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Tall Firs
«Tall Firs»
CD Ecstatic Peace, € 15,9
5

“New York City Underground Electric Folk”. O termo é “oficial” e tem servido para classificar, numa daquelas práticas gavetas que dão pelo nome de géneros musicais, o som dos Tall Firs. No fundo, isto só terá importância para quem não pretende ouvir o trio, obviamente, oriundo da “Big Apple”. Dizer que são apadrinhados por Thurston Moore (Sonic Youth), que agora edita o álbum de estreia do grupo na sua Ecstatic Peace!, e que entre os seus colaboradores próximos se encontra Chris Corsano, um dos mais requisitados (e multifacetados) bateristas da actualidade, talvez traga alguma luz (sobretudo mediática) sobre os Tall Firs, mas também não dirá muito sobre o produto final.
Voltando, então, ao início. O “New York City” tem a ver com o local de origem, apesar de estas paragens não serem habitualmente ligadas à folk. Folk que, por seu turno, é uma possível definição de um dos pontos de partida da música de Dave Mies, Aaron Mullan e Ryan Sawyer. Isto se, por exemplo, nomes tão distintos como os Red House Painters ou, mais recentemente, os Dakota Suite também fizerem folk, e, já agora, recorrendo às guitarras eléctricas em desaceleração para tal. O “underground” também não parece difícil de explicar. Afinal, as 11 canções pessoais, melancólicas, dolentes e em carne viva, mas ainda assim repletas de beleza e silêncios, contidas nos menos de 40 minutos de "Tall Firs", passarão (infelizmente ou talvez não) despercebidas a boa parte daquela (cada vez mais imensa) minoria que se auto-considera musicalmente esclarecida.
Tal como as canções dos Tall Firs são feitas de pequenos acasos, história de gente comum e incidentes de percurso, a vida do grupo não podia ser mais o espelho disso. Não é para todos, editar o álbum de estreia mais de 16 anos após a formação (em 1990), quando David Mies e Aaron Mullan eram adolescentes, na cidade de Annapolis, capital do estado do Maryland. Desde essa altura, a ida para Nova Iorque, o encontro com o baterista Ryan Sawyer (que chegou a passar anteriormente pelos At The Drive-In), as atenções de figuras como os Sonic Youth ou o ex-elemento destes Jim O'Rourke, o primeiro concerto (11 anos depois de terem nascido!) e os palcos partilhados com Oneida, Chris Corsano, Samara Lubelski ou P.G. Six são apenas alguns dos passos de um caminho sinuoso, mas que conhece agora um epílogo feliz - apesar de este ser adjectivo que não fica bem aplicado às canções dos Tall Firs.
“Perca-se” então algum tempo a ouvir 'Tall Firs'. Afinal, não é todos os dias que um álbum chega às lojas quase na sua idade adulta.

(
31-08-2007)

1. More To Come
2. Don't Complain
 
3. Go Whiskey
 
4. Buddy/Baby
 
5. Us And Our Friends
6. Breeze
 
7. Road To Ruin
8. Soldier On
9. Well

10. Woods

11. Don't Prey On Me

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Tape
«Rideau»
CD Häpna, 18,50

Os suecos Tape partem de onde ficou o pós-rock quando os seus praticantes regressaram às raízes do género ou enveredaram por outras dedicações, e isso na perspectiva de explorarem as suas consequências num meio que já não comporta essa designação. O próprio facto de o produtor de “Rideau” ser Marcus Schmickler, um nome da electrónica com actividade simultânea na techno e no experimentalismo, é sinal da abertura de perspectivas procurada. E encontrada: este álbum é um cozinhado com muitos elementos, assistindo-lhe a vantagem de nunca parecer artificial ou esquemático. Há algo de Steve Reich no modo como se gerem as repetições – justificando mesmo a ideia de que não há música sem repetição –, instrumentos convencionais (atenção ao excelente trabalho do órgão!) combinam-se engenhosamente com processamentos por computador, e um encadeamento de carácter cinemático, no triplo sentido da gradual construção de uma imagética, uma narrativa e uma tensão, não obstaculiza a que os investimentos sejam especificamente musicais. A atenção à melodia é um resquício do pop-rock, mas os Tape entendem-na como um elemento figurativo inserido estrategicamente nos “soundscapes” criados. Se as edições anteriores do trio levaram a que fossem comparados com os Tortoise ou os Sigur Ros, este regresso ao disco descola dessas referências para estabelecer uma posição muito própria e “out of norm”. O facto de não haver bateria entre os instrumentos liberta-os dos fundamentos de que partem e dão-lhes uma fluência e uma leveza (alguém lhes chamou já de “invertebrados”) que não existiriam certamente se tivessem de obedecer a métricas fixas. O que não quer dizer que a pulsação não esteja lá, papel que em “A Spire”, por exemplo, é desempenhado por um vibrafone estruturante. Outro factor a assinalar é a economia de notas e sons aplicada, sempre gerida por uma perspectiva de funcionalidade. Esta é uma música de essências, nunca de efeitos e muito menos de enfeites.
(
16-03-2006)

1. Sunrefrain
2. A Spire
3. Sand Dunes
4. Exuma
5. Long Lost Engine

 

Tarantula AD
«Book of Sand»
CD Kemado Records, € 17,50

Não é todos os dias que se descobre algo em que um violoncelo “clássico” sola sobre uma banda instrumental de death metal, surgindo pelo meio um tema psicadélico cujos vocais lembram o saudoso Syd Barrett, mas o formato é Beatles era “Lucy in the Sky with Diamonds”, e mais adiante um solo de piano que só guarda da estrutura valsa anunciada pelo título uma remota memória, tendo mais que ver com o legado do rock progressivo do que com Strauss. Aliás, há por aqui muito dos King Crimson de “Lark’s Tongues in Aspic”, o que só pode ser uma boa notícia. São de Nova Iorque os três músicos que integram este projecto, Danny Bensi, Saunder Jurrians e Gregory Roqove , e o certo é que dificilmente identificaríamos uma música feita de pompa e circunstância (se o metal não vive sem isso, adicionado a uma abordagem clássica ganha uma dimensão sinfónica) com as muitas cenas da Grande Maçã. Agora imaginem-nos vestidos como soldados romanos e ficam a perceber o que vos espera. As coisas ainda se complicam mais quando descobrirem que Devendra Banhart participa em “Prelude to the Fall” e Sierra Casady, das CocoRosie, aparece em “The Century Trilogy II: Empire” e “Sealake”.
(08-09-2006)

1. The Century Trilogy I: Conquest
2. Who Took Berlin (Part I)
3. Who Took Berlin (Part II)
4. Sealake
5. The Century Trilogy II: Empire
6. Prelude To The Fall
7. The Lost Waltz
8. Riverpond
9. Palo Borracho
10. The Century Trilogy III: The Fall

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Tarwater
«The Needle Was Travelling»
CD/LP Morr Music, €15,95/€14,95

Os Tarwater mudaram de editora (da Kitty-Yo para a Morr), mas não de personalidade, um misto de electro-pop e pós-rock, apesar de neste novo disco repetirem o que já tinham anunciado no anterior álbum, "Dwellers on the Threshold": uma maior proximidade do formato canção. E de, não menos importante, a electrónica deixar espaço à intervenção de instrumentos mais tradicionais na música popular urbana como a guitarra, o baixo e a bateria. O duo formado por Bernd Jestram e Ronald Lippok conta aqui com alguns colaboradores de peso, como Dirk Dresselhaus (Schneider TM), Marc Weiser (Rechenzentrum e a orquestra de câmara Zeitkratzer, tão à vontade a interpretar John Cage como o "Metal Machine Music" de Lou Reed e Terre Thaemlitz) e Hanno Leichtmann (Static). "The Needle Was Travelling" inclui uma "cover" de "Babylonian Tower" dos Minimal Compact tocada à maneira dos Cluster, mas não era preciso que os Tarwater pegassem em composições de terceiros para evidenciarem as suas influências. "Seven of Nine", por exemplo, alude com a sua pop sofisticada ao Brian Eno de álbuns como "Another Green World" ou "Before and After Science", "Stone" tem a ambiência dos New Order de "Power, Corruption and Lies" e "Across the Dial" apela ao espírito dos Neu!. Nada inventam de inovador, quer isto dizer, na certeza porém de que os Tarwater souberam baralhar as cartas e apresentar-nos um jogo que continua a ser rico de possibilidades. A escola de Berlim mantém-se viva.
(22-04-2005)

 

Tender Forever
«The Soft and The Hardcore»
CD Green Ufos, 16,50


1. Every Monday
2.
Take it Off
3.
The Feeling of Love
4.
This is Hardcore  
5. Make Out
6.
Then If I'm Weird I Want to Share
7.
Hot  
8.
Rad  
9.
Happy Birthday
10.
Marry Me
11.
Tender Forever
12.
The Magic of Crashing Stars

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Terry Riley
«Atlantis Nath»
CD Sri Moonshine, € 19,95

Terry Riley/Michael McClure
«I Like Your Eyes Liberty»
CD Sri Moonshine, € 19,95

Uma das mais importantes figuras do minimalismo americano da década de 1960 e também aquele que mais se inspirou no modalismo jazzístico de John Coltrane, não se pode dizer que o Terry Riley de hoje não seja fiel aos princípios orientalistas e místicos definidores da sua visão do mundo na década das flores. Eterno hippy, em “Atlantis Nath”, o seu primeiro disco de estúdio em 20 anos e o primeiro, também, a sair na sua própria etiqueta, reencontramos o fascínio que desde sempre vem nutrindo pelo Norte de África e por Marrocos em especial, presente por meio de interessantes “field recordings”, somado a pianismos de jazz, com citações até de alguns “standards” e designadamente os da estante de Thelonious Monk, aos seus habituais sintetizadores (há aqui algo de “Persian Surgery Dervishes”) e, acima de tudo, à voz, que não utilizava com tanta abundância e desenvoltura desde a sua colaboração com John Cale, “Church of Anthrax”. Registe-se, a propósito, que o seu canto surge dentro dos parâmetros da pop (!) e que soa por vezes de forma muito semelhante ao de Robert Wyatt, um dos muitos músicos que foram influenciados por ele, sendo ainda possível descortinar as sementes deixadas pelo seu já desaparecido mestre, Pandit Pran Nath (reparem nas harmonias vocais sobregravadas). A associação destas diferentes abordagens num registo composto e editado em Nice, França, entre 1992 e 1998, com Michel Redolfi, o compositor subaquático, na produção, torna este título bastante variado e capaz de atrair audiências diversificadas. Algumas das situações poderão parecer “out of date”, mas a verdade é que, se Riley é o produto de uma época muito específica, depressa, no entanto, se alheou das conjunturas do tempo, na melhor tradição “clássica”. E tanto assim que algumas das faixas incluídas neste álbum provêm de projectos anteriores, como é o caso de “The Crucifixion of My Humble Self”, a última cena da ópera que escreveu sobre a vida e a obra de Adolf Woelfli. A Marrocos que se escuta ao longo deste disco foi, como se sabe, a segunda pátria de alguns poetas e escritores da “beat generation”, e é com uma das personalidades maiores desta tendência da literatura americana que ainda celebra as virtudes alucinogénicas do peyotl, dos cogumelos “mágicos” e dos ácidos manipulados quimicamente, Michael McClure, que Terry Riley partilha “I Like Your Eyes Liberty”, segunda edição da Sri Moonshine. McClure segue o modelo de “spoken word” instituído por Jack Kerouac, enquanto Riley se senta a um grand piano MIDI para nos ofertar uma actualização cibernética do psicadelismo. Este é o mesmo poeta que já disse que o homem que não admite ser um animal é menos do que um animal e também uma das personagens do romance “Big Sur”, do mencionado Kerouac, sob o nome fictício de Pat McLear. E é o mesmo que autorou as palavras originais do “hit” “Oh Lord, Won’t You Buy Me a Mercedes Benz”, de Janis Joplin.
(22-07-2005)

Atlantis Nath:

1. Crucifixion Voices
2. Mosque
3. Derveshum Carnivalis
4. Wedding Song
5. Emerald Runner
6. Gha Ten in Darbari
7. Asención
8. Asención Final Chord Rising
9. Remember This
10. Only a Day
11. Even Your Beloved Wife
12. The Crucifixion of My Humble Self

I Like Your Eyes Liberty:

1. Evil
2. The Beat
3. Plum Stones
4. Each Side
5. Doorways
6. Grahhrr
7. Coming
8. Red Purple Rose
9. Finale

 

That Summer
«Clear»
CD Talitres Records, 15,95


Os críticos musicais dão músicos muito “sui generis”, o mais não seja porque o conhecimento da cena faz com que a sua produção musical adopte um carácter mais estratégico e “avisado”. Exemplos como os de Eugene Chadbourne, nos meios “indie”, e Marilyn Manson, na auto-estrada do rock de massas, são bastante esclarecedores quanto ao diferente posicionamento que é o deste tipo de artista. Pois acrescentem à lista o nome de David Sanson, em tempos ligado ao fanzine francês Octopus, recentemente convertido em jornal online. Escrevia ele nessas páginas sobre várias práticas musicais que agora vemos de alguma forma reflectidas no projecto That Summer, da avant-pop ao jazz, passando pelo ambientalismo e pela folk. Até os seus colaboradores foram escolhidos a dedo, como Benoît Burello, Jean-Michel Pirès (ambos dos Bed), Jérôme Miniére, Sylvain Chauveau, Rebecca Foon, Rachel Levine e Malcolm Eden, do extinto grupo pop comunista MacCarthy, com vista a que cada um contribuísse, faixa a faixa, com as suas próprias nuances de estilo. As coordenadas de base são, no entanto, muito claras, e remetem-nos para David Sylvian, Depeche Mode e Bark Psychosis, os heróis deste escriba que continua volta e meia a cronicar na revista Mouvement. Voz, piano, sintetizadores, guitarra eléctrica, violoncelo: são estas as ferramentas principais do som trabalhado em “Clear” (as excelentes mistura e produção são de Pierre-Yves Macé, uma curiosa figura da novíssima música contemporânea, e não há dúvida de que há aqui algo de camerístico) com a electropop britânica dos anos 1980 a segurar o edifício num dos lados e a electrónica pós-rock / pós-techno alemã dos 90 a sustentar o outro – aliás, Bernd Jestram, dos Tarwater, chegou a dar uma perninha num projecto anterior de Sanson. Ou seja, cada incidência de luz é acompanhada pela sombra dos objectos iluminados. O lado “dark” virá de Berlim, a influência solar foi buscá-la à música de Manchester que ouvia na juventude. A substância interior, essa, é gaulesa, com algo também do Quebeque, tanto assim que o disco foi gravado entre Montreuil e Montreal.
(
21-04-2006)

1. The More I Think The More I Dream
2. Brand New Scar
3. Electric Light
4. Handling With Care
5. Where You Are
6. What If
7. The Top 1 (Laziness And Heartache)
8. The Top 2
9. True Light
10. Heroinogirl
11. Montreal
12. Mon Vrai Visage

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Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-La-La Band
«Horses in The Sky»
CD Constellation, €16,50

Os canadianos Silver Mount Zion nasceram do desejo de Efrim (sem apelido, tal como ele prefere), o mentor dos épicos Godspeed You! Black Emperor, de também compor canções e tocar com uma formação de dimensões reduzidas, mas depressa tal pretensão se converteu nos actuais Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-La-La Band, com os seus sete elementos (os Godspeed são nove!), entre os quais a mesma secção de cordas de arco daquele outro projecto. Pelo caminho ficaram os ideais de simplicidade, mas se os Godspeed You! Black Emperor são essencialmente instrumentais, com este grupo e este disco aqui temos Efrim a cantar. É verdade que a sua voz não é propriamente a melhor para tal efeito, mas o também guitarrista soube construir um envolvimento e uma mística tais que a sua reconhecível falta de vocação como cantor se torna secundária e até se converte num dos encantos desta proposta que leva a atitude punk para latitudes em que não se esperaria encontrá-la. Aliás, é mesmo de suspeitar que ele desafina de propósito. Parte do disco foi gravada à beira-rio e à volta de uma fogueira e segue a filosofia existencial de Efrim, "love thy neighbour", a mesma que os fez serem detidos no lado americano da fronteira com o Canadá ao abrigo do Patriotic Act apenas por causa do seu aspecto físico e porque a polícia americana encontrou nas suas bagagens um disco que tinha um míssil desenhado na capa (é preciso dizer qual aos apreciadores da etiqueta Constellation? mostrem lá que sabem...). Este novo álbum é tão político quanto foram os anteriores, contendo faixas com nomes como "God Bless Our Dead Marines", "Teddy Roosevelts' Guns" ou "Ring Them Bells (Freedom Has Come and Gone)", mas esse investimento crítico, também como habitualmente, é equilibrado com outros temas, e designadamente o mais clássico da pop e da folk (sim, "Horses in the Sky" é, em grande parte, um disco de folk): o amor.
(18-03-2005)

 

Thievery Corporation
«The Cosmic Game»
CD ESL Music, €16,50

O projecto da dupla Rob Garza / Eric Hilton há-de transportar sempre aos ombros a responsabilidade de ter sido um dos arautos do trip-hop, uma herança pesada agora que esse subgénero mais "intelectual" da "club music" parece ter morrido de morte natural. Ainda assim, mostram que estão a sobreviver-lhe bem com a mistura entre dub, breakbeat, bossa nova futurista e rock, com as habituais pinceladas indianas, que é este "The Cosmic Game", impossível já de confundir com o "chill out" ou o "downtempo", áreas com que o duo foi bastas vezes conotado no passado. Assim sendo, o psicadelismo deste novo disco pode ser tomado de duas formas, ou como a continuação das preocupações de sempre da Thievery Corporation num contexto diferente, ou como um passo em frente com a concomitante abertura para outras realidades, a começar pelas interiores, e actuais, dos seus próprios membros. A crer no recente interesse dos dois músicos pela teoria da conspiração, reflectida nas letras deste álbum, a segunda hipótese é a mais plausível. A presença reforçada do guitarrismo rock também nos leva a crer nessa mudança, a que não são estranhos os convites a David Byrne (Talking Heads, lembram-se?) e aos Flaming Lips para duas notáveis participações, em "The Heart's a Lonely Hunter" e "Marching the Hate Machines (Into the Sun)", respectivamente. Mas não é só o rock que os influencia nesta nova fase (Hilton já se confessou um antigo admirador do punk dos Fugazi); também a música feita com sintetizadores Moog na década de 1960 é uma memória reavivada. Há outros convidados: um MC, Sleepy Wonder, dois cantores reggae, Notch e Sista Pat, um especialista em canções de protesto, Perry Farrell, e um cantor hindu, Gunjan (num tributo a Shiva, a deusa da morte e da destruição, acompanhado por sitar e tablas!). Com tal cenário, já há quem jure que estamos perante o melhor trabalho de sempre da Thievery Corporation. Quer confirmar?
(18-03-2005)

 

The Thing
«Action Jazz»
CD Smalltwon Superjazzz, € 16,50


Com o projecto The Thing, aquele que partilha em trio com Ingebrigt Haker Flaten e Paal Nilssen-Love, Mats Gustafsson parece cada vez mais apostado em dar um carácter de “garagem” à recuperação do free jazz que vem protagonizando. E é assim que pega num tema (“Sounds Like a Sandwich”) do grupo rock nórdico Cato Salsa Experience (com o qual, aliás, os The Thing gravaram uma versão de “Whole Lotta Love” dos Led Zeppelin que deve ter feito Jimmy Page roer as unhas de fúria e inveja) para abrir o disco, algo que não poderia soar mais primário e essencialista no seu vigor punk, para de súbito enveredar por uma interpretação do mais tayloriano dos pianistas de jazz do Japão, “Chiasma” de Yosuke Yamashita, faixa aliás em que Gustafsson quase adopta os trejeitos estilísticos de Ornette Coleman e, de resto, à semelhança deste em determinada altura, usa um saxofone alto de plástico– algo que nunca tinhamos reparado nele antes. Curiosamente, é de Ornette a peça que vem logo de seguida, “Broken Shadows”, mas que aqui funciona como uma pausa na elevada intensidade deste disco, a suavidade sendo sugerida mais por meio de uma certa displicência expressiva do que por uma verdadeira assunção da ideia de “looseness”. A seguir vem “Ride the Sky”, dos subvertores do “hardcore” Lightning Bolt, uma propulsão rítmica que depressa se transforma na improvisação colectiva que é “Better Living”, com todos os sinais de algo que poderia ter sido feito nos anos do movimento “loft” de Nova Iorque e de Chicago. “Danny’s Dream”, de um histórico do jazz escandinavo, Lars Gullin, volta a situar-nos em tempos passados. É mais estruturada, e nestes pouco mais de sete minutos parece até que estamos perante um registo da época. De assinalar o excelente solo de contrabaixo de Flaten. Novo salto para um “cover” (“The Nut / The Light”) de Alva Melin, baixista e vocalista punk de 13 anos, com o saxofonista a fazer maravilhas com o barítono e um Nilssen-Love a dar “show” com os seus sinos de vaca. Mais uma improvisação com responsabilidades partilhadas, “Through BBQ”, e finalmente, para uma despedida em grande, uma homenagem de Gustafsson a Billy Strayhorn, “Strayhorn”, com uma fundamentação percussiva mais própria de um Raymond Strid do que de Nilssen-Love e um pendor que associa a lentidão do parco fraseado saxofonístico com a total liberdade métrica e até algum “non-sense”. Em suma, mais um grande álbum dos The Thing.
(08-12-2006)

1. Sounds Like A Sandwich
2. Chiasma
3. Broken Shadows 
4. Ride The Sky
5. Better Living
6. Danny's Dream
7. The Nut / The Light
8. ... Through BBQ
9. Strayhorn

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The Thing
«Live at Blå»
CD Smalltown Superjazz, € 16,50


Cato Salsa Experience and The Thing with Joe McPhee
«Sounds Like a Sandwich»
CD Smalltown Superjazz, € 13,95


Para a leitura que Mats Gustafson, o solista dos The Thing, faz do free jazz, tocar livremente dentro dos parâmetros desta música que já se identificou com a emancipação negra nos Estados Unidos passa também por recuperar o poder e o impacto que teve nas décadas de 1960 e 70, antes da sua intelectualização e do processo de internacionalização pelo qual, entretanto, passou – aquilo a que Jorge Lima Barreto tem chamado, justa ou injustamente, de “branqueamento”, palavra com dois sentidos. A via que escolheu para o fazer, identificando o seu grupo como um “power trio”, implica a recuperação da energia do “garage rock” e de alguns dos seus mais dignos representantes na actualidade, como os White Stripes ou os Yeah Yeah Yeahs, cruzando-a com composições de emblemáticos cruzados da “new thing” como Donald Ayler, trompetista que conhecemos ao lado do seu irmão Albert numa prática musical que, como já se comentou, é equivalente a gritar “fuck you” em plena igreja. Por isso, aliás, é que o CD de estúdio que antecipou este “Live at Bla”, gravado ao vivo num bar de Oslo, na Noruega, se intitulou “Garage”, e por isso também é que, em “Sounds Like a Sandwich”, A Coisa toca com o grupo de rock igualmente nórdico Cato Salsa Experience, tendo como convidado especial uma figura lendária do free afro-americano, o saxofonista Joe McPhee. Se este free jazz-rock pode passar por mais uma fantasia de brancos europeus (acrescentem-se os nomes dos fantásticos Ingebrigt Haker Flaten no contrabaixo e Paal Nilssen-Love na bateria), o certo é que funciona como um petardo e tem a caução de um dos originais mais ilustres, alguém que, na época, já tinha igualmente compreendido o potencial revolucionário do funk nas estratégias subversivas da mais política das tendências do jazz. Entre temas próprios, surge neste disco uma versão alucinante do clássico rock “Whole Lotta Love”, dos Led Zeppelin, e voltam a aparecer os Yeah Yeah Yeahs. Para ouvir aos saltos e de punho erguido, que isto da rebelião civil, a bem dizer, não tem cor.
(19-08-2005)

The Thing:

1. Old Eyes / Haunted / Cha Lacy's Out East
2. Aluminum / Awake Nu / Dewey's Circle

Cato Salsa Experience:

1. Sounds Like a Sandwich
2. Whole Lotta Love
3. Art Star
4. Our Prayer
5. Hardcore Mama

 

Thomas Brinkmann
«Lucky Hands»
CD Max Ernst, € 16,
50


Das duas uma: ou “Lucky Hands” é o primeiro disco de uma nova orientação de Thomas Brinkmann, distanciada já do seu característico techno ultraminimal, ou marca um interregno na sua produção musical de sempre. Só ele mesmo o saberá. Entrado nos domínios da house e do dub, mais do que essa deslocação estilística é de assinalar que este álbum inclui canções (na voz de Tusia Beridze), o que é uma mudança ainda mais pronunciada. Uma delas, pasme-se, é uma “cover” de “The More You Ignore Me The Closer I Get”, do grupo pop dos anos 1980 The Smiths, o que quer dizer muito das motivações do músico alemão nesta estreia. É, porém, com um original, “Margins”, que este novo investimento ganha plena razão de ser, sendo um bom exemplo das “e-songs” (“e” de “electronic”, entenda-se) que mais importam na actualidade. O mais surpreendente desta colecção está, de qualquer modo, na última faixa, “Charleston”, uma mistura em jeito de DJing na qual a guitarra cigana do jazz do período “entre guerras” de Django Reinhard é combinada com batidas “dancefloor”, resultando numa espécie de charleston do século XXI. Bem estranho, e uma delícia. Até lá chegar, ouvimos “Maschine”, que nos lembra a sua condição germânica pela associação do legado mecanicista dos Kraftwerk com a fisicalidade torturada dos Rammstein, ou o tema que dá título ao conjunto e que bem poderia ter sido composto pelos Talking Heads. Ou ainda o “scratch” quase experimental de “Klick” e as referências à psicanálise e à linguística (em Francês, claro!) de “Jacknote”. Uma demonstração de que o conceito “menos é mais” não é um absoluto. Mais pode mesmo dar em mais...
(08-12-2005)

1. Drops
2. Work

3. Maschine

4. Jacknot

5. Lucky Hands

6. More You Ignore Me The Closer I Get

7. Margins

8. Thirty2

9. B-Day

10. C Black R

11. R8 Gordini

12. Charleston

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Thomas Dybdahl
«Stray Dogs»
CD Glitterhouse Records, € 15,95


Não vale a pena tentarem perceber de que parte dos Estados Unidos Thomas Dybdahl é originário. "Stray Dogs" é folk à americana, com algo que nos faz lembrar o grande Tim Buckley, mas ele é norueguês de nascimento e passaporte. A era global tem destas coisas. Este segundo álbum da "October Trilogy" é mais "orquestrado" do que "...That Great October Sound", o que só vem confirmar a presente tendência dos "songwriters" para fazerem arranjos mais complexos do que aqueles proporcionados pela primeira leva de música feita quase apenas com uma voz e uma guitarra acústica. Vibrafone, pedal steel, violino, clarinete e mais dão uma nova dimensão a esta perspectiva do formato canção. Chegam-nos notícias de que, entretanto, o terceiro tomo já saiu em Oslo, e o título diz tudo quanto ao que vem na alma de Dybdahl: "One Day You'll Dance For Me, New York". Que é como que dizer: se Maomé não vai à montanha, a montanha vem a Maomé. E não será por acaso que este europeu do Norte refere a metrópole das metrópoles: esta já não é uma folk rural, mas
sim urbana e até cosmopolita, enformada pelos conceitos de produção da pop e pela heterodoxia "indie". E não só: "Outro" é uma peça instrumental que deve tudo à estética da "ambient music", revelando-nos que o seu autor não ouve apenas os baladeiros yankees. O grau de maturidade com que o faz chega mesmo a surpreender, para mais da parte de um músico que conta apenas com 25 anos de idade. De facto, não se trata de uma experiência sem consequências ou de um mero mimetismo do que se faz do outro lado do Atlântico; estamos perante um projecto ambicioso e a forma de estar na canção de Thomas Dybdahl tem tão de pessoal (espantem-se: o amor cantado em "Honey" é bem sucedido, não um lamento depressivo e negativista, o que já por si é incomum) como de criativa. Aliás, tem já o estatuto de um dos mais importantes nomes da área na actualidade.
(23-09-2005)

1. Rain Down On Me
2. Cecilia  
3. Make a Mess of Yourself
4. Pale Green Eyes
5. Either Way I'm Gone
6. Honey  
7. Rise In Shame
8. Stray Dogs
9. The Willow
10. Stay Home
11. Outro  

 

Thomas Strønen
«Pohlitz»
CD Rune Grammofon, € 16,50


CO baterista dos Food e metade do duo Strønen and Storløkken, que ainda recentemente nos ofereceu o delirante “Humcrush”, oferece-nos agora um álbum a solo que está tão longe das suas anteriores incursões quanto poderíamos imaginar. Colocando de lado o “drum kit”, trabalha ao longo de “Pohlitz” com os instrumentos típicos do Gamelão (taças, sinos, gongos, etc.), ainda que nada nestas construções tenha sabor étnico e referência na música do Bali, apesar de, como esta, ter um cunho acentuadamente melódico. Aos “beatable items” mencionados na ficha técnica acrescenta alguns tratamentos electrónicos, mas não para criação de simples atmosferas, se bem que estejamos no domínio muito específico do “soundscaping” – Thomas Stronen trabalha sempre com timbres e texturas (e atenção: não propriamente com ritmos, o que seria, decerto, mais óbvio), com a transparência própria das abordagens minimalistas, variando cores e inflexões até ao limite das possibilidades. A filosofia inerente é a comum: obter o máximo efeito com o mínimo de meios. Haverá nestas oito faixas algo do Steve Reich dos primórdios, mas de forma muito indirecta. Em termos de localização e de reconhecimento destas propostas, as coisas ficam por aí. O essencial é uma deambulação por uma “no man’s land” que o coloca indubitavelmente na linha da frente da actual música para percussão. Nada que fizesse prever as colaborações de Strønen com Bobo Stenson, Maria Kannegaard, Tomasz Stanko e Silje Nergaard, além dos mencionados Food, o seu projecto com o saxofonista inglês Iain Bellamy, e da sua parceria com Stale Storløkken, o teclista dos Supersilent. Este disco, o primeiro a sair em 2006 pela Rune Grammofon, corta definitivamente as suas amarras com o jazz.
(17-02-2006)

1. Heterogeneous Substances
2. Ingenious Pursuits
3. Lavoisier
4. Dispatces
5. E...Quilibrium
6. Mutti
7. Interacting Massive Particles
8. Natural History Of Creation

 

The Threshold HouseBoys Choir
«Form Grows Rampant»
CD+DVD Threshold House, € 33,95

Formado por Peter Christopherson em 2005 como continuação do projecto Coil, entretanto dissolvido pelo desaparecimento de Jhonn Balance em 2004, a Threshold HouseBoys Choir (com base em Bangkok, na Tailândia), ao contrário do que pode indiciar, não é um grupo coral mas sim um projecto solo. Este é o álbum de estreia, e aí Christopherson prossegue com as ideias já anteriormente adoptadas nos Coil - combinando tecnologia áudio de ponta (particularmente na manipulação de vozes) e melodias ambientais envolventes, cria estruturas sonoras hipnóticas, colocando o ouvinte numa espécie de transe. Curiosamente o DVD demonstra também esta faceta, já que no documentário realizado pelo próprio no festival GinJae, na Tailândia, vemos jovens em transe interpretando variadas danças, piercings faciais, e outras habilidades, de modo a afastar espíritos malignos das suas comunidades. A banda sonora do filme é a que está contida no CD, podendo ser apreciada independentemente das imagens.
Mais uma vez ficamos siderados com o nível de qualidade dos mais recentes álbuns onde Christopherson participa, seja sob o nome de Coil, seja sob outra qualquer denominação. As suas criações nunca nos deixam de impressionar, e neste caso a inserção de vozes e a sonoridade minimalista reforça ainda mais toda a estrutura melódica. Uma obra prima!!!

(
25
-05-2007)

CD:
1. A Time of Happening
2. Imitations of Spring
3. So Young It Knows No Maturing
4. So Free It Knows No End
5. As Doors Open Into Space

DVD:
1. Documentário realizado por Peter Christopherson

 

Throbbing Gristle
«Part Two - The Endless Not»
CD/2LP Industrial Records, € 17,95/€ 22,95

Longe vão os tempos de grandes álbuns que vinham abanar o nosso quotidiano. Obras de projectos como os Throbbing Gristle, Psychic TV, Einstürzende Neubauten e inúmeros outros dentro da área do industrial ou do experimental sempre foram sinónimo de tempos intensos, onde cada escuta era uma descoberta e uma nova experiência. Tempos saudosos esses... Talvez para tentar ir buscar alguma dessa magia os TG regressaram com este "Part Two - The Endless Not". Não sendo uma obra genial, é concerteza um espelho do que acontecia há mais de 25 anos atrás, e ainda que não atinjam níveis de inovação como antes, não nos deixam de surpreender com a capacidade que ainda têm de criar algo novo. Ao invés de tentarem recriar o que já fizeram, o projecto de Chris Carter, Peter Christopherson, Cosey Fanni -Tutti e Genesis P. Orridge consegue aqui compor trechos que fazem inveja aos actuais "industriais", se é que lhes podemos chamar isso. Numa veia mais acessível, e por vezes semelhante às obras dos Coil (e da Threshold HouseBoys Choir), não fosse Christopherson estar também na formação, os TG prosseguem na exploração do industrial, onde a única voz de Genesis tem um papel preponderante. É um álbum essencial não só para os saudosos como também para os novos ouvintes. Um documento do que era e é, nos dias de hoje, a música industrial de qualidade.
(
08
-06-2007)

“This is industrial music as seen in 2007, with all the discontent of now, rather than the discontent of then - this music is aware of the state we're in and not afraid to show it. Show Throbbing Gristle we still care and let's hope they continue making music this good, the world needs them...”  Boomkat

1. Vow Of Silence
2. Rabbit Snare

3. Separated

4. Almost A Kiss

5. Greasy Spoon

6. Lyre Liar

7. Above The Below

8. Endless Not

9. Worm Waits Its Turn

10. After The Fall

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Thruston Moore
«Trees Outside The Academy»
CD Ecstatic Peace!, € 15,9
5

Após quase dez anos, Thurston Moore regressa com um verdadeiro álbum a solo, numa vertente bem mais acessível, e longe dos devaneios experimentais a que nos habituou. "Trees Outside The Academy" poderia ser um novo álbum dos Sonic Youth, mas não é, é sim uma obra prima do seu líder, um trabalho essencialmente acústico onde Moore explorou as colaborações - Samara Lubeski no violino, Christina Carter (Charalambides) na voz, Steve Shelley na bateria, J. Mascis (Dinosaur Jr.) na guitarra - até mais não. Chega-nos às mãos uma peça que há muito fazia parte dos planos de Moore, mas que teve um parto difícil. Tantos anos de espera valeram a pena. "Trees Outside The Academy" é imprescindível.
(05-10-2007)

"Há muitas canções em "Trees Outside The Academy" que tanto podiam estar aqui como num disco dos Sonic Youth - são maravilhosas a esse ponto..." Inês Nadais in Público/Ípsilon

"Trees Outside The Academy revela um homem na fronteira dos 50, brilhante autor de grandes canções, directo no seu discurso, seguro nas formas, discreto na sua comunicação. Eis um disco “feel good” para quebrar o mito que só das sombras nascem os grandes momentos de criação." Nuno Galopim in Sound+Vision

"O disco também vale pelos arranjos, injectores de vitalidade. Quando a electricidade se faz ouvir, é impossível resistir a J. Mascis (dos Dinosaur Jr.), convidado para fazer uns solos aqui e ali. Episódios de um todo recheado de grandes canções." André Gomes in Blitz

1. Frozen Gtr
2. The Shape Is In A Trance
3. Honest James
4. Silver>Blue
5. Fri/End
6. American Coffin
7. Wonderful Witches
8. Off Work
9. Never Day
10. Free Noise Among Friends
11. Trees Outside The Academy
12. Thurston@13

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Tim Hecker
«Harmony in Ultraviolet»
CD Kranky, € 17,50

Para quem o nome de Tim Hecker descreve um sucedâneo digital dos “drones” em jeito metal de uns Earth ou de uns Sunn 0))), “Harmony in Ultraviolet” tem algo mais para considerar. E isto porque é muito mais orgânico do que alguma vez foi, em virtude das bases de órgão escutadas, do papel dado aos sintetizadores e até da guitarra eléctrica que volta e meia surge sem especiais cosméticas. Se isso poderia reforçar a identificação do músico canadiano com a frente “doom”, o que se passa é que a engenharia de fluidos aqui aplicada troca o fogo dos infernos pela água matricial. Esta é uma música oceânica e de submersão em profundidade que poderia fazer lembrar algumas incursões de Brian Eno se não fosse totalmente o inverso do ambientalismo. Porque exige volumes elevados de som e porque mete o ouvinte dentro dela, recusando-se a funcionar simplesmente como uma “soundscape”. Em vez de sugestões de perigo, o que o presente álbum nos transmite é uma impressão de mistério, e diga-se em abono da verdade que com requintes de dramatização muito acima do que encontramos pelos lados da Southern Lord. Há muita distorção e ruído branco (a rádio continua a ser uma ferramenta essencial para Hecker), mas é dado um especial relevo à produção de harmónicos e é habitual o surgimento a meio da massa sonora de figuras para-melódicas. Dito isto, fica claro que este trabalho é mais My Bloody Valentine do que Sunn 0)))... Não convém consumir sob o efeito de estupefacientes, pois quem mergulhar pode não querer voltar a terra seca.
(10-11-2006)

1. Rainbow Blood
2. Stags, Aircraft, Kings and Secretaries
3. Palimpsest Pt. 1
4. Chimeras
5. Dungeoneering
6. Palimpsest Pt. 2
7. Spring Heeled Jack Flies Tonight
8. Harmony in Blue Pt. 1
9. Harmony in Blue Pt. 2
10. Harmony in Blue Pt. 3
11. Harmony in Blue Pt. 4
12. Radio Spiricom
13. Whitecaps of White Noise Pt. 1
14. Whitecaps of White Noise, Pt. 2
15. Blood Rainbow

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Tim Hecker
«Mirages»
CD Alien8Recordings, €15,50

Surgido na sequência do muito aplaudido "Radio Amor", a atmosfera negra e as dissonâncias mais ou menos melódicas de "Mirages" já fizeram com que fosse descrito como um disco de death metal ambiental. Uma contradição de termos que, de facto, parece ser a mais indicada para descrever a música proposta por este "laptoper" que soube reservar um lugar muito próprio nos meios da electrónica. Com ele colaboram neste título alguns nomes da linha da frente das actuais músicas criativas, como Fly Pan Am, Christof Migone, David Bryant e Oren Ambarchi, todos eles denotando nos seus respectivos trajectos uma grande sensibilidade relativamente ao trabalho de pormenor ou à fragilidade das estruturas. Factores que estão aqui presentes, não obstante a exuberância das partes de guitarra e baixo, claramente inspiradas no metal mais negro. Insuficientes, de qualquer modo, para mudar o carácter contemplativo e melancólico desta música que não receia repor o tema da beleza em equação, numa altura em que esta é imediatamente identificada com a pop e/ou com uma certa superficialidade estética. Sem razão, como se depreende ouvindo este novo disco de um músico que o abstraccionismo sonoro parece ter roubado de vez ao techno.
(04-03-2005)

 

Tim Irwin
«We Jam Econo – The Story of the Minutemen»
2DVD Plexifilm, € 23,95


A atitude DIY tal como nos Estados Unidos era entendida nos anos 1980 não poderia ter sido melhor representada do que pelos Minutemen, e daí o título “We Jam Econo” para este filme de Tim Irwin sobre o grupo, o qual, traduzido para Português depois de traduzido para Inglês corrente, quer dizer que eles tocavam com poucos meios – aliás, foi a resposta que deram quando, no final de uma entrevista, lhes perguntaram se tinham algo a acrescentar. Poucos meios em termos de instrumentário e equipamento, e poucos meios também a nível musical, pois seguiam a máxima de que, para fazer rock, apenas é necessário aprender três acordes e alugar uma carrinha – como se ouve dizer sobre eles em determinada altura, “they weren’t Berklee School of Music-trained, they were just dudes from San Pedro, California”. Mesmo que isso não fosse exactamente assim, pois o trio até sabia tocar e chegou a viajar de avião. Por ironia do destino, foi num acidente de carrinha que o guitarrista D. Boon perdeu a vida em 1986. Na boa tradição do documentalismo, o filme mistura imagens dos Minutemen a actuarem ao vivo com depoimentos dos dois elementos sobreviventes, Mike Watt e George Hurley, e de quem admira esta típica “garage band” que alinhava pelo punk mas tinha qualquer coisa de Funkadelic e Captain Beefheart: Joe Baiza, Jello Biafra, Nels Cline, Flea, Richard Hell, Joe Mascis, Thurston Moore, Colin Newman, Henry Rollins e mais. Pelo meio, três vídeos apenas, mas um deles particularmente bem conseguido, feito para o tema “This Ain’t no Picnic”: vemos um Ronald Reagan jovem, em imagens “picadas” de filmes de propaganda do tempo da Segunda Guerra Mundial, a metralhar e a bombardear uns Minutemen em fuga.
(22-09-2006)

No CD:
1. Beck - Leave Me on the Moon
2. The Pussywillows - Vindaloo
3. The Dynamics - Tube Glory
4. The Raunch Hands - Green Room
5. Pam Aronoff - TV Jazz
6. Go To Blazes - Hating You
7. Loser [feat. Beck] - Born of Whiskey
8. Beck - Last Night I Traded My Souls Innermost for Some Pickled Fish
9. Delta Garage - Blue Eyes
10. Thomas Hendrix - Kill The Moonlight Sample
11. The World Famous Blue Jays - Cookin' With Jay
12. Go To Blazes - Bad Cup of Coffee
13. Beck - Underwater Music
14. Loser [feat. Beck] - Dad Came Home
15. Martha Atwell - Wildwood Flower
16. Thomas Hendrix - Can't Find My Car
17. Pam Aronoff - Clear
18. Loser [feat. Beck] - Fish Bait [instr.]
19. The Dynamics - Spaghetti Ride

 

Time of Orchids
«Sarcast While»
CD Tzadik, €18,95

Uma banda de "avant-metal" com Julee Cruise (exacto: a da música de Badalamenti para "Twin Peaks", a série televisiva e o filme de David Lynch) como cantora convidada? Incongruências destas só mesmo na Tzadik de John Zorn, e a verdade é que a mistura resulta. Com uma variedade de tempos totalmente esquizofrénica e vocais melodiosos a contrastarem com a distorção das guitarras, os Time of Orchids são descendentes da filosofia metamórfica dos Mr. Bungle, mas é dos Fantômas, o mais recente projecto de Mike Patton, que vão buscar a carga industrial e o fascínio pela natureza dos sons. O trabalho harmónico, sobretudo o desempenhado pelos teclados, esse vem directamente do rock progressivo segundo a revisão operada na década de 1980. Estranho? Não muito, quando se sabe que a heterodoxia com que abraçam os aspectos formais da música que praticam os levou antes, em "Melonwhisper", a ter outra inesperada "guest star", a pianista de free-jazz Marilyn Crispell. Agora como nesse álbum, a complexidade e os paradoxos são características plenamente assumidas de uma estratégia que recusa o óbvio e o fácil. O manejo dos instrumentos é virtuosístico (atenção ao baixista Jesse Krakow, também dos Fast 'n' Bulbous), as composições ambiciosas e os arranjos impecáveis, o que quer dizer que é impossível ignorar este disco.
(20-05-2005)

 

 

 

 

Tod Dockstader
«Aerial #1»
«Aerial #2»
«Aerial #3»
CD's Sub Rosa, € 15,95 cada


Com “Aerial”, fica definitivamente estabelecido um elo de ligação entre a electrónica dita “erudita” (apesar de Dockstader ter surgido à margem do circuito musical universitário – era engenheiro de som e especialista em efeitos para o cinema –, inseriu-se nessa linhagem) e a “sound art” experimental, via utilização de “drones”, o nome que se vem dando aos contínuos sonoros na tradição minimalista de La Monte Young. Figura histórica do concretismo americano, Tod Dockstader está a viver uma segunda vida desde que David Myers procurou a sua colaboração e a RéR de Chris Cutler abriu as portas ao compositor, agora secundada pela belga Subrosa. Escolhendo a rádio de ondas curtas como matéria-prima, propôs-se “tocar” esta como se de um instrumento se tratasse, ainda que as operações realizadas passem pelo computador, ferramenta, de qualquer modo, a que só recentemente começou a recorrer. O produto final é assaz curioso, transferindo conceitos germinados nos Sixties para contexto digital, com a vantagem de mergulhar directamente no som, sem intermediação de (pre)conceitos musicais e em total fidelidade a uma descrição de Schaefer para a “musique concrète”: “concerto de ruídos”. As propostas contidas nestes triplo álbum têm a extrema densidade como um distintivo, mas também evidenciam uma grande riqueza de detalhes, com uma envolvência “dark” e pesada que obriga a alguma predisposição auditiva.
(06-10-2006)

 

«Aerial #1»:
1. Song
2. Om
3. Rumble
4. Shout

5. Raga

6. Dada

7. Tremblar
8. Lala
9. Myst

10. Aw
11. March
12. Harbor
13. Swell
14. Pulse

15. Second Song
«Aerial #2»:
1. Approach
2. Omaggio a Fellini
3. Pipes
4. Orgal
5. Babbel
6. Yaya
7. Ba Loon
8. Clocking
9. Wail
10. Bottom
11. Feeder
12. Spindrift
13. Surfer
14. Low Roller
15. Still
16. Beating
17. Piccolo
18. Wire
19. Knock
20. Wah
21. Aah
«Aerial #3»:
1. Mutter
2. Wave
3. Descent
4. Dissent
5. Voicetrain
6. Howl
7. Surge
8. Wheeze
9. CQ
10. Jam
11. Bounce
12. Whisper
13. Oh
14. Stomp
15. Harmonic
16. Din
17. Pressure
18. Serious Jig
19. Stream
20. Steam
21. Wait
22. Woo
23. Finale

 

Tom Verlaine
«Around»
CD Thrill Jockey, € 17,
50

1. O of Adore
2. Brief Description
3. Rain, Sidewalk
4. Shadow Walks Away
5. Meteor Beach
6. Mountain
7. Candle
8. Balcony
9. Flame
10. Curtains Open 
11. Eighty Eights
12. Burned Letter
13. Wheel Broke
14. Suns Gliding!
15. New
16. Rings

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Tom Verlaine
«Songs and Other Things»
CD Thrill Jockey, € 17,
50

1. Parade in Littleton
2. Heavenly Charm
3. Orbit
4. Blue Light
5. From Her Fingers
6. Nice Actress
7. Stroll
8. Earth Is in the Sky
9. Lovebird Asylum Seeker
10. Documentary
11. Shingaling
12. All Weirded Out
13. Day on You
14. Peace Piece

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Tortoise
«A Lazarus Taxon»
3CD+DVD Thrill Jockey, € 21,50

Quando a obra ou parte da obra de um músico ou de um colectivo tem honras de surgir numa caixa, das duas uma, ou é porque morreu (o músico) ou se desfez (o colectivo), ou ainda porque muito simplesmente um e outro já são história, o que pode significar por arrasto que o seu tempo passou. Neste contexto, como entender a publicação da “box” com três CDs e um DVD “A Lazarus Taxon” (termo utilizado na Paleontologia para designar uma espécie biológica que desaparece para depois ser reencontrada sob a forma de fóssil), que junta à reedição remisturada (pós-produção de Steve Albini, BKB e Jim O’Rourke) do álbum “Rhythms, Resolutions & Clusters”, de 1995, há muito esgotado, o conteúdo de singles publicados fora dos Estados Unidos, EPs gravados para serem vendidos nas digressões e temas surgidos em colectâneas? Há uma grande dose de ironia no título, como se os Tortoise se considerassem a si mesmos “fósseis” e achassem que é altura de fazer as contas à vida. Mas corresponderá isso à verdade dos factos? Terá a troupe de John McEntire dado já tudo o que tinha para dar? E agora que se prefere chamar “rock instrumental” ao pós-rock de que este grupo foi uma das bandeiras, será que o dito pós-rock é mesmo coisa do passado – isto tendo ciente que, afinal, não se passou para um qualquer pretenso estado “depois do rock” e que a única diferença fundamental desta outra prática “rock” era / é o facto de não ser cantado? Não é fácil responder a tais perguntas, mas o certo é que poderá estar nos propósitos dos Tortoise precisamente que se levantem questões. Novas questões, aliás, porque para todos os efeitos foi isso sempre (questionar) o que fizeram desde a estreia em 1994, levando o rock para os domínios do hip-hop, tocando jazz com técnicas de mistura do dub e ritmos “funky”, metendo um vibrafone à Modern Jazz Quartet em arranjos para-electrónicos denunciadores de um especial interesse pela música “erudita” contemporânea ou elaborando um complexo trabalho textural em estruturas do mais descarado “easy listening”. “Que raio é isto?”, de resto, era uma reacção habitual à sua escuta e foi o que murmurámos quando nos deparámos com o “remix” que Nobukazu Takemura fez do tema-título de “TNT” (1998), com o trompete de Rob Mazurek a aparecer pelo meio. Na volta, o que os Tortoise pretendem é demonstrar que o que têm feito tem mais caminho a percorrer, o mais não seja com os “inputs” de outros colaboradores. Seja como for, sempre contaram com esse tipo de contribuições e houve gente constantemente a entrar e a sair ao longo dos anos de actividade da banda. Apenas uma última informação para dizer que o DVD inclui registos vídeo de concertos em 1996, 1999, 2004 e 2005, ficando patente que eles ainda mexem e têm ideias.
(08-09-2006)

Disco 1:
1. Gamera
2. Source of Uncertainty
3. Blackbird
4. Sexual for Elizabeth
5. To Day Retreiva
6. Whitewater
7. Didjeridoo
8. Autumn Sweater  
9. Wait
10. Grape Dope
11. Restless Waters
12. Vaus
13. Blue Station

Disco 2:
1. Madison Area
2. TNT [Takemura Remix]
3. Why We Fight
4. Elmerson, Lincoln, And Palmieri
5. Peering
6. Goiriri
7. As You Said
8. Cta
9. Deltitnu
10. Adverse Camber
11. Cliff Dweller Society
12. Waihopai

Disco 3:
1. Alcohall
2. Your New Rod
3. Cobwebbed
4. Match Incident
5. Tin Can Puerto Rican Remix
6. Not Quite East of Ryan
7. Initial Gesture Protraction
8. Cornprone Brunch Watt Remix

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DVD:
1. Salt the Skies
2. Dear Grandma and Grandpa
3. Glass Muesum
4. Seneca
5. Four Day Interval
6. Suspension Bridge at Iguazú Falls
7. Live at Primavera Sound 2005: Monica
8. Live in Toronto 1996: Gamera/Glass Museum/Reservoir/Djed/The Equator/Va
9. Live at Deutches Jazz Festival 1999: Ten Day Interval/Othello
10. Live on "Chic-A-Go-Go" 2005: Seneca
11. Live for "Burn to Shine" 2004: Salt the Skies

 

Tortoise & Bonnie “Prince” Billy
«The Brave and The Bold»
CD Overcoat Recordings, 17,50

No preciso momento em que a designação “pós-rock”, por mal vista, está a ser substituída pela de “rock instrumental”, menos desestabilizante de conceitos instalados e arrumações, os Tortoise, grupo charneira desta frente de acção, surge com um disco protagonizado pelos vocais de Will Oldham, naquele que talvez seja o seu alter-ego mais “batido”, Bonnie “Prince” Billy. E a crer pelas recenções críticas já surgidas, as opiniões dividem-se: uns adoram, outros detestam. Uma coisa é certa: só as obras verdadeiramente importantes têm tal capacidade de agitar as águas, e “The Brave and the Bold” é-o sem sombra de dúvida. Mesmo em se tratando de uma colecção de “covers” dos mais inesperados nomes, como Bruce Springsteen (“Thunder Road”), The Minutemen (“It’s Expected I’m Gone”), Devo (“That’s Pep”), Elton John (“Daniel”), Richard Thompson (“Cavalry Cross”) ou Milton Nascimento (“Cravo e Canela”, o tema inspirado na “Gabriela” do escritor brasileiro Jorge Amado). A própria intenção de reinterpretar o repertório pop tem muito que se lhe diga, vinda da parte de quem vem. Já vão sendo muitos os músicos experimentais e da facção “indie” que fazem questão em publicitar o seu gosto pela canção “mainstream”, chamando a atenção para um facto indesmentível: até que se faz muito boa música popular. Jim O’Rourke, um próximo dos Tortoise, foi dos primeiros a quebrar com o preconceito de que nada de bom pode surgir do lado comercial, John Zorn solidificou a noção com as revisitações de Serge Gainsbourg e Burt Bacharach na sua Tzadik, e até no jazz não adjectivado como “contemporâneo” ou “avant” estas práticas tornaram-se habituais – a última edição da Orchestre Nationale de Jazz francesa é integralmente constituída por arranjos do espólio dos Led Zepellin. Não que haja grande reverência pelos originais nas reconstruções que ouvimos neste regresso ao CD do grupo de Chicago com a colaboração de um “frontman” do neo-folk, e é aí que está o interesse da actual proposta. As canções são totalmente viradas do avesso, sendo por vezes difícil reconhecê-las. Por exemplo, “Cravo e Canela”, logo o tema de abertura, tem uma feição psicadélica que, se lembra os Mutantes, grupo dos anos 1960/70 agora a ser descoberto nos States, tem algo dos japoneses Boris, sabendo-se como o psicadelismo sofreu modificações formais no tempo que entretanto passou. E este envolvimento vai continuando ao longo das faixas, com Oldham a contradizer, para nossa felicidade e como é seu costume, os padrões do “bem-cantar”, e sintetizadores “vintage” a marcarem presença constante.
(24-02-2006)


1. Cravo É Canela
2. Thunder Road
3. It's Expected I'm Gone
4. Daniel
5. Love Is Love
6. Pancho
7. That's Pep!
8. Some Say (I Got Evil)
9. Cavalry Cross
10. On My Town

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The Tower Recordings
«The Galaxie's Incredibly Sensual Transmission Field Of The Tower Recordings»
CD/LP Communion, €16,50/16,50

Após o 'boom' de interesse pelas andanças «folkistas» e comunais do underground americano no seguimento do afamado artigo sobre a «New Weird America» na Wire, houve alguns projectos que, por uma questão de datas de lançamentos, acabaram por não poder entrar tão bem nessa caravana de fascinantes primitivismos norte-americanos tanto quanto o mereciam. Os Tower Recordings têm sido, ao longo dos últimos anos, dos segredos mais bem guardados das movimentações contra-corrente da experimentalia norte-americana. Da edição «Folk Scene» até este «The Galaxies’ Incredibly Sensual Transimission Field Of…» passaram três anos sem música nova do projecto. Um ensemble em eterna mutação que transpira talento por todos os poros, girou ao longo da sua primeira encarnação à volta de uma das santíssimas trindades do underground da costa Este: Matt Valentine, Helen Rush e PG Six (Patrick Gubler). A dissipação deste trio levou à supramencionada paragem, até há pouquíssimos meses, quando Valentine reuniu uma série de antigos e actuais colaboradores do seu universo (sem Rush e Gubler, mas incluindo a contrabaixista portuguesa Margarida Garcia na maioria das suas actuações e Barry Weisblat, entre outros) para a ocasião da reedição das pedras de toque «The Futuristic Folk Of The Tower Recordings Vols. 1 & 2» pela óptima Time-Lag (cujo dono, Nemo, é actualmente colaborador do projecto) e do surgimento deste «The Galaxies’…». «The Galaxies’…» consiste numa série de gravações feitas nos estúdios da Quakebasket pelo percussionista Tim Barnes e na St. Bridgets Church há aproximadamente três anos. O elenco surge-nos como um 'who’s who' de uma faceta fulcral das músicas exploratórias subterrâneas nova-iorquinas da última década: Matt Valentine (também dono da aclamada editora de CD-Rs Child Of The Microtones, místico urbano, ícone); PG Six (lançou este ano o seu segundo álbum a solo «The Well Of Memory»); Tim Barnes (tanto toca com os Wilco como com a nata da improvisação nipónica); Samara Lubelski (Hall Of Fame, ex-Sonora Pine, lançou o excelente disco de canções «The Fleeting Skies» recentemente, brevemente em loja); S. Freyer, Esq.; Andre Vida e Dean Roberts (experimentalista australiano que editou o ano passado o injustamente esquecido «Be Mine Tonight» pela Kranky). Esta encarnação dos Tower Recordings com o tridente fundador encontra aqui o seu último grande documento de que se tem conhecimento antes da nova etapa que agora se inicia, num álbum que percorre os vários espectros do universo do projecto. Podemos encontrar os comunalismos cósmicos de «jams» telúricas em grupo equiparáveis aos No-Neck Blues Band ou Sunburned Hand Of The Man, pontuados pela poesia boémia e astral de Valentine; uma peça centrada na voz celeste da britânica Helen Rush; uma canção de Patrick Gubler adensada por ondas de 'fuzz' analógico oblíquo; terminando com um 'boogie' comunal, como se os Creedence se cruzassem com os Faust e Dredd Foole ao pé de Saturno. «The Galaxies’ Incredibly Sensual Transmission Field Of The Tower Recordings» é um dos momentos de maior universalidade de uma das entidades que, ao lado da No-Neck Blues Band, Dredd Foole, Pelt ou Charalambides, começou tudo.

 

Toy
«Toy»
CD Smalltown Supersound, 16,50


Desmistificar a aura de complexidade das tecnologias musicais dos nossos dias está na agenda deste duo constituído pelo inglês Alisdair Stirling (House of Hiss / Sensible Twins) e pelo norueguês Jurgen Traeen (produtor e engenheiro de som que já trabalhou com os Jaga Jazzist e grava com o pseudónimo Sir Dupermann), que alegadamente se conheceram no secção de música de uma “megastore” de brinquedos. A sua relação com a electrónica, inclusive a digital, pretendem-na eles como a que tem uma criança com o seu teclado Casio ou com os seus coelhinhos bateristas. Não se entenda, pois, “Toy” como música destinada ao consumo infantil, mas sim como algo que foi pensado e tocado por dois adultos ao vestirem a pele das crianças que já foram ou que ainda vivem dentro deles. O resultado é um estranho “easy listening” que só não tem a candura da “lounge music” porque introduzem nesta um pendor experimentalista que é tudo menos inocente. Com muito dub e formatação pop sobre “beats” electro, o que ouvimos é um misto “faux-naîve” de Yellow Magic Orchestra (aliás, há muito de japonês por aqui!) e Jean-Jacques Perrey, ou do Frank Zappa tocador de synclavier e de Luke Vibert, como ainda dos Residents e de Cornelius (outro japonês). O projecto Toy pode ter sido motivado pelo simples divertimento de dois músicos com outras ocupações, mas explicita muitas questões que estão implícitas no acto de criar. Isto sendo certo e sabido que a criatividade infantil é algo que se vai perdendo com a passagem dos anos e que todo o artista é uma “criança grande”, pois foi capaz de preservar essa capacidade inventiva. Por vezes, até se comporta como um miúdo, com caprichos, amuos e birras, como acontecia com Picasso.
(
03-03-2006)

1. Grass Beatbox
2. Don't Be
3. Sedan Through Tunnel
4. Rabbit Pushing Mower
5. The All Seeing Eye
6. Swingswung
7. Valley Cars
8. Golden Fish In Pool
9. Realistic Martian Landing Set
10. Googie Dream Home
11. Decorama

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Trans Am
«Sex Change»
CD Thrill Jockey, € 12,50

O título do novo Trans Am tem uma razão de ser: o trio encetou uma mudança de processos que os impedisse de estagnar em fórmulas anteriormente experimentadas, e essa mudança teve várias componentes, desde a separação geográfica dos seus membros, impedindo habituações e fazendo com que cada encontro implicasse um investimento, e a utilização de instrumentos que não os seus – por exemplo um mellotron dos anos 1960 – até uma alteração substancial do modo como utilizavam o estúdio de gravação, tendo como consequência que este disco fosse composto, tocado e registado em apenas três semanas, e longe de casa – na Nova Zelândia. Inspirando-se nas Oblique Strategies de Brian Eno, segundo as quais imaginava-se uma situação perfeita para depois a tornar mais “humana”, desenvolveram até às últimas implicações aquilo a que chamaram de Obscene Strategies, um plano operativo que não exageramos se o caracterizarmos como um acto de permanente sabotagem, procurando vias menos óbvias de trabalho. E isso ainda que o apresentem da mesma forma irónica, senão até sarcástica, como concebem a sua música: as instruções são do tipo “take a nap” e “pillow fight!” e não propriamente técnicas, valendo pela mensagem que querem fazer passar de (falsa) displicência. O resultado está aí, com o mesmo projecto de reconciliação do rock com a electrónica (pensem na electropop da década de 80 como referência, e pensem também no krautrock sintetizado dos 70), mas um refrescamento de ideias e realizações. Inclusive, com uma postura adolescente, coisa que há muito desapareceu tanto do rock como da música digital com “beat”.
(
30
-03-2007)

1. First Words
2. North East Rising Sun

3. Obscene Strategies

4. Conspiracy Of The Gods

5. Exit Management Solution

6. Climbing Up The Ladder

7. 4738 Regrets

8. Reprieve

9. Tesco Vs Sainsbury's

10. Shining Path

11. Triangular Pyramid

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Treva Whateva
«Music’s Made of Memories»
CD/3LP Ninja Tune, € 18,50/19,95

Autêntico compêndio dos estilos da música de dança em vigor, em “Music’s Made of Memories” (podia ser o título de um CD de DJ Spooky, o grande teórico da citação musical como exercício da memória), hip-hop, drum & bass, downtempo, house, funk, soul, nu-jazz e disco vão-se sucedendo no trabalho de DJing e “sampling” desenvolvido pelo inglês Treva Whateva. Não só este procede a uma colagem destas tendências da motricidade humana nas noites metropolitanas, como tudo o que conjuga provém de discos dos mestres desses domínios. Hip-hop, apontámos atrás, mas um hip-hop “loja de porcelana” tal como seria feito por um hipópotamo, tais os estragos, no bom sentido, que Treva faz questão de semear por onde passa. Este é o mesmo Treva Whateva que muito contribui para a organização da série de compilações da Fat City com a designação “Mystic Brew” e que tem colaborado com Mr. Scruff, mas o presente álbum, não obstante a maturidade revelada, é a sua estreia no formato longa duração. Descrever o que aqui ouvimos não é fácil, mas se dissermos que se trata de uma espécie de Kruder and Dorfmeister em versão “garage” e que o propulsor destes “beats” parece sofrer de uma doença universalmente conhecida como Attention Deficit Disorder os leitores poderão fazer uma ideia do que vão encontrar: inquietação espiritual ao serviço da agitação dos corpos.
(17-11-2005)

1. Welcome (Skit)
2. Bouncing Bomb
3. Driving Reign
4. Are You Ready? (Skit)
5. Singalong
6. Havana Ball
7. Breakfast Of Champions (Skit)
8. Dedicated VIP
9. Carpe Diem
10. Music’s Made Of Memories
11. Dustbowl
12. We Have The Technology (Foolproof Revox)
13. That’s About It! (Skit)
14.
Dangerous Disco (The Director’s Cut)

 

Troy Von Balthazar
«Troy Von Balthazar»
CD Green Ufos, 16,50


1. TVB Has Fingers
2. Took Some $$

3. Magnified

4. I Block the Sunlight Out

5. Dogs
6. Numbers

7. Real Strong Love

8. Bad Controller

9. Perfect

10. Old Black Joe

11. The Color Comes

12. You, When You're Drunk

13. Rainbow

14. Cover Us

15. Playground

16. Heroic Little Sisters

+ video by Darren Ankenman on CD-Rom track 

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Tujiko Noriko
«Solo»
CD Editions Mego, € 15,95


Mantendo ainda a sua imagem de marca na área do pop experimental japonês, em "Solo" as arestas foram limadas com um dos melhores trabalhos de Tujiko Noriko, em parte devido à habilidade de Gerhard Potuznik e Tyme (dos Mas), mas não só. Nascida em Osaka e actualmente a viver em Tóquio, "Solo" é o muito promissor novo álbum de Noriko, onde se afasta da colagem que alguns fizeram a Björk, enveredando agora por um caminho mais particular ao apostar fortemente na produção (os nomes acima referenciados não são por acaso). Esta aproximação da perfeição poderá ser o resultado de uma mudança radical na vida de Noriko (o nascimento recente da sua primeira filha veio alterar por completo as suas prioridades), mas cremos também que é o reflexo de uma maior maturidade criativa.

“Making music was like I drive and drive looking for a place where there is nobody. I would arrive there, wow cool, I get out of the car quickly. Then I happily dance, sing, doing a mini party alone. Doing a solo show alone in a big green field. There is a lake, the sun, a train, an airplane, the city, a forest, camera, second sight & everything in the field. etc. Anyway, it's nice when it's working well. I had forgotten this way of enjoying for a while. Last year, after some collaboration albums, I remembered I wanted to have this feeling again.”  Tujiko Noriko, 24.11.2006
(
25
-05-2007)

1. Magic
2. Sun!

3. Ending Kiss

4. Let Me See Your Face

5. Saigo No Chikyu

6. Gift

7. No Error in My Memory

8. Spot

9. In a Chinese Restaurant

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Tussle
«Warning EP»
CDEP Smalltown Supersound, € 9,95

A fazer parceria com o EP de Lindstrøm, também o projecto americano Tussle regressa quase um ano depois da edição de "Telescope Mind". Também aqui é reinterpretado e remisturado o tema "Warning", e vale a pena salientar o fantástico trabalho não só dos Hot Chip, mas também de JD Twitch dos Optimo, da dupla escandinava Kango & Torkill, e de Dennis Young (Liquid Liquid). Uma óptima adenda ao excelente álbum de Janeiro de 2007.
(21-12-2007)

1. Warning (Album Version)
2. Flicker 33.3 (Hot Chip Remix)
3. JD Twitch's Optimo Fuckhead Mix
4. Warning (Kango & Torkill Mix)
5. Elephants (Remix By Dennis Young)

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Tussle
«Telescope Mind»
CD Smalltown Supersound, € 16,50


Segundo título dos Tussle na norueguesa Smalltown Supersound, “Telescope Mind” segue a particular receita deste projecto formado por dois bateristas / percussionistas (baldes e garrafas fazem parte do arsenal de Jonatham Holland e Warren Huguel), um baixista que aprendeu tudo com o funk (Tomo Yasuda) e um abusador de electrónica (Nathan Burazer). As referências musicais são as mais diversas, de Can, Art Blakey, Moondog, John Cage e Kraftwerk a Daft Punk, Minutemen, Donna Summer, Public Enemy e Dario Argento, resultando num dub descarnado e minimalista com incidência no ritmo. Este é o robótico, encantatório e implacável do krautrock, mas passado pelo crivo dos conceitos de “beat” do techno e embrulhado num formato musical híbrido que deve tanto à música de dança, à pop e até à muzak quanto aos experimentalismos vários do último século, dos “eruditos” aos “underground”, passando por um óbvio gosto pelo jazz e pela atitude desleixada do punk. O punk dos Black Flag, claro, mas não necessariamente um punk musical – antes aquele que marcou um determinado modo de estar, que os quatro Tussle identificam com o derradeiro dos escritores malditos, Charles Bukowski, cujos romances são descrições de bebedeiras à beira do coma alcoólico e de enlaces sexuais mais abjeccionistas do que propriamente pornográficos. Pode até ser que o que aqui ouvimos não seja mais do que “party music”, mas em vez de nos transmitir um sereno e divertido “está-se bem” fala-nos da desesperada necessidade de afugentar os maus olhados. É a banda sonora ideal, em suma, para os auto-exorcismos das longas noites de sexta-feira...
(09-02-2007)

1. Lyre
2. Warning

3. Second Guessing

4. Kindermusik

5. Cloud Melodie

6. Elephants

7. The Story Of Meteorites

8. Flicker

9. Invisible City

10. Trappings

11. Cloud Melodie II

12. Pow!

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Tussle
«Kling Klang»
CD Smalltown Supersound, € 16,50


Dub-funk com cheirinho a Neu!, A Certain Ratio e Liquid Liquid, muita percussão e um baixo que com certeza fará Bill Laswell empalidecer de desgosto, cabendo-lhe não só manter o groove como desempenhar o principal papel melódico. É isto que nos oferece "Kling Klang", álbum de música instrumental para ouvir muito alto e desenvolver um bom trabalho de ancas (não, não se dança apenas com os pés). O ritmo é motórico, como se diz sobre o legado do krautrock, e o uso de "samples", se está de acordo com as práticas dos nossos dias nos meios da música de discoteca, tanto a nível de coloração como de introdução de cargas "noise", tem as suas referências no tempo do pré-sampling (se alguém pressentir a influência dos Cabaret Voltaire não está enganado; é mesmo por aí que passa). Os Tussle são de San Francisco, têm uma grande propensão para as jams, mas também um sentido histórico que não é muito comum nesta área e um sentido composicional que inclui longas estruturas e partes de pura improvisação, umas vezes mais livres e outras metronomizadas. Não são efeitos hipnóticos o que procuram, mas a viciação dos corpos. E conseguem... Ninguém consegue resistir a este "beat".
(11-11-2005)

1. Here it Comes
2. Nightfood
3. Eye Contact
4. Ghost Barber
5. Comma
6. Disco D'Oro
7. Decompression
8. Tight Jeans
9. Eye Contact (Version)
10. Here it Comes (White Label Mix)
11. Windmill (Don't Stop EP)
12. Windmill (Soft Pink Truth Disco Hijack)
13. Don't Stop (Stuart Argabright Remix)

 

Tuxedomoon
«77-07TM - 30th Anniversary Box»
3CD+DVD Crammed Discs, € 35,9
5

Edição especial limitada de comemoração do trigésimo aniversário do projecto de Steven Brown e Blaine Reininger, "77-07TM - 30th Anniversary Box" é constituído pelo novo disco "Vapour Trails", “Unearthed: Lost Cords”, incluindo gravações não editadas e registadas entre 1977 e 1997, e “162o7 (39 N 7” W)”, álbum gravado ao vivo em Fevereiro deste ano. Esta especial caixa inclui ainda o DVD “Found Films” com cerca de 160 minutos de material de arquivo (entre 1977 e 1988), um documentário On-The-Road e o filme “Ghost Sonata - An Opera Without Words”.
(02-11-2007)

Disco 1:
1. Muchos Colores
2. Still Small Voice
3. Kubrick
4. Big Olive
5. Dark Temple
6. Dizzy
7. Epso Meth Lama
8. Wading Into Love

Disco 2:
1. Soup du Jour/Effervescing
2. Luther Blisset
3. The Dip
4. Still Small Voice
5. Baron Brown
6. Triptych
7. Muchos Colores
8. A Home Away
9. The Big Olive
10. Annuncialto
11. Dizzy
12. This Beast

Disco 3:
1. Day To Day (Demo 78)
2. Remember (Live 78)
3. III (April In Afghanistan) Prototype Of Crash 79
4. Somnambulist (Demo 83)
5. Heaven And Hell (Demo 82)
6. Atlantis Compilation (B-Side 85)
7. Up All Night (Live 85)
8. Lop Lop's People (Live 86)
9. Devastated (Demo 77)
10. Brad's Loop (Live 97)
11. Allemande Bleue (Demo 81)
12. No Business Like Show Business (Live 81)
13. Cell Life (Live 80)
14. Oceanus (Live 78)
15. Work Coda (Live 79)

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TV On The Radio
«Return to Cookie Mountain»
CD/LP 4AD, € 14,95/€ 16,95

Quem ainda não conhecia os TV On The Radio e os ouve finalmente em “Return to Cookie Mountain” tem como primeira impressão a de que se trata de um grupo maioritariamente negro a adoptar o estilo de David Bowie no período em que este procurava alinhar com a soul, música afro-americana por natureza e condição – o que, de resto, não deixa de ser irónico. Duplamente irónico, pois o próprio Bowie participa no coro de uma das canções, “Province”. Entrando mais no universo do grupo fica-se a perceber melhor o seu fascínio pelo “glam” (Marc Bolan / T. Rex é outra referência óbvia), a filiação na pop negra da década de 1960, lembrando-nos muitas vezes os Love de Arthur Lee – a figura do vocalista, Tunde Adebimpe, ajuda –, mas também que este projecto não existiria se os Radiohead não tivessem provado com “Kidd A” que a experimentação é mesmo uma via de renovação da música popular urbana, o que foi confirmado logo de seguida pelos Animal Collective (aliás, as atmosferas do presente álbum têm muito que ver com estes). O som dos TV On The Radio e o projecto em si são um claro produto de “engenharia”, ou não fosse o seu mentor, David Sitek, um produtor de renome associado aos Yeah Yeah Yeahs e aos Liars – quando deparamos com um tema que se intitula, precisamente, “A Method”, ficamos a perceber tudo, mesmo que na letra se cante “There is hardly a method, you know”.
(04-08-2006)

1. I Was A Lover
2. Hours
3. Province
4. Playhouses
5. Wolf Like Me
6. Method
7. Let The Devil In
8. Dirtywhirl
9. Blues From Down Here
10. Tonight
11. Wash The Day

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12Twelve
«L'Univers»
CD Acuarela, € 16,50

Ponto nº 1: os 12Twelve são um grupo do chamado pós-rock. Ponto nº 2: “L’Univers” é um disco de jazz, entrecortado por momentos do mais não-idiomático experimentalismo. Ponto nº 3: Grupo e disco constituem uma autêntica lufada de ar fresco, vindo de aqui bem perto: Barcelona. Saxofone, teclados (um e outros entregues a Jens Neumaier), guitarra (Jaume L. Pantaléon), contrabaixo (Javier Garcia) e bateria (José Roselló) são os instrumentos utilizados, os típicos do jazz eléctrico. A música, essa, é que não é típica: o que temos aqui é um jazz tocado por músicos do rock “indie” que se fascinaram com as estéticas de vanguarda e de depois das vanguardas. A discografia do colectivo não o fazia supor. “Speretismo”, o anterior álbum produzido por Steve Albini, teve outro propósito: verificar que amarras ainda ligavam o pós-rock à história do rock propriamente dito. Não é, pois, sem surpresa que nos chega esta nova edição, até porque quem esteve mais uma vez sentado diante da mesa de mistura foi Albini, o mais prestigiado dos produtores americanos do rock guitarrístico, dos Nirvana a PJ Harvey. As referências dos 12Twelve são assaz curiosas e não é costume vê-las associadas: Sun Ra, Lalo Schifrin, The United States of America. “Temos uma forma de funcionar muito nossa, muito pessoal e quase privada. O mais importante é que sempre soubemos o que não queríamos fazer”, lê-se no website dos Doze. Um exemplo, em suma, de como de uma negação pode surgir um rotundo SIM.
(
26-05-2006)

1. Mr. Gesus
2. La Habitación de Albert  

3. Professor Alí

4. 9è 4º
5. Il Monstro
6. La Modelo
7. Yotuel
8. R2 Chapa
9. Com Senyors
10. Intonarumori
11. Ciencia Para Todos los Públicos
12. Ruidos Pour Ondes Martinot et Orchestre
13. 3001
14. Autobahn Polizei
15. Gitanita

 

Twink
«The Broken Record»
CD Seeland,
€ 14,95

1. Mister Magic
2. Pussycat
3. Great Circus Show
4. Riddle
5. Monkeyshines
6. Alphabent
7. Animal Talk
8. Boys And Girls
9. Hot Diggity
10. Hammer
11. Whose Turn Is It
12. Three Blind Mice
13. Let Me See How You Do It
14. Choo Choo
15. Life Is But A Dream
16. Hip Hopera
17. Real Indians
18. Three Wishes
19. Yippee Skippee
20. Grandmother And The Wolf
21. Broken Record

 

Two Bands and a Legend
«I See You EP»
CDEP Smalltown Superjazzz, € 9,9
5

Três temas que não couberam no excelente álbum do início deste ano dos Two Bands and a Legend (Cato Salsa Experience + The Thing + Joe McPhee) vêem agora a luz do dia, tarde sim, mas mais vale tarde que nunca, pois são três excelentes interpretações de faixas históricas - "I See You Baby", popularizado pelos Groove Armada em 1999, e aqui cantado pelo lendário Joe McPhee; "Nation Time", original do próprio McPhee, e o histórico hino de 1970 dos Black Panther; e para fechar a preciosidade "Our Prayer", original de Donald Ayler, irmão mais novo de Albert Ayler.
Com quase 30 minutos de duração (13 minutos de "I See You Baby" memoráveis), é um EP que vale bem a pena juntar ao álbum homónimo e ao EP de estreia deste projecto - "Sounds Like a Sandwich", da Cato Salsa Experience and The Thing with Joe McPhee. Imprescindível...
(29-11-2007)

1. I See You Baby
2. Nation Time
3. Our Prayer

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Two Bands and a Legend
«Two Bands and a Legend»
CD Smalltown Superjazzz, € 16,50


Há dois anos já havíamos ficado impressionados com a força e poder do mini-álbum "Sounds Like a Sandwich" da Cato Salsa Experience and The Thing with Joe McPhee, nomeadamente na genial versão de "Whole Lotta Love" dos Led Zeppelin. Agora a formação regressa, com outro nome - Two Bands and a Legend -, mas com o mesmo núcleo de participantes, e uma mais forte prestação de clássicos. De PJ Harvey aos Sonics, passando por originais de James Blood Ulmer ou dos The Cramps, "Two Bands and a Legend" é o regresso deste projecto supremo, onde o jazz se funde com o rock numa fantástica e extremamente original amálgama de sons de instrumentos de sopro, guitarras, baterias, mas não vozes. É realmente incrível como o grupo consegue substituir eficazmente a voz pelo trompete, saxofone ou contrabaixo. A ouvir com precaução, mas muita atenção.
(
18
-05-2007)

Is this superjazz?
Does The Thing want to rock the fuck out?
Is Paal Nilssen a love machine?
Do Cato & Bård rip the shit outta guitar?
When McPhee & Gustafsson intro guitar to “Louie, Louie” do you know it’s the best throwdown yet of that klassick since Black Flag?
Does PJ Harvey rule and do these guys love her?
Do we blast through hate?
Mongezi Feza, man - total beautiful African sweet charge, can you drink this to the boss rock zone playlist?
Does Alva Melin’s groove jam “The Nut” destroy yr mind b4 ignition to free life 4-ever?
And will you thank the rock n roll gods for that love groove coda?
Can you shout out James Blood Ulmer!?
Can you shout out James Blood Ulmer rules supreme and heavy and these cats blow a masterful “Baby Talk”?
Are you cramped?
Can you find yr mind?
Can you shake yr ass?
Is it Nation Time!?

This CD answers all those questions and the answer resounds: YYYYYYYYYESSSSSSS!!!!!!!!!!!!

I shit you not.

Thurston Moore - western massachusetts – 2005

1. Who The Fuck (PJ Harvey)
2. The Witch (Gerry Roslie)
3. Too Much Fun (Jon Magne Riise)
4. Teklo Loo (Mats Gustafsson)
5. Louie Louie (Richard Berry)
6. You Ain`t Gonna Know Me `Cos You Think You Know Me (Mongezi Feza)
7. The Nut (Alva Melin)
8. Baby Talk (James Blood Ulmer)
9. I Can`t Find My Mind (The Cramps)

 

Urbs
«Toujours Le Même Film...»
CD G-Stone, €16,00

Com o apadrinhamento de Peter Kruder, um dos patriarcas da cena "downtempo" da Áustria, "Toujours le Même Film" é a estreia de Paul Nawrata (Urbs) num domínio que não o da produção hip-hop, substituindo "samples" e "loops" por verdadeiros instrumentos. O que nele encontramos é uma feliz junção de vários estilos e géneros, primeiro que tudo a música do cinema "noir" francês dos anos 1950/60 ("adoro bandas sonoras, sobretudo as da Nouvelle Vague", admite), a "lounge music" de um Les Baxter, a sonoridade do órgão Hammond que nos chega dos "organ trios" do jazz mas também do rock progressivo e psicadélico, os ritmos funk e a ambiência da soul, tudo isto embrulhado com uma sensibilidade contemplativa e melancólica de tónica nocturna e levemente etilizada, sobretudo em "Requiem for a Love Affair". Para Nawrata, este disco é o produto de uma descoberta da música: "Não sou verdadeiramente um músico. Criei estas composições por camadas, tocando com um único dedo nos teclados. É a estória naive de um rapaz que se interroga sobre como as coisas funcionam na música." Feita a confidência, mais notável é o grande sentido composicional revelado ao longo destas "soundtracks" de filmes imaginários. Não que os "samples" tenham ficado completamente de lado neste disco; surgem bastas vezes, mas apenas com funções rítmicas. O resto, se não foi escrito no papel porque este jovem DJ nunca chegou a aprender a ler e a escrever uma pauta, foi tocado, gravado e retocado até ficar como pretendia. Uma espécie de "Ennio Morricone meets Serge Gainsbourg meets Duran Duran", como a crítica já considerou...
(13-05-2005) 

 

Urs Leimgruber / Jacques Demierre / Barre Phillips
«LDP – Cologne»
CD Psi Records, € 15,95


Ora cá temos uma daqueles reuniões de músicos só possível no contexto da improvisação. Formado por instrumentistas de diferentes nacionalidades, estilos e atitudes, este é o segundo tomo do grupo. A estreia foi com “Wing Vane” na canadiana Victo e agora chamaram a atenção de Evan Parker, o patrão da inglesa Psi. Leimgruber não podia ser mais diferente de Parker – se o pendor abstraccionista deste é quase sempre uma questão de pele, ouvido e vísceras, o saxofonista suíço é muito mais previsto e “cerebral”, no sentido de que se preocupa com compor no momento em que improvisa, o que, de qualquer modo, não o torna mais abstracto. O curioso neste registo ao vivo em Colónia, na Alemanha, é que a sua habitual e calma lentidão no desenvolvimento das ideias cede por vezes ao grito, ainda que para quase imediatamente voltar à primeira forma. Jacques Demierre proporciona-nos outro delicioso contrasenso: utiliza o teclado do piano com a larga gestualidade de um Cecil Taylor, utilizando as mãos, os braços e os cotovelos, mas em vez dos cachos de notas e das catadupas de acordes deste é inesperadamente pontilhístico – a excepção à regra é “The Rugged Cross”, onde simula uma debandada de búfalos. Para apimentar ainda mais as coisas, o trio conta com um contrabaixista vindo do jazz, Barre Phillips, cujas funções não são propriamente as de formar um esqueleto que dê sentido ao resto. Se era isto o que dele esperaríamos numa situação como a presente, afinal introduz ainda mais factores de criativa incongruência. O curioso é que o resultado final se identifica muito mais com o free jazz (tendência a que Urs Leimgruber esteve ligado da década de 1970) do que alguma coisa que estes três nomes tenham dado a público nos últimos anos, o que só demonstra que há mais do que uma forma de chegar a determinado destino. Sobretudo quando se utiliza uma formação instrumental e um tónica reflexiva tão conotadas como estas, remetendo-nos para o famoso Jimmy Giuffre Trio, que não podemos classificar pacificamente como free. Que bom que é quando as peças do puzzle não encaixam bem...
(30-09-2005)

 

Uzi and Ari
«It is Freezing Out»
CD Own Records, € 15,95


Ao contrário do que o nome Uzi and Ari pode fazer crer, não estamos perante um duo. Quem está por detrás deste projecto é Ben Shepard, americano de Salt Lake City que pratica um rock de guitarras (eléctrica e acústica, atenção) que nos faz pensar nuns Radiohead (reparem em “Mountain / Molehill”) mais descontraídos e em paz com o formato pop. Aliás, neste aspecto as semelhanças de Shepard com Thom Yorke são mais do que muitas, ainda que haja em “It is Freezing Out” mais folk do que alguma vez Yorke terá ouvido – basta ouvir a belíssima balada “Doggy Snow Shoes (On the Front Porch)” para ter a absoluta certeza de que o universo deste grupo do Utah é outro e tem mais que ver com a nebulosa que rodeia um Devendra Banhardt, se a esta juntarmos, está claro, os Animal Collective. Há alguma electrónica por aqui (o tema-título, aliás, namora com o “glitch”), e os “drones” eléctricos de “Influenza” levam-nos a querer arrumar este disco junto dos de Mum e Sigur Ros, mas o enfoque tem muito de rural. Uma boa descoberta.
(08-12-2006)

1. It is Freezing Out
2. Don't Black Out
3. Trainwreck
4. Asleep in Armor
5. Soggy Snow Shoes (On The Front Porch)
6. Tiny House
7. Influenza
8. Mountain/Molehill
9. Drowsy, Drowsy

10. Estella

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The Vandermark 5 vs Atomic
«Flammable Material - 2004 Tour Poster Boxset Opus (Caixa Posters+CD)»
Caixa Posters+CD Atavistic, €350


conteúdo:
20 posters diferentes, assinados e numerados, em papel com tratamento de brilho especial (cada poster foi criado por um artista diferente para a digressão «Elements», dos Vandermark 5). Tamanho individual a rondar os 35x25.
CD «Elements: Live From The Green Mill», fabricado à mão, em cartão, assinado pelos artistas, com design de Dan Grzeca. Caixa original, numerada, limitada a 60 exemplares, com design também de Grzeca.


A 11 de Agosto de 2000, Ken Vandermark veio a Lisboa confirmar tudo o que de melhor tinha sugerido ao longo de uma década de gravações. Nessa altura já conhecíamos 3 álbuns dos Vandermark 5 e outros tantos dos seus trios DKV e AALY, havíamos já sugerido a sua gravação dedicada à música de Joe Harriott, outra no Octeto de Peter Brötzmann, outra ainda com o NRG Ensemble de Hal Russell, e o seu nome saltava à vista em colaborações com Joe Morris, Joe McPhee, Fred Anderson ou Paul Lytton. À nossa escala era demais e difícil de gerir. Mas esse festival de Jazz em Agosto, tornou a sua discografia subitamente redundante pelo impacto dos seus concertos. Os discos serão sempre discos, mas o bilhete de entrada para essa noite foi investido pelo poder da transcendência, da beleza e do testemunho directo do grau mais elevado da capacidade humana. Vandermark não fazia apenas bons discos – parava a rotação da terra, suspendia o tempo, anulava de uma só voz a nossa efémera condição. E depois foi só esperar por mais. Territory Band, Spaceways Incorporated, Tripleplay em concerto - e os bilhetes guardados, à parte – numa caixa ou numa gaveta - ou junto aos discos. Hoje, Vandermark está numa posição única no mundo da música. Reconhecido e respeitado sem que nada - mas absolutamente nada - do que diz, do que deseja ou daquilo em que toca, deixe de ficar iluminado pela urgente radiação que reconhecemos no que, muitas vezes inexplicavelmente, pressentimos como inabalavelmente verdadeiro. A sua consistência, num quotidiano de progressiva volatilidade, é uma benção rara. Ainda para mais temperada pela humildade e pelo seu amor e admiração genuínos por tudo aquilo que, antes de si, fizeram figuras como Ornette Coleman, Cecil Taylor, Sonny Rollins, Joe McPhee, Archie Shepp, Don Cherry, Eric Dolphy, Sun Ra, Julius Hemphill, Carla Bley, Frank Wright, Jimmy Giuffre, Lester Bowie ou Anthony Braxton (para nos ficarmos apenas por aqueles representados em versões nos vários volumes dos «Free Jazz Classics» gravados pelos V5). Já dissemos que não lhe reconhecemos ainda um sinal de fadiga, uma cedência ao facilitismo virtuosístico ou criativo, a renuncia a qualquer desafio ou uma indulgência auto-referencial. E mantemo-lo. Agradecemos o privilégio de assistir a um processo histórico em pleno andamento. Hão de haver, certamente, mais concertos, e, para lá de qualquer dúvida, dezenas de discos.
Mas este email é, ainda assim, para quem quer mais – e, em última análise – destina-se apenas a 60 pessoas no mundo inteiro. As únicas que poderão adquirir este «Flammable Material», destinado a esgotar tornando-se instantaneamente num objecto de sonho e culto para qualquer coleccionador. Imaginem o que era possuir hoje posters originais de concertos de qualquer um dos grandes nomes do jazz já citados. Ou mesmo, discos por si autografados. Que lugar queremos que objectos verdadeiramente únicos e originais ocupem nas nossas vidas? Claro que será sempre um sacrifício – que prendas importantes não o são?- mas daqui a uns anos, com o nome de Ken a justificar o nosso contínuo entusiasmo e admiração, será que nos vamos perdoar por tê-lo deixado passar ao lado?
Ken Vandermark foi considerado ‘Chicagoan of the Year in the Arts: 1994’ pelo Chicago Tribune; os posters para os Vandermark 5 foram destacados na exposição ‘Art in Chicago: 1945-1995’ que teve lugar no Museum of Contemporary Art – com consequente inclusão no livro posteriormente editado pela Thames & Hudson; desde 1996, em conjunto com o escritor e jornalista John Corbett, é coordenador das ‘Empty Bottle Wednesday Night Jazz Series’ e dos dois festivais internacionais que aí decorreram em ’97 e ’98 – por este projecto foram considerados ‘Best Underground Music Promoters’ pela publicação New City, que, também em ’98 e ’99, o incluiu na sua ‘Music 45’ (a lista das 45 pessoas mais influentes na indústria musical alternativa Norte-Americana); ainda em ’99 é mencionado na lista ‘25 For the Future’ da Downbeat; foi-lhe atribuída o ‘genius grant’ pela MacArthur Foundation; a revista Cadence considerou os Vandermark 5 como ‘the most consistently exciting stuff heard by any US small band since the Art Ensemble of Chicago’; os DKV foram considerados pela Chicago Reader como ‘the best working band in Chicago Jazz’.

 

Vandermark 5
«The Color of Memory»
2CD Atavistic, € 21,50

O novo álbum dos Vandermark 5 chega-nos num momento de comoção devido à saída de Jeb Bishop do grupo, consequência, segundo os boatos que correm na Internet (que é para onde parecem ter ido todos os mexericos), de uma tendinite do trombonista ou, no dizer do próprio, de uma adesão sua aos ensinamentos de um guru espiritual, parecendo que as duas razões são igualmente falsas, não só porque ele continua a tocar ao vivo e a mostrar-se em altíssima forma como porque a explicação que deu tem tão de ridícula quanto de enigmática. Seja como for, as reacções que o caso está a provocar dão à formação liderada por Ken Vandermark o mesmo estatuto das bandas rock. O certo é que raramente nos lados do jazz acontece tal bruá devido a mudanças do género (com o violoncelista Fred Lonberg-Holm agora como quinto elemento). “The Color of Memory” é, pois, o último álbum dos V5 com Bishop, e calha também ser o mais celebrado de todos eles e aquele em que, porventura, se sente uma maior presença do rock. Não porque de repente Vandermark tivesse decidido voltar-se para a fusão – se o rock esteve sempre implícito neste projecto, e sobretudo na gestão da energia que o caracteriza, ganhou uma influência mais decisiva a nível estrutural. Sem nunca ser demasiado óbvia, tornou-se, no entanto, fundamental para a propulsão do quarteto. Do mesmo modo, as situações funk que atravessam este duplo, e que constituem um velho amor do saxofonista, não chegam para o classificar idiomaticamente. O território dos V5 mantém-se o mesmo: um free bop acelerado e que aposta no impacto, não obstante a sua complexidade em termos composicionais. O que aqui está é uma versão inteligente do “groove”, uma raridade, portanto...
(21-10-2005)

Disc 1:
1. That Was Now (for the Volcano Suns)
2. Suitcase (for Ray Charles, Elvin Jones and Steve Lacy)
3. Road Work (for Merce Cunningham)
4. Burn Nostalgia (for Art Pepper)
5. Chance (for Nino Rota)

Disco 2:
1. Vehicle (for Magnus Broo)
2. Camera (for Edward Weston)
3. Pieces of the Past (for Joseph H. Lewis)

 

Variable Geometry Orchestra
«Stills»
3CD Creative Sources, € 21,9
5

Reunindo instrumentistas com actividade nas áreas do jazz, da improvisação livre e do experimentalismo sónico cujos graus de envolvimento com a música são bastante diferentes, sendo amadores alguns dos participantes, a Variable Geometry Orchestra é o sucedâneo português de projectos de “conduction” como os de Butch Morris e John Zorn (em particular a série “Cobra”), com a diferença de que Ernesto Rodrigues, o responsável desta “big band”, não utiliza uma sinalética de direcção tão codificada quanto as daqueles nomes, e isso – presumimos nós – para ser mais facilmente entendida por músicos improvisadores com níveis diversos de treino e tendo em conta, inclusive, o facto de o formato muito variável do “ensemble” implicar que alguns dos intervenientes estejam apenas de passagem. Em consequência, a música da VGO é menos estruturada do que as de Morris e Zorn, ainda que a presença de um “maestro” se faça sentir muito claramente.

As coordenadas base da VGO colocam em equação dois domínios da produção musical que regra geral andam apartados, apesar do comum interesse pela espontaneidade criativa: de um lado o free jazz e do outro a electrónica abstracta. Os maciços naipes de sopros e de computadores e sintetizadores são, de resto, um indício dos propósitos subjacentes. O resultado é assaz curioso: uma música magmática, muito fluida e com uma organicidade mercuriana que não encontramos de todo na electrónica que hoje se pratica e muito raramente vai surgindo nas fileiras do neo-free que se toca nos dois lados do Atlântico.

Neste triplo álbum com registos ao vivo situações há que nos remetem para a música contemporânea, ou não fosse Rodrigues um admirador do trabalho de Emmanuel Nunes e de compositores como Xenakis, Lachenmann e Radulescu. Mas quando as improvisações orientadas da VGO parecem assentar nesse contexto, delicioso se torna ouvir um súbito solo de trombone ou de saxofone de teor indubitavelmente jazzístico. Em altíssimo contraste com o que faz Ernesto Rodrigues com pequenos grupos no âmbito da corrente reducionista, esta edição é de uma intensidade e de uma densidade extremas, sendo aconselhável a fruição a espaços, sob o risco de “overdose”. Rui Eduardo Paes in Jazz.pt nº 15
(09-11-2007)

 

Vashti Bunyan
«Lookaftering»
CD Fat Cat, € 16,50

1. Lately
2. Here Before
3. Wayward
4. Hidden
5. Against The Sky
6. Turning Backs
7. If I Were
8. Same But Different
9. Brother
10. Feet Of Clay
11. Wayward Hum

 

Vetiver
«To Find Me gone»
CD Fat Cat, € 16,50

Andy Cabic toca no grupo de Devendra Banhart, e apesar do sucesso obtido pelo mais conhecido representante da “weird folk”, ainda tem tempo para este outro projecto a que deu o nome de Vetiver, no qual Banhart também dá uma perninha – no álbum “To Find Me Gone”, o segundo, com participação em dois temas e sendo co-autor de outro, o imensamente triste “Down At El Rio”. Trata-se, no entanto, de um projecto bem diferente, com uma personalidade própria e que vem confirmar o facto de estarmos perante outro excepcional escritor de canções. Fleetwood Mac, Quicksilver Messenger Service e Credence Clearwater Revival podem ser referências directas ou indirectas desta música, mas apenas para definir de onde parte no seu propósito de revitalização e reformulação da folk, mesmo que esta tenha alguns traços do rock, que é, aliás, e para muitos, apenas a transmutação da folk quando o género entrou nas grandes metrópoles. Mais até no presente disco do que no homónimo de estreia, e a razão que explica que Otto Hauser, dos Espers (grupo de acid folk que por vezes entra em combustão “freak out”, à maneira dos Hawkwind), se sente à bateria. A instrumentação é variada (guitarras, bandolim, violino, violoncelo, flauta, teclados, harmonium, percussão, coros), implicando trabalho de arranjo e produção, mas tudo é feito com uma surpreendente simplicidade e com uma fragilidade que nos faz temer que a qualquer altura assistamos ao geral desmoronamento. Como nota curiosa refira-se que “vetiver” é o nome de uma erva aromática da Índia que cresce na Califórnia, base de acção, precisamente, deste colectivo que por vezes utiliza ragas como estrutura e que gosta de incluir “drones” nos momentos mais conotados com o psicadelismo – os retiros dos Fab 4 no país de Gandhi continuam a dar os seus frutos...
(
28-07-2006)

1. Been So Long
2. You May Be Blue
3. No One Word
4. Idle Ties
5. I Know No Pardon
6. Maureen
7. The Porter
8. Double
9. Red Lantern Girls
10. Won't Be Me
11. Down At El Rio

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Vex'd
«Degenerate»
CD+CDEP Planet Mu, € 22,95

O duo formado pelos londrinos Jamie Teasdale e Roly Porter gosta de pisar o risco e fazer coisas que os outros não fazem, como cruzar o dub electrónico com o industrialismo "dark". Fezem-no com "riffs" de baixo bem sugestivos, à maneira dos Optical ou do Aphex Twin inicial, e com os ritmos distorcidos do breakbeat, sugerindo-nos o seu posicionamento na área da música de dança para a cabeça. "Degenerate" é digital hardcore no seu melhor, com uma atitude cyber-punk já muito descolada das origens jungle dos músicos que o constituem, teclistas propriamente, que não simples "produtores" techno. A música é instrumental, com algumas raras interrupções vocais em estilo ragga (destaque absoluto para o electrizante "Lion V.I.P."), e são sintetizadores mesmo o que ouvimos, não simulações de computador. Aquele "V.I.P." tem uma
explicação: trata-se de versões de temas editados antes em single pela Subtext. Lançar um duplo álbum (ainda que o segundo CD seja um EP) depois de dois singles é obra, mas dá bem uma ideia do sucesso conquistado pelos Vex'd nalguns meios. Os mesmos que já dizem ser este o primeiro disco gótico do dubstep (era mesmo só o que faltava, certo?). Imaginem os cenários escuros e enevoados de Charles Dickens e coloquem-nos em 2005 - é esta a Londres de Teasdale e Porter, sombria, perigosa e grávida de mistério.
(23-09-2005)

Disco 1:
1. Pop Pop V.I.P.
2. Thunder
3. Angels
4. Corridor
5. Cold
6. Venus
7. Gunman
8. Crusher Dub
9. Fire
10. Destruction
11. Lion V.I.P.
12. Slime

Disco 2:
1. Canyon
2. Pop Pop
3. Ghost
4. Lion
5. Smart Bomb
6.
End Of Line (Feat. Search & Destroy)

 

Vincent Oliver
«EP»
3"CD LOAF, € 9,95


Porque a embalagem tem cada vez mais importância num tempo dominado pelo “design”, este CD de 3’’ vem dentro de uma capa de vinil de 12’’ muito trabalhada enquanto objecto, o que também é uma forma de dizer que o tamanho, de facto, não importa. Nem a duração, quando em menos de 20 minutos se “diz” o que se considera importante dizer. É o caso de “Vincent Oliver”, um bem-vindo “statement” de alguém (fixem o nome) que se posiciona entre um certo rock (o representado pelos My Bloody Valentine de “Loveless”, com os seus muros de distorção guitarrística a envolverem cuidadosas harmonias vocais) e uma certa electrónica (a de inspiração pop, por mais alternativa e experimental que nos surja, como é o caso presente) que ainda prefere o sintetizador ao “laptop” e que não exclui os instrumentos acústicos – aliás, flauta, saxofone, dulcimer, outros instrumentos e até toda uma orquestra sinfónica surgem nestes temas. Como Oliver sustenta, “my music is instrument-mental”. Vale a pena ouvir.
(
29-06-2006)

1. Drunk Fun in London
2. A Piece Called Bad Ending
3. So Big Eyes
4. If Yellow Were Sad

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Vincent Oliver
«EP2»
3"CD (Ed.Limitada) LOAF, € 9,95


Novo episódio da série de edições limitadas da LOAF (ver destaques de Motohiro Nakashima, Spectac, Charlie Alex March e Vincent Oliver na nossa secção de críticas), e novamente com uma excelente capa de 12" com uma impressão à mão feita por Ivan Zouravilov. Este novo EP de Vincent Oliver poderá ser considerado o passo seguinte ao primeiro - não fosse por isso denominado "EP2" mas curiosamente, desta vez Vincent canta em vários dos 5 temas, dando uma dimensão mais quente e pessoal à sua composição de piano, electrónica e percussão. Ficam de seguida alguns comentários do próprio Oliver sobre este novo EP:

EP2, what’s it all about?
tits, mostly. but actually, there’s no real narrative running through it. it’s a collection of pieces that were written at different times.. but inevitably there are recurring themes in almost everything i do. I think everything i write will be about tits, ultimately. it’s all sex.. everything i do.

Can you tell us something about the songs on the new EP?
"Buckets of Hen’s Feathers"
The title of the track is something my mother says when she burns her finger or something but doesn’t want to swear. When you do gigs far from home you meet lots of people. Girls. They could be really special. I certainly am. This song is about the trouble that girls have showing me their tits, even if I’m leaving the next morning. I’ve found myspace to be a great aid with this, ‘cos girls start talking to you through it and then when you meet in real life you have a springboard for conversations and there is more trust and stuff.

"I Want It All"
I was lying on the couch at my parent’s house watching some bollocks on the TV at 4 or 5 in the morning. I was getting extremely frustrated that I wasn’t in the biggest place doing the most dramatic thing with the best people. I have such an appetite. I want it all.

"Her Doorbell"
The sole sound source for this piece is a recording of the doorbell at number 6 Beverley Road, New Malden. It was recorded by Olivia. She had been a good friend of mine for a few years, but I’d only recently started touching her tits. The piece inadequately and awkwardly tries to reflect what it was like standing on her doorstep when I was waiting for her to answer.

"Clouds in the Head"
I found life a terrible struggle when I was young. I used to fantasize about being diagnosed with something terrible. Then I’d find out that I’d actually been coping pretty well, considering I had this extra thing to deal with.

Please tell us something about the artwork?
It’s drawn by the same illustrator as the first EP, of course. Ivan Zouravliov. Since then, though, I really feel like I understand his work more so I had a bit more input this time. I talked to him about the kind of thing I’d like it to be and let him go nuts with it. He sent me a sketch and some instructions so that I could pose and take some photo’s. I sent the photo’s back and let him “work up a illustration shitstorm” (his words). It’s beautiful isn’t it? Embarrassing facial expression to pose, though. Great lad. I hope he’ll continue to do all Vincent Oliver stuff. Build up a strong identity together.

(1
3
-04-2007)

1. Buckets of Hen's Feathers
2. I Want It All

3. Her Doorbell

4. Clouds in the Head

5. Outro
 

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Virna Lindt
«Shiver»
«Play/Record»
CD's LTM, € 15,95 cada

Editado pela Compact Organisation em 1983, "Shiver" foi o álbum de estreia da sofisticada diva pop sueca Virna Lindt. Escrito e produzido pela própria acompanhada de Tot Taylor, este aclamado álbum oferece 13 temas de influência pop chique, música concreta e de bandas sonoras de filmes de espionagem dos anos 60, incluindo os singles "Attention Stockholm" e "I Experienced Love". Remasterizado digitalmente a partir das fitas originais, soa bem mais imaculado do que antes. "Shiver" inclui ainda 3 temas bónus, incluindo a versão de "Windmills of Your Mind", original de Michel Legrand para a banda sonora de "Thomas Brown Affair".
"Play/Record" foi o segundo disco de Virna Lindt, editado em 1985. O conteúdo permanece similar ao álbum de estreia, talvez com uma maior diversidade instrumental, mas desta vez, devido a ter sido gravado em Londres, reflecte mais outros temas mundanos, como o caso de uma rapariga que odeia o vermelho, os efeitos dos media nas pessoas, e outras caracterísisticas da sua nova vida naquela cidade. Remasterizado por Tot Taylor, "Play/Record" continua com um som imaculado e límpido, onde a voz de Virna marca presença e fortalece toda a estrutura.
Logo após a edição deste segundo disco Virna Lindt deixou a música para sempre, deixando o mundo mais pobre...
(21-12-2007)

"Shiver":
1. Add It Up
2. Whistle Wind
3. My Hometown
4. Burn
5. Crack-Up
6. Festivo
7. Under the Stars
8. Wild Strawberries
9. Any Colour But Red
10. Whistle Wind (Reprise)
11. Play/Record
12. My Favourite Ring

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"Play/Record":
1. Attention Stockholm
2. Shiver
3. Pillow Talk
4. Swedish Modern
5. I Beat the System
6. Dossier on Virna Lindt
7. Episode One
8. Intelligence
9. Underwater Boy
10. Letter to Sergei
11. Windmills of Your Mind
12. Groom
13. I Experienced Love

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Vladislav Delay
«The Four Quarters»
CD Huume Recordings, € 15,95


Batidas house e misturas dub num contexto essencialmente ambiental, o que encontramos no último trabalho a solo do finlandês Vladislav Delay é uma desconstrução da própria linguagem que vem caracterizando a produção deste músico nas margens do techno. “The Four Quarters” tem mesmo algo de clínico que nos remete para a linha “click and cut” da electrónica experimental mais extremista que chegou a influenciar a linha condutora da Chain Reaction, etiqueta pela qual já passou. Curioso é o facto de Delay ter sabido conciliar a crueza e a depuração destas construções próximas do esquelético com a enorme capacidade evocativa obrigada pelo propósito de criar paisagens sonoras. As peças evoluem muito lentamente, por vezes parecendo mesmo em “slow motion”, mas a polirritmia é o seu sustentáculo, e não de forma menos taquicárdica do que lhe é habitual. Dividido em quatro movimentos por volta dos 15 minutos cada, como numa composição clássica, o álbum tem a particularidade de colocar o seu ouvinte num estado de dormência alerta – induz o sono e o sonho, mas não permite que a consciência se desligue. Como não podia deixar de ser, o “drone” é uma recorrência das suas estratégias, mas esse continuum sonoro é fornecido pela estática. Esta tem mesmo predominância sobre tudo o mais, numa perspectiva “loose” e suave da “noise music”.
(13-01-2006)

1. First Quarter
2. Second Quarter
3. Third Quarter
4. Fourth Quarter

 

Volcano the Bear
«Catonapotato»
CD Digitalis Industries/Broken Face Recordings, € 14,50


Reduzidos a dois, Aaron Moore e Nick Mott, devido à opção pelos estudos e por empregos “normais” por parte dos restantes elementos, os Volcano the Bear estão de regresso ao disco com uma colecção de registos ao vivo feitos entre Fevereiro e Junho de 2004, editada pela etiqueta (Digitalis Industries) do saxofonista Mats Gustafsson, em colaboração com a Broken Face. Mais despida, a música do grupo de Leicester, na Inglaterra, continua, no entanto, as coordenadas que sempre o têm norteado desde 1995: um rock surrealista marcado pelo free jazz, o free folk, o minimalismo e a electrónica, grandemente improvisado e com uma razoável dose de experimentação sonora que passa pelo multi-instrumentalismo. Cujo, entenda-se, não lhes serve para quaisquer demonstrações de virtuosismo: a atitude é precisamente a inversa, inclusive ao nível da reinvenção dos modos de uso da parafernália que têm ao seu alcance, pelo simples motivo de que não dominam, nem sentem necessidade disso, a maior parte dos instrumentos utilizados. “Catonapotato” continua a dar indícios da influência dos Faust e dos This Heat, para não mencionar as dos Residents originais e até dos Sun City Girls, mas está hoje claro que têm uma voz própria entre formações irmãs como os Jackie-O Motherfucker, a Vibracathedral Orchestra, os Sunburned Hand of the Man ou os Black Dice. E eis que são ritmos tribais o que volta e meia ouvimos, algo que ninguém se atrevia a fazer desde o definhamento do industrialismo rock, aqui ganhando uma nova justificação. Afinal, não foi só na década de 1960 que uns quantos visionários resolveram “jogar” com formas abertas. Nos anos 00 também há quem o faça com igual brilhantismo e sentido de oportunidade.
(14-10-2005)

1. Gabriel
2. A Universal History of Infamy
3. Lovely Shepherd
4. Puppy Grill
5. My Favourite Tongues
6. Ong Pate
7. Sharp as The Queen's Teeth
8. The God's Are Massiven

 

VVV (Vega, Vainio, Väisänen)
«Resurrection River»
CD Mego, € 17,50

Os três V que identificam o trio responsável por este “Resurrection River” são os dos apelidos de Alan Vega, Mika Vainio e Ilpo Väisänen. Para quem ainda não sabe – haverá quem? –, o primeiro é metade dos lendários Suicide e os dois últimos constituem o projecto Pan Sonic. A estreia desta formação que combina o punkabilly electrónico que Vega e Martin Rev “inventaram” na década de 70 com a presente techno experimental made in Escandinávia aconteceu em 1998 e chamou-se “Endless”. Esta nova incursão pelo mundo do disco não se distancia muito do que aí propuseram, a não ser, talvez, em termos de aprimoramento desta parceria que não é tão estranha quanto seria de pensar. Que músicos electrónicos da actualidade não têm os Suicide como referência, ao lado dos Kraftwerk e dos Coil? Todo o CD volta a abrir-nos as bocas de espanto, e se a faixa que lhe dá título, logo a inicial, tem um enlevo pop que só as estações de rádio mais obtusas – as portuguesas, por exemplo – colocarão fora das suas playlists, o mais incrível que aqui ouvimos é “It Was Her Eyes”, com Jimi Tenor como convidado especial no órgão. Vega transfigura-se, tal como nos tempos áureos, e quase não seria necessário o beat encadeado pelos finlandeses que lhe proporcionam este regresso em grande para sentirmos a taquicardia rítmica das suas vocalizações. Esta é uma voz-máquina, fria e implacável, vinda dos confins de um inferno em que as chamas são feitas de gelo (Resurrection, convém assinalá-lo, é o nome de um rio do Alasca cujas águas provêm dos glaciares). Dir-se-ia que os demónios do autor das letras de “Ghost Rider” são lunares, ao contrário dos nossos, que irrompem das profundezas da Terra e nos abrasam. A analogia justifica-se com o facto de este trabalho ter temática religiosa – a cover art, aliás, presenteia-nos com a típica iconografia do catolicismo espanhol (resultado da recente mudança dos Pan Sonic para Barcelona, onde agora residem?). O mais maldito dos vocalistas do rock, a par, está claro, de Iggy Pop, canta os pregos de Cristo no mesmo verso em que alude aos carros de corrida de James Dean e alude a um crucifixo negro quenão parece ser muito cristão. Mais uma vez, Alan Vega surge como o alter-ego de Elvis Presley e a má consciência do rock and roll.
(26-08-2005)

1. Resurrection River
2. I Got Wheels, I Got Nails
3. Desperate Nation
4. So Tired
5. It Was Her Eyes
6. 11:52 PM
7. Job Blue
8. Sellin‘ My Monkeys
9. Chrome Z-Fighters 2003
10. Black Crucifix
11. Life
12. It‘s Violence

 

The Walkabouts
«Acetylene»
CD Glitterhouse Records, € 15,95


A gravação de "Acetylene" encontrou os Walkabouts em pleno período eleitoral que acabou por dar a vitória, pela segunda vez, a George W. Bush. Daí que as canções incluídas soem como "wake-up calls" e denotem alguma raiva e muita frustração. E daí também que o seu rock de guitarras seja bem mais vibrante do que era costume, como se Neil Young tivesse aparecido na sala de ensaios dos Wire, para utilizar uma imagem de Chris Eckman. "Procurámos manter as coisas cruas, barulhentas e imediatas. Soluções calmas e poéticas pareciam-nos uma resposta inadequada ao que estávamos a sentir", explicou o vocalista, guitarrista e autor das letras do grupo. A diferente atitude veio dar nova vida a esta formação nascida em 1984, após 15 álbuns a tentar fugir ao óbvio e ao redundante. O ponto de partida continua a ser o country-blues-rock, mas nunca como neste título estiveram tão próximos de uma atitude que se diria punk, nas imediações de uns Wilco, uns Screaming Trees ou uns Giant Sand. Ainda alheia, no entanto, ao fenómeno grunge, apesar do berço comum, Seattle, e de terem pertencido à mesma editora dos Nirvana, a Sub Pop. A primeira faixa do álbum ("Fuck Your Fear"), gravada a 11 de Setembro de 2004, dia em que se assinalou mais um ano após o ataque
terrorista a Nova Iorque, anuncia o que se segue da melhor forma. Muito longe estão eles, de facto, do austero "Setting the Woods on Fire" (1994), de "Devil's Road", que contou com a contribuição de uma orquestra sinfónica (1996) e de "Trail of Stars" (1999), onde encontramos alguma electrónica.
(23-09-2005)

1. Fuck Your Fear
2. Coming Up For Air
3. Devil In The Details
4. Whisper
5. Kalashnikov  
6. Have You Ever Seen
7. Northsea Train
8. Acetylene
9. Before The City Wakes
10. Last Ones

 

Wang Changcun
«The Mountain Swallowing Sadness»
CD Sub Rosa, € 15,95


Se os leitores ainda têm da China a imagem de campos de arroz e gente debruçada a colher as plantas, pensem nas grandes torres de apartamentos das cidades e nas tomadas de electricidade que nelas existem. Ora, onde há electricidade, há computadores pela certa, e é com um que trabalha Wang Changcun, o primeiro músico electrónico chinês a editar fora do seu país, certamente, mas não o único a desenvolver actividade nesta área por detrás da Grande Muralha (chegam-nos nomes como Zhang Jungang, Fu Yu, Jia Haiqing, Lisa Ruyi, Hu Mage, Xu-Cheng, Zhou Pei, Zhong Minjie, Jiang Yuhui, etc.). E não se surpreendam se o compositor refere a peça de fundo deste álbum, “Grand Hotel”, como um edifício que se vai revelando ao ouvido nos seus pormenores geométricos e volumétricos (metaforicamente falando, está claro) – a arquitectura é hoje na China tão importante quanto a agronomia. Presumimos que não há muita música electrónica ocidental, ou mesmo do Japão, a chegar a Pequim, mas pelo que ouvimos em “The Mountain Swallowing Sadness” isso até é um factor positivo – o conteúdo deste disco em boa hora lançado é de uma frescura e de uma originalidade que só podem cair bem. Mas não é uma obra inocente – entre o concretismo e o noise, encontramos-lhe equivalentes neste lado do mundo, mas ninguém poderá compará-la às de Merzbow ou Hecker. O que aqui vem é tão gratificante e tão diferente que recompensa o tédio que se vai instalando no domínio da digitália. E como que a lembrar o lugar do mundo de onde isto vem, o CD termina com “King of Image”, a gravação não tratada dos ritos de um funeral chinês numa aldeia agrícola, com toda a carga humana e social que é de supor. Um trabalho relevante dessa categoria da arte sonora a que chamamos “field recordings”.
(13-10-2006)

1. Grand Hotel
2. King of Image 1995

 

Weird War
«Illuminated By The Light»
CD Drag City, €16,50


Em tempos chamados de Scene Creamers, os Weird War gostam de manter o mistério sobre si mesmos, mas a entrada recente do baterista Sebastian Thomson, vindo dos Trans Am, enfraqueceu essa aura de seres virtuais. À informação sobre a sua história e as suas actividades, o website do grupo prefere a inclusão de fotos artísticas e de textos esotéricos dos seus membros, a começar por um manifesto sobre o poder da arte. Com um vocalista, Ian Svenonius, que já pertenceu aos mesmos Nation of Ulysses que propuseram um programa de 13 pontos "para destruir a América", e um guitarrista, Alex Minoff, que evidencia orgulhosamente a sua ascendência punk, os Weird War têm qualquer coisa dos saudosos Butthole Surfers, e isto tanto no estilo como no corrosivo humor (oiça-se "Word on the Street", com as suas teorias da conspiração), mas na "sopa de pedra" do seu rock falsamente de garagem encontramos muito funk, muita soul, muito rhythm and blues e até uns temperos de disco sound (!). A canção de despeito "Girls Like That" é uma prova disso mesmo, com as malhas repetitivas do baixo de Michelle Mae a funcionarem como a espinha dorsal de todo o conjunto. "Destination: Dogfood" é mesmo uma paródia aos Funkadelic e a influência destes torna a emergir em "Put It in Your Pocket". O resto é T.Rex de depois do Jubileu, descontado o "glam".
(15-04-2005)

1. Illuminated
2. Mental Poisoning

3. Girls Like That
4. See About Me
5. Crystal Healing
6. Visit To The Cave
7. Word On The Street
8. Earth Mama Woman Girl Child
9. Motorcycle Mongoloid
10. Destination Dogfood
11. Put It In Your Pocket

 

Wendy Carlos
«Switched-On Bach»
CD East Side Digital, € 19,95

1. Sinf To Cant No.29
2. Air On A G String
3. Two-Part Invention in F
4. Two-Part Invention in B flat
5. Two-Part Invention in d
6. Jesu, Joy Of Man's Desiring
7. The Well-Tempered Clavier: Book I: Prld And Fugue No.7 in E flat
8. The Well-Tempered Clavier: Book I: Prld And Fugue No.2 in c
9. Chorale Prld 'Wachet Auf'
10. Brandenburg Con No.3 in G: I. Allegro 
11. Brandenburg Con No.3 in G: II. Adagio (First, 1968 Version)
12. Brandenburg Con No.3 in G: III. Allegro
13. Initial Experiments 

 

White Magic
«Dat Rosa Mel Apibus»
CD Drag City, € 16,50


Não, os White Magic de Mira Billotte (e de “Sleepy” Doug Shaw, de Jim White dos Dirty Three, de Tim DeWit dos Gang Gang Dance e de uns quantos mais) não começaram a utilizar letras em Latim – Dat Rosa Mel Apibus é o nome de uma gravura imputada a Johann Theodore deBry, artista maçónico do século XVII, que representa o acesso ao centro da “rosa”, lugar invisível a que apenas podem aspirar os que têm o coração puro e a alma leve. Vendo bem, não surpreende demasiado que um colectivo conotado com a folk “freak” e que entende a performance de música como um ritual e uma oração se inspire numa imagem cujo carácter místico é amplamente discutido. Reivindicam-se os White Magic das influências de Nina Simone, Billie Holiday, Love, Sun Ra, Erik Satie e The Fugs, mas a nós parece-nos estarem algures entre Jefferson Airplane e Black Heart Procession, com muitos laços de familiaridade a prenderem-nos a outros colegas da Drag City, como Faun Fables e até Joanna Newsom. O melhor do disco é a “cover” de uma canção de Karen Dalton, “Katie Cruel”, maravilhosamente cantada por Billotte num enquadramento que prima por uma abordagem “take your time”, plena de atmosfera e de espaço.
(03-11-2006)

1. Light
2. Hear My Call
3. Childhood Song
4. What I See
5. All The World Wept
6. Dat Rosa Mel Apibus
7. Sun Song
8. Hold Your Hand In
9. Dark
10. Katie Cruel
11. Sea Chanty
12. Palm And Wine
13. Song Of Solomon

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White Out
«China is Near»
CD ATP Recordings, € 19,95

Os White Out são Lin Culbertson (sintetizadores analógicos) e Tom Surgal (percussão), e neste "China is Near" contam com a colaboração de dois outros grandes nomes da cena experimental de Nova Iorque, Jim O'Rourke, que hoje soma a sua actividade no grupo de avant rock Sonic Youth a numerosos projectos pessoais ou em cooperação com outros músicos, e William Winant, percussionista vindo do universo da new music e da interpretação de obras de compositores contemporâneos norte-americanos. A metodologia é a da música livremente improvisada e o âmbito a electroacústica - a abordagem, essa, está conotada com a "extreme music", ainda que aludindo à típica sonoridade dos primórdios universitários da electrónica nos EUA. A Alternative Press chamou mesmo "son-of-a-Bitches Brew" ao primeiro álbum do projecto, "Red Shift", em referência ao disco de Miles Davis que virou o jazz do avesso, ligando a prática da improvisação à electricidade. Outros media retiveram do segundo disco, "Drunken Little Mass", o "universo musical de caos, tensão e beleza". Agora, mais achas são deitadas para a fogueira, e com uma boa quota-parte de responsabilidade para os convidados especiais. Já houve quem escrevesse que o presente título parece ser uma versão da banda sonora de "Forbidden Planet" tocada pelo lendário baterista de free jazz Rashied Ali. Não anda longe da verdade: o que aqui ouvimos reproduz a ambiência dos velhos filmes de ficção científica e cruza-a com o jazz de-depois-da-morte-do-jazz (essa de que tanto se fala mas ainda não vimos acontecer), um jazz transfigurado em que as linhas melódicas do saxofone de John Coltrane são substituídas por guinchos metálicos (um gongo raspado com
esferovite?) e ululações sintéticas arrancadas a um Pro-One em apuros. Alguma coisa do que aqui ouvimos pertence ao mundo auditivo dos Sonic Youth mais experimentais (foi, aliás, Thurston Moore que editou os dois primeiros White Out na sua Ecstatic Peace), mas em vez de paisagens de feedback de guitarra o que temos é a ligação operada entre a electrónica histórica e a presente "noise music" composta no tempo real da execução com botões, manípulos e teclas. Sempre sustentadas por um muro percussivo que não nos dá descanso.
(23-09-2005)

1. Ghost Mirror Image
2. Lost In Grey
3. Stifled Moon
4. Mutinous
5. The Empty Center
6. Favourite Jungle

 

The White Stripes
«Get Behind Me Satan»
CD XL Recordings, €17,50

Mais uma vez, os White Stripes vêm lembrar-nos que o rock usa chapéu de "cowboy" e nasceu num celeiro. Com a diferença, porém, de que em apenas três canções do seu novo disco a dupla formada por Jack e Meg White utiliza guitarra e bateria, o que é uma surpresa para uma "guitar band" como esta. Ou nem tanto assim: se os instrumentos principais, desta vez, são o piano e a marimba, não nos podemos esquecer que eles sempre foram uns mestres na arte da provocação. Aliás, se o country que desponta por vezes neste disco tem tudo a ver com a própria identidade dos Stripes, o quase Motown de "My Doorbell" explica-se pelo espírito de rebeldia de Jack White no que respeita a questões menores como a fidelidade a modelos estilísticos, lembrando-nos ao mesmo tempo quanto a música negra americana foi e é decisiva para a cultura pop. E se provocativa é a insistência em fórmulas "retro", também convém não esquecer que é precisamente a revisitação das raízes do rock que está a rejuvenescer este - o facto de, no anterior "Elephant", o produtor Liam Watson não ter querido utilizar equipamento de estúdio posterior a 1965 não foi apenas uma mania, mas uma necessidade prática. O mundo sonoro do rock não é, decididamente, o digital, com a sua paranóia pela pureza e pela limpeza dos sons. De resto, "Get Behind Me Satan" repõe velhos entendimentos relativos à utilização do estúdio: o disco foi não só gravado e misturado como também composto em duas semanas apenas do passado mês de Março, com muito trabalho de improvisação pelo meio. A ideia é que aquilo que se faz entre paredes, com os auscultadores enfiados na cabeça, tenha desde logo uma dimensão "live" facilmente transposta para uma situação de concerto - é esta a atitude rock, por mais voltas que outros lhe queiram dar. Ainda assim, há mais orquestração neste trabalho do que alguma vez antes aconteceu, especialmente no caso de "Take, Take, Take", onde Meg se desdobra em vários instrumentos de percussão, incluindo um tímpano, e Jack surge numa guitarra acústica além de se ocupar do piano. Uma pequena contradição que só confirma a regra.
(03-06-2005)

 

Why?
«Elephant Eyelash»
CD Anticon, € 17,
50

Lembram-se dos cloudDEAD, colectivo experimental de hip-hop em que Yoni Wolf surgia com o pseudónimo Why?? Pois agora a interrogação já não o identifica apenas a ele e sim todo um grupo, e estes Why? não se dedicam a virar o “rapping” do avesso mas a fazer música pop. “Indie”, com certeza, e convém acrescentar que até bastante estranha nos seus contornos, mas pop na substância e na natureza, com melodias e refrões tão vulgares quanto um dia de chuva em Londres. Estas palavrosas canções de tónica psych rock-folk-hop lembram um bizarro mix dos Pavement com a electrónica de “OK Computer” dos Radiohead, a “songwriting” de Jim O’Rourke e reminiscências do Brian Eno autor de canções. A pergunta que fica é: será que este Yoni Wolf já não estava pressuposto no da época em que era MC? Alguma da crítica não hesita em afirmar que sim, argumentando mesmo que ele sempre foi mais They Might Be Giants do que Deep Puddle Dynamics, ao contrário de Sole ou de Doseone, seus colegas de etiqueta. A verdade, porém, é que, se Yoni sempre foi mais pop do que estes, também parece ser mais experimental. Nisto, só Odd Nosdam lhe bate a palma. Preocupante é a quantidade de vezes que canta/fala sobre o suicídio, mas também o que se pode esperar de um americano com dois dedos de testa face a tudo o que por lá tem acontecido? Não que ele proteste muito, mas quando ouvimos versos como “these are selfish times / I’ve got shellfish dimes / and sanddollars” o certo é que não é preciso dizer muito mais. A vantagem do psicadelismo (na poesia como na música) é ser sempre implícito, e nesse aspecto a torrencialidade com que esta figura da Anticon usa a palavra parece abarcar o universo inteiro. Nada fica de fora, mesmo quando “apenas” parece referir-se à ex-namorada e a um preservativo usado que encontrou no caixote do lixo de casa e não era propriamente dele...
(21-10-2005)

1. Crushed Bones
2. Yo Yo Bye Bye
3. Rubber Traits
4. The Hoofs
5. Fall Saddles
6. Gemine (Birthday Song)
7. Waterfalls
8. Sanddollars
9. Speech Bubbles
10. Whispers Into The Other
11. Act Five
12. Light leaves

 

Willard Grant Conspiracy
«Let It Roll»
CD Glitterhouse, 16,50


Folk-country-blues-rock psicadélico e com colorações de mariachi, aquilo a que já se chamou de “cracked Americana”, é o que nos oferecem neste seu sexto álbum os Willard Grant Conspiracy - grupo de formação variável (são 37 os instrumentistas que volta e meia surgem nos seus concertos, nunca pisando o palco mais do que 14 numa só ocasião), liderado por Robert Fisher que conta neste registo com a participação de membros dos grupos Walkabouts, Lambchop, Dream Syndicate e Madder Rose. O projecto é originário de Boston e este disco foi gravado na Eslovénia, no final de uma digressão pela Europa, mas tem o sabor das músicas do deserto – o californiano de Mojave designadamente, que é onde Fisher vive, tal como Don Van Vliet, aka Captain Beefheart,. Sedenta de verificar filiações e familiaridades, algumas delas contraditórias, a crítica já os comparou aos Calexico e a Tom Waits, disse que são um cruzamento de MC5 com Pere Ubu ou de Neil “Crazy Horse” Young com Velvet Underground e referiu que têm aquilo que falta a Nick Cave (australiano de nascimento) e aos seus Bad Seeds: um espírito verdadeiramente Sulista (do Sul dos Estados Unidos, que não do planeta). Verdade ou não (e não é que aqui também há “murder ballads”?), o certo é que a música de “Let It Roll” não seria como ouvimos se não tivessem existido dois grandes senhores chamados Skip James e Johnny Cash. A voz de barítono de Fisher até faz lembrar este último, e a rabeca hillbilly que aparece por trás mais ajuda a dar uma conotação “trashy” à folk eléctrica que ouvimos. Esta é a música de uma América paradoxal em que coexistem agricultura, empresas de tecnologias e centros comerciais, mas o deserto, decididamente, já não é o que era quando Jim Morrison ia tripar para as dunas. Os cruzamentos estilísticos operados, ainda por cima com o México ali tão perto, são bem o reflexo disso. Por outro lado, o facto de estas canções não serem muito estruturadas, o que decorre das particulares características dos Willard Grant Conspiracy (funcionam consoante os membros que estão disponíveis, pelo que não há muitos ensaios), não só as torna mais orgânicas como lhes imprime autenticidade. Nunca se repetem, mesmo que o repertório seja o mesmo, mas são fiéis à realidade de que provêm.
(
31-03-2006)

1. From A Distant Shore
2. Let It Roll

3. Dance With Me

4. Crush

5. Flying Low

6. Skeleton

7. Breach

8. Mary Of The Angels

9. Ballad Of A Thin Man

10. Lady Of The Snowline

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William Basinski
«Variations For Piano & Tape»
CD 2062, € 16,95


Edição de um registo feito no início da década de 1980, o que aqui ouvimos, apesar do título do disco, é apenas a “Variation #9 ‘Pantelleria’”, com 44 minutos de duração, de uma série de obras para piano e fita, ou para ser mais exacto, para piano EM fita, de um especialista do desconstrucionismo electroacústico, William Basinski. O processo é simples, os resultados nem tanto assim: o artista sonoro norte-americano utiliza o mesmo “loop” com uma curta melodia (cinco notas apenas) tocada ao piano em duas direcções inversas, uma delas, portanto, em “reverse”, com a característica de o contraponto obtido surgir de forma randômica, sempre diferente em cada repetição, com um acidente a marcar ainda mais a sujeição ao acaso – a banda magnética salta por vezes da cabeça de leitura da máquina. Numa altura em que o digital domina o panorama da música electrónica, a afeição pelo Basinski partidário do “reel-to-reel” é um sinal de que ainda se prezam as excepções. O curioso é que os discos que lhe deram fama nos meios do experimentalismo, a começar por “The Disintegration Loops”, se foram lançados ao longo destes últimos anos, têm conteúdos que datam invariavelmente de há duas décadas. Ou seja, num tempo também em que tanto se preza o “novo”, sabe bem verificar que o que passou continua a ter validade.
(02-02-2007)
 
1. Variation #9: Pantelleria

 

William Parker
«Long Hidden: The Olmec Series»
CD AUM Fidelity, 16,50

Fascinante, é o que se pode dizer do novo álbum de William Parker, o mais místico e esotérico dos “jazzmen” contamporâneos, combinando solos de contrabaixo que nos deixam de maxilar pendurado (grande trabalho de arco!) com peças de grupo enraízadas na música dos Mandingas da África Ocidental e na tradição Olmec do México, lembrando pelo caminho, directa ou indirectamente (ou será imaginação nossa?), o merengue dominicano e haitiano, o cajun e o zydeco dos pântanos do Louisiana e até o funaná de Cabo Verde e os sanfoneiros nordestinos do Brasil. Aliás, o uso de um acordeão em muito contribui para este tipo de referências, múltiplo e geograficamente variado mas parecendo ter uma base comum – algum marinheiro europeu de longo curso que levava esse instrumento na bagagem. A filosofia desta música vai, no entanto, ainda mais longe, recuando até um imenso mistério: acontece que os Olmecs, antepassados dos Maias, parecem ter tido alguma ligação com os Mandingas, tanto assim que o seu dialecto tinha grandes semelhanças com a língua daqueles. Como foi isso possível, com um oceano a separá-los num tempo em que ainda, pelo que se sabe, não se faziam grandes viagens marítimas? Desconhece-se, mas Parker sustenta neste curioso facto a sua redifinição do que é ser negro na América de hoje. O que aqui temos é então um híbrido de free jazz e world music, num caso como no outro sem banalizações estilísticas nem intenções de síntese, com muita percussão afro-latina e a presença ocasional do doussn’gouni (na ficha técnica identificado como doson ngoni), um alaúde maliano que pode ter de quatro a oito cordas e que Don Cherry tocava habitualmente quando queria descansar do trompete – viu-o e ouviu-o com ele quem assistiu no final da década de 1980 ao seu magnífico concerto no S. Luiz, tendo o violinista indiano L. Shankar como parceiro. Aliás, nunca como em “Long Hidden: The Olmec Series” Parker esteve tão perto das concepções pan-étnicas do seu desaparecido amigo, que foi, de resto, quem lhe apresentou este cordofone ancestral. É sintomática, a descrição feita pelo músico nova-iorquino das incursões do Olmec Group nesta inesperada edição: “Isto é o som dos hieroglifos saindo das paredes de pedra e caminhando para os barcos que estão de partida. Onde estes barcos encontrarão porto eu não sei, pois a viagem está apenas no início.” As músicas vêm e vão de terra em terra e muitas navegações lhe ditarão ainda o futuro, tal como o presente foi ditado por outros percursos calculados com bússola e sextante ou seguindo a rota das estrelas. O que quer dizer que este disco tem algo de antropológico, ainda que uma boa parte dos seus levantamentos e pesquisas derive mais da fantasia do que da realidade, havendo tão poucos elementos que permitam compreender esta. E se o CD inclui faixas em que William Parker está a sós, terminando até com a reprodução do registo de um solo ao vivo (“In Case of Accident”) auto-editado em cassete há 12 anos, e que podemos tomar como o manifesto contrabaixístico do também mentor da Little Huey Creative Music Orchestra, a mensagem é clara: esta é uma peregrinação muito pessoal do grande compositor e improvisador. E é também um dos seus melhores documentos discográficos de sempre – isto se não vier mesmo a figurar entre os 10 mais da música criativa na primeira década do século XXI.
(
21-04-2006)

1. There is a Balm in Gilead
2. Long Hidden: Part 2
3. Codex
4. El Puente Seco
5. Long Hidden: Part 3
6. Cathedral of Light 
7. Compassion Seizes Bed-Stuy
8. Pok-A-Tok
9. Espirito
10. Long Hidden: Part 1

plus: In Case Of Accident

 

William Shatner
«Has Been»
CD Shout! Factory, €19,95

O quê, o célebre Captain Kirk também faz música? Bom, não é bem assim: William Shatner, o protagonista da histórica série televisiva de ficção científica "Star Trek", faz neste "Has Been" a sua segunda incursão pelo "spoken word" - a primeira foi em 1968, com "The Transformed Man", mal recebida colecção de "covers" de canções então muito conhecidas, com a particularidade de, em vez de cantar as letras, as declamar. Passados 35 anos, a situação é bem diferente. O actor de formação shakespeariana (!) regressa ao disco com textos de sua própria autoria (e não é que o homem se safa mesmo com a caneta?), à excepção do escrito pelo romancista Nick Hornby para "Trying" e de "Real", entregue a Bad Praisley. A seu lado tem uma equipa de peso: o compositor/produtor/arranjador/teclista Ben Folds, responsável pela mistura de pop-rock e "mood jazz" que aqui encontramos (só "Common People" é uma interpretação de material alheio, o "hit" dos Pulp com o mesmo título), os cantores/vocalistas Joe Jackson e Henry Rollins (sim, sim, leram bem, são esses mesmos!), o guitarrista Adrian Belew (dos King Crimson), o contrabaixista Sebastian Steinberg (lembram-se dos Soul Coughing?) e o duo de electrónica "trippy" Lemon Jelly. E a verdade é que "Has Been" ouve-se muito bem e resgata o comandante da nave Enterprise da sua má experiência de estreia diante do microfone. Aliás, William Shatner tem-se envolvido tantas vezes em filmes e programas de TV de segunda categoria que já era difícil esperar dele uma surpresa deste género. Aos 73 anos de idade, teve um assomo de ironia e fala do estrelato perdido. Recuperado?
(22-04-2005)

 

The Winston Giles Orchestra
«Soundtracks For Sunrise»
CD 3Beat, € 15,9
5

Numa colecção eclética de pop electrónico psicadélico (tipo Lemon Jelly a misturar os Flaming Lips), "Soundtracks For Sunrise" é o disco de estreia da Winston Giles Orchestra (projecto de Winston Giles e Dorian West), um álbum criado em 2006 na Austrália, e que só agora chegou ao resto do mundo.

Ainda que a influência da música de dança seja marcante, encontramos aqui e ali pitadas de psicadelismo e de rock progressivo, assim obtendo um disco coeso, rico e luxuriante, onde as melodias pop pairam incessantemente. A WGO, tal como uma verdadeira orquestra, funde samples de instrumentos de sopro com cordas e guitarras acústicas, percussões calmas com vozes suaves, dando origem a uma sopa de sensações agradáveis e ao mesmo tempo intensas.

Sem dúvida alguma, a Winston Giles Orchestra é uma experiência musical muito especial, que tardou a chegar até nós.
(02-11-2007)

1. We Wait For Sunrise
2. Welcome To The Hotel
3. A Little Song
4. Revenge
5. Mercy For The Wicked
6. Morning Shine
7. All Come Together
8. Golden
9. The Banished Matadors
10. The Hostess

Clique aqui para escutar excertos de todos os temas

 

Winter Family
«Winter Family»
2CD Sub Rosa, € 19,95

Winter Family, duo formado pela artista israelita Ruth Rosenthal e o músico francês Xavier Klaine, é um projecto de poesia e música criado em Jaffa em Janeiro de 2004. Enquanto Ruth escreve os seus textos (em inglês e hebraico), Xavier compõe os trechos de piano e órgão (entre outros instrumentos acústicos). Lembrando por vezes Laurie Anderson, e por outras Golden Palominos (especialmente no álbum "Dead Inside"), o resultado não deixa de ser uma surpresa: uma parede de emoções, uma densa e melancólica construção sonora onde a intensidade dos textos é reforçada pela música de Xavier. Seja em "Auschwitz", onde o obviamente triste tema contrasta com uma alegre melodia de piano, ou no mais poderoso "Psaume", onde, ainda que imperceptível (é cantado em hebraico), o tema gira à roda da magia e da religião, ou ainda em "So Soon", com um trecho minimalista de piano e órgão, onde a transição entre o hebraico e o inglês atribuem a toda a peça um misto de magia e sedução, e o escuro e o claro se conjugam de um modo quase mítico; em "Winter Family" vamos encontrar um crescendo de sensações e experiências, chegando a um clímax final sem precedentes.

Com um já invejável currículo de espectáculos ao vivo, numa enorme diversidade de locais - salas de espectáculo, galerias de arte, discotecas, igrejas e teatros, por Paris, Nova Iorque, Milão, Gent, Telavive, Jerusalém, e outro locais - os Winter Family têm vindo a criar uma vasta legião de admiradores. A sua intensa colaboração nas artes tem vindo também a reforçar a divulgação do projecto - a composição das bandas sonoras do filme de Raphael Etienne "A Corps Defendant" e de três peças de dança do coreografo italiano Paco Decina (uma delas para o Ballet Júnior de Paris e as outras duas para a sua própria companhia, peças que tiveram a sua estreia no Theatre De La Cité Internationale em Paris). Os autores do projecto estiveram também já envolvidos com vários outros músicos, como Olivier Mirguet, Henrike Stahl, Maïder Fortuné, Paolo Rudelli, Olivier Robert (Women and Children), Norsola Johnson (Godspeed You! Black Emperor, Constellation Records), etc. Esta sua estreia em disco é apenas uma nova fase do projecto, que promete causar alguma sensação.

(
06
-07-2007)

"The duet of Ruth and Xavier is magical: not in the childish sense, of chubby fairies with magic sticks. The magic of Winter Family reminds dark forests, in which unknown creatures leads you to wild paths, light and shadow deceives you and fear controls you, together with curiosity and a sense of mystery." Masha Zur-Glozman in 360º

Disco 1:
1. Salted Slug
2. Garden
3. Auschwitz
4. Psaume
5. So Soon
6. Nous Les Vivants
7. You Wish

Disco 2:
1. Just Like We Said
2. Ray of Light/No Bad Animals
3. So Soon
4. Winter Family
5. Republique
6. New Sun
7. Golden Sword

 

Wire
«1977-1979»
Box 5CD Pink Flag, € 89,95

Caixa de edição muito limitada que reúne os três primeiros álbuns dos Wire - "Pink Flag", "Chairs Missing" e "154" - nas suas edições remasterizadas e com capas em mini-réplica das versões em vinil, os dois álbuns ao vivo "Live At The Roxy, London - April 1st & 2nd 1977" e "Live at CBGB Theatre, New York - July 18th 1978", e ainda um pequeno livro com a biografia do grupo londrino, as letras de todos os temas, fotos inéditas, etc.
(26-01-2007)

Pink Flag:
1. Reuters
2. Field Day For The Sundays
3. Three Girl Rhumba
4. Ex-Lion Tamer
5. Lowdown
6. Start To Move
7. Brazil
8. It’s So Obvious
9. Surgeons Girl
10. Pink Flag
11. The Commercial
12. Straight Line
13. 106 Beats That
14. Mr. Suit
15. Strange
16. Fragile
17. Mannequin
18. Different To Me
19. Champs
20. Feeling Called Love
21. 12XU

Chairs Missing:
1.
I Should Have Known Better
2.
Two People In A Room
3.
The 15th
4.
The Other Window
5.
Single K. O.
6.
A Touching Display
7.
On Returning
8.
A Mutual Friend
9.
Blessed State
10.
Once Is Enough
11.
Map Ref. 41°N 93°W
12.
Indirect Enquiries
13.
40 Versions

154:
1.
I Should Have Known Better
2.
Two People In A Room
3.
The 15th
4.
The Other Window
5.
Single K. O.
6.
A Touching Display
7.
On Returning
8.
A Mutual Friend
9.
Blessed State
10.
Once Is Enough
11.
Map Ref. 41°N 93°W
12.
Indirect Enquiries
13.
40 Versions

Live At The Roxy, London - April 1st & 2nd 1977:
1. The Commercial (live 1st April 1977)
2. Mary Is A Dyke (live 1st April 1977)
3. Too True (live 1st April 1977)
4. Just Don’t Care (live 1st April 1977)
5. Strange (live 1st April 1977)
6. Brazil (live 1st April 1977)
7. It’s So Obvious (live 1st April 1977)
8. Three Girl Rhumba (live 1st April 1977)
9. TV (live 1st April 1977)
10. Straight Line (live 1st April 1977)
11. Lowdown (live 1st April 1977)
12. Feeling Called Love (live 1st April 1977)
13. NYC (live 1st April 1977)
14. After Midnight (live 1st April 1977)
15. 12XU (live 1st April 1977)
16. Mr. Suit (live 1st April 1977)
17. Glad All Over (live 1st April 1977)
18. The Commercial (live 2nd April 1977)
19. Mary Is A Dyke (live 2nd April 1977)
20. Too True (live 2nd April 1977)
21. Just Don’t Care (live 2nd April 1977)
22. Strange (live 2nd April 1977)
23. Brazil (live 2nd April 1977)
24. It’s So Obvious (live 2nd April 1977)
25. Three Girl Rhumba (live 2nd April 1977)
26. TV (live 2nd April 1977)
27. Straight Line (live 2nd April 1977)
28. Lowdown (live 2nd April 1977)
29. Feeling Called Love (live 2nd April 1977)
30. NYC (live 2nd April 1977)
31. After Midnight (live 2nd April 1977)
32. 12XU (live 2nd April 1977)
33. Glad All Over (live 2nd April 1977)
34. Mr. Suit (live 2nd April 1977)

Live at CBGB Theatre, New York - July 18th 1978:
1. Men 2nd (live 18th July 1978)
2. Reuters (live 18th July 1978)
3. 106 Beats That (live 18th July 1978)
4. From The Nursery (live 18th July 1978)
5. Dot Dash (live 18th July 1978)
6. Another The Letter (live 18th July 1978)
7. Practice Makes Perfect (live 18th July 1978)
8. Marooned (live 18th July 1978)
9. I Am The Fly (live 18th July 1978)
10. Lowdown (live 18th July 1978)
11. Mercy (live 18th July 1978)
12. Outro (live 18th July 1978)

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Wire
«Pink Flag»
CD EMI, € 19,50

1. Reuters
2. Field Day For The Sundays

3. Three Girl Rhumba

4. Ex-Lion Tamer

5. Lowdown

6. Start To Move

7. Brazil

8. It’s So Obvious

9. Surgeons Girl

10. Pink Flag

11. The Commercial

12. Straight Line

13. 106 Beats That

14. Mr. Suit

15. Strange

16. Fragile

17. Mannequin

18. Different To Me

19. Champs

20. Feeling Called Love

21. 12XU

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Wire
«Chairs Missing»
CD EMI, € 19,50

1. Practice Makes Perfect
2.
French Film Blurred
3.
Another The Letter
4.
Men 2nd
5.
Marooned
6.
Sand in My Joints
7.
Being Sucked In Again
8.
Heartbeat
9.
Mercy
10.
Outdoor Miner
11.
I Am The Fly
12.
I Feel Mysterious Today
13. From The Nursery
 
14.
Used To 
15. Too Late

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Wire
«154»
CD EMI, € 19,50

1. I Should Have Known Better
2.
Two People In A Room
3.
The 15th
4.
The Other Window
5.
Single K. O.
6.
A Touching Display
7.
On Returning
8.
A Mutual Friend
9.
Blessed State
10.
Once Is Enough
11.
Map Ref. 41°N 93°W
12.
Indirect Enquiries
13.
40 Versions

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Wire
«Wire on the Box: 1979»
DVD+CD Pink Flag, € 23,95


Uma boa notícia para os admiradores dos Wire e para os coleccionadores de vídeos musicais: eis que chega finalmente o único documento audiovisual existente do que era o grupo ao vivo na década de 1970, por ocasião de um concerto e de uma entrevista para o programa Rockpalast, da WDR de Colónia. O concerto realizou-se nos estúdios dessa estação de rádio e televisão alemã, tendo partes da sessão sido pirateadas em VHS durante anos. Esta é a versão integral e tecnicamente restaurada em vídeo desse actuação e confirma-nos a ideia de que aquilo que faziam para os discos era também o que faziam nas situações “live”, ou seja, sem grandes truques de produção. Os temas interpretados são os que mais tarde iriam surgir no álbum “154”, e se bem que apresentem a mesma matriz, pouco de comum Colin Newman, Graham Lewis, Bruce Gilbert e Robert Gotobed partilham aqui com o nascente punk. Poderíamos dizer que eles são os pioneiros do pós-punk se não tivessem sido contemporâneos da primeira vaga do movimento “no future”, antes de este ter sido recuperado pela indústria discográfica e da moda, mas é igualmente certo que, mesmo quando nos anos 80 começaram a utilizar a electrónica, estavam tão longe quanto podemos imaginar da frente musical nascida na cidade de Manchester. Um CD como bónus inclui apenas a parte áudio do histórico evento.
(25-08-2006)

1. Introduction
2. Another Letter
3. The 15th
4. Practice Makes Perfect
5. Two People in a Room
6. I Feel Mysterious Today
7. Being Sucked in Again
8. Once Is Enough
9. Blessed State
10. A Question of Degree
11. Single KO
12. Mercy
13. 40 Versions
14. Former Airline
15. A Touching Display
16. French Film Blurred
17. Men 2nd
18. Map Ref. 41° N 93° W
19. Heartbeat
20. Pink Flag
Entrevista com Alan Bangs (excepto no CD)

 

Wire
«The Scottish Play»
CD+DVD Pink Flag, €21,95


Primeiro saiu "Wire on the Box: 1979", no qual se pôde recordar os Wire na sua fase áurea, a do final da década de 70. Agora é a vez de "The Scottish Play: 2004", registo áudio e vídeo das actuações do grupo no Triptych Festival de 2004 e na performance Flag: Burning de 2003, filmada pelo artista visual Tom Gidley: 25 anos separam-no daquele outro documento, mas a energia e a entrega continuam as mesmas, para surpresa de quantos ainda sustentam que a idade é fatal para o rock. A verdade, porém, é que sempre foi impossível caracterizar os Wire, que logo no seu primeiro álbum, "Pink Flag", declararam uma militância não propriamente coincidente com a sonoridade musculada que vêm praticando: se não é um disparate apontá-los como uma banda punk, o certo é que nada tiveram que ver com esse movimento (seria estranho, para uma formação que chegou a fazer as primeiras partes de uma digressão dos Roxy Music!), e se sempre pareceram ter semelhanças com o pós-industrialismo, nunca frequentaram os mesmos meios nem chegaram aos mesmos níveis de demência - aliás, acusavam-nos de serem frios, distantes e misteriosos, para além de excessivamente "pop". Curiosamente, tiveram mais ligações com a comunidade artística (pintores, videastas, etc., de orientação conceptual) do que quaisquer grupos de "art rock" ou rock progressivo a que opuseram o seu apelo ao regresso das guitarras e do rock and roll. A crescente utilização da electrónica a partir da década de 1990 não fez com que abandonassem esse credo.
(01-04-2005)

No CD e no DVD (Triptych Festival):
1. 99.9
2. Germ Ship
3. Mr. Marx's Table
4. 1st Fast
5. Read & Bum
6. The Agfers of Kodack
7. Comet
8. In the Art of Stopping
9. Spent
10. I Don't Understand
11. Strange
12. 106 Beats That
13. Surgeon's Girl
14. Pink Flag

Só no DVD (Flag: Burning):
1. 1st Fast
2. Comet
3. Spent
4. I Don't Understand

 

Wise In Time
«The Ballad of Den The Men»
CD Crammed Discs,  € 17,50

1. The Fox
2. Firing Line
3. Nine
4. Lord
5. Crazy Chair
6. Backfire Band
7. Letters
8. Back From Somehow 
9. Ballad
10. The Well
11. Jah Walker
12. Part Two
13. The Station

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Wolf Eyes
«Human Animal»
CD Sub Pop, € 16,95

Uma característica que todo o noise tem é a ausência de dinâmicas, sacrificadas em prol da densidade, mas o trio Wolf Eyes compensa o facto com um grande sentido do pormenor. Por mais aglomerada que uma massa sonora de sua produção seja, destacam-se dela pequenos elementos que a parecem contrariar, indo para outras direcções. Isso é particularmente audível no novo “Human Animal”, e talvez porque neste disco o dito noise é, regra geral, mais lento e “soft” (recomenda-se uma interpretação relativista do termo, é claro), por um lado, e ainda mais abstracto, por outro – a abstracção musical, como se sabe, permite um maior enfoque no trabalho das texturas. Por exemplo, ouvimos mais claramente o saxofone de John Olson, a percussão metálica surge algumas vezes sem o envolvimento de “feedback” do costume e até há lugar para um “spoken word”. O que não quer dizer que este regresso ao catálogo da Sub Pop os tenha domesticado; na verdade, nunca antes o grupo soou tão negro e tão conotado com o especial universo do doom metal, o que, de resto, nos é afirmado logo pela capa. Leva-nos tal facto a concluir que os Wolf Eyes estão mais musicais, isto tendo em conta a reivindicação da pioneira Nihilist Spasm Band de que o noise NÃO É música? Pode ser que sim, apesar de o álbum terminar com a faixa-“statement” “Noise Not Music” (uma “cover” dos No Fuckers), mesmo verificando que o rock (forma musical codificada) matricial dos WE está cada vez mais diluído e só o reconhecemos através de uma certa colocação de voz ou de um determinado “beat”.
(19-01-2007)

1. Million Years
2. Lake of Roaches

3. Rationed Rot

4. Human Animal

5. Rusted Mange

6. Leper War

7. Driller

8. Noise Not Music

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Wolf Eyes
«Burned Mind»
CD Sub Pop, €16,50

[...] Uma das coisas pelas quais 2004 será lembrado no meio da indústria discográfica será como o ano em que algumas das maiores editoras independentes norte-americanas saem parcialmente do adormecimento em que se encontravam nos últimos cinco, (em alguns casos) dez anos. O momento chave que mais epitomiza isto é a dupla contratação dos Wolf Eyes e dos Comets On Fire pela Sub Pop, editora do som de Seattle que caíra há largos tempos no sonanbolismo do mainstream indie após a sua criação focalizada no grunge, editando numerosos registos de interesse discutível em tempos recentes (salvo excepções como os Shins, Iron & Wine ou a redescoberta de Michael Yonkers). O que estas duas novas aquisições da Sub Pop têm a ganhar, como sempre, é uma muito ampliada visibilidade perante o público do indie overground, e será interessante ver como as pessoas reagem a esta música, credibilizada por uma etiqueta com o peso da Sub Pop. Os Wolf Eyes serão a banda mais apadrinhada pelos Sonic Youth nos últimos anos largos, tendo acabado este Outono uma digressão ao longo dos Estados Unidos ladeada ainda pelos Hair Police na maior parte das datas. Trio de Aaron Dilloway (dono da Hanson Records), John Olson (proprietário da American Tapes) e Nathan Young, os Wolf Eyes têm uma extensíssima discografia para o relativamente curto espaço de tempo a que existem. Pense-se que alguém levou os filmes de Herschell Gordon Lewis mesmo muito a sério, armou-se de estações de processamento e teclados com os cabos cortados e rearranjados, de uma broca de dentista, de gongos, de um maço medieval e de um arsenal de sucata reconvertido numa série de despoletadores de ruído analógico e podemos começar a ter uma ideia do universo Wolf Eyes. É uma música de terror, misto dos «horror flicks» de série Z com noise orgânico e bafiento, feito por ex-putos, agora adultos do domínio intelectual do «white trash», a reconhecerem a estupidez e boçalidade da sua natureza e universo social (a banda é de Michigan, dos estados socialmente mais «complicados» do país). De resto, títulos como o «single» «Stabbed In The Face», «Dead In A Boat», «Urine Burn» ou «Black Vomit», serão disto bastante ilustrativas (e são-no). Aqui residem reverberações dos melhores Throbbing Gristle, do trabalho de Dylan Nyoukis, dos Couch de Marlon Magas e da electrónica primitiva (Morton Subotnick, Louis e Bebe Barron, Terry Riley) virado do avesso horrorizada com aquilo que se encontra diante de si nos Estados Unidos do ano corrente, à beira de eleições presidenciais. Burned Mind é o dia em que a América estúpida e ignorante ganhou consciência artística, e tanto melhor estamos todos por isso. Audição obrigatória para perceber que, mais uma vez, o horrível é o novo belo. NÚMERO

 



Wolf Eyes & Anthony Braxton
«Burned Mind»
CD Victo, €18,50

1. The Mangler
2. Rationed Rot

 

Wooden Wand & The Vanishing Voice
«Gipsy Freedom»
CD 5 Rue Christine 18,
50

1. Friend, That Just Isn't So
2. Didn't It Rain
3. Don't Love the Liar

4. Hey Pig He Stole My Sound
5. Sun Sets on Clarion
6. Dread Effigy
7. Dead End Days With Cesar
8. Genesis Joplin

 

Woven Hand & Ultima Vez
«Puur»
CD Glitterhouse Records, € 16,50


Quem gosta de imprevistos tem em “Puur” com que se entreter. De facto, ninguém poderia imaginar que um cantautor americano do country-folk-rock cristão como David Eugene Edwards, antigo líder dos 16 Horsepower e hoje o mentor dos Woven Hand, se pudesse associar a uma companhia de dança europeia, a Ultima Vez, dirigida por um coreógrafo com as características “avant” de Wim Vandekeybus, que de uma das componentes desse formato musical, o rock, o mais que se tinha aproximado foi com os zappianos X-Legged Sally. E o curioso é que Edwards nunca foi tão pouco folk ou rock como neste contexto. A música que faz é muito mais abstracta do que lhe conhecemos (as canções surgem apenas enquanto tal nalgumas secções da banda sonora, intercaladas por interessantes e surpreendentes – vindas de quem vem – “soundscapes”), e soube enredar os seus préstimos propriamente musicais com os textos falados e os sons de cena do espectáculo. Seja como for, é da redenção ainda que está à procura e pelo aqui ouvido de certeza que Deus corresponderá às suas preces. Muito bom. Oiçam isto e fiquem na ideia com a imagem de uma bailarina que se debruça sobre o seu parceiro para lhe dar de beber a água que trazia guardada na boca. Puro Vandekeybus...
(15-12-2006)

1. To Make A Ring (Adaptation with performance text excerpts)
2. Breathing Bull (Performance text excerpt)
3. Shun (Perfomance text excerpt with additional sounds)
4. Horse Head (Acoustic adaptation)
5. Lulah Harp (Instrumental)
6. Low Estate (Acoustic adaptation)
7. Twig (Performance text excerpt)
8. Dirty Blue (Instrumental version with performance text intro)
9. Lena's Song (Composed by Josh Martin and Hardi Barnewold)
10. Silver Saddle (Performance text excerpt)

Bónus:
-Trailer promocional da performance
-Vídeo "Low Estate" do filme PUUR
-Vídeo "Horse Head" do filme PUUR

 

Wovenhand
«Mosaic»
CD Glitterhouse, € 16,50


Da cabeça, da voz e das mãos de David Eugene Edwards, a alma e a força dos 16 Horsepower, vem este outro projecto de rock cristão (sim, sim, leram bem: rock e cristianismo podem coexistir), com colorações folk, que dá pelo enigmático e algo ameaçador nome de Wovenhand. Mas muito diferente esta música é da desse grupo, e na verdade até de todos os anteriores álbuns dos próprios Wovenhand: ouvimos “Mosaic” e parece-nos vindo de um projecto satélite de grupos ocultistas e negros como Current 93 ou Coil, pelo que não se trata propriamente de hinos ingénuos e louvores ao Senhor. Seja como for, se Nick Cave já cantava a religiosidade sobre ritmos binários, os Wovenhand são muito mais específicos – não vieram propriamente para espalhar a mensagem, missionariamente, mas sim para nos obrigar (“obrigar” é mesmo o termo, pois Edwards tende a ser o porta-voz da nossa má consciência) a reflectir sobre as tais “coisas de Deus” que, de modo geral, não constam no corpo de ideias da actual música popular. Com este projecto, a música passa a ser novamente uma questão de fé.
(
14-07-2006)

1. Breathing Bull
2. Winter Shaker
3. Swedish Purse
4. Twig
5. Whistling Girl
6. Elktooth
7. Bible And Bird 
8. Dirty Blue
9. Slota Prow-Full Armour
10. Truly Golden
11. Deerskin Doll
12. Little Raven

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The Wrens
«The Meadowlands»
CD Lo-Max Records, 16,50


“The Meadowlands, is some kind of masterpiece: a seamless blend of shockingly intense, in-your-face sounds and emotions, of immediacy and distance, alienation and engagement, the ominous and the reassuring. I hear a Neil Young refusing to luxuriate in his melancholy, a young David Byrne shorn of his Joe College smart-aleckery, Springsteen minus the melodrama or even a grownup Kurt Cobain resigned to pursuing his art through the blue-collar wasteland.” MOJO Charles Shaar Murray

 “There has surely never been a group that undergoes such a radical, Jekyll-and-Hyde transformation in switching from one medium to the other as the Wrens, as those of us who were fortunate enough to catch the handful of shows the band played in Britain last October quickly discovered. They erupted like a volcano. It was like watching the Clash play a set of Gang of Four songs on steroids. As the singer, Kevin Whelan, swung his bass around while clambering up and leaping off every elevated surface available, the guitarists, Charles Bissell and Whelan’s brother Greg, lurched and lunged in a chaotic dance of dementia at either side. It was a minor miracle that nobody got hurt.” THE SUNDAY TIMES – David Sinclair

“I keep waiting for the moment when I need to put this away for a while, and it keeps not coming. Instead, four years of takes and tweaks build and cohere--pealing and shifting, wafting and pounding, sinking into babble and soaring into the bright exultant chorus of ‘This Boy Is Exhausted.’ Anybody who can create a record like this deserves more than 13 thou a year. The Meadowlands is a real winner and a magnum opus. Grade: A” The Village Voice - Robert Christgau

“This has a confident swagger and endless hooks. 5 STARS” The Sun – Simon Cosyns

“A meticulously constructed collage of rock tones and an underground sensation on the brink of monster success.” New York Times – Hugo Lindgren

It's this diversity, and the balancing of clever melodies with a seeming lack of structure, that makes the record one of the most impressive American indie rock albums of the last few years.” San Francisco Weekly – Abigail Clouseau

“In trading the adolescent kick of Secaucus for ripened resignation, meticulous refinement for crippling maturation, they have realized their magnum opus.”
Pitchfork Ryan Schreiber

The Meadowlands manages to reveal the expanse of the Wrens' vision without trading on their intimate charms.” PopMatters – Jon Garrett

“With about twenty killer lines or couplets per song, unexpected hooks coming from everywhere and one of the most ingenious track sequences of the year, it’s not really so hard to imagine what The Wrens have been doing all this time.” Stylus Magazine – Andrew Unterberger

“The songs jump and shift, in tone and mood, suggests a series of journal entries strung together, connected loosely by an overall broken hearted feeling, going out on a blaze of glory that initially seems a little at odds with the melancholy tone of the rest of the album but, after a few listens, reveals itself as strangely appropriate. When the results are this good, the time it took to make the album is more than justified.” All Music Guide – Heather Phares
(
21-04-2006)

1. House That Guilt Built
2.
Happy  
3.
She Sends Kisses
4.
This Boy Is Exhausted
5. Hopeless  
6.
Faster Gun
7.
Thirteen Grand
8.
Boys, You Won't
9.
Ex-Girl Collection
10.
Per Second Second
11.
Everyone Chooses Sides
12.
13 Months in 6 Minutes
13.
This Is Not What You Had Planned
Temas Bónus:
1
4.
Such a Pretty Lie
15. Nervous and Not Me

 

Yellow Swans
«Psychic Secession»
CD Load Records, € 16,95

Reedição americana do segundo álbum dos Yellow Swans, apenas lançado originalmente na Austrália, “Psychic Secession” demonstra que o noise da dupla constituída por Gabriel Mindel Saloman e Pete Swanson, aqui com as colaborações de Christina Carter (Charalambides), Axolotl, Inca Ore e Adam Forkner, não se fundamenta apenas no punk e no metal, à semelhança de formações irmãs como Wolf Eyes e Black Dice, mas também, e sobretudo, na electrónica experimental vizinha do techno. As polirritmias “desconjuntadas”, como já se escreveu, deste projecto em que o ruído é decididamente “sexy”, e não só o silêncio, como garantiam os Einstuerzende Neubauten depois de muitos anos a martelar chapa, têm, pois, mais que ver com Autechre e Squarepusher do que com o free rock nascido do magma “no future”, assim como os “drones” testemunhados são mais Main do que Glenn Branca. E isso apesar dos “feedbacks” de guitarra e dos vocais que ascendem ao primeiro plano, com letras como “I woke up to the end of electricity, / I woke up outside of time. / I woke up with my dreams in my life”, que podem não ser as mais inspiradas, mas funcionam no contexto em questão. Neste álbum que os próprios Cisnes Amarelos consideram a sua obra maior, a estética noise e o psicadelismo cruzam forças de modo a que poucas vezes temos assistido, a não ser, talvez, umas poucas excepções vindas do país do Sol Nascente. Mais Eno do que Whitehouse, como também já se disse, esta “noise music” não está assim tão distante de um certo ambientalismo quanto poderíamos pensar (aquele que não tem motivações soporíferas), e chega mesmo a ter forma de canção.
(
29-06-2006)

1. True Union
2. Psychic Secession

3. I Woke Up

4. Velocity of the Yoke

 



Yma Sumac
«Fuego Del Ande»
CD The Right Stuff, €16,99

1. Molina
2. Flor de Canela (Cinnamon Flower)
3. Gallito Caliente (The Hot Rooster)
4. Pampa y la Puna (The Plains and the Mountains)
5. Dale Que Dale (The Worker's Song)
6. Llora Corazon (Crying Heart)
7. Huanchina (Enchanted Lake)
8. Perla de Chira (The Pearl)
9. Mi Palomita (My Pigeon)
10. Virgenes del Sol (Virgins of the Sun)
11. Gallito Ciego (One-Eyed Rooster)
12. Clamor (I Won't Forget You)