadas por Akita (afinal, estamos em território nihilista Dada), e, claro, vários processadores de sinal. Não sabemos se a voz feminina em êxtase de dor (é conhecido o fascínio de Akita pelo S&M) aqui patente vinha já nos originais ou se foi introduzida pelos OR, pois já não é possível encontrar as edições de Merzbow utilizadas nestas faixas, mas uma coisa é certa: acrescenta um nível de dramatização extra que o abstraccionismo do noise, por mais encenado que seja, não conseguiria atingir por si mesmo. Arrepiante e magnífico, atestando até que, afinal, há vida para além de Merzbow.
(
14-07-2006)

1. Untitled
2. Untitled
3. Untitled
4. Untitled
5. Untitled
6. Untitled
7. Untitled
8. Untitled
9. Untitled
10. Untitled
11. Untitled
12. Untitled

 

Otomo Yoshihide’s New Jazz Quintet
«Live in Lisbon»
CD Clean Feed, € 16,95

Como nos disse Otomo certa vez, “não é o que se toca o que importa, mas como se toca”. Este “como” é tudo para o compositor, arranjador e improvisador japonês, tendo sido com naturalidade e respondendo às exigências dos próprios processos musicais que ele mudou de rumo na última década. Depois da sampladelia em “overdose” de informação e do grupo Ground Zero, no qual promoveu um rock “arty” de dimensão teatral, não muito distante em termos de “collage” do que fizeram antes Frank Zappa e John Zorn, tornou-se num patrono do minimalismo, reduzindo os materiais ao essencial. Quando veio a Portugal em 2004 para uma participação na edição desse ano do festival Jazz em Agosto, mostrou isso mesmo em dois concertos. Com o “turntablista” canadiano Martin Tétreault usou os seus gira-discos sem discos, manipulando apenas os “pickups” e as agulhas com superfícies de papel, borracha e metal, assim forjando uma noise music brutal com muito pouco. E com o seu New Jazz Quintet tocou com uma guitarra eléctrica não para frasear e para fazer acordes, mas para produzir “feedbacks” controlados. É o que ouvimos em “Live in Lisbon”, o registo desse memorável concerto e o último, aliás, desta formação antes de se converter num ensemble de oito instrumentistas e cantores e depois numa “big band” de 12 com o acrescento de músicos tradicionais e de electrónica. O “quê” deste Otomo Yoshihide New Jazz Quintet é o jazz, o “como” é bastante diferente de tudo aquilo que se abriga sob tal rótulo, e isso mesmo quando Otomo interpreta respeitosamente a música dos grandes nomes do género. Foi o que aconteceu com a integral de “Out to Lunch” de Eric Dolphy, numa versão com uma vertente exótica e ambiental que não se encontrava no original. Neste novo registo ao vivo com o saxofonista Mats Gustafsson como convidado especial voltam a constar “covers” de temas do jazz (destaque para “Song for Che” de Charlie Haden e para “Serene” de Dolphy, tendo ficado lamentavelmente de fora interpretações de Ornette Coleman - “Lonely Woman” - e de Charles Mingus – “Orange Was the Color of Her Dress, Then Blue Silk”) e até um vindo da produção pop de um músico experimental, “Eureka” de Jim O’Rourke. As execuções são surpreendentes, com destaque para as do saxofonista alto Tsugami Kenta, um discípulo no estilo de Paul Desmond e Lee Konitz, o já mencionado Gustafsson, aqui com o seu típico expressionismo muito mais controlado, e obviamente para o próprio Otomo Yoshihide, cujos “drones” de guitarra funcionam como pinceladas de vermelho numa tela em tons de azul.
(09-02-2007)

 
1. Song for Che (Charlie Haden) / Reducing Agent (Otomo Yoshihide)
2. Serene (Eric Dolphy)
3. Flutter (Otomo Yoshihide)
4. Eureka (Jim O'Rourke)

 

Pajo
«1968»
CD Drag City, € 16,50


Passou pelos Slint e pelos Zwan de Billy Corgan, colaborou com Will Oldham, Bonnie “Prince” Billy, Tortoise, Stereolab, Royal Trux e Matmos, conhecêmo-lo sob os nomes Papa M e Aerial M, e em todos esses casos ganhou fama de rebelde e não-alinhado, por não entender o rock, a pop ou a folk dos mesmos modos que o resto da humanidade. Nada de mais natural, pois, que David Pajo escolhesse para título de um disco seu um ano com um peso tão simbólico quanto 1968, aquele em que se dizia que sob as pedras da calçada está a areia da praia. Homem de causas, a que agora abraça é a busca da canção perfeita, mas o certo é que as suas canções não obedecem propriamente aos padrões instalados e incluem elementos que habitualmente não encontramos nesse tipo de estrutura musical. O seu trabalho já foi exclusivamente instrumental, o que mudou com “Papa M Sings”, mas esse “background” está bem presente em “1968”, com o próprio Pajo a tocar todos os instrumentos, acústicos, eléctricos e electrónicos, com a guitarra de caixa em primeiríssimo plano, e a utilizar o computador como ferramenta de composição e gravação. Outra deliciosa incongruência deste álbum é o facto de à sua sonoridade quase country não corresponderem letras rurais e campestres, mas sim uma imagética que deve muito ao cinema de terror e a David Lynch. Um exemplo: “They call me the foolish king of tormented men / But my foolishness has lifted me far beyond them.” Convencidos?
(18-08-2006)

1. Who's That Knocking
2. Foolish King
3. We Get Along, Mostly
4. Prescription Blues
5. Insomnia Song
6. Wrong Turn
7. Cyclone Eye
8. Walk Through the Dark
9. Let It Be Me
10. I've Just Resotred My Will to Live Again

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Pajo
«Pajo»
CD Domino, € 18,50

David Christian Pajo tem um currículo de fazer inveja: passou por Slint, Tortoise, Zwan (a banda falhada de Billy Corgan) e Papa M / Aerial M (ele mesmo sob peseudónimo com alguns convidados), mas só agora se atreveu a um primeiro álbum a solo sob o seu nome. Para dar nova vida ao chamado pós-rock? Erraram, se a vossa resposta foi um sim esperançado (ou receoso, caso o "género" musical em questão não vos tenha entusiasmado por aí além). Moveu-o o seu velho objectivo de transfigurar a pop? Também nada disso. O que encontramos neste álbum homónimo são canções folk acompanhadas à guitarra acústica sobre uma cama de paisagens sonoras computadorizadas. Uma contradição de termos? Pode ser que sim, mas oiçam como resulta bem. A tradição folk/country não sofre qualquer beliscadura, e as sinusoidais electrónicas poderiam ter sido congeminadas pela mente irrequieta de Fennesz, se este também adoptasse software barato. Ou seja, não há mistura, mas coexistência de parâmetros, o que é muito mais aliciante. Pode parecer, a dado ponto, que espreita a influência de Syd Barrett, ou que se trata de uma versão pós-moderna e algo irónica da dupla Simon & Garfunkel - poderíamos também apontar Bob Dylan, os Beatles, Buffalo Springfield, Brian Wilson dos Beach Boys e até Brian Eno -, mas esta voz, esta maneira de construir as canções com base na simplicidade e no inusitado, remetem-nos para um senhor chamado Elliott Smith, que infelizmente já não habita o mundo dos vivos. E se mencionar o nome de Smith vos sugerir que a melancolia é uma escolha estética, assinale-se que não é por aí que Pajo vai. Em "Mary of the Wild Moor" toda a gente morre, mas é caso único. Aliás, às tantas ouvimos nem mais nem menos do que os Simpsons, o que dá uma boa indicação do humor deste filho de Louisville, mesmo quando nos fala de amores perdidos e vidas desperdiçadas. Ainda assim, há em "Pajo" um elemento de nostalgia que diz muito a nós, portugueses, sempre saudosos do que não vivemos. E agora? Significará este disco o início de uma nova orientação por parte desta figura de culto? Irá Pajo abandonar o rock instrumental e mais ou menos experimentalista que tem sido a sua causa? Trata-se, este título, apenas de um intervalo? Sigam os próximos episódios. Tudo é possível...
(09-09-2005)

1. Oh No No
2. High Lonesome Moan
3. Ten More Days
4. Manson Twins
5. War Is Dead
6. Baby Please Come Home
7. Icicles
8. Mary of the Wild Moor 
9. Let Me Bleed
10. Francie

 

Panda Bear
«Person Pitch»
CD Paw Tracks, € 15,95

"Brian Wilson quis fazer de «SMiLE» uma elegia adolescente a Deus, mas durante 40 anos o divino manteve-se escondido, amaldiçoado. Panda Bear, um dos Animal collective, nunca fez declaração semelhante, mas é impossível ouvir «Person Pitch» e não pensar na analogia - com a diferença que o disco está aqui, agora, e nada tem de amaldiçoado. Tudo em «Person Pitch», álbum luminoso, álbum de uma serena e radiante espiritualidade , se baseia na voz humana (...)  «Person Pitch» é um vitral dos tempos modernos, é um vitral para todos nós, medievais de 2007." Mário Lopes in Ípsilon/Público 

"Aqui encontramos canções texturalmente ricas numa multidão de acontecimentos. Pérolas raras talhadas com cautela para evirtar erupções de som ou fossos de silêncio sugerindo padrões onde a repetição arrebata a cada novo ciclo. Um paraíso flutuante de sensações sugeridas, num disco de excepção para descobrir aos poucos." Nuno Galopim in 6ª/Diário de Notícias
(16-03-2007)

1. Comfy in Nautica
2. Take Pills

3. Bros

4. Im Not

5. Good Girl

6. Carrots

7. Search for Delicious

8. Ponytail

 

The Paper Chase
«Now You Are One of Us»
CD Southern Records, € 17,50

Na capa vemos uma sala, com um televisor no canto direito e virado para o aparelho, no esquerdo, um homem nu da cintura para baixo, de costas, suspenso no ar. Mensagem possível: a televisão esvaziou de tal modo o cérebro a este personagem que ele perdeu peso e ganhou a propriedade de levitar, significando o rabo ao léu um estado de demência sem retorno possível. Feita esta leitura, começamos a ficar preocupados com o título, que diz que nós, os que ouvimos este álbum dos Paper Chase, somos como eles, ou seja, revemo-nos todos nesta imagem de despossessão das capacidades mentais. É sabido que os Estados Unidos (o grupo reside em Dallas, no Texas) têm das piores estações de TV do mundo (Portugal também está na lista), pelo que se compreende. Quanto ao interior, uma boa surpresa: eles, afinal, não são tão idiotas quanto querem aparentar (um dos temas chama-se “The Kids Will Grow Up to Be Assholes”), fazendo um rock “indie” de vocais desaustinados (fixem este nome: John Congleton), guitarras abruptas, cordas de arco para uma dimensão quase orquestral e um piano (na verdade dois - um deles Congleton outra vez –, mais outros teclados) que é do melhor que temos ouvido neste contexto desde Jerry Lee Lewis, curiosamente parecendo-se mais com algo que John Cage poderia ter feito do que com os papéis definidos habitualmente para este instrumento pelo rock ‘n’ roll. Ora aqui está uma linguagem musical longe do esgotamento de que tanto se tem falado, mesmo que para tal utilize elementos alienígenas. Um grande disco, em suma, fresco como o vento no mar e desestabilizador como uma casca de banana no passeio.
(15-09-2006)

1. It's Out There and It's Gonna Get You
2. We Know Where You Sleep
3. Kids Will Grow Up to Be Assholes
4. Wait Until I Get My Hands on You
5. You Will Never Take Me Alive
6. Delivered in a Firm Unyielding Way Lingering for Just a Bit Too Long to
7. Most Important Part of Your Body
8. What's So Amazing About Grace
9. You're One of Them Aren't You?
10. Song Will Eat Itself
11. ...And All the Candy You Can Eat
12. All Manner of Pox or Canker
13. At the Other End of the Leash
14. We Will Make You One of Us
15. House Is Alive and the House Is Hungry

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Partisans
«Max»
CD The Babel Label, € 15,95


E mais jazz bizarro da Babel Label. Os Partisans anunciam a sua resistência logo no nome do grupo e com este álbum homenageiam um nome cimeiro do jazz afro-americano: Max Roach, o mais melódico dos bateristas. Fazem-no com as suas próprias composições, mas também com base em partituras de Charlie Parker (de resto, corre muito be bop por estes temas), de, não se espantem, David Bowie, numa versão retro-avant de “John, I’m Only Dancing” que inclui o órgão Hammond B3 de Jim Watson, e ainda do guitarrista dos EUA Wayne Krantz, com quem já tocaram ao vivo em Londres. As coordenadas vêm-lhes tanto de Sonny Rollins e do primeiro período eléctrico de Miles Davis como do rei das seis cordas do rock, Jimi Hendrix. Energético, mas de uma forma muito “loose”, o formato saxofones (Julian Siegel, que também dobra em clarinete baixo e cuica, o tambor brasileiro que geme como um instrumento de sopro) – guitarra (Phil Robson) – contrabaixo (Thad Kelly) – bateria (Gene Calderazzo) é por vezes complementado pelos convidados Chris Batchelor (trompete), Thebe Lipere (percussão) e o já referido Watson. A música é densa e particularmente agitada, mas os Partisans não seguem propriamente a direito – os desvios vão-se sucedendo e muitos dos conseguimentos de “Max” devem-se a isso. “Closing Light”, por exemplo, é uma bem-vinda pausa, com a guitarra eléctrica e os seus pedais em “panne” a ser substituída por uma acústica e um possante sax tenor a centrar as atenções. Logo de seguida, porém, o motor rítmico fornecido por Kelly e Calderazzo manda seguir viagem com implacabilidade tipicamente rock. Curioso “cocktail”, este que nos é oferecido, com Robson a hesitar entre o psicadelismo dos Cream e as cores de Wes Montgomery e de Jim Hall e Siegel a dar conta das influências recebidas de Wayne Shorter, o mais emblemático dos sopradores do jazz-rock.
(20-01-2006)

1. Max 
2. Z car
3. Partisans#2
4. The Eskaton
5. The Lacemakers
6. Last Chance
7. Some Of Those
8. John, I'm Only Dancing 
9. Quarterlight
10. Wise Child

 

Paul Wirkus
«Déformation Professionnelle»
CD Staubgold, € 15,95


Percussionista da área do free jazz e da livre-improvisação e colaborador de nomes como Stefan Schneider (To Rococo Rot), Johannes Frisch e Mikolai Trzaska (ambos do Kammerflimmer Kollektief), o anterior álbum deste polaco residente em Colónia, “Inteletto d’Amore”, foi celebrado como uma contribuição enriquecedora para a cena do “glitch” digital. “Deformation Professionnelle” volta aos domínios da electrónica, e se bem que o subgénero que é o “glitch” (termo que designa mais um processo – o equivalente nos computadores, ou simplesmente no minidisc, às operações de corte e colagem em fita da electrónica de Darmstadt – do que um estilo, de qualquer modo) continue presente, as estruturas vêm da canção propriamente dita, o que só reforça o carácter narrativo da música de Paul Wirkus. Talvez por essa razão, a melodia tem um especial papel nestes temas, mas sem que tal mude de algum modo a sua vocação para o abstraccionismo sonoro.
(29-09-2006)

1. View Finder
2. Kocham
3. Valore Energetico
4. Dogs After Flight
5. Nie Kocham
6. Exoten
7. Déformation Professionnelle
8. 1964
9. Erineru
10. Terres Fortes

 

Pearls and Brass
«The Indian Tower»
CD Drag City, € 16,50


Que o rock dos nossos dias reencontre as suas raízes em pequenas vilas do interior rural americano já não constitui motivo de surpresa, pois é aí que elas estão, à mistura com as raízes do trigo e do milho. Os Pearls and Brass são de Nazareth, na Pennsylvania, e soam deliciosamente a “rednecks” e ao rock ‘n’ roll de outros tempos. O que significa que voltam aos blues e aos fundamentos do rock puro e duro, designadamente os do pré-metal. Se em versão acústica nos lembramos inevitavelmente dos Led Zeppelin de “III”, com as guitarras “plugged-in” vamos detectando as mesmas sonoridades que definiram o melhor rock dos Sixties e dos Seventies (fazendo tábua rasa dos Eighties e dos Nineties, anos de desvirtuação deste género musical). E não só o americano como o europeu, mas se vocês “reconhecerem” os Black Sabbath nalgumas passagens de “The Indian Tower”, ou até os Jethro Tull do início, saibam desde já que esses grupos nunca lhes interessaram em especial. Simplesmente, foram beber à mesma fonte que Randy Huth, Joel Winter e Josh Martin escolheram agora para matar a sede. Nessa fonte banharam-se no passado Cream (as colocações de voz de Huth remetem-nos mesmo para Jack Bruce), Grand Funk Railroad, Yardbirds, Blue Cheer, Mountain e agora os representantes do “novo” rock, como Melvins, Queens of the Stone Age, White Stripes, Black Rebel Motorcycle Club e The Howling Hex. Distorção, “feedback” e dissonância são os materiais com que lida este “power trio”, e as letras, se são negras e algo místicas, têm mais a ver com a religiosidade índia local do que com o “spleen” de Edgar Allan Poe ou de Lovecraft. Este é um disco de revivalismo rock, e no entanto... nunca psicadélicos, progressivos e “hard rockers” soaram como os Pearls and Brass. E não é porque eles procedem a uma síntese das práticas anteriores, mas por outra coisa. Provavelmente, o rock teve de ser testado para se poder (re)descobrir a si mesmo desta maneira. E não há dúvida: isto é bom, muito bom mesmo...
(
03-03-2006)

1. The Tower
2. No Stone
3. The Face Of God
4. Black Rock Man
5. The Mirror
6. I Learn The Hard Way
7. Pray For Sound
8. The Boy Of The Willow Tree
9. Wake In The Morning
10. Beneath The Earth
11. Away The Mirrors

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Pelt
«Untitled»
CD Klang, € 16,50

Hoje em dia, quando se fala em "drone music" fala-se inevitavelmente em electrónica. Isso não é assim com o grupo formado por Jack Rose, Mike Gangloff, Patrick Best e Mikel Dimmick: os "overtones" dos Pelt são inteiramente fabricados com instrumentos acústicos como a guitarra, o violoncelo, gongos, taças tibetanas, sruti e esraj, inspirados nos usos orientais e no minimalismo do Theatre of Eternal Music de La Monte Young, ele próprio um devoto da música, da filosofia e da religiosidade indianas. Mas não só: uma boa parte da personalidade deste agora quarteto (Dimmick é o novo elemento) assenta sobre a "americana", ou seja, a folk, o country e os blues dos Estados Unidos, entendidos segundo um prisma transformador que respeita as raízes sem as considerar um património inerte. Um exemplo disso é a aplicação de técnicas não convencionais no manejo da parafernália utilizada, o que é especialmente evidente na forma como Rose trabalha as cordas. Para todos os efeitos, o que os Pelt continuam a fazer neste "Untitled" - título em sintonia com uma prática corrente na pintura -consiste numa tentativa de reinvenção das tradições a que vão beber, sob o signo da criatividade e da liberdade expressiva. Quando se refere a existência de "drones" (massas sonoras contínuas, parecendo não ter início, meio ou fim), importa acrescentar que não se trata de estatismo puro: do denso magma em questão irrompem "objectos" (sons isolados) que captam a nossa atenção para logo se dissiparem e darem lugar a outros pequenos eventos, de modo que a diversidade é exaltada pela própria permanência do mesmo. Os minimalistas originais entendiam o "drone" como uma forma de alterar a consciência ou de contribuir para a indução desta, conceito que, se decorreu da época áurea da cultura da droga (os anos 1960) e do psicadelismo, adopta hoje conotações que não têm necessariamente a ver com o consumo de substâncias ilegais. A música dos Pelt é hipnótica sem ser "druggy" (estamos muito longe do "stoner rock") e convida à introspecção sem nos dominar os sentidos. Pode ter uma vertente rural e até naturalista, mas não é tribal nem hippie à maneira dos Amon Duul, colectivo que hoje voltou a ter seguidores - de resto, sabe-se como os hippies que ainda restam podem ser reaccionários. É preciso desfazer o mito de que o abstraccionismo musical está umbilicalmente ligado às "trips" de LSD. Com os Pelt, a música é a própria "trip"...
(09-09-2005)

1. Untitled 1
2. Untitled 1
3. Untitled 3
4. Untitled 4

 

People
«People»
 CD I+Ear, € 16,95

Alguém ficou realmente surpreendido com a recente parceria do saxofonista "avantgarde" Anthony Braxton com o grupo "noise" Wolf Eyes? Não havia motivo para tal, sabendo-se que as últimas barreiras existentes entre as linguagens musicais caíram por si próprias, aliás sem qualquer estrondo. Simplesmente, aconteceu o que tinha de acontecer. Temos nos People um bom exemplo. Mary Halvorson, a guitarrista e vocalista, foi aluna do referido Braxton e participou nalguns episódios do seu projecto Ghost Trance Music. Mais recentemente, encontrámo-la numa tentativa, bem sucedida aliás, de conciliação do jazz com o metal no Trio Convulsant de Trevor Dunn, o baixista dos Fantômas e antes dos Mr. Bungle. Kevin Shea, o baterista, pertenceu a um dos mais bizarros grupos de rock de que há memória, os Storm and Stress (até o nosso saudoso Fernando Magalhães os achou "esquisitos"), e ao mesmo tempo afirmou-se como percussionista nas novas tendências da improvisação, juntando-se à trupe Crouton, a etiqueta que tem dado voz ao mais radical experimentalismo americano que compõe na altura de interpretar e que raras vezes faz soar uma nota, daquelas que podemos assentar numa pauta segundo a escrita convencionada. E o que fazem os People? Bom, canções rock, ainda que dissonantes, desafinadas (a voz de Mary parece uma PJ Harvey "on acid") e à beira do colapso, com uma rítmica que hesita entre manter o tempo e desbundar. A bem dizer, trata-se de pop, mas entre este álbum homónimo e a pop de Madonna vai uma distância intransponível. Nem de helicóptero lá chegamos. De resto, não nos lembramos de alguma vez a "material girl" ter usado a palavra "motherfucker" - Halvorson repete-a várias vezes. É pouco provável, no entanto, que Al Gore, o paladino da censura na música norte-americana, venha alguma vez a ouvi-la.
(09-09-2005)

1. Likelihood of BANG
2. I Just found ILL(i)N(o)ISs
3. 1234567th Month
4. Before The Anhedoniac Clones collapsed Scopophiliacal Auratic Traceability
5. The Story of Subjective Experience (Ethan Hawke, The Man of Men's Men)
6. One New York Plaza Scattering Standard Forms (A Posthumous Conclusion)
7. Re-Tuning Champion (Identity is a Lack of Surprise)
8. Please Send Me a Refund
9. The townsfolk were agitated and perplexed. People looked stunned by the expanse of the sky. With a blazing hell the ghosts of epiphanywreaked a psychical extinction on their progeny. Prenatural insight plagued the conglomerate. In the crebral winter, as despair evolved, negotiation collapsed into a total destruction of peculiar properties. Smart people talked to each other for the products of standard reactions. Sameness peaked in a flash of aesthetic noumena. From satellite images explosions resembled the round shaded foliage of architectural blueprints. Hopeless analysts colored them green not giving a shit about global ameriolation.
10. The Eternal Recurrence of Mark Ockenbock, A Man Devoted To The Fantastic Real (Parable of Unforecast Choppy Hair)
11. remains
12. BREAKING NEWS PER NETIQUETTISH CYBERSCRIBER'S FALSE RELATIONSHIP IN A BIG COUNTRY
13. Accessories Got Me To Where I Am (Hipsters Clearing The Good Shit Out)
14. Complete Flat Thoughts — Instants Elongate As Time Pulls And Stretches Flattening Out Epiphanies Into Pancakes Whose Diameters Perpetually Revise
15. THE CYBORG ADULTERER TRAVELLED THROUGH A WORMHOLE
16.
the ending mistake

 

Pere Ubu
«Why I Remix Women»
CD Glitterhouse Records, € 16,50


Quando assim acontece, é inevitável que aconteçam discussões sobre qual dos discos é o melhor, o original ou o das remisturas. “Why I Remix Women” é o álbum de “remixes” de “Why I Hate Women”, e pela nossa parte preferimos entendê-los como trabalhos completamente diferentes. São quatro os remisturadores: três são membros dos Pere Ubu, Keith Moliné, Michele Temple e David Thomas, o outro é o técnico de som do grupo, Dids. Tudo em família, portanto, mas nem por isso houve problemas de falta de “distanciamento crítico”. Em “Moon, I’m Coming Home”, talvez a faixa de maior impacto, Moliné faz uma espécie de prog dodecafónico, o que não é coisa que se oiça muito. “Light It Up” é uma manta de retalhos, embora não pareça: o baixo vem de “Mona”, o sintetizador de “Love Song”, a bateria e a guitarra de “Texas Overture”, a voz de “Caroleen”. Tudo junto resultou numa nova música, “shaken but not beaten”, como James Bond prefere os seus “cocktails”. “I See You” foi concebido por Temple como um “encontro romântico num bar Wild West interestelar aberto à clientela num buraco negro próximo de Vénus”, e só pela descrição apetece ouvir. Thomas, o “boss”, assinou “Big Fuzz” com o exclusivo propósito de escandalizar Keith Moliné, mas pelo que testemunhamos só o terá assustado a ele. “Blue Gagarin”, de Dids, é segundo o próprio um híbrido de pós-rock e “sub-ambient”. David Thomas cantava em “Synth Farm”, “Honey, I’m a goin’ forward / And the future’s reversin’ back”, querendo com estes dois versos dizer que vai contra a maré. O “mainstream”, que ele diz representar, vai avançando, a vanguarda é que anda às arrecuas. Este disco não segue as modas e os costumes, é sim a expressão de um entendimento do rock que continua a ser criativo, tantas décadas depois.
(15-12-2006)

1. Moon, I'm Coming Home - Remix by Keith Moliné
2. Blue V Woman - Remix by Michele Temple
3. My Eyes My Lovely - Remix by Gagarin
4. Big Fuzz (Bass & Drums) - Alt. mix by David Thomas
5. I See You - Remix by Michele Temple
6. Dust And Dogs - Remix by Keith Moliné
7. Texan Farewell - Remix by Keith Moliné
8. Blue Gagarin - Remix by Gagarin
9. Light It Up - Remix by Keith Moliné

 

Pere Ubu
«Why I Hate Women»
CD Glitterhouse, € 16,50


Um título de choque para um disco sólido, com o selo de garantia Pere Ubu. Poeta, cantor, autor de canções com a fama de representar o pós-punk antes mesmo de o punk existir, isto no tempo dos Rocket From the Tombs, o seu primeiro grupo no início da década de 1970, nem pensem em falar a David Thomas das suas relações directas ou indirectas com essa frente musical ou com o que lhe sucedeu evidenciando essa marca – ele vai dizer-vos que se trata de um produto de adolescentes atrasados mentais. E no entanto, é inevitável que se faça essa contextualização, e mais uma vez com este regresso só aparentemente misógino, pois o que está de facto em causa é outra coisa, aquilo a que chamamos “dor de corno” e que não tem que ver apenas com o que sentimos quando elas vão com outros. Não precisam de ir: basta vermo-nos no reflexo dos seus olhos e perceber que o mundo delas não somos nós, homens. Thomas sempre foi conhecido pela crueza com que trata sons e palavras, e “Why I Hate Women” não foge à regra. Não se trata de incomodar os burgueses ou de fazer “marketing” de vendas, pois não é só a indústria do rock que o marginaliza, ele próprio faz questão de ficar num canto, observando e lançando o seu escárnio a quem passa com uma voz expectorante, escárnio esse que tempera com uma razoável dose de ironia, como se dissesse que não é melhor do que os outros. E isso apesar do aviso que vem no interior do “booklet”: “This is an irony-free recording.” Os guitarrismos “dirty” (Keith Moliné não é apenas um excelente jornalista musical, não senhor), um sintetizador e um theremin que parecem ser tocados por Sun Ra (!!) e uma taquicárdica secção rítmica são, ao 15º álbum, puro Pere Ubu, mas num estado de amadurecimento da ideia que os rege e de depuração de materiais e processos que os distancia da “inocência” de “The Modern Dance”. Se este é a obra-prima da banda, o novo Ubu é a obra-tia.
(29-09-2006)

1. Two Girls (One Bar)
2. Babylonian Warehouse

3. Blue Velvet

4. Caroleen

5. Flames Over Nebraska

6. Love Song

7. Mona

8. My Boyfriend's Back

9. Stolen Cadillac

10. Synth Farm

11. Texas Overture

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Pete Namlook/Klaus Schülze
«The Dark Side of the Moog X»
Pete Namlook/David Moufang
«Koolfang III - Be Aware»
CD Fax, ambos € 16,50

 Figura de proa do ambientalismo germânico, Pete Namlook gosta de revisitar velhos projectos e levá-los um pouco mais longe do que tinham ficado das últimas vezes que lhes pegou. É o caso do volume X de "The Dark Side of the Moog", partilhado com um ex-Tangerine Dream, Klaus Schulze, personagem histórica do rock "cósmico" tocado com os instrumentos inventados por Robert Moog. De novo sem a colaboração do baixista Bill Laswell, que os acompanhou entre os tomos IV e VII, este álbum agora surgido nos escaparates, três anos depois do IX, não deixa de soar a algo de comemorativo, se bem que seja patente a preocupação de ambos em trazer os sintetizadores "vintage" para a contemporaneidade de uma música que se situa entre os domínios do experimentalismo radical e do techno (importa referir que Pete Kuhlmann, de seu verdadeiro nome, tem-se apresentado igualmente como DJ, sob o pseudónimo Sequential), parte "dark ambient", parte "chill out" e parte "space music". E é o caso de "Koolfang III - Be Aware", em duo com David Moufang, este nove anos nove após o volume II. O cenário é de novo o "chill out", mas desta vez com um envolvimento "lounge" e uma tónica funk-jazz-house de que despontam as "spoken words" do próprio Namlook, aqui e ali enveredando por autênticos mantras, como não podia deixar de ser conhecendo-se as coordenadas que o regem. "The Dark Side of the Moog", como já se percebeu, faz alusão ao mais procurado dos discos dos Pink Floyd, e mesmo a única peça que o integra, dividida em seis partes, "Astro Know Me Domina", lembra os títulos do grupo fundado por Syd Barrett. A filiação floydiana não vai muito mais longe do que a adopção do mesmo modelo neopsicadélico. É inútil procurar semelhanças com as partes mais abstractas de "A Saucerful of Secrets": Namlook e Schulze dirigem-se àqueles que se sentaram depois de uma noite inteira de "trance". Já "Be Aware" tem como referência a "club music" de Detroit. A sua sonoridade quente e sincopada transpira sensualidade e erotismo, não sendo por acaso que uma das faixas se intitula "Fuerteventura", pois esse é o nome de um local na costa central americana onde se reúnem os golfinhos em grandes orgias.
(05-08-2005)

Pete Namlook/Klaus Schülze:

1. Part I
2. Part II
3. Part III
4. Part IV
5. Part V
6. Part VI

Pete Namlook/David Moufang:

1. Be Aware
2. Don't Be a Spooner
3. Fuerteventura
4. Jeanne
5. All The Motions
6. Here Comes The Rain

 

Peter Brötzmann/Han Bennink
«Schwarzwaldfahrt»
2CD Atavistic / Unheard MusicSeries, € 22,50

No final do Inverno de 1977, o saxofonista e clarinetista alemão Peter Brotzmann e o percussionista holandês (em “Schwarzwaldfahrt” também em instrumentos de sopro e de cordas, muitos deles de brinquedo) tiveram a ideia peregrina de pedir uma licença para tocar e gravar em plena Floresta Negra, inclusive em zonas totalmente vedadas ao público. Bem pensado e logo feito: este duplo álbum da colecção Unheard Music Series, organizada pelo crítico e músico John Corbett, reedita o LP da FMP há muito fora de circulação em que tal experiência foi documentada e junta-lhe alguns inéditos dessas mesmas sessões de gravação ao ar livre. O resultado é a aplicação dos princípios da “land art” na música. As memórias dos dois improvisadores registam o muito frio que encontraram neste encontro com a natureza silvestre e com a fonte de muita mitologia germânica. Muitos dos sons produzidos são os da manipulação dos materiais “site specific” aí existentes, e designadamente de pedras, paus e outros utensílios de circunstância de que sobretudo Bennink fez amplo uso (até água ouvimos, vinda do degelo das montanhas, bem como vento e pássaros que parecem mesmo querer participar no ritual). Escreve Brotzmann nas notas que acompanham esta edição: “Usámos o que tinhamos e o que encontrámos, e com tudo isso fizemos música, o que até é o verdadeiro significado de improvisar: trabalhar com o que há”. Dizem os dois aventureiros que foi muito difícil fazer soar os instrumentos que levaram, tão baixas eram as temperaturas e tão elevado o índice de humidade, mas nada disso notamos nesta colecção de duetos em que ouvimos o espaço e a movimentação dos dois intervenientes, numa variedade de localizações face aos microfones que não seria possível em estúdio. Um álbum histórico e essencial nestes tempos em que tudo convida a um regresso à floresta.
(04-11-2005)

Disco 1:
1. NR.1
2. NR.2
3. NR.3
4. NR.4
5.
NR.5

Disco 2:
1. NR.6
2. NR.7
3. NR.8
4. NR.9
5.
NR.10

 

P.G. Six
«Slightly Sorry»
CD/LP Drag City, € 16,50/€ 12,50


Se ainda não ouviram falar em P.G. Six, saibam que é o nome com que se apresenta Pat Gubler, o mesmo do grupo Tower Recordings. Em “Slightly Sorry”, o projecto terá mais de revivalismo folk do que acontece com aquela outra formação, mas em contexto de rock eléctrico não muito distante do “Harvest” de Neil Young e com uma dimensão soul pouco comum por estas paragens que lhe dá uma tónica de “late night music”. Além da voz e das guitarras, Gubler tem a seu cargo todos os teclados e a sanfona, apresentando-se como um autêntico “homem dos sete instrumentos” do trovadorismo de antanho. Nada o disco tem, no entanto, de ambiente de feira. As canções são elementares, os arranjos funcionais e a produção bastante limpa, sem experimentalismos nem manifestações “freak”. Para juntar aos discos de Will Oldham.
(
20
-07-2007)

"This is a record you musn't ignore, and I expect we will be seeing Gubler's name mentioned by critics across the world in a very short space of time. P.G Six might not yet have the profile of Joanna Newsom, but fans of Drag City need to sit up and take notice straight away, or they'll be missing one of the unexpected treats of 2007."  Boomkat

1. Untitled Micro Mini
2. The Dance

3. Strange Messages

4. Cover Art Reprised

5. The End of Winter

6. I've Been Traveling

7. Bless These Blues

8. Not I the Seed

9. Lily of the West

10. Sweet Music

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Phill Niblock
«Touch Three»
3CD Touch, € 25,95


A música de Phill Niblock pode parecer electrónica, mas não é. Tem sempre como base a gravação de um instrumento acústico (no triplo “Touch Three” um violoncelo, uma guitarra acústica tocada com e-bow, flautas barrocas, saxofones soprano, alto, tenor e barítono, um trompete e uma viola, nas mãos de, respectivamente, Arne Deforce, Seth Josel, Lucia Mense, Martin Zrost, Ulrich Krieger, Franz Hautzinger e Julia Eckhardt). Sempre com apenas alguns segundos de duração, como se se tratasse de um vulgar “sample”, estes registos são sobrepostos em várias camadas, mas com ligeiros desfasamentos de modo a produzirem microtons, consistindo o projecto de Niblock precisamente no choque de frequências e nos harmónicos assim provocados. Quanto mais elevado for o volume, maior o efeito, seja em casa, ouvindo os discos, ou em situação de concerto. Na linha do minimalismo por “drones” de La Monte Young, Tony Conrad e Charlemagne Palestine, mas simultaneamente com a imponência do heavy metal e com uma incidência microscópica no que respeita à valorização dos mais pequenos detalhes, a obra deste compositor sediado em Nova Iorque e em Ghant, na Bélgica, caracteriza-se pela densidade das suas massas sonoras e pela forma como parece iludir o tempo, jogando com a percepção do ouvinte – tanto assim que a própria movimentação da cabeça de quem ouve, ou a deslocação no espaço, modela de formas diferentes o que sai das colunas. Nesta nova edição, as coordenadas são as de sempre, mas levam a outras implicações, pelo que se pode dizer que, se a produção de Phill Niblock parece uma constante revisitação do mesmo tipo de situações, cada variante acrescenta algo mais ao já proposto. Uma curiosidade: “Parker’s Altered Mood, aka Owed to Bird”, é o que o título promete, uma homenagem ao saxofonista de jazz Charlie Parker, com utilização da melodia principal de uma composição deste, “Mood”. Quem diria...
(15-09-2006)

CD 1:
1. Sethwork (21:48, 2003) Seth Josel, acoustic unamplified guitars played with e-bow
2. Harm (24:43, 2003) Arne Deforce, cello
3. Lucid Sea (20:24, 2003) Lucia Mense, recorders

CD 2:
1. Parker's Altered Mood, aka, Owed to Bird (16:27, 2004) Ulrich Krieger, alto saxophone
2. Zrost (23:32, 2004) Martin Zrost, soprano saxophone
3. Not Yet Titled (22:20, 2003) Franz Hautzinger, trumpet

CD 3:
1. Valence (2005, 23:02) Julia Eckhardt, viola
2. Alto Tune (25:08, 2004) Ulrich Krieger, alto saxophone
3. Sax Mix (25:08, 2004) Ulrich Krieger, alto, tenor and baritone saxo

 

Phonºnoir
«Putting Holes into October Skies»
CD Quatermass, € 15,95


Ainda que pareçam várias as cabeças e as mãos, o nome Phonºnoir (ler Phono Noir) designa apenas uma pessoa, Matthias Grubel, um jovem músico (23 anos apenas!) que em “Putting Holes into October Skies” nos dá conta do seu duplo amor pela canção pop e pela electrónica experimental. O que poderia parecer uma contradição de termos, Grubel concilia de forma natural e nada forçada, como se os âmbitos do click ‘n’ cut e da “songwriting” sempre tivessem coexistido. Aliás, os jogos situacionais com que nos vamos deparando ao longo do disco colocam invariavelmente em associação aspectos de ambos os domínios, como por exemplo guitarras etéreas à la Cocteau Twins de um lado e “noise” lo-fi, comedido mas indomesticável, do outro. Resultado: algo que já foi apresentado como “almost pop, but not quite”. Esta “quase pop” pode soar um tudo nada triste, como vai sendo de regra na que hoje se faz, mas as suas estruturas quebradas e irregulares interferem deliciosamente com os padrões universalmente estabelecidos para o género, e daí o “quase”, que significa não uma aproximação, mas uma divergência. É deste tipo de oposições que surge, precisamente, o ímpar interesse desta primeira obra gravada em estúdio doméstico. E só não é verdade a máxima “home recording is killing studios” porque estes já há muito que morreram (vidé o caso português). A atitude DIY pode ter começado por ser contracultural e “underground”, mas agora está a minar por dentro o próprio “establishment” musical, e este disco é um bom exemplo disso. Ainda bem, achamos nós...
(
08-06-2006)

1. Warm from the Inside
2. Hymn for Silence

3. Slowdown

4. Monolog in Stereo

5. One and a Half Smiles

6. Euphoria & Sadness

7. Panodrama

8. Melting the Ice

9. Februarhimmel

10. Great Big Hole in the Sky

11. Cellophane

12. Destroying Angel

13. Origami

14. How to Become Invisible

15. Disconnected 1

16. Revoir

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Phonophani
«Phonophani»
CD Rune Grammofon, € 16,50


Humcrush
«Hornswoggle»
CD Rune Grammofon, € 16,50


Reedição do primeiro álbum de Espen Sommer Eide sob a designação Phonophani, datado de 1998, o homónimo “Phonophani” (apenas 500 exemplares há muito esgotados na Biophon de Geir Jenssen, aka Biosphere) não chegou sequer a envelhecer, apesar dos oito anos passados. Talvez o que então apresentava de absoluta novidade se tenha dissipado, pois algumas das ideias propostas foram repegadas entretanto pelo próprio Eide neste seu projecto a solo e pela dupla de que é um dos co-fundadores, Alog, bem como por outros praticantes da electrónica que procuraram dar um cunho especificamente nórdico ao seu trabalho, mas a música que aqui ouvimos podia muito bem ter sido concebida hoje mesmo. As três faixas bónus, correspondendo a mais 20 minutos de conteúdo do que o CD original, são outro motivo de convencimento para quem quiser saber de onde vem o “som” que já identifica o selo Rune Grammofon. Exemplo feliz de uma música digital que procura manter uma certa organicidade, o que passa pelo uso de samples de instrumentos acústicos, alguns deles medievais ou barrocos, a fórmula Phonophani é igualmente uma evidência do especial interesse que tem a abordagem Do It Yourself, dado que todo o software utilizado teve desenho do próprio Sommer Eide. Já “Hornswoggle” é o segundo tomo da parceria entre Thomas Stronen (o bateria dos aparentemente extintos Food) e Stale Storlokken (teclista dos Supersilent) depois do sucesso conseguido com “Humcrush”, nome de disco que se tornou no do duo. Estamos ainda no domínio da electrónica, mas os parâmetros são outros. Ainda que de forma mais estruturada e com especial atenção pelo pormenor, Stronen e Storlokken continuam a trazer para um contexto de maior abstracção as ideias que Joe Zawinul aplicou nos Weather Report e Herbie Hancock colocou em prática no período Mwandishi. O que encontramos ao longo destes temas de grande interactividade e empatia é um “Mysterious Traveller” ou um “Sextant” de tónica experimental e circunscrita ao esqueleto formado por sintetizadores e percussão. O funk está lá, mas transvestido como poucas vezes demos conta.
(
29-06-2006)

«Phonophani»:
1. I. F. A.

2. Ring

3. Zurnas

4. No Strangeclock

5. Duration-Happiness

6. Kaliphoni

7. C

8. Order Of Disappearance

9. Sol

10. Minne & Materie

11. The Boy In His Bathtub

12. Farger Rundt Hvitt

13. Kreta

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«Hornswoggle»:
1. Cyborg II

2. Hornswoggle

3. Anamorphic Images

4. Seersucker

5. Grok

6. Knucker

7. Roo

8. Cyborg I

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Phonophani
«Oak or Rock»
CD Rune Grammofon, €16,50


O objectivo de Espen Sommer Eide, o compositor/programador que se esconde por detrás do heterónimo Phonophani, não podia ser menos ambicioso: "redescobrir o grande mistério da música". Um mistério que ele não procura desvendar na tal "música das esferas" de que falavam os filósogos gregos antigos e que Manfred Eicher, da ECM, disse em tempos procurar, mas pelo que temos ouvido das suas produções ainda não encontrou. Nada de tão cósmico e etéreo; pelo contrário, é da própria matéria orgânica que este norueguês extrai as suas pepitas. A voz (de Maja Ratkje, a "cantora" do grupo feminino anarquista Spunk, em "Cloudberry"), um vibrafone, um piano, um órgão ou um violoncelo (Nicholas H. Mollerhaug, em "The Boiling Fjords Orchestra", "Take Off Your Wooden Coat" e "You Must Welcome the Stranger"), entre outros instrumentos mais ou menos reconhecíveis, estão na base das manipulações digitais escutadas ou pura e simplesmente emergem em toda a sua natureza acústica. E daí que o título deste disco nos fale de carvalhos e rochas. Daí, também, que Eide lide com software criado por si mesmo e que desenvolva uma "process music" que impõe uma especial atenção ao manuseamento dos materiais, valorizando os meios (os processos) em relação aos fins, ou seja, o produto que nos chega em forma de CD. Esta pode não ser uma música suada e performativa, mas percebe-se que houve um grande trabalho de enxada.
(15-04-2005)

 

Piano Magic
«Part Monster»
CD Green Ufos, € 16,50


Mais um episódio na vasta discografia do projecto de Glen Johnson, "Part Monster" é mais um virar de página na sua história. Ainda mantendo a estrutura melodiosa dos discos mais recentes - "Disaffected" ou o EP "Incurable" - em "Part Monster" Johnson mostra alguma revolta, com temas mais agressivos. Após terem feito álbuns tão intensos e fundamentais como “Artists’ Rifles” ou “The Troubled Sleep Of Piano Magic”, o grupo liderado por Glen Johnson, celebra o seu décimo aniversário com um disco no máximo da sua carreira, que não só entusiasmará os seus fãs, mas também promete ser um absoluto descobrimento para todos aqueles que nunca haviam sido cativados pela magia deste projecto londrino. “Part Monster” é um álbum directo e aberto, que rapidamente cativa o ouvinte. É o outro lado da moeda de “Disaffected”, um barco que navegava entre duas águas, a dos sons de guitarras enérgicas algumas vezes, infinitos e envolventes outras, e a da electrónica seminal de bandas como Kraftwerk ou New Order. De facto, os Piano Magic de “Part Monster” são definitivamente uma banda de rock, quem sabe de outro planeta, mas de rock sem dúvida alguma.
(
08
-06-2007)

1. The Last Engineer
2. England's Always Better (As You're Pulling Away)
3. Incurable (Reprise)
4. Soldier Song
5. The King Cannot Be Found
6. Great Escapes
7. Cities & Factories
8. Halfway Through
9. Saints Preserve Us
10. Part-Monster

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Piano Magic
«Disaffected»
CD Green Ufos, €16,50


Depois do doom metal, a gloom pop? O disco mais soturno e mórbido da história da música popular urbana (até na capa, com um cadáver de olhos vidrados deitado na cama, ramos de árvore saindo-lhe da cabeça) chegou, e o mais estranho é que nos apresenta a morte com um enorme bom gosto e uma leveza que não encontramos em outros títulos anteriores deste projecto. Trata-se mesmo do mais acessível álbum dos Piano Magic de Glen Johnson, marcado pelo "spleen" da cinzenta cidade de Londres, que o cantor e compositor diz ser nociva para a sua alma em "I Must Leave London". Inspirado na electro-pop da década de 1980 e com incursões na presente techno, o pop-rock (quase) electrónico de "Disaffected" tem referências muito concretas, e designadamente à sonoridade típica dos catálogos Factory e 4AD, remetendo-nos também muito frequentemente para os melancólicos Joy Division ou para os guitarrismos de Vini Reilly nos Durutti Column. Angéle David Guillou canta no tema que dá título a este trabalho de uma forma que não dista muito da de Kristin Hersh nos Throwing Muses, e certamente que tal não acontece por acaso: esta é uma música de continuidade, não de rupturas, fiel ao património recente ainda que apostada em inovar. "All I need is love and music, love and music 'til I die", canta o melómano e informado Johnson. As semelhanças com o anterior "The Troubled Sleep of Piano Magic" são muitas, mas o que esse disco tinha ainda de obscuro este novo trabalho explicita, mormente a sua vocação new-new wave, funcionando como uma revisão dos Cure ou dos New Order para os anos 00 do século XXI, com o lado etéreo dos This Mortal Coil e o "noisy" dos My Bloody Valentine. São muitos os fantasmas que habitam as canções dos Piano Magic, como se vê, e por falar em fantasmas eis mais um em "Your Ghost", interpretado por John Grant, a voz dos Czar, e outros mais em "Theory of Ghosts", um lamento sobre as raparigas que partem na Primavera por saberem, na sua crueldade, que a dor causada é maior durante o Verão. Tantas almas do outro mundo (e deste), aliás, fizeram com que o estilo deste grupo fosse apelidado de "ghostrock". É pegar ou largar. Nós, na AnAnAnA, pegámos...
(17-06-2005)

1. You Can Hear The Room
2. Love & Music

3. Night of The Hunter

4. Disaffected

5. Theory of Ghosts

6. Your Ghost

7. I Must Leave London

8. Deleted Scenes

9. The Nostalgist

10. You Can Never Get Lost (When You've Nowhere To Go)

 

Piano Magic
«Incurable»
CDEP Important Records, 12,95

O gosto dos Piano Magic de Glen Johnson pelo formato EP confirma-se mais uma vez com este “Incurable”, consequência certamente da constatação de que a “attention span” dos sobreviventes à passagem do milénio não tem tempo para mais do que meia-hora de fruição musical. Mas outro factor importante é-nos certificado, e designadamente a directa inspiração do grupo na electro-pop de vozes angélicas personificada por Cocteau Twins, This Mortal Coil e Dead Can Dance. A inclusão como vocalista de Angele David-Guillou, dos Klima, leva-nos mesmo a pensar em Liz Fraser mais do que uma vez, o que só pode ser positivo. Com a mais-valia de Johnson não ter uma visão “retro” e nostálgica de tal legado, ao contrário do que, infelizmente, vai acontecendo neste tempo de estranhas ressuscitações. Se temas com títulos como “I Have Moved Into the Shadow” poderiam ter feito as delícias dos “depressivos” vestidos de negro que assistiam nos anos 1980 aos concertos das bandas referidas, o certo é que a música dos Piano Magic é solar e não propriamente nocturna, mesmo que as palavras cantadas (“In letters from my sister she asks me how I’m feeling / I say that I am better / But I lie in every letter”) transpirem melancolia e seja do Sol de Inverno que estejamos a falar. Estas diferenças dever-se-ão ao facto de a electrónica praticada pelos PM ter como contexto mais a “club music” da actualidade do que a pop de Manchester, o que transparece na forma como é gerido o “beat” ou no quase “chill out” das paisagens sonoras de tipo ambiental que dão substância às canções. A mistura de referências, no entanto, já lhes valeu o rótulo de “ecuménicos”, claro que com uma componente de ironia, dado o carácter etéreo das composições que vão colocando em circulação, com especial destaque para estas quatro. Algo que o cruzamento nos primeiros anos feito entre Joy Division e música barroca já anunciava, mas acabou por ter curiosos desenvolvimentos como o presente. O que se seguirá agora?
(
12-05-2006)

1. Incurable
2. I Have Moved Into The Shadow
3. Giant Mirror To Light Up Village
4. Lights Come On At 3

 

Pierre-Yves Macé
«Circulations»
CD Sub Rosa, € 14,95


Depois de uma estreia em grande na Tzadik de John Zorn com "Faux-Jumeaux", disco no qual o trabalho de samplagem se limitava aos instrumentos que surgiam em cada faixa, este excelente "Circulations" leva o conceito à elaboração em fita de clones ou réplicas do instrumentário solista, designadamente vibrafone e demais percussão (peles sobretudo), guitarra eléctrica, harpa e clarinete. Em consequência, a sua interpretação conjuga características da música mista (o nome dado à electrónica sobre suporte que utiliza os sons-base dos instrumentos convencionais) com outras da electrónica "live" (área de intervenção em que os mesmos instrumentos convencionais se relacionam em tempo real com a electrónica). O que faz também com que este trabalho tenha uma faceta de música de câmara contemporânea e outra de electroacústica experimental, combinando, como o próprio compositor assinala, dois tipos de escrita, uma abstracta e a outra concreta, uma directa e a outra transformada/transformadora. Está em causa a ideia de reprodução, o que é deveras interessante quando nos apercebemos que a maior parte da tecnologia existente no domínio do som (e no da imagem, já agora) é reprodutiva. Não surpreende, pois, que muita da música do século XX e deste início do XXI tenha sido ou seja feita com gravadores, gira-discos, computadores, samplers. A composição está dividida em quatro movimentos, quatro estádios da metamorfose operada, e se o que Macé faz com a harpa é enquadrável no domínio "erudito", passe o palavrão, o seu trabalho com a guitarra entra em pleno nos territórios do "ambient noise". Até as suas manipulações do trabalho dos tambores são de natureza ambivalente: além de Xenakis, já se tem dito que fazem lembrar a bateria de Charles Hayward nos This Heat ou mesmo os Dead C. Esta ambivalência está, aliás, a ter novos desenlaces - o jovem Pierre-Yves Macé prepara agora canções pop electrónicas com o escritor Mathieu Larnaudie.
(12-08-2005)

1. 1st Movement For Percussion
2. Tape 2nd Movement For Electric Guitar
3. Tape 3rd Movement For Harp
4. Tape 4th Movement For Clarinet

 

Plumbline/Roger Eno
«Transparencies»
CD Hydrogen Dukebox Records, 19,50

Álbum de colaboração entre dois músicos com personalidades muito vincadas, o segredo de “Transparencies” começa pela clara divisão de tarefas: Plumbline, ou melhor dizendo, Will Thomas, tem à sua conta os “field recordings” (espaços interiores com diferentes tipos de ressonância, de edifícios de habitação a igrejas, com sons acidentais de relógios, sinos e automóveis a passar), os sintetizadores e os “beats” electrónicos, e Roger Eno (irmão de Brian, se houver ainda quem não saiba) acrescenta ao seu inseparável piano o órgão, o acordeão e o harmonium. O disco está entre o ambientalismo melódico bem distintivo de Eno (embora em “Intersection”, por exemplo, seja clara a opção pela atonalidade) e o quase chill out de Thomas, um produtor de dança americano em plena ascensão, domínios que, para além de coexistirem, procuram interferir-se mutuamente, já tendo sido comparado à banda sonora de Cliff Martinez para o “remake” do filme “Solaris”. E de facto tem uma qualidade cinemática muito pronunciada, parecendo mesmo que estamos a ouvir uma longa-metragem com a solidão no espaço urbano como tema. O que não é de estranhar, sabendo que Roger Eno tem composto para cinema e televisão, como foram os casos de “Dune” e de “Nove Semanas e Meia”. Mesmo a fórmula aqui concretizada teve no percurso deste pianista influenciado por Erik Satie e pelo impressionismo francês uma primeira incursão, ao lado de Lol Hammond, figura do techno de que é muito elogiado o sentido do “groove”. E convirá não esquecer a participação de Roger em “Nerve Net” de Brian, edição em que a “ambient music” deste já se cruzava com a rítmica de discoteca. A crítica fala de arquitectura ao comentar este trabalho, tal é o nível de precisão e equilíbrio conseguido, e tem havido quem teça paralelismos com as artes plásticas, e em particular com a pintura de Rothko. Está bem visto e faz-lhe inteira justiça.
(
13-04-2006)

1. Transparency
2. Adaptation
3. Siren 890

4. With Insight
5. Intersection
6. Sodium Highlights

7. Being Present
8. A Few Streets Away

 

Pluramon
«The Monstrous Surplus»
CD Karaoke Kalk, € 15,9
5

O quarto disco de Markus Schmickler, segundo na Karaoke Kalk, traz de volta um conjunto de vozes delicadas que narram na perfeição as histórias propostas. Inspirado na paisagem urbana e nas pessoas que vão sobrevivendo aos amores imperfeitos, Schmickler chegou sem dúvida alguma a um resultado desarmante. “The Monstrous Surplus” é um disco feito por pessoas, acerca de pessoas e para pessoas. Estas canções são para escutar no mais religioso retiro e os nomes para gravar numa parede anti-esquecimento. A Julee Cruise juntam-se Julia Hummer e Jutta Koether – os anjos de Markus ou um pacto com o diabo?
Essencial!
(16-11-2007)

1. Turn In
2. Border
3. If Time Was On My Side
4. Drowing In You
5. Snow Bow
6. Fresh Authebung
7. K-Land
8. Can't Disappear 
9. If The Kids Are United
10. Fishing
11. So?

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Plush
«Underfed»
Sea Note Corporation/Drag City, €16,99


Se misturarmos uma dose de "singing/songwriting" de bom recorte alicerçada na guitarra acústica com arranjos de rock progressivo em que o velhinho mellotron, a flauta, toda uma secção de metais e o órgão marcam presença, o que obtemos? Este "Underfed", de Liam Hayes, o mentor do projecto Plush, que é para o álbum "Fed" o mesmo que uma qualquer colecção de demos é para um disco altamente produzido. Tudo, aliás, foi pensado para que este lançamento surgisse como o rascunho de uma obra e não como a obra ela mesma, dos falsos arranques e dos súbitos cortes de algumas das canções à própria capa, que consiste no papel com linhas que acompanha os CDs virgens para anotarmos o que lá gravamos. "Fed", recorde-se, saiu em 2002 apenas no Japão e segundo os mexericos da imprensa teve sete anos de gestação, datando as versões "rough mix" aqui contidas de 1999 e 2000. Isto porque o objectivo era fazer uma pop de dimensão orquestral e durante esses anos o que Plush fez foi gravar mais e mais instrumentos e aumentar os custos de produção (um parêntesis só para dizer que um dos homens por trás da mesa de mistura foi nem menos do que Steve Albini, um homem, pelos vistos, abençoado pela virtude da paciência). O interesse desta edição é óbvio: verificar como eram estes temas antes de o seu autor os dar como completos. Em plena época de "menos é mais", o estado cru e desarrumado desta música tem, sem dúvida, um especial encanto. Pensem em Wilco e saberão do que estamos a falar quando referimos o lado deliciosamente "retro" que atravessa este álbum. "Blown Away", por exemplo, não podia lembrar mais o saudoso John Lennon, e passagens há que nos remetem directamente para os Grateful Dead. Hayes tem, decididamente, uma visão do tempo diferente da actual pop, tanto em termos de durabilidade de uma canção como no que se refere às suas referências estilísticas e até estéticas. O "post it" colocado na contracapa a avisar-nos de que há um "glitch at end" faz-nos sorrir, pois não há apenas um "glitch", mas vários. Tudo isto foi encenado, claro está, por alguém que construiu toda uma mitologia com base na sua dificuldade em acabar o que começa. Aliás, enquanto trabalhava em "Fed", o mesmo Liam Hayes que defendia uma pop de montagem complexa deu à estampa "More You Becomes You", em que faz acompanhar a sua voz de cana rachada, por sinal excelente para o rock, apenas por um piano.
(03-06-2005)

 

Polar Bear
«Held On The Tips of Fingers»
CD The Babel Label, 15,95


Grupo irmão dos Acoustic Ladyland, os Polar Bear incluem três membros daquele grupo (o saxofonista Pete Wareham, finalmente reconciliado com a “grande música negra”, o ginasticado contrabaixista Tom Herbert e o bateria Sebastian Rochford, que tem tanto de cabelo como tem de agilidade no manejo das baquetas em situações “breakbeat”) num programa substancialmente diferente. Mais centrado no trabalho dos saxes (o outro tenor é Mark Lockheart, participando um terceiro, Angrid Laubrock, em dois temas), mais definível como jazz, e um jazz por vezes bastante “straight”, e mais argumentativo (oiça-se, precisamente, a faixa “Argumentative”), mas ainda assim mantendo alguma da intensidade e da desenvoltura do punk, inclusive nas rítmicas pogo (a característica dança punk inspirada na locomoção dos cangurus) que ora e meia vão surgindo. Na mistura aparece Leafcutter John, um nome da electrónica experimental inspirada no concretismo que na ficha técnica deste “Held on the Tips of Fingers” é apresentado como tocando um instrumento chamado... Leafcutter John, ou seja, “doing is own thing” com o computador e uma boa colecção de “samples”. A sua contribuição é, aliás, decisiva no desconcertante “Fluffy (I Want You)”, no qual o ouvimos a disparar sons com o divertimento de um jogador de Gameboy. Anarcas e pós-modernos, os Polar Bear têm sido entendidos como o futuro já iniciado do jazz britânico, razão porque também se lhes aplica o epíteto “pós-jazz”. É este o jazz de depois do jazz.
(20-01-2006)

1. Was Dreaming You Called You Disappeared I Left
2. Beartown
3. Fluffy (I Want You)
4. To Touch The Red Brick
5. Held On The Tips Of Fingers
6. Argumentative
7. The King Of Aberdeen
8. Your Eyes The Sea
9. Life That Ends Too Soon

 

The Ponys
«Celebration Castle»
CD In The Red Records, €15,50

Com a mãozinha de Steve Albini na mesa de mistura, o que é desde logo um selo de qualidade, os Ponys já foram apontados como o melhor que Chicago tem para oferecer no pop-rock para além dos Wilco. "Celebration Castle" é o seu segundo álbum, e se o primeiro ("Laced with Romance") tinha uma vertente de "garage band" que foi bem-vinda, este funciona como uma visão artística desse mesmo estilo a que já se chamou de "nihilista" e "ébrio", ou porque os membros do grupo cresceram musicalmente ou porque o referido Albini garantiu a "profissionalização" da sonoridade inicial do projecto (as duas hipóteses podem também ter-se somado, está claro). A energia, essa, é a mesma, bem como a atitude "in your face". Estamos em terreno pós-punk, com um reconhecível sabor "indie" e uma boa dose de blues (não falta, de resto, a harmónica). Jered Gummere e Melissa Elias partilham as vocalizações, e o que cantam/gritam não vem propriamente de uma mansão de Beverly Hills: "Saving all my pennies up / trying to get some cigarettes / but that's the way I gotta live." Esta música dirige-se mais àquela porção da juventude que não consegue encontrar trabalho ou cujos empregos são precários do que a estudantes universitários protegidos financeiramente pelos pais. Isto é rock do Midwest americano, com uma sensibilidade pop, sim, mas denotando uma crueza que só pode vir de quem mergulha na realidade em vez de a alienar. Enquadrados entre Velvet Underground, Richard Hell and The Voidoids, Joy Division e Cure (Gummere parece-se às vezes com Robert Smith), os Ponys mostram que a pop não tem de ser bonitinha.
(17-06-2005)

 

Prefuse 73
«Security Screenings»
CD Warp, € 16,95

Guillermo Scott Herren já foi apontado como um “b-boy” de vanguarda e não há dúvida de que a designação se encaixa bem com a sua música, que tem tanto de discoteca como de experimentalismo free-noise. O “sampling” é a sua principal ferramenta de trabalho, mas em vez de mimetismos sonoros o que nos oferece é um “kitchen sink style”. Ou seja, a operação é mais importante do que o efeito obtido. Nisso, encontra no convidado Kieran Hebden (mais conhecido como Four Tet) alguém que denota preocupações similares. Não só as estruturas estão à vista como as próprias técnicas com que são montadas, a que não são alheios o “scratch” e o “glitch” editados do DJing e da “laptop music” mais radicais – aliás, DJ Shadow e Kid 606 vêm-nos à ideia mais do que uma vez. “Security Screenings” (uma alusão aos controlos nos aeroportos após os atentados de Nova Iorque, Londres e Madrid) é feito de camadas de “drones” quase ambientais, fragmentações reorientadoras, muita parasitagem sonora e “beats” congestionados, tudo isto sucedendo-se a uma velocidade que deixaria o teórico da tele-realidade Paul Virilio certamente encantado. Ainda por cima com durações extremamente curtas em se tratando de electrónica, indo dos 31 segundos a quatro minutos. O projecto Prefuse 73 já esteve mais enraizado no hip-hop do que nesta sua encarnação, e o anúncio de que este poderá ser o último álbum do heterónimo poderá significar um afastamento ainda maior, mas ainda que tal venha a acontecer, a extraordinária mobilidade das montagens / composições de Herren deve tudo a esse fundamento. Se a hiperactividade nas crianças dá muitas vezes lugar a adultos passivos (condicionamento social oblige), o que aqui ouvimos vai contra a norma. Estamos perante um homem que ainda sabe divertir-se infantilmente com os sons, não receando que o seu parco sentido de medida irrite alguns ouvidos. Para os nossos, isto é como maná dos céus.
(
06-04-2006)

1. The Letter: "P"
2. With Dirt And Two Texts - Afternoon Version
3. Illiterate Interlude
4. Keeping Up With Your Quota
5. No Special Bed
6. Weight Watching
7. When The Grip Lets You Go
8. Another One Long Gone
9. Always It's Gonna Be Like That
10. Creating Cyclical Headaches - with Four Tet (Keiran Hebden)
11. Awakening to a...
12. With Dirt and Two Texts - Later Version with Love
13. No Origin
14. One Star and Three Stripes
15. Mud In Your Mouth
16. Breathe
17. Matrimonioids ..... (for: Elivin + Susana Estela)
18. We Leave You In A Cloud Of Thick Smoke And Sleep Outro - feat. Babatunde Adebimpe (From T.V. On The Radio)

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Prefuse 73
«Surrounded By Silence»
CD Warp Records, €16,50

Scott Herren, aka Prefuse73, pode alinhar no hip-hop "hardcore" abraçado por uns Wu Tang (e não por acaso, Ghostface, daquele colectivo, é um dos MC de serviço), mas "Surrounded by Silence" está longe de ser "mainstream". Acontece tal devido aos procedimentos "cut and paste" que utiliza durante toda a duração deste brilhante disco. Em consequência, esta é uma música fragmentária e com constantes mudanças de direcção, à maneira dos experimentalismos electrónicos de outras áreas. Como o próprio Herren diz, se não tem outra forma de descrever o que aqui encontramos senão utilizando o termo hip-hop, não está à espera que venha alguma vez a ser passado na rádio. O curioso é que, se está de facto na vanguarda do género, não se preocupa com afirmar essa condição. Para ele, a única coisa que importa é não estagnar nas fórmulas e nas fronteiras por ele próprio definidas para a sua música. A coincidência ou não coincidência desta com outras práticas do hip-hop é, pois, um factor secundário e, citamos, "irrelevante". Ainda assim, faz questão que os seus "beatscapes" sejam entendidos como uma "troca de energia e de visões", e daí que tenha buscado a colaboração de nomes que têm os seus próprios projectos, nenhum deles se assemelhando ao que o caracteriza. Estão nessa condição El-P, Masta Killa, Aesop Rock, Kazu dos Blonde Redhead, as irmãs Claudia e Alejandra Deheza, Beans, The Books, Tyondai Braxton, Camu, DJ Nobody e o mesmo Ghostface acima referido. As abordagens são as mais diversas, indo da manipulação de pedais de guitarra eléctrica por Braxton em "TV Versus Detchibe" e "Mantra" ao acento "folky" de "Pagina Dos" com os Books, um duo de Massachusetts com violoncelo, guitarra, bandolim, banjo, tubos de plástico e computador "laptop" que começa a dar que falar. Resultado? Algo que funciona como um misto de The Last Poets, Aphex Twin, Four Tet, CloudDEAD, K-OS, Boards of Canada e DJ Shadow, se é que a síntese de todos os respectivos mundos pode fazer algum sentido. O presente CD faz, sem dúvida.
(13-05-2005)

 

Psychic TV/PTV3
«Hell Is Invisible... Heaven Is Her(e)»
CD Sweet nothing, € 16,50


O "pandrogénico" Genesis P-Orridge voltou com a terceira versão/vida dos Psychic TV que tal como uma máquina do tempo psicadélica volta às raízes culturais de Genesis quando era um jovem Mod. Por isso aqui não vamos ouvir  industrial, nem 'acid house', nem experimental, nem 'world music', iremos sim ouvir alguns desses elementos mas em segundo plano, estando o primeiro reservado para o rock psicadélico que irá assimilar os outros.
Este álbum reúne uma banda de personalidades - entre eles, elementos dos Toilet Boys e Butthole Surfers. As faixas nunca são abaixo dos 5 minutos cada e o primeiro tema - "Higher & Higher" - assusta... até parece que foram os duvidosos U2 que o gravaram, mas a pouco e pouco vamos entrando no disco sempre com aquela voz de 'old fart' britânico. Para quem tem estado na vanguarda (contra-)cultural este até será um objecto "conservador", mas ainda assim com um carisma próprio difícil de superar por outra banda. Um excelente álbum rock para quem já propõs destrui-lo. OSAMAsecretLOVERS

(
24-08-2007)

1. Higher & Higher
2. In Thee Body
3. Lies, And Then
4. Maximum Swing
5. New York Story
6. I Don't Think So
7. Hookah Chalice
8. Just Because
9. Bb
10. Milk Baba

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Psychic TV
«Those Who Do Not»
CD Cold Spring Records, € 15,95


Reedição do album saído em 1985 do grupo que Genesis P-Orridge fundou depois dos Throbbing Gristle, “Those Who Do Not” contém ao longo das suas faixas tudo o que definiu os Psychic TV em termos de referenciação literária “underground” (William Burroughs, Brion Gysin, Marquis de Sade, Philip K. Dick, Timothy Leary, Aleister Crowley), mas apenas alguns dos aspectos propriamente musicais – de fora está o baladismo quase folk e quase pop que também praticaram, bem como as sonoridades étnicas volta e meia adoptadas e as utilizações electrónicas que viriam mais tarde a inspirar o techno – aliás, a designação “acid house” é da autoria de P-Orridge –, incidindo sobre um rock mais “arty” e com influência do punk (músico essencial no grupo, Alexander Fergusson tocou nessa área com os Alternative TV), bem como sobre as premissas do industrialismo que já tinham sido consagradas. Peter Christopherson, também dos TG, está presente, assim como Geoff Rushton, mais conhecido pelo nome John Balance, ambos depois envolvidos na formação dos Coil, além de Hilmar Orn Hilmarsson e John “Zos Kia” Gosling. A circulação deste disco na actual conjuntura não tem apenas motivações históricas, não funciona como pré-anúncio do novo álbum dos Psychic TV, gravado o ano passado, e não se justifica com a morte recente de Balance. Acontece é que algum rock mais “free” que hoje se está a fazer passa pelas práticas improvisacionais que foram as deste projecto. “Those Who Do Not” mostra a quem não sabe de onde é que certas coisas vieram.
(
28-07-2006)

1. Those Who Do Not
2. Attraction Romantique
3. Fear
4. Unclean
5. Skinhead 2
6. The Full Pack
7. What's A Place Like You...
8. Meanwhile...
9. In The Nursery
10. Oi Skinhead

 

Public Image Ltd.
«Metal Box»
3x12" 4 Men With Beards, € 44,9
5

Quase 28 anos após a sua edição original, também esta caixa de metal volta a ver a luz do dia. Incluindo 3 discos no seu interior, é outra peça a preservar. Gravado pelos membros fundadores dos PiL - John Lydon, Keith Levene e Jah Wobble - ao lado de um vasto leque de bateristas, "Metal Box" foi o segundo álbum do projecto, lançado em 1979.
(07-12-2007)

Disco 1:
1. Albatross
2. Memories
3. Swan Lake (Death Disco)

Disco 2:
1. Poptones
2. Careering
3. No Birds [Do Sing]
4. Graveyard

Disco 3:
1. The Suit
2. Bad Baby
3. Socialist
4. Chant
5. Radio 4

 

Rafael Toral
«Space Solo 1»
CD Quecksilber/Staubgold, € 15,95

Para alguns poderá ser mais um álbum de Toral - e tão pouco tempo passado após "Space" de final de 2006, talvez escusado, mas a nossa opinião é a de que Toral encontra-se num processo evolutico, e é essa a razão deste trabalho. Em 2004 já nos havia avisado que embarcaria num projecto a longo termo - "um 'work in progress' multi-facetado reflectindo a sua nova abordagem à música" - do qual "Space" foi o primeiro episódio.
No passado o seu trabalho baseava-se essencialmente na miríade de sons criados a partir da sua guitarra, mas já em "Space" havia abandonado essa fonte de som (ainda que a possa reintroduzir no futuro dentro do conceito deste seu Space Program. Nesse programa Toral concentra-se em eventos sonoros particulares. Os sons são gerados a partir do equipamento electrónico criado por si e que cria sons a partir de movimentos do seu corpo (podem ver imagens de "Space Study 1" no seu site - www.rafaeltoral.net.
Enquanto "Space" mostrava uma vertente orquestral da composição, "Space Solo 1" apresenta ao ouvinte música concentrada num ponto único. Tudo está concentrado num único elemento. O ponto chave é que esta música foi criada com um grau de habilidade, compromisso e um nível de exploração tão intenso que não poderia ser encontrado num disco como "Space".Neste álbum Toral surge como um músico que simplesmente toca um instrumento a um nível individual, humano e físico. Não podemos deixar de admitir que Toral está a abrir novas dimensões na música, e talbez também na linguagem. A Wire disse há alguns meses "Parece que meras palavras não são suficientes para o ser humano se exprimir". O projecto de Toral é mesmo isso, um novo modo de expressão.
(18
-05-2007)

1. Portable Amplifier
2. Echo-fee
3. Bender
4. Electrode Oscillator 
5. Portable Amplifier

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Rafael Toral
«Space»
CD Staubgold, € 15,95


Já há algum tempo que Rafael Toral parecia divorciado da guitarra, mas se “Space” confirma o interesse que nos últimos anos o músico português tem revelado pela electrónica “vintage”, há algo de mais importante ainda que o demarca da sua anterior discografia: em vez das “soundscapes” tão densas quanto leves e dos “drones” necessitando de longas durações para se instalarem, o que temos agora é um grande ascetismo sonoro e uma mimetização do fraseado dos instrumentos de sopro (oiça-se o jogo na última peça, “Space III”, entre o instrumentário electrónico, o trompete de bolso de Sei Miguel e o trombone alto de Fala Mariam) em enquadramento idiomático de jazz. O que quer dizer que a mudança de rumo de Toral é efectiva e global, indo mesmo às raízes do seu entendimento da música, e que assim se abre um caminho que, surpresa das surpresas em tempo de alguma estagnação, tem muito de inédito. Já não se trata de jazz com electrónica, algo que se vem fazendo há décadas com melhores ou piores resultados, sobretudo estes últimos, mas de jazz electrónico, uma categoria bem diferente e de que não nos lembramos de algum praticante. A utilização do silêncio e a grande economia de materiais sonoros podem remeter-nos para as novas tendências da improvisação, mas, citando Sei Miguel, Toral diz que, se esta música não é composta, também “não é improvisada e não é um compromisso entre composição e improvisação”.
(29-09-2006)

1. Space I
2. Space IIa, IIb, IIc, IId

3. Space III

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Rafael Toral
«Harmonic Series 2»
CD Headz, €17,50

Um longo tema de quarenta e dois minutos e dezanove segundos, repõe Rafael Toral nos escaparates musicais após uma cuidada recapitulação da sua obra através da Tom Lab e dos seus originais na Touch. Cada vez mais dedicado à matemática do/no som, Rafael Toral estrutura agora a sua obra em torno das ondas sinusoidais, talvez a mais básica e óbvia das modulações harmónicas. Mas o verdadeiro marco deste disco é o uso de computador pela primeira vez: o computador é agora o seu gerador e mesa de trabalho. Mas ao contrário do que seria normal esperar, o computador em nada altera a sua pesquisa sonora: Rafael Toral continua o seu estudo em torno dos diversos sistemas modulares analógicos e nada é beliscado nesta composição com as potencialidade de execução e manipulação de software. Aliás, não deixa de ser curioso que, com o computador, sejam justamente as sinusoidais as harmónicas escolhidas. E aqui reside a sua arte: dificilmente encontramos trabalho mais atento, meticuloso e, ao mesmo tempo, mais despojado que este. Toral, longe já dos seus trabalhos ambientais de início, procura a destilação total da harmonia, a sublimação do Ambiental. Passados os minutos iniciais de introdução, toda a restante «Harmonic Series 2» é um campo de tensão e surpresa que apenas os mais pacientes podem ter recompensa. No final, a peça torna-se cristal pelo silêncio. Continua a ser música, afinal a essência de muita da música que conhecemos - resta apenas termos curiosidade para tamanha empreitada.

 

Randall of Nazareth
«Randall of Nazareth»
CD Drag City, € 16,50

É preciso ter coragem para fazer um disco com o título Randall of Nazareth, mesmo que o primeiro nome do artista seja Randall e mesmo que ele seja originário de Nazareth, Pennsylvania. Religiosidades à parte, "Randall of Nazareth" é o primeiro disco a solo de Randall Huth, membro dos Pearls & Brass. Se estes são um power trio claramente inspirado no rock dos anos 70 (Led Zeppelin e Blue Cheer), o primeiro é um folk bêbado que tresanda ao Devendra Banhart dos primeiros tempos e ao John Fahey de todos os tempos. Em 8 canções e 30 minutos gravados em casa, Huth não só se revela um bardo inspirado, como deixa transparecer todo o intimismo de uma gravação caseira: respirações, tosse, instrumentos que caem e falsos começos. Pelo que o que começou como um disco de um músico em férias da sua banda, acaba numa muito interessante experiência de red-neck folk-blues, com ponto alto no excelente "Ballad of a Sorry Lonely Breaking Man". A ouvir na companhia de um bom bourbon. Covas Dauro in Escape From Noise
(23-11-2007)

1. Safety In The Sand
2. Climbing Trees
3. It's Nice To Know 
4. Forever Left Turns
5. Living In Candles
6. The Way
7. Ballad Of A Sorry
8. Lonely Breaking Man
9. Read Your Name 

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Randy Greif & Kenji Siratori
«Narcoleptic Cells»
CD Thisco, € 8,
50

"Narcoleptic Cells" marca o regresso da portuguesa Thisco às (supinas) edições, com um trabalho do escritor-sensação cyber-punk, o japonês Kenji Siratori associado ao norte-americano Randy Grief, especialista em criar música ambiental, electrónica e concreta. Numa faixa única de 54 minutos viajamos num sonho que podia ser a banda sonora para o último filme de David Lynch. Quem já leu ou tentou ler os textos de Siratori já sabe que ouvi-lo em japonês ou em inglês é quase o mesmo, dada a complicada linguagem "cut'n'paste" cibernética que utiliza. Na colecção de CD's deve ser colocado na secção "Thisco [facção ambiental/experimental]". Marcos Farrjota in OSAMAsecretLOVERS
(
21-09-2007)

The Red Krayola with Art & Language
«Sighs Trapped By Liars»
CD Drag City, € 16,50

God Bless the Red Crayola and All Who Have Been Sailing With Them and All Those Melodies You Just Can’t Hum…

Longa já vai a história dos Red Krayola (ou Red Crayola), iniciadas que foram as edições em 1966, hoje são considerados a banda “underground” mais antiga do planeta, liderada desde sempre pelo incontornável Mayo Thompson, mas com muitas mudanças de formação ao longo da carreira e desde os anos 90 com o apoio das grandes individualidades de Chicago – John McEntire e Tom Watson.
“Sighs Trapped By Liars” é o décimo disco com o selo Drag City e a terceira colaboração com o colectivo artístico-conceptual Art & Language (a primeira colaboração remonta a 1976). Produzido também pela Drag City, duas vozes femininas marcam presença - Elisa Randazzano e Sandy Yang – e os instrumentos a cargo de John McEntire, Jim O´Rourke, Tom Watson e Mayo Thompson. São 13 faixas de formato (quase) canção-folk, melodias (quase) “amelódicas” e letras desconcertantes, irónicas e subjectivas (da responsabilidade do colectivo Art & Language)
“He can’t find his pants in the dark that deceives. Sharp claws shred and scratch; fuck the fucking cat” .
Na encruzilhada entre a arte popular e a arte conceptual.
(21-12-2007)

1. Fairest Of All
2. Jumping Through The Mirror
3. Laughing At The Foot
4. Of The Cross
5. Il Ne Reste Qu'a Chanter
6. Hoster
7. Jerry Fodor's Story
8. Big Vacation
9. Four Stars The Ideal Crew
10. Igor Zabel's Song
11. Pest
12. Perfection
13. Forty Thousand Words
14. On A Chair
15. Sighs Trapped By Liars

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The Red Krayola
«Red Gold»
CDEP Drag City, € 14,95


Não há fome que não dê em fartura. Depois de sete anos sem novos discos, 2006 trouxe-nos um álbum dos Red Krayola, “Introduction”, e agora um EP, “Red Gold”. Se aquele tem um cunho “folky”, este navega por outras águas e aposta essencialmente em instrumentais – repararão que “Easy Street” não é mais do que uma versão não vocalizada de “Greasy Street”, do disco que simula o início de uma nova existência do grupo, mas só isso faz toda a diferença. Mesmo com o relevo do acordeão de Charlie Abel, as coordenadas são distintas, com o regresso à musicalidade desestruturante que é desde sempre a imagem de marca desse eterno provocador que é Mayo Thompson. O que é caso para dizer que a “introdução” anunciada não passou de uma brincadeira. Neste capítulo, aliás, cada faixa do presente mini CD (apenas 21 minutos) funciona como uma piscadela de olho: “Bong Bong” pode ser descrito (já o foi, de resto, pela crítica) como gamelão pós-moderno, “Paris” recorda Django Reinhardt e “Oh I Was Bad” é um assumido blues. John McEntire, dos Tortoise, continua no barco, aqui encarregando-se, além da bateria, dos sintetizadores, do ukulele, da gravação e da mistura final. Para aqueles de vós que tomam nota das aparições de instrumentos poucos comuns no rock, oiçam o cravo eléctrico que neste título é tocado ora por Stephen Prina (esse mesmo, o famoso artista plástico americano), ora por Tom Watson, e verifiquem se funcionou antes tão bem nesta área da música.
(10-11-2006)

1. Paris
2. Oh I Was Bad
3. Easy Street
4. Essence Of Life
5. Well
6. Bong Bong

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The Red Krayola
«Introduction»
CD/LP Drag City, € 16,50/€ 12,50


Quarenta anos depois (os Red Krayola nasceram da vontade de Mayo Thompson em 1967), a Introdução, como se tudo o que ficou para trás continuasse o que agora se propõe e não fosse este novo álbum um seguimento, mas a origem. Estranha perspectiva, quando se verifica que este é o título mais pop de toda a imensa discografia do grupo. Referir-se-á Thompson a uma introdução na pop? Ainda menos crível seria, pois é conhecida a inquietude do agora grisalho músico, aqui novamente com o apoio de John "Tortoise" McEntire, um dos grandes responsáveis pela renovação do interesse público por este grupo nos últimos anos, a presença de dois velhos colaboradores, Stephen Prina e Tom Watson, e o acrescento de um "newcomer", o acordeonista Charlie Abel, aliás o principal responsável pela sonoridade "folky" adoptada. Bem que "Introduction" até pode ser o mais acessível dos opus krayolianos, mas a pop destas canções mantém a bizarrice que sempre tem sido a imagem de marca do projecto. Pop serão, mas com dissonância, distorção e atonalismo quanto baste. Um dos bons momentos do disco é "Puff", sequela do hino Sixties a favor da marijuana "Puff The Magic Dragon" que nos traz uma importante mensagem: o que ontem estava em questão continua válido, não obstante os anos que passaram e a gravata que por estes dias Mayo passou a usar. A passa e o rock estarão sempre identificados, tenha este a idade e o estatuto social que tiver. "It Will Be (Delivered)" e "Vexations" merecem igualmente destaque, mostrando que mesmo os pioneiros podem assimilar o que os seus herdeiros realizaram com o que deles aprenderam: vejam só se não parecem algo que os Pavement poderiam ter feito. Ou podem homenagear outros "mavericks", como "Pay Ops" ao recordar o grande Captain Beefheart. É assim que as coisas funcionam, queremos nós dizer: o círculo fecha-se para começar onde (não) acabou, com movimentos para trás e outros para diante, por vezes confundindo-se para que direcção de facto vai a marcha. A grande música não é de agora, é de sempre, o que quer dizer de antes e de depois. Como se fosse uma máquina do tempo.
(
01-06-2006)

1. Introduction
2. Breakout

3. Cruise Boat

4. Note To Selves

5. L.G.F.

6. A Tale of Two... Psy Ops

7. It Will Be (Delivered)

8. Puff

9. Greasy Street

10. Vexation

11. Elegy

12. When She Went

13. Swimming

14. Swerving

15. Bling Bling

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Red Crayola with Art & Language
«Kangaroo?»
CD Drag City/Dexter's Cigar, € 16,50


Red Crayola
«Coconut Hotel»
CD Drag City, € 16,50


Art & Language and The Red Crayola
«Corrected Slogans»
CD Drag City/Dexter's Cigar, € 16,5
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Chegámos finalmente ao ponto em que até a cultura pop tem uma história. Quando o próprio jornalismo musical (registo da actualidade imediata) ganha uma feição historicista - vidé a perspectiva utilizada pela revista britânica Wire -, é caso para dizer que algo está a mudar nesta área que lidava privilegiadamente com o efémero. O certo é que os últimos anos têm sido pródigos na reedição de obras históricas, como é o caso destes três registos daquele que é, muito provavelmente, o mais antigo dos grupos rock existentes - ainda que, convém que se diga, o único elemento fixo seja o seu mentor, o guitarrista, vocalista e compositor Mayo Thompson. Inútil será argumentar que as franjas experimentais do pop-rock, onde devemos situar os Red Crayola (ou Krayola, como mais tarde passaram a ser conhecidos), sempre estiveram sujeitas a um olhar (um ouvido) historicizante, dada a natureza mais duradoira das suas propostas, ou pelo menos o seu cunho inovador, que implica uma maior duração no tempo para solidificar as transformações operadas. Ainda que isso possa ser verdade, o certo é que mesmo a vanguarda da música popular obedece aos ritmos próprios da música popular, e esta tornou-se no objecto de uma análise diacrónica só possível porque os anos e as décadas passam e as realidades mudam, sendo necessário avaliar-lhes a evolução. O "enfant terrible" dos Sixties é hoje um respeitável senhor de cabelos grisalhos, se bem que não tenha perdido a excentricidade que norteia desde sempre as práticas abusivas a que sujeita a forma canção. O álbum mais extremo que os Crayola já gravaram - o segundo, "Coconut Hotel", de 1967 - só agora teve honras de suporte digital. Mesmo conhecendo a restante obra do grupo, ouvimos e não acreditamos: se hoje esta música nos parece bizarra, na época deve ter tido o efeito de uma bomba de neutrões. Aliás, nem foi levada a sério. John Coltrane, Albert Ayler e Ornette Coleman começavam a sê-lo no jazz, assim como Iannis Xenakis, Luciano Berio e Luigi Nono já o eram na "clássica" contemporânea, mas no rock este disco foi encarado como uma aberração. Porque tem uma forte incidência instrumental, prática pouco comum na altura, porque inclui elementos folk totalmente distorcidos e "brincar" com a tradição não era então muito bem aceite, e porque o seu nível de abstracção chega a obliterar qualquer conotação rock. Terá sido isso, no entanto, que motivou o interesse do colectivo de artistas Art & Language, cujos fundamentos políticos, além dos estéticos (e designadamente a abertura a uma intervenção sonora, que não apenas plástica), valorizavam precisamente a tónica contracultural dos Red Crayola. Os colaborativos "Corrected Slogans" e "Kangaroo?" são hinos ao socialismo radical, com dizeres e cantares marcados por um discurso marxista que mesmo a extrema-esquerda de hoje já não utiliza - veja-se, aliás, o caso em Portugal do Bloco de Esquerda, cujas intervenções procuram não ser muito ideológicas. Até os Art & Language dos pintores Michael Baldwin e Mel Ramsden são diferentes nos dias que correm. Marx morreu, os A&L adaptaram-se à sociedade pós-industrial, mas Thompson e os Crayola andam por aí.
(16-09-2005)

«Coconut Hotel»

1. Boards
2. Water Pour
3. 35 One-Second Pieces
4. Organ Buildup
5. Vocal
6. Free Guitar
7. One-Minute Imposition
8. Piano
9. Guitar

«Kangaroo?»

1. Kangaroo?
2. Portrait of V. I. Lenin in the Style of Jackson Pullock, Pt. 1
3. Portrait of V. I. Lenin in the Style of Jackson Pullock, Pt. 2
4. Marches No's 23, 24, 25
5. Born to Win (Transactional Analysis With Gestalt Experiments)
6. Keep All Your Friends
7. Milkmaid
8. Principles of Party Organisation
9. Prisoner's Model
10. Mistakes of Trotsky
11. 1917
12. Tractor Driver
13. Plekhanov
14. Old Man's Dream
15. If She Loves You

«Corrected Slogans»

1. Maharashtra
2. Keep All Your Friends
3. Imagination I & II
4. Coleridge Vs. Martineau
5. An Exemplification
6. Postscript to SDS' Infiltration
7. War Dance I & II
8. Ah Harangue
9. Ergastulum
10. The Mistakes Of Trotsky... Thesmophoriazusae
11. Louis Napoleon
12. Seven Compartments
13. Petrichenko
14. Don' Talk To Sociologists
15. What Are The Inexpensive Things The Panel ....
16. History
17. Organisation
18. It's An Illusion
19. Penny Capitalists
20. Plekhanov
21. Natura Facit Saltus

 

Red Sparowes
«At The Soundless Dawn»
CD Neurot Recordings, € 16,95

Formada por membros dos grupos Neurosis e Isis, esta é a superbanda que faltava ao pós-rock/pós-core. Parte Mogwai e parte Godspeed You! Black Emperor, a música - totalmente instrumental - de "At the Soundless Dawn" é de lenta digestão mas imediato reconhecimento para quantos esperam "walls of sound" e atmosferas carregadas de electricidade. "Noise" harmonizado tal como encontramos no primeiro álbum dos Sigur Ros, "Von", com os guitarrismos ascencionais que se tornaram distintivos do catálogo da Constellation, há nele algo de épico, ainda que seja o apocalipse o que anuncia, com títulos que mais parecem frases de uma novela de ficção científica como "Mechanical sounds cascaded through the city walls and everyone reveled in their ignorance" ou "A brief moment of clarity broke through the deafening hum, but it was too late". A agressividade do metal é um dos pilares deste disco, mas tudo evolui segundo os princípios paisagísticos de uns Cocteau Twins ou uns My Bloody Valentine, fase "Loveless". Não falta mesmo uma pedal steel para reforçar os ambientes nocturnos e sombrios, por vezes soando como um violoncelo. Quem gostou de "Panopticon", dos Isis, tem aqui uma óptima extensão do que já nesse CD é apresentado.
(29-07-2005)

1. Alone And Unaware, The Landscape Was Transformed In Front Of Our Eyes.
2. Buildings Began To Stretch Wide Across The Sky, And The Air Filled With A Reddish Glow.
3. The Soundless Dawn Came Alive As Cities Began To Mark The Horizon.
4. Mechanical Sounds Cascaded Through The City Walls And Everyone Reveled In Their Ignorance.
5. A Brief Moment Of Clarity Broke Through The Deafening Hum, But It Was Too Late.
6. Our Happiest Days Slowly Began To Turn Into Dust.
7. The Sixth Extinction Crept Up Slowly, Like Sunlight Through The Shutters, As We Looked Back In Regret.

 

Regina Spektor
«Soviet Kitsch»
CD+DVD Sire, € 19,50

Disco 1:
1. Ode to Divorce
2. Poor Little Rich Boy
3. Carbon Monoxide
4. Flowers
5. Us
6. Sailor Song
7. ***
8. Your Honor
9. Ghost of Corporate Future
10. Chemo Limo
11. Somedays

Disco 2:
1. The Survival Guide To Soviet Kitsch (A Short Film) (DVD)

 

The Residents
«Animal Lover»
2CD Mute Records, €20,50
«Not Available»
CD Euro Ralph, €15,50

"Animal Lover" é mais um álbum conceptual dos Residents numa altura em que já não se fazem álbuns conceptuais - uma característica individualizadora a juntar a outras, como o facto de insistirem em percorrer os caminhos da pop e do rock sem que, na verdade, seja pop e rock o que fazem, ou a particularidade de cultivarem o anonimato quando o que vai valendo por estes dias é o culto da personalidade. Pegando num dito de Sigmund Freud (o de que "os cães amam os seus amigos e mordem os seus inimigos, ao contrário dos homens, que têm a necessidade de misturar amor e ódio nas suas relações"), este novo trabalho tem como tema as semelhanças e diferenças entre os seres humanos e os animais, e dizem os próprios que estas peças foram totalmente baseadas nos ruídos produzidos por cigarras e rãs durante o acasalamento, mas é muito provável que tal não passe de mais um embuste, pois nada de audível nos conduz a tal conclusão nesta música inteiramente instrumental e de manipulação de estúdio (as partes vocais, por exemplo, surgem frequentemente distorcidas, e não se trata propriamente de um Vocoder). A farsa é mesmo uma estratégia criativa deste grupo da Califórnia que transformou a "amusia" (a incapacidade de reconhecer ou reproduzir sons musicais) num procedimento musical e cujas bizarras canções têm a bizarrice, precisamente, como objectivo. Este novo título assinala os 25 anos do lançamento de "Commercial Album", mas a verdade é que tem mais a ver com "Not Available", por sinal também agora disponível, do que com aquele disco constituído por peças de um minuto apenas. Não com o conceito nele aplicado (foi gravado em 1974 com a ideia de só ser tornado público quando os membros do grupo já não se lembrassem dele, assim concretizando a sua "teoria da obscuridade"), mas com o tipo de situações vocais e instrumentais que encontramos nos quatro assaltos à racionalidade que o integram. Há, de facto, muito de comum entre estes dois trabalhos e se alguns desvios os Residents experimentaram, a palavra de ordem deste projecto é agora a continuidade.
(08-04-2005)

 

The Residents
«Third Reich ‘n Roll Special Edition»
CD Mute, € 21,50
«Wormwood – Curious Stories From the Bible»

DVD Euro Ralph, € 22,95

A morte da rádio teve início na década de 1970 (pelo menos) e os estertores deste medium de comunicação e de difusão da música continuam até hoje a nível mundial. Uma das primeiras reacções a este lento processo de decomposição foi protagonizada pelo colectivo de músicos anónimos The Residents, sob a forma de um disco que tem tão de delirante e satírico (em versão “humor negro”) quanto de seminal, sendo uma das obras de referência da “sampling music”. Chama-se “Third Reich ‘n Roll”, data de 1976 e tem agora uma edição especial, com reprodução em “booklet” de luxo das imagens de choque então concebidas para o acompanhar. De choque porque a utilização de suásticas, e sua associação com o universo da pop “bubble gum”, ainda continua a incomodar muita gente. O trabalho, terceiro na linha de produção do grupo, é, bem entendido, uma crítica à tirania dos “tops” e das “play lists” e à tentativa, bem conseguida aliás, de homogeneização do gosto das massas, agora reforçada pela televisão. A este cenário atreveram-se os Residents, e logo nos primórdios do fenómeno, a acusar de fascismo. A capa, de resto, diz tudo, com Dick Clark, o “disc-jockey” que fez do rock uma música radiofónica, enfiado numa farda nazi. Quanto ao conteúdo, trata-se de dois longos temas de colagem de “hits” pop-rock, em que os originais recebem um tratamento que os vira do avesso, desmembra e deturpa, conseguindo o milagre de os tornar musicalmente interessantes. O quarteto de mascarados (nunca se lhes viu as caras) viriam agitar as águas mais uma vez com o projecto “Wormwood: Curious Stories From the Bible”, de 1999, um retrato do lado obscuro do Cristianismo. O DVD com o mesmo título é o documento de uma digressão que levou este álbum para os palcos, não na forma de um normal concerto (o último que deram foi em 1990), mas enquanto performance multimédia. De novo, a “banda mais influente de que ninguém ouviu falar” procede a uma revisão da cultura pop, surgindo esta criação como o reverso do que foi “Jesus Christ Superstar”, com electrónica em vez de guitarras eléctricas e uma recapitulação dos episódios mais violentos descritos pela Bíblia, desde dedos cortados a violações e decapitações.
(02-12-2005)

CD:
1. Swastikas on Parade
2.
Hitler was a Vegetarian

DVD:
1. Genesis (instrumental)
2. God's Business
3. Skull Speech 1
4. How To Get A Head
5. Mister Misery
6. Tent Peg in The Temple
7. Skull Speech 2
8. God's Magic Finger
9. Dinah and The Unclean Skin
10. Cain and Abel
11. Skull Speech 3
12. Burn Baby Burn
13. Fire Fall
14. (intermission)
15. King of Kings
16. Prayer/American Band
17. Skull Speech 4
18. Abraham
19. Bridegroom of Blood
20. Skull Speech 5

David
21. David's Dick
22. Bathsheba Bathes
23. Attitude is Everything
24. Hanging By His Hair
25. Judas Saves

 

RF & Lili De La Mora
«Eleven Continents»
CD Rowing At See, € 15,9
5

Juntando arranjos acústicos com vozes subtis introspectivas, "Eleven Continents" é a primeira produção do multi-instrumentista Ryan Francesconi (RF) (que actualmente faz parte da Ys Street Band, banda que acompanha Joanna Newsom nos seus concertos por todo o mundo, e que contribuiu para o EP “Joanna Newsom and The Ys Street Band”) e a vocalista Lili De La Mora.
No espírito desta colaboração, ambos decidiram convidar alguns amigos para contribuírem para este álbum. A inclusão de Fabiola Sanchez, vocalista dos Familiar Trees, acrescenta calor e um ambiente íntimo às letras, enquanto que a harpa de Joanna Newsom dá ênfase aos arranjos de violoncelo, viola, sopros e percussões de Francesconi. Ainda que esses arranjos e texturas sejam reminiscentes das suas edições sob a denominação RF, muito do lado electrónico desse projecto foi substituído pelas tonalidades quentes e sinceras de Lili De La Mora.
Ryan e Lili juntaram-se ao produtor Ken Negrete da Time Release Records de modo a moldar o som e a produzir o álbum. Essa colaboração expandiu-se quando a Time Release se comprometeu a editar o álbum, tendo Francesconi fundado uma subsidiária da sua Odd Shaped Case – a Rowing At Sea – para marcar este novo início. “Eleven Continents” exemplifica o som do que será a Rowing At Sea – riqueza nas texturas, no significado e nas intenções. Um ano de trabalho depois, surge um disco de canções que inspirarão o ouvinte.
Considerem esta produção como um convite à viagem, primeiro interior, de modo a descobrir aquilo que queremos, e depois exterior, encorajando-nos em levar avante os nossos planos.

(
24-08-2007)

"Em vez de ser um disco repetitivo, Eleven Continents é um disco coeso; em vez de ser um conjunto de canções aleatórias, o disco de estreia desta dupla é um registo onde cada canção parece pegar na anterior para, cuidadosamente, se afirmar de forma positiva." André Gomes in Bodyspace.net

"The result is music that moves efficiently without sounding hollow and artificial, music that is full of embellishment while sounding neither gaudy nor ostentatious." Jason Morehead in OpusZine

"Flecks of piano and percussion shine through the musky arpeggios, but for the most part, "Eleven Continents" is pristine and retiring, just a few vocal shrills and several minutes short of fitting in with Newsom's own oeuvre." Pitchfork

“Guitar-toting pixie and vocalist Lili De La Mora, Ken Negrete and various collaborators together play subtle dream pop based on spring and beauty, weaving cello and choral embellishments into their music, while at the same time symphonic textures are washed away with evocative pop melodies.” download.com

1. Through the Trees
2. Fences
3. Miles and Miles
4. Kings

5. Hundreds of Threads
6. Cherry Park
7. Fascinated
8. Newt Crossing
9. 11:11
10. Steep Ravine
11. Eleven Continents 

12. Lifetime
 

 

Sir Richard Bishop
«Polytheistic Fragments»
CD/LP Drag City, € 16,50/€ 12,50
PREÇO ESPECIAL ATÉ DIA 31 DE DEZEMBRO - €14,95 (CD)

Rick Bishop está no outro lado. A sua guitarra não chora baixinho (*) antes sangra com violência. No piano os acordes, mais sincopados, reivindicam Feldman ou mesmo Cage.
O «fingerpicking» de John Fahey deixou de fazer sentido e as influências da música cigana de Django Reinhard passaram à história. O rock dos míticos Sun City Girls faz agora parte do seu CV, para efeitos de «fundo de desemprego». Nada disso se torna necessário para a valorização de «Polytheistic Fragments» - um disco a adquirir para quem ainda vive, respira e gosta de ouvir músicas enquanto procura um outro lado.

Sugestões iniciais: "Cemetery Games" e "Saraswati".

(*) alusão ao clássico «While my Guitar Gently Weeps» de George Harrison.
(21-12-2007)

1. Cross My Palm With Silver
2. Hecate's Dream
3. Elysium Number Five
4. Rub Al Khali
5. Free Masonic Guitar
6. Cemetery Games
7. Quiescent Return
8. Saraswati
9. Tennessee Porch Swing
10. Canned Goods And Firearms
11. Ecstasies In The Open Air

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Richard Youngs
«The Naive Shaman»
CD Jagjaguwar, € 15,50

O John Fahey inglês está de volta e com um disco que faz as pazes com o seu lado mais experimentalista, o de “Advent”, o seu primeiro opus datando de 1988, com canto modal, muita electrónica lo-fi (ah, estes velhinhos “loops”...), uma guitarra baixo que parece perfurar-nos o cérebro e o mesmo kazoo que ele utilizou em “New Angloid Sound”, de 1992. Já tinhamos saudades deste som e deste tipo de aproveitamento da tecnologia de estúdio como um instrumento mais de criação musical. Vão a “Spaced” dos Soft Machine e tracem uma bissectriz: a abordagem é a mesma e tão eficaz em termos de resultados que não compreendemos porque não é mais utilizada, à excepção, talvez, do que se passa no dub, cuja natureza é precisamente essa, manipular o que foi gravado (é o que se vai fazendo também nas hostes digitais, mas essa é outra história). “The Naive Shaman” aligeira os recentes compromissos de Richard Youngs com a folk e regressa a um formato free rock que já fazia falta, ainda que, como é sua característica, com um enfoque minimal e repetitivo que torna mesmo as suas intervenções vocais em mantras encantatórios. Há algo neste disco do “Rock Bottom” de Robert Wyatt, seja nos usos da voz como nos elementos pró-jazzísticos e na forma como estes se mesclam com uma geral ambiência psicadélica. Não que estejamos perante um álbum “retro” – aliás, esta música está mais à frente do que a maior parte do que se vai fazendo hoje na área do rock –, mas é por demais evidente que continua a linhagem prog na sua versão “art rock”. De resto, as suas celebradas parcerias com os nipónicos Keiji Haino e Makoto Kawabata, dos Acid Mothers Temple, especialistas em renovar as coordenadas vindas do passado, decorrem precisamente desse posicionamento. E o mesmo se pode dizer do que fez com a Vibracathedral Orchestra e com os Sunroof!, colectivos que não podemos propriamente designar como “nostálgicos”. A vanguarda só existe porque tem atrás uma retaguarda.
(07-10-2005)

1. Life on a Beam
2. Illumined Land
3. Sonar in My Soul
4. Once It Was Autumn
5. Summer's Edge II

 



Robert Ashley & Paul De Marinis
«In Sara, Mencken, Christ And Beethoven There Were Men And Women»
CD+Livro Lovely Music, €24,50

Outrora director e fundador do ONCE - lendário festival de artes perfomativas contemporâneas nos anos 60 e do grupo com o mesmo nome -, e co-director do centro de música contemporânea da vanguardista Universidade de Mills, Robert Ashley é sobretudo conhecido como o visionário que levou a ópera até à televisão e o criador de um novo género de obra operático, frequentemente apelidado de New Narrative Opera, donde são exemplos «Perfect Lives» (aclamada pelo Village Voice como a primeira ópera americana), «Atalanta (Acts Of God)», «e/L Aficionado» ou, mais recentemente, «Dust» (apresentada entre nós na Gulbenkian). Contudo, «In Sara, Mencken, Christ And Beethoven There Were Men And Woman», originalmente lançada pela italiana Cramps em 1974, não se encontra inserida em tal género, antes figura ao lado de «Automatic Writing» como uma das mais aclamadas composições de Ashley, em parceria com Keith Waldrop e Paul DeMarinis, baseada na obra homónima do poeta John Barton Wolgamot, para muitos imortalizada através do tema dos Tortoise. Um longo mantra de 128 estrofes, cada uma das quais elaborada a partir da mesma frase, aonde são introduzidas quatro variáveis, podendo se tratar de nomes, grupos ou construções de nomes e uma quarta variante formada a partir de um advérbio, lidas por Ashley e posteriormente montadas, para que entre cada estrofe não houvessem pausas ou tempos de respiração. A Paul De Marinis, coube o difícil mas conseguido papel de musicar o poema através de sete combinações modulares de impulsos programados, executadas através de um sintetizador Moog. Demasiado confuso? Bem, o processo de composição é ainda explicado ao detalhe em parte das 110 páginas do livro que acompanha esta luxuosa edição. Mas o resultado ficou para a história, e é hoje, ouvido à luz da pós-modernidade uma obra imensa. Ou não fosse Robert Ashley um dos maiores e originais compositores da história da música contemporânea.

 

Robert Henke
«Layering Buddha»
CD Imbalance Computer Music, € 15,95


A Buddha Machine do duo FM3 está rapidamente a tornar-se num fetiche da electrónica experimental. E tanto assim que Robert Henke lhe dedica todo um álbum, o seu novo “Layering Buddha”. Pegou nos nove “loops” da caixinha de música made in China, converteu-os (para captar sinais até 48 kHz), filtrou-os e tratou-os, com muita síntese granular pelo meio, e a partir deles construiu os temas que aqui ouvimos, autênticas peças de escultura sonora que designa simplesmente como “Layers” e que consistem, regra geral, na exposição de detalhes que não eram audíveis nos originais. O resultado tem um inesperado carácter orgânico, tendo em consideração que se trata de “computer music”, o que poderá explicar-se pela condição “lo-fi” das fontes utilizadas. Se umas vezes parece estarmos a ouvir uma chusma de insectos, noutras as construções edificadas aproximam-se do sinfónico. Os procedimentos não foram muito diferentes dos utilizados por Henke no seu “Signal to Noise”, este baseado em sons do sintetizador Yamaha SY77 FM, mas o produto final é ainda mais interessante. E diferente do que faz sob a designação Monolake, no sentido de que as suas explorações têm nesta obra um ainda maior enfoque. Mais curioso ainda é o facto de Robert Henke ter utilizado estruturas permutáveis, o que quer dizer, pelo menos teoricamente, que são perpétuas. O início e o final de cada uma é um artifício exigido pela acomodação no suporte CD. Estilisticamente, estamos em pleno domínio do que se vem chamando de “dark ambient”, o que, aliás, é assumido pelo próprio músico. O certo é que há passagens algo perturbantes, ou pelo menos com uma inquietude que nos deixa alerta.
(30-11-2006)

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Robert Wyatt
«Comicopera»
CD Domino, € 17,9
5

É sempre complicado comentar sobre os álbuns de Robert Wyatt, e "Comicopera" não é excepção. Músico de grande fama, fundador dos Soft Machine, com uma vastíssima carreira a solo, Wyatt é uma lenda viva do último quarto do séc.XX. "Comicopera", uma tragicomédia dividida em três partes, é o seu novo disco três anos após "Cuckooland", e é também uma obra sobre a sua vida, pessoal, espiritual e política. Inclui as colaborações habituais (Brian Eno, Phil Manzanera, Paul Weller, entre outros) e confirma mais uma vez a melodiosa e intrigante voz de Wyatt a interpretar temas invulgares, sejam eles sobre a sua guerra com o alcoolismo, sobre batalhas longínquas e próximas ou sobre a vida a dois. Dedicando a terceira parte do álbum à língua de Cervantes, Wyatt fecha em grande redescobrindo o tema "Hasta Siempre Comandante", um hino a Che Guevara, mas também uma versão que fica gravada na nossa memória. Hasta Siempre...
(12-10-2007)

"The rest of us will simply be dying to hear what the great man does next, one gets the feeling that 'Comicopera' is just the beginning of a very rewarding relationship. Absolutely essential purchase - and without any question one of the year's very best albums. ESSENTIAL PURCHASE!"  Boomkat

1. Stay Tuned
2. Just as You Are
3. You You
4. A.W.O.L.
5. Anachronist
6. Beautiful Peace
7. Be Serious
8. On the Town Square
9. Mob Rule
10. Beautiful War
11. Out of the Blue
12. Del Mondo
13. Cancion de Julieta
14. Pastafari
15. Fragment
16. Hasta Siempre Comandante

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Robert Wyatt & Friends
«Theatre Royal Drury Lane 8th September 1974»
CD Hannibal, € 18,5
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Porque estamos em tempo de fazer história, o “bootleg” do concerto que o ex-Soft Machine deu um ano depois de ter caído da varanda de sua casa e de ter ficado preso a uma cadeira de rodas vê finalmente a luz do dia numa edição oficial, após ter sido remisturado e remasterizado. Estava-se a 8 de Setembro de 1974 e Robert Wyatt rodeou-se de amigos para interpretar ao vivo o recentemente saído “Rock Bottom” e outros temas do seu percurso pelos SM e pelo grupo que formou após a saída destes, Matching Mole. Eram eles Nick Mason (Pink Floyd), Hugh Hopper (Soft Machine), Fred Frith (Henry Cow), Dave Stewart (Egg, Hatfield, National Health), Ivor Cutler, Mike Oldfield (sim, esse mesmo, o de “Tubular Bells”) e alguns músicos ligados ao jazz e à improvisação, como o sul-africano Mongezi Feza (Soul Notes, Brotherhood of Breath), Gary Windo e Julie Tippets (Mujician), entre outros. A actuação no Theatre Royal Drury Lane foi memorável, até porque entretanto o cantor e “songwriter” que antes fora sobretudo um baterista tomou a opção de abandonar os palcos, dado o desgaste físico a que estes o obrigavam. E quando se está prestes a comemorar o primeiro aniversário da morte do célebre radialista John Peel, ei-lo que o ouvimos aqui a apresentar o evento com o seu proverbial humor. O curioso deste documento histórico é verificar que, para quem se afastou dos SM devido ao rumo tomado pelo projecto no sentido do jazz-rock, o qual lhe dava menos ou nenhum espaço para a sua voz, as canções de Wyatt são tocadas num estilo acentuadamente “jazzy” (atenção aos magníficos solos de Windo e ao que Mason faz com as baquetas!). O som continua a não ser o melhor, apesar das melhorias efectuadas, mas permite-nos ter um pleno entendimento do quão especial foi esta apresentação pública. As vibrações positivas que atravessam esta música confluem no final “I’m a Believer”, tema com que esta estrela alternativa do rock declara a sua confiança no futuro, não obstante a partida que o destino lhe pregou. E que futuro tem sido!
(17-11-2005)

1. Introduction By John Peel
2. Dedicated To You But You Weren't Listening
3. Memories
4. Sea Song
5. A Last Straw
6. Little Red Riding Hood Hit The Road
7. Alife
8. Alifib
9. Mind Of A Child
10. Instant Pussy
11. Signed Curtain
12. Calyx
13. Little Red Robin Hood Hit The Road
14.
I'm A Believer

 

Robin Guthrie & Harold Budd
«After The Night Falls»
CD Darla, € 15,9
5

Robin Guthrie & Harold Budd
«Before The Day Breaks»
CD Darla, € 15,9
5

Dois discos editados simultaneamente poderá parecer presunçoso, mas a ideia é propositada, e por isso não faria sentido doutro modo. «After The Night Falls» e «Before The Day Breaks» marcam o regresso de Guthrie e Budd após o já lendário «The Moon and The Melodies» de 1986 (também com os restantes membros dos Cocteau Twins Elisabeth Frazer e Simon Raymonde), bem como a banda sonora de «Mysterious Skin» de 2005. Sendo dois trabalhos distintos e gravados em 2006, ambos os discos reflectem a vasta experiência de Budd e a originalidade de Guthrie. O piano tratado de Budd completa-se na perfeição com a guitarra atmosférica de Guthrie, criando paisagens sonoras planantes e ambientes relaxantes filmícos. «After The Night Falls» e «Before The Day Breaks» representam também dois marcos: a primeira vez que ambos os artistas trabalham em dueto e muito provavelmente a primeira vez que dois discos foram editados simultaneamente e que um é quase o reflexo do outro. Não só as imagens das contra-capas se alinham, mas também os nove temas de cada disco se complementam musicalmente e nos títulos: “How Distant Is Your Heart” em «After...» é “How Close Your Soul” em «Before...», ou “Turn Off The Sun” no primeiro é “Turn On The Moon” no último.
Estes dois álbuns aguentam-se por si só independentemente, mas devem ser escutados em grupo. Nenhum deles é uma grande surpresa destes dois artistas, mas marcam o regresso de um projecto que poderá dar frutos no futuro. Assim o esperamos.

(
03
-08-2007)

«After The Night Falls»:
1. How Distant Is Your Heart

2. Avenue Of Shapes

3. Seven Thousand Sunny Years

4. She Is My Strength

5. Inside A Golden Echo

6. Open Book

7. And Then I Turned Away

8. The Girl With The Colorful Thoughts

9. Turn Off The Sun

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«Before The Day Breaks»:
1. How Close Your Soul

2. A Formless Path

3. A Minute, A Day, No More

4. She Is My Weakness

5. Outside, Silence

6. Hidden Message

7. I Returned Her Glance

8. My Monochrome Vision

9. Turn On The Moon

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Rodrigo Amado / Kent Kessler / Paal Nilssen-Love
«Teatro»
CD European Echoes, € 13,50

Pode ser que o que aqui ouvimos pouco tenha mais que ver com o conceito de “jazz de câmara” proposto pelo festival Spectrum, realizado em 2004 no Porto (Teatro Nacional de S. João), do que o facto de ser apresentado por um grupo acústico de pequenas dimensões, mas a temática é, sem dúvida, teatral. A capa do disco é a reprodução de uma pintura do pai do saxofonista, Manuel Amado, em que vemos um palco e uma plateia, e a dedicatória vai para o seu avô, Fernando Amado, dramaturgo, director de grupos de teatro amador e crítico. Mais uma vez, Rodrigo tem a melhor das companhias, no caso as do contrabaixista americano Kent Kessler e do baterista norueguês Paal Nilssen-Love, dois parceiros habituais desse grande nome do jazz de hoje que é Ken Vandermark. Nessa mesma tarde, o trio gravou no próprio local do concerto o que ouvimos neste disco, uma “fire music” que não seria possível nos aposentos de um rei, mesmo quando a combustão é lenta. Ainda que sem público, esta é uma música “de cena”, fortemente performativa e com uma especial tónica na expressão / comunicação. O músico português não é, de todo, o equivalente nacional de Vandermark, até porque este raramente dispensa a ancoragem na composição, sua ou alheia, e Rodrigo Amado tem-se notabilizado por nunca utilizar estruturas previamente estabelecidas. Partilha, no entanto, com este um voraz interesse por diversos géneros e estilos e a mesma vontade de fazer música de hoje com o espólio do jazz, em particular as tradições do free e do hard bop. Nas revistas especializadas internacionais começa-se a falar dele, e com toda a justiça, considerados o bom som que possui, seja no tenor como no barítono (e no alto, que não toca infelizmente nestas improvisações), a técnica que desenvolveu e a intuitiva criatividade de que dá provas, com matriz na actual cena nova-iorquina – coisa, aliás, não muito habitual num europeu. O mais importante, de qualquer modo, é o facto de nos transmitir, na prática e no concreto, que a música é uma “stage art” e o músico um actor-encenador, algo que demasiadas vezes se esquece. Aprovadíssimo.
(16-03-2007)

1. The Iconoclast
2. Pandora's Box
3. Teatro
4. Chasin' Pirandello

 

Roedelius
«Works (1968-2005)»
2CD Groenland, € 30,50

Compilação de toda uma vida dedicada à música, este “Works” tem o mérito de não ser o “best of” de Hans Joachim Roedelius, mas um documentário sobre o que fez ao longo de quase quatro décadas, incluindo registos dos tempos dos Kluster e dos Cluster, um dos mais seminais grupos do chamado “krautrock”, que não é possível encontrar noutras edições discográficas – caso, designadamente, de actuações ao vivo no final da década de 1960 e ao longo dos anos 70. A mostra vai do experimentalismo radical do colectivo que manteve com Dieter Moebius e Conrad Plank até às suas mais recentes obras entre o “easy listening” e o bizarro para piano, pelo meio deixando exemplos da sua electrónica de acentuação rítmica ou carácter “espacial”. É a diversidade de Roedelius, pois, que aqui está representada, podendo o “melhor” de um dos seus investimentos ser menos valorizado por quem ouve do que outras das suas realizações, dependendo do gosto e das predilecções de cada um. Ainda assim, ele deu um rótulo a toda a sua produção musical: Roedeliusmuzik A selecção, do próprio compositor e multi-instrumentista, é, pois, muito bem pensada e dá-nos uma perspectiva bastante abrangente dos seus contributos para o património cultural da humanidade – o que podemos dizer sem grande exagero dado tratar-se de quem se trata. Encontram neste duplo álbum os sincopados Harmonia (com Michael Rother, dos Neu!, a seu lado), exemplos da colaboração que manteve com Brian Eno (lembram-se de “Before and After Science”?), “freakouts” tendencialmente abstractos e simples, mas eficazes, melodias em nome próprio, inspiradas em Bach e nas sonatas clássicas. A música mais extrema que fez resultou de uma vida nada fácil: passou em criança pelo terror nazi e pelo bombardeamento aliado, antes de fazer 18 anos foi alistado compulsivamente pela volkspolizei da RDA (vivia no lado Leste de Berlim), de que desertou fugindo para o parte ocidental da cidade e, mais tarde, ao tentar visitar a família, foi preso pela Stasi, a polícia política do regime comunista, sob a acusação de espionagem. Daí a pouco formaria com Conrad Schnitzler um colectivo de não-músicos, denominado Gerrausche (Barulhos), que colocou em prática uma máxima de Joseph Beuys, o de que “qualquer um pode ser artista”, e o certo é que se tornou definitivamente num, depois de ter sido massagista, jardineiro e enfermeiro. Esse projecto equivalente aos Musica Elettronica Viva e aos AMM só não consta da presente recolha porque, infelizmente, nunca foi gravado. Já o seu duo de “art of noise” com o mesmo Schnitzler, denominado Human Being, é lembrado nesta preciosidade lançada numa magnífica, embora pouco prática, embalagem de cor prateada. Entretanto, Roedelius já passou o marco dos 70 anos de idade e continua activo, inventando novas estruturas no teclado do seu Bosendorfer.
(
22-06-2006)

Disco 1:
1. Harmonia – Monza, «Harmonia De Luxe», 1975

2. Cluster – Hollywood, «Zuckerzeit», 1974

3. Cluster & Eno – Ho Renomo, «Cluster & Eno» 1977

4. Harmonia – Dino, «Musik Von Harmonia», 1974
5. Roedelius – Human Being/Excerpt, «Live Im Zodiak», 1968
6. Roedelius – Regenmacher, «Durch Die Wueste», 1978
7. Cluster - Oh Odessa, «Cluster Curiosum», 1981
8. Roedelius – Digital Love, «Digital Love», 2002
9. Cluster - Excerpt, «Cluster 71»,1971
10. Lunz Live – Excerpt, from the MoreOhr Less Festival 2005
11. Roedelius – Poetry, «Pink Blue And Amber», 1996
12. Roedelius – Freudentanz, Wenn Der Suedwind Weht, 1981
13. Kluster – Klopfzeichen Excerpt, 1970
14. Roedelius - Amerika Recycled, 2004
15. Roedelius – Rue Fortune, «Jardin Au Fou», 1979

Disco 2:
1. Roedelius – Zerrissen Zwischen Illusionen, «Lieder Vom Steinfeld», 1998
2. Roedelius – Isleta, «Aquarello», 1998
3. Roedelius – By This Road, «Before & After Science», 1977
4. Cluster – Sowiesoso/excerpt, 1974
5. Roedelius – Twilighttide, «Tace», 1993
6. Roedelius – Einfach So, «Piano Piano», 1991
7. Lunz – Dew Climbs feat. Half Cousin, «Lunz-Reinterpretations», 2005
8. Roedelius – Imogen Remix by Imagine Imagine, «NOH1», 2005
9. Roedelius – Gewiss, «Sebstportait I», 1978
10. Cluster – Emmental, «Apropos Cluster», 1990
11. Kluster – Kluster & Eruption/Excerpt, 1971
12. Roedelius – Persistence Of Memory/Excerpt, 2002
13. Roedelius – Gefundene Zeit, «Gift Of The Moment», 1984
14. Roedelius – Voran, «Selbstporait VII», 1990
15. Roedelius – Blueblut, «Roedeliusweg», 2000
16. Roedelius – First Lesson, «Aqueous & Roedelius», 1997

 

Róisín Murphy
«Ruby Blue»
CD Echo, €16,95

Tudo na vida funciona como uma fila de dominós a tombar, um após outro. Os Moloko, grupo em que Róisín Murphy cantou, teve início quando esta tentou engatar Mark Brydon num bar perguntando-lhe se ele gostava da sua "sweater" justinha (sim, é mesmo por causa disso que o primeiro álbum daquele projecto electro-pop se intitula "Do You Like My Tight Sweater?" e o certo é que os dois acabaram por casar, para mais tarde se separarem), e Matthew Herbert surge neste "Ruby Blue", primeiro álbum a solo da dita, porque este nome cimeiro da electrónica fez uns remixes da música dos Moloko. E se a voz de Róisín surge sensual como sempre neste disco, a colaboração com Herbert levou-a para territórios que nunca antes explorara, ainda e sempre sob o signo da pop e da electrónica segundo o modelo house, mas com uma encenação musical que lhe era totalmente inédita e que por vezes parece até um jazz New Orleans digitalizado, com um balanço swingante e situações composicionais pouco comuns, senão mesmo bizarras. No início, estas canções não foram mais do que experiências de sonorização dos mais diversos objectos - um simples bloco de notas a bater num microfone, por exemplo, mas também despertadores, capacetes, ventoinhas -, que o seu parceiro de ocasião (neste caso no estúdio, que não na cama - pensamos nós, dado o seu casamento feliz com a cantora Dani Siciliano) samplou de forma a obter aquilo que ouvimos. Sem intencionalidade, antes aproveitando o acaso e os acidentes, e sem grande trabalho de manipulação, convém que se acrescente, tanto assim que muitas coisas foram mesmo gravadas ao primeiro "take". Tematicamente, as letras celebram o verdadeiro amor (ela ainda acredita em histórias de fadas) e lamentam o passado de "one night stands" e perda de rumo. Esta reencontrada candura de adolescente reflecte-se em "Night of the Dancing Flame", que termina sob a forma de uma valsa. Não sem antes ter passado pelo rugir de trompetes e a evocação de Josephine Baker nos anos loucos de Paris...
(01-07-2005)

1. Leaving the City
2. Sinking Feeling
3. Night of The Dancing Flame
4. Through Time
5. Sow Into You
6. Dear Diary
7. If We're in Love
8. Ramalama
9. Ruby Blue
10. Off On It
11. Prelude to Love in The Making
12. The Closing of The Doors

 

RTX
«Western Xterminator»
CD Drag City, € 16,50


RTX são os Royal Trux sem Neil Hagerty, e isso nota-se neste novo álbum, o segundo da fórmula. Mais “mainstream” do que alguma vez foi e agora centrado em torno de Jennifer Herrema, o grupo surge-nos com o formato do hard rock mais clássico, acusando mesmo semelhanças com Aerosmith ou Van Halen! Não se deixem enganar pela faixa-título que abre o disco, um tema psicadélico onde até se ouvem tambores à maneira dos Amon Duul, nem com a canção de despedida, a quase “prog” “Rats Will Kill”, com sintetizadores e tudo – o resto é um regresso às raízes “bluesy” do rock, com Herrema a reivindicar o título de ídolo vocal feminina sobre uma base de guitarras à desfilada. Ídolo, dissemos? Vão à net e leiam o que ela diz sobre as suas botas de pele de cobra e as lojas onde compra a roupa. Voz e imagem: ela tem tudo o que precisa. Rock is dead, long lives rock.
(02-03-2007)

1. Western Xterminator
2. Balls To Pass

3. Black Bananas
4. Dude Love
5. Knightmare And Mane
6. WO WO Din
7. Money Will Roll Right In
8. Restoration Sleep
9. Last Ride
10. Rat Will Kill

 


RTX
«Speed To Roam»
MCD Drag City, €9,50

Depois de um álbum que em 2004 marcou a transição da fórmula Royal Trux para os actuais RTX, "Transmaniacon", eis que nos chega um EP de confirmação da nova fase do grupo de Neil Haggerty e Jennifer Herrema, mais pop, decididamente, mas com o "punch" do rock de guitarras (Jaimo Welch e Haggerty brilham e resplandecem em pequenos solos que condensam as longas exibições guitarrísticas do psicadelismo dos anos 1960/70) a prescindir das electrónicas anteriormente utilizadas. A confirmação feita pelo palco, pois esta edição integra versões "live" de temas daquele CD. Punk e metal somam-se nas barragens de distorção que envolvem os gritos e lamentos de Herrema, uma vocalista da melhor linha Courtney Love, por vezes parecendo mesmo um Ozzy Osborne feminino. Aliás, estes RTX são bem a súmula da história do rock: ouvimo-los e pressentimos os fantasmas dos New York Dolls, de T. Rex, dos Motley Crue, dos Dinosaur Jr., até dos mais recentes Queens of the Stone Age ou de certas coisas de P.J. Harvey. Os RTX são como que o cavalo de Tróia dos Royal Trux numa nova realidade do rock em que encontramos Yeah Yeah Yeahs, The Strokes ou White Stripes, uma realidade definida pelo retorno do género à sua matriz "garage". Digamos mesmo que são o elo que permite ao "novo" fundir-se com o "clássico", ressuscitando uma música que alguns garantiam estar moribunda - the good old rock and roll.
(24-03-2005)

 

Ryoji Ikeda
«Dataplex»
CD Raster-Noton, € 15,95


Lembram-se de quando se acusava de “formalismo” a obra de arte que utilizava como título a sua própria condição, como por exemplo o disco de uma formação instrumental eléctrica intitular-se, precisamente, “Electric”? Pois esses tempos já lá vão, e agora uma música que se faça com dados informáticos ou informatizados não musicais pode receber o nome de “Dataplex”, e a série de que é o primeiro tomo chamar-se “Datamatics”, não querendo isso significar mais nada senão a tradução prática de um conceito. É o que se passa com o oitavo álbum de um dos mais sólidos, desafiantes e assumidos conceptualistas da presente electrónica, Ryoji Ikeda. O disco começa com a transposição para áudio, em bruto, desses mesmos dados, e as frequências ouvidas vão ganhando complexidade, estrutura e ritmo (um factor importantíssimo no trabalho deste membro da troupe Dumb Type), ou seja, musicalidade, à medida que se avança no percurso proposto, ainda que segundo os parâmetros minimais a que nos habituou o japonês. No final, depois de súbitas erupções e de buracos negros, voltamos aos sinais sonoros abstractos, com a possibilidade de, dependendo do leitor de CDs que tivermos em casa, alguns curiosos acidentes poderem ocorrer com o nosso aparelho, em caso algum o deixando, no entanto, em perigo. É curioso, o que está implícito nesta encenação da “panne”, transmitindo-nos a mensagem de que, mesmo em construções rigorosamente matemáticas, mesmo em contexto de implacabilidade tecnológica, o acaso, a disfunção, chamem-lhe o que quiserem, é não só uma eventualidade mas algo que faz parte da mesma lógica que rege o que nos parece mecânico e programado – pelo menos até percebermos que não há nem caos nem determinismo no mundo dos dados, mas apenas fluxo de zeros e uns, além ou aquém da ordem e da desordem. Parece-vos tortuoso, este relato? Oiçam o novo Ikeda e verifiquem in loco do que estamos a falar.
(
07-07-2006)

1. Data.index
2. Data.simplex
3. Data.duplex
4. Data.triplex
5. Data.multiplex
6. Data.complex
7. Data.hypercomplex
8. Data.googolplex
9. Data.microhelix
10. Data.superhelix
11. Data.minimax
12. Data.syntax
13. Data.telex
14. Data.flex
15. Data.reflex
16. Data.convex
17. Data.vertex
18. Data.vortex
19. Data.matrix
20. Data.adaplex

 

Ryuichi Sakamoto
«Chasm»
CD KAB America, € 16,50


1. Undercooled
2. Coro

3. War & Peace

4. Chasm

5. World Citizen - I Won't Be Disappointed/Looped Piano

6. Only Love Can Conquer Hate

7. Ngo/Bitmix
[New Balance CM Theme Song]
8. Break With

9. +Pantonal

10. 20 Msec.

11. Laménto

12. World Citizen/Re-Cycled

13. Song

14. Word

15. Seven Samurai - Ending Theme

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Ryuichi Sakamoto
«Bricolages - Chasm as Interpreted By: Alva Noto, C.Armstrong, Cornelius, Fennesz, etc.»
CD KAB America, € 16,50


Colecção de remisturas de nomes de primeiro plano como Fennesz, Alva Noto, Taylor Dupree, Craig Armstrong, Cornelius e Steve Jansen (dos extintos Japan), entre outros, do conteúdo do anterior “Chasm”, já por si marcado pela estética digital, “Bricolages” leva Ryuichi Sakamoto ainda mais para o interior do universo da electrónica. Ele que começou precisamente por aí com a Yellow Magic Orchestra, afastando-se para uma dedicação intermitente ao piano e uma especial atenção às tradições populares de várias regiões do globo, numa vertente do seu percurso que ficou conhecida como “neo-geo”, título de um dos seus discos, e que teve ainda recentemente um novo episódio, com a interpretação das canções de António Carlos Jobim em parceria com o casal Morelenbaum*. Entre a experimentação, a pop, a “club music” e o ambientalismo, este álbum ilustra uma vez mais um antigo propósito de Sakamoto: “Deitar abaixo as barreiras entre géneros, categorias e culturas.” Entregar os temas de “Chasm” a músicos tão distintos para que dessem a sua própria perspectiva dos mesmos faz parte dessa estratégia e pelo que ouvimos resulta plenamente. Aliás, já no disco que está na origem deste que agora temos entre mãos o também actor procurou a companhia de figuras que representam o passado (Haruomi Hosono e Yukihiro Takahashi, dois antigos membros da YMO) e o presente (Ryoji Ikeda) da electrónica, assim atestando que o seu objectivo é mesmo fechar o ciclo, completar o presente com o que ele próprio fez há mais de 30 anos. As referências aí encontradas relativamente a práticas actuais nesta área são muitas, indo dos Oval a Raster-Noton, mas o certo é que “Bricolages” vai mais longe na inserção da música de Sakamoto no fenómeno electro nascido à beira das pistas de dança e por vezes até ocupando-as sem quaisquer preconceitos. Influenciado, segundo ele mesmo, por Claude Debussy, John Cage e Steve Reich, a principal característica da obra deste polifacetado artista é o não reconhecimento de distinções entre alta cultura e cultura de rua. Assim, se Cage seria incapaz de encher o Coliseu dos Recreios, Ryuichi Sakamoto é, e enche.
*Entretanto, soubemos que o músico japonês anda especialmente interessado em António Chainho, o mestre da guitarra portuguesa, podendo daí resultar uma colaboração.
(22-06-2006)

1. War & Peace (AOKI Takamasa Remix)
2. Undercooled (Skuli Sverrisson Remix)

3. War & Peace (Cornelius Remix)

4. 20 msec. (Fennesz Remix)

5. Undercooled (Alva Noto remodel)

6. World Citizen (Taylor Deupree Remix)

7. Only Love Can Conquer Hate (snd. Remix)

8. Seven Samurai (Richard Devine Remix)

9. Word (Rob Da Bank & Mr. Dan Remix)

10. 20 msec. (Craig Armstrong Remix)

11. NGO/bitmix (Slicker Remix)

12. Break With (Steve Jansen Remix)

13. Motopiate (Thomas Knak)

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Saint Etienne
«Finisterre - A Film About London By P.Kelly and K.Evans»
DVD Plexifilm, 23,95


Se pensa que vai encontrar neste filme os “clips” ou um registo ao vivo do álbum com o mesmo título deste grupo britânico baptizado segundo a equipa de futebol francesa que já foi campeã da Europa, tire daí a ideia. O DVD “Finisterre” tem uma total autonomia em relação ao disco da Mantra, a editora que ganhou fama com discos de Natacha Atlas, Fun‘Da’mental, Prophets of Da City, Bim Sherman, Six By Seven, Muki e Gorkys Zygotic Mynci. Se a música de Sarah Cracknell e dos ex-jornalistas musicais Bob Stanley e Pete Wiggs é a que se vai ouvindo ao longo do documentário, e se este é o resultado das pessoais visões de Londres por parte dos três “electropoppers” (num exemplo claro de como se vê uma cidade segundo a subjectividade de quem olha, sendo esta no caso definida pela música), o projecto ganhou total autonomia. A finisterra de que se fala é precisamente a capital inglesa, arrancada do nevoeiro e revelada na sua contraditória diversidade. Os realizadores, Paul Kelly e Kieran Evans, falam mesmo em “drama psicogeográfico”: graffitis, sinalizações, avisos e posters dão vida às paredes, inscrevendo estas com usos e memórias, e as imagens sobre os telhados da metrópole revelam-nos numa mesma cena o que definha e morre (as zonas degradadas dos subúrbios) e o que nasce ou se rejuvenesce (por todo o lado vemos os guindastes da construção civil). E quando ficamos fixados no geometrismo da arquitectura e nos vestígios da ocupação humana, são pessoas mesmo o que o filme nos mostra: crianças e adultos em posições estáticas, fixando a câmara como se à espera de algo. Os Saint Etienne apresentam-se, assim, como o produto de uma realidade urbana específica mas complexa, o que não deixa de ser curioso, dado serem originários de Croydon, no Surrey. Surgidos sob influência da acid house dos anos 1980, foram no início da década que se seguiu pioneiros de um híbrido que aliou a electrónica de dança com a canção pop “indie”. “De um lado havia os Stone Roses e os Happy Mondays e do outro S-Express e Bomb the Bass. Pareceu-nos que podíamos misturar os dois mundos, e se nós não o fizéssemos alguém acabaria por o fazer, pelo que seguimos em frente”, lembra Stanley. Com o virar do milénio acrescentaram a vertente ambiental que agora os define, acentuando ainda mais o carácter conceptual do seu projecto, algo que só poderia vir da cabeça de dois críticos. Com uma sonoridade “retro” sempre alusiva à “swinging London”, continuaram a entender a música como festa, apesar de a terem levado das discotecas para as “coffeehouses”. Flirtaram com o jazz e a música brasileira (quem não os ouviu neste comprimento de onda, imagine Astrud Gilberto a cantar com os Pizzicato Five), introduziram ritmos hip-hop e atreveram-se até a algum experimentalismo. Entre outros materiais, “Finisterre” inclui como extras sete percursos londrinos aconselhados pelos Saint Etienne e ensaios de Bob Stanley, do escritor Michael Bracewell e dos jornalistas Pete Paphides, Sukhdev Sandhu e Gail O’Hara sobre a urbe que já foi o epicentro de um império e é hoje um exemplo de cosmopolitismo.
(
24-03-2006)

 

The Salsoul Orchestra
«The Anthology»
2CD Suss'd Records, €19,95

Um bocadinho de revisionismo não faz mal a ninguém neste compasso de espera pela "next big thing". Enquanto aguarda pelos novos movimentos desse ser vivo chamado música, dê uma escutadela a esta compilação da que foi, certamente, a mais importante orquestra do "disco sound" de meados da década de 1970 até ao início da seguinte. Dirigida pelo vibrafonista de jazz Vincent Montana Jr. nos primeiros anos (o primeiro CD é-lhe dedicado), a Salsoul Orchestra era a "orquestra da casa" da Salsoul Records, e à semelhança do catálogo desta associava funk, soul à maneira de Philadelphia (até nos violinos, nada menos que 18) e ritmos latino-cubanos, sempre com as pistas de dança na ideia. A importância deste projecto ultrapassou o período da sua existência, pois influenciou a house e a electro-pop dos 80*, bem como algum techno que se lhe seguiu, estando a ser relembrado pelo revivalismo da "club music" a que agora vamos assistindo. Com o "tamanho certo" ("You're Just the Right Size") e a "malandragem" ("Nice n' Naasty") como temas, entre outros que versam o amor e o sexo, são notáveis os solos de saxofone devedores a Maceo Parker e até o sintetizador Moog tem um papel decisivo nos arranjos com a marca Montana, depois continuada e adaptada pelos produtores Tom Moulton, Bunny Sigler, Patrick Adams e Stan Lucas, tudo tresandando à banda sonora da série de filmes "Shaft" e mais tarde ao euro-disco, este com um cunho mais electrónico. Cantoras de primeiro plano na altura como Jocelyn Brown, Loleatta Halloway, Charo ou Cognac colaboraram com esta formação que chegou a ter 50 instrumentistas (seis na secção percussiva, com especial presença das congas) e como não podia deixar de ser surgem nas faixas mais interessantes desta compilação que mistura versões originais com remisturas. Algumas das primeiras são autênticas raridades, difíceis de encontrar noutras reedições, como "Salsoul Hustle", "Alpha Centauri", "It's a New Day", "I'll Keep You Warm" ou "Resorts International".
* Não por acaso, Vincent Montana colaborou com o conguero David Morales, da Salsoul Orchestra, no "hit" "New York City Boy" dos Pet Shop Boys.
(03-06-2005)

 

Sam Prekop
«Who's Your New Professor?»
CD Thrill Jockey, €17,50
 

Os colaboradores dos Sea and Cake continuam a ser os "convidados especiais" de Sam Prekop a solo: Rob Mazurek, Josh Abrams, Chad Taylor e John McEntire, figuras de relevo na cena de Chicago, surgem de novo neste "Who's Your New Professor", e mesmo Archer Prewitt, co-fundador daquele grupo com Prekop, está presente neste registo que podia passar muito bem por mais um tomo da sua discografia. Ou quase, pois trata-se de um álbum de canções e os Sea and Cake não resistiam a enveredar por temas instrumentais - e isso apesar de "Magic Step" ter sido totalmente entregue a uma inesperada combinação de sintetizadores e guitarras acústicas. Como consequência do investimento no "song writing", a voz soul do guitarrista e vocalista que aqui reencontramos está mais em evidência, e se se mantém a mesma presença de um falso jazz/bossa nova, tudo é agora muito mais "funky". Até o carácter de "mood music" está aqui mais saliente, embora com a elaboração própria de músicos que não são propriamente os mais ortodoxos e, apesar de desenvolverem actividade nos domínios da música popular, estão bem informados quanto aos conseguimentos a que se chegou na música "culta" contemporânea e nos sectores mais vanguardistas, que eles, de resto, frequentam. Aliás, está por apurar o quanto o experimentalismo tem influído na busca da "pop perfeita". Uma coisa é certa: este disco é um dos tantos que ilustram tal esforço. Uma pop, evidentemente, que não precisa de corresponder aos estereótipos do género para o ser a corpo inteiro. "Chicago People", a quinta canção do CD, é um bom exemplo disso, consistindo numa suite em miniatura que evita a estrutura verso-refrão. A mudança da produção (Jim O'Rourke no anterior "Sam Prekop") para as mãos de John McEntire, dos Tortoise (um trabalho apresentado eufemisticamente como de gravação e mistura), se diferenças trouxe foi no sentido de uma maior leveza. As traves mestras, essas, continuam as mesmas há cinco anos anunciadas.
(01-07-2005)

1. Something
2. Magic Step
3. Dot Eye
4. Two Dedications
5. Chicago People
6. Little Bridges
7. A Splendid Hollow
8. C + F
9. Neighbor To Neighbor
10. Density
11. Between Outside

 

Sand
«The Dalston Shroud»
CD/2LP Soul Jazz Records, € 17,95/€ 18,95

Se o cyber-punk tivesse sido, na música, mais do que uma passageira moda sustentada na tendência com o mesmo nome da literatura de ficção científica, estes Sand figurariam, com certeza, na primeira linha desse subgénero. Como assim não aconteceu, e como os grupos e músicos que ficaram conotados com o movimento estão hoje irremediavelmente “out”, os Sand não têm grande companhia na assunção de uma sensibilidade futurística e metropolitana que tem ainda terreno para desbravar. Híbrido musical que vai beber ao rock, ao jazz, ao funk, ao noise, ao dub e ao techno, e que poderia muito bem ser a banda sonora de uma segunda versão de “Blade Runner” (os Sand andaram lá perto muito recentemente, com a composição de uma “soundtrack” alternativa para o filme “Stalker” de Tarkovsky), este “The Dalston Shroud” não tem o impacto da surpresa do primeiro álbum da formação, “Beautiful People Are Evil”, um excelente exemplo de como uma criação musical popular pode ser “vanguardista” (o termo pode estar desgastado, mas ainda é útil para nos fazermos entender), mas também é menos arrumado do que o anterior “Still Born Alive”. Novos (des)equilíbrios são procurados pela formação, e para tal tanto convidaram a vocalista experimental norueguesa Maja Ratkje, a única pessoa que consegue urrar mais do que Keiji Haino e Yamatsuka Eye, como uma cantora de cabaré, a austríaca Louie Austen. A sustentação rítmica é fixa, à maneira do krautrock, o trombone de Hilary Jeffery está bem presente com as suas conotações free jazz, a electrónica é suja e deliciosamente analógica, os ambientes sugeridos são os das catacumbas da nossa civilização em ruínas. O mais próximo disto que podem ter ouvido foi “Metal Box” dos PIL...
(29-12-2006)

1. Kendoki
2. Doctor Crop
3. The Dalston Shroud
4. Stick Eyed Bug Man
5. Summer Lighting (Part 2)
6. Lal K
7. Light Bender
8. Arson
9. Intersex
10. Bearded Angel
11. Summer Lightning (Part 1)

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Sandy Kilpatrick
«The Ballad of The Stark Miner»
CDEP Sandy Kilpatrick, € 6,
50

“The Ballad of the Stark Miner” é o título do primeiro disco a solo que Sandy Kilpatrick, uma das maiores promessas do género “alternative folk”, lançou oficialmente no passado dia 26 de Outubro no pequeno auditório do Theatro Circo, em Braga.
Às composições, guitarra e voz enigmática de Sandy Kilpatrick juntam-se o piano e o violoncelo, dando origem a temas que propõem ao ouvinte uma viagem para ambientes de um misticismo envolvente.
Reflexo da simplicidade poética e profunda do trabalho de Sandy, “The Ballad of the Stark Miner” resultou de um convite do realizador André Tentúgal para a execução de uma banda sonora para a curta-metragem “Finally I am no-one”.
«Uma obra que, após concluída, não depende de ninguém para se afirmar, pela sua delapidada beleza e transparência», é a leitura que o escritor Valter Hugo Mãe faz de “The Ballad of the Stark Miner”, álbum que surge sete anos após a chegada do músico escocês a Portugal.
Natural de East Kilbride (Escócia), Sandy Kilpatrick iniciou o seu percurso artístico quando, ao longo dos seus estudos de Literatura Inglesa e Americana, na Universidade de Lancaster, formou, juntamente com um grupo de amigos, a banda Sleepwalker. Com um percurso que lhes veio a garantir o estatuto de banda de culto, o colectivo lançou em 2000 o single “Sleepwalking” que conquistou o reconhecimento do público e da crítica.
Um ano mais tarde, Sandy muda-se para Portugal e, em 2003, sobe, pela primeira vez, aos palcos nacionais, concretamente em Braga, em colaboração com a banda Wave Simulator e membros do Coro da Universidade do Minho. À experiência, da qual se destacam dois concertos no Espaço Alternativo pt. com lotação esgotada, sucede o lançamento e promoção, através de vários concertos, do EP “Am I Welcome Here”. Em 2005, é a vez de “Incandescent Night Stories” ser apresentado ao público no Festival Tímpano, na Casa das Artes (Famalicão), evento em que Sandy dividiu o cartaz com nomes como Anthony and the Johnsons, Perry Blake e Micah P. Hinson, entre outros.
(02-11-2007)

1. One Glorious Moment
2. In Maria's Eyes
3. Serpents in The Dust
4. Mercy Came Home Today
5. Can You Hear The Sirens Call?

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Scanner
«The Radiance of a Thousand Suns Burst Forth at Once»
CD Steamin' Soundworks, € 17,50

Robin Rimbaud, o “techno-data agitator” por trás do nome Scanner (ele fica aborrecido quando americanos e ingleses lhe chamam “Rambo”) é um mestre do conceito. Um dos seus projectos mais recentes consistiu na manipulação em tempo real dos sons captados por microfones estrategicamente colocados num centro comercial holandês, incluindo os espaços públicos de restauração e os íntimos das cabinas de prova de uma loja de lingerie. Esta modalidade de intervenção designou-a ele por “shopping music for the masses”. A que antes dele Jon Rose propôs só não era para as massas porque isto do alcance da música tem a ver com vendas, e a verdade é que o violinista anglo-australiano tem-nas mais modestas. Outro projecto de Scanner é este que agora fica documentado em disco: música matrimonial para a celebração do casamento de dois amigos, também na Holanda. Curiosamente, diz ele destas incursões pelo romantismo “ambient” que são as ideais para as “sessões de Internet à luz das velas”, como se os noivos não tivessem nada de mais interessante para fazer à noite. A menos, é claro, que o casal se dedique ao sexo virtual a três, quatro ou mais, mas disso não reza a história, pois a utilização da rede das redes cada um (ou cada dois) tem a sua e não é para divulgar a ouvidos indiscretos. Mesmo assim, o homónimo do poeta francês tornou-se conhecido pelo seu voyeurismo, e designadamente pelo uso nas suas composições de conversas telefónicas alheias não muito legalmente apropriadas e que já lhe valeram o epíteto de “terrorista do telefone”. O certo é que com “The Romance of a Thousand Suns Burst Forth at Once” já há uma alternativa à Marcha Nupcial de Mendelssohn. Num início de século marcado pelas tecnologias, estranhava que a música de casamento ainda seguisse o modelo sinfónico, mas não se deixem enganar pela aparente suavidade das sínteses digitais deste artista que tornou os ritmos de dança inteligentes: os “mil sóis” de que fala no título desta obra são os mesmos que referenciam as explosões nucleares, pelo que alguma coisa ele sabe dos costumes sexuais dos nubentes. E se não sabe, pôs-se a imaginar, o que, de resto, é uma característica do seu trabalho. O que nos importa mesmo é que Scanner conseguiu fazer com que o laptop parecesse um instrumento sensual. Se era pornográfico nas mãos do “rei do noise”, Merzbow, agora também temos uma versão erótica “soft”, sob o signo da mais importante instituição da família: o casamento cristão. A estreia do que aqui se ouve foi feita, aliás, numa igreja do séc. XV. Estariam ao rubro as orelhas do padre que celebrou a união?
(22-07-2005)

1. Walk Gently Through The World
2. One Flesh, One Home, One heart
3. Silent Unspoken Memories
4. The Radiance Of A Thousand Suns Burst Forth At Once
5. Walk Gently Through The World (Reprise)
6. Melt As Love Has Melt My Heart
7. And I Shall Love Because Of You

 

Scorch Trio
«Luggumt»
CD Rune Grammofon, €16,50


Raoul Bjorkenheim, o dos Krakatau, um herdeiro de Jimi Hendrix mergulhado no universo torturado e espiritual de Albert Ayler? Ingebrigt Haker Flaten e Paal Nilssen-Love, a secção rítmica de The Thing, o projecto de Mats Gustafsson que consiste em fazer "covers" free jazz de temas rock dos White Stripes e dos Yeah Yeah Yeahs, entre interpretações improváveis do folclore escandinavo? Exactamente: são estes mesmos os membros do Scorch Trio e "Luggumt" é a sua mais recente proposta. A capa de Kim Hiorthoy não deixa ninguém ao engano: uma caveira negra de banda desenhada mira-nos de frente, impassível e ameaçadora. Isto é free death metal, poderoso como betão mas também capaz de minúcias electroacústicas. Se Ronald Shannon Jackson forneceu os tapetes pulsativos "funky" ao Cecil Taylor abstraccionista de "One Too Many Salty Swift And Not Goodbye", aqui é o contrário que temos: um impulso "off-tempo" às descargas eléctricas de uma guitarra (quase) sempre tentada pelo impulso de dar um rosto, uma figura, à energia, a tal caveira imaginada pelo "designer" de serviço da Rune. Sonny Sharrock, James Blood Ulmer e até John McLaughlin e Robert Fripp espreitam pelo ombro de Bjorkenheim. Se a fusão jazz-rock rapidamente desembocou num beco sem saída, o Scorch Trio acaba de implodir o edifício que obstruía o caminho. Edward Vesala, com quem Raoul Bjorkenheim se estreou, e Paul Schutze, que teve a sua companhia no projecto "electronica meets krautrock" Phantom City, não poderiam ter imaginado tal desfecho.
(15-04-2005)

 

Scott Walker
«And Who Shall Go To The Ball? And What Shall Go To The Ball?»
CD 4AD, € 12,9
5

Em 2006 Scott Walker mostrou que ainda dava cartas com o excelente álbum "The Drift". Um ano depois regressa com uma obra ainda mais estranha denominada "And Who Shall Go To The Ball? And What Shall Go To The Ball?"

Ao contrário de "The Drift", este trabalho é uma obra totalmente instrumental em quatro movimentos, e que foi encomendada a Walker no final do ano passado para uma peça de dança contemporâncea.

Após estar completa, a obra foi entregue ao coreógrafo Rafael Bonachela e a companhia de dança Candoco. Com a produção e iluminação a seguir em sintonia a linha de pensamento de Scott Walker para a sua obra, a primeira actuação teve lugar no Contact Theatre em Manchester no dia 26 de Abril.

Para coincidir com a estreia da peça no Reino Unido, a 4AD decidiu editar este mini-álbum de forma limitada, pelo que logo que estes exemplares esgotem, nunca mais voltarão a estar disponíveis.

"For its voicelessness alone (as well as its short 25-minute running time), And Who Shall… can't be classed as a Walker album proper. But it goes a long way toward revealing the strengths of an artist who has established himself as a serious composer as well as a monumental presence-- even when he's not there to be heard." Andy Battaglia in Pitchfork

"No stranger to the emotive cues and triggers required for movie soundtracks (in 1999 he provided the music to Leos Carax’ Pola X), this score provides ample opportunity for dancers to make their mark. A master of his entrances and exits, Walker gathers all the loose ends thrown up in to the air during the previous 20 or so minutes, distilling them into a sustained D chord, and thus providing the album with a powerful sense of mournful resolution." Sid Smith in BBC.CO.UK
(19-10-2007)

1. And Who Shall Go To The Ball? (1st Movement)
2. And Who Shall Go To The Ball? (2nd Movement)
3. And Who Shall Go To The Ball? (3rd Movement)
4. And Who Shall Go To The Ball? (4th Movement)

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Scott Walker
«The Drift»
CD 4AD,  
18,95

1. Cossacks Are
2. Clara
3. Jesse
4. Jolson And Jones
5. Cue
6. Audience
7. Buzzers
8. Psoriatic
9. The Escape
10. A Lover Loves

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Scout Niblett
«Kidnapped By Neptune»
CD Too Pure,  
17,95

Steve Albini, o rei dos produtores do rock “com atitude”, tem uma especialidade: fazer com que um grupo soe o melhor possível sem que as suas origens “garage” sejam alienadas. Nas suas mãos, até a rudeza pode atingir a perfeição, e rude é o rock de Scout, ou melhor, Emma Niblet, esganiçado na voz, mesmo nos momentos mais pausados, e com uma guitarra em permanente distorção e dissonância e uma bateria monomaníaca que chega a lembrar os “motorismos” do krautrock. Ouvem-se os primeiros minutos e não podemos deixar que um sorriso se nos estampe na cara: Niblet segue a linhagem que vai (voltando atrás no tempo) de PJ Harvey a Janis Joplin, passando por Patti Smith. E se quisermos compará-la com algo mais do novo rock será com Cat Power: tem uma semelhante propensão para não seguir pelos caminhos mais óbvios, mergulha nas raízes do rock and roll e dos blues para emergir com uma perspectiva inovadora dos mesmos e mesmo os guitarrismos ácidos de ambos se parecem. Com uma diferença, porém: Scout Niblet é mais essencialista e ascética, no sentido de que tudo o que aqui se toca tem o osso à mostra. Nas passagens sussurradas estas canções podiam até passar por folk, não fosse ela ter voz de “menina má” que vai para todo o lado menos para o céu, aquele tipo de voz que se cunhou como “rock” e que não condiz com os bucolismos campestres. Depressa, no entanto, a calmaria da ressaca dá lugar a novos assaltos “hardcore”, desconjuntados, é certo, mas com o poder do velhinho punk ou do mais rasteiro grundge de Seattle, apesar de este “Kidnapped by Neptuno” provir de Staffordshire, Grã-Bretanha, e não propriamente das entranhas dos States.(11-07-2005) 

1. Hot to Death
2. Kidnapped by Neptune
3. Pompoms
4. Lullaby for Scout in 10 Years
5. Fuck Treasure Island
6. Relax
7. Valvoline
8. Good to Me
9. Handsome
10. Safety Pants
11. Newburyport
12. This City
13. Wolfie
14. Drink to Me
15. Where Are You?

 

Section 25
«Part-Primitiv»
CD LTM, € 15,95
PREÇO ESPECIAL ATÉ DIA 31 DE DEZEMBRO - €14,50

Novo álbum de estúdio de um dos grupos de culto do pós-punk que anteriormente haviam gravados quatro álbuns para a Factory de Manchester.
Extintos em 1988, os membros originais do projecto - Larry (baixo/voz), Vin (bateria) e Jenny Cassidy (teclado/voz) reuniram-se em 2001, tendo-se juntado a eles Ian Butterworth (ex-Tunnelvision) e o multi-instrumentista e engenheiro de som Roger Wikeley. Ainda que o trabalho num novo álbum tenha sido interrompido pela morte de Jenny Cassidy em Novembro de 2004, o grupo recomeçou a tocar ao vivo em Maio de 2006, tendo até hoje actuado em locais como Paris, Bruxelas, Roma, Atenas, Dublin, Londres e Poulton.
"Part-Primitiv" foi produzido pela banda no estúdio West Orange, em Preston, em 2007. Como o título sugere, este novo trabalho combina o poder cru do pós-punk e a electrónica retro-futurista, incluindo mesmo dois temas ainda interpretados pelo malogrado Jenny.
(21-12-2007)

1. Winterland I
2. Can't Let Go
3. Poppy Fields
4. She's So Pretty
5. Dream
6. Power Base
7. Roma
8. Better Make Your Mind Up
9. Gene
10. Cry
11. Ludus Cantus
12. Nick
13. Winterland II

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Também disponíveis:

Section 25
«Always Now»
CD LTM, € 15,95
Section 25
«From The Hip»
CD LTM, € 15,95
Section 25
«From The Hip - In The Flesh (Live)»
CD LTM, € 15,95
Section 25
«The Key of Dreams»
CD LTM, € 15,95

 

Section 25
«Communicants»
DVD LTM, € 19,95
PREÇO ESPECIAL ATÉ DIA 31 DE DEZEMBRO - €16,95

"Communicants" é a filmagem realizada por inúmeras câmaras do concerto de regresso dos Section 25, que ocorreu no Blackpool Empress Ballroom em Outubro de 2006 (na primeira parte dos New Order). Inclui todos os 8 temas interpretados naquela sala, bem como outros gravados em várias cidades europeias por onde o grupo actuou. O DVD de 70 minutos também inclui entrevistas com Larry e Vin, e material gravado na estrada.
(21-12-2007)

1. Up To You
2. Friendly Fires
3. Be Brave
4. Wretch
5. New Horizon
6. Gene
7. Can't Let Go
8. Looking From A Hilltop
9. Hit
10. Dirty Disco
11. Wretch
12. New Horizon
13. Be Brave
14. Friendly Fires
15. Looking From A Hilltop
16. Interviews

Também disponível:

Section 25
«So Far - An Audiovisual History 1980-85»
DVD LTM, € 19,95

 

Sei Miguel
«Tone Gardens»
CD Creative Sources, € 12,95

O novo álbum de Sei Miguel reforça o enigma que sempre envolveu a música deste trompetista reinvindicado como sendo de jazz mas que a cena portuguesa do jazz nunca quis reconhecer e que parece provir da nebulosa da livre-improvisação quando, na verdade, é composta e sobretudo arranjada (Miguel já afirmou que o arranjo é mais importante do que a composição) ao pormenor. Na linha de anteriores registos seus (“Ra Clock” e “Token”, designadamente) e com um nível de qualidade – alto – que se lhes assemelha, em “Tone Gardens” o “segredo mais bem guardado de Portugal”, para citar o crítico e músico Dan Warburton, volta a ter Rafael Toral como um decisivo colaborador, aqui centrado na manipulação de dispositivos electrónicos, e acentua a importância que as respirações e os silêncios sempre tiveram nos seus muito particulares conceitos. Daí, aliás, a circunstância de os três “jardins tonais” reunidos neste álbum terem sido editados por uma etiqueta especializada nesse tipo de abordagem – a Creative Sources. Curioso, o jogo realizado entre os fraseados breves e quebrados do trompete de bolso de Sei Miguel e do trombone alto de Fala Mariam e os sustenidos dos “feedbacks” e das sinusoidais de Toral, com César Burago a manter uma base pontilhística de percussão. Enigma, dissemos, porque uma característica fundamental das criações de Sei Miguel é o modo como lida com as formas e com os processos, umas não tendo que ver necessariamente com os outros.
(04-08-2006)

1. Garden 1
2. Garden 2
3. Garden 3

 

Señor Coconut and His Orchestra
«Yellow Fever!»
CD Essay Recordings, € 16,50


As origens do alemão Uwe Schmidt no techno, como Atom Heart ou AtomTM, transparecem algumas vezes ao longo da música que faz sob o heterónimo Señor Coconut, seja pela introdução de sons sintéticos ou pelo uso que faz do “sampling”, mas é território bem distante que vem percorrendo, o da música latina e muito em especial da salsa, com secções de sopro para-jazzísticas, muita percussão e tudo o que é de regra pelas bandas do merengue ou do chachacha. Nem por isso as suas referências deixaram de incidir sobre a electrónica, e se no passado chegou a fazer “covers” mambo dos Kraftwerk, epítomes da pop feita com sintetizadores, “Yellow Fever” contém as suas interpretações com sabor a “exotica” (pressente-se o fantasma de Martin Denny ao longo do disco, e no final encontramos até um tema deste, “Firecracker”, atestando que não era apenas impressão nossa), do repertório da saudosa Yellow Magic Orchestra, contando, aliás, com a colaboração dos seus membros, Ryuichi Sakamoto incluído. A forjada autenticidade sul-americana é garantida por um cantor venezuelano, Argenis Brito, e se pelo meio ouvimos algumas palavras em Japonês é porque, na música, o mundo é mesmo uma grande aldeia. Está aqui o disco para o vosso Verão, wherever you go...
(
21-07-2006)

1. My Name Is Coco
2. Yellow Magic (Tong Poo) Feat. Ryuichi Sakamoto & Jorge Gonzalez
3. Coco Agogo Feat. Akufen & Jorge Gonzalez
4. Limbo Feat. Yukihiro Takahashi
5. What Is Coconut?
6. Behind The Mask
7. El Coco Rallado
8. Pure Jam
9. Mambo Numerique Feat. Towa Tei & Marina (Nouvelle Vague)
10. Simoon Feat. Mouse On Mars
11. Coconut Am
12. The Madmen Feat. Haruomi Hosono
13. What Is Coconut? Feat. Constanze Martinez
14. Music Plans
15. Breaking Music Feat. Dandy Jack & Schneider Tm
16. Rydeen
17. El Coco Roco Roto
18.