| |

Tall
Firs
«Tall Firs»
CD Ecstatic Peace, € 15,95

“New York City Underground Electric Folk”. O
termo é “oficial” e tem servido para classificar, numa daquelas práticas gavetas
que dão pelo nome de géneros musicais, o som dos Tall Firs. No fundo, isto só
terá importância para quem não pretende ouvir o trio, obviamente, oriundo da
“Big Apple”. Dizer que são apadrinhados por Thurston Moore (Sonic Youth), que
agora edita o álbum de estreia do grupo na sua Ecstatic Peace!, e que entre os
seus colaboradores próximos se encontra Chris Corsano, um dos mais requisitados
(e multifacetados) bateristas da actualidade, talvez traga alguma luz (sobretudo
mediática) sobre os Tall Firs, mas também não dirá muito sobre o produto final.
Voltando, então, ao início. O “New York City” tem a ver com o local de origem,
apesar de estas paragens não serem habitualmente ligadas à folk. Folk que, por
seu turno, é uma possível definição de um dos pontos de partida da música de
Dave Mies, Aaron Mullan e Ryan Sawyer. Isto se, por exemplo, nomes tão distintos
como os Red House Painters ou, mais recentemente, os Dakota Suite também fizerem
folk, e, já agora, recorrendo às guitarras eléctricas em desaceleração para tal.
O “underground” também não parece difícil de explicar. Afinal, as 11 canções
pessoais, melancólicas, dolentes e em carne viva, mas ainda assim repletas de
beleza e silêncios, contidas nos menos de 40 minutos de "Tall Firs", passarão
(infelizmente ou talvez não) despercebidas a boa parte daquela (cada vez mais
imensa) minoria que se auto-considera musicalmente esclarecida.
Tal como as canções dos Tall Firs são feitas de pequenos acasos, história de
gente comum e incidentes de percurso, a vida do grupo não podia ser mais o
espelho disso. Não é para todos, editar o álbum de estreia mais de 16 anos após
a formação (em 1990), quando David Mies e Aaron Mullan eram adolescentes, na
cidade de Annapolis, capital do estado do Maryland. Desde essa altura, a ida
para Nova Iorque, o encontro com o baterista Ryan Sawyer (que chegou a passar
anteriormente pelos At The Drive-In), as atenções de figuras como os Sonic Youth
ou o ex-elemento destes Jim O'Rourke, o primeiro concerto (11 anos depois de
terem nascido!) e os palcos partilhados com Oneida, Chris Corsano, Samara
Lubelski ou P.G. Six são apenas alguns dos passos de um caminho sinuoso, mas que
conhece agora um epílogo feliz - apesar de este ser adjectivo que não fica bem
aplicado às canções dos Tall Firs.
“Perca-se” então algum tempo a ouvir 'Tall Firs'. Afinal, não é todos os dias
que um álbum chega às lojas quase na sua idade adulta.
(31-08-2007)
1.
More To Come 
2.
Don't Complain
3.
Go Whiskey
4.
Buddy/Baby
5.
Us And Our Friends 
6.
Breeze
7.
Road To Ruin 
8.
Soldier On
9.
Well
10.
Woods
11.
Don't Prey On Me 
Clique aqui
para escutar excertos de todos os temas

Tape
«Rideau»
CD Häpna, € 18,50
Os suecos Tape partem de
onde ficou o pós-rock quando os seus praticantes regressaram às
raízes do género ou enveredaram por outras dedicações, e isso na
perspectiva de explorarem as suas consequências num meio que já não
comporta essa designação. O próprio facto de o produtor de “Rideau”
ser Marcus Schmickler, um nome da electrónica com actividade
simultânea na techno e no experimentalismo, é sinal da abertura de
perspectivas procurada. E encontrada: este álbum é um cozinhado com
muitos elementos, assistindo-lhe a vantagem de nunca parecer
artificial ou esquemático. Há algo de Steve Reich no modo como se
gerem as repetições – justificando mesmo a ideia de que não há
música sem repetição –, instrumentos convencionais (atenção ao
excelente trabalho do órgão!) combinam-se engenhosamente com
processamentos por computador, e um encadeamento de carácter
cinemático, no triplo sentido da gradual construção de uma imagética,
uma narrativa e uma tensão, não obstaculiza a que os investimentos
sejam especificamente musicais. A atenção à melodia é um resquício
do pop-rock, mas os Tape entendem-na como um elemento figurativo
inserido estrategicamente nos “soundscapes” criados. Se as edições
anteriores do trio levaram a que fossem comparados com os Tortoise
ou os Sigur Ros, este regresso ao disco descola dessas referências
para estabelecer uma posição muito própria e “out of norm”. O facto
de não haver bateria entre os instrumentos liberta-os dos
fundamentos de que partem e dão-lhes uma fluência e uma leveza
(alguém lhes chamou já de “invertebrados”) que não existiriam
certamente se tivessem de obedecer a métricas fixas. O que não quer
dizer que a pulsação não esteja lá, papel que em “A Spire”, por
exemplo, é desempenhado por um vibrafone estruturante. Outro factor
a assinalar é a economia de notas e sons aplicada, sempre gerida por
uma perspectiva de funcionalidade. Esta é uma música de essências,
nunca de efeitos e muito menos de enfeites.
(16-03-2006)
1.
Sunrefrain
2.
A Spire

3.
Sand Dunes

4. Exuma
5. Long Lost Engine

Tarantula
AD
«Book of Sand»
CD Kemado Records, €
17,50
Não é todos os dias que se
descobre algo em que um violoncelo “clássico” sola sobre uma banda
instrumental de death metal, surgindo pelo meio um tema psicadélico cujos
vocais lembram o saudoso Syd Barrett, mas o formato é Beatles era “Lucy in
the Sky with Diamonds”, e mais adiante um solo de piano que só guarda da
estrutura valsa anunciada pelo título uma remota memória, tendo mais que
ver com o legado do rock progressivo do que com Strauss. Aliás, há por
aqui muito dos King Crimson de “Lark’s Tongues in Aspic”, o que só pode
ser uma boa notícia. São de Nova Iorque os três músicos que integram este
projecto, Danny Bensi, Saunder Jurrians e Gregory Roqove , e o certo é que
dificilmente identificaríamos uma música feita de pompa e circunstância
(se o metal não vive sem isso, adicionado a uma abordagem clássica ganha
uma dimensão sinfónica) com as muitas cenas da Grande Maçã. Agora
imaginem-nos vestidos como soldados romanos e ficam a perceber o que vos
espera. As coisas ainda se complicam mais quando descobrirem que Devendra
Banhart participa em “Prelude to the Fall” e Sierra Casady, das CocoRosie,
aparece em “The Century Trilogy II: Empire” e “Sealake”.
(08-09-2006)
1.
The Century Trilogy I: Conquest 
2.
Who Took Berlin (Part I) 
3.
Who Took Berlin (Part II) 
4.
Sealake 
5.
The Century Trilogy II: Empire 
6.
Prelude To The Fall 
7.
The Lost Waltz 
8.
Riverpond 
9.
Palo Borracho 
10.
The Century Trilogy III: The Fall 
Clique
aqui para
escutar excertos de todos os temas

Tarwater
«The Needle Was Travelling»
CD/LP Morr Music, €15,95/€14,95
Os Tarwater mudaram de
editora (da Kitty-Yo para a Morr), mas não de personalidade,
um misto de electro-pop e pós-rock, apesar de neste novo
disco repetirem o que já tinham anunciado no anterior álbum,
"Dwellers on the Threshold": uma maior proximidade do
formato canção. E de, não menos importante,
a electrónica deixar espaço à intervenção
de instrumentos mais tradicionais na música popular urbana
como a guitarra, o baixo e a bateria. O duo formado por Bernd Jestram
e Ronald Lippok conta aqui com alguns colaboradores de peso, como
Dirk Dresselhaus (Schneider TM), Marc Weiser (Rechenzentrum e a
orquestra de câmara Zeitkratzer, tão à vontade
a interpretar John Cage como o "Metal Machine Music" de
Lou Reed e Terre Thaemlitz) e Hanno Leichtmann (Static). "The
Needle Was Travelling" inclui uma "cover" de "Babylonian
Tower" dos Minimal Compact tocada à maneira dos Cluster,
mas não era preciso que os Tarwater pegassem em composições
de terceiros para evidenciarem as suas influências. "Seven
of Nine", por exemplo, alude com a sua pop sofisticada ao Brian
Eno de álbuns como "Another Green World" ou "Before
and After Science", "Stone" tem a ambiência
dos New Order de "Power, Corruption and Lies" e "Across
the Dial" apela ao espírito dos Neu!. Nada inventam
de inovador, quer isto dizer, na certeza porém de que os
Tarwater souberam baralhar as cartas e apresentar-nos um jogo que
continua a ser rico de possibilidades. A escola de Berlim mantém-se
viva.
(22-04-2005)

Tender Forever
«The Soft and The Hardcore»
CD Green Ufos, € 16,50

1.
Every Monday
 2.
Take it Off
 3.
The Feeling of Love
 4.
This is Hardcore

5.
Make Out
 6.
Then If I'm Weird I Want to Share
 7.
Hot
 8.
Rad
 9.
Happy Birthday
 10.
Marry Me
 11.
Tender Forever
 12.
The Magic of Crashing Stars

Clique
aqui
para escutar excertos de todos os temas

Terry
Riley
«Atlantis Nath»
CD Sri Moonshine, € 19,95
Terry
Riley/Michael McClure
«I Like Your Eyes Liberty»
CD Sri Moonshine, € 19,95
Uma das mais importantes figuras do
minimalismo americano da década de 1960 e também aquele que mais
se inspirou no modalismo jazzístico de John Coltrane, não se pode
dizer que o Terry Riley de hoje não seja fiel aos princípios orientalistas
e místicos definidores da sua visão do mundo na década das flores.
Eterno hippy, em “Atlantis Nath”, o seu primeiro disco de estúdio
em 20 anos e o primeiro, também, a sair na sua própria etiqueta,
reencontramos o fascínio que desde sempre vem nutrindo pelo Norte
de África e por Marrocos em especial, presente por meio de interessantes
“field recordings”, somado a pianismos de jazz, com citações até
de alguns “standards” e designadamente os da estante de Thelonious
Monk, aos seus habituais sintetizadores (há aqui algo de “Persian
Surgery Dervishes”) e, acima de tudo, à voz, que não utilizava com
tanta abundância e desenvoltura desde a sua colaboração com John
Cale, “Church of Anthrax”. Registe-se, a propósito, que o seu canto
surge dentro dos parâmetros da pop (!) e que soa por vezes de forma
muito semelhante ao de Robert Wyatt, um dos muitos músicos que foram
influenciados por ele, sendo ainda possível descortinar as sementes
deixadas pelo seu já desaparecido mestre, Pandit Pran Nath (reparem
nas harmonias vocais sobregravadas). A associação destas diferentes
abordagens num registo composto e editado em Nice, França, entre
1992 e 1998, com Michel Redolfi, o compositor subaquático, na produção,
torna este título bastante variado e capaz de atrair audiências
diversificadas. Algumas das situações poderão parecer “out of date”,
mas a verdade é que, se Riley é o produto de uma época muito específica,
depressa, no entanto, se alheou das conjunturas do tempo, na melhor
tradição “clássica”. E tanto assim que algumas das faixas incluídas
neste álbum provêm de projectos anteriores, como é o caso de “The
Crucifixion of My Humble Self”, a última cena da ópera que escreveu
sobre a vida e a obra de Adolf Woelfli. A Marrocos que se escuta
ao longo deste disco foi, como se sabe, a segunda pátria de alguns
poetas e escritores da “beat generation”, e é com uma das personalidades
maiores desta tendência da literatura americana que ainda celebra
as virtudes alucinogénicas do peyotl, dos cogumelos “mágicos” e
dos ácidos manipulados quimicamente, Michael McClure, que Terry
Riley partilha “I Like Your Eyes Liberty”, segunda edição da Sri
Moonshine. McClure segue o modelo de “spoken word” instituído por
Jack Kerouac, enquanto Riley se senta a um grand piano MIDI para
nos ofertar uma actualização cibernética do psicadelismo. Este é
o mesmo poeta que já disse que o homem que não admite ser um animal
é menos do que um animal e também uma das personagens do romance
“Big Sur”, do mencionado Kerouac, sob o nome fictício de Pat McLear.
E é o mesmo que autorou as palavras originais do “hit” “Oh Lord,
Won’t You Buy Me a Mercedes Benz”, de Janis Joplin.
(22-07-2005)
Atlantis Nath:
1. Crucifixion Voices
2. Mosque
3. Derveshum Carnivalis
4. Wedding Song
5. Emerald Runner
6. Gha Ten in Darbari
7. Asención
8. Asención Final Chord Rising
9. Remember This
10. Only a Day
11. Even Your Beloved Wife
12. The Crucifixion of My Humble Self
I Like Your Eyes Liberty:
1. Evil
2. The Beat
3. Plum Stones
4. Each Side
5. Doorways
6. Grahhrr
7. Coming
8. Red Purple Rose
9. Finale

That
Summer
«Clear»
CD Talitres Records, €
15,95

Os críticos musicais dão músicos muito “sui
generis”, o mais não seja porque o conhecimento da cena faz com que a sua
produção musical adopte um carácter mais estratégico e “avisado”. Exemplos
como os de Eugene Chadbourne, nos meios “indie”, e Marilyn Manson, na
auto-estrada do rock de massas, são bastante esclarecedores quanto ao
diferente posicionamento que é o deste tipo de artista. Pois acrescentem à
lista o nome de David Sanson, em tempos ligado ao fanzine francês Octopus,
recentemente convertido em jornal online. Escrevia ele nessas páginas
sobre várias práticas musicais que agora vemos de alguma forma reflectidas
no projecto That Summer, da avant-pop ao jazz, passando pelo ambientalismo
e pela folk. Até os seus colaboradores foram escolhidos a dedo, como
Benoît Burello, Jean-Michel Pirès (ambos dos Bed), Jérôme Miniére, Sylvain
Chauveau, Rebecca Foon, Rachel Levine e Malcolm Eden, do extinto grupo pop
comunista MacCarthy, com vista a que cada um contribuísse, faixa a faixa,
com as suas próprias nuances de estilo. As coordenadas de base são, no
entanto, muito claras, e remetem-nos para David Sylvian, Depeche Mode e
Bark Psychosis, os heróis deste escriba que continua volta e meia a
cronicar na revista Mouvement. Voz, piano, sintetizadores, guitarra
eléctrica, violoncelo: são estas as ferramentas principais do som
trabalhado em “Clear” (as excelentes mistura e produção são de Pierre-Yves
Macé, uma curiosa figura da novíssima música contemporânea, e não há
dúvida de que há aqui algo de camerístico) com a electropop britânica dos
anos 1980 a segurar o edifício num dos lados e a electrónica pós-rock /
pós-techno alemã dos 90 a sustentar o outro – aliás, Bernd Jestram, dos
Tarwater, chegou a dar uma perninha num projecto anterior de Sanson. Ou
seja, cada incidência de luz é acompanhada pela sombra dos objectos
iluminados. O lado “dark” virá de Berlim, a influência solar foi buscá-la
à música de Manchester que ouvia na juventude. A substância interior,
essa, é gaulesa, com algo também do Quebeque, tanto assim que o disco foi
gravado entre Montreuil e Montreal.
(21-04-2006)
1.
The More I Think The More I Dream

2.
Brand New Scar
3.
Electric Light
4.
Handling With Care

5.
Where You Are
6.
What If
7.
The Top 1 (Laziness And Heartache)

8.
The Top 2
9.
True Light
10.
Heroinogirl
11.
Montreal
12.
Mon Vrai Visage

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas
Thee Silver Mt. Zion Memorial
Orchestra & Tra-La-La Band
«Horses in The Sky»
CD Constellation, €16,50
Os canadianos Silver Mount
Zion nasceram do desejo de Efrim (sem apelido, tal como ele prefere),
o mentor dos épicos Godspeed You! Black Emperor, de também
compor canções e tocar com uma formação
de dimensões reduzidas, mas depressa tal pretensão
se converteu nos actuais Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra
& Tra-La-La Band, com os seus sete elementos (os Godspeed são
nove!), entre os quais a mesma secção de cordas de
arco daquele outro projecto. Pelo caminho ficaram os ideais de simplicidade,
mas se os Godspeed You! Black Emperor são essencialmente
instrumentais, com este grupo e este disco aqui temos Efrim a cantar.
É verdade que a sua voz não é propriamente
a melhor para tal efeito, mas o também guitarrista soube
construir um envolvimento e uma mística tais que a sua reconhecível
falta de vocação como cantor se torna secundária
e até se converte num dos encantos desta proposta que leva
a atitude punk para latitudes em que não se esperaria encontrá-la.
Aliás, é mesmo de suspeitar que ele desafina de propósito.
Parte do disco foi gravada à beira-rio e à volta de
uma fogueira e segue a filosofia existencial de Efrim, "love
thy neighbour", a mesma que os fez serem detidos no lado americano
da fronteira com o Canadá ao abrigo do Patriotic Act apenas
por causa do seu aspecto físico e porque a polícia
americana encontrou nas suas bagagens um disco que tinha um míssil
desenhado na capa (é preciso dizer qual aos apreciadores
da etiqueta Constellation? mostrem lá que sabem...). Este
novo álbum é tão político quanto foram
os anteriores, contendo faixas com nomes como "God Bless Our
Dead Marines", "Teddy Roosevelts' Guns" ou "Ring
Them Bells (Freedom Has Come and Gone)", mas esse investimento
crítico, também como habitualmente, é equilibrado
com outros temas, e designadamente o mais clássico da pop
e da folk (sim, "Horses in the Sky" é, em grande
parte, um disco de folk): o amor.
(18-03-2005)
Thievery Corporation
«The Cosmic Game»
CD ESL Music, €16,50
O projecto da dupla Rob
Garza / Eric Hilton há-de transportar sempre aos ombros a
responsabilidade de ter sido um dos arautos do trip-hop, uma herança
pesada agora que esse subgénero mais "intelectual"
da "club music" parece ter morrido de morte natural. Ainda
assim, mostram que estão a sobreviver-lhe bem com a mistura
entre dub, breakbeat, bossa nova futurista e rock, com as habituais
pinceladas indianas, que é este "The Cosmic Game",
impossível já de confundir com o "chill out"
ou o "downtempo", áreas com que o duo foi bastas
vezes conotado no passado. Assim sendo, o psicadelismo deste novo
disco pode ser tomado de duas formas, ou como a continuação
das preocupações de sempre da Thievery Corporation
num contexto diferente, ou como um passo em frente com a concomitante
abertura para outras realidades, a começar pelas interiores,
e actuais, dos seus próprios membros. A crer no recente interesse
dos dois músicos pela teoria da conspiração,
reflectida nas letras deste álbum, a segunda hipótese
é a mais plausível. A presença reforçada
do guitarrismo rock também nos leva a crer nessa mudança,
a que não são estranhos os convites a David Byrne
(Talking Heads, lembram-se?) e aos Flaming Lips para duas notáveis
participações, em "The Heart's a Lonely Hunter"
e "Marching the Hate Machines (Into the Sun)", respectivamente.
Mas não é só o rock que os influencia nesta
nova fase (Hilton já se confessou um antigo admirador do
punk dos Fugazi); também a música feita com sintetizadores
Moog na década de 1960 é uma memória reavivada.
Há outros convidados: um MC, Sleepy Wonder, dois cantores
reggae, Notch e Sista Pat, um especialista em canções
de protesto, Perry Farrell, e um cantor hindu, Gunjan (num tributo
a Shiva, a deusa da morte e da destruição, acompanhado
por sitar e tablas!). Com tal cenário, já há
quem jure que estamos perante o melhor trabalho de sempre da Thievery
Corporation. Quer confirmar?
(18-03-2005)
(30-03-2007)
1.
First Words

2.
North East Rising Sun

3.
Obscene Strategies
4.
Conspiracy Of The Gods

5.
Exit Management Solution
6.
Climbing Up The Ladder
7.
4738 Regrets
8.
Reprieve
9.
Tesco Vs Sainsbury's

10.
Shining Path
11.
Triangular Pyramid

Clique
aqui para escutar
excertos de todos os temas

Treva Whateva
«Music’s Made of Memories»
CD/3LP Ninja Tune,
€ 18,50/€ 19,95
Autêntico compêndio
dos estilos da música de dança em vigor, em “Music’s Made of Memories”
(podia ser o título de um CD de DJ Spooky, o grande teórico da citação
musical como exercício da memória), hip-hop, drum & bass, downtempo,
house, funk, soul, nu-jazz e disco vão-se sucedendo no trabalho
de DJing e “sampling” desenvolvido pelo inglês Treva Whateva. Não
só este procede a uma colagem destas tendências da motricidade humana
nas noites metropolitanas, como tudo o que conjuga provém de discos
dos mestres desses domínios. Hip-hop, apontámos atrás, mas um hip-hop
“loja de porcelana” tal como seria feito por um hipópotamo, tais
os estragos, no bom sentido, que Treva faz questão de semear por
onde passa. Este é o mesmo Treva Whateva que muito contribui para
a organização da série de compilações da Fat City com a designação
“Mystic Brew” e que tem colaborado com Mr. Scruff, mas o presente
álbum, não obstante a maturidade revelada, é a sua estreia no formato
longa duração. Descrever o que aqui ouvimos não é fácil, mas se
dissermos que se trata de uma espécie de Kruder and Dorfmeister
em versão “garage” e que o propulsor destes “beats” parece sofrer
de uma doença universalmente conhecida como Attention Deficit Disorder
os leitores poderão fazer uma ideia do que vão encontrar: inquietação
espiritual ao serviço da agitação dos corpos.
(17-11-2005)
1.
Welcome (Skit)

2.
Bouncing Bomb 
3.
Driving Reign 
4.
Are You Ready? (Skit) 
5.
Singalong 
6.
Havana Ball 
7.
Breakfast Of Champions (Skit) 
8.
Dedicated VIP 
9.
Carpe Diem 
10.
Music’s Made Of Memories 
11.
Dustbowl 
12.
We Have The Technology (Foolproof Revox) 
13.
That’s About It! (Skit) 
14.
Dangerous Disco (The Director’s Cut)

Troy
Von Balthazar
«Troy Von Balthazar»
CD Green Ufos, € 16,50

1.
TVB Has Fingers
 2.
Took Some $$
 3.
Magnified
 4.
I Block the Sunlight Out

5.
Dogs
 6.
Numbers
 7.
Real Strong Love
 8.
Bad Controller
 9.
Perfect
 10.
Old Black Joe
 11.
The Color Comes
 12.
You, When You're Drunk
 13.
Rainbow
 14.
Cover Us
 15.
Playground
 16.
Heroic Little Sisters

+ video by Darren Ankenman on CD-Rom track
Clique
aqui
para escutar excertos de todos os temas
1.
I See You Baby

2.
Nation Time

3.
Our Prayer

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas

Two
Bands and a Legend
«Two Bands and a Legend»
CD
Smalltown Superjazzz, € 16,50

Há dois anos já havíamos ficado impressionados
com a força e poder do mini-álbum "Sounds Like a Sandwich" da Cato Salsa
Experience and The Thing with Joe McPhee, nomeadamente na genial versão de "Whole
Lotta Love" dos Led Zeppelin. Agora a formação regressa, com outro nome - Two
Bands and a Legend -, mas com o mesmo núcleo de participantes, e uma mais forte
prestação de clássicos. De PJ Harvey aos Sonics, passando por originais de James
Blood Ulmer ou dos The Cramps, "Two Bands and a Legend" é o regresso deste
projecto supremo, onde o jazz se funde com o rock numa fantástica e extremamente
original amálgama de sons de instrumentos de sopro, guitarras, baterias, mas não
vozes. É realmente incrível como o grupo consegue substituir eficazmente a voz
pelo trompete, saxofone ou contrabaixo. A ouvir com precaução, mas muita
atenção.
(13-04-2007)
1.
Buckets of Hen's Feathers

2.
I Want It All
3.
Her Doorbell
4.
Clouds in the Head

5.
Outro
Clique
aqui para escutar
excertos de todos os temas
 
Virna Lindt
«Shiver»
«Play/Record»
CD's
LTM, € 15,95 cada

Editado pela Compact Organisation em 1983, "Shiver" foi o álbum de
estreia da sofisticada diva pop sueca Virna Lindt. Escrito e
produzido pela própria acompanhada de Tot Taylor, este aclamado
álbum oferece 13 temas de influência pop chique, música concreta e
de bandas sonoras de filmes de espionagem dos anos 60, incluindo os
singles "Attention Stockholm" e "I Experienced Love". Remasterizado
digitalmente a partir das fitas originais, soa bem mais imaculado do
que antes. "Shiver" inclui ainda 3 temas bónus, incluindo a versão
de "Windmills of Your Mind", original de Michel Legrand para a banda
sonora de "Thomas Brown Affair".
"Play/Record" foi o segundo disco de Virna Lindt, editado em 1985. O
conteúdo permanece similar ao álbum de estreia, talvez com uma maior
diversidade instrumental, mas desta vez, devido a ter sido gravado
em Londres, reflecte mais outros temas mundanos, como o caso de uma
rapariga que odeia o vermelho, os efeitos dos media nas pessoas, e
outras caracterísisticas da sua nova vida naquela cidade.
Remasterizado por Tot Taylor, "Play/Record" continua com um som
imaculado e límpido, onde a voz de Virna marca presença e fortalece
toda a estrutura.
Logo após a edição deste segundo disco Virna Lindt deixou a música
para sempre, deixando o mundo mais pobre...
(21-12-2007)
"Shiver":
1.
Add It Up

2.
Whistle Wind

3.
My Hometown

4.
Burn

5.
Crack-Up

6.
Festivo

7.
Under the Stars

8.
Wild Strawberries

9.
Any Colour But Red

10.
Whistle Wind (Reprise)

11.
Play/Record

12.
My Favourite Ring

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas
"Play/Record":
1.
Attention Stockholm

2.
Shiver

3.
Pillow Talk

4.
Swedish Modern

5.
I Beat the System

6.
Dossier on Virna Lindt

7.
Episode One

8.
Intelligence

9.
Underwater Boy

10.
Letter to Sergei

11.
Windmills of Your Mind

12.
Groom

13.
I Experienced Love

Clique
aqui para escutar excertos de todos os temas

Vladislav
Delay
«The Four Quarters»
CD Huume Recordings, € 15,95

Batidas house e misturas
dub num contexto essencialmente ambiental, o que encontramos no
último trabalho a solo do finlandês Vladislav Delay é uma desconstrução
da própria linguagem que vem caracterizando a produção deste músico
nas margens do techno. “The Four Quarters” tem mesmo algo de clínico
que nos remete para a linha “click and cut” da electrónica experimental
mais extremista que chegou a influenciar a linha condutora da Chain
Reaction, etiqueta pela qual já passou. Curioso é o facto de Delay
ter sabido conciliar a crueza e a depuração destas construções próximas
do esquelético com a enorme capacidade evocativa obrigada pelo propósito
de criar paisagens sonoras. As peças evoluem muito lentamente, por
vezes parecendo mesmo em “slow motion”, mas a polirritmia é o seu
sustentáculo, e não de forma menos taquicárdica do que lhe é habitual.
Dividido em quatro movimentos por volta dos 15 minutos cada, como
numa composição clássica, o álbum tem a particularidade de colocar
o seu ouvinte num estado de dormência alerta – induz o sono e o
sonho, mas não permite que a consciência se desligue. Como não podia
deixar de ser, o “drone” é uma recorrência das suas estratégias,
mas esse continuum sonoro é fornecido pela estática. Esta tem mesmo
predominância sobre tudo o mais, numa perspectiva “loose” e suave
da “noise music”.
(13-01-2006)
1. First Quarter
2. Second Quarter
3. Third Quarter
4. Fourth Quarter

Volcano
the Bear
«Catonapotato»
CD Digitalis Industries/Broken Face Recordings,
€ 14,50

Reduzidos a dois, Aaron
Moore e Nick Mott, devido à opção pelos estudos e por empregos “normais”
por parte dos restantes elementos, os Volcano the Bear estão de
regresso ao disco com uma colecção de registos ao vivo feitos entre
Fevereiro e Junho de 2004, editada pela etiqueta (Digitalis Industries)
do saxofonista Mats Gustafsson, em colaboração com a Broken Face.
Mais despida, a música do grupo de Leicester, na Inglaterra, continua,
no entanto, as coordenadas que sempre o têm norteado desde 1995:
um rock surrealista marcado pelo free jazz, o free folk, o minimalismo
e a electrónica, grandemente improvisado e com uma razoável dose
de experimentação sonora que passa pelo multi-instrumentalismo.
Cujo, entenda-se, não lhes serve para quaisquer demonstrações de
virtuosismo: a atitude é precisamente a inversa, inclusive ao nível
da reinvenção dos modos de uso da parafernália que têm ao seu alcance,
pelo simples motivo de que não dominam, nem sentem necessidade disso,
a maior parte dos instrumentos utilizados. “Catonapotato” continua
a dar indícios da influência dos Faust e dos This Heat, para não
mencionar as dos Residents originais e até dos Sun City Girls, mas
está hoje claro que têm uma voz própria entre formações irmãs como
os Jackie-O Motherfucker, a Vibracathedral Orchestra, os Sunburned
Hand of the Man ou os Black Dice. E eis que são ritmos tribais o
que volta e meia ouvimos, algo que ninguém se atrevia a fazer desde
o definhamento do industrialismo rock, aqui ganhando uma nova justificação.
Afinal, não foi só na década de 1960 que uns quantos visionários
resolveram “jogar” com formas abertas. Nos anos 00 também há quem
o faça com igual brilhantismo e sentido de oportunidade.
(14-10-2005)
1. Gabriel
2. A Universal History
of Infamy
3. Lovely Shepherd
4. Puppy Grill
5. My Favourite Tongues
6. Ong Pate
7. Sharp as The Queen's
Teeth
8. The God's
Are Massiven

VVV
(Vega, Vainio, Väisänen)
«Resurrection River»
CD Mego, € 17,50
Os três V que identificam
o trio responsável por este “Resurrection River” são os dos apelidos
de Alan Vega, Mika Vainio e Ilpo Väisänen.
Para quem ainda não sabe – haverá quem? –, o primeiro é metade dos
lendários Suicide e os dois últimos constituem o projecto Pan Sonic.
A estreia desta formação que combina o punkabilly electrónico que
Vega e Martin Rev “inventaram” na década de 70 com a presente techno
experimental made in Escandinávia aconteceu em 1998 e chamou-se
“Endless”. Esta nova incursão pelo mundo do disco não se distancia
muito do que aí propuseram, a não ser, talvez, em termos de aprimoramento
desta parceria que não é tão estranha quanto seria de pensar. Que
músicos electrónicos da actualidade não têm os Suicide como referência,
ao lado dos Kraftwerk e dos Coil? Todo o CD volta a abrir-nos as
bocas de espanto, e se a faixa que lhe dá título, logo a inicial,
tem um enlevo pop que só as estações de rádio mais obtusas – as
portuguesas, por exemplo – colocarão fora das suas playlists, o
mais incrível que aqui ouvimos é “It Was Her Eyes”, com Jimi Tenor
como convidado especial no órgão. Vega transfigura-se, tal como
nos tempos áureos, e quase não seria necessário o beat encadeado
pelos finlandeses que lhe proporcionam este regresso em grande para
sentirmos a taquicardia rítmica das suas vocalizações. Esta é uma
voz-máquina, fria e implacável, vinda dos confins de um inferno
em que as chamas são feitas de gelo (Resurrection, convém assinalá-lo,
é o nome de um rio do Alasca cujas águas provêm dos glaciares).
Dir-se-ia que os demónios do autor das letras de “Ghost Rider” são
lunares, ao contrário dos nossos, que irrompem das profundezas da
Terra e nos abrasam. A analogia justifica-se com o facto de este
trabalho ter temática religiosa – a cover art, aliás, presenteia-nos
com a típica iconografia do catolicismo espanhol (resultado da recente
mudança dos Pan Sonic para Barcelona, onde agora residem?). O mais
maldito dos vocalistas do rock, a par, está claro, de Iggy Pop,
canta os pregos de Cristo no mesmo verso em que alude aos carros
de corrida de James Dean e alude a um crucifixo negro quenão parece
ser muito cristão. Mais uma vez, Alan Vega surge como o alter-ego
de Elvis Presley e a má consciência do rock and roll.
(26-08-2005)
1.
Resurrection River 
2.
I Got Wheels, I Got Nails 
3. Desperate Nation
4. So Tired
5. It Was Her Eyes
6.
11:52 PM 
7. Job Blue
8.
Sellin‘ My Monkeys 
9. Chrome Z-Fighters 2003
10. Black Crucifix
11. Life
12. It‘s Violence

The
Walkabouts
«Acetylene»
CD Glitterhouse Records, € 15,95

A gravação
de "Acetylene" encontrou os Walkabouts em pleno período
eleitoral que acabou por dar a vitória, pela segunda vez,
a George W. Bush. Daí que as canções incluídas
soem como "wake-up calls" e denotem alguma raiva e muita
frustração. E daí também que o seu rock
de guitarras seja bem mais vibrante do que era costume, como se
Neil Young tivesse aparecido na sala de ensaios dos Wire, para utilizar
uma imagem de Chris Eckman. "Procurámos manter as coisas
cruas, barulhentas e imediatas. Soluções calmas e
poéticas pareciam-nos uma resposta inadequada ao que estávamos
a sentir", explicou o vocalista, guitarrista e autor das letras
do grupo. A diferente atitude veio dar nova vida a esta formação
nascida em 1984, após 15 álbuns a tentar fugir ao
óbvio e ao redundante. O ponto de partida continua a ser
o country-blues-rock, mas nunca como neste título estiveram
tão próximos de uma atitude que se diria punk, nas
imediações de uns Wilco, uns Screaming Trees ou uns
Giant Sand. Ainda alheia, no entanto, ao fenómeno grunge,
apesar do berço comum, Seattle, e de terem pertencido à
mesma editora dos Nirvana, a Sub Pop. A primeira faixa do álbum
("Fuck Your Fear"), gravada a 11 de Setembro de 2004,
dia em que se assinalou mais um ano após o ataque
terrorista a Nova Iorque, anuncia o que se segue da melhor forma.
Muito longe estão eles, de facto, do austero "Setting
the Woods on Fire" (1994), de "Devil's Road", que
contou com a contribuição de uma orquestra sinfónica
(1996) e de "Trail of Stars" (1999), onde encontramos
alguma electrónica.
(23-09-2005)
1. Fuck
Your Fear 
2. Coming Up For Air
3. Devil
In The Details 
4. Whisper
5. Kalashnikov

6. Have You Ever Seen
7. Northsea Train
8. Acetylene
9. Before The City Wakes
10. Last Ones
|